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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Cristãos sírios erguem árvore de Natal a partir das ruínas de Homs


A informação foi publicada no Estadão:

Natal em meio a escombros na Síria

Cristãos voltam a Homs e erguem árvore natalina


Três anos e meio após as forças do presidente sírio, Bashar Assad, terem reconquistado o controle sobre Homs, derrotando os opositores que tornaram a cidade a “capital da revolução”, muitos cristãos que tinham fugido da guerra retornaram a suas casas. Em meio aos edifícios destruídos na cidade velha, um pinheiro com uma estrela no topo indica que a celebração do Natal ocorrerá em paz.

Próximo do pinheiro, instalado no bairro de Al-Hamidiyah, um reduto cristão na parte antiga de Homs, dezenas de retratos dos mortos nos combates estão penduradas no “muro da honra”, alguns já descoloridos pela chuva.

De acordo com dados da ADF International, ONG que advoga pela liberdade religiosa, quando o levante contra Assad começou, em 2011, 1,25 milhão de cristãos viviam na Síria – em 2016, esse número tinha baixado para menos de 500 mil, segundo a entidade, em razão da guerra e da perseguição por parte de radicais islâmicos.

Segundo outro levantamento, da Missão Portas Abertas, organização que dá apoio a comunidades cristãs perseguidas, há 794 mil cristãos da Síria.

O cerco a Homs por parte das forças de Assad durou até maio de 2014, quando cerca de 2 mil rebeldes entrincheirados no bairro antigo se entregaram. “Em 2014, quando voltamos ao nosso bairro devastado, a árvore de Natal foi feita com escombros”, afirmou a cristã Rula Barjur, enquanto dava os últimos toques na decoração – de guirlandas prateadas e azuis – do pinheiro instalado na cidade velha.

Em uma reportagem publicada no início deste mês, o World Watch Monitor, que divulga histórias seguidores do cristianismo que sofrem perseguição, narrou o retorno dos cristãos a Homs. Abdul al-Yussef, de 70 anos, pediu para ser fotografado diante da árvore em Al-Hamidiyah, para mandar a seus filhos, que se refugiaram da guerra na Alemanha. “Quero lhes pedir que retornem.” / AFP



terça-feira, 15 de agosto de 2017

Rio de Janeiro faz "esfihaço" para abraçar imigrante sírio que foi vítima de xenofobia

O imigrante sírio feliz da vida na foto de Matheus Pereira, do G1

Meus amigos "evangélicos góspeis", é essa a atitude cristã em relação aos fracos e desfavorecidos, não essa xenofobia e esse ódio aos pobres e ao diferente que vocês demonstram ao apoiar um certo candidato cujo nome não deve nem merece ser pronunciado, mas dificilmente vocês entenderão.

Cristãos acolhem, amam e pregam o evangelho puro de Jesus Cristo, e se tiverem que morrer para tanto, serão martirizados como "ovelhas destinadas ao matadouro" (Romanos 8:36), sem mais.

Como Tertuliano já dizia, "o sangue dos mártires é a semente da igreja", mas quem era Tertuliano (±160-220 d.C.) perto dos nobilíssimos, santíssimos e poderosíssimos líderes evangélicos brasileiros atuais, não é mesmo?

Não são "apóstolos do ódio", como alguns famosos "pregadores" hoje se propõem, simples assim...

Talvez somente quando alguns dedos misteriosos escrevam "mene mene tequel parsim" nas paredes dos seus lautos banquetes de autolouvaçao desenfreada (Daniel 5), meus caros religiosos fascistas, vocês perceberão que o seu tão propalado "reino" político-ideológico padece de autofagia.

Aí será tarde demais...

A matéria é do G1:

Cariocas fazem fila em 'esfihaço' para apoiar refugiado sírio agredido em Copacabana

Após divulgação de vídeo em que é hostilizado por outros ambulantes, Mohamed Ali recebe apoio dos brasileiros. Perto dali, no Arpoador, grupo protestou contra muçulmanos.

Matheus Rodrigues


Uma longa fila se formou neste sábado (12) nas ruas de Copacabana em torno de um carrinho de salgados árabes. Ninguém duvida do sabor das esfihas e quibes, mas o motivo para tanta gente em torno do vendedor é outro: dar apoio ao refugiado sírio Mohamed Ali, que dias atrás foi vítima de hostilizado por outros ambulantes, na esquina da Rua Santa Clara com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Entre uma foto e outra entrevista, Mohamed não sabia definir o que estava sentindo. Muitos cariocas foram à mesma esquina para prestar solidariedade.

Os insultos foram registrados por quem passava e a imagem, rapidamente, se espalhou pelas redes sociais (veja nas reportagens acima). Mohamed Ali foi agredido verbalmente depois de ter o carrinho empurrado pelos agressores. Algumas mercadorias caíram no chão.

O ambulante que aparece no vídeo com dois pedaços de madeira na mão fala para Mohamed voltar para o país dele, sair do Brasil, e o ofende.

"Sai do meu país! Eu sou brasileiro e estou vendo meu país ser invadido por esses homens-bomba miseráveis que mataram crianças, adolescentes. São miseráveis. Vamos expulsar ele!", disse.

Mohamed não postou o vídeo e não foi à polícia. "Eu não quero problemas, só quero trabalhar. Eu não quero problema para ninguém", disse Mohamed Ali.

Solidariedade


O evento teve fila de quem estava disposto a ajudar...
Um empresário promoveu o “esfihaço” deste sábado e iniciou uma "vaquinha on line" para conseguir um food truck para o amigo. Guilherme Benedictis resolveu promover o evento “Comer esfiha na barraca do Mohamed” em uma rede social. Até este sábado, o evento tinha confirmação de 11 mil pessoas e despertou o interesse de outras 33 mil.

Mohamed tem 33 anos, é filho de pai sírio e mãe egípcia, nasceu na Síria e foi criado no Egito, de onde saiu há três anos. Diz que no Brasil as pessoas respeitam a religião do outro, e ele pode viver "em paz". Mesmo após a agressão, ele defende o país. "Eu amo o Brasil".

O sírio é casado com uma brasileira e tem um filho. Fugiu da guerra no Oriente Médio e não quer mais conflitos por aqui. "Eu fui para a guerra lá, cheguei aqui e não quero guerra aqui."

Na quinta-feira (10), Mohamed recebeu das mãos do prefeito Marcelo Crivella uma licença para trabalhar em Copacabana.

Protesto contra muçulmanos


Mas o ódio "religioso" nunca pode ser ignorado, há sempre gente disposta ao pior que o ser humano pode oferecer...


Enquanto o sírio era homenageado após sofrer ataques de xenofobia e intolerância religiosa, um grupo de cerca de 20 pessoas fez um protesto com ataques contra muçulmanos a poucos quilômetros dali, no Arpoador. Vestidos de preto e com cartazes com palavras como "muçulmanos: assassinos, sequestradores, estupradores", eles caminhavam em silêncio.

A educadora Débora Garcia estranhou a movimentação e, ao ler os cartazes, resolveu fotografar.

"Minha primeira reação foi não entender o que estava acontecendo. Até porque as mensagens pareciam misturar alhos com bugalhos. Pareceu um movimento 'cristão' radical contra muçulmanos, [grifamos] fazendo algum tipo de analogia louca com assassinatos, sequestros e estupros. Como se pra cometer esses crimes tivesse que ter alguma relação com algum credo em especial", disse, em entrevista ao G1.

"Estranhei a quantidade de cartazes e o uniforme preto. Primeiro, achei que era em defesa de migrantes, estrangeiros. Depois, que vi que eram totalmente contra praticamente um pedido para que saiam daqui", contou.



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Papa canonizará 30 brasileiros em outubro


Conforme anunciamos aqui no mês passado, o papa Francisco marcou a canonização de 30 brasileiros para o próximo mês de outubro.

Os 30 brasileiros foram mortos pelos protestantes calvinistas holandeses em 1645, e não escapa ao observador mais atento o fato de que essa canonização coincide com o mês em que se comemora os 500 anos da Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero.

Provavelmente, é uma forma do papa se contrapor à crescente onde conservadora dentro do Vaticano que o critica, enquanto estende a mão para os luteranos numa celebração conjunta da Reforma.

A notícia é da Agência Brasil:

Papa canonizará em outubro os primeiros mártires brasileiros

O papa Francisco canonizará no dia 15 de outubro deste ano, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, os primeiros mártires brasileiros, os sacerdotes André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e o laico Mateus Moreira, além de outras 27 pessoas assassinadas em 1645.

O anúncio foi realizado hoje (20), durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

Para que sejam canonizados, eles não necessitaram nenhum milagre, apenas o parecer positivo dos membros da Congregação para as Causas dos Santos, que reiterou o assassinato por "ódio à fé".

Eles são os primeiros mártires e santos brasileiros assassinados entre os dias 16 de julho e 3 de outubro de 1645 pelos protestantes calvinistas holandeses instalados em Brasil naquela época.

Muitos foram assassinados em Cunhaú e Uruacu, no Rio Grande do Norte, durante uma missa dominical celebrada por André de Soveral. Eles tinham sido beatificados pelo papa João Paulo II em março de 2000, na Basílica de São Pedro.

Os mártires brasileiros serão canonizados em uma cerimônia ao lado de dois meninos mexicanos conhecidos como Mártires de Tlaxcala; o espanhol Faustino Miguez, fundador do Instituto Calasancio Filhas da Divina Pastora e o sacerdote franciscano italiano Luca Antonio Falcone.

Papa canonizará crianças que viram aparição da Virgem Maria

O papa canonizará no próximo dia 13 de maio, durante sua viagem a Portugal, Francisco e Jacinta Marto, os irmãos pastores que, segundo a Igreja católica, presenciaram, ao lado da prima Lúcia, a aparição da Virgem Maria.

O anúncio foi realizado hoje, durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

No dia 23 de março, o pontífice tinha aprovado os decretos para canonizar as duas crianças, de 9 e 10 anos, que morreram pouco depois das aparições, entre maio e outubro de 1917, e que serão as primeiras crianças não mártires declaradas santos.

Francisco viajará para Fátima onde participará dos atos em comemoração do centenário das aparições, nos próximos dias 12 e 13 de maio. A cerimônia de canonização será no sábado (13), quando está prevista uma missa multitudinária na esplanada do santuário mariano.

O milagre pela intercessão dos irmãos que pode decretar a canonização, segundo as normas católicas, é o da suposta cura de uma criança brasileira.

Francisco (1908-1919) e Jacinta Marto (1910-1920), que junto com sua prima Lúcia, que se tornou freira e a única que sobreviveu, presenciaram as aparições na Cova da Iria e foram beatificados no dia 13 de maio de 2000, por João Paulo II, em Fátima.

As três crianças portuguesas garantiram que testemunharam as aparições da Virgem, e quem revelou a elas os chamados três Segredos de Fátima, relatados por Lúcia, que morreu em 2005, para quem também foi aberto um processo de beatificação.

O papa Francisco chegará ao Santuário de Fátima na sexta-feira, dia 12 de maio, e, na base aérea de Monte Real, terá um encontro privado com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.

No dia seguinte, visitará a Basílica de Nossa Senhora do Rosário e celebrará uma missa na esplanada do santuário e onde canonizará as duas crianças. Francisco será o quarto pontífice que visitará Portugal, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).

Edição: Kleber Sampaio



sábado, 25 de março de 2017

Papa argentino fará 30 brasileiros se tornarem santos católicos


Sim, é isso mesmo o que você leu, numa só penada papal 30 brasileiros serão canonizados, ou seja, elevados aos altares para veneração católica, segundo informa o Estadão.

Depois dessa, pelo menos os católicos brasileiros (sobretudo os pernambucanos e potiguares) nunca mais permitirão que alguém fale mal de argentinos perto deles.

Para não perder a paródia futebolística, que envolve o bispo de Roma, os vilões da história são um punhado de holandeses e um alemão, protestantes e calvinistas, como (não) pedia a ocasião.

No fundo, a gente faz essas pequenas brincadeiras apenas para tentar atenuar um pouco (o que é impossível) o horror dos fatos ocorridos no século XVII, em nome da religião, durante as invasões holandesas do território (então português) hoje conhecido como Brasil.

Eis a matéria:

Brasil terá mais 30 santos católicos

Papa Francisco aprova canonização de beatos assassinados em 1645 em duas igrejas do Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa

José Maria Mayrink

O papa Francisco aprovou nesta quinta-feira, 23, a canonização de 30 beatos brasileiros que foram massacrados em 1645 nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa do Nordeste, por se negarem a abjurar da fé católica e aderir ao calvinismo, religião dos invasores. Os futuros santos serão André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos, Mateus Moreira e outros 27 companheiros leigos.

“Ficamos muito felizes, pois esta canonização é uma grande bênção para a Igreja e com certeza vai reavivar a fé e a devoção dos fiéis”, disse o arcebispo de Natal, d. Jaime Vieira Rocha, após receber a notícia da aprovação do papa. Os 30 brasileiros foram beatificados em março de 2000 por João Paulo II. O cardeal d. Cláudio Hummes, que foi arcebispo de Fortaleza, ajudou a levar adiante a causa dos mártires e, no ano passado, confidenciou a d. Jaime que Francisco estava interessado na canonização.

Foram dois massacres coletivos: o primeiro em 15 de julho, em Cunhaú, atualmente município de Canguretama, e o segundo em 3 de outubro, em Uruaçu, hoje município de São Gonçalo do Amarante. Segundo relatos da época, mais de 70 pessoas foram assassinadas, mas a Congregação para as Causas dos Santos reconhece apenas o martírio daqueles cujos nomes são conhecidos. Na cerimônia de beatificação, João Paulo II chamou os novos beatos de protomártires e disse que eles eram exemplos e defensores da fé cristã.

Os massacres foram executados por índios tapuias e soldados holandeses, sob comando de Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas. As vítimas foram mortas em um domingo, durante a missa celebrada pelo padre Ambrósio Ferro. Após a consagração da hóstia e do vinho, a tropa holandesa trancou as portas da igreja e, após um sinal de Rabbi, os índios chacinaram os fiéis.

Com a notícia das atrocidades em Cunhaú, o medo se espalhou pelo Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. Com razão. Outra vez sob as ordens de Jacob Rabbi, um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais o padre André de Soveral, foi massacrado. Além dos padres André de Sandoval e Ambrósio Ferro, foram mortos os leigos Mateus Moreira e seus 27 companheiros que serão transformados em santos. O camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Emissários do governo holandês enviados para investigar os massacres constataram a prática de violência, atrocidade e crueldade. Cronistas da época relatam que em Uruçu a crueldade foi maior. Os índios e a tropa holandesa fecharam as portas da igreja e mataram os católicos ferozmente. Arrancaram línguas, deceparam braços e pernas, cortaram crianças ao meio e degolaram corpos. A história dos massacres foi pesquisada na Torre do Tombo, em Portugal, e no Museu de Ajax, na Holanda. Segundo documentos levantados, os holandeses ofereceram aos católicos a opção de salvar a vida, se eles se convertessem ao calvinismo.

Data. D. Jaime pensou na hipótese de a canonização ser em outubro deste ano, se Francisco viesse ao Brasil por ocasião da comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como não virá, a cerimônia deverá ser celebrada no Vaticano, em data a ser marcada. Milhares de devotos celebram a memória dos mártires nos meses de julho e de outubro. Há celebrações frequentes também nas quatro paróquias dedicadas aos beatos no Rio Grande do Norte.



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Perseguição matou 90 mil cristãos em 2016


Tragicamente, o número de muçulmanos mortos - em geral por outros muçulmanos - não é muito diferente. 

A informação é da Rádio Vaticano:

Segundo estimativas, 90 mil cristãos foram mortos em 2016

Roma (RV) – A Igreja festeja neste 26 de dezembro Santo Estêvão, o primeiro mártir. A perseguição não é um fenômeno esporádico na história do cristianismo, mas marcou profundamente a vida dos cristãos até os dias de hoje, em muitos países do mundo.

O próprio Papa tem reiterado em diversas ocasiões, que a violência contra os cristãos é mais intensa hoje do que nos primeiros tempos da Igreja.

O Diretor do Centro de Estudos Novas Religiões, Prof. Massimo Introvigne, falou à Rádio Vaticano sobre esta perseguição, baseado em estimativas que indicam que 90 mil cristãos foram mortos devido à sua fé em 2016, ou seja, um a cada seis minutos. Por outro lado, entre 500 a 600 milhões de cristãos não podem professar sua fé de modo totalmente livre no mundo de hoje:

“O reconhecido Center for Study of Global Christianity publicará no próximo mês a sua estatística 2016, que fala de 90 mil cristãos mortos pela sua fé, um morto a cada 6 minutos, um pouco menos do que os 105 mil mortos há dois anos. Deste, 70 % (63 mil), foram mortos em conflitos tribais na África. O Centro estadunidense os inclui na estatística, porque considera que em grande parte trata-se de cristãos que se recusam a pegar em armas por razão de consciência. Os outros 30%, ou seja, 27 mil, derivam, pelo contrário, de atentados terroristas, destruição de povoados cristãos, perseguições governamentais, como no caso da Coreia do Norte”.

RV: Mas, em relação aos cristãos perseguidos em todo o mundo, existe alguma estimativa?

“Confrontando as estatísticas de pelo menos três diversos Centros de pesquisa dos Estados Unidos, e também do meu, o Censur, e comparando os dados de 102 diferentes países, as estimativas variam de 500 a 600 milhões de cristãos que não podem professar a própria fé de modo totalmente livre. Sem querer esquecer ou diminuir os sofrimentos dos membros de outras religiões, os cristãos são o grupo religiosos mais perseguido no mundo. Alguém pode ficar perplexo diante das estatísticas, pois em algum lugar o Center for Study of Global Christianity nos dá esta cifra de 90 mil, enquanto outros nos falam de alguns milhares, outros ainda de algumas centenas. Quando as discrepâncias são assim grandes, é claro que estão sendo consultadas fontes diversas. Quem conta as pessoas colocadas diante - conscientemente - à trágica escolha: “Ou renegues a tua fé ou morrerás”, conta a cada ano centenas. Quem tem uma noção um pouco mais ampla: não “candidatos à beatificação”, mas pessoas que consideram que poderiam ser mortas realizando certos gestos ou práticas de fé, fala de algumas milhares. Se, porém, se fala que são mortas no sentido estreito porque são cristãs, então chegamos aos 90 mil, ou seja, um morto a cada seis minutos”.

RV: Não se pode que não recordar aquela que é a brutal perseguição contra os cristãos, e não somente, perpetrada pelo autoproclamado Estado Islâmico nos territórios conquistados. Existem exemplos de cristãos que perderam a vida por permanecerem fieis ao Senhor nestes territórios?

“Sim, nos territórios do autoproclamado Estado Islâmico existem diversos casos, entre os quais a Igreja está estudando em vista de uma possível beatificação; existem cristãos que escolheram conscientemente permanecer nestes territórios e continuar, como podiam, testemunhar a sua fé. Falando do Estado Islâmico, não devemos esquecer que o Estado Islâmico mata também muitos muçulmanos e que, em 2016, segundo as nossas estimativas, o número de cristãos mortos pela sua fé e o número de muçulmanos mortos pela sua fé – caso se fizer exceção à África, mas falamos de outros continentes, em particular a Ásia – é um número muito semelhante. Os muçulmanos, no geral, são mortos por outros muçulmanos: os muçulmanos xiitas, muçulmanos que não estão de acordo com uma certa declinação do Islã, são mortos por muçulmanos mais extremistas, como no caso do Isis”.

RV: O que mais toca neste caso das perseguições?

“Dois pontos. O primeiro é que um pouco em todos os países cresce a intolerância e a intolerância é a entrada para a discriminação que depois, por sua vez, é a entrada para as perseguições. E depois o comportamento calmo, nobre, muitas vezes exemplar de minorias cristãs submetidas a todo tipo de opressões, mas que somente em casos raríssimos responderam à violência com a violência, enquanto na maior parte dos casos testemunharam serenamente a sua fé, muito frequentemente perdoando seus perseguidores e rezando por eles”.

(je/dd)



terça-feira, 29 de novembro de 2016

O desafio de (ainda) ser cristão no Iraque


Um dia, no futuro, quando alguém escrever a história atualizada do cristianismo, pelo menos um capítulo especial será reservado para o exemplo de força e fé que poucos, mas valorosos cristãos estão vivendo (e sobrevivendo) diariamente no Oriente Médio.

A matéria é da BBC Brasil:

‘Destruam nossos filhos antes de nossas igrejas’: cristãos iraquianos falam sobre devastação deixada pelo EI em Mossul

Quando o Estado Islâmico (EI) avançou sobre o território do Iraque, em 2014, milhares de cristãos foram os primeiros a deixar o país. Os poucos que restaram sob domínio do EI foram mortos ou forçados a se converter ao Islã. Agora, com a ofensiva do exército iraquiano sobre o local, alguns cristãos estão retornando às suas casas – e à sua religião.

Mossul, segunda maior cidade do Iraque, foi tomada pelo EI em junho de 2014. Localizada em uma província rica em petróleo e próxima da Síria - e das posições do EI no deserto - a cidade se tornou símbolo do poder dos extremistas. Foi ali que seu líder máximo, Abu Bakr al-Baghdadi, proclamou um "califado".

Por isso, desde o dia 17 de outubro, uma força de ataque formada por 50 mil combatentes iraquianos, entre soldados, guerrilheiros peshmerga (como são conhecidos os curdos iraquianos), tribos sunitas e milicianos xiitas – assistidos por aviões militares e consultores de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos – luta para reconquistar Mossul.

A batalha ainda está longe do fim, mas muitos têm conseguido escapar em meio aos combates e fugir para campos de refugiados ou para outras cidades no Iraque.

Uma delas é a cidade de Qaragosh. No mês passado, o exército iraquiano retomou o controle sobre a cidade, considerada a mais importante para os cristãos locais antes da invasão. Lá, as igrejas foram destruídas, estátuas de Maria decapitadas e crucifixos queimados pelo EI.

“Eu preferia perder meus filhos do que ver a igreja assim”, disse uma mulher à BBC.

Já Ismail, um jovem de 16 anos, e sua mãe foram forçados pelo Estado Islâmico a se converter ao Islã. “Eles me disseram ‘não há outro Deus além de Alá’ e ‘você será um muçulmano’. Eu disse ‘não há outro Deus além de Jesus’ e ele me bateu”, contou.

"Ele apontou uma arma na minha cabeça e disse à minha mãe 'se você não se converter ao Islã, vamos matar seu filho'", disse Ismail à BBC.

De volta a uma igreja perto de sua casa, Ismail espera começar uma nova vida. Mas para ele - e para milhares de outros cristãos no Iraque - o futuro ainda é incerto.



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Martin Scorsese lança filme sobre origens do cristianismo no Japão


Sobre o tema e o livro que inspirou o filme, já publicamos aqui no blog:



O artigo abaixo foi publicado no blog Carmadélio:

‘Silêncio’, o novo filme de Martin Scorsese sobre os cristãos perseguidos no Japão

Após uma acidentada rodagem, o diretor de formação católica, apresentará em dezembro o drama de dois jovens jesuítas que vão ao Japão em busca de um missionário que perdeu sua fé após sofrer inúmeras torturas.

O diretor de cinema Martin Scorsese, finalmente irá estrear, em dezembro, seu aguardado filme Silêncio. Um filme que está na mente do cineasta desde 2004 e que contará o drama dos cristãos perseguidos no Japão dos samurais

Scorsese, de formação católica, explica que a história será protagonizada por Liam Neeson, Adam Driver e Andrew Garfield, e tratará de dois jovens jesuítas que vão ao Japão em busca de um missionário que perdeu sua fé após sofrer inúmeras torturas. Ali viverão a experiência da perseguição.

O filme, produzido pela Paramount, viveu uma rodagem muito acidentada durante as 14 semanas de filmagens em Taiwan. Segundo conta Religión en Libertad, em janeiro de 2015, um teto caiu, causando a morte de um funcionário e ferindo outros três.

O diretor baseou o roteiro do seu filme no romance Silêncio, do escritor católico japonês Shusaku Endo (1913-1997). Uma história ambientada no Japão dos séculos XVI e XVII, e que se centra principalmente no choque de mentalidades entre a espiritualidade dos jesuítas espanhóis e portugueses e o pragmatismo materialista dos japoneses.

O autor escreveu este romance após anos de estudos da literatura cristã francesa e de autores como Paul Claudel ou Emmanuel Mounier.

A perseguição de cristãos no Japão

As primeiras perseguições de convertidos japoneses aconteceram em nível local, provocadas principalmente pelos protestantes ingleses e holandeses, pelo clero budista e a nobreza. Os ataques aconteceram até 1873, chegando a se expandir por todo o império

O romance conta como os jesuítas começam a pregar no país sob o assédio das autoridades. A perseguição fez os religiosos e o padre Sebastián Rodríguez, enviado ao Japão para consolar os que ali se encontravam e julgar um padre apóstata, se colocarem a questão de se realmente valia a pena sofrer tantas desgraças, inclusive quem é verdadeiramente Jesus e o papel de Deus.

Os missionários católicos chegaram ao Japão em 1549 e embora, em um princípio, a fé cristã parecesse não tocar a comunidade nipônica, finalmente se estabeleceu no país. Em 1600, já havia 95 jesuítas estrangeiros no país (57 portugueses, 20 espanhóis, 18 italianos) e ao menos 70 jesuítas nativos do Japão.

O auge do cristianismo provocou, em 1614, o início de uma perseguição sistemática contra os cristãos e que se proibisse os padres de continuarem sua pregação. Desse momento em diante, o cristianismo entrou na clandestinidade e, segundo os historiadores, pelo menos 18 jesuítas, sete franciscanos, sete dominicanos, um agostiniano, cinco sacerdotes seculares e um número desconhecido de jesuítas nativos foram descobertos e executados.

A perseguição provocou mil mártires diretos e milhares de cristãos leigos morreram por causa de doenças e da pobreza aos sofrerem o confisco dos seus bens.

Durante 240 anos o Japão permaneceu fechado ao mundo e embora algumas comunidades tenham tentado manter o cristianismo sem contato com o exterior e sem sacerdotes, o número de católicos diminuía e iam se afastando do cristianismo.

Fonte: Actuall



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Há exatos 400 anos um samurai chegou ao Vaticano

Hasekura Tsunenaga, um samurai no Vaticano em 1615

Sim, é exatamente isso o que você leu no título acima: em 3 de novembro de 1615 não só um, mas cerca de 20 samurais (não se tem certeza sobre este número) e 120 mercadores japoneses chegavam ao Vaticano, onde foram recebidos pelo papa Paulo V.

Soa estranho aos ouvidos modernos saber que, 400 anos atrás, os japoneses percorreram meio-mundo com os galeões de então para chegar a Roma.

Se ainda hoje, apesar da tecnologia e da comunicação global, existe o inevitável choque cultural entre Ocidente e Oriente, imagine o que isso representava no século XVII.

O líder da caravana nipônica - chamada de Missão Keichō (慶長使節) - era o samurai Hasekura Tsunenaga (支倉六右衛門常長), a mando de Date Masamune (伊達政宗), senhor feudal de Sendai, cidade que este último fundara na região de Tōhoku.

Masamune era, digamos, simpatizante do catolicismo e havia conseguido convencer o xogum (将軍) Ieyasu Tokugawa (徳川家康) a enviar uma delegação diplomática para a Espanha e o Vaticano, a fim de negociar um tratado de comércio com os países europeus.

Numa definição abreviada assumidamente insuficiente, o xogunato (ou shogunato) era um sistema de dominação militar do sistema feudal japonês do século XVII, e Ieyasu Tokugawa foi o primeiro xogum (ou shogun). 

Pelo menos na teoria estava subordinado única e exclusivamente ao Imperador, mas na prática - como você vai ver no desenrolar dessa história - era ele quem mandava.

O xogunato inaugurado por Tokugawa ficou conhecido por seu nome e durou até a Restauração Meiji (明治維新) de 1868, quando o imperador centralizou o poder, extinguiu o regime feudal, tirou muitos dos privilégios dos samurais e país do sol nascente se abriu para o mundo.

O cristianismo havia sido levado ao Japão por Francisco Xavier (o mesmo que foi canonizado em 1622) em 1549, e sempre enfrentou grandes dificuldades com os senhores feudais locais, mas aos poucos foi se imiscuindo na fechadíssima (e xenófoba) sociedade japonesa de então.

O xogum Tokugawa tinha lá suas dúvidas e seu humor era bastante instável para com os missionários católicos.

Ao que tudo indica, Date Masamune não se converteu ao catolicismo, mas exerceu sua influência junto ao xogum para enviar uma missão à Europa, sendo que alguns estudiosos dizem que ele estava muito mais interessado num intercâmbio comercial e - sobretudo - tecnológico do que em matéria de fé.

A primeira missão diplomática à Europa, conhecida como Embaixada Tenshō (天正の使節) já havia visitado o Vaticano em 1585, costeando a Ásia e a África até chegar em Portugal.

A embaixada Keichō fez outro caminho, saindo do Japão em 28 de outubro de 1613 e se aventurando pelo Oceano Pacífico a bordo do galeão Date Maru (chamado de San Juan Bautista pelos espanhóis) até a então colônia do México, onde desembarcaram em Acapulco em 25 de janeiro de 1614.


Réplica do Date Maru em exposição em Ishinomaki, Japão

Em 10 de junho de 1614, Hasekura Tsunenaga e sua comitiva embarcaram em outro galeão espanhol e, passando por Cuba, tomaram outra embarcação até a Espanha, onde chegaram em 5 de outubro de 1614.

A embaixada japonesa só foi se encontrar com o rei Felipe III em 30 de janeiro de 1615, foram bem recebidos e o monarca ficou de pensar na proposta de acordo comercial com Date Masamune.

Passaram ainda pela França até chegar ao Vaticano em 3 de novembro de 1615, onde foram recebidos pelo papa Paulo V, que se comprometeu a enviar mais missionários ao Japão e também a intervir junto ao rei de Espanha para que os dois países chegassem a um acordo de comércio.

Os japoneses então retornaram para Madri, mas ao ali chegarem, receberam péssimas notícias vindas de sua terra natal, que eles haviam deixado mais de 2 anos antes.

Naquele meio-tempo, o xogum Tokugawa havia definitivamente mudado de opinião sobre os cristãos, e em janeiro de 1614 baniu os missionários católicos do Japão, o que levou a uma perseguição terrível contra aqueles que haviam se convertido à religião ocidental.

Oficialmente, o xogum já era seu filho, Tokugawa Hidetada (徳川 秀忠), mas - apesar de "aposentado" - quem mandava de fato era Ieyasu.

A partir de então, a embaixada de Tsunenaga estava condenada ao fracasso. Sem conseguir um tratado comercial com o rei de Espanha, ele ainda retornou ao México, voltando de lá ao Japão, onde encontrou um país completamente mudado pelo menos no que dizia respeito à tolerância religiosa.

O próprio Masamune havia banido o cristianismo de suas terras, em obediência ao decreto do xogum Tokugawa.

Muitos cristãos foram martirizados por não renunciarem à sua fé, outros tantos tiveram que praticá-la em segredo, e boa parte desse conturbado período pode ser lido no excelente livro "O Silêncio", de Shusaku Endo (Editora Planeta, 2011).

400 anos se passaram, muita coisa mudou, e hoje - 3 de novembro de 2015 - uma comitiva de católicos japoneses, liderada pelo bispo Tetsuo Hiraga, vai participar da tradicional audiência coletiva que o papa Francisco dá às quarta-feiras, relembrando a épica e infeliz jornada de 4 séculos atrás.

Entre eles estará Date Yasumune, da 18ª geração dos descendentes de Date Masamune, segundo relata o Vatican Insider.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Por que é a Rússia que protege os cristãos sírios?


Gustavo Chacra responde essa pergunta em sua coluna no Estadão:

Por que a Rússia, e não o Ocidente, defende os cristãos na Síria?

Já escrevi no passado, mas volto a escrever hoje. Nos EUA, alguns políticos, como os pré-candidatos republicanos Ted Cruz e Marco Rubio, dizem estar preocupados com os cristãos no Oriente Médio. Não duvido da intenção deles. Acho que é genuína. Mas, talvez por ignorância, eles costumam sempre se posicionar contra os lados que defendem os cristãos.

Noto que, muitas vezes, estes lados não são necessariamente os “bonzinhos”. Na Guerra da Síria, por exemplo, todos os lados, sem exceção, são ruins. Mas o fato é que os cristãos sírios, em sua maioria, se sentem protegidos pelo regime de Bashar al Assad, pelo Irã, pelo Hezbollah e, acima de tudo, pela Rússia.

Não que eles gostem do líder sírio, do regime de Teerã e do grupo xiita libanês. Alguns gostam, outros, não. Mas se sentem protegidos por eles diante da ameaça de grupos rebeldes opositores ultra radicais islâmicos, seguindo a ideologia wahabbita do islamismo sunita. Sabem também que, entre os grupos armados da oposição, todos são extremistas, não apenas o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh.

Rubio, Cruz e outros políticos dos EUA, e também algumas igrejas evangélicas americanas, se posicionam justamente contra quem defende os cristãos – ou diretamente contra as milícias cristãs pró-regime. Pode até ser legítimo, caso, por exemplo, pensem na segurança de Israel. O Hezbollah e o Irã são inimigos mortais dos israelenses e possuem dezenas de milhares de mísseis no sul do Líbano apontados para Tel Aviv e Haifa. Também vale o argumento caso queiram se posicionar contra um regime que cometeu crimes contra a humanidade, segundo a ONU, como o de Assad. Mas não vale caso eles digam que querem defender os cristãos.

A Rússia entende melhor o cenário na Síria. Entrou no conflito por uma série de motivos que eu delineei em outro post. Entre eles, para defender os cristãos. É importante notar que a maior parte dos cristãos sírios são ortodoxos, com minorias melquitas, maronitas e assírias. Estes cristãos não se identificam com os evangélicos do Ocidente. Mas se identificam e muito com a Rússia, maior nação cristã ortodoxa do mundo.

Ontem, o Patriarca Russo defendeu a intervenção de Putin na Síria dizendo que isso é fundamental para defender os cristãos. Ao longo do conflito, o maior líder cristão da Rússia também declarou uma série de vezes apoio ao regime de Bashar al Assad por proteger os cristãos. Outros patriarcas cristãos do mundo árabe realizaram reunião ecumênica recentemente em Damasco para apoiar o líder sírio – Damasco é sede de quatro patriarcados cristãos.

Ao longo destes meus anos cobrindo o conflito, sempre fiquei surpreso como muitas vezes o Ocidente não entende o cristianismo oriental. A França até entendia os ocidentalizados e francófonos cristãos maronitas de um Líbano que deixou de existir em 1975. Hoje, nem os franceses.

Já os russos, por incrível que pareça, são os que melhor leem a situação dos cristãos. Nos EUA e mesmo no Brasil, infelizmente, pessoas que talvez sejam bem intencionadas entendem completamente errado a situação dos cristãos. Por exemplo, Ted Cruz ter sido vaiado por cristãos destes lugares quando defendeu Israel em palestra. O senador pelo Texas achava que os cristãos sírios fossem defensores dos israelenses. Coitado. Nunca havia conversado com um cristão de Damasco antes.

Lembrando, sempre, que o mais importante é defender seres humanos, sejam eles cristãos, muçulmanos, judeus ou ateus.



segunda-feira, 27 de abril de 2015

Muçulmano estava entre cristãos etíopes executados pelo Estado Islâmico


A matéria é do IHU:

É muçulmano, mas escolhe morrer com os cristãos

Ele também estava entre os 28 etíopes assassinados (decapitados) pela Isis na Líbia e mostrados no enésimo vídeo de terror de Al Furgan, a máquina da propaganda do califado. Foi morto também ele, Jamal Rahman, migrante, mesmo sendo de família muçulmana. Por quê? Porque teria se oferecido como refém para não deixar os amigos cristãos.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada pelo sítio Vatican Insider, 23-04-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

É uma história contada por Giorgio Bernardelli no “Mission Line”, revista do Pontifício Instituto de Missões Exteriores (PIME). Quem confirmou a notícia “foi uma fonte altamente longe de suspeitas: um membro da milícia do Al Shabab, os fundamentalistas islâmicos da Somália”.

Existem duas versões que explicam o ocorrido: uma se referindo a “um jornal on-line da Somália”: sustenta a “estranheza” dizendo que “havia sido convertido ao cristianismo durante a viagem”; a outra, que o PIME adota, é “muito mais verossímil, contada em ambientes jihadistas: o muçulmano Jamal “loucamente” teria se oferecido voluntariamente aos jihadistas como refém, por solidariedade com o amigo cristão com o qual estava viajando. Talvez pensasse que a presença de um muçulmano no grupo teria ao menos salvo a vida de outras pessoas”; não foi o que ocorreu: Jamal também foi assassinado, “como um renegado”.

Essa história e essa escolha de Jamal Rahman lembram aquelas de Mahmoud Al’ Asali, o professor universitário muçulmano que no último verão, em Mossul, “se declarou publicamente contra a perseguição de cristãos na cidade”. Ele também morreu para pagar pelo seu comportamento.



sábado, 18 de abril de 2015

Dietrich Bonhoeffer, 70 anos depois de sua morte

No dia 9 de abril de 1945, um mês antes da capitulação da Alemanha nazista frente aos aliados, Dietrich Bonhoeffer foi enforcado nu por ter tido a coragem de se opor à insanidade que havia tomado conta do país.

Em homenagem ao grande teólogo protestante alemão, reproduzimos o artigo abaixo publicado no IHU:


O desafio de Bonhoeffer ao nazismo.
Artigo de Alberto Melloni


Bonhoeffer não é um homem forçado a viver sob o nazismo: ele poderia ter ficado nos Estados Unidos ou em Londres, onde ele tinha sido levado pelo seu trabalho como teólogo e onde sonhou um concílio de todas as Igrejas para anunciar a paz de Cristo ao mundo em delírio.

A opinião é de Alberto Melloni, historiador da Igreja, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 09-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Era dezembro de 1931. Um jovem livre professor evangélico, pároco dos estudantes da escola técnica de Berlim, ávido leitor do livro de capa violeta de Otto Dibelius, O século da Igreja, vai escutar uma palestra do admirado teólogo, superintendente geral da Igreja Luterana em Berlim.

E conta a Erwin Sutz a cena hilariante que se revela a ele: "Dibelius nos informou em uma conferência sobre o fato de que a Igreja tem 2.500 estudantes a mais e que, por isso, aos teólogos poderão ser feitos pedidos particulares, incluindo, em primeiro lugar, a disponibilidade ao martírio, em uma luta em que estariam entrelaçados ideais políticos e religiosos! (...). Os ouvintes pisoteavam como loucos: viva a 'Igreja violeta'".

O ouvinte afiado e cortante daquela infantil arrogância era Dietrich Bonhoeffer: jovem teólogo de alta linhagem acadêmica (o bisavô era o historiador da Igreja Karl August von Hase, chamado por Goethe a Jena, o avô era o pregador da corte Karl Alfred), cuja figura e cuja obra marcam um antes e um depois na história do cristianismo.

Bonhoeffer não é um homem forçado a viver sob o nazismo: ele poderia ter ficado nos Estados Unidos ou em Londres, onde ele tinha sido levado pelo seu trabalho como teólogo e onde sonhou um concílio de todas as Igrejas para anunciar a paz de Cristo ao mundo em delírio.

De volta à pátria, trabalhou no seminário clandestino da Igreja Confessante, na que Dibelius também tinha entrado: e aceitou entrar na contraespionagem alemã, posição essencial para uma ação de resistência que visava a matar Hitler.

Preso no dia 5 de abril de 1943, deu-se conta, depois do fracasso do complô de Canaris, que não tinha saída e, da prisão de Tegel, escreveu, em forma de pensamentos, cartas e poesias, textos que cumpriam o percurso teológico iniciado com a tese sobre a Communio sanctorum em 1927 e que continuou nos cursos (o de 1932 saiu em italiano no dia 22 de abril, com o título Tra Dio e il mondo [Entre Deus e o mundo], pela editora Castelvecchi, traduzido por Nicholas Zippel, p. 64 e 69).

Assim, naquela série de textos que seria reunida com o título Resistência e submissão, Bonhoeffer marca uma ruptura no modo de pensar Deus com uma "fé concreta". Em torno dessa interrogação da responsabilidade se desdobrará a sua vida como prisioneiro até o dia 9 de abril de 1945, quando, em uma Alemanha já derrotada, Bonhoeffer foi levado ao castelo de Flossenbürg, submetido a um processo rocambolesco para salvar as formas e enforcado pouco antes da chegada dos Aliados.

Bonhoeffer não vive esse trajeto com a alma febril dos pisoteadores exaltados da "Igreja violeta", mas com a dolorosa ternura de quem viu a dupla "substituição vicária" da Igreja e do mundo, colocada, uma, lá onde deveria estar o outro, em um deslocamento em que o Cristo se revela como tal "para o mundo" e não "para si mesmo".

Ele já tinha escrito isso em uma pregação de 1932: "É possível que o cristianismo, iniciado de modo tão revolucionário, seja agora e para sempre conservador? (...) Se é realmente assim, não devemos nos admirar que até mesmo a nossa Igreja volte ao tempo em que será pedido o sangue dos mártires. Mas esse sangue, admitindo-se que ainda tenhamos a coragem, a honra e a fidelidade para derramá-lo, não será tão inocente e luminoso como o das primeiras testemunhas. Sobre o nosso sangue, haverá o peso de uma nossa grandes culpa: a culpa do servo inútil, que é jogado para fora, nas trevas".

Mas, ao se reconhecer assim, ele descobre a graça cara. E, ao mesmo tempo, descobre que somente "o Christus intercedens nos assegura da graça de Deus".



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Há exatos 70 anos 3 jovens foram executados por terem se oposto a Hitler

Hans Scholl, Sophie Scholl e Christoph Probst
Três jovens heróis para todos os tempos.
Eles venceram.

No dia 22 de fevereiro de 1943, três jovens alemães foram executados. Eram eles os irmãos Sophie e Hans Scholl, mais o amigo Christoph Probst.

Os três haviam sido presos no dia 18 de fevereiro, por distribuírem panfletos contra Hitler, isto numa época em que o apoio popular ao Führer era maciço e os ventos acabavam de começar a virar na guerra, depois da (então recentíssima) derrota em Stalingrado.

Os três jovens eram militantes da organização Rosa Branca (Weisse Rose), haviam participado das organizações nazistas para a juventude, mas já haviam percebido a monstruosidade que haviam apoiado, e agora tratavam de combatê-la com os seus parcos recursos.

Boa parte da fonte de sua rebeldia (quando a imensa maioria apoiava o regime) veio de sua inspiração cristã e do valor que aprenderam a dar à vida e à dignidade humana.

Isto muito antes da resistência alemã chegar às altas esferas militares, o que resultou no atentado contra Hitler em 20 de julho de 1944 (a chamada "Operação Valquíria").

Roland Freisler, o "juiz"
O sangue dos inocentes tingia
de vermelho a sua toga
Os quatro dias que separam a sua prisão de sua execução mostram a crueldade do regime jurídico que imperava na Alemanha à época, e foram julgados pelo vergonhoso juiz Roland Freisler, que - após desonrar repetidas vezes o Direito e a Justiça - viria a morrer num bombardeio aliado em 3 de fevereiro de 1945.

Foi um trabalho de formiguinha mesmo, do beija-flor que vai buscar água no lago para apagar o incêndio na floresta, que deixou um legado de bravura e honra que até hoje cercam os seus nomes, e merecem ser sempre lembrados para que desgraças como esta jamais se repitam.

Sophie, Hans e Cristoph não são só heróis alemães, mas de toda a humanidade. Merecem todas as homenagens enquanto houver mundo e pessoas dispostas a lutar pela Justiça e contra a barbárie de qualquer matiz.

E onde quer que a liberdade seja defendida e desfrutada, os seus nomes e suas curtas (mas gigantescas) histórias de vida devem sempre estar presentes.

A história dos três jovens foi contada no tristemente maravilhoso filme "Uma Mulher Contra Hitler" (trailer no vídeo abaixo):


A matéria é do Terra:

Há 70 anos, nazistas executavam irmãos símbolos da resistência

Hans e Sophie Scholl foram executados por participarem do movimento anti-Hitler Rosa Branca

Em 15 de fevereiro de 1943, pouco antes da meia-noite, três rapazes caminhavam em direção ao centro de Munique. Seus nomes eram Hans Scholl, Alexander Schmorell e Willi Graf. Todos pertenciam ao grupo Weisse Rose (Rosa Branca), movimento de resistência contra Adolf Hitler e sua ditadura. Por isso, levavam cerca de mil panfletos, denunciando em termos explícitos o regime nazista e seus crimes.

Eles depositavam os folhetos em diferentes caixas postais, para que o correio os fizesse chegar aos destinatários. Mas Scholl e Schmorell tinham um plano bem mais ousado: sob o manto da noite, com um estêncil e tinta preta, escreveram "Abaixo Hitler" na fachada da Chancelaria da Baviera, a sede do governo daquele Estado no sul alemão. Em outro ponto, foram ainda mais explícitos: "Hitler assassino de massa". Na Franz Joseph Strasse 13, a irmã mais jovem de Hans, Sophie Scholl, esperava o retorno dos três.

Caminho para a resistência

Sophie Scholl
Os irmãos Scholl viviam com a família na pacata cidade de Ulm quando os nazistas chegaram ao poder, em 1933. Ambos ainda estavam na escola: Hans nascera em 1919, Sophie, em 1921. O pai, Robert Scholl, trabalhava como consultor fiscal para sustentar os cinco filhos e, como liberal, não tinha muita simpatia pelos novos governantes. Ele e a esposa Magdalena procuravam educar as crianças segundo o modelo cristão da tolerância.

Mas os filhos dos Scholl ficaram fascinados pelos nazistas. Hans fez rápida carreira na Juventude Hitlerista, a organização juvenil dos nacional-socialistas. Aos 16 anos, já comandava 160 jovens da entidade. Sua irmã mais nova, Sophie, também tivera forte simpatia pelo nazismo. Ela se juntou à Liga das Moças Alemãs, o braço feminino da Juventude Hitlerista. Assim como seu irmão, Sophie subiu logo a uma posição de liderança e era, segundo se recorda uma testemunha da época, "muito entusiasmada, muito fanática pelo nacional-socialismo".

Mas em 1942, os irmãos já tinham perdido a crença em Hitler e seu regime. Ambos se deram conta de que sua fé cristã e crenças morais não eram compatíveis com os objetivos nazistas. Hans começou a nutrir a convicção de que deveria fazer algo contra o regime criminoso. Convocado em 1942, viu em primeira mão os horrores da guerra. E também estava profundamente preocupado com o destino dos judeus perseguidos e deportados.

"Viva a liberdade!"

Hans Scholl
Já em 1942, Hans Scholl tinha reunido na Universidade de Munique um pequeno grupo disposto a combater o nazismo. Dele fazia parte o professor de Filosofia Kurt Huber, e Christoph Propst, Alexander Schmorell e Willi Graf, todos estudantes de Medicina, assim como Hans. Sophie Scholl se uniu a eles em maio de 1942, quando também se mudou para Munique, a fim de estudar Biologia e Filosofia.

"Panfletos da Rosa Branca" era como o grupo chamava seus manifestos, que enviavam por carta, colavam em cabines telefônicas ou depositavam em carros estacionados. Através de amigos e conhecidos, os escritos também eram propagados para além de Munique, por exemplo até Ulm, a cidade natal dos Scholl.

O sexto documento do Rosa Branca foi também seu último. Em 18 de fevereiro 1943, Sophie distribuía panfletos junto com seu irmão na universidade. Quando ela jogou uma pilha de papéis de um parapeito para o átrio da instituição, ambos foram descobertos e presos.

Funcionários da Gestapo assumiram os interrogatórios. Mesmo nessa situação desesperada, Hans e Sophie provaram ter fibra. Ambos tentaram assumir para si toda a culpa. Sophie Scholl declarou na cara do oficial que a interrogava que não queria "ter nada a ver com o nacional-socialismo".

As provas contra eles eram contundentes. No dia 22 de fevereiro de 1943, o chamado Tribunal Popular presidido por Roland Freisler anunciou as três sentenças de morte contra Hans, Sophie Scholl e Christoph Propst. Nesse mesmo dia eles foram executados. As últimas palavras de Hans Scholl foram "Viva a liberdade!".

Modelos morais 


Christoph Probst
"Eles nos permitem acreditar que nem todos os alemães naquela época eram colaboradores silenciosos e covardes", afirmou recentemente o presidente da Alemanha, Joachim Gauck, referindo-se à importância dos dois irmãos e do movimento Rosa Branca. "Não vamos silenciar, somos a consciência pesada de vocês, o Rosa Branca não vai deixar vocês em paz!", dizia o quarto panfleto do grupo. Essas palavras são válidas até hoje: os Scholl e seus amigos tiveram a coragem de defender as próprias convicções e resistir. Poucos foram tão corajosos na época.

Até hoje, eles são celebrados por essa bravura: quase todas as cidades alemãs de tamanho médio têm uma escola batizada com os nomes de Hans e Sophie Scholl. Há também ruas e praças em sua homenagem no país todo. O troféu Irmãos Scholl é um dos prêmios literários mais importantes da nação.

A história do movimento Rosa Branca é especialmente emocionante para estudantes e crianças. Franz J. Müller, um dos últimos sobreviventes daquele grupo, percebe esse interesse muito vivo nos jovens alemães. "Eles tendem a admirar o que fizemos. Mas Hans e Sophie não queriam ser heróis. Amizade e liberdade eram valores importantes para eles."

Criada por Franz J. Müller e outros membros do grupo de resistência, a Fundação Rosa Branca de Munique tem a missão de manter viva a memória dos Scholl. Os jovens são quem mais pode tirar uma lição dessa história. "Os colegiais devem se informar da maneira mais diversificada possível, e discutir com os amigos para não serem tão facilmente influenciados por slogans de propaganda e mostrarem coragem civil quando as liberdades estiverem ameaçadas", declara Franz J. Müller. Ou seja: eles deveriam absorver um pouco do exemplo dos irmãos Scholl e seus amigos.



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