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domingo, 22 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 22


ENCARNAÇÃO E TRINDADE

E eu rogarei ao Pai. [João 14.16a]

“Portanto, se guardarem meus mandamentos, viverem juntos em harmonia e fraternidade, mostrando assim que me amam, então, devem resignar-se com o fato de o diabo os importunar. O mundo mostrará sua hostilidade e os afligirá e atormentará sem fim. Ademais, os falsos cristãos e as facções retribuirão o amor de vocês com todo tipo de maldade. Não permitam que isso os intimide, mas perseverem e permaneçam em meu amor. Vocês não passarão necessidade e não serão abandonados, pois não ficarei sentado, ocioso, lá em cima, no céu, e esquecerei vocês. Nada farei além de ser seu amado sacerdote e mediador; orarei e suplicarei por vocês ao Pai para que ele lhes dê o Espírito Santo, que os consolará, fortalecerá e preservará em todas as necessidades, para que vocês permaneçam em meu amor e possam suportar alegremente tudo que lhes acontecer por minha causa”.

Mas, como é possível reconciliar as palavras “Eu rogarei ao Pai” com aquelas ditas acima, de que “o que pedirdes em meu nome isso Eu farei”? Ali, Cristo mostra que é verdadeiro Deus e que ele mesmo quer conceder o que lhe pedirem. Aqui, porém, ele diz que rogará ao Pai para que este lhes mande um Consolador. Como se pode afirmar do verdadeiro Deus que ele pedirá algo de alguém outro? Pois, certamente, não é próprio de Deus estar sujeito a alguém outro e ser obrigado a receber algo dele. Não, Deus, mesmo é capaz de dar e fazer todas as coisas.

Por isso, quando a esperta razão e as mentes sagazes escutam tais palavras de Cristo, imediatamente exclamam: “Oh, essas não são palavras de Deus, mas de um simples ser humano. Pois se ele fosse Deus, teria de dizer: ‘Eu lhes mandarei o Consolador’”. Dessa maneira, querem mandar o Espírito Santo para a escola; bancam os espertos com sua gramática e sua lógica e nos ensinam que a palavra “rogar” não é própria de Deus e que, por conseguinte, Cristo não pode ser Deus. Então, ampliam e enfatizam isso com sua retórica, fazendo com que o Espírito Santo pareça uma criança, sim, um imbecil, que não sabe como falar. Independentemente do que o Espírito Santo faz e diz, deve estar errado. Portanto, criticam e sabem tudo melhor. Mas não são suficientemente piedosos para juntar os dois versículos, arrancando uma parte do contexto aqui e outra ali, e onde encontram uma palavra ou duas, lançam-se sobre elas e enganam as pessoas para que não vejam o que mais a Escritura tem a dizer sobre isso. Sim, se é válido tomar uma palavra ou duas de um contexto todo e ignorar o que vem antes e depois ou o que a Escritura afirma alhures, então, eu também poderia interpretar e torcer toda a Escritura e qualquer discurso da maneira como me aprouvesse.

Mas a regra é esta: olha o texto todo, inclusive as palavras que o precedem e as que o seguem. Então constatarás que Cristo fala tanto como Deus quanto como ser humano; com isso, evidenciar-se-á, poderosamente, como ensinamos e cremos, que Cristo é verdadeiro homem e, também, verdadeiro Deus. Pois, como se pode expressar em quaisquer palavras que ele fala como Deus e como homem ao mesmo tempo, visto que tem duas naturezas distintas? Se ele sempre falasse como Deus, não se poderia provar que ele [também] é verdadeiro homem. E se ele falasse sempre como homem, não se perceberia que ele também é verdadeiro Deus.

Por isso, Cristo precisa alternar, usando, às vezes, palavras que refletem sua natureza divina e, outras vezes, empregando aquelas que são próprias à sua natureza humana. Contudo, é a mesma pessoa que fala, às vezes, como se fosse tão-somente Deus e, outras vezes, como se fosse apenas ser humano. Pois, se Cristo é tanto Deus quanto ser humano em uma só pessoa, por que não deveria dizer também isso e aquilo de si mesmo sem fazer uma distinção? Mas, aqui, ele emprega ambas as maneiras de falar em rápida sucessão em um único sermão. Porque a mesma pessoa que disse há pouco “o que pedirdes em meu nome isso eu farei”, também declara aqui: “E eu rogarei ao Pai”. Isso acontece visando a tornar certo e claro este artigo: que, nessa pessoa, Cristo, não há somente divindade nem somente humanidade, mas que ambas, tanto a natureza divina quanto a humana, encontram-se indivisas em uma só pessoa.

Pois dissemos suficientemente que, na essência divina de Cristo e do Pai, há duas pessoas distintas. Por isso, quando falamos de Cristo, aqui, também é preciso ensinar claramente que ele é uma pessoa, mas que há duas naturezas distintas, a divina e a humana. De novo, exatamente como lá, a natureza ou a essência divina permanece não-misturada no Pai e em Cristo, assim, aqui, a pessoa de Cristo permanece indivisa. Por isso, os atributos de cada natureza, a humana e a divina, são atribuídos a toda a pessoa, e dissemos de Cristo: “O homem Cristo, nascido da virgem Maria, é onipotente e faz tudo que pedimos – não, contudo, de acordo com a natureza humana, mas de acordo com a natureza divina, não por causa de seu nascimento de sua mãe, mas, porque ele é o Filho de Deus”. E, mais, “Cristo, o Filho de Deus, roga ao Pai, não de acordo com sua natureza ou essência divina, segundo a qual ele é igual ao Pai, mas porque ele é verdadeiro homem e filho de Maria”. Portanto, é necessário juntar as palavras e compará-las de acordo com a unidade da pessoa. As naturezas sempre devem ser diferenciadas, mas a pessoa deve permanecer indivisa.

Assim como se crê nele como sendo uma pessoa, Deus e homem, também nos convém falar dele como o requer cada natureza. Algumas palavras indicam sua natureza humana; outras, sua natureza divina. Por isso, deve-se considerar o que Cristo diz de acordo com sua natureza humana e o que ele diz de acordo com sua natureza divina. Pois, onde isso não é observado e apropriadamente diferenciado, segue-se necessariamente todo tipo de heresia, como aconteceu em tempos passados, quando algumas pessoas afirmaram que Cristo não era verdadeiro Deus, e outras asseveraram que ele não era verdadeiro homem. Pois elas não foram capazes de seguir o princípio de diferenciar entre os dois tipos de discurso com base nas duas naturezas.

Pois Cristo falou, muitas vezes, como o homem mais humilde da terra quase não deveria falar. Por exemplo, quando ele diz: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” [Mt 20.28]. Com essas palavras, ele se torna completamente servo entre todos os seres humanos, embora seja verdadeiro Deus e Senhor sobre todas as criaturas, ao qual todos devem servir e adorar. Igualmente, Salmo 41[.4], ele faz de si um pecador e afirma que está sendo punido por causa do pecado. Isso, naturalmente, está fora de cogitação segundo a natureza divina. Por outro lado, ele, frequentemente, emprega o discurso da majestade enaltecida, que nenhum anjo ou criatura deveria usar, embora estivesse na forma e figura mais humilde enquanto vivia neste mundo, como, por exemplo, Jo 6[.62]: “Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?”

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 139-142)

(este comentário de Lutero sobre João 14:16a 
continua no excerto ao qual se chega clicando aqui)



sábado, 21 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 21


ENCARNAÇÃO: A REDENÇÃO

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Ademais, como os anjos no céu o adoram e o chamam de seu Senhor, enquanto jaz na manjedoura, e dizem aos pastores, Lc 2[.11]: “Eis que vos nasceu o Salvador, Cristo, o Senhor”, etc., ele deve ser verdadeiro /Deus. Pois os anjos não adoram mera carne ou natureza humana. Por isso, deve haver tanto Deus quanto ser humano, lado a lado, nessa pessoa. E, ao falar de Cristo, fala-se de uma pessoa indivisa, que é Deus assim como homem. Aquele que vê, ouve ou encontra Cristo com a fé do coração, certamente não encontra apenas o homem, mas, também, o verdadeiro Deus. Assim, não deixamos Deus sentado ocioso no céu entre os anjos, mas o encontramos aqui embaixo, deitado na manjedoura e no colo da mãe. Resumimos dizendo: “Onde encontramos essa pessoa, certamente encontramos a Majestade Divina”.

Como se disse frequentemente, isso nos possibilita resistir ao diabo e derrotá-lo na agonia da morte e em outras necessidades, quando nos aterroriza com o pecado e o inferno. Pois, se ele lograsse fazer com que eu considerasse Cristo como mero homem que foi crucificado e morreu por mim, então eu estaria perdido. Porém, se atribuo toda a importância ao fato de Cristo, verdadeiro Deus assim como verdadeiro homem, ter morrido por mim, isso excede e eclipsa em muito todo pecado, morte, inferno e qualquer miséria e aflição. Pois, se sei que aquele que é verdadeiro Deus sofreu e morreu por mim e que, por outro lado, este mesmo verdadeiro homem ressuscitou dos mortos, ascendeu ao céu, etc., então posso concluir, com certeza, que meu pecado e minha morte foram abolidos e superados por este e que Deus não mais me vê com ira e desfavor, porque vejo e ouço nessa pessoa nada além de sinais e obras de pura graça.

Cuida, portanto, para que compreendas essa doutrina de tal maneira que preserves a pessoa de Cristo por inteiro e lhe atribuas as funções de ambas as naturezas, embora estas sejam distintas. Pois, de acordo com a natureza divina, ele não nasceu de um ser humano, nem assumiu coisa alguma da Virgem. É verdade que Deus é Criador e que o homem é criatura. Mas, aqui, os dois se reuniram em uma única pessoa, e, agora, Deus e homem são um Cristo. Maria deu à luz um filho, e os judeus crucificaram uma pessoa que é Deus e homem. Caso contrário, se ele fosse somente homem, como o são outros santos, não seria capaz de nos livrar de um só pecado ou de apagar um tiquinho do fogo do inferno com toda sua santidade, sangue e morte.

Este é o conhecimento, a doutrina e o consolo que temos de Cristo com base na Escritura, embora o mundo e a esperta razão os considerem pura tolice. Mas deixemos que outros sejam perspicazes em nome de seu deus, o diabo, e se danem com sua inútil gramática e retórica, com que pretendem corrigir a Escritura, rasgá-la ou, pelo menos, anulá-la. São uns pobres gramáticos, ou seja, pessoas que, repetidamente, lutaram e se atormentaram com o pecado e a morte ou que brigaram e porfiaram com o diabo. Deixemos que ensinem as regras de como falar latim corretamente, que interpretem seus poetas, seus juristas e seus médicos e que sejam espertos e instruídos em seu próprio ofício. Nessas questões, porém, não queremos ter outros árbitros senão aqueles que provaram e experimentaram o poder dessa doutrina.

São espíritos importunos e nocivos que jamais estiveram em uma batalha ou experimentaram algo em questões espirituais. No entanto, imediatamente, querem colocar-se, baseados em sua razão, como mestres da Escritura e julgar sobre questões tão sublimes. Eles fazem o mesmo em relação a outros assuntos, como o Batismo, o Evangelho e o Sacramento. “Água é água” (dizem eles) “e pão é pão. Em que isso pode ajudar a alma? Por acaso, as palavras do pregador são mais do que um hálito passageiro?”, etc. Imaginam que deram uma grande contribuição quando apresentam o que aprenderam no jardim-de-infância e declaram que água não é fogo. Mas, se estivessem experimentado, alguma vez, o poder e o efeito do Batismo, do Sacramento e da Palavra oral, certamente ficariam de boca fechada.

Experimentei, louvado seja Deus, um pouco do que é essa doutrina e do que ela é capaz e a sustentei diante de outros espíritos cujo dedo mínimo é mais instruído e inteligente do que todos esses gramáticos. E também vi que essa doutrina foi preservada durante mais de mil anos contra todas as cabeças espertas e diabos no inferno que se opuseram a ela. Certamente, sobreviverá a todos eles. Por isso, honremos o Espírito Santo, admitindo que ele sabe mais e é mais inteligente do que nós e nosso conhecimento infantil e preservemos essa doutrina em sua pureza de acordo com a Escritura.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado, 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 144-146)

(aqui termina o comentário de Lutero sobre João 14:6a)



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 19


ENCARNAÇÃO: A(S) NATUREZA(S) DE CRISTO

(para acessar o texto anterior clique aqui)

Sim, tudo que a Escritura diz de Cristo abarca toda a pessoa, como se tanto Deus quanto o homem fossem uma só essência. Muitas vezes, ela emprega expressões intercambiavelmente e concede os atributos de ambos a cada natureza por causa da unidade pessoal, que chamamos de communicatio idiomatum. Portanto, podemos dizer: “O homem Cristo é o Filho eterno de Deus, pelo qual foram criadas todas as criaturas, e Senhor do céu e da terra”. Por outro lado, também podemos dizer: “Cristo, o Filho de Deus (isto é, a pessoa que é verdadeiro Deus), foi concebido e nasceu da virgem Maria, sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e morreu”. Além disso: “O Filho de Deus está sentado à mesa com coletores de impostos e pecadores e lava os pés dos discípulos”. Ele, naturalmente, não faz isso segundo a natureza divina. Porém, como isso é feito por uma só e mesma pessoa, é correto dizer que o Filho de Deus o está fazendo. Por conseguinte, S. Paulo declara, 1 Co 2[.8[: “Se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória”. E Cristo mesmo [afirma] em Jo 6[.62]: “Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? “ Isso, em verdade, é dito a respeito da natureza divina, a única a estar com o Pai desde a eternidade, mas também é dito da pessoa, que é verdadeiramente homem.

Em resumo: tudo que esta pessoa, Cristo, diz e faz é dito e feito por ambos, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de modo que todas as suas palavras e ações devem ser sempre atribuídas a toda a pessoa e não são divididas, como se não fosse verdadeiro Deus ou verdadeiro homem. Mas isso deve ser feito de modo a identificar e reconhecer apropriadamente cada natureza. Se quisermos falar correta e distintamente de cada uma, é necessário que digamos: “A natureza de Deus é diferente da do homem. A natureza humana não é, desde a eternidade, como a natureza divina, e a natureza divina não nasceu nem morreu temporalmente, etc., como a natureza humana. Mas as duas estão unidas em uma só pessoa”. Por isso, há um só Cristo e podemos dizer dele: “Este homem é Deus, e este homem criou todas as coisas”. De forma semelhante, corpo e alma constituem duas naturezas em uma pessoa natural e sadia, mas as duas constituem uma só pessoa ou um só ser humano, e atribuímos as atividades e os ofícios de ambas as naturezas à pessoa toda.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado.  1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 142-143)

(para acessar a sequência do comentário de Lutero
sobre João 14:6a clique aqui)


domingo, 5 de julho de 2015

Francisco, o único papa-profeta?

Eugenio Scalfari e o papa Francisco

É esta a pergunta que se faz Eugenio Scalfari, fundador do jornal italiano La Repubblica, talvez o pensador italiano mais importante da segunda metade do século XX para cá.

Scalfari, que completou 91 anos de idade em abril, é ateu e tem tido encontros com o papa Francisco, como ele relata no artigo abaixo, o que reforça a importância de sua leitura neste domingo gelado no Centro-Sul do Brasil.

Não deixa de ser interessante ver como um pensador ateu - moderado, de renome, e que efetivamente conversa com o papa - retrata o pontífice.

O artigo foi traduzido e publicado pelo IHU:

Papa Francisco, profeta que encontra a modernidade


Francisco não é apenas um papa, mas um profeta ou, melhor, sobretudo um profeta e um pastor. É a figura mais relevante do século em que vivemos. 



A opinião é de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto. 

Eis o texto.


É preciso reler o Cântico de Francisco de Assis, que, justamente para essa releitura, foi publicado abaixo e que o Papa Bergoglio colocou como título da sua primeira encíclica. Ele ilumina todo o documento do papa, explica por que Bergoglio assumiu o nome de Francisco, que nunca tinha sido usado nos dois mil anos de história da Igreja e, principalmente, dá significado e resposta a uma pergunta que muitos, fiéis e não fiéis, se fizeram: por que o Papa Francisco dedica a sua primeira encíclica à ecologia? Não existem outros problemas muito mais urgentes e dramáticos nestes tempos obscuros que estamos atravessando?

Certamente existem, e o Papa Francisco os enfrenta um por um em toda a sua plenitude, começando pelo da pobreza, da migração de povos inteiros já sem-terra, das guerras que afligem o mundo, do egoísmo imperante, da intolerável desigualdade econômica e social. Ele não se dirige apenas aos cristãos, mas a todos os homens que Deus criou com a terra, confiando eles à terra e o cuidado da terra a eles, isto é, a nós.

Todos os comentaristas da encíclica que, nestes dias, leram o seu texto sublinharam concordemente essas "passagens", dando-lhes, obviamente, interpretações diferentes. Por isso, para mim, que voluntariamente não me pronunciei até agora sobre temas que sempre me interessaram e que, nos últimos meses, muitas vezes, tive a oportunidade de discutir diretamente com o Papa Francisco, só restaria reconhecer tanto a encíclica, quanto a preparação do Sínodo, que irá ocorrer em outubro próximo, quanto as intervenções de Francisco ocorridas logo depois da publicação da encíclica, quanto o seu encontro com os valdenses em Turim, quanto, por fim, os comentários que essa imensa quantidade de trabalho religioso e pastoral provocou, para sair daó mais rico em conhecimento.

Certamente é isso, eu saio enriquecido e mais informado da política religiosa que Francisco leva em frente com ritmo cada vez mais apressado. Mas me faço duas perguntas que merecem aprofundamento e resposta: quem é verdadeiramente o Papa Francisco? E quem é verdadeiramente Jorge Mario Bergoglio?

Cada papa tem traços salientes que configuram o papel que ele desempenhou na história do cristianismo. Mas esse papel e os efeitos que ele provocou nas sociedades da época em que esse papa viveu e agiu, decorrem da personalidade do homem que, em um certo ponto da sua vida, foi chamado a se sentar no trono de Pedro. O caráter da pessoa determina o cargo que ocupa, mas, ao mesmo tempo, a carga cria delineamentos novos nessa pessoa.

Responder a essas duas perguntas que eu me fiz já não só é possível depois de dois anos de pontificado, mas também necessário para entender o que está acontecendo na Igreja e o que provavelmente irá acontecer enquanto Francisco exercer o seu magistério na cátedra de Pedro.

* * *

Francisco não é apenas um papa, mas um profeta ou, melhor, sobretudo um profeta e um pastor. Que eu saiba, isso nunca tinha acontecido antes dele; papas pastores talvez sim, alguns, poucos, contudo. Abundam na história da Igreja papas diplomatas, ou guerreiros, ou místicos, ou litúrgicos, ou legisladores, ou organizadores. Profetas, não, não houve nenhum. Paulo de Tarso também foi profético, além de legislador e fundador da religião cristã. Agostinho igualmente, e Jerônimo, e Boaventura, e Anselmo, e Francisco de Assis e muitos outros, mas não eram papas, não eram bispos de Roma.

Francisco, ao contrário, é. Devemos dizer que a excepção confirma a regra e que, depois dele, não haverá outro como ele? Temo que sim, temo que ele continue sendo uma exceção, mas o impulso que ele está dando à "Ecclesia" mudará profundamente o conceito de religião e de divindade, e isso continuará sendo uma mudança cultural dificilmente modificável.

Mas por que eu digo profeta? Em que consiste a sua profecia e o seu conceito de divindade? Deus é Um em todo o mundo e para todas as gentes. Naturalmente, a afirmação vale apenas para quem tem fé em um além e em um Criador.

A unicidade do Deus criador exclui todo fundamentalismo, toda guerra religiosa, toda divindade múltipla. A própria Trindade, mistério da fé católica, muda de natureza, e Francisco disse isso várias vezes e, precisamente nos últimos dias, ainda mais claramente, em Turim, quando respondeu às perguntas de três jovens diante de milhares de pessoas reunidas para ouvi-lo.

Ele disse que o Espírito Santo é o Espírito de Deus que suscita no coração dos homens a vocação ao bem, e o Filho é Deus que ama as suas criaturas e suscita o amor humano em todas as suas castas formas. Esta é a Trindade: não mais o mistério da fé, mas a articulação do único Deus, misericordioso, amoroso, criador e, portanto, Pai.

A misericórdia é infinita, o pecado faz parte das contradições inerentes à Criação, necessária riqueza de cada criatura individual que não é o clone das outras. As contradições contêm amor, perdão, mas também raiva contra as injustiças sofridas e vergonha por aquelas cometidas contra os outros. Nas contradições, há riqueza e pecado ao mesmo tempo. A misericórdia do Pai também é transmitida às suas criaturas, e são os pastores que a ensinam e a praticam, eles por primeiro.

Talvez, o Papa Francisco ainda não tirou uma consequência teológica dessa sua visão profética, que ele está levando em frente todos os dias: ele não é mais o Vigário de Jesus Cristo na terra, mas é o Vigário de Deus, porque Cristo nada mais é do que o amor de Deus, não um Deus diferente que se encarnou, viveu 33 anos, começou a pregação aos 30 anos e foi crucificado quando o imperador Tibério tinha acabado de ser empossado pelo Senado depois da morte de Otaviano Augusto.

Os Evangelhos relatam essa história, mas os evangelistas – exceto, talvez, João –, escreveram relatos de segunda mão e nunca conheceram o Jesus de quem descrevem a vida e a pregação. Quanto a Paulo de Tarso, fundador da religião que tomou o nome de Cristo, ele não conheceu e nunca se encontrou com Jesus de Nazaré. No entanto, foi justamente Paulo o fundador. Se fosse por Pedro, o cristianismo teria permanecido como uma seita judaica, definida pelos seus seguidores como "judaico-cristã", como na época havia muitas: os fariseus, os essênios, os zelotas e outros ainda, com o Sinédrio na cúpula, administrando a Lei e o Templo que era a sua sede.

Assim era concebida a comunidade judaico-cristã liderada por Pedro e por Tiago, que Paulo forçou a sair de Jerusalém e a abrir a nova religião por ele fundada no mundo circunstante, no Oriente Médio, na Grécia, no Egito, em Roma e, de lá, a todos os territórios do Império, isto é, toda a Europa.

O Jesus relatado pelos Evangelhos provavelmente existiu, provavelmente pregou. A sua pessoa foi teologizada, as comunidades cristãs criaram uma doutrina, uma liturgia, um direito canônico. Nos textos decorrentes dessa doutrina, Deus também é definido como o Deus dos exércitos. O sentido dessa definição é duplo: exércitos de fiéis ou exércitos de guerreiros, combatentes nas Cruzadas, na Inquisição, nas guerras das potências europeias nas quais a Igreja, de vários modos, interveio. O poder temporal do papa a induziu a participar de alianças ou de guerras com Espanha, com a França, com a Áustria, com o Império, com Veneza.

Esse foi o papado até 1861, quando foi proclamado o Reino da Itália. Não por isso o poder temporal dos papas terminou. Ele continuou e, em parte, ainda continua, e Francisco empenhou contra ele a sua luta. A sua visão é uma Igreja missionária, em que a Igreja institucional representa apenas a intendência, destinada a predispor os serviços dos quais a Igreja missionária precisa.

A verdadeira política de Francisco é a de reunificar o cristianismo, folha por folha, ramo após ramo. Nos últimos dias, ele se encontrou com o representante da Igreja Valdense. Nunca tinha acontecido um encontro semelhante. Os valdenses eram cátaros, um movimento cismático que chegou à Itália a partir da Europa central, atravessou toda a planície da Padânia, chegou em Marselha obstaculizado e combatido de todos os modos e, em Marselha, foi massacrado pelas tropas francesas, encorajadas e abençoadas pela Igreja de Roma, que assumiu a responsabilidade por esse massacre.

Pedro Valdo fazia parte dessa comunidade, mas, tendo chegado aos vales do Piemonte, decidiu parar ali. Ele também sofreu ataques e vexações de todos os tipos. Não são muitos os valdenses, mas, religiosamente, são uma comunidade importante e respeitada.

Pois bem, o Papa Francisco os encontrou em Turim há poucos dias e, em nome da Igreja Católica, invocou o seu perdão; os valdenses o agradeceram "do fundo do coração". Logo se verão novamente e abrirão um discurso mais desafiador. O objetivo de Francisco é de abrir a Igreja a todas as comunidades protestantes e reuni-las. Deus é único, e os cristãos devem voltar a ser uma única religião, mas isso não basta. Não por acaso, Francisco também abriu com os muçulmanos, porque o seu Deus é o mesmo dos cristãos.

Não é profético esse pensamento? E não é profético o título da encíclica? O Santo de Assis agradece a Deus pela morte corporal que é prevista pela criação. A morte é um dom. Eis por que eu digo que Francisco é o Vigário de Deus, que o Espírito Santo decidiu colocar no sólio de Pedro.

* * *

Mas Jorge Mario Bergoglio era assim também antes de se tornar papa? O cargo que ele já ocupa há dois anos o mudou ou foi ele que mudou o papel?

Eu me encontrei com o Papa Bergoglio quatro vezes e escrevi muitas vezes sobre ele. Permito-me dizer que nos tornamos amigos. Se Deus é único em todo o mundo, a Igreja também só pode ser uma e, justamente porque é uma em todas as partes, ela não pode e não deve se ocupar com a política.

Igreja livre em Estado livre era o lema de Cavour, mas eu diria que, agora, também é o lema de Bergoglio. O outro lema que justamente Bergoglio me indicou em um dos nossos encontros é: "Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo". Com essa frase, ele se dirige a toda a sociedade do mundo e aos ricos, especialmente, porque são eles que devem dar, e a recompensa está apenas no dar sem nada exigir em troca, a não ser o amor de Deus.

Bergoglio sabe perfeitamente que o mundo está vivendo em uma sociedade globalizada, sabe que há um povo de "sem-terras" de mais de 60 milhões de pessoas que vagam pelo mundo em busca de dignidade e de vida.

Por fim, Bergoglio também se propôs a mudar a estrutura da Igreja, que até agora foi vertical. Ele quer colocar ao lado dessa estrutura vertical também uma estrutura horizontal: os Sínodos, aos quais acorrem os bispos de todo o mundo. Desse ponto de vista, ele adotou a ideia central do cardeal Martini, do qual era um bom amigo e que votou nele no conclave do qual o cardeal Ratzinger saiu papa.

Uma Igreja vertical e horizontal: essa é a estrutura que Francisco está implementando e, com ela, um relançamento religioso das Conferências Episcopais que devem agir todas em terra de missão, porque a Igreja deve ser, em todas as partes, missionária.

Em um dos nossos encontros, perguntei ao Papa Francisco se não seria o caso de convocar um novo concílio que reconheça e dê o seu selo a todas essas novidades, mas ele me respondeu: "O Vaticano II pôs como o seu principal objetivo o de se encontrar com o mundo moderno. Essa declaração conciliar é muito importante, mas, desde então, não deu um único passo à frente. Por isso, eu não preciso convocar outro concílio. Ao contrário, devo aplicar concretamente o Vaticano II, e é isso que estou tentando fazer: o encontro com a modernidade".

Esse encontro irá levantar problemas enormes: a modernidade ocidental nasceu do Iluminismo e aportou no relativismo; não há nada de absoluto, começando pela verdade. Francisco, naturalmente, responde a esses problemas, salientando a importância da fé, mas isso não exclui o fato de que o encontro com a modernidade levantará problemáticas totalmente novas que apenas um papa-profeta poderá entrever e gerir.

Desejo-lhe longa vida, convicto como estou de que ele é a figura mais relevante do século em que vivemos.




O CÂNTICO DAS ESCRITURAS
São Francisco de Assis

Altissimu, onnipotente bon Signore, tue sò le laude, la gloria e l’honore et onne benedictione.
Ad te solo, Altissimo, se konfano et nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue creature, spetialmente messor lo frate Sole, lo qual è iorno et allumini noi per lui. Et ellu è bellu e radiante cun grande splendore: de te, Altissimo, porta significatione.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora luna e le stelle: in celu l’ài formate clarite et pretiose et belle.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento et per aere et nubilo et sereno et onne tempo, per lo quale a le tue creature dài sustentamento Laudato sì’, mi’ Signore, per sor’acqua, la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate focu, per lo quale ennallumini la nocte, et ello è bello, et iocundo et robustoso et forte.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.
Laudato sì’, mi’ Signore per quelli ke perdonano per lo tuo amore et sostengono infirmitate et tribulatione. Beati quelli ke ‘l sosterranno in pace, ke da te Altissimo, siranno incoronati.
Laudato sì’, mi’ Signore, per sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente po’ skappare: guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali; beati quelli ke trovarà ne le tue santissime voluntati, ka la morte secunda no ‘l farrà male.
Laudate et benedicete mi’ Signore et ringratiate e serviateli cum grande humilitate.
Altíssimo, omnipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumias. E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas: no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo, por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual alumias a noite: e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal, à qual nenhum homem vivente pode escapar. Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade, porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.




domingo, 21 de dezembro de 2014

O Credo de Atanásio

trindade

Para ler a biografia que escrevemos sobre Atanásio de Alexandria, acesse o portal e-cristianismo.

Eis o Credo de Atanásio:


E a fé universal é esta: adoremos um Deus na Trindade, e a Trindade na unidade. Não confundimos as Pessoas, nem dividimos a Substância. Pois existe uma única Pessoa do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo. Mas a Deidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma só: a glória é igual, a majestade é coeterna.

Tal como é o Pai, tal é o Filho e tal é o Espírito Santo. O Pai não foi criado, o Filho não foi criado, o Espírito Santo não foi criado. O Pai é incompreensível (imensurável), o Filho é incompreensível (imensurável) e o Espírito Santo é incompreensível (imensurável). O Pai é eterno, o Filho é eterno, o Espírito Santo é eterno. E, no entanto, não são três (seres) eternos, mas apenas há um eterno. E não há três (seres) que não foram criados e que são incompreensíveis (imensuráveis). Há, porém, um só que não foi criado e é incompreensível (imensurável). Assim sendo, o Pai é Todo-Poderoso, o Filho é Todo-Poderoso, o Espírito Santo é Todo-Poderoso. E, no entanto, não são três (seres) Todo-Poderosos, mas um só Deus é Todo-Poderoso. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. E, no entanto, não são três deuses, mas um só Deus. Igualmente, o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, o Espírito Santo é Senhor. E, no entanto, não são três senhores, mas um só Senhor. Pois da mesma forma que somos compelidos pela verdade cristã a reconhecer cada pessoa, por si mesma, como Deus e Senhor, assim também somos proibidos pela religião universal de dizer: "Existem três deuses ou três senhores".

O Pai não foi feito de ninguém: nem criado nem gerado. O Filho vem somente do Pai: não foi feito nem criado, mas gerado. O Espírito Santo vem do Pai e do Filho: não foi feito nem criado, nem gerado, mas procedente. Assim, há um só Pai, e não três Pais; há um só Filho, e não três filhos; há um só Espírito Santo, e não três espíritos santos. E nessa Trindade nenhum é antes ou depois do outro. Nenhum é superior ou inferior ao outro. Mas todas as três Pessoas são juntamente coeternas e coiguais de tal modo que, em todas as coisas, foi dito, a Unidade da Trindade e Trindade na Unidade deve ser adorada. Aquele, pois, que quiser ser salvo, deve pensar assim sobre a Trindade.

Também é necessário para a salvação eterna que se creia, fielmente, na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois a verdadeira fé é que creiamos e confessemos que nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e Homem. Deus da Substância do Pai, gerado antes dos mundos, e Homem da substância de sua mãe, nascido no mundo. Perfeito Deus e perfeito homem, tendo alma e subsistindo em carne humana. Igual ao Pai, referindo-se à sua divindade, e inferior ao Pai referindo-se à sua humanidade; o qual embora seja Deus e Homem, contudo não é dois, mas um só Cristo. Um, não mediante a conversão da divindade em carne, mas por ter tomada a humanidade em Deus. Um, juntamente, não por confusão de Substância, mas por unidade de Pessoa. Pois tal como a alma e a carne formam um só homem, assim Deus e o Homem é um só Cristo. O qual sofreu pela nossa salvação, desceu ao inferno, ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia. E ascendeu ao céu. Está assentado à direita do Pai, Deus Todo-Poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.

Por ocasião de sua vinda, todos os homens ressuscitarão em seus corpos e prestarão contas de suas próprias obras. Aqueles que praticaram o bem irão para a vida eterna; e aquela que praticaram o mal obterão as chagas eternas.

Essa é a fé universal, a qual pode salvar o homem. Basta que ele creia nela fiel e firmemente.




sexta-feira, 6 de julho de 2012

Teria a tradição católica definido a doutrina da Trindade?

A doutrina da Trindade é comumente atacada por modalistas e unitaristas com base em uma suposta imposição do dogma pelo imperador Constantino ao Concílio de Niceia, em 325 d.C., o que revela um profundo desconhecimento da história, conforme já demonstramos aqui nos artigos:




É de se estranhar, portanto, que uma ala ultraconservadora da Igreja Católica, para defender a sua doutrina da autoridade da tradição oral contra a "Sola Scriptura", venha dizer que foi a tradição que definiu a doutrina da Trindade, e não as Escrituras.

Ao fazer isso, eles contrariam o que ensina a própria Igreja Católica, tema que o Gustavo, co-editor deste blog, aborda no seu artigo:

Foi a Tradição católica que definiu a doutrina da Trindade?

A doutrina da Trindade é uma doutrina fundamental da fé cristã e desde os primórdios do cristianismo, vem sendo atacada por vários grupos distintos. Por um lado, arianos, unitarianos, muçulmanos, espíritas, judeus, etc., questionam a divindade de Cristo e do Espírito Santo. Por outro lado, modalistas questionam o próprio conceito de hipóstase, fazendo Pai, Filho e Espírito Santo serem totalmente idênticos. O mais surpreendente, no entanto, é encontrar pessoas que deveriam defender a doutrina se alinhando aos críticos dela.

Tal é a posição de alguns católicos romanos, que resolveram concordar com todos estes grupos, declarando que a doutrina da Trindade não é claramente ensinada nas Escrituras, e que seu estabelecimento se deu unicamente por causa da tradição católica romana.

continue lendo no e-cristianismo



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ário x Atanásio

Aproveitei o último fim de semana para preparar as biografias de Ário e Atanásio para o site e-cristianismo

Consultando os livros enquanto procurava passar a melhor ideia possível do que significaram as vidas dos dois personagens marcantes da história da igreja, me deparei com uma série de pessoas e circunstâncias que me fizeram pensar um pouco mais sobre essa tal "cristofobia" que virou a palavra da moda nas últimas semanas. 

Era tão gritante a discrepância entre aquilo que chamam atualmente de "cristofobia" com a situação real e aflitiva da Igreja primitiva, que foi inevitável fazer uma comparação. 

Ário e Atanásio foram contemporâneos, e serviram a igreja cristã em Alexandria quando o patriarca era Alexandre, só que de maneira bem distinta. 

Atanásio, o mais jovem deles, sempre foi submisso a seu bispo e muitos dizem que, conforme amadurecia, se tornou a sua maior influência intelectual. 

Ário foi o responsável pela difusão da heresia que leva o seu nome - o arianismo - que basicamente pregava que Jesus Cristo não participava da mesma natureza divina de Deus Pai (isto num resumo assumidamente sofrível, já que a questão da terminologia é central nessa controvérsia). 

Essa polêmica levou à convocação do Concílio de Niceia pelo imperador Constantino, que se realizou em 325 A.D., e no qual foram estabelecidos os dogmas centrais do cristianismo, que seriam aperfeiçoados e definitivamente "fechados" nos Concílios de Calcedônia (ano 451) e Constantinopla II (em 553). 

A controvérsia ariana atacava principalmente o pensamento cristológico ortodoxo da Igreja, com as suas inevitáveis imbricações com a doutrina da Trindade

Alexandre morreu um ano depois de Niceia, Ário em 336, e coube a Atanásio combater os muitos seguidores de Ário nas décadas seguintes, isso numa época em que os arianos tinham uma influência política muito grande, pela proximidade com Constantino e seus parentes, enquanto à ala ortodoxa restava pouca margem de manobra. 

Constantino, inclusive, teria sido batizado apenas no leito de morte, em 336, e quem lhe ministrou o batismo foi um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia. 

Fica difícil, portanto, argumentar que ele teria imposto a sua visão particular ao cristianismo, já que - se dependesse dele - a igreja primitiva inteira se converteria em ariana. 

Aliás, apesar de sua, digamos, "arianofilia", em todas as decisões cruciais que teve que tomar sobre os dogmas da Igreja, Constantino sempre se alinhou com a ortodoxia

Talvez fizesse isso a contragosto para apaziguar as facções teológicas contrárias, mas é mais provável que não tinha ideia da importância de suas decisões. 

Atanásio não teve tempo para pensar em "cristofobia". 

A ele cabia pregar o evangelho tal como o havia recebido de seus pais na fé. 

Não encontrou vida fácil com nenhuma autoridade política. 

Durante a sua vida, enfrentou cinco exílios e esteve debaixo do poder de vida ou morte de oito  imperadores: Constantino I; seus filhos Constantino II, Constâncio II e Constante; Juliano; Jovano; Valentiniano e Valente, dos quais apenas dois, Constante e Jovano, lhe foram favoráveis e, mesmo assim, por curtíssimo período. 

Juliano o definiu como "seu pior inimigo", e os demais apenas o toleravam, mas não hesitavam em mandá-lo para novos exílios. 

A disputa com os arianos serviu de combustível para que Atanásio seguisse em frente. 

Nada disso serviu de desculpa para que ele se furtasse a cumprir sua missão de pastor

Se a ortodoxia da Igreja cristã (e naquele tempo não havia diferença entre católicos, ortodoxos e protestantes) foi vitoriosa, isso se deveu, em primeiro lugar, à ação de Deus na História; e, em segundo, a pastores corajosos como Atanásio.

As duas biografias (mais a do patriarca Alexandre) podem ser lidas nos seguintes links:







quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tertuliano e a Trindade

Seu nome era Quintus Septimus Florens Tertullianus, primeiro pai da igreja latina e como tal, se envolveu nas mais variadas disputas. Destas, talvez a mais conhecida seja a disputa contra Práxeas, que gerou um dos primeiros tratados sobre a Trindade, contra a doutrina dos modalistas ou patripassionistas.

Assim, poderia parecer estranho perguntar se Tertuliano defendia a Trindade. Poderia.

Há hoje aqueles que levantam esta pergunta, e de alguma forma demonstram que Tertuliano não deveria ser contado como defensor da doutrina da Trindade. Há uma observação a ser feita aqui: quando se fala em doutrina da Trindade, se está referindo na verdade à doutrina estabelecida pelos concílios de Nicéia e Constantinopla. Então, a pergunta feita aqui é: A doutrina trinitária de Tertuliano é ortodoxa?

É grande o interesse nesta questão por parte dos críticos da doutrina da Trindade. Há sempre a tentativa de se atribuir a origem desta doutrina ao próprio concílio de Nicéia, geralmente destacando-se também a participação do imperador “pagão” Constantino. Tertuliano porém se torna um forte contra-argumento a esta explicação. Para restaurar a antiga explicação, é necessário minar a ortodoxia do tratado de Tertuliano, diluir sua mensagem. É preciso evitar que aquilo que ele queria dizer seja explicado.

Defendo a doutrina da Trindade. Mas defendo também a memória do autor, que tinha crenças, ideias e intenções. Estamos portanto diante de uma oportunidade extraordinária de entender como este brilhante escritor cristão pensava sobre estes assuntos.

continue lendo no site E-Cristianismo:

domingo, 27 de dezembro de 2009

O encanto do desencanto

Curioso com a polêmica que envolve o livro “A Cabana”, de William P. Young, aproveitei o feriadão do Natal para lê-lo, até porque a época convida para uma reflexão espiritual. 

Primeiro, entretanto, tive que vencer alguns preconceitos meus. Em geral, não gosto de best-sellers por sempre duvidar do tal “comportamento de manada” numa sociedade consumista como a nossa. 

Espero algum tempo até ler algumas críticas e (principalmente) o livro entrar em promoção. Foi o caso agora. 

Por outro lado, as opiniões que li falavam de uma abordagem um tanto quanto exótica da Trindade, doutrina que eu prezo muito, e como defensor da ortodoxia cristã, confesso que tenho sérias dificuldades ao ler algo que possa parecer blasfêmia contra os dogmas cristãos.

Feitas essas observações, passemos a uma análise da conjuntura que envolve a venda de livros hoje em dia, antes de falar dele propriamente. Há dois ângulos que merecem ser aprofundados. 

O primeiro é o mercadológico, afinal ninguém vende melhor (qualquer coisa) do que os americanos, treinados desde a infância para se tornarem verdadeiras máquinas de fazer dinheiro. 

O mercado editorial por lá é algo monstruoso, e qualquer pessoa se aventura a escrever um livro que, se cai nas graças do público um pouco que seja, já lhe garante no mínimo um book tour com todas aquelas entrevistas e sessões de autógrafos agendadas. 

A suprema glória, neste caso, é ir ao programa da Oprah Winfrey, o que parece não ter acontecido até agora com o William P. Young, embora Oprah tenha sido cogitada para interpretar o “Deus” do livro (“Papai”) na versão cinematográfica. 

Isto porque todo autor americano escreve o livro já pensando em vender os direitos para o cinema, como o próprio Young confessa nos agradecimentos finais ao, digamos, “consultor cinematográfico” Bobby Downes, por “ajustar o fluxo e reforçar o drama” (p. 235). 

Envolve muita grana, portanto. 

O segundo aspecto a ser levado em conta é a carência espiritual da humanidade como um todo, que não vem sendo suprida pela pregação pura e simples do evangelho de Jesus Cristo, como se não bastasse mais apontar a Sua cruz e dizer que (somente) ela traz salvação verdadeira. 

Vivemos numa fase assustadora do que eu chamo de “o evangelho do desencanto”, em que Deus (em Jesus) é visto mais como um supridor de carências afetivas, num discurso “psicologizado” e choroso, que deixam as Lamentações de Jeremias no chinelo. 

É o encanto do desencanto.

Deixemos isso de lado e vamos ao livro, então. É bom deixar claro que não se trata de literatura, na melhor acepção da palavra. 

“A Cabana” seria melhor classificada como uma espécie de “autoajuda cristã” ou esoterismo, isso para não dizer que foi concebido como um roteiro a ser vendido ao cinema. 

A leitura é fácil e flui bem nas pouco mais de 200 páginas do livro. A primeira parte, que conta o rapto e o assassinato de Missy, garota de 6 anos de idade, filha do personagem principal, Mack, é muito bem escrita e consegue capturar a atenção do leitor. 

Já o encontro de Mack com a Trindade na cabana-título é outra história. A Trindade é apresentada em três pessoas distintas, sendo Deus-Pai uma “negra gorda” a quem Mack chama de “Papai”, Jesus um jovem de meia-idade de feições árabes, chamado pelo próprio nome, e o Espírito Santo uma mulher asiática magra, baixa e translúcida, chamada de Sarayu. 

Nada mais politicamente correto e vendável, não é mesmo?

Os Três com Mack se inter-relacionam de maneira pra lá de irreverente e descompromissada. 

Há, ainda, a Sabedoria encarnada numa mulher chamada Sophia, o que pode deixar os católicos mais propensos a gostar do livro. 

Por sinal, a visão do Espírito Santo como uma mulher se assemelha muito com as ideias de Elcasai, de uma seita judaizante do século II (clique aqui para saber um pouco mais sobre suas ideias). 

Repercutindo a tendência cóspel atual de “apaixonar-se” por Jesus, em vez de “amá-lO”, em "A Cabana" Jesus também se declara “apaixonado” por uma mulher, a Igreja (p. 164), embora o autor diga que o próprio Jesus não dá tanto valor à Igreja e nem gosta de religião nas duas páginas seguintes, e, mais adiante, Ele diga – o próprio Jesus – que não é cristão (p. 168). 

Aliás, parece que o autor não entendeu bem a mensagem de Jesus, ou não leu direito a Bíblia, já que coloca na boca do Mestre a frase “É verdade, minha vida não se destinava a tornar-se um exemplo a copiar” (p. 136), enquanto Paulo insiste tanto na necessidade de se imitar a Cristo (1 Coríntios 11:1, Efésios 5:11, 1 Tessalonicenses 1:6).

É claro que o autor não quis escrever um compêndio de doutrinas teológicas, mas ainda que a Trindade tenha sido manifestada em Três Pessoas no batismo de Jesus (com a voz vinda do céu e o Espírito Santo em forma de pomba), é difícil aceitar que Deus-Pai tenha se manifestado em carne de maneira que não seja em Jesus, Seu Filho, já que nem a Moisés foi permitido vê-lO face a face. 

Além do triteísmo explícito, as Pessoas da Trindade (Pai e Espírito Santo) teriam se manifestado em imagens da criação, algo que poderia configurar idolatria. 

Chama a atenção, também, que “Papai” tenha as marcas dos pregos da cruz no corpo, que lembra a antiga heresia do patripassionismo, rejeitada pela Igreja primitiva por declarar que o próprio Deus-Pai tinha sido crucificado com Cristo na cruz (e, portanto, nela morrido).

Pode-se alegar que isso deva ser relevado pelo caráter ficcional e pela, digamos, licença poética da obra, mas o cristão mais ortodoxo vê nisso tudo uma grossa heresia.

Há algumas pistas que reforçam o aspecto esotérico do livro... 

Toda vez que a gente vê um escritor de ficção usando o termo “quântico” e derivados, tenha certeza de que ele está tentando parecer inteligente enquanto escreve bobagens sobre coisas que não entende ou não são apropriadas às ideias que propõe. 

É o caso de Young, que pouco antes de atribuir a Deus-Pai a condição de ter sido crucificado JUNTO com Jesus, coloca na Sua boca a frase: 
A herança genética de sua família, seu DNA específico, seu metabolismo, as questões quânticas que acontecem num nível subatômico, onde só eu sou a observadora sempre presente. Existem as doenças de sua alma que o inibem e amarram, as influências sociais externas, os hábitos que criaram elos e caminhos sinápticos no seu cérebro” (p. 85). 
Hãhã... sei... quânticas... subatômico... sinápticos... tá! Talvez isso se encaixe naquilo que o autor chama de “supra-racionalidade: a razão além das definições normais dos fatos ou da lógica baseada em dados” (p. 61), seja lá o que isto queira significar...

Existem duas outras passagens que me parecem ter recebido influência de duas obras anteriores. 

No capítulo 15 (“Um festival de amigos”), além do aspecto mediúnico do contato e conversa com pessoas mortas, há claras manifestações de auras multicoloridas muito parecidas com as narradas no também best-seller (de 1993) “A Profecia Celestina”, de James Redfield. 

No mesmo episódio, o reencontro de Mack com o pai morto remete ao filme “O Campo dos Sonhos” (de 1989), com Kevin Costner, por sua vez baseado no livro “Shoeless Joe” (de 1982), de W. P. Kinsella. 

É provável que William P. Young não tenha se baseado conscientemente nessas obras (e em centenas de outras afins), mas elas falam essencialmente das mesmas coisas, com os mesmos fenômenos típicos do movimento esotérico mais conhecido como Nova Era, que de “nova” não tem nada, mas apenas tenta reunir uma série de impressões espiritualistas que permeiam o inconsciente coletivo da humanidade desde priscas eras e é constantemente reinventado, reempacotado e - claro! - vendido.

Nem tudo se perde, entretanto, em “A Cabana”. Há algumas sacadas bem interessantes, que podem – eventualmente – não agradar os defensores da teologia da prosperidade e da confissão positiva, como quando Mack diz que 
agora posso ver que gastei a maior parte do meu tempo e da minha energia tentando adquirir o que eu achava que era bom, como a segurança financeira, a saúde, a aposentadoria, ou sei lá o quê. E gastei uma quantidade gigantesca de energia e preocupação temendo o que determinei que era mau” (p. 123). 
Energia... talvez seja esta a palavra-chave do livro. Tudo é energizante, energizado, energia e fica só na intenção.

Mais adiante, numa conversa com Sarayu, esta lhe diz que o grande problema da humanidade é reivindicar seus direitos, que nada mais são do que aquilo “que os sobreviventes procuram para não ter que trabalhar os relacionamentos” (p. 124), o que Jesus, na conversa seguinte, chama de “medo da vida” (p. 130). 

Aqui fica claro o traço “psicologizante” da trama, já que em matéria de “Medo da Vida”, o psicanalista freudiano Alexander Louwen escreveu um livro muito melhor e menos pretensioso que o de Young.

O resultado, portanto, não deixa de ser frustrante. 

Pode até haver algum interesse em um ou outro aspecto da divindade que motive alguém a encontrar o caminho da salvação em Jesus (o que, cá entre nós, pode acontecer com qualquer outro livro), embora me pareça que a imensa maioria dos leitores d’A Cabana vá ali buscar (e talvez encontrar) algum conforto para os corações sofridos, as suas carências afetivas e uma certa dependência emocional. 

Depois volta tudo à normal letargia, e não energia...

Não o recomendaria para ninguém, confesso, a não ser que um amigo próximo estivesse iniciando uma pesquisa sobre o comportamento atual dos cristãos no mundo, pois o grande benefício de sua leitura é tentar entender o que move as pessoas (inclusive os que se dizem cristãos) a buscar conforto em “literatura” deste tipo. 

Será que a graça de Deus não lhes basta mais?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Contra Práxeas, de Tertuliano

O Gustavo teve a paciência e 98% da mão-de-obra (avalio em 2% a minha participação na empreitada) de traduzir Contra Práxeas, uma das obras-primas de Tertuliano, em que ele refuta as objeções heréticas contra a doutrina da Trindade. O texto completo, dividido em 31 capítulos mais as Elucidações de Phillip Schaff, é leitura obrigatória para todos aqueles que queiram se aprofundar não só no tema da Trindade, como na própria História da Igreja, e está disponível no site E-Cristianismo, do qual eu reproduzo abaixo o cap. XXV:



Capítulo 25 - O Paracleto, ou Espírito Santo. Ele é distinto do Pai e do Filho em relação a sua existência pessoal. Um e inseparável deles quanto a sua divina natureza. Outras citações do Evangelho de São João.



O que segue a questão de Filipe, e todo o tratamento do Senhor dela, até o final do Evangelho de João, continua a nos equipar com declaração da mesma natureza, distinguindo o Pai do Filho, com as propriedades de cada. Então há o Paracleto ou Confortador, também, que Ele promete orar para o Pai, e para enviar do céu depois que Ele subir ao Pai. Ele é chamado de "outro Confortador" de fato;8111 mas de que forma Ele é outro nós já vimos,8112 "Ele deverá receber de mim," diz Cristo,8113 assim como o próprio Cristo recebeu do Pai. Assim a conexão do Pai no Filho, e do Filho no Paracleto, produz três coerentes Pessoas, que no entanto são distintas Uma da Outra. Estes três são uma8114 essência, não uma Pessoa,8115 como é dito, "Eu e meu Pai somos Um,"8116 em respeito à substância não singularidade de número. Leia todo o Evangelho, e você irá descobrir que Aquele que você acredita ser o Pai (descrito como agindo para o Pai, apesar de que você, de sua parte, verdadeiramente supõe que "o Pai, sendo o agricultor"8117, deve certamente ter estado na terra) é mais uma vez reconhecido pelo Filho como no céu, quando, "levantando Seus olhos para lá,"8118 Ele recomendou Seus discípulos a salva-guarda do Pai.8119 Nós temos, além disto, naquele outro Evangelho uma clara revelação da distinção do Filho para o Pai, "Meu Deus, porque me desamparaste?"8120 e novamente, (no terceiro Evangelho,) "Pai, em Suas mãos eu entrego meu espírito."8121 Mas mesmo se (nós não tivéssemos estas passagens, nós encontraríamos com evidência satisfatória) depois de Sua ressurreição e gloriosa vitória sobre a morte. Agora que toda a barreira de Sua humilhação foi retirada, Ele poderia, se possível, ter-se mostrado como o Pai para uma mulher tão fiel (como Maria Madalena) quando ela aproximou para tocá-lo, por amor, não por curiosidade, nem com a incredulidade de Tomé. Mas não foi assim; Jesus disse para ela, "Não me toque, pois eu ainda não subi ao meu Pai; mas vá para meus irmãos" e mesmo nisto Ele prova que Ele mesmo é o Filho; pois se Ele fosse o Pai, Ele os teria chamado de Seus filhos (ao invés de Seus irmãos), "e disse para eles, eu subo para meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus"8122. Agora, isto significa, eu subo como o Pai para o Pai, e como Deus para Deus? Ou como o Filho para o Pai, e como a Palavra para Deus? Por isto também este Evangelho, em seu final, intima que estas coisas foram escritas, se não é, para usar suas próprias palavras, "para que vós podeis crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus?"8123 Quando, então, você tomar qualquer das declarações deste Evangelho, e aplicá-los para demonstrar a identidade do Pai e do Filho, supondo que neste lugar eles servem suas visões, você está contendendo contra o propósito definido do Evangelho. Pois estas coisas certamente não foram escritas para que você possa acreditar que Jesus Cristo é o Pai, mas o Filho.8124

8111 - João 14:16.
8112 - Veja acima capítulo13.
8113 - João 16:14.
8114 - Unum. [Sobre esta famosa passagem veja Elucidação III.]
8115 - Unus.
8116 - João 10:30.
8117 - João 15:1.
8118 - João 17:1.
8119 - João 17:11.
8120 - Mateus 27:46.
8121 - Lucas 23:46.
8122 - João 20:17.
8123 - João 20:31.
8124 - [Uma curiosa anedota é dada por Carlyle em seu Life of Frederick (Livro 20 capítulo 6), tocando o texto das "Três Testemunhas". Gottsched convenceu o rei que ele não estava no manuscrito de Vienna salvo em uma interpolação da margem "em mãos de Melanchthon". A versão de Lutero não possui este texto.]

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