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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Alisson, um brasileiro invisível



Uma história de vida como tantas outras que se vivem e se perdem pelas ruas do Brasil, Alisson diz ao portal São Paulo Invisível no facebook que "tem Deus no coração, mesmo morando na rua e usando droga".

Não sabemos o quê e quanto da história de Alisson é verdade, porque uma vida de drogas e delírios na rua já não sabe mais distinguir entre realidade e fantasia.

Só sabemos que Alisson está em situação de rua e "quer sair deste lugar".

"Quero ter a benção de Deus na minha vida pra largar a maldita dessa droga. É difícil. De verdade."

Alisson é um pequeno retrato do Brasil.

Se for possível ajudá-lo materialmente, acesse a página do São Paulo Invisível e apoie as iniciativas deles.

Se, por qualquer razão, não for possível, pelo menos ore pelo Alisson e/ou divulgue as organizações que tentam tornar sua vida (e as de tantos outros) menos trágica.



domingo, 26 de março de 2017

Semeie vida: faça você mesmo o seu próprio rio!


Duvida? Então leia a matéria abaixo, publicada no Estadão em 22/03/17:

Às margens da Rodovia dos Bandeirantes, 
o fazedor de rios

Mesmo sem conhecimento teórico, ativista Adriano Sampaio, de 45 anos, criou no Jaraguá um sistema de biovaletas

Edison Veiga

SÃO PAULO - De tanto observar os rios, foi lá e fez um. É mais ou menos este o resumo da história do ex-corretor de seguros Adriano Sampaio, de 45 anos, ativista ambiental criador do projeto Existe Água em SP. Na verdade, meio sem querer, ele desenvolveu o que oficialmente pode ser chamado de biovaleta - um sistema ecológico e sustentável de reaproveitamento de água da chuva.

Sampaio mora no bairro de Vila Clarice, noroeste da cidade, a poucos metros da Rodovia dos Bandeirantes, perto do Pico do Jaraguá. Começou a notar que a valeta de concreto que margeia a pista - e serve para escoar a água da chuva - andava sempre com suas poças. Pouco declive, região com sombra de árvores, zero permeabilidade... “Aí, em minha cabeça, ficava a lembrança de rios que, quando enchem, ocupam uma área de várzea. Depois, na estiagem, voltam ao leito mas deixam alguns lagos perenes”, comenta.

Em janeiro, pegou facão, enxada e principiou o trabalho. Deu uma limpada no mato, tirou o lodo que estava acumulado no fundo da valeta, fez duas barragens com argila e algumas pedras - tiradas do próprio entorno -, criou um corregozinho de dez metros.

Choveu.

Encheu.

Trinta centímetros de profundidade.

Então ele se embrenhou por rios da região, peneira na mão, caçou uns guaruzinhos - o lebiste selvagem. Conseguiu também cascudos e carás. “E um dia fui ao Mercado da Lapa e comprei seis pequenas carpas. Gastei R$ 20. Foi o único investimento financeiro do projeto”, conta.

A valeta ganhou vida. Os guarus se reproduzem rapidamente. Aos poucos, girinos têm surgido. Plantas aquáticas, também. “Outro dia um passarinho desses pescadores estava aqui de olho. Daqui a pouco vai ter bicho sondando por perto, atrás dos peixes”, diz Sampaio. Borboletas já rodeiam o local, antes quase inóspito.

Então o ativista descobriu - ah, a internet! - que o que estava fazendo tem nome e conceito: biovaletas. Na realidade, é um jeito de lidar com as águas da chuva de modo sustentável. “Trata-se de uma técnica bem contemporânea no exterior”, afirma o arquiteto, urbanista e paisagista Henrique de Carvalho, do Ateliê Tanta - um entusiasta da ideia. “Desde os anos 1960 e 1970, é um formato bastante estudado. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cidade de Portland, em Oregon, incentiva o modelo largamente.”

Ano sim, ano não, a prefeitura do município americano publica um guia intitulado Manual de Manejo da Água da Chuva. A última edição, de 2016, saiu com 502 páginas.

Nelas, as biovaletas são apresentadas como uma alternativa recomendada para lidar com a pluviosidade. Um “canal vegetado” não apenas para coletar a água da chuva, mas também com a função de “diminuir o escoamento superficial, sedimentar, melhorar a infiltração e reduzir a poluição”. Sim, as tais barreiras de argila “inventadas” por Sampaio têm essas funções: acabam livrando a água de impurezas.

Na versão paulistana, o ativista acredita que está resolvendo o problema dos mosquitos - afinal, as larvas dos insetos são um banquete para os peixinhos. “Já notei que não aparecem mais tantos Aedes quanto antes”, ressalta.

Reconhecimento. Biovaletas são instrumento reconhecido pela literatura especializada. A técnica aparece no livro Manual de Orientação Para a Proteção da Qualidade das Águas Pluviais, da Associação das Agências de Manejo de Água da Chuva da Área da Baía de São Francisco (BASMAA, na sigla em inglês).

Em Desenvolvimento de Baixo Impacto, obra publicada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Arkansas, no Estado americano homônimo, as biovaletas são destacadas como componentes úteis às áreas urbanas.

Sampaio diz que pretende procurar a CCR AutoBan, concessionária que administra a Rodovia dos Bandeirantes, com o projeto debaixo dos braços. Agora já com três trechos de dez metros cada em pleno funcionamento, sonha com um córrego que avance por quilômetros. “Estarei à disposição se quiserem que eu ensine a fazer”, adianta ele, enquanto admira a própria criação.



domingo, 4 de janeiro de 2015

Resgatando prostitutas na Índia


Matéria interessante publicada no Brasil Post:

Encontrando amor na zona de prostituição de Nova Déli


Anna da Costa

"Quando descobri o que tinha que fazer, senti como se estivesse me matando, ou matando outra pessoa", disse Salva*. Ela se concentrou na máquina de costura à sua frente e começou a girar a roda mecânica. Logo se ouvia um som de cliques rítmicos, com a agulha se movendo rapidamente para cima e para baixo, o salwar (roupa típica indiana) de um profundo lilás sob ela prestes a ser finalizado.

"Como você descobriu?", perguntei. O som dos cliques foi suspenso por um momento quando ela parou para responder.

"Eles colocaram muita maquiagem em mim. Roupas curtas também. Eu nunca usaria esse tipo de coisa antes e não queria", disse Salva.

"Os clientes chegavam e se sentavam. Sempre que se aproximavam e tentavam algo comigo, eu batia muito neles. Como poderia saber por que estavam ali? Mas claro que depois os pobres caras reclamavam porque tinham gastado dinheiro, e depois eu pagaria por aquilo. Apanhava muito."

Estávamos sentadas no chão de uma sala com poucos móveis, pálidos raios da manhã projetando longas sombras contra paredes amarelas descascadas. Não pude deixar de notar a profunda cicatriz em forma de U que marcava a parte de cima de seu ombro esquerdo. "Você chegou a tentar escapar alguma vez?".

"Muitas vezes", respondeu. "Sempre que recebia uma pequena gorjeta de um cliente, eu a escondia em qualquer lugar secreto pequeno que achava no kotha [bordel], mas nunca conseguia fugir. Eles nos espancavam terrivelmente se tentássemos. Muitas garotas morreram dessa forma na GB Road."

Como muitas das 3,5 mil mulheres que moram e trabalham na maior zona de prostituição de Nova Déli, a GB Road, um agente havia atraído Salva para o local com a promessa de um salário mais de quatro vezes superior ao melhor que poderia encontrar em Kolkata. Apenas quando chegou em Nova Déli que descobriu que não desempenharia tarefas domésticas.

Se passaram 15 anos e, apesar do fato de que Salva agora é livre para deixar a GB Road se quiser, ela, até recentemente, não tinha nem os meios nem confiança para fazê-lo. Seis meses atrás encontrou a Kat Katha, uma comunidade de jovens voluntários cuja missão é capacitar mulheres e crianças da GB Road. Desde então, sua perspectiva começou a mudar.

Classes de costura são uma das muitas formas pelas quais -- por meio da Kat Katha -- mulheres como Salva estão começando a aprender novas habilidades e criar oportunidades para deixar a zona caso queiram.

"As garotas começam nesse tipo de trabalho bem jovens, com 12 ou 13 anos", disse a fundadora da organização Gitanjali Babbar, de 28 anos. "Elas são trancadas nesses lugares e, mesmo se lutam no começo, depois de alguns anos muitas aceitam aquilo como seu destino. Elas acham que não há alternativas."

O espaço alugado pela Kat Katha próximo à GB Road, simples mas adoravelmente decorado, onde estamos sentados com Salva, também se tornou uma escola para 16 das crianças que vivem nos bordéis, onde frequentam as aulas seis, e às vezes sete dias por semana.

Muitas mulheres estão conectadas à "Kat Family"-- como elas se autodenominam -- por meio de suas repetidas visitas aos bordéis onde não apenas frequentam as classes, mas também estão desenvolvendo uma série de programas adicionais para fornecer serviços de saúde e educação sobre direitos constitucionais para as mulheres.

"Queremos que cada mulher e criança nesse caminho não viva uma vida de marionete, mas que tenham uma vida que eles próprios escolheram", disse Babbar, explicando sua escolha pelo nome "Kat Katha', que significa "A História das Marionetes".

Um mundo paralelo


A GB (Garstin Bastion) Road está localizada no coração de Nova Déli, conectando estações de trem novas e antigas com suas longas e empoeiradas vias. Um mundo paralelo se esconde nas ruínas de edifícios de três e quatro andares. Invisível para a maioria, esse mundo se reflete nos rostos abatidos e maquiados de mulheres que já passaram da sua melhor fase, que se sentam na ponta de escadas escuras chamando os clientes. Também dá pistas nos olhares de homens, velhos e novos, em direção às mulheres de lábios vermelhos que acenam de janelas com grades.

Foi no começo de 2011, enquanto trabalhava para a Organização Nacional de Controle da Aids da Índia (NACO, na sigla em inglês), que Babbar visitou a GB Road pela primeira vez. "Sabia que existia, mas nunca poderia imaginar que fosse tão ruim", disse. "Quando você vê seres humanos vivendo dessa maneira, começa a questionar tudo."

Os 70 bordéis da área são muito apertados e imundos. À medida que subimos as escadas escuras, quartos com bancos forrados se espalham à esquerda e à direita, grupos de mulheres vestidas em uma variedade de salwars e saris surrados, ou roupas ocidentais apertadas. Às vezes, são chocantemente jovens. Nos kothas mais populares, como o 'número 64'-- conhecido por suas lindas garotas do Nepal -- homens, jovens e velhos, se movimentam pelos vários andares em filas quase contínuas. Alguns vêm sozinhos, outros em grupos barulhentos. São frequentemente altos, às vezes violentos; às vezes descarados, outras envergonhados.

"Algumas atendem até 40 clientes por dia, todos nestas incrivelmente pequenas e sujas cabines", disse Babbar. "Você sente que vai pegar uma infecção só de olhar para elas; são muito ruins".

A taxa de HIV na área, de 8%, supera em 26 vezes a média nacional. E as mulheres sofrem de uma série de outras doenças, como infecções da pele, problemas de pulmão, desnutrição e outras doenças sexualmente transmissíveis. A maioria desses problemas não é tratada -- as mulheres não querem sair dos bordéis ou não podem arcar com o tratamento médico.

Não é apenas a saúde física das mulheres que é impactada pela vida na GB Road.

"Depois de viverem aqui por anos, muitas estão sofrendo distúrbios mentais", disse Babbar. "Depressão, ansiedade e insônia são muito comuns."

Fatima, agora com 38 anos, mora em uma sacada minúscula que se amontoa sobre um dos vales atrás da GB Road. Exposta aos piores elementos da cidade, ela divide uma cama de solteiro de vime e um cobertor com seu filho de 11 anos, Atif. Suas roupas são penduradas com alguns pregos enferrujados que foram martelados na parede. Fatima foi contrabandeada para um dos khotas vinda de um pequeno vilarejo perto de Bangalore, quando tinha 13 anos. Hoje precisa ser medicada diariamente para controlar seu temperamento, que pode mudar de forma repentina.

"Quando minha mãe fica brava, eu corro e me escondo", disse Atif, que foi uma das primeiras crianças a frequentar a Kat Katha. "Vou para qualquer lugar até ela se acalmar."

Em setembro de 2011, Babbar deixou seu emprego na NACO. Apesar de não precisar continuar indo à GB Road, suas visitas continuaram quase que incessantemente. "Só sabia que queria entender melhor a situação", disse. Mesmo quando mudou para Agra, uma cidade a duas horas e meia de distância, ela voltava todos os fins de semana para visitar os bordéis, onde se sentava para "apenas conversar" com as mulheres.

Em uma visita em particular, a dona de um bordel, que pensava que ela ainda trabalhava para a NACO, gritou com raiva: "Por que você continua vindo aqui? A única coisa que vocês falam com a gente é sobre preservativos e sexo. Vocês nunca perguntam quais são nossos sonhos, ou se queremos fazer alguma coisa diferente com nossas vidas."

Chocada por essas palavras, Babbar começou a refletir sobre elas. Quando retornou à GB Road dias depois, perguntou à Asha, uma profissional do sexo da qual havia se aproximado, o que ela mais queria. Sua resposta imediata foi: "Quero estudar".

Em pouco tempo, Babbar estava dando classes em bordéis e envolvendo um grupo de amigos para ajudá-la.

Construindo uma família


Salva é uma das 40 mulheres que iniciaram algum tipo de treinamento de habilidades com a Kat Katha desde aquela época, e está entre as três, incluindo Asha, que deixaram totalmente a prostituição. De quatro a cinco vezes por semana, Salva aprende técnicas de costura durante algumas horas pela manhã.

"Eu não confiava neles no começo", confessa, enquanto continua a girar a roda de sua máquina de costura. "Eu costumava pensar 'o que faria se eu fosse para a escola. Poderia ficar aqui em vez disso e ganhar algum dinheiro'. Mas agora sinto que pelo menos posso aprender alguma coisa, e me tornar alguma coisa."

Embora Salva tenha sido atraída pela oportunidade de se especializar, há algo mais sobre a Kat Katha, diz, que realmente valoriza. "Em outros lugares, as pessoas pediriam dinheiro antes de ensinar qualquer coisa, mas a coisa boa sobre esse lugar é que não fazem isso."

"Nos ensinam outras coisas boas também. Eles nos orientam. Pude conhecer muitas pessoas ótimas aqui. Quando cheguei aqui descobri tudo isso -- não sabia antes. Embora sejamos tão inferiores, eles ainda nos cumprimentam com as mãos dobradas. Isso diz algo sobre o [lado] humano deles. Eles demonstram muito respeito", acrescentou.

Para Ritumoni Das, de 28 anos, outra fundadora da Kat Katha, a diferença é simples. "Estamos criando uma família, não executando um projeto."

A importância de criar relacionamentos próximos é essencial para quebrar o estigma que essas mulheres e crianças sentem, diz. "Você não consegue simplesmente tirar uma garota de um bordel. Elas têm essa crença em suas mentes e corações de que pertencem a uma comunidade que não é aceitável. Até que consigam superar essa crença, será muito difícil para elas deixar esse mundo, mesmo se elas tiverem dinheiro ou qualificações."

De fato, é provável encontrar voluntários visitando suas didis (irmãs) nos bordéis, comendo e conversando com elas e comemorando aniversários e festivais, como também dando classes.

"Agora sinto que pelo menos posso aprender alguma coisa e me tornar alguma coisa"

Neste Diwali, a festa religiosa hindu, com a chegada da noite e luzes começando a brilhar em toda a cidade, me juntei às crianças e a um grande grupo de voluntários para acender velas pelos bordéis da área, e comemorar o festival das luzes em tempos sombrios da Índia. Em meio a um grande fluxo de clientes, distribuímos doces e abraçamos cada uma das mulheres, uma por uma.

"Ninguém da Kat Katha me pergunta de onde sou, nada. Sou tratada pelo que sou. Quando os voluntários comem conosco, compartilham nossos pratos. Nos tratam como irmãs", disse Maya, de 26 anos, que recentemente começou a frequentar classes de hindi na escola.

"Somos tratadas como pessoas reais: um ser humano com coração e alma. Não nos rotulam como profissionais do sexo ou filhos de profissionais do sexo", acrescentou Rekha, cujo filho de oito anos tem ido às aulas da Kat Katha no último ano.

Muitas das crianças que frequentam as classes também estão começando a notar as mudanças dentro de si mesmas, desde que passaram a fazer parte da 'Kat Family'. "Me sinto feliz quando venho aqui", disse Varun, um inteligente e generoso garoto de 14 anos que foi um dos primeiros alunos. "É um lugar agradável e aqui encontramos amor. Pensei que não seria nada e nunca conseguiria muita coisa, mas agora quero ser fotógrafo."

Os esforços da Kat Katha na GB Road não ficaram livres dos desafios. Nos últimos dois anos, tiveram que mudar de endereço seis vezes. A razão é quase sempre a mesma. As crianças não são um problema. Mas o proprietário e vizinhos simplesmente não querem profissionais do sexo nas redondezas.

"Não quero que minha filha saiba o que faço, nem que seja afetada pelo meu passado"

Os voluntários também receberam ameaças de donos de bordéis, partidos políticos, cafetões e mesmo da polícia por causa do envolvimento da organização com as mulheres. Mas, com o tempo, mesmo essas ameaças começaram a diminuir à medida que a presença da ONG se tornou cada vez mais aceita.

"Todo mundo precisa de alguém para conversar", explicou Das em tom sincero, atribuindo essa mudança à abordagem inclusiva e sem confronto.

Até agora os voluntários -- que já chegaram a somar mais de 150 -- estabeleceram vínculos com mais de 48 bordéis da estrada e mais de mil mulheres. Com o contínuo crescimento, estão cientes de que precisarão de mais estrutura em relação à sua forma bastante fluída até agora.

"Temos sido bastante descoordenados, apenas respondendo às necessidades que surgem. Agora estamos tentando formalizar as coisas", disse Das. Isso inclui aumentar o número de cursos disponíveis para as mulheres, organizar melhor o crescente grupo de voluntários e construir um albergue para as crianças fora da área. Também envolve encontrar uma fonte mais confiável de financiamento.

"Queremos alcançar cada mulher e cada criança nessa estrada", disse Babbar.

Apesar do longo caminho pela frente, Babbar está satisfeita com os esforços iniciais. "Não estamos alcançando todas as mulheres mas, nos últimos dois anos, fomos capazes de ir a muitos bordéis e estabelecer conexões; indo com um sentimento de família."

Para Salva, seu encontro com a Kat Family foi um ponto de virada. Quando se levantou para ir embora, o seu telefone tocando com mais frequência com os clientes começando a ficar impacientes, dobrou o salwar lilás que estava costurando em um embrulho bem-feito.

"Desta vez, quando voltar para Bengal, nunca mais retornarei à GB Road. Vou trabalhar em casa, abrir uma pequena alfaiataria, pagar os estudos da minha filha e ficar com ela", disse. "Talvez ganhe apenas 50 rúpias por dia (cerca de 2 reais), mas pelo menos posso comprar meus mantimentos com isso. Quero viver com sabedoria agora. Não quero que minha filha saiba o que faço, nem que seja afetada pelo meu passado."

Ao ver sua silhueta robusta e curvilínea deslizar pelas escadas íngremes e pelo vale por trás da GB Road, me dei conta que, além das classes, o espaço seguro, os serviços de saúde e tudo o que a Kat Katha começa a oferecer aqui, talvez uma das coisas mais valiosas seja simplesmente a oferta de amor.

* Os nomes de todas as mulheres e crianças nesta reportagem foram mudados para proteger suas identidades.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Índia e traduzido do inglês.



sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Justiça gaúcha incentiva famílias transitórias para menores em situação de risco

Uma boa iniciativa que precisa ser mais divulgada e adotada Brasil afora, conforme noticia o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

Famílias acolhedoras:
De portas e coração abertos
para crianças que aguardam um lar

Acolher uma criança ou um adolescente que sofreu maus tratos, abuso sexual ou que foi abandonada pode não ser tarefa fácil. A carga emocional que envolve cada caso é pesada. Num abrigo, por mais que os esforços sejam no sentido de receber bem esses jovens, as dificuldades são muitas: desde falta de estrutura física, financeira até a atenção limitada para cada uma daquelas vidas que ali estão temporariamente. A ideia de utilizar as famílias transitórias vem ganhando força. A medida representa a possibilidade da convivência familiar, pode minimizar sofrimentos e ser uma experiência enriquecedora para quem empresta um pouco da sua vida a esses jovens.

Na Comarca de Santo Ângelo, atualmente há 14 jovens (cinco adolescentes e nove crianças) em acolhimento familiar. O acompanhamento diário é feito pela equipe técnica do programa, coordenado pelo Município, e pelo Juizado da Infância e Juventude (JIJ). O acolhimento familiar está previsto como medida protetiva no art. 101 do Estatuto da Criança e do Adolescente - juntamente com o acolhimento institucional - nas hipóteses em que as crianças ou adolescentes estejam em situação de vulnerabilidade, sem condições de permanecer com a família de origem.

Mesmo que o acolhimento familiar tenha preferência sobre o institucional, como determina o ECA, essa medida só ganhou força em 2009, com a vigência da Lei Nacional de Adoção. "Diferentemente do acolhimento institucional - antigo abrigo - com seu atendimento massificado, com todos os problemas que são amplamente conhecidos por quem milita na área da Infância e Juventude, o acolhimento familiar propicia um atendimento individualizado, solidário, humanizado para crianças e adolescentes que temporariamente estão afastados do convívio com a família de origem, ou mesmo na pendência de um processo de destituição do poder familiar", afirma o Juiz de Direito Luís Carlos Rosa.

Os benefícios de estar numa casa, cita o Juiz, são muitos. "Não tenho a menor dúvida de que o acolhimento institucional precisa, urgentemente, passar por uma reformulação, existem dificuldades de toda ordem - financeira, estrutural, técnica - sem contar o sentimento de institucionalização dos acolhidos, que não veem a hora de ser desacolhidos, havendo uma nítida falta de sintonia entre a burocracia do processo e o tempo dessas crianças e adolescentes, que acabam vendo os dias, meses e por vezes anos passarem sem que seja dada uma solução".

Longo caminho

O desafio é conseguir mais famílias que se disponham a receber esses jovens. Hoje, na Comarca, são 12 famílias cadastradas, sendo que nove estão acolhendo. "Boa parte das pessoas sequer se cadastram, sequer passam pela seleção, quando são esclarecidas dos objetivos do acolhimento, quando tomam conhecimento que o acolhimento é temporário, o que é perfeitamente compreensível, na medida em que não há como imaginar que quem acolha uma criança ou adolescente, não venha a se apegar, a criar laços a amá-la. O desafio está em encontrar pessoas que, mesmo sabendo disso, exerçam a solidariedade e o amor de forma incondicional, sabendo que serão extremamente importantes na vida daquela criança, ou adolescente, auxiliando na formação da personalidade, mesmo que de forma transitória", considera o Juiz.

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o número de crianças e adolescentes acolhidos por famílias ainda é baixo se comparado ao universo de acolhidos no Brasil. São cerca de 730 crianças e adolescentes para 45,7 mil meninas e meninos abrigados, de acordo com dados do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Acolhidos (CNCA), em maio deste ano. Ainda conforme o CNJ, são 381 famílias acolhedoras no país.

Decisão em família

"Muitas vezes me perguntei: Se eu fosse uma dessas crianças, onde eu preferiria estar? No abrigo ou acolhido em uma família?". Foi buscando essa resposta que a Pediatra Adriana Pizzutti dos Santos, de 48 anos, resolveu que iria participar do programa de famílias acolhedoras de Santo Ângelo. Ela soube da iniciativa através de uma amiga advogada e, após conversar com os dois filhos - Lucas, de 19 anos, e Natália, 16 - resolveu fazer parte da iniciativa. "Meses antes eu havia visitado, juntamente com um grupo de jovens, um abrigo para crianças, que estavam afastadas de suas famílias, por situações várias que colocavam em risco a sua segurança, e senti grande compaixão pela situação de todas elas. A partir daí comecei a pensar na possibilidade do acolhimento", conta a médica.

Tomada a decisão, ela procurou o programa, encaminhou a documentação e deu início ao processo de habilitação. A equipe - formada por pedagoga, assistente social e psicóloga - esteve várias vezes na casa dela para analisar a possibilidade de acolhimento. "Recebi informações valiosas e pude tirar dúvidas, em conversas agradáveis e muito produtivas", ressalta.

Adriana ficou quase sete meses com um menino de 8 meses, até que ele foi adotado por uma família que estava há sete anos na fila. A experiência, ela garante, foi transformadora (leia abaixo o depoimento da médica). Tanto que ela e a família estão de portas e corações abertos para um novo acolhimento.

"Aprendi e ensinei" - Depoimento de Adriana Pizzutti dos Santos, Pediatra

Em outubro de 2012 eu conheci o Mateus (nome fictício) quando uma amiga pediu orientações acerca do leite que deveria ser oferecido a um bebê que havia chegado ao Lar do menino. Ele tinha apenas oito dias de vida, era o primeiro bebê a ser recebido no Lar. Como moro perto de lá, resolvi ir pessoalmente ver como ele estava. Um bebezinho em meio a tantas crianças grandes. Frágil, desprotegido... Passei a acompanhá-lo profissionalmente e, quando conheci melhor o programa, comecei a dizer prá ele: 'Vou te levar pra minha casa!'

Foram muitos preparativos, adaptações na casa, seleção e contratação de babá. Lembrava o tempo todo como seria divertido chegar em casa e encontrar ele, poder brincar, dar comidinha, abraçar, fazer dormir. É claro que teríamos doencinhas, chorinhos, manhas, noites mal dormidas, mas com isso eu não me preocupava!

No dia 10 de junho de 2013 quando ele completou oito meses, depois da audiência, que definiu o acolhimento, eu passei no Lar, peguei ele e disse: 'Chegou o dia! Vou te levar pra casa'. Começava aí minha experiência de acolhimento. Foram quase sete meses de indefinível alegria por poder fazer parte da história do Mateus. Acompanhando, protegendo, cuidando. Aprendi e ensinei.

Os pais esperavam há mais de sete anos na fila de adoção. Imaginem! Eles ficaram encantados com o Mateus, que logo foi brincar no tapete com o pai. Foi muito comovente. Durante todo o período de adaptação à família, pude observar a grande ternura, carinho pelo filho que respondia com abraços e beijos estalados. Até a definitiva partida para a nova casa. Nós continuamos nos visitando e trocando ideias, sempre que possível.

Tenho absoluta convicção que o melhor, para qualquer criança, é estar inserida em uma família, com condições adequadas de cuidados, alimentação, segurança. Se a família original não possui essas características, nada melhor do que outra família fazê-lo em ambiente que proporcione à criança um bom desenvolvimento físico e emocional, bem como o desabrochar das suas habilidades e capacidades em todos os setores.



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Menino-passarinho volta pra casa


Já fez o seu voo de volta pra casa o menino-passarinho de Higienópolis, a quem nos referimos ontem aqui no blog.

O desfecho da inusitada e emocionante história é contado por Vivian Codogno no Estadão:

Menino-passarinho é resgatado pela mãe em Higienópolis

SÃO PAULO - O menino-passarinho voou de volta para seu ninho em Cachoeiras de Macacu, na região serrana do Rio de Janeiro, no último domingo. Há oito dias ele vivia entre a copa de uma árvore e a calçada do número 105 da Rua Veiga Filho, no Higienópolis. Desde que chegou, Pedro (nome fictício) contava aos vizinhos que veio da cidade próxima a Nova Friburgo. Uma das moradoras da rua, a fonoaudióloga Maria Rosália Martins Silva, é também dona de uma propriedade na cidade fluminense, e fez uma série de contatos e, enfim, descobriu que lá havia uma criança desaparecida.

“Conseguimos localizar a mãe de Pedro, que havia movimentado uma campanha para encontrá-lo”, relata Maria Rosália. Durante dois dias, elas trocaram mensagens via redes sociais e telefone e, ao receber uma foto do filho, Dulciléa Klein teve uma crise hipertensiva e precisou ser internada. Apenas na madrugada de domingo recebeu alta e pode se deslocar até São Paulo para rever o filho.

Neste momento da história, começa uma nova epopeia. Sem dinheiro para custear a viagem de 536 quilômetros, Dulciléa convenceu o motorista do Conselho Tutelar de Nova Friburgo a fazer o transporte com o carro do órgão. Arrecadou o dinheiro que pôde com amigos e partiu para a jornada de cerca de 7 horas até São Paulo, acompanhada do atual marido e de um profissional do Conselho Tutelar. Com receio da reação de Pedro, tudo foi planejado sem que ele soubesse.

Quando chegou à Veiga Filho na tarde de domingo, Dulciléa encontrou uma vigília com cerca de 20 pessoas que desde a noite anterior protegiam Pedro de eventuais violências que pudesse sofrer. Seu filho estava no shopping do bairro, onde pode entrar acompanhado de Maria Rosália, destoando dos frequentadores locais, com sua bermuda surrada, seu chinelo de dedo, e seu moletom da universidade Anhembi-Morumbi doado por algum transeunte. Desde que uma matéria contando sua história foi publicada pelo Estado, Pedro ganhou dezenas de simpatizantes, que foram até seu ninho provisório e o presentearam com roupas, doces e dinheiro. Conseguiu arrecadar o suficiente para comprar um boneco do personagem Woody, do filme Toy Story, seu preferido.

Ao sair do shopping com o brinquedo nas mãos, Pedro avista a mãe, acaricia seus cabelos, a abraça e logo diz: “vamo embora, mãe?”. Dulciléa conta que não abandonou o filho como ele havia contado. De acordo com ela, o garoto faz tratamento psiquiátrico, o que o deixa inquieto. “No dia 6 de julho, ele estava assistindo televisão com um primo, quando o avisou que voltava em um minuto. E desapareceu. Não houve briga ou conflito”, se emociona.

Na mochila, a mãe carregava fotos, uma mensagem que imprimiu em cartazes para procurá-lo, o teste do pezinho do garoto, e laudos psiquiátricos atestando que Pedro toma remédios controlados. Médicos do Conselho Tutelar não conseguem identificar a sua doença e quando fica agressivo, o garoto se torna um problema e é encaminhado para atendimento em órgãos de assistência a “crianças especiais”. Por isso, desenvolveu um receio de kombis oficiais, como a do próprio Conselho Tutelar.

Na despedida de seus novos amigos, Pedro chora. Procura por dona Dulce, a senhora que elegeu como sua mãe adotiva. Abraça forte a psicóloga Luciana Sodré Cardoso, responsável pela segurança do menino durante sua estadia na árvore. A chef de cozinha Gabriela Nunes, que fez parte da vigília, sorri e se emociona: “Levo uma lição gigante para a vida”. Com lágrimas nos olhos, o jornalista Eduardo Lemos garante que foi “impossível não se conectar com essa história. Quando entendi o Pedro, ficou muito fácil protege-lo”. Sem o menor esforço para conter as lágrimas, o produtor cultural Nick Ayer brinca: “Agora já podemos montar o bloco ‘Unidos da Veiga Filho’”.

Pedro entra no banco de trás do carro. A sua sacola, antes apenas com um par de calças jeans, uma blusa de frio, um edredon e a “Enciclopédia prática da mágica e do ilusionismo”, volta para Cachoeiras de Macacu muito maior. Acena com o boneco Woody pela janela. Quando o carro começa a andar, sua mãe grita: “Que Deus abençoe a todos vocês!”.



domingo, 3 de agosto de 2014

O menino-passarinho de Higienópolis

Artigo maravilhosamente escrito por Vivian Codogno, desses que fazem a gente acreditar que o bom jornalismo não morreu e trazem múltiplas reflexões sobre a condição humana em seus mais variados (e controversos) matizes, publicado no Estadão de 01/08/14:

'Menino-passarinho' intriga moradores de Higienópolis

Há uma semana, adolescente vive sobre uma árvore no bairro da região central de SP; abordagem da PM fez garoto desmontar abrigo

SÃO PAULO - A Rua Veiga Filho, em Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo, recebeu nesta semana um morador inusitado. Há seis dias, Pedro (nome fictício) se abrigou em cima de uma árvore na altura do número 105 e passou a fazer parte da paisagem de quem transita por aquela rua. Com 16 anos, negro, sem documentos e sem família, o garoto relata a epopeia de como saiu de Cachoeiras de Macacu, município próximo a Nova Friburgo (RJ), e chegou até seu novo ninho depois da morte do pai e do sumiço da mãe. Ele conta que se escondeu entre a carga de um caminhão-cegonha e aportou em São Paulo.

Na bagagem, Pedro carrega uma almofada, um edredon e uma sacola com uma blusa e uma calça jeans. Também leva a "Enciclopédia prática da mágica e do ilusionismo", que diz não se lembrar onde encontrou. Seu sonho é ser mágico, "daqueles de baralho", mas como não sabe ler, espera alguém que possa lhe ensinar alguns truques.

A casa não era mais que alguns tapumes apoiados nos galhos, que serviam como base para que ele pudesse se deitar na hora de dormir. Esse abrigo precisou ser desmontado depois de uma abordagem da Polícia Militar, acionada pela terceira vez por alguns moradores do Edifício Santa Emília, prédio logo à frente da árvore. Os policiais aconselharam o garoto a retirar suas coisas e sair daquela rua. Como se recusou, foi agredido por moradores do bairro que assistiam a cena. Fugiu e só retornou no dia seguinte, bastante assustado.

O aposentado Luis Inácio Pio de Almeida, condômino do Edifício Santa Emília, incomoda-se com a presença de Pedro nos arredores. Para ele, além de correr risco ao viver sobre uma árvore, o garoto pode ser uma ameaça aos moradores. "Ele ainda não teve uma atitude violenta, mas não o conhecemos. Já sugeri até que derrubem a árvore para ver se ele vai embora, pois ele se instalou aqui e não sai mais", esbraveja de dentro da grade do prédio.

A síndica do condomínio, Maria Nilza Dupas, tenta outras maneiras para conseguir com órgãos públicos um local adequado para Pedro. Ao notar o movimento causado pela reportagem, Maria Nilza se aproxima. "Não é apenas a nós que esse caso está atingindo.Tem muito movimento aqui por causa do shopping. Não existe preconceito em relação a ele, o problema é a atitude que ele tem. A rua é uma sedução para estas pessoas", diz a síndica. Para ela, o garoto não é "caso de Febem (atual Fundação Casa)", mas é preciso encontrar uma solução em abrigos para moradores em situação de rua.

Adoção. A fama de Pedro se espalhou tão rápido pelos arredores que as especulações sobre a sua história não demoraram a aparecer. Alguns dizem que já o ouviram falar em francês e em espanhol, outros acreditavam, no início, tratar-se de um haitiano desabrigado. E com as histórias que conta, o menino passarinho colabora com sua existência lendária. "De onde eu venho todo mundo vive em árvores, moça. E eu já morei em outra dessas no fim da rua. Escolhi esta aqui porque testei e nela foi mais fácil colocar minha coisas. Mas depois do que aconteceu ontem não subo mais aí não", conta Pedro com a sobrancelha franzida, esbanjando desconfiança.

"Eu quero ser adotado, moça. Quero ser filho da dona Dulce", conta o garoto logo após acordar, ainda coberto pelo edredon rasgado, escondendo o rosto da claridade do sol. Pedro se refere a outra moradora do Santa Emília, a aposentada Dulce Santucci, que logo chega oferecendo uma maçã para ele. "Se eu não estivesse com 80 anos, adotaria mesmo. Como meu filho morreu, até pensei em dar os documentos dele para o Pedro, já que ele não tem, mas não daria certo, né? Uma pena, meu sobrenome é tão bonito".

Outra 'mãe postiça' que Pedro conquistou desde que chegou à Rua Veiga Filho é a psicóloga e terapeuta Luciana Sodré Cardoso. Também moradora do número 105 da rua, ela se sensibilizou com a história do garoto e tem tentado, a cada dia, estabelecer um vínculo de confiança com Pedro, para que ele possa ser encaminhado para um órgão de proteção.

"Ele é uma criança, e sempre se apresentou muito honesto, muito amoroso. As violências que ele tem sofrido nos últimos dias podem o ter deixado um pouco arredio, mas ele é sempre muito alegre. Se continuar sendo maltratado, pode virar um delinquente", defende Luciana. "Ele não quer sair daqui porque se sente protegido. Eu tenho sido um apoio para ele. Eu olho nos olhos, toco, o trato como uma pessoa."

Para a terapeuta, é importante que a autonomia de Pedro seja preservada e que ele seja convencido a sair da árvore, não removido à força. Por isso, Luciana tem chamado amigos com algum envolvimento em movimentos sociais para se aproximar do menino, além de acionar diariamente ONGs de apoio a crianças em situação de rua. Porém, a forma legal de tirar Pedro da rua é acionando o Conselho Tutelar e, de acordo com Luciana, suas solicitações em relação ao órgão não foram atendidas.

Enquanto isso, o garoto afirma que gostou daquela rua e vai ficar por ali. "Essa rua é bonita, gostei daqui. Mas quero uma família, e uma casa, não importa como seja." Durante a conversa, Pedro ganhou diversas coisas de pessoas que passavam na região: metade de um sanduíche, suco de frutas, algumas esfirras e duas garrafas de refrigerante pela metade. Ao se despedir, ele estica o braço, entrega uma das garrafas e diz: "pode levar essa, moça, uma só já dá pra mim".

Trâmites. Consultada, a Polícia Militar não quis dar esclarecimentos sobre a abordagem da noite de quinta-feira, que levou Pedro a abandonar sua casa na árvore. O Conselho Tutelar não soube informar sobre o andamento das solicitações de Luciana e informou que a forma mais eficiente de chegar a um menor em situação de rua é acionando o Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População em Situação de Rua (Creas-Pop). Indagado, o órgão afirma que procurou por Pedro durante a tarde mas não o encontrou no endereço indicado.



sexta-feira, 13 de junho de 2014

Surdocego pede a Deus para "assistir" Brasil x Croácia e consegue


Esta é uma daquelas boas histórias sobre pessoas que se doam para facilitar a vida de outros que têm sérias limitações para desfrutar de um simples prazer nacional: ver um jogo do Brasil na Copa.

Carlos é um rapaz surdocego que não pode propriamente "ver" a partida, e passou a semana orando para que Deus lhe permitisse encontrar uma maneira de "assistir" Brasil x Croácia no jogo inaugural da Copa do Mundo 2014.

Foi aí que entraram seus amigos Helio Fonseca de Araújo e Regiane Cunha Pereira, que encontraram uma maneira simples e - ao mesmo tempo - engenhosa de transmitir a Carlos a emoção de um jogo real.

Veja no vídeo abaixo como o Helio (meu xará) e a Regiane desenvolveram o generoso e bem-sucedido projeto:




quarta-feira, 12 de março de 2014

Brasileiro prefere doar a mendigos e igrejas

Matéria publicada na Folha de S. Paulo:

Brasileiro doa mais para mendigos e igrejas, diz estudo

JAIRO MARQUES

Seis pessoas se revezavam no cruzamento das avenidas Duque de Caxias e Rio Branco, no centro de São Paulo, na última sexta-feira pela manhã, atrás de esmolas. Em 20 minutos, trinta motoristas abriram os vidros dos carros parados no semáforo e deram moedas aos pedintes.

Essa modalidade de ajuda ao próximo é a mais comum entre os brasileiro, ao lado de doações a igrejas, segundo pesquisa realizada pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) e a Ipsos Public Affaris.

Ambas tiveram 30% da predileção, bem à frente de doações a ONGs, com 14%.

O levantamento ouviu 3.000 pessoas de 70 cidades de nove regiões metropolitanas no país entre julho e dezembro do ano passado. A margem de erro é de três pontos percentuais.

"O resultado mostra que o brasileiro não doa de forma estratégica, buscando desenvolvimento de soluções para os problemas do país. A doação é assistencialista", diz Paula Fabiani, diretora-executiva do Idis.

Segundo ela, o impacto positivo seria muito maior se todo o percentual que é doado a pedintes fosse para organizações sociais.

A tendência para doar esmolas é maior na região Nordeste (40%) e entre os mais pobres (33%).

Nas classes A e B, a solidariedade com ONGs foi citada com maior frequência (17%), mas ainda atrás das igrejas (25%), que empatam tecnicamente com os pedintes (27%).

Entre as razões para não doar, foram citadas falta de dinheiro (54%), falta de pedido de auxílio (18%) e desconfiança nas ONGs (12%). divulgação

Para Adriana Ramos, diretora-executiva da Abong (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais), faltam recursos para divulgar as entidades.

"É muito difícil falar com a sociedade porque os recursos para essa comunicação não estão disponíveis. Não há nenhum fundo público para apoiar a criação, a manutenção e o fortalecimento das organizações", afirma.

Sobre a desconfiança, Adriana diz que "nos últimos anos houve uma criminalização das ONGs, após escândalos envolvendo o governo".

"Tanto o governo como a imprensa acabam focando o problema nas organizações, o que gera um clima de desconfiança. Com o desconhecimento, a sociedade acaba não tendo argumentos para se contrapor."

Um dos pontos que mais surpreendeu os organizadores da pesquisa foi em relação ao estímulo que leva à doação. Em 73% dos casos, o brasileiro não se sente motivado a doar dinheiro ou a fazer trabalho voluntário.

"O Brasil precisa desenvolver a cultura de solidariedade e discutir mais os benefícios que a ajuda a organizações pode trazer ao país e às pessoas", afirma Paula.

A pesquisa mostrou ainda que 84% dos entrevistados desconhecem que podem deduzir doações no Imposto de Renda. Parte do recurso que seria pago à União pode ir para entidades.

Segundo a diretora do Idis, conseguir incentivo fiscal é "complexo e burocrático". Só organizações grandes conseguem cumprir as exigências.

"O doador precisa ter o recibo, ter a certeza de que a ONG informou à Receita a doação. Simplificar a lei e ampliar as formas de captação ajudariam bastante", afirma.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O alto preço do materialismo


Um vídeo muito interessante sobre os males provocados pelo consumismo desenfreado e pela exposição massiva à propaganda do "compre! coma! faça!":




quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O garoto que fez o Natal chegar em outubro


Uma linda história natalina fora de época contada pelo Fantástico da Globo, sem final feliz.

Lamentavelmente, o garoto faleceu na última segunda-feira, 11 de novembro de 2013, mas seu desejo simples de ainda comemorar um Natal foi atendido por uma comunidade solidária:

Natal é antecipado em pequena cidade dos EUA para menino com câncer

Sem melhoras, Devin quis sair do hospital e celebrar sua data favorita.
Vizinhos enfeitaram a cidade em pleno outubro para realizar o desejo dele.

O garoto Devin Kohlman hoje tem 13 anos, é americano, fã de esportes, morador de Port Clinton, uma cidadezinha de seis mil habitantes, nos Estados Unidos. Levava uma vida normal, até descobrir, no passado, que tinha um câncer no cérebro.

Devin passou um ano lutando contra a doença. Internou-se em um hospital de uma cidade maior, mas o câncer era muito agressivo e o tratamento não deu certo.

"Ele perguntou: ‘O que os médicos disseram?’ Eu respondi que ele não estava melhorando", conta a mãe de Devin.

Devin, então, disse para a mãe que queria voltar para a sua cidade, ficar com as pessoas queridas e celebrar sua data favorita: o Natal.

Assim foi feito. O Devin chegou em casa conduzido por uma grande carreata, com carros da polícia e dos bombeiros. A cidade parou para receber o garoto.

O desejo de Natal foi revelado e, no dia seguinte, o prefeito fez uma convocação. Em questão de minutos, dezenas de pessoas estavam antecipando o Natal em Port Clinton.

Trouxeram um pinheiro enorme, a decoração oficial da cidade foi fornecida. Mas cada um contribuiu com suas próprias luzinhas, seus arranjos, seus enfeites e, principalmente, com a disposição para decorar um pedaço especial da cidade: o pedaço que o Devin pode ver da janela dele.

"A gente não sabe o que vai acontecer, mas a gente tinha que garantir que o Devin tivesse o Natal dele", diz uma mulher.

Fizeram até nevar na janela do Devin. O quarteirão foi isolado. E, naquele mesmo dia, 28 de outubro, chegou o Natal.

"Eu estou muito feliz que todo mundo tenha vindo, porque ele, agora, provavelmente, está com um sorriso enorme, e realmente feliz”, diz uma mulher.

Foi exatamente isso que a mãe dele contou. Ele ficou muito feliz.

Devin Kohlman, o garoto que fez o Natal chegar em outubro.






sábado, 14 de setembro de 2013

A utopia do mundo e da natureza em harmonia


Entrevista com o filósofo australiano Peter Singer, publicada na Folha de S. Paulo de 25/08/13:

Por uma vida menos ordinária

MARCELO LEITE

RESUMO Peter Singer, professor da Universidade de Princeton (EUA), vem ao Brasil para duas palestras no ciclo Fronteiras do Pensamento. Ele argumenta que a pobreza e a mudança do clima são os maiores problemas do mundo e, como solução, defende que as pessoas reduzam consumo de carne e doem parte de sua renda.

O filósofo australiano Peter Singer, da Universidade de Princeton (EUA), é o conferencista de amanhã, em Porto Alegre, do ciclo Fronteiras do Pensamento.

Na quarta-feira ele estará em São Paulo para palestra no Teatro Geo, onde deve abordar temas de ética prática como a pobreza no mundo, escolhas alimentares, bem-estar animal e mudança climática.

Para o controverso autor do clássico "Libertação Animal" [trad. Marly Winckler e Marcelo Brandao Cipolla, WMF Martins Fontes, 496 págs., R$ 79,90], cada pessoa deveria doar uma parte de sua renda para ajudar a diminuir a desgraça de 1 bilhão de pobres que vivem com menos de um dólar por dia.

Esse é o tema do livro "The Life You Can Save", de 2009 (lançado em Portugal com o título "A Vida que Podemos Salvar", Gradiva, 252 págs., R$ 69,10, sob encomenda), mas um de seus primeiros artigos, de 1972, já tratava dele -e foi citado por 1.259 outros autores desde então.

Singer está insatisfeito com o efeito do livro, que calcula ter vendido 60 mil cópias no mundo inteiro. Mais ainda com o baixo número de "compromissos" (pledges) da página de internet equivalente, em que pessoas comuns podem jurar em público que vão passar a doar determinado percentual de sua renda para organizações de caridade: 16.394.

Ele doa um terço de sua renda, mas prefere não equiparar a "cegueira moral" dos outros ao Holocausto, e diz que é o maior problema do presente é a pobreza, ao lado da mudança do clima, no futuro.

Folha - O tema da mudança climática já apareceu também no seu radar ético? Ela tem o potencial de tornar a vida pior para um bocado de gente pobre, no futuro. Devemos nos importar menos com as vidas futuras do que com as do presente?

Peter Singer - Esses dois assuntos estão intimamente conectados. A resposta curta para a pergunta é "não". Devemos nos importar o mesmo tanto com as pessoas, não importa a época em que vivam. Claro que há questões sobre a incerteza, quando falamos do futuro. Nós podemos saber muito mais sobre as pessoas que vivem agora, de modo a ajudá-las, do que podemos saber sobre pessoas que viverão daqui a cem anos. Isso é relevante, e podemos aplicar um desconto sobre o futuro, mas num grau bem pequeno.

Não é demais pedir a alguém que se torne vegetariano e ainda por cima doe uma porção significativa de sua renda para combater a pobreza?

Reconheço que só algumas pessoas vão de fato agir nesse sentido. Mas acho que todo mundo poderia considerar uma mudança nas suas escolhas alimentares e, se tiverem alguma sobra de dinheiro, considerar sua responsabilidade perante os pobres do globo.

Não é uma questão de tudo ou nada, ou você se torna um vegetariano ou não faz nada. Várias pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, estão dizendo: "Bem, eu como carne todos os dias...". Existe uma prática chamada Segunda-Feira Sem Carne. Outros escolhem dois ou três dias por semana em que não comem carne. Penso que seja algo fácil de fazer, uma coisa saudável, e obviamente faz diferença, pelo menos do ponto de vista de reduzir a pecuária industrial e a emissão de gases do efeito estufa.

Se o sr. tivesse de dar um conselho a um adolescente sobre como agir, diria que ele ou ela devem se juntar a uma organização de caridade, a um partido político ou a uma ONG militante? O que seria mais eficaz para salvar vidas agora e no futuro?

Bem, não há razão para não fazer as três coisas. Não precisa ser uma escolha do tipo "ou isso ou aquilo". O valor de se envolver com um partido político vai depender de onde, no mundo, a pessoa vive e de quão abertos são os partidos políticos, da possibilidade de fazer alguma diferença nesses partidos. Minha resposta, realmente, é: quanto mais, melhor.

Há um problema com a ideia de ação individual. Um exemplo: no livro "Uma Verdade Inconveniente", Al Gore dá uma série de ideias sobre o que as pessoas podem fazer para combater o aquecimento global, como trocar as lâmpadas de casa. Mas, desde 2006, as coisas só pioraram nesse campo. O sr. acha que pedir às pessoas que doem parte de sua renda resolve algo?

Acho que não é igual ao caso da mudança climática. Se eu doo para a Oxfam ou outra organização eficiente, isso faz uma diferença específica. Claro que não se trata de resolver a questão da pobreza global; obviamente eles não podem fazer isso. Mas quer dizer que algumas famílias vão receber telas contra mosquitos para as camas e que suas crianças não vão morrer de malária, ou que as crianças vão receber vermífugos e, sem parasitas, serão mais saudáveis, terão mais energia e irão melhor na escola. Ou uma aldeia consegue abrir um poço, e as pessoas não terão mais de caminhar três horas por dia para conseguir água.

A razão para não ser assim com a mudança do clima é que, neste caso, de fato é necessário que governos se unam e estabeleçam limites de emissões de gases do efeito estufa. Não há como reunir um grupo de pessoas que possa fazer algo de significativo para de fato reduzir o aumento dos gases de efeito estufa e o aumento de temperatura resultante. São decisões mais amplas, como livrar-se de usinas elétricas movidas a carvão, criar um imposto sobre o carbono ou um mercado para créditos de carbono. É uma situação diferente da pobreza global, para a qual penso que indivíduos podem fazer uma grande diferença.


Voltando ao tema do bem-estar animal e do bem-estar humano. O sr. responde ao romance "A Vida dos Animais", do sul-africano J.M. Coetzee, indicando que vê problema na comparação que a protagonista, Elizabeth Costello, faz entre o modo como tratamos os animais e o Holocausto. O sr. escreveu: "O valor que se perde quando algo é esvaziado depende do que estava ali quando estava cheio, e há mais [conteúdo] na existência humana do que na de um morcego". 

Esse argumento se parece ao de parte de pecuaristas que destroem a floresta no Brasil: eles criam empregos que vão beneficiar pessoas, e pessoas são mais importantes que o ambiente ou espécies selvagens. O sr. concorda?


Concordo com a posição geral de que é relevante a questão de quantas pessoas estão se beneficiando e quantas pessoas estão sofrendo, mas não que isso seja usado como argumento para destruir a Amazônia ou pôr mais cabeças de gado para pastar, ignorando as questões de longo prazo de que falávamos há pouco.

Uma das principais causas das emissões brasileiras de gases do efeito estufa é o desmatamento; outra, o próprio gado. Esse pessoal não está de fato beneficiando mais pessoas do que aquelas que consomem essa comida hoje. Eles causam muito mais dano no mundo todo, hoje e no futuro. É um cálculo errado.

E quanto à oposição de valores entre existências humanas e animais? Devemos ter uma preferência?

É razoável dizer que, se se trata do valor de uma vida, do ato de matar em si, o ser cuja vida contenha mais capacidades sofre uma perda maior. Se for para comparar a morte de uma pessoa com a de uma vaca, é razoável dizer que a morte de um ser humano é a tragédia maior. Mas há muito mais que o ato de matar na criação industrial de animais, que vivem vidas horríveis. Precisamos perguntar: por que fazemos isso, qual a necessidade de fazer assim?

Seria comparável ao caso dos alemães que preferiam ignorar a existência de campos de concentração, como sugere a personagem Elizabeth Costello, de Coetzee?

Há um certo paralelo aí. A diferença, suponho, é que as pessoas na Alemanha aceitavam a moralidade da ideia de que é errado matar seres humanos inocentes. Creio que estavam mais conscientes da seriedade do mal que se fazia durante o Holocausto, na medida em que sabiam do que estava acontecendo.

No entanto, a maior parte das pessoas não é criada com a noção de que animais são moralmente importantes, de que devemos dar a seus interesses a mesma consideração que damos aos nossos. Pode-se dizer que voltar as costas para isso é mais desculpável. Mas também creio que haja algum paralelo, sim.

Um paralelo constrangedor, não? Essa é a questão suscitada pelo livro de Coetzee.

Sim. Ele é um escritor brilhante e nos faz sentir o desconforto das pessoas na plateia quando ouvem a palestra de Elizabeth Costello sobre o questionamento de seus hábitos. Há no livro a discussão particular sobre o paralelo com o Holocausto, muito contencioso. Coetzee está expondo as pessoas a esse desconforto. Mas, de novo: não há um número suficiente de pessoas que o estejam lendo e levando essas questões em conta.

O sr. iria até o ponto de dizer que a pobreza mundial é o Holocausto do século 21?

Não gosto muito de usar essa linguagem de Holocausto, de estendê-la para coisas que não estão assim tão perto. Vejo algumas diferenças. Ao dizer que o que está acontecendo com os pobres do mundo é o nosso próprio Holocausto, você desqualifica ou reduz a enormidade do que aconteceu no período histórico dos anos 1940. Mas o que eu diria é que, ao lado da mudança climática, é uma cegueira moral que temos e que, na escala de sua seriedade e de suas consequências, é comparável ao Holocausto.



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