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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Condenados 4 linchadores de mulher inocente no Guarujá (SP)

Fabiane Maria de Jesus,
vítima da "gente de bem".
Nesses tempos bicudos em que vivemos, em que não só a verdade morreu, mas foi acompanhada pela mentira, trituradas que foram ambas pela "pós-verdade" e pelos "fatos alternativos", ainda há uma réstia de esperança quando se pune indivíduos que agem impensadamente com base apenas nos boatos maldosamente espalhados pelas redes sociais.

Claro que muitos mais deviam ter sido processados e condenados nesse triste episódio do linchamento da inocente dona de casa, mas num país em que os programas policiais comandados por apresentadores fascistas e demagogos continuam incentivando julgamentos definitivos e apressados na televisão todo fim de tarde, talvez já seja um começo para deter esses canalhas e covardes, que - não raro - se autointitulam "gente de bem" e compartilham mensagens religiosas em seus grupos cibernéticos.

Hipócritas!!!

A notícia é do G1 Santos e Região:

Acusados de linchar dona de casa após boato na web são condenados

Três homens foram condenados a 40 anos de reclusão, e outro a 26.
Crime ocorreu em maio de 2014. Vídeo mostra momento de agressão.

Três acusados de terem participado da morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus foram condenados a 40 anos de prisão, e outro a 26 anos de reclusão, nesta sexta-feira (27). O julgamento foi realizado no Fórum de Santos, no litoral de São Paulo. A vítima foi linchada no dia 3 de maio de 2014 e morreu dois dias depois. O caso ocorreu no bairro Morrinhos III, em Guarujá. A defesa do grupo irá recorrer da decisão.

O crime aconteceu após uma foto ter sido divulgada, junto com um boato nas redes sociais, de que uma mulher parecida com Fabiane sequestrava crianças e as utilizava em rituais de magia negra.

Em outubro de 2016, Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 21 anos, já havia sido condenado a 30 anos de cadeia por participação no crime. Nesta sexta-feira, o juiz Edmundo Lellis Filho condenou Abel Vieira Batalha Júnior, de 21 anos, Carlos Alex Oliveira de Jesus, de 27, e Jair Batista dos Santos, de 38, a 40 anos de prisão em regime fechado. Valmir Dias Barbosa, de 51, foi condenado a 26 anos de detenção. Sua pena foi menor porque ele confessou participação no linchamento.

Imagens

Um vídeo divulgado na época do crime mostra Fabiane sendo carregada por diversos moradores do bairro Morrinhos III, logo após ela ter sido agredida. Convencidos de que ela seria a sequestradora de crianças cuja foto circulava por uma página do Facebook, alguns dos agressores amarraram os pulsos da mulher, que foi agredida repetidamente até a chegada da polícia.

Durante as investigações, cinco pessoas foram presas por terem participado do linchamento de Fabiane. Abel Vieira Batalha Júnior teria participado da agressão amarrando os pulsos da vítima e a arrastando pelo chão. Jair Batista dos Santos é acusado de agredir Fabiane, mas nega sua participação no linchamento. Lucas Rogério Fabrício Lopes teria passado por cima da dona de casa com uma bicicleta. Já Valmir Dias Barbosa foi reconhecido nas imagens do linchamento. Ele alegou ter filhos e que participou da ação por acreditar que as acusações à vítima eram verdadeiras. Carlos Alex Oliveira de Jesus aparece no vídeo segurando Fabiane pelos cabelos. Ele disse que não chegou a golpear a vítima, porque foi contido por duas primas.

Agressão

Fabiane Maria de Jesus tinha 33 anos, era casada e tinha duas filhas, uma de um ano e outra de 12. Ela tinha transtorno bipolar mas, segundo os familiares, não era uma pessoa agressiva.

Fabiane saiu de casa de bicicleta e foi até a igreja buscar uma bíblia que tinha esquecido no local. Depois, segundo a família, ela iria para a casa de uma prima, em Morrinhos III. De acordo com a polícia, ela foi abordada no caminho por um grupo de pessoas. Elas agarraram Fabiane, amarraram as mãos dela e a espancaram. O corpo dela foi arrastado até uma passarela. Ela foi encontrada por policiais militares em estado de saúde grave.

As cenas foram gravadas por um celular e mostram dezenas de pessoas ao redor de Fabiane. Algumas teriam visto, na página Guarujá Alerta, hospedada no Facebook, o retrato falado de uma mulher que estaria sequestrando crianças em Guarujá, e pensaram que se tratava de Fabiane.

Confusão

De acordo com o inquérito, o retrato falado atribuído a Fabiane havia sido feito por policiais do Rio de Janeiro, da 21ª DP (Bonsucesso), em agosto de 2012. Na ocasião, uma mulher foi acusada de tentar roubar um bebê do colo da mãe em uma rua de Ramos, na Zona Norte da cidade.

Imagens de câmeras de segurança divulgadas na época mostraram uma mulher passando com a filha de 15 dias no colo e sendo seguida pela suspeita. A vítima estava levando o bebê para fazer o teste do pezinho em um posto de saúde. Ao sair da unidade, foi surpreendida pela mulher.



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Evangélico inocente confundido com bandido é linchado no RJ


Quando nos debatemos aqui contra a histeria coletiva que quer fazer justiça com as próprias mãos, à la Rachel Sheherazade, logo aparece um monte de gente, boa parte deles se apresentando como "cristãos" e "evangélicos", para defender a barbárie.

Eles não conseguem compreender que o nosso maior medo é exatamente este: a morte de um inocente provocada pelo comportamento de manada de uma turba motivada pelo boato, pela fofoca, pelo pânico infundado e pelo raciocínio rasteiro (se é que se pode ser chamado de "raciocínio") de quem não pára 5 segundos para refletir.

Esta tragédia é agravada ainda mais em tempos de redes sociais, onde qualquer foto ou "notícia" compartilhada por alguém se torna instantaneamente verdade absoluta que demanda uma punição imediata sem que ninguém se dê ao cuidado de checar os fatos para confirmar a sua veracidade.

Não há maior desgraça para a Justiça (com "J" maiúsculo), como valor filosófico e fator de organização da sociedade, do que a condenação de um inocente e - pior ainda - de maneira sumária, instantânea, sem direito à defesa.

Por isso mesmo, evite acender o pavio da histeria coletiva. A vítima pode ser alguém que você conheça, ou até mesmo você...

A notícia é d'O Dia:

Homem amarrado e agredido no Grajaú não era bandido, diz polícia

Carlos Santos levou socos e pontapés e teve pés e mãos amarrados depois que mulher o acusou de ser assaltante

EDUARDO FERREIRA

Rio - Uma tentativa de justiçamento por pouco não provocou a morte de um homem inocente nesta quinta-feira no Grajaú, Zona Norte. Carlos Santos, 40 anos, foi acusado por uma mulher de ser assaltante e isso quase lhe custou a vida. Ele teve pés e mãos amarrados e foi agredido com socos e pontapés.

Espancada no meio da rua, a vítima precisou ser socorrida por bombeiros para o Hospital Federal do Andaraí, recebeu alta e foi à 20ª DP (Vila Isabel) prestar depoimento. Ninguém apareceu na delegacia para prestar queixa contra ele.

O espancamento ocorreu um dia após o governador Luiz Fernando Pezão visitar a 1ª Companhia Integrada de Polícia de Proximidade (CIPP), no Grajaú, e elogiar a queda da criminalidade da região. A base da CIPP fica a 800 metros do local onde Carlos foi agredido.

Ainda confuso e com hematomas na cabeça e no rosto Carlos contou na DP que estava a caminho de uma igreja evangélica na Rua Teodoro da Silva quando foi amarrado e espancado. Um testemunha, que não quis se identificar, disse ao DIA que o homem gritava muito e parecia estar alterado, no meio da Rua Barão do Bom Retiro.

Uma mulher teria se assustado com ele e corrido para uma padaria pedindo ajuda. Foi quando os "justiceiros" apareceram, amarraram Carlos e o agrediram.

A Polícia Civil informou que vai apurar quem são os agressores, fazer diligências e solicitar imagens de câmeras de segurança. Grávida de oito meses, Luciene Maria, 34, esposa de Carlos, espera justiça. “É muita maldade. Meu marido é trabalhador e nunca fez mal a ninguém”, contou.

Casos semelhantes em outros pontos da cidade

Vários casos de linchamento ocorreram nos últimos dias. Segunda-feira, um suspeito de estuprar uma mulher na comunidade do Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, sofreu várias agressões. Segundo a polícia, Sandro Roberto dos Santos, de 40 anos, foi socorrido e autuado em flagrante por tentativa de estupro. No último dia 20, um homem identificado como Newton Costa Silva foi linchado por 15 homens na Favela da Rocinha, na Zona Sul. Com um histórico de problemas psiquiátricos, ele teria sido torturado, espancado e morto após invadir uma casa vizinha.



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Revolução Francesa salva professor de linchamento em SP


Bom, não foi exatamente a Revolução, mas bombeiros letrados, e essa é uma daquelas notícias absurdas que, infelizmente, acontecem com uma frequência terrível no Brasil, segundo o Estadão:

Professor de história espancado afirma que foi confundido com ladrão por dono de bar

LAURA MAIA DE CASTRO

Bombeiros salvaram André Luiz Ribeiro de linchamento, mas duvidaram que ele era docente. Para provar, professor teve de falar sobre Revolução Francesa. 'Tive medo de ficar preso por meses', diz

SÃO PAULO - O professor de história André Luiz Ribeiro, de 27 anos, foi espancado na região de Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo, na última quarta-feira, 25, após ter sido acusado de roubar um bar. Segundo Ribeiro, um grupo de mais de 15 pessoas o agrediu por tê-lo confundido com um assaltante enquanto praticava cooper na região. Ele foi indiciado por roubo e passou dois dias presos antes de conseguir na Justiça a liberdade provisória.

Contra as agressões e o indiciamento, amigos, alunos e familiares marcaram um ato para às 18h desta terça-feira, 1.º, em frente ao 101.°DP (Jardim Embuais). Na internet, mais de 130 pessoas já compartilharam a foto de perfil do professor que mostra o rosto com hematomas após a tentativa de linchamento.

Ribeiro conta que era por volta das 19h da última quarta-feira quando saiu de casa para correr, como costuma fazer todos os dias. Ao passar pela Rua João Batista Gomes Ciqueira, em Balneário São José, notou olhares estranhos, mas decidiu continuar o exercício. "De repente veio um carro na minha direção.

Levantei as mãos na mesma hora achando que se tratava de um assalto, mas sem entender nada. Foi quando o dono do bar que tinha sido roubado e seu filho saíram do veículo e começaram a me agredir", disse Ribeiro.

O professor teve os braços e as pernas acorrentados e conta que levou chutes e socos pelo corpo. "Eu não tive tempo de dizer nada. Vieram mais de 15 pessoas, até mesmo mulheres. Foram muitas agressões até que chegaram os bombeiros e dispersaram os moradores. Ainda bem, porque ouvi alguém dizer 'pega o facão'", relatou.

Os bombeiros, segundo Ribeiro, duvidaram que ele era professor de história e pediram então que ele falasse sobre a Revolução Francesa. "Tive de falar da ascensão da burguesia na França, da queda da Bastilha em 1789 e das diferentes fases da revolução para que eles acreditassem", conta.

Segundo o Corpo de Bombeiros, as equipes que passavam no local evitaram o linchamento e prestaram os primeiros socorros. "Em nenhum momento houve desrespeito ou deboche na ação dos bombeiros", afirmou a corporação.

A Polícia Militar chegou em seguida e, diante da afirmação do dono do bar de que se tratava de um dos três criminosos que haviam roubado R$ 480 do estabelecimento, encaminharam Ribeiro ao 101.°DP (Jardim Embuias), onde ele foi indiciado por roubo. Antes, o professor foi levado ao pronto-socorro. "Dormi uma noite neste DP, dividindo a cela com outro preso, apesar de ter curso superior. Só no outro dia que fui levado para outra delegacia, onde dormi em uma cela sozinho antes de conseguir a liberdade provisória", contou.

Procedimento. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) disse que o professor foi preso em flagrante "em cumprimento do artigo 302 do Código Penal, já que a vítima o reconheceu como um dos participantes do roubo ao estabelecimento comercial em duas oportunidades" e que a polícia não pode identificar quem bateu no professor porque as pessoas se dispersaram com a chegada da viatura. Ainda de acordo com a SSP, o delegado André Antiqueira, titular do 101º DP, "se coloca à disposição para ouvir em depoimento quem tenha novas informações para acrescentar à investigação".

Nesta quarta-feira, 2, Ribeiro vai registrar boletim de ocorrência por tentativa de homicídio por parte do dono do bar, identificado como Djalma dos Anjos Nonato. "Eu via esse tipo de caso nos jornais e na TV, mas a gente nunca acha que vai acontecer conosco. A dor que fica é a psicológica. Tive muito medo de ficar preso por meses e não conseguir dar aula", disse Ribeiro.

A reportagem não conseguiu contato com Nonato.



quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sheherazade, a metaleira

Calma, fãs da Sheherazade! Quem diz isso (e outras coisas esquisitas) é Anna Virginia Balloussier, em artigo publicado na Folha de S. Paulo

De nossa parte, só temos muita saudade da (antiga) época em que a Editora Mundo Cristão tinha o cuidado de se concentrar na pregação do evangelho e não se associava a figuras tão polêmicas:

O primeiro livro de Sheherazade

“Mulher, dona de casa, mãe de duas crianças e ainda jornalista” por autodefinição, “Sheherazeda”, “bosta falante” e “queridinha do Silvio Santos” pelo que fãs preferem creditar à intriga da oposição, Rachel Sheherazade vai virar escritora.

A apresentadora do SBT, que ontem escrevia contos infantis e hoje tem na cabeceira o filósofo Olavo de Carvalho (“O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota”), lançará seu primeiro livro pela editora Mundo Cristão.

O mínimo que você precisa saber para entender a estreia literária da mulher de Rodrigo e mãe de Clara e Gabriel, batizada na Igreja Batista e nascida há 40 anos em João Pessoa, na Paraíba: “Abordarei questões como corrupção, justiça, liberdade, cultura e valores”, diz em entrevista por e-mail (a única opção aceita).

Ainda sem título, a obra está prevista para o segundo semestre. A tiragem inicial é de 15 mil exemplares, cinco vezes a média nacional.

Adepta da “boa política, em prol da maioria” e sem descartar carreira nessa área, a autora quer publicar antes das eleições.

Fã do heavy metal de Iron Maiden, Sheherazade frequenta todos os domingos uma igreja próxima ao condomínio de luxo onde mora em Alphaville, a 23 Km de São Paulo. Diz compartilhar com a Mundo Cristão, que também distribui títulos sobre os evangélicos Marina Silva e Justin Bieber, “princípios em comum, princípios cristãos”.

Renato Fleischner, diretor de operações da editora, afirma que a proposta “não é publicar uma obra para simplesmente chocar as pessoas, mas colocar no debate sobre o atual momento da sociedade brasileira uma perspectiva que possa, em alguma medida, estar afinada com os valores nos quais acreditamos”.

Sheherazade, a âncora que faz do “SBT Brasil” uma batalha naval de opiniões polêmicas, ganhou projeção nacional em 2011. Virou hit no YouTube após criticar o Carnaval de João Pessoa, “festa dos ricos” que teria virado um aspirador de recursos públicos.

“Muitas coisas hoje me revoltam no Carnaval. Uma delas é ouvir a boa música ser calada à força por hits do momento, como o ‘Melô da Mulher Maravilha’ e similares que não ouso nem citar”, disse à época.

Foi quando o telefone tocou novamente, ela foi atender, e era um Abravanel. Leon, diretor de produção do SBT, convidava a paraibana para conhecer a rede de seu tio Silvio Santos.

Em fevereiro, com três anos de casa, a jornalista elogiou no ar “justiceiros” que tiraram a roupa e prenderam um adolescente num poste no Rio, usando tranca de bicicleta. Sugeriu a quem discordasse da ação: “Adote um bandido”.

A fala causou celeuma, e os jornalistas do canal acabaram temporariamente proibidos de emitir opinião ao vivo.

Sheherazade sabe fazer barulho, mas prefere escrever “no momento mais quieto e solitário” do seu dia: sempre à noite, entrando na madrugada, quem sabe após folhear seu Olavo de Carvalho –o título foi presente de um colunista da revista “Veja” com quem tem “grandes afinidades ideológicas”.

Abaixo, um pouco da ideologia de Rachel Sheherazade em 1.001 caracteres:

Quais é a expectativa para as eleições?
Não revelo meu voto. Mas posso dizer que sou uma adepta da renovação constante na política.

Seria candidata a algo?
Minha missão hoje é como jornalista. Somos os olhos e a voz do povo. No futuro, não descarto a possibilidade. Acho que as pessoas de bem deveriam se interessar mais por política e entrar no jogo para virar o placar em favor dos justos. A política é, também, uma nobre missão.

Você é “maiden maniacal”. Isso entra em conflito com sua fé?
Gosto do Iron Maiden pela melodia das músicas, pela profundidade das letras, que abordam temas que vão de história mundial a questionamentos sobre vida e morte. No Evangelho, aprendi que devemos examinar tudo e reter o que é bom.

Como está a relação com o SBT?
Não há polêmicas. Entre mim e o SBT há confiança recíproca. É por isso que continuamos nossa parceria de sucesso até 2018.

Já pensou em seguir vocação religiosa na igreja?
Nunca. Acho que não tenho o dom. Mas, se receber o chamado, atenderei.



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Compaixão à la Sheherazade


Esclareçamos logo de largada: Rachel Sheherazade e seus discípulos têm todo o direito a manifestar sua opinião, ainda que abjeta. Ponto.

Entretanto, quando ela se apresenta como “evangélica” e utiliza uma concessão pública para defender a violência, também deve estar preparada para ser contraditada. Faz parte do jogo democrático que, apesar de reconhecidamente falho, ainda não inventaram nada melhor.

Além disso, toda e qualquer questão polêmica tem vários ângulos pelos quais pode ser analisada. Portanto, quando a opinião se baseia em apenas um ponto de vista rasteiro, ela deve ser esmiuçada para que as pessoas que debatem (ou acompanham o debate) possam chegar à sua própria conclusão.

Quando Rachel Sheherazade lançou a campanha “adote um marginalzinho” em apoio ao quase linchamento de um rapaz negro e menor de idade, sua ironia barata apenas mostrava que o ovo da serpente estava chocando.

E seu veneno é tão tóxico que impede as pessoas de analisarem e dialogarem construtivamente sobre o caso.

Imediatamente se associa quem se opõe a esse raciocínio raso de Sheherazade a algum tipo de “amante do crime” ou “protetor de criminosos”, quando – na verdade – se trata de algo totalmente distinto, que a pressa em julgar e condenar não permite alcançar.

Quem prefere que as pessoas sejam investigadas, presas e condenadas segundo o rito previsto em lei não está apoiando o crime. Isto não significa que elas gostam de criminosos ou lhes queiram bem.

Tampouco se trata de divergências ideológicas entre direita e esquerda. O que se discute aqui é o respeito mínimo a regras de convivência em sociedade.

Significa apenas que os opositores do julgamento sumário (mais conhecido por “linchamento”) querem evitar o pior dos pesadelos na aplicação da justiça humana: a execução de um inocente.

Nesses casos, o comportamento de manada justiceira que se segue à indicação de alguém como responsável por um crime, como a própria expressão sugere, declina rapidamente para o instinto animal e impede que os passos lógicos da razão sejam seguidos para que se tenha certeza da culpabilidade do suposto criminoso, para somente então aplicar-lhe a punição cabível.

Essas regras básicas da vida em sociedade, entregando o suspeito às autoridades constituídas para que ele seja investigado e julgado segundo os ditames legais, nos permitem ter a consciência tranquila de que não vamos condenar um inocente à morte.

Se – mesmo assim – não estamos imunes aos erros judiciários, imagine o risco que corremos ao tomar a espada da Justiça em nossas mãos e decepar cabeças em “julgamentos” instantâneos.

Alegar que as autoridades constituídas para tanto não cumprem o seu papel (o que é absoluta realidade no Brasil em todos os níveis e esferas de responsabilidade), não basta para que combatamos a barbárie com a barbárie, o crime com o crime e o desrespeito com o desrespeito.

O fato de não vivermos num mundo ideal não nos isenta de buscar o equilíbrio e a racionalidade possíveis na sociedade e realidade ingratas que compartilhamos.

Um erro não justifica o outro!

A indignação contra a desídia, lentidão e impunidade patrocinadas pelas autoridades não pode servir de desculpa para que tomemos a justiça em nossas próprias mãos. Se eles erram por ação e – sobretudo – por omissão, nós corremos o risco de errar muito mais com “soluções” equivocadas e irreversíveis.

O linchamento de Alailton Ferreira às margens da BR 101 em Serra (ES), um jovem negro de 17 anos de idade e – supostamente - doente mental, revela o quanto a nossa sociedade pode ficar enferma quando um formador de opinião como Sheherazade, ainda que por via transversa e se valendo de uma concessão pública como é a televisão, defende a atitude execrável de fazer justiça com as próprias mãos.

Obviamente, a culpa que eventualmente se possa atribuir a Sheherazade deve ser diluída no caldeirão de descaso e indiferença para com os anseios de segurança da população, que as autoridades constituídas vêm cultivando ao longo de décadas, mas não há como eximi-la de responsabilidade, nem aqueles que repercutem seus delírios nas redes sociais.

Pior ainda é que muitos deles se dizem cristãos. Esquecem-se convenientemente de que foi o cristianismo que introduziu os conceitos de compaixão, perdão e reabilitação (conversão) na história do Direito e da Justiça.

Antes da influência cristã vigorava, nesses casos, a justiça retributiva dos gregos e a lei hebraica do talião: dente por dente, olho por olho. Ainda assim, pelo menos um simulacro de julgamento era necessário. Mesmo que fosse para soltar Barrabás.

Em 2014, no Brasil, nem isso mais é possível. Basta uma acusação qualquer que, em questão de segundos, o suposto meliante é executado pela massa ignara. Com direito a replay.

E pessoas que se dizem cristãs - e compartilham emotiva e hipocritamente lindos trechos bíblicos em suas redes sociais – disputam no tapa o delirante privilégio de atirar a primeira pedra.



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