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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

10 antigas tradições de Ano Novo


Chega ao fim o ano de 2013, ano de conquistas e derrotas, alegrias e tristezas, umas mais, outras menos, como acontece com todos os seres humanos do planeta.

Vem aí 2014! Novos planos e antigas esperanças o aguardam, e por isso cada um de nós tem uma maneira de dar-lhe as boas vindas, embora a maneira como isso ocorre esteja padronizada mundo afora, com algumas pequenas diferenças rituais e culturais.

Hoje é um dia propício, portanto, para relembrar como antigas civilizações comemoravam o Ano Novo segundo seus costumes ancestrais.

O portal Listverse cita 10 dessas antigas tradições:

O deus babilônico
Marduque
1 - AKITU BABILÔNICO

Na antiga Babilônia, a chegada do Ano Novo era comemorada com dois eventos que ocorriam na entrada de cada semestre do calendário sumério, quando se celebrava o festival Akitu, em honra do deus supremo de sua religião, Marduque.

Akitu, em antigo sumério, significava literalmente "corte da cevada", ou "semeadura da cevada", conforme o início do semestre correspondente às etapas do seu cultivo.

Conforme você percebe, o povão bebe cerveja desde priscas eras, e a festa popular em torno do Akitu durava duas semanas.

Ao rei cabia um papel mais cerimonial, indo ao templo de Nabu onde recebia dos sacerdotes um cetro real com o qual participava de vários rituais, sendo o mais importante aquele que representava a Criação segundo as tradições religiosas sumérias.

2 - FESTIVAL EGÍPCIO DA BEBEDEIRA

De novo, o álcool. Muitos beberrões atuais se identificariam com essa festa, não é mesmo?

Na antiga mitologia egípcia, o deus-com-cabeça-de-leão Sekhmet havia decidido destruir a humanidade, no que foi impedido pelo deus-sol Rá, que lhe fez beber uma quantidade gigantesca de uma cerveja de cor vermelha, como se fosse sangue humano.

Com essa bizarra inspiração, cada Ano Novo egípcio era comemorado com uma bebedeira coletiva, em que o povo agradecia a Rá pelo estratagema utilizado para o proteger de Sekhmet.

Não era um porre, digamos, "leve". Tratava-se praticamente de um coma alcoólico, já que quando mais se bebesse, mais o indivíduo, a nação e a humanidade seriam salvos da extinção decretada por Sekhmet.

Alguns poucos egípcios permaneciam sóbrios para, no dia seguinte, acudirem e acordarem os bêbados que jaziam pelas casas, ruas e praças das cidades.

3 - NORUZ DA PÉRSIA

"Noruz" (نوروز em farsi, significando literalmente "Novo Dia") é a festa de Ano Novo da antiga Pérsia, que vem sendo comemorada há milênios, e há quem diga que em 2013 foi comemorado o 5774º Noruz da História.

Perceba que, não por acaso, o calendário judaico, contado a partir da Criação, também está no ano 5774.

O Ano Novo persa ocorre no dia 21 de março, ou na data do equinócio da primavera do hemisfério Norte, que é em torno desse dia, e se tornou uma festa muito ligada ao zoroastrismo e à fé Bahá'í.

A celebração dura 13 dias, durante os quais a primavera recomeça a cobrir a terra com vegetação e flores, simbolizando um renascimento.

Até hoje, o Noruz é muito celebrado mundo afora, especialmente no Irã, onde vive boa parte dos seguidores das religiões que o festejam.

4 - FESTA DA CIRCUNCISÃO

A festa da circuncisão era uma tradição da Igreja cristã primitiva, uma espécie de continuação do Natal.

Como a lei judaica mandava circuncidar os meninos ao oitavo dia do nascimento, quando começou a tradição de se comemorar o Natal em 25 de dezembro, em seguida veio a ideia de se celebrar o dia da circuncisão do menino Jesus.

Por isso mesmo, o dia 1º de janeiro, instituído como início do Ano Novo por Júlio César em seu calendário juliano de 46 a. C., passou a ser coincidente com a festa da circuncisão, que ainda é celebrada em comunidades ortodoxas orientais, luteranas e anglicanas ao redor do mundo.

A tradição foi se perdendo na igreja católica até que, em 1974, o papa Paulo VI decretou o dia 1º de janeiro como o "Dia Mundial da Paz".

5 - HOGMANAY DA ESCÓCIA

Hogmanay é uma antiga tradição escocesa de se celebrar com fogueiras o último dia do ano e a virada para o ano seguinte.

O registro mais antigo da festa é de 1604, mas há quem diga que o Hogmanay remonta às eras pagãs da Escócia, antes do advento do cristianismo em terras britânicas.

O fogo é o grande personagem do evento, sendo conduzido em tochas e bolas pelas ruas, simbolizando o retorno do Sol, e continua a ser comemorada na Escócia.

6 - FESTA ROMANA DE JANO

Jano (ou Janus), era o deus romano de duas caras, associado às transições da vida, entre passado e futuro.

Como o próprio nome indica, o nome "janeiro" para o primeiro mês do ano deriva da palavra "Jano".

Não por acaso, portanto, o primeiro dia de janeiro era dedicado ao deus Jano.

Os antigos romanos acreditavam que tudo o que se semeava naquele dia duraria o ano todo.

Por isso mesmo, era um costume deles dar presentes e comida, abster-se de ações e pensamentos maus, e ser cordial uns para com os outros.

7 - CRIOS E IASION DA GRÉCIA

Crios e Iasion eram associados à chegada do Ano Novo na antiga Grécia.

Crios era um dos doze titãs clássicos da mitologia grega, vinculado à constelação de Áries, a primeira que aparecia no céu quando começava a primavera, o que remetia o imaginário popular à entrada em uma nova estação.

Iasion era um semideus, filho de Zeus com uma de suas muitas amantes. Iasion era amante também de Deméter, a deusa grega da agricultura e das estações do ano.

A depravação dos deuses gregos era tanta que Deméter teve uma filha com seu irmão Zeus: Perséfone. 

Isso explica porque Zeus teria matado Iasion, fazendo com que o povo passasse a celebrar a tragédia romântica de Iasion e Deméter na chegada da primavera.

8 - A LENDA CHINESA DE NIAN

Todas as grandes cidades do mundo onde há uma comunidade chinesa relevante sabem o que é celebrar o Ano Novo chinês, que segue seu calendário próprio.

Trata-se de uma festa onde a cor vermelha predomina e se celebra a lenda de Nian, que seria um monstro submarino que, todo dia de Ano Novo, vinha ao continente para devorar pessoas e animais.

Os antigos chineses então se refugiavam nas montanhas, onde esperavam estar a salvo de Nian, que em chinês significa "Ano".

Um dia, entretanto, um velhinho de barbas apareceu numa vila na noite de Ano Novo, pedindo comida e abrigo, e só uma viúva também já idosa o acolheu em meio ao caos.

Em retribuição ao gesto caridoso da viúva, o velhinho prometeu que Nian jamais voltaria e decorou a vila toda com velas e lanternas vermelhas, preparando ainda fogos de artifício para "recepcionar" o monstro quando ele aparecesse.

Todo aquele rebuliço de cores, luzes e sons fizeram com que o monstro se assustasse e sumisse, mas a tradição deveria ser repetida a cada virada de ano.

9 - NEMONTEMI E QUAHUITLEHUA DOS AZTECAS

Os antigos aztecas, povo aborígene do território onde hoje está o México, tinham duas datas específicas para marcar o último e o primeiro dia do ano.

Havia um intervalo de 5 dias entre o último e o primeiro dia do ano. Esse interstício se chamava Nemontemi, e correspondia a um período considerado peculiarmente azarado e perigoso, já que os maus espíritos varriam a terra buscando a quem tragar.

Os aztecas então se recolhiam a suas habitações, fazendo o máximo de silêncio para não atrair as assombrações.

Findo o Nemontemi, começava o primeiro mês do ano para os aztecas, chamado de Quahuitlehua, que correspondia ao final da estação seca e ao início do plantio das novas culturas.

Aí começava também um ritual bárbaro. Para assegurar o favor dos deuses da chuva, que regaria suas plantações, os aztecas sacrificavam crianças por afogamento, dentro do ritual a que chamavam Atlchualco, ou "compra da água".

Ainda bem que certos costumes foram extintos.

10 - DIA DA SENHORA NA INGLATERRA

Até 1752, o dia 25 de março marcava o início do Ano Novo na Grã-Bretanha, com exceção da Escócia, que tinha a sua própria tradição das fogueiras, acima descrita.

Também conhecido como o "Dia da Anunciação", o Dia da Senhora ("Lady Day") tinha inspiração cristã e marcava o dia em que o arcanjo Gabriel visitara Maria para avisá-la do nascimento de Jesus Cristo, exatos 9 meses depois, no Natal.

A tradição se alargou tanto que o dia passou a marcar também o "aniversário" da expulsão de Adão e Eva do paraíso, do assassinato de Abel por Caim, do "sacrifício" de Isaque por Abraão, da decapitação de João Batista e Tiago e da libertação de Pedro da prisão.

A superstição era tal envolvendo o "Lady Day" que alguns "profetas do fim-do-mundo" do século X predisseram que o mundo acabaria na data em que o Dia da Senhora coincidisse com a Sexta-Feira Santa, o que veio a acontecer no ano 970, mas o mundo continua de pé desde então.

Até hoje, 31 de dezembro de 2013. Feliz 2014!



segunda-feira, 23 de julho de 2012

Deuses esquecidos na poeira dos tempos

Matéria interessante com destaque para as afirmações: "a religiosidade é possivelmente o único critério que realmente distingue o ser humano dos outros animais" e “Quando uma pessoa é enterrada, existe a suposição de que há uma vida após a morte. Essa atitude, que também é uma crença, caracteriza o ser humano. Nenhum animal é capaz de tal abstração”.

Há também, a meu ver, uma aparente contradição (que merece ser melhor investigada) entre a afirmação de que - no que diz respeito à sexualidade - "a diferença de religiosidade entre os povos nos faz entender que a nossa religiosidade não é algo natural, mas sim cultural", e - posteriormente - a constatação de que "a única regra religiosa comum a elas talvez tenha sido o incesto, que somente muito tempo depois ganhou também uma dimensão genética".

De qualquer maneira, o artigo - do Jornal UNICAMP e repercutido na História Viva - abaixo transcrito é leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema:

As religiões que o mundo esqueceu

Organizado por docente do IFCH, livro mostra como determinados povos cultuavam seus deuses

MANUEL ALVES FILHO

A religião egípcia era obcecada pela perpetuação da alma. Os sumérios, por sua vez, criaram as primeiras histórias sobre o dilúvio. Já os albigenses formularam a ideia do mundo dividido entre dois poderes antagônicos, representados pelo bem e o mal. Esses e muitos outros aspectos relacionados à religiosidade humana são abordados no livro As Religiões que o Mundo Esqueceu. A obra, organizada pelo historiador Pedro Paulo Funari, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, reúne artigos de 13 especialistas, entre eles o próprio Funari, sobre religiões que desaparecem ou são praticadas por um reduzido número de pessoas na atualidade. “O objetivo do livro é mostrar a importância dessas religiões em suas respectivas épocas e os legados que elas nos deixaram”, afirma o docente.

A proposta do livro surgiu, conforme Funari, durante uma conversa entre ele e Jaime Pinsky, ex-professor da Unicamp e dirigente da Editora Contexto. “Como a Contexto já havia publicado um livro chamado Os Monoteístas, traduzido do inglês, que fala do cristianismo, judaísmo e islamismo, nós consideramos que seria interessante lançar uma obra que tratasse de outras religiões que foram relevantes no passado, mas que ou desapareceram ou permanecem esquecidas pelo grande público. Para isso, recorremos a especialistas brasileiros, a maioria deles vinculada ou que realizou parte da sua formação acadêmica na Unicamp”, explica o historiador. Ao todo, são abordadas 13 religiões, que são apresentadas em ordem cronológica. O texto, segundo ele, é acessível a qualquer pessoa que se interesse pelo tema. O primeiro capítulo, escrito por Julio Gralha, é dedicado à religião egípcia. Na sequência são tratados aspectos das manifestações religiosas dos povos sumérios, gregos, romanos, gnósticos, arianistas, persas, celtas, vikings, albigenses, maias, astecas e índios brasileiros. Aos autores, destaca Funari, foi pedido que trabalhassem as informações dentro do contexto histórico de cada época. Também foi solicitado que explicassem os ritos, mitos e a estrutura de poder eventualmente existente em cada uma das religiões. Questionado se existe algum ponto em comum entre as culturas religiosas contempladas no livro, Funari informa que não exatamente. O aspecto que de certa forma as aproxima é o fato de a religiosidade ser uma manifestação exclusiva do humano.

De acordo com o docente do IFCH, uma definição corrente dá conta de que o ser humano pode ser caracterizado pela sua capacidade de produzir instrumentos. Ocorre, porém, que alguns macacos também têm essa “habilidade”, visto que conseguem transformar galhos de árvores em ferramenta ou arma. Outra, ainda, considera que uma expressão exclusiva do humano é o uso da linguagem. Mais uma vez, existem espécies animais, como as baleias ou golfinhos, que conseguem se comunicar com eficiência, embora obviamente suas “linguagens” não sejam tão desenvolvidas ou sofisticadas quanto a dos homens. “Sendo assim, a religiosidade é possivelmente o único critério que realmente distingue o ser humano dos outros animais”, analisa o organizador do livro.

Funari lembra que existe a compreensão de que o homem começou a produzir cultura quando realizou o primeiro enterramento de parentes mortos, o que constituiu uma manifestação de religiosidade. “Quando uma pessoa é enterrada, existe a suposição de que há uma vida após a morte. Essa atitude, que também é uma crença, caracteriza o ser humano. Nenhum animal é capaz de tal abstração”, acrescenta o professor da Unicamp. No que toca aos ritos, o historiador esclarece que eles também são próprios de cada religião e época. “Esse aspecto comprova que a religiosidade é historicamente determinada. Tomemos como exemplo as três grandes religiões monoteístas que predominam na atualidade. Nelas, a sexualidade é reprimida e frequentemente associada ao pecado. Somente é aceita para fins de reprodução. Na Mesopotâmia, porém, era bem diferente. Havia inclusive a prostituição sagrada, que fazia parte da religião. Para os gregos, a fertilidade também era sagrada e, portanto, cultuada. Ou seja, a diferença de religiosidade entre os povos nos faz entender que a nossa religiosidade não é algo natural, mas sim cultural”.

Ademais, prossegue Funari, boa parte dessas religiões deixou legados às manifestações atuais. A ritualidade grega e romana, com mais destaque para esta última, está muito presente nas celebrações cristãs, o catolicismo em particular. “A gestualidade dos sacerdotes, a repetição das palavras e o ato de ajoelhar-se são fundamentais para que as pessoas sintam que tudo está funcionando como deveria ser. Não raro, esses aspectos são até mais importantes que o conteúdo das mensagens, haja vista que ainda há missas rezadas em latim, língua que poucos dominam”, compara o organizador do livro.

O conceito de pecado também varia de povo para povo, como detalha a obra. A rigor, algumas religiões antigas sequer o consideravam, pelo menos não como o fazemos hoje. “A palavra pecado vem do grego hamartia, que significa erro. Ou seja, não tinha o significado nem a dimensão que lhe damos atualmente”. O mesmo ocorre com o que classificamos de dogma. A maioria das religiões tratadas no livro, se não todas, não trabalhava com essa perspectiva. “Num certo sentido, elas podem ser consideradas como antidogmáticas, visto que não tinham uma forte estrutura hierárquica e não adotavam livros sagrados. A única regra religiosa comum a elas talvez tenha sido o incesto, que somente muito tempo depois ganhou também uma dimensão genética”, detalha Funari.

Um dado interessante abordado pelo docente da Unicamp, e que aparece de alguma forma no livro, é o fato de as religiões destacadas na obra não fazerem oposição entre fé e ciência. Tal postura, segundo Funari, vem do século 18. Antes disso, não havia essa separação. “Ao contrário, o desenvolvimento da ciência deu-se em boa parte dentro das religiões. Os maias, por exemplo, criaram um calendário religioso a partir da observação dos astros e da realização de cálculos matemáticos complexos. O mesmo ocorreu em relação aos egípcios, no que toca à construção das pirâmides. Tais templos foram erigidos em homenagem aos faraós, que por sua vez eram considerados a materialização dos deuses. Para que fossem construídos, os monumentos exigiram cálculos matemáticos igualmente sofisticados”.

Excertos

“Obcecada pela vida eterna e pela perpetuação da alma, a religião egípcia fascina por seu caráter místico. As pirâmides são o testemunho mais perene dessa busca pela eternidade”

“Os sumérios criaram as primeiras histórias do dilúvio, tiveram o primeiro Noé. Seus deuses viviam cada qual como patrono de sua cidade e brigavam como brigavam as cidades entre si”

“Os gregos concebiam o mundo como parte de um relato, o mito. Os mitos tratavam do surgimento do mundo, do seu funcionamento e da sorte dos humanos”

“Zoroastro foi o primeiro a conceder ao próprio homem o livre-arbítrio, a responsabilidade por seus atos e pensamentos. Também foi o pioneiro ao contemplar o julgamento individual baseado na ética pessoal”

“Eles [celtas] acreditavam na imortalidade e no renascimento das almas. O outro mundo dos imortais era paralelo ao mundo visível e as almas dos parentes mortos ou dos guerreiros de batalha permeavam todo o espaço fatual”

“A religiosidade nórdica era de natureza tolerante, sem fanatismos nem adoração extremada. Foi fruto de uma sociedade profundamente rural, realista e pragmática, que concedia privilégio a uma magia determinista”

“O movimento albigense era dualista, compreendendo o mundo dividido entre dois poderes antagônicos, dois deuses ou entidades espirituais que se opõem: um o Deus do bem e da espiritualidade e, no contraponto, um deus maligno, o Diabo, inserido no mundo material e carnal”

Título: As Religiões que o Mundo Esqueceu
Editora: Contexto
Número de páginas: 224
Organizador: Pedro Paulo Funari
Autores: Júlio César Gralha, Luiz Alexandre Solano Rossi, Pedro Paulo Funari, Renata Senna Garraffoni, Paulo Nogueira, Júlio César Magalhães de Oliveira, Flávia Galli, Ana Donnard, Johnni Langer, Sérgio Feldman, Alexandre Guida Navarro, Leandro Karnal, Betty Mindlin.




quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Jesus e os outros deuses

Você já deve ter lido em algum lugar, ou alguém comentou com um certo ar intelectual, que Jesus (e o cristianismo, por consequência) é um mito montado (ou copiado) a partir de outras divindades pagãs tais como Hórus, Krishna, Zoroastro, Mitra, etc.. Principalmente quando chega a época do Natal, além daquelas tradicionais edições de fim de ano de Veja e Superinteressante, requentando velhas teorias da conspiração sobre a Bíblia e o cristianismo, muitos enchem a boca arrotando sabedoria, imaginando que estão descobrindo a América novamente, mas nenhuma dessas alegadas semelhanças de Jesus com os outros deuses resiste a uma análise acurada, como a feita pelo site americano The Devine Evidence, traduzida para o português pelo Gustavo, e agora disponível no link abaixo:

Alegadas similaridades entre Cristo e divindades pagãs

O texto é bastante interessante e algumas vezes indigesto, por mostrar até que ponto chega a imaginação humana quando se criam deuses ou se quer destruir a crença alheia mediante argumentos falsos pré-fabricados. Destaco apenas o texto introdutório:




Introdução

Se você procurar a internet por similaridades entre Jesus e deidades pagãs, você encontrará incontáveis resultados apresentando o mesmo material errôneo que não fornece nenhuma fonte religiosa original para validar seus clamores. Contudo, se você procurar os textos religiosos das figuras em questão você será confrontado com informação honesta que revela que o clamor de que a história de Jesus foi roubada de mitos pagãos é expressamente falso. Para a conveniência do leitor, eu forneço links por toda esta discusão aos textos originais, assim você poderá ver pessoalmente que a "Teoria da Cópia Pagã" foi completamente fabricada.

Declaração cética: mas estas figuras existiram antes da alegada vida de Jesus. Somente a cronologia faz esta discussão inútil.

Resposta: Um fato importante a ter em mente enquanto ler esta seção é a quantidade aproximada de 300 profecias messiânicas detalhadas a respeito da vida, morte e ministério de Jesus no Velho Testamento. As profecias datam de aproximadamente 450 a 1500 anos antes de Seu nascimento. A acusação de cristãos plagiando os registros de outras figuras no primeiro século ignoram o fato que conceitos como nascimento virginal, a ressurreição, e uma relação Pai-Filho precedem muitas das figuras neste artigo.

Também, muitos dos textos religiosos contendo as figuras e as alegadas similaridades clamadas por críticos são posteriores à finalização da Bíblia Cristã. Muitos textos a respeito destas figuras foram adicionados com o passar dos séculos, com aspectos de suas vidas se tornando mais espetaculares e suspeitosamente similares ao Cristianismo. Uma importante diferença entre Jesus e outras figuras neste artigo é a existência de fatos verificáveis sobre a vida de Jesus: nós conhecemos aproximadamente o ano de Seu nascimento, numerosos registros existem que verificam Sua existência, eventos históricos acurados que ocorreram por volta de Seu tempo de vida como mencionados nos textos cristãos, e nós podemos traçar as origens das crenças judaico-cristãs. Muitas outras figuras em questão não possuem ponto de origem documentado e não mencionam datas ou datas aproximadas de quanto os alegados eventos ocorreram.

Não obstante, assim que nós mostrarmos que os clamores de cópia são falsos, o argumento de quem veio primeiro se mostra irrelevante.

Declaração cética: Como a menção de eventos históricos prova a exatidão da Bíblia? Muitos autores de ficção incorporam pessoas reais ou lugares em seus trabalhos para dar ao enredo um sentimento de veracidade. Como a Bíblia seria diferente?

Resposta: Exatidão histórica sozinha não é prova da inerrância Bíblica mas ela atesta sua confiabilidade. Se a Bíblia mencionasse apenas localizações e pessoas espúrias como muitos dos textos pagãos fazem, certamente isto iria diminuir sua autenticidade.

Cuidados para o discernimento

Eu quero que vocês tenham as seguintes coisas em mente na próxima vez que forem apresentados à teoria de cópia pagã. Pergunte a si mesmo as seguintes perguntas baseadas em lógica e verá que muitos clamores instantaneamente desintegram.

TERMINOLOGIA Uma coisa para se alertar ao ser apresentado com os clamores de cópia é o uso de terminologia Judaico-cristã. Houve muitas religiões através da história cujos membros participavam em banhos rituais, mas não era batismo. Grupos políticos e religiosos podem ter celebrado refeições comunitárias mas não era uma Eucaristia. Seguidores podem considerar seu deus um salvador de algum tipo mas eles não eram chamados de Messias. Religiões podem falar de uma vida após a morte mas eles não consistem de lugares conhecidos como Céu e Inferno. Críticos podem usar tais termos para fazer suas conexões parecer mais fortes mas este é um uso errado de terminologia pois estas palavras são usualmente de origens judaico-cristãs.

TEMPO Quando apresentado com evidência comparativa, pergunte a si mesmo: 1) A figura precede as profecias messiânicas do Velho Testamento? (muitos não precedem) 2) O tempo da evidência precede o Cristianismo? (muitos textos religiosos e ajudas são posteriores ao Cristianismo) 3) A figura precede a vida de Jesus? (figuras como Apolônio de Tiana não precedem)

LOCALIZAÇÃO Se críticos clamam que uma figura da América do Sul, por exemplo, (como Quetzalcoatl) influenciou o Cristianismo, é obviamente um falso clamor se nós acreditamos que as Américas ainda não haviam sido descobertas.

SIMBOLISMO Se pergunte que simbolismo existe por trás de tais paralelos. Como muitos grupos políticos e religiosos da antiguidade, uma seita pode ter celebrado uma refeição comunitária mas ela não tinha o mesmo significado que uma Eucaristia Cristã. Membros podem considerar sua deidade um salvador mas eles não consideram a figura um salvador do pecado e da perdição, etc.

FONTES Veja se os clamores se baseiam ou não em textos sagrados reais da religião em questão (muitos raramente baseiam-se). Muitas referências simplesmente citam fontes secundárias de autores do mesmo gênero. Quando eles citam uma fonte religiosa, muitos críticos não especificam o livro, volume ou verso embora eles prontamente citem exatamente onde a "cópia" pode ser encontrada na Bíblia Cristã. Pergunte por referências específicas sobre onde a evidência pode ser encontrada nos reais textos religiosos. Por fim, como poderemos ver através desta discussão, muitos textos religiosos não possuem um cânon oficial como a Bíblia Cristã. Seus textos foram admitidamente alterados e adicionados durante os séculos. Quando críticos citam uma fonte de outro texto, pergunte a si mesmo se esta evidência é encontrada ou não em um texto que seja anterior ao Cristianismo (muitos não são).

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