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domingo, 26 de junho de 2016

Papa desafia Turquia e lembra genocídio na Armênia

Papa Francisco e o presidente turco Recep Tayyp Erdogan, uma relação pra lá de delicada.

A mera menção à expressão "genocídio armênio" continua sendo fonte de dores de cabeça para o papa em sua relação com a Turquia.

A matéria é da Agência Brasil:

Papa usa a palavra genocídio em discurso no Palácio Presidencial da Armênia

Em seu primeiro dia de viagem à Armênia, o papa Francisco não se intimidou em usar a palavra "genocídio" para se referir ao extermínio de 1,5 milhão de armênios pelo Império Otomano há um século, mesmo sabendo que o vocábulo poderia desencadear um mal-estar diplomático com a Turquia, como já ocorreu no ano passado.

A Santa Sé não previa o termo "genocídio" nos discursos de Francisco, porém o líder católico não quis renunciar à palavra e a disse, em alto e bom som, na capital Erevan, dentro do Palácio Presidencial e diante das autoridades armênias, inclusive do presidente armênio Serzh Sargsyan.

Relembrando um encontro que teve com Sargsyan no dia 12 de abril de 2015, na Basílica Vaticana, o papa disse hoje (24) que, "naquela ocasião, se fez a memória do centenário de Metz Yeghern, o 'Grande Mal' que atingiu este povo e causou a morte de milhares de pessoas". "Aquela tragédia, aquele genocídio, abriu um triste elenco de imagens catastróficas do século passado, tornadas possíveis por motivações racionais, ideológicas ou religiosas aberrantes", disse Francisco, fazendo uma pausa e acrescentando a palavra "genocídio" à fala. O discurso foi proferido no Palácio Presidencial, em uma cerimônia com as autoridades locais e o corpo diplomático, seu primeiro compromisso da viagem de três dias que faz à Armênia.

A declaração do líder católico deve provocar novas críticas do governo turno, que recentemente convocou o embaixador na Alemanha após Berlim aprovar uma resolução sobre o genocídio armênio.

"Tendo diante dos nossos olhos os nefastos episódios conduzidos no século passado pelo ódio, preconceito e desenfreado desejo de domínio, espero vivamente que a humanidade saiba tirar destas trágicas experiências o ensinamento para agir com responsabilidade e sabedoria para prevenir os perigos de cair novamente em tais horrores", disse o papa. "É preciso multiplicar os esforços para que sempre prevaleça o diálogo nas desavenças internacionais e a constante e genuína busca pela paz, assim como a colaboração entre os Estados e o assíduo empenho dos organismos internacionais para que seja construído um clima de confiança propício a alcançar acordos duradouros".

Em suas primeiras horas na Armênia, Francisco também condenou as divisões e guerras atuais. "O mundo está muito marcado por divisões e conflitos, assim como por graves formas de pobreza material e espiritual, entre eles a exploração de pessoas, de crianças, de idosos".

Serzh Sargsyan, por sua vez, ressaltou que, em breve, a Armênia completará 25 anos de independência da União Soviética e que "muitas coisas importantes aconteceram nesse período, entre eles a visita de João Paulo II", ocorrida em 2001.

Primeiro país cristão

Francisco visita a Armênia a convite do patriarca Karekin II e autoridades políticas do país. A Armênia é considerada “o primeiro país cristão”, pois o rei Tiridates III proclamou o Cristianismo como religião de Estado em 301, ainda antes do Império Romano, sob o impulso de São Gregório, o Iluminador. O rito armênio é um dos mais antigos do cristianismo do Oriente, com origens que remontam à época apostólica com Tadeus e Bartolomeu – considerados os Apóstolos do país.

Esta é a segunda visita de um papa ao país. João Paulo II esteve na Armênia em 2001.



terça-feira, 28 de abril de 2015

A difícil reconciliação entre turcos e armênios

No último dia 24 de abril, publicamos aqui um artigo sobre o centenário do genocídio armênio. O jornal britânico The Independent trouxe naquele dia, também, um excelente artigo de Robert Fisk que traça um panorama histórico detalhado do conflito e aponta a estreita porta que ainda pode ser aberta para uma reconciliação entre turcos e armênios.

O artigo foi traduzido e publicado no Carta Maior:

Genocídio Armênio: Os perigos da negação

Me lembro de uma senhora armênia descrevendo como militares turcos ateavam fogo a pilhas de bebês vivos. Até quando a Turquia negará o genocídio?

Às sete da noite desta sexta-feira, um grupo de homens e mulheres muito valentes se reuniu na Praça Taksim, no centro de Istambul, para organizar uma comemoração sem precedentes, e ademais comovedora. Homens e mulheres, turcos e armênios, se reuniram para recordar os mais de 1,5 milhão de cristãos armênios, homens, mulheres e crianças, assassinados pelos turcos otomanos no genocídio de 1915. Esse Holocausto armênio – o precursor direto do Holocausto judeu – começou há cem anos atrás, a poucos metros dessa mesma Praça Taksim, quando o governo da época sequestrou centenas de intelectuais e escritores armênios de suas casas e os preparou para a morte e a aniquilação de seu povo.

O Papa também irritou os turcos otomanos, ao classificar este – o mais terrível massacre da Primeira Guerra Mundial – como um ato de maldade, e um genocídio, por que isso era: uma deliberada e planejada operação para erradicar uma etnia. O governo turco – mas, graças a Deus, não todos os turcos – se mantiveram negando esse capítulo da história através dos tempos, de forma petulante e infantil, baseados na versão de que os armênios não foram mortos segundo um plano (a antiga desculpa de que “havia caos devido à guerra e não se podia ter controle sobre as consequências”), e que a palavra “genocídio” foi concebida somente depois da Segunda Guerra Mundial, e que aplicá-la sobre um caso anterior seria inadequado. Seguindo essa lógica, a Primeira Guerra Mundial não deveria ser a Primeira Guerra Mundial, já que não foi chamada de “Primeira Guerra Mundial” naquele momento.

Dois pensamentos vêm à mente, então, neste centenário da carnificina, da violação massiva e dos assassinatos de crianças em 1915. O primeiro é que, para um poderoso governo, de uma forte – e valente – nação europeia e da OTAN, como é a Turquia, continuar negando a verdade desta massiva crueldade humana significa que vale a pena insistir numa mentira criminosa. Contudo, mais de 100 mil turcos descobriram que têm avós armênias, ou bisavós – as mesmas mulheres sequestradas, escravizadas e estupradas nas marchas da morte, que partiram de Anatólia até o deserto da Síria – e os próprios historiadores turcos (desgraçadamente, não em quantidade suficiente) agora apresentam as provas documentadas detalhada das sinistras ordens de extermínio emitidas por Talat Pasha desde a capital antes conhecida como Constantinopla.

Entretanto, qualquer um que se oponha à negação do genocídio por parte do governo termina sendo vilipendiado. Durante quase um quarto de século, venho recebendo cartas de turcos sobre minhas opiniões a respeito do genocídio. Comecei em 1992, cavando com minhas próprias mãos os ossos e crânios de armênios massacrados fora do deserto da Síria. Alguns poucos correspondentes queriam expressar seu apoio. A maioria das cartas eram quase malignas. E temo que a contínua negação do governo turco poderia ser tão perigosa para a Turquia, como é a indignação dos descendentes armênios das vítimas. Me lembro de uma senhora armênia, bastante velha, descrevendo para mim como ela viu os militares turcos fazendo pilhas de bebês vivos para depois atear fogo sobre eles, e que os gritos que se escutavam depois eram como o som de suas almas indo ao céu. Não é exatamente isso – além da escravidão das mulheres – o que o Estado Islâmico (EI) está cometendo hoje contra seus inimigos étnicos, exatamente do outro lado da fronteira turca? A negação está cheia de perigos.

E nos podemos perguntar o que aconteceria se o atual governo alemão afirmasse que qualquer demanda para reconhecer os “eventos” de 1939-1945 – nos quais seis milhões de judeus foram assassinados – como um genocídio se tratava somente de “propaganda judia” e “mutilação da história e da lei”. Porém, isso é mais ou menos o que o governo turco disse na semana passada, quando a União Europeia pediu que o país reconhecesse o genocídio armênio. Para o Ministério de Relações Exteriores turco, a UE havia sucumbido à “propaganda armênia” sobre os “eventos” de 1915, e acabou “mutilando a história e a lei”. Se a Alemanha houvesse adotado tais imperdoáveis palavras sobre o Holocausto judeu, seriam tantos gases saindo dos escapamentos dos veículos diplomáticos em Berlim que não permitiria que as autoridades do país pudessem ver a debandada dos embaixadores de todos os países do mundo.

Porém, a pequena e valente comemoração desta sexta-feira na Praça Taksim é um sinal para a grande parte do mundo ocidental que se reunirá com os líderes turcos a poucos quilômetros de Istambul para honrar os mortos de Gallipoli, a extraordinária e brilhante vitória de Mustafá Kemal sobre os aliados, em 1915, na Primeira Guerra Mundial. Quantos deles recordarão que, entre os heróis turcos lutando pela Turquia em Gallipoli, havia um certo capitão armênio, Torossian, cuja própria irmã seria uma das vítimas do genocídio?

Minha intenção era a de informar sobre a comemoração em Taksim em companhia de amigos turcos. Mas o segundo pensamento que me vem à mente –e os amigos armênios que me perdoem – é que não estou muito interessado no que os armênios dizem e fazem neste centésimo aniversário. Quero saber o que pensam em fazer no dia seguinte ao do centésimo aniversário. Os sobreviventes armênios – os que puderam recordar – já estão todos mortos. Em 30 anos mais, os judeus de todo o mundo vão a encarar essa mesma profunda tristeza, quando seus últimos sobreviventes desapareçam do mundo, junto com seus testemunhos. Mas os mortos podem continuar vivendo, sobretudo quando seu estado de vítima é negado – uma maldição que os obriga a morrer uma e outra vez. Minha sugestão é que os armênios deveriam, agora, elaborar uma lista dos valentes turcos que salvaram suas vidas durante a perseguição de seu povo. Há pelo menos um governador de província, e alguns soldados e policiais turcos, que arriscaram suas próprias vidas para salvar os armênios naquele momento horrível da história turca. Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro triunfalista da Turquia, falou de sua dor pelo que aconteceu com os armênios, sem deixar de negar o genocídio. Se atreveria a negar o respaldo a um livro de homenagem às vítimas do genocídio armênio que trouxesse também uma lista dos valentes turcos que tentaram salvar a honra de sua nação em sua hora mais obscura?

Venho insistindo há anos sobre essa ideia com meus amigos armênios. Propus também aos armênios da comunidade em Detroit, na semana passada. Honrar os bons turcos. Infelizmente, todos aplaudem, mas não dizem nada.

* Jornalista e escritor britânico com sede em Beirute, premiado várias vezes por seu trabalho sobre o Oriente Médio. É um dos poucos repórteres ocidentais que fala árabe fluentemente. The Independent do Reino Unido. Especial para Página/12 da Argentina, 23.04.15.



sexta-feira, 24 de abril de 2015

100 anos depois do genocídio armênio

O Império Otomano foi a potência muçulmana que dominou por muitos séculos boa parte do Oriente Médio, da África do Norte, da Ásia Menor e do Leste Europeu.

Era contra os otomanos que as Cruzadas se batiam naquilo que chamavam de libertação de Jerusalém dos não-cristãos, entre os séculos XI e XIII.

Responsáveis pela queda de Constantinopla em 1453, os otomanos conquistaram o antigo (e cristão) Império Bizantino e faltou pouco para que islamizassem todo o continente europeu, cujos reinos cristãos se uniram e venceram a batalha de Lepanto em 1571, o que impediu a expansão islâmica para o Ocidente.

No início do século XX, o Império Otomano havia perdido muito de sua antiga glória e poder, mas mesmo assim era fundamental no jogo geopolítico da época, pois ainda dominava vastas regiões do Oriente Médio e Ásia Menor.

Entre essas regiões estava a Armênia, a primeira nação que se declarou oficialmente cristã (dentro do que se podia entender como "religião oficial" na época) no ano de 301 d. C.

Encravados que estavam entre russos e otomanos, a identidade armênia foi forjada na fricção entre as duas potências e construída, em enorme parte, com seus fundamentos cristãos, o que não impediu que boa parte do seu território fosse tomado pelo Império islâmico no século XVI.

A convivência entre cristãos e muçulmanos nunca foi fácil, até que - no início da Primeira Guerra Mundial - os armênios se aliaram aos russos para combater o Império Otomano, que havia entrado no conflito ao lado da Alemanha e do Império Austro-Húngaro.

Na noite de 24 de abril de 1915, um domingo, o governo otomano prendeu e executou cerca de 600 líderes e intelectuais armênios, e por isso esta data é considerada como o marco inicial daquilo que ficou conhecido como o "genocídio armênio".

Embora as estatísticas continuem polêmicas, estima-se que, nos dois anos que se seguiram, cerca de 1.500.000 de armênios foram assassinados das mais diferentes maneiras, por cremação, afogamento, crucificação, fome, gás tóxico, e outras modalidades de crueldade que ficaram mais conhecidas na Segunda Guerra Mundial.

O Império Otomano estava no meio de uma guerra que ia lhe custar a própria sobrevivência como país. No dia seguinte (25 de abril de 1915) começaria a invasão britânico-francesa da península turca de Gallipoli, na qual morreriam - inútil e estupidamente - 500.000 soldados dos dois lados.

Insuflada pelo desejo armênio de independência e pelo ódio religioso, a reação otomana perpetraria em proporções assustadoras o primeiro genocídio do século XX.


Oficial turco provocando crianças armênias famintas,
fingindo oferecer-lhes pão.

A derrota no fim da Primeira Guerra marcou a ruína do Império Otomano, cuja maior parte do território foi assumida pelo país que hoje conhecemos como Turquia.

Os armênios não tiveram paz, entretanto. Após novo conflito com a nascente nação turca, que lhe abocanhou boa parte do território, a Armênia foi incorporada à União Soviética em 1922, como uma das 15 Repúblicas Socialistas que formaram a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

País que tem o Monte Ararate como símbolo nacional, o que nunca faltou na história da Armênia foram dilúvios de toda espécie, afinal.

Os turcos jamais aceitaram que se usasse a palavra "genocídio" para descrever o massacre dos armênios. Sua principal defesa é a de que se tratava de um período de guerra no qual a barbárie e a traição corriam soltas.

Embora muitos países, como o Brasil, evitem o uso dessa palavra para evitar melindres diplomáticos com a Turquia, o fato é que a maior parte da comunidade internacional e quase a totalidade dos historiadores não-turcos concordam que o holocausto que começou naquela noite de 2015 configura um genocídio.

Apenas 10 países reconhecem oficialmente o genocídio armênio: Argentina, Bélgica, Chile, Chipre, França, Canadá, Alemanha, Grécia, Itália e Lituânia. 

Como você percebeu, também Israel e Estados Unidos dão às costas ao nome "genocídio" para manter boas relações com os turcos.

Alguns dias atrás, inclusive, o papa Francisco foi severamente criticado pelo governo turco por ter utilizado o termo "genocídio" em missa concelebrada com o patriarca Karekin II, da Igreja Ortodoxa Armênia.

O pontífice romano foi incisivo em sua fala: "Não podemos nos silenciar sobre o que vimos e ouvimos".

Curiosamente, apesar do centenário que hoje tristemente se relembra, esta declaração papal foi vista como inoportuna, pois enfraquece politicamente a Turquia num momento difícil em que o seu maior inimigo é o Estado Islâmico que lhe ameaça as fronteiras com a Síria e o Iraque.

De qualquer maneira, o genocídio armênio precisa ser relembrado para que, a exemplo de tantos outros massacres que maculam a história da humanidade, jamais seja repetido.

Este risco, infelizmente, está sempre batendo à porta de um planeta ainda contaminado pelo fanatismo e pela barbárie. O horror, ah, o horror...


Mosteiro de Khor-Virap, na fronteira com a Turquia tendo o Monte Ararate ao fundo.
Desde 642 d. C., é testemunha da história da Armênia, sempre esperando dias melhores.



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