Mostrando postagens com marcador Grécia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Grécia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Apesar das ameaças de ausência, começou o Concílio Pan-Ortodoxo


A matéria é do IHU:

O Concílio ortodoxo “que cambaleia” e os sinais dos tempos


O Santo e Grande Concílio ortodoxo, meio cambaleando, começa hoje [domingo, 19 de junho] na ilha de Creta. (1) E, independentemente do jeito que terminar, já pertence à categoria dos eminentes sinais dos tempos. Visto na perspectiva da fé dos Apóstolos, o cabo de guerra que surgiu “in extremis” no âmbito do encontro de comunhão que estava sendo preparado há décadas pelas Igrejas que compartilham o mesmo tesouro apostólico e sacramental mostra, pelo menos por um momento, o vertiginoso caminho pelo qual procede sempre na história a promessa da salvação cristã, encomendada aos sucessores desses mesmos apóstolos. 

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 19-06-2016. A tradução é de André Langer.


As últimas notícias sobre as decisões e os pronunciamentos dos líderes das Igrejas ortodoxas são muito sugestivas. O Santo e Grande Concílio começa com a presença dos líderes de 10 das 14 Igrejas autocéfalas ortodoxas, sob a presidência do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

Do ponto de vista dos grupos e dos equilíbrios de força, tem um peso relevante a participação da Igreja ortodoxa da Sérvia (que no começo tinha se negado a participar), a qual, em seu último comunicado oficial, se reserva o direito de abandonar o encontro caso este se negar a “considerar todas as questões, problemas e diferenças” expressadas durante as últimas semanas pelos quatro patriarcas ortodoxos (de Antioquia, Bulgária, Geórgia e Rússia) que decidiram não participar.

Com a decisão manifestada na segunda-feira passada, o Patriarcado de Moscou de alguma maneira deixou cair a máscara e mostrou-se com o verdadeiro artífice das iniciativas que, coagulando diversos mal-estares e reservas, apostavam na suspensão ou em dar outra direção, “in extremis”, à máquina conciliar que já estava em andamento.

O Patriarca de Moscou, Kirill, em sua última mensagem oficial dirigiu-se intencionalmente aos “Primados e representantes das Igrejas ortodoxas locais que se reúnem em Creta”, sem utilizar a expressão “Concílio”, para dar a entender que esta reunião era “um encontro que pode servir para a preparação do Santo e Grande Concílio”, negando ao encontro de Creta a categoria de Assembleia Conciliar.

Além disso, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, homem chave na política eclesiástica do aparelho ortodoxo russo, em uma entrevista, fez algumas advertências pessoalmente ao Patriarca Bartolomeu, indicando que o “Primus inter pares” entre os primados ortodoxos “dará prova de prudência” e destacando que “se se convoca o Concílio apesar da ausência de ao menos quatro das Igrejas locais, constituirá uma brutal transgressão do regulamento do próprio Concílio, que estabelece que deve ser convocado pelo patriarca ecumênico com o consenso de todas as Igrejas”.

Enquanto isso, a partir de Kiev, os círculos nacionalistas ucranianos tratam de aproveitar a confusão e o Parlamento pede oficialmente ao Patriarca Bartolomeu para que reconheça a autocefalia da Igreja ortodoxa ucraniana (atualmente sujeita com um estatuto de autocefalia à jurisdição do Patriarcado de Moscou), patrocinando um “Concílio de unificação pan-ucraniana” com o qual possam unir-se “todas as Igrejas ucranianas ortodoxas”.

No entanto, em Creta, a máquina midiática do Concílio, nas mãos de órgãos da imprensa estadunidenses, começa a inundar a rede de comunicados e informes feitos de acordo com padrões já acordados em nível global para encontros e “quermesses” religioso-espirituais para todos os gostos.

Nas últimas notícias, a questão do Concílio ortodoxo e seu semi-naufrágio ou seu desejado “êxito midiático”, seguem sendo apresentados principalmente como uma questão político-eclesiástica. Os comentários e narrações da mídia, com poucas exceções, ressaltam as estratégias, alianças, provas de força, pressões, sintonias mais ou menos claras entre os aparelhos político-clericais.

Nos tribunais da rede que infestam a blogosfera católica, as manipulações mais descaradas e interesseiras usam como pretexto os problemas ortodoxos para confeccionar condenações baratas sobre as dinâmicas da sinodalidade eclesial, tão citadas pelo Papa Francisco. Mas estes informes “déjà vu” que elucubram sobre as mutáveis alquimias do poder eclesiástico ou sobre os erros táticos (verdadeiros ou não) dos diferentes aparelhos clericais raramente intuem a raiz profunda das tribulações ortodoxas.

Podem ajudar muito mais as intuições manifestadas por Bartolomeu em uma antiga entrevista de 2004 à revista italiana 30Giorni, na qual o patriarca ecumênico, ao falar sobre o cisma entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, disse que a origem distante dessa divisão está nas “primeiras manifestações do pensamento mundano na Igreja”. Se os ortodoxos sempre reconheceram em tal infiltração a matriz da pulsão “hegemônica” do Papado ocidental, agora parece muito mais claro que tal pulsão não só não foi neutralizada por um ou outro modelo abstrato de eclesiologia “institucional” e pode facilmente servir-se das dinâmicas e dos instrumentos sinodais.

Em relação ao caso das Igrejas ortodoxas, a referência à penetração do pensamento mundano nas dinâmicas eclesiais tem muito pouco a ver com a tradicional e dócil sintonia com os poderes civis nacionais que os polemistas católicos sempre reprovaram na Ortodoxia. Os problemas do Santo e Grande Concílio não dependem de Putin, que paradoxalmente, justamente perseguindo seus interesses, poderia ter sido capaz de favorecer um resultado mais fecundo para o caminho e para a missão apostólica das Igrejas ortodoxas.

Pelo contrário, o que criou muitos obstáculos foi o peso morto do orgulho clerical enquanto tal, a “hybris” que contamina os aparelhos eclesiásticos cada vez que as Igrejas, em qualquer nível, constroem e perseguem um modelo de auto-suficiência e de auto-afirmação no cenário do mundo. Nenhuma das instâncias eclesiais é imune a esta tentação de uma desnaturalização semelhante, como repetiu em várias ocasiões o Papa Francisco ao fazer alusão à gangrena do “mundanismo espiritual”.

Neste momento, devemos admitir que esta atitude ameaça particularmente a Igreja russa. Considerando apenas as últimas duas semanas (e inclusive o que aconteceu antes do início das convulsões sobre o Concílio ortodoxo), o Patriarca Kirill disse que a Igreja russa tem agora, nada mais e nada menos, a tarefa de “mudar a atitude em relação à fé e ao cristianismo em muitos países da Europa e da América”, para voltar a dar uma relevância global ao cristianismo (19 de maio).

O Metropolita Hilarion, por sua vez, apresentou, em 19 de abril passado, a Rússia atual como a única nação de destaque na qual se “expandem a fé e a Igreja”, descrevendo um Ocidente completamente aniquilado pelo ateísmo e o secularismo, com uma inversão total de papéis com relação aos tempos da União Soviética. Em um ataque de triunfalismo identitário, o próprio Hilarion, no final de maio, disse que o Patriarcado de Moscou ocupa “o segundo lugar no mundo” em número de fiéis, atrás apenas da Igreja católica, separando conceitualmente os fiéis russos de todos os outros cristãos ortodoxos.

Apenas aqueles que amam com sincera gratidão a grande aventura cristã que começou com o batismo do Grande Príncipe Vladimir sentem a urgência de informar aos irmãos russos a deriva de retrocesso a que parecem tão expostos neste momento. Mas o escorregão pelo Concílio ortodoxo antes de mesmo de começar deve fazer pensar que não apenas entre os líderes da Ortodoxia russa se rarefez a percepção do tempo escatológico vivido pela Igreja de Cristo.

“Os Primados das Igrejas que colocam em primeiro lugar questões mundanas como o primado de honra”, disse em meio às convulsões pré-conciliares Theodoros II, Patriarca ortodoxo de Alexandria, “deveriam descer de seus tronos suntuosamente decorados e visitar a África, para ver o que quer dizer ser pobres e humildes filhos de Cristo”.

Como já aconteceu em outros momentos da história, o tropeço inicial do encontro conciliar ortodoxo, seu “fracasso” em termos de estratégia humana, vivido à luz da cruz, da descida aos infernos, da Ressurreição e do Pentecostes, poderia sugerir novas vias de fuga para abandonar a soberba clerical e andar mais rapidamente para Cristo.

Como disse Matta el Meskin – o pai da renovação dos monges coptas durante um rico congresso organizado pela comunidade monástica de Bose –, a unidade entre os cristãos, embora pertençam à mesma confissão, nunca nasce como espírito de “coalizão” para sentir-se mais fortes, para unir forças contra inimigos verdadeiros ou imaginários e dar maior relevância e poder à Igreja e aos homens da Igreja. Sempre nasce acompanhada da perda do instinto de conversação e da pretensão de caminhar na história por força própria, como uma realidade autossuficiente.

A unidade em Cristo dos cristãos, escreveu Matta el Meskin, “é um estado de fragilidade divina perante o mundo, seguindo o exemplo de seu Mestre, que renunciou ao seu poder infinito para ser crucificado por qualquer pessoas que ele amava e na maneira como a amava. E todos os problemas que dividem a Igreja – acrescentou Matta – demonstram exatamente que o Senhor não está presente no meio da assembleia. E sua ausência nos obriga a voltar a colocar em questão a finalidade da reunião, o método da busca e as intenções dos membros reunidos [...] O problema da unidade encontra-se clara e decisivamente no problema da presença do Senhor”, porque “só o Senhor ‘pode fazer de dois povos um só, tendo derrubado os muros que os separam (cf. Ef 2, 14)’”.



quinta-feira, 30 de julho de 2015

Os enigmáticos cristãos ortodoxos do Oriente


Artigo interessante de Gustavo Chacra no Estadão:

Os cristãos ortodoxos são inimigos do Ocidente?

Por que, quando falamos de Israel, associamos ao judaísmo, quando falamos do Irã ou Arábia Saudita, associamos ao islamismo, e quando falamos do Ocidente, associamos ao cristianismo, mas, quando falamos de Rússia, Grécia ou Síria, não falamos dos cristãos ortodoxos? E por que esta insistência em achar que a Cristandade se resuma a católicos, protestantes e evangélicos?

Quem conhece Jerusalém sabe da importância dos cristãos ortodoxos, principal grupo cristão da cidade. E o cristianismo ortodoxo tem um papel ultra relevante na geopolítica internacional. Basta lembrar que a segunda maior potência militar do mundo é a Rússia, cristã ortodoxa. A Grécia, no coração da maior crise europeia deste século, também é cristã ortodoxa. Parte do apoio ao regime de Bashar al Assad vem de cristãos ortodoxos. Aliás, há milícias cristãs ortodoxas lutando contra o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Cristãos ortodoxos também sempre estiveram em movimentos de independência palestinos.

Há até quem diga que, se não houvesse o islamismo, os cristãos ortodoxos ainda seriam os maiores inimigos do Ocidente. Os países árabes mediterrâneos possivelmente seriam majoritariamente cristãos ortodoxos. Os palestinos, idem, e os cristãos ortodoxos seriam os adversários de Israel. Aliás, a Turquia também seria cristã ortodoxa e sua capital seria Constantinopla.

Os cristãos ortodoxos se dividem em oito patriarcados – Alexandria, Antióquia (hoje removido para Damasco), Jerusalém, Moscou, Geórgia, Sérvia, Romênia e Bulgária. Além destes, temos o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla (Istambul). O Patriarca ecumênico se chama Bartolomeu I e ele exerce enorme influência no Leste Europeu e em regiões do Oriente Médio.

Um dos motivos de a Rússia apoiar o regime de Assad, embora longe de ser o mais importante, é a população cristã ortodoxa síria. Na visão de Moscou, se o regime de Assad cair, os cristãos ortodoxos sírios tendem a ser perseguidos e massacrados. O Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa abertamente condena os que apoiam intervenção ocidental para derrubar Assad na Síria. Ele chegou a se encontrar com o líder sírio já durante a Guerra Civil e o parabenizou pela reeleição em 2014.

Aliás, curiosamente, muitos cristãos ortodoxos não simpatizam em nada com posições políticas de evangélicos no Ocidente, como o senador Ted Cruz, um ultra-conservador pré-candidato a Presidência dos EUA pelo Partido Republicano, descobriu depois de ser vaiado por criticar Assad e os palestinos para uma plateia de cristãos ortodoxos de origem sírio-libanesa. O senador republicano não sabia que os cristãos ortodoxos costumam ser pró-Assad e pró-palestinos (aliás, muitos são palestinos).

Quando vemos a Rússia se aproximando do Chipre e da Grécia, não podemos esquecer que estes países também são cristãos ortodoxos. Mesmo com o comunismo sendo contra a religião, culturalmente os países do Leste Europeu ortodoxos, como a Bulgária, possuíam uma relação melhor com Moscou do que católicos, como a Polônia.

Há algumas semanas, completou-se 20 anos do massacre de Srebrenica, cometido por sérvios, que são cristãos ortodoxos, e foram apoiados pelos russos, também cristãos ortodoxos. Curiosamente, tanto na Guerra da Bósnia quanto na de Kosovo, o Ocidente defendeu os muçulmanos contra os cristãos ortodoxos.

Os cristãos ortodoxos do Oriente Médio, historicamente, sempre estiveram na vanguarda dos movimentos arabistas. Também costumam ser urbanos, de cidades como Beirute, Damasco, Trípoli (a do Líbano), Jerusalém e Aleppo. No passado, eram ingrediente importante do caldo cosmopolita do Mediterrâneo, junto com os judeus e os muçulmanos.

No Líbano, os cristãos ortodoxos são minoria entre os cristãos, embora sejam a maioria dos cristãos de Beirute (Ashrafyeh, o sofisticado bairro cristão de Beirute, é cristão ortodoxo). A maior parte dos cristãos libaneses é cristã maronita, uma vertente catolicismo no Oriente, com ritos distintos dos católicos-romanos e com Patriarca próprio – por lei, o presidente libanês e o chefe das Forças Armadas precisam ser cristãos maronitas. Mas muitos dos imigrantes libaneses para o Brasil possuem origem cristã ortodoxa, incluindo o meu avô paterno. No Clube Monte Líbano de São Paulo, muitos sócios são cristãos ortodoxos. Há ainda a grande catedral do Paraíso.

Enfim, para entender o mundo, ajuda entender um pouco do cristianismo ortodoxo. Aliás, antes que me esqueça, diferentemente do judaísmo, “ortodoxo” para os cristãos não significa ser mais religioso.

E vale, neste caso, contar a história de dois conhecidos meus. Ele era cristão ortodoxo, do Monte Líbano. Ela, judia ortodoxa, da Hebraica. Mas, curiosamente, a mãe dele, também cristã ortodoxa, dava aulas de matemática em um colégio judaico e foi a um Bar Mitzva. O filho foi buscá-la e, na porta, viu a moça judia bonita. Deu uma paquerada. Ela perguntou a religião dele, por curiosidade. Orgulhoso, respondeu “ortodoxo” (na realidade, cristão ortodoxo). Ela, que era judia, achou meio estranho, pois ele não parecia ortodoxo. Mas a química já os havia atraído, independentemente das origens. Os dois se apaixonaram e casaram. Hoje são sócios do Monte Líbano e da Hebraica, mas frequentam o Paulistano. O filho foi batizado na Catedral Ortodoxa, mas também fez Bar Mitzva.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

E a Grécia disse não...

No último sábado, comentamos aqui a decisão do patriarca da Igreja Ortodoxa Grega em apoiar o voto no "sim" para que o governo grego aceitasse as condições impostas pelo FMI, pelo Banco Central Europeu e pelos bancos credores do país.

Realizado o plebiscito ontem, 5 de julho de 2015, mais de 60% dos gregos seguiram a direção contrária, preferindo o "não", apesar da intensa campanha midiática que insistia em que o país se sujeitasse às condições da troica financeira que quer ver a dívida paga.

Algumas observações merecem ser feitas de imediato.

Em primeiro lugar, todo mundo sabe que a dívida grega é impagável. O país já sofre as consequências de um alto custo social das medidas econômicas visando satisfazer os credores.

Todos também sabiam que, ganhando o "sim" ou o "não", o cenário continuaria sendo o de uma catástrofe, uma terra arrasada sem fim.

Ao que parece, a população grega preferiu o caos de uma economia em frangalhos na qual ela ainda tivesse algum poder de decisão sobre a própria desgraça, embora ninguém saiba dizer como isso acontecerá.

A democracia grega, mãe eterna de todas as formas de participação popular que o mundo conhece, foi mais uma vez pioneira ao dizer "não" à elite financeira que comanda o mundo.

Os gregos preferiram o exemplo de Leônidas e seus 300 de Esparta para resistir ao avassalador exército persa de Xerxes, que hoje fala alemão.

Tudo muito helenicamente romântico e trágico ao mesmo tempo, mas tudo indica que a dialética ateniense prevalecerá já no curto prazo.

É muito provável que a insurreição grega venha a ser sufocada o quanto antes. O "mau exemplo" que eles deram ao mundo, ao resistir à ocupação financeira, tem que ser derrotado sem demora.

Não se surpreenda, portanto, se as (antes) rigorosíssimas autoridades financeiras europeias tratarem de - rapidamente - conseguirem um acordo com o governo grego.

Quem conhece os intestinos do sistema econômico-financeiro mundial, algo que este que vos escreve já teve o desprazer de conhecer, sabe que os governos - de qualquer orientação ideológica - existem para satisfazer os desejos vorazes de uma ínfima elite biliardária que manipula a política e a imprensa a seu bel prazer.

Suspeitamos, portanto, que - apesar da grandeza do gesto de Esparta - nada mudará no establishment econômico europeu e mundial. 

Para essa gente, a crise grega foi, e continuará sendo, apenas um acidente de percurso que precisa ser esquecido o mais rápido possível. 

Não se iludam, Termópilas cairá!



sábado, 4 de julho de 2015

Igreja ortodoxa grega pede que fiéis votem "sim" à União Europeia


A crise econômica grega ameaça a integridade da União Europeia, depois que o país deixou de pagar a parcela devida ao FMI (Fundo Monetário Internacional) no último dia 30 de junho.

Analistas entendem que uma eventual falência do país implicaria na exclusão da Grécia da comunidade europeia, com um imprevisível efeito dominó em outras economias cambaleantes do continente.

Depois de meses de intensa e infrutífera negociação, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, convocou um referendo para o próximo dia 5 de julho (amanhã, domingo), em que a população grega decidirá se aceita o acordo imposto pelo FMI, pela Comissão Europeia e pelos bancos credores, ou não.

O voto "sim" representa, portanto, que a população concorda em fazer mais sacrifícios (além daqueles que já fez) para garantir o socorro financeiro proposto pelos credores do país, avalizado pelas autoridades comunitárias.

Não há decisão fácil no referendo, entretanto...

O premier Tsipras faz campanha pelo "não", o que implicaria na saída da zona do euro e em um futuro de caos econômico até que o país se reerga das cinzas do tsunami financeiro que se avizinha.

Já o patriarca Jerônimo II, da Igreja Ortodoxa Grega, faz campanha abertamente pelo "sim", alegando que a Grécia "deve continuar no coração da Europa", mas não especifica as consequências econômicas e - sobretudo - sociais do seu voto.

Tsipras rebate a crítica dos que veem a Grécia fora da União Europeia se o "não" vencer, dizendo que isto não significará a saída grega da comunidade europeia, mas lhe dará uma posição de força para seguir negociando com as autoridades monetárias mundiais e os seus credores.

A atitude de Jerônimo II chamou a atenção porque os patriarcas ortodoxos gregos geralmente não se manifestam sobre assuntos políticos e econômicos que envolvem o país.

Talvez o cinto do patriarca tenha ficado apertado demais desde que o governo grego deixou de subsidiar a Igreja Ortodoxa do país por ocasião da crise econômica de 2012.

E olha que não faltam crises políticas, sociais e financeiras por lá ao longo da história. Uma atrás da outra, e o caos atual - infelizmente - não será o último, ao que tudo indica.

Enquanto isso, a população grega vive horas complicadas sem saber o que acontecerá com o berço da democracia quando seus cidadãos exercerem o sagrado direito de votar.

A informação é do portal Religión Digital.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Gregos e turcos tentam encontrar paz para o Chipre

A ilha de Chipre é rota de passagem das civilizações do Mediterrâneo desde tempos imemoriais.

A sua primeira referência na Bíblia se encontra no capítulo 23 de Isaías, e é citada 6 vezes no livro de Atos dos Apóstolos.

A história da ilha é bastante conturbada, alternando períodos de dominação por fenícios, egípcios, romanos, gregos, venezianos, e - mais "recentemente" - pelos Impérios Otomano e Britânico.

Independente do Reino Unido desde 1960, Chipre se viu dividida entre as comunidades de origem turca e grega, situação que gerou vários conflitos e perdura até hoje, com a ilha - e sua capital Nicósia - dividida entre os ortodoxos gregos e os muçulmanos turcos.

Parece, entretanto, que há esperança e espaço para a paz e a reconciliação, segundo noticia a Voz da Turquia:

Líderes cipriotas passeiam pela cidade dividida depois das negociações

Os líderes das comunidades, turca e grega, passearam por ambos os lados de Nicósia.

O presidente turco-cipriota, Mustafa Akinci, e o presidente greco-cipriota, Nicos Anastasiades, num intervalo das negociações de paz, acompanhados dos presidentes da câmara de ambos os lados, passearam-se por ambos os lados de Nicósia, atraindo muita atenção pública.

Anastasiades disse que irão trabalhar para achar uma solução, o mais rápido possível e que é necessária uma solução para o futuro de ambas as sociedades.

Akinci acrescentou que gostava de transmitir uma mensagem de esperança ao Chipre, porque é o que mais precisa depois de todas as desilusões do passado.

Os dois líderes encontrar-se-ão novamente a 28 de maio.



sábado, 31 de maio de 2014

Receita grega para envelhecer bem


Matéria publicada no Brasil Post:

5 coisas que os gregos podem nos ensinar sobre envelhecer bem

Yagana Shah

Sem dúvida, podemos aprender muito com a cultura grega. Alguns dos maiores (e mais sábios) pensadores que já existiram eram gregos… como Sócrates, Platão e Aristóteles, só para mencionar alguns. Devemos a eles a existência da democracia, as Olimpíadas e do Teorema de Pitágoras. Ah, e não vamos esquecer das delícias culinárias, como o moussaká.

E o país em si, com suas ilhas ensolaradas, rodeadas pelas límpidas águas azuis do Mediterrâneo, onde se fazem algumas das comidas mais deliciosas do mundo – nos levam a conclusão de que é bom ser grego. Mas os gregos não estão apenas vivendo bem, eles também estão vivendo mais.

Ikaria, uma pequena ilha grega, é considerada uma "zona azul" , um dos poucos lugares no mundo onde as pessoas vivem de forma saudável e continuam ativas além dos 100 anos de idade. A porcentagem de pessoas que vivem mais do que 90 anos em Ikaria é muito maior do que a média da Europa inteira.

Uma pesquisa revelou que as pessoas que vivem nessa ilha chegam aos 90 anos três vezes mais do que os americanos, e têm a probabilidade bem menor de desenvolver o mal de Alzheimer ou depressão. Para os pesquisadores, isso não é uma mera coincidência.

O estilo de vida com pouco estresse, o nível de atividade física da população e alguns outros hábitos peculiares à cultura da ilha podem ser o segredo da longevidade dessas pessoas.

Veja cinco coisas que os gregos podem nos ensinar sobre envelhecer com sucesso:

1. Eles sabem dar uma pausa no estresse da rotina diária

Como é o costume em muitos países com climas mais quentes, as pessoas na Grécia pausam no meio do dia para tirar um rápido cochilo para recarregar as energias. Em algumas regiões do país, até as lojas e estabelecimentos comerciais fecham nesse período para que os funcionários possam descansar. O pesquisador da universidade de Harvard, Dimitrios Trichopoulos, diz que apesar do cochilo aparentemente interromper o fluxo do seu dia, ele pode até duplicar a sua produtividade, provendo a energia e aquele pique renovado para a segunda metade do seu dia. É algo que poderia trazer um enorme benefício, especialmente para o ritmo de vida frenético que a maioria de nós enfrenta.

"A maneira em que a vida está organizada na nossa realidade, começamos o dia com o estresse de chegar até o trabalho e terminamos com o estresse de voltar para casa. Então, poder desfrutar de um momento no meio do seu dia em que você pode relaxar, só pode fazer bem – mal certamente não vai fazer”, disse o pesquisador em entrevista à radio NPR.

Em sua pesquisa, Trichopoulos descobriu que os homens gregos que cochilavam apenas meia hora por dia apresentavam um risco menor de ataque cardíaco, provavelmente devido à interrupção do estresse graças à “siesta” vespertina. Opa!

2. Eles brindam à saúde

Até o café dos gregos é melhor que o nosso. O café grego fervido não falta em Ikaria e ele não serve apenas para ajudar a acordar. Pesquisadores descobriram que o café grego contém grande quantidade de polifenóis e anti-oxidantes que combatem o envelhecimento e várias doenças crônicas. Descobriram também que as pessoas que bebem sempre esse ‘ouro líquido’ têm melhor função endotelial – que protege seu sistema circulatório – comparado com pessoas que bebem outros tipos de café.

E o que eles bebem no fim do dia? Um chá das montanhas, feito de ervas nativas incluindo sálvia, hortelã e alecrim.

3. Eles foram abençoados por Afrodite

Não se engane achando que sexo é coisa só de gente jovem. Uma boa transa pode continuar sendo divertida e trazer muitos benefícios em qualquer idade, algo que os nativos de Ikaria já sabem. Em uma pesquisa realizada com homens de Ikaria com 65 a 100 anos, quatro de cada cinco homens entrevistados afirmaram que ainda faziam sexo com frequência. E mais de 25% desses homens disseram que a qualidade de seu desempenho sexual era boa, e que relação tinha uma duração considerável. Com os benefícios que o sexo oferece, como o aumento da imunidade, alívio do estresse e combate do envelhecimento, não é de se admirar que eles vivam tanto tempo.

4. Eles têm uma dieta que faz bem ao coração

Quando se fala em culinária grega, talvez você só consiga pensar no famoso churrasco grego super gorduroso, ou para quem conhece melhor as iguarias das ilhas, spanakopita ou um pedaço super doce de baklava. Mas na verdade, os gregos comem de forma bem mais saudável. A dieta deles inclui azeite de oliva bem fresquinho, uma grande variedade de verduras, muitas lentilhas e feijão e pouca carne. No café da manhã, nada de lanches tipo fast food. Eles preferem algo com alto teor de proteína, como o iogurte grego com um pouco de mel. No almoço e no jantar, a refeição sempre inclui muitas verduras, frutas e legumes frescos.

A “dieta” deles é basicamente a famosa “Dieta Mediterrânea”. Essa dieta pode ajudar a reduzir o risco de desenvolver doenças cardíacas e câncer e até mesmo o mal de Alzheimer.

5. A família é tudo

Se tudo que você conhece da cultura grega se resume ao filme "Casamento Grego"… você já tem uma boa ideia, pelo menos no que diz respeito à família. Um forte senso de vida em comunidade e fortes laços familiares são muito importantes para os gregos. É muito comum as famílias viverem juntas na Grécia, bem mais do que em outros países ocidentais.

A nossa própria Arianna Huffington lembra da sua criação em uma família muito próxima. “Eu tinha um vínculo muito forte com a minha família – a minha mãe morou comigo quando eu me casei e me ajudou a criar os meus filhos. Ela era como uma segunda mãe”, disse Huffington em uma entrevista para Into the Gloss.

Em Ikaria, a rotina comum às noites inclui visitar os vizinhos. É praticamente impossível ficar sozinho, o que é muito importante à medida que envelhecemos. “Os mais velhos ficam conosco. Existem lares para idosos, mas eles são apenas para pessoas que perderam a família. Para nós seria uma vergonha colocar uma pessoa idosa em um asilo. É por isso que vivemos tanto aqui”, disse Eleni Mazari, uma corretora de imóveis de Ikaria, ao jornal inglês The Guardian.

Estudos mostram que os idosos não só tendem a ter uma alimentação pior quando estão sozinhos, mas que a solidão na velhice pode resultar em uma saúde debilitada e uma morte antecipada.



sexta-feira, 2 de maio de 2014

Arqueólogos poloneses alegam haver encontrado tumba de Alexandre no Egito


Alexandre, o Grande não tem descanso. Pelo menos o que restou de seus ossos, se é que eles estão enterrados em algum lugar, não podem "dormir" em paz.

Em agosto de 2013, traçamos aqui no blog um breve perfil de Alexandre e do mistério que envolve o destino final de seu sarcófago de ouro, quando se especulou que ele estaria enterrado na Grécia.

Apesar do furor que a notícia causou mundo afora naquela época, não se soube mais dos desdobramentos da busca pela tumba perdida de Alexandre em terras gregas.

Agora vem do Egito a notícia de que Alexandre continuaria sepultado em Alexandria, último local onde se sabe que seu sarcófago esteve, até o início da era cristã.

O World News Daily Report informa que uma equipe de arqueólogos e historiadores poloneses encontrou um estranho mausoléu enquanto exploravam a cripta de uma antiga igreja cristã na cidade egípcia que leva o nome do antigo rei macedônio.

A tumba seria feita de mármore e ouro, e estaria situada numa área conhecida como Kom el-Dikka, no centro da cidade de Alexandria, apenas 60 metros distante da mesquita de Nebi Daniel.

Trata-se, segundo os pesquisadores, de um grande monumento, aparentemente selado e escondido durante o século III ou IV depois de Cristo, momento em que o cristianismo se tornou a religião hegemônica do Império Romano.

A decoração do mausoléu seria, também, uma homenagem à natureza multicultural do império conquistado por Alexandre, combinando influências artísticas e arquitetônicas de origem grega, egípcia, macedônia e persa, com inscrições em grego, além de alguns hieroglifos egípcios, mencionando que a tumba é dedicada ao "rei dos reis, e conquistador do mundo, Alexandre III".

Haveria ainda um sarcófago quebrado, feito de cristal, possivelmente danificado durante os distúrbios políticos e religiosos que sacudiram Alexandria durante o reinado de Aureliano, por volta de 270 d. C.

Dentro do sarcófago haveria ainda 37 ossos, na maioria quebrados, provavelmente pertencentes a uma única pessoa adulta do sexo masculino, que, somente após a datação por carbono-14, poderá determinar a que era pertenceram.

Como você percebe, usamos e abusamos aqui de verbos no condicional, já que tudo que envolve Alexandre, o Grande, é sempre objeto de muitas especulações e falsificações.

Além disso, a notícia foi divulgada em portais um tanto quanto desconhecidos, sobre os quais, entretanto, não paira nenhuma suspeita anterior de, digamos, desinformação, mas todo cuidado é pouco.

O próprio fato de existir uma equipe polonesa investigando uma antiga igreja cristã em território copta no Egito já soa um tanto quanto estranho, convenhamos, a começar pelo fato de que os "poloneses" representam para as piadas que os americanos contam o papel que os brasileiros destinam aos "portugueses" nos seus chistes.

Piadas à parte, o Centro Polonês de Arqueologia, apesar de pouco conhecido, goza de alguma reputação não manchada até agora e - talvez - o que chama mais a atenção é o fato de que eles escavavam uma antiga igreja cristã e teriam encontrado algo totalmente inesperado.

Divulgamos a notícia com o fim de que ela seja mais conhecida e mais pessoas acompanhem o desenrolar do processo.

Aguardemos, então, maiores informações sobre o suposto achado, se é que elas algum dia virão.



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Comunidade campineira nega sexo, cerveja e futebol a marido violento


Essa é uma daquelas histórias que seriam cômicas se não fossem trágicas e que - principalmente - mostram a capacidade de organização de uma comunidade contra a violência quando o Estado, que deveria dar a todos as condições mínimas de educação e segurança (só para citar alguns fatores), não faz a sua parte.

A experiência de Campinas (SP) lembra, de certa forma e guardadas as devidas proporções, a "greve do sexo" da comédia grega "Lisístrata", escrita por Aristófanes em 411 a. C., em que as mulheres de Atenas e Esparta, cansadas do fratricídio que arruinava seu povo, se unem e passam a negar relações sexuais com seus maridos enquanto eles não parassem com a Guerra do Peloponeso, em que se confrontaram as duas cidades-Estado.

Isto nos remete à linda canção "Mulheres de Atenas", de Chico Buarque, que você pode ver na gravação de 1976 que encerra este artigo, mais abaixo.

A matéria é da Folha de S. Paulo:

Marido agressivo fica sem sexo em comunidade em Campinas (SP)

GIOVANNA BALOGH

Nada de sexo, cerveja no bar nem partidas de bilhar ou futebol. Para grande parte dos homens, ficar sem apenas um desses itens já é uma verdadeira tortura. Em uma comunidade carente do bairro Jardim Columbia, em Campinas (a 99 km de SP), esse é um perigo constante.

Manter os companheiros "na seca" foi a saída encontrada pelas mulheres do local para puni-los por agressões físicas ou verbais.

A ideia foi reduzir os recorrentes casos de violência doméstica o que, segundo moradores, tem dado certo.

O chamado período de "disciplina", onde os homens são privados de sexo ou qualquer atividade de lazer, dura 15 dias e vale para todas as 200 famílias da comunidade que, por coincidência ou não, chama Menino Chorão.

A líder comunitária e cozinheira Maria do Carmo Pereira de Sousa, 44, diz que no bairro não existe o ditado "em briga de marido e mulher não se mete a colher". "Aqui todo mundo se mete e interfere."

Ela diz que a medida foi adotada há cerca de dois anos e só tem dado resultado porque são as próprias mulheres quem fiscalizam se o castigo está sendo cumprido.

"Se o meu companheiro está em disciplina e toma cerveja no bar com um amigo, a mulher dele vai puni-lo também deixando de fazer sexo com ele", diz Maria do Carmo, que faz reuniões quinzenais com as vizinhas para discutir os casos de agressão.

Ela, que é mais conhecida como Carmem, afirma que também foi vítima de violência doméstica quando vivia em Pernambuco com o pai dos seus sete filhos.

"Apanhei muitos anos sem saber o motivo. Muitas mulheres passam por isso diariamente e não sabem como se defender", diz a líder comunitária que vai contar hoje sobre essa experiência no "I Fórum sobre Violência contra a Mulher: Múltiplos Olhares", a partir das 9h na Unicamp.

Dono do único bar da comunidade, Ualas Conceição dos Santos, 24, diz que nunca agrediu a mulher, mas que vê muitos homens proibidos de frequentar seu estabelecimento. "Aqui quem manda são as mulheres. A "disciplina" funciona e acho bom pois as mulheres têm sido muito maltratadas", afirma.

Na comunidade, é difícil achar um homem que fale abertamente que ficou de "castigo". O técnico em refrigeração, Michel Nascimento Barbosa, 23, aprova a "disciplina" e diz que já enfrentou as restrições de lazer e de sexo. "Foi ruim, mas elas estão certas", diz ele, todo comedido.

REINCIDÊNCIA

Em caso de reincidência, o agressor também pode apanhar. "Ele pode ser amarrado e a mulher bate nele na frente de todo mundo", diz.

Nos casos mais graves, o homem é expulso da comunidade. Segundo ela, já ocorreram quatro expulsões e as vítimas escolhem se desejam ficar no local ou ir embora com o agressor. "Infelizmente, algumas foram com eles."

A delegada Maria Cecília Favero Lopes, da Delegacia de Defesa do Direito da Mulher, desconhecia a justiça feita por conta própria das mulheres do Menino Chorão.

Segundo ela, a recomendação é que as vítimas de violência doméstica denunciem os casos e, se for necessário, solicitem medida protetiva prevista na Lei Maria da Penha. "O homem que for agredido pela mulher também deve procurar uma delegacia e relatar o caso", diz a delegada.

De acordo com dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública, em 2012, foram registrados 3.108 casos de lesão corporal dolosa na DDM de Campinas. No ano passado, foram 2.242 ocorrências. A pasta não divulgou, no entanto, os números deste ano.







terça-feira, 31 de dezembro de 2013

10 antigas tradições de Ano Novo


Chega ao fim o ano de 2013, ano de conquistas e derrotas, alegrias e tristezas, umas mais, outras menos, como acontece com todos os seres humanos do planeta.

Vem aí 2014! Novos planos e antigas esperanças o aguardam, e por isso cada um de nós tem uma maneira de dar-lhe as boas vindas, embora a maneira como isso ocorre esteja padronizada mundo afora, com algumas pequenas diferenças rituais e culturais.

Hoje é um dia propício, portanto, para relembrar como antigas civilizações comemoravam o Ano Novo segundo seus costumes ancestrais.

O portal Listverse cita 10 dessas antigas tradições:

O deus babilônico
Marduque
1 - AKITU BABILÔNICO

Na antiga Babilônia, a chegada do Ano Novo era comemorada com dois eventos que ocorriam na entrada de cada semestre do calendário sumério, quando se celebrava o festival Akitu, em honra do deus supremo de sua religião, Marduque.

Akitu, em antigo sumério, significava literalmente "corte da cevada", ou "semeadura da cevada", conforme o início do semestre correspondente às etapas do seu cultivo.

Conforme você percebe, o povão bebe cerveja desde priscas eras, e a festa popular em torno do Akitu durava duas semanas.

Ao rei cabia um papel mais cerimonial, indo ao templo de Nabu onde recebia dos sacerdotes um cetro real com o qual participava de vários rituais, sendo o mais importante aquele que representava a Criação segundo as tradições religiosas sumérias.

2 - FESTIVAL EGÍPCIO DA BEBEDEIRA

De novo, o álcool. Muitos beberrões atuais se identificariam com essa festa, não é mesmo?

Na antiga mitologia egípcia, o deus-com-cabeça-de-leão Sekhmet havia decidido destruir a humanidade, no que foi impedido pelo deus-sol Rá, que lhe fez beber uma quantidade gigantesca de uma cerveja de cor vermelha, como se fosse sangue humano.

Com essa bizarra inspiração, cada Ano Novo egípcio era comemorado com uma bebedeira coletiva, em que o povo agradecia a Rá pelo estratagema utilizado para o proteger de Sekhmet.

Não era um porre, digamos, "leve". Tratava-se praticamente de um coma alcoólico, já que quando mais se bebesse, mais o indivíduo, a nação e a humanidade seriam salvos da extinção decretada por Sekhmet.

Alguns poucos egípcios permaneciam sóbrios para, no dia seguinte, acudirem e acordarem os bêbados que jaziam pelas casas, ruas e praças das cidades.

3 - NORUZ DA PÉRSIA

"Noruz" (نوروز em farsi, significando literalmente "Novo Dia") é a festa de Ano Novo da antiga Pérsia, que vem sendo comemorada há milênios, e há quem diga que em 2013 foi comemorado o 5774º Noruz da História.

Perceba que, não por acaso, o calendário judaico, contado a partir da Criação, também está no ano 5774.

O Ano Novo persa ocorre no dia 21 de março, ou na data do equinócio da primavera do hemisfério Norte, que é em torno desse dia, e se tornou uma festa muito ligada ao zoroastrismo e à fé Bahá'í.

A celebração dura 13 dias, durante os quais a primavera recomeça a cobrir a terra com vegetação e flores, simbolizando um renascimento.

Até hoje, o Noruz é muito celebrado mundo afora, especialmente no Irã, onde vive boa parte dos seguidores das religiões que o festejam.

4 - FESTA DA CIRCUNCISÃO

A festa da circuncisão era uma tradição da Igreja cristã primitiva, uma espécie de continuação do Natal.

Como a lei judaica mandava circuncidar os meninos ao oitavo dia do nascimento, quando começou a tradição de se comemorar o Natal em 25 de dezembro, em seguida veio a ideia de se celebrar o dia da circuncisão do menino Jesus.

Por isso mesmo, o dia 1º de janeiro, instituído como início do Ano Novo por Júlio César em seu calendário juliano de 46 a. C., passou a ser coincidente com a festa da circuncisão, que ainda é celebrada em comunidades ortodoxas orientais, luteranas e anglicanas ao redor do mundo.

A tradição foi se perdendo na igreja católica até que, em 1974, o papa Paulo VI decretou o dia 1º de janeiro como o "Dia Mundial da Paz".

5 - HOGMANAY DA ESCÓCIA

Hogmanay é uma antiga tradição escocesa de se celebrar com fogueiras o último dia do ano e a virada para o ano seguinte.

O registro mais antigo da festa é de 1604, mas há quem diga que o Hogmanay remonta às eras pagãs da Escócia, antes do advento do cristianismo em terras britânicas.

O fogo é o grande personagem do evento, sendo conduzido em tochas e bolas pelas ruas, simbolizando o retorno do Sol, e continua a ser comemorada na Escócia.

6 - FESTA ROMANA DE JANO

Jano (ou Janus), era o deus romano de duas caras, associado às transições da vida, entre passado e futuro.

Como o próprio nome indica, o nome "janeiro" para o primeiro mês do ano deriva da palavra "Jano".

Não por acaso, portanto, o primeiro dia de janeiro era dedicado ao deus Jano.

Os antigos romanos acreditavam que tudo o que se semeava naquele dia duraria o ano todo.

Por isso mesmo, era um costume deles dar presentes e comida, abster-se de ações e pensamentos maus, e ser cordial uns para com os outros.

7 - CRIOS E IASION DA GRÉCIA

Crios e Iasion eram associados à chegada do Ano Novo na antiga Grécia.

Crios era um dos doze titãs clássicos da mitologia grega, vinculado à constelação de Áries, a primeira que aparecia no céu quando começava a primavera, o que remetia o imaginário popular à entrada em uma nova estação.

Iasion era um semideus, filho de Zeus com uma de suas muitas amantes. Iasion era amante também de Deméter, a deusa grega da agricultura e das estações do ano.

A depravação dos deuses gregos era tanta que Deméter teve uma filha com seu irmão Zeus: Perséfone. 

Isso explica porque Zeus teria matado Iasion, fazendo com que o povo passasse a celebrar a tragédia romântica de Iasion e Deméter na chegada da primavera.

8 - A LENDA CHINESA DE NIAN

Todas as grandes cidades do mundo onde há uma comunidade chinesa relevante sabem o que é celebrar o Ano Novo chinês, que segue seu calendário próprio.

Trata-se de uma festa onde a cor vermelha predomina e se celebra a lenda de Nian, que seria um monstro submarino que, todo dia de Ano Novo, vinha ao continente para devorar pessoas e animais.

Os antigos chineses então se refugiavam nas montanhas, onde esperavam estar a salvo de Nian, que em chinês significa "Ano".

Um dia, entretanto, um velhinho de barbas apareceu numa vila na noite de Ano Novo, pedindo comida e abrigo, e só uma viúva também já idosa o acolheu em meio ao caos.

Em retribuição ao gesto caridoso da viúva, o velhinho prometeu que Nian jamais voltaria e decorou a vila toda com velas e lanternas vermelhas, preparando ainda fogos de artifício para "recepcionar" o monstro quando ele aparecesse.

Todo aquele rebuliço de cores, luzes e sons fizeram com que o monstro se assustasse e sumisse, mas a tradição deveria ser repetida a cada virada de ano.

9 - NEMONTEMI E QUAHUITLEHUA DOS AZTECAS

Os antigos aztecas, povo aborígene do território onde hoje está o México, tinham duas datas específicas para marcar o último e o primeiro dia do ano.

Havia um intervalo de 5 dias entre o último e o primeiro dia do ano. Esse interstício se chamava Nemontemi, e correspondia a um período considerado peculiarmente azarado e perigoso, já que os maus espíritos varriam a terra buscando a quem tragar.

Os aztecas então se recolhiam a suas habitações, fazendo o máximo de silêncio para não atrair as assombrações.

Findo o Nemontemi, começava o primeiro mês do ano para os aztecas, chamado de Quahuitlehua, que correspondia ao final da estação seca e ao início do plantio das novas culturas.

Aí começava também um ritual bárbaro. Para assegurar o favor dos deuses da chuva, que regaria suas plantações, os aztecas sacrificavam crianças por afogamento, dentro do ritual a que chamavam Atlchualco, ou "compra da água".

Ainda bem que certos costumes foram extintos.

10 - DIA DA SENHORA NA INGLATERRA

Até 1752, o dia 25 de março marcava o início do Ano Novo na Grã-Bretanha, com exceção da Escócia, que tinha a sua própria tradição das fogueiras, acima descrita.

Também conhecido como o "Dia da Anunciação", o Dia da Senhora ("Lady Day") tinha inspiração cristã e marcava o dia em que o arcanjo Gabriel visitara Maria para avisá-la do nascimento de Jesus Cristo, exatos 9 meses depois, no Natal.

A tradição se alargou tanto que o dia passou a marcar também o "aniversário" da expulsão de Adão e Eva do paraíso, do assassinato de Abel por Caim, do "sacrifício" de Isaque por Abraão, da decapitação de João Batista e Tiago e da libertação de Pedro da prisão.

A superstição era tal envolvendo o "Lady Day" que alguns "profetas do fim-do-mundo" do século X predisseram que o mundo acabaria na data em que o Dia da Senhora coincidisse com a Sexta-Feira Santa, o que veio a acontecer no ano 970, mas o mundo continua de pé desde então.

Até hoje, 31 de dezembro de 2013. Feliz 2014!



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails