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sábado, 23 de dezembro de 2017

Quem são as mulheres católicas e evangélicas que lutam pelo direito ao aborto?


Matéria extensa publicada na BBC Brasil:

Os argumentos das católicas brasileiras que há 25 anos defendem o aborto

Camilla Veras Mota

O Papa Francisco não chega a comover. Elas não vão à missa aos domingos, defendem o Estado laico, a contracepção, o casamento gay e, há quase 25 anos, o aborto.

O mais antigo movimento no Brasil de católicas que pregam os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nasceu entre um grupo de jovens que se inquietavam com questões que não ecoavam na Igreja, ainda no início dos anos 90.

"Nós falávamos dos pobres, mas não olhávamos para as mulheres", diz Regina Soares Jurkewicz, coordenadora do Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), referindo-se à Teologia da Libertação, corrente progressista que norteava a atuação das pastorais sociais das quais ela, a professora da PUC-SP Maria José Rosado-Nunes e a teóloga Luiza Tomita, também fundadoras, faziam parte nos anos 80.

Em 1993, elas conheceram a médica uruguaia Cristina Grela - hoje parte da equipe do Ministério da Saúde do Uruguai, único país da América do Sul onde o aborto foi totalmente legalizado, em 2012, até a 12ª semana de gestação - em alguns casos, esse limite é maior.

Naquela época a ativista era integrante do grupo americano Catholics For Choice - que completa 45 anos em 2018 - e fazia um périplo pelo continente na tentativa de organizar um movimento semelhante na região. Além do Brasil, há "Católicas por el Derecho a Decidir" em outros dez países latinoamericanos.

Depois de um evento na Igreja do Carmo, em São Paulo, o movimento foi lançado no dia 8 de março daquele ano. Está presente hoje em 14 Estados e atua em duas frentes - a educativa, com a produção de material didático para o ensino da religião e a realização de seminários para formação de multiplicadoras, e política, organizando debates, marchas e idas a Brasília.

Em uma de suas campanhas mais recentes, o CDD foi às ruas em novembro para protestar contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 181, que pode criminalizar o aborto mesmo nos casos em que ele hoje é permitido, como em gestações resultantes de estupro.

Entre seus membros, leigos e religiosos, está a freira feminista Ivone Gebara, punida pelo Vaticano em 1995 por defender publicamente em uma entrevista a descriminalização e a legalização do aborto.

Na época à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger - que anos depois se tornaria o papa Bento 16 - determinou que ela voltasse à Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, onde obteve seu doutorado, para passar dois anos reclusa, em "reeducação teológica".

Por não estar ligado à estrutura da Igreja, contudo, o movimento em si está fora dos limites de repreensão da hierarquia católica. As perseguições também não são frequentes, diz Jurkewicz.

O que há são questões pontuais como a de Gebara e a que ela mesmo enfrentou quando publicou seu doutorado. Logo após a apresentação do trabalho, que reunia 21 casos de abuso sexual de mulheres por padres, a assistente social foi demitida da universidade em que lecionava, ligada à diocese de Santo André.

O antagonismo mais organizado vem de setores conservadores da religião, de instituições como Arautos do Evangelho e Opus Dei.

As "ameaças", dizem, chegam geralmente por email ou pelas redes sociais. "São mensagens dizendo que a gente vai para o inferno, essas coisas. Nada grave."

O aborto sempre foi considerado pecado?

Para defender o aborto dentro da lógica religiosa, as ativistas argumentam que o início da vida sempre foi um ponto de divergência dentro da fé católica.

Nos primeiros séculos do cristianismo, exemplifica Jurkewicz, houve Santo Agostinho, que condenava o controle de natalidade e o aborto por romperem a conexão entre ato conjugal e procriação, mas que afirmava que ele não era um ato de homicídio.

Seus escritos a respeito do Êxodo diziam, sobre o feto, que "não existe alma viva em um corpo que carece de sensações". Ele nunca chegou a uma conclusão sobre o momento em que a vida começava.

Já o teólogo Tertuliano defendia em 160 que a concepção era o início de tudo e, por isso, condenava a prática.

"Não é um dogma de fé, é uma questão disciplinar", diz ela, acrescentando que nos cadernos penitenciais da Igreja na Idade Média o aborto era colocado entre outros pecados sexuais.

Os Cânones Irlandeses de 675, por exemplo, previam 14 anos a pão e água para aquele que tivesse relação sexual com a vizinha e três anos e meio para quem destruísse um embrião no ventre.

O tema passou a ser oficialmente condenado pela Igreja apenas em 1869, a partir de um boletim do papa Pio 9.

A posição da Igreja hoje e o papa Francisco

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em sua nota "Pela vida, contra o aborto", de abril deste ano, afirma que "a tradição judaico-cristã defende incondicionalmente a vida humana".

O texto defende a "integralidade, inviolabilidade e a dignidade da vida humana desde a sua concepção até a morte natural" e condena "todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil".

"A posição sempre foi a mesma: defender e cuidar da vida humana desde a sua concepção. A vida humana é preciosa demais para ser eliminada ou descartada", diz o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, em nota enviada à BBC Brasil.

O papa Francisco manteve o entendimento que herdou dos antecessores, apesar de ter autorizado, em novembro do ano passado, que padres pudessem perdoar o aborto - prerrogativa que antes era restrita a bispos ou confidentes especiais da Igreja.

"A ideia (por trás da iniciativa do Papa Francisco) é mais de compaixão, de perdão. A Igreja não trabalha com direitos (para as mulheres)", diferencia Jurkewicz.

As ativistas do CDD são críticas em relação ao papel do feminino na Igreja Católica, que limitaria "os espaços de poder e saber" aos homens.

"A posição oficial guarda a tradição da mulher como mãe, está carregada de atributos de gênero. Mesmo as freiras são vistas como 'mães espirituais'", ressalta.

São Tomás de Aquino

O princípio do "recurso à consciência" é outro argumento usado pelas ativistas para defender suas bandeiras e o primeiro destacado pelo movimento do qual se originou o CDD, o americano Catholics for Choice (CFC).

A ideia é que cada católico tome decisões guiadas pelo pensamento individual, ponderando o efeito de suas ações sobre si e sobre o próximo, e que respeite o arbítrio do outro.

"São Tomás de Aquino afirmava que nossa consciência não é um atributo das instituições", diz Amanda Ussak, diretora do programa internacional do CFC.

A organização surgiu nos Estados Unidos em 1973, ano em o aborto foi legalizado no país após decisão da Suprema Corte no emblemático caso Roe v. Wade.

Prevendo uma onda de reações contrárias de instituições religiosas, um grupo de católicas decidiu se reunir e se contrapor às pressões por recuos. Uma década depois, o movimento deu início à sua expansão internacional.

A iniciativa, afirma Ussak, veio da percepção de que criminalização do aborto prejudicava especialmente as mulheres pobres, grupo que ainda hoje registra o maior número de mortes por complicações em procedimentos feitos em clínicas clandestinas.

Hoje a organização atua também na Europa e na África, dando treinamento às organizações para comunicar as campanhas e apoio às iniciativas para mudar as leis locais.

Um exemplo recente de atuação nesse sentido aconteceu no Chile, onde o Congresso aprovou, em agosto, a descriminalização em caso de risco de vida da mulher, inviabilidade fetal e estupro. Até então, qualquer tipo de aborto era proibido.

Na Argentina, o Católicas por el Derecho a Decidir (CDD) participou das discussões que culminaram, em 2006, na Lei de Educação Sexual Integral - semelhante à educação de gênero hoje debatida no Brasil -, na Lei para Prevenir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 2009, e a Lei de Identidade de Gênero, de 2012, que permitiu que travestis e transexuais escolhessem o sexo no registro civil.

"Nos falta ainda a legalização do aborto", afirma Victoria Tesoriero, uma das coordenadoras do movimento argentino.



As evangélicas

Hoje há iniciativas semelhantes às ONGs católicas entre mulheres pentecostais e neopentecostais. O Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), por exemplo, nasceu em 2015 voltado especialmente para a questão da violência contra a mulher.

"Eu nasci nas Assembleias de Deus, no movimento pentecostal, e durante muito tempo testemunhei todo tipo de violência, institucional, simbólica, assédio", conta Valéria Vilhena, uma das fundadoras da rede, que hoje soma 3 mil mulheres.

Em sua tese de mestrado, feita na Universidade Metodista, onde dá aulas hoje, ela mergulhou no cotidiano de uma casa de acolhimento para vítimas de violência doméstica em São Paulo e verificou que 40% das atendidas eram evangélicas.

O aborto, para ela, entra na problemática da negação de direitos às mulheres e da violência. A posição pública a favor, contudo, veio apenas neste ano, em reação à PEC 181.

"Não estamos trabalhando a questão da legalização a partir da Bíblia porque nós queremos desvinculá-la da questão religiosa. É uma questão de saúde pública", destaca. "A questão é essa: mulheres morrem", emenda.



segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Capeta recebe Charles Manson de braços abertos

O inferno amanheceu em festa, segundo noticia o G1 Mundo:

Charles Manson morre aos 83 anos nos EUA

Líder de seita que matou atriz Sharon Tate em 1969 cumpria prisão perpétua. Ele estava internado em hospital na Califórnia desde quarta-feira (15).

Charles Manson, líder da seita que assassinou a atriz Sharon Tate em 1969, morreu neste domingo (19), aos 83 anos, no hospital de Bakersfield, na Califórnia. As causas da morte ainda não foram reveladas.

Ele estava internado desde quarta-feira (15), quando foi levado às pressas para o centro médico, escoltado por cinco policiais.

Manson, que tinha uma suástica tatuada na testa, já havia sido hospitalizado em janeiro para ser operado por lesões no intestino e uma hemorragia interna, mas seu estado foi considerado muito frágil para isto e ele retornou à prisão.

Manson chefiou a seita denominada 'A Família' e era um dos criminosos mais conhecidos nos Estados Unidos. Ele estava na prisão havia mais 40 anos.

Condenações

Ele foi condenado à morte em 1971 ao lado de quatro de seus discípulos pelo assassinato de sete pessoas, incluindo a atriz Sharon Tate, na época esposa do cineasta Roman Polanski, que estava grávida de oito meses e meio. Os crimes ocorreram em agosto de 1969 e comoveram os Estados Unidos, marcando simbolicamente a contracultura dos anos 1960 e o movimento hippie.

As condenações foram comutadas para prisão perpétua. No fim de 2014, Manson pediu autorização para casar com uma mulher de 26 anos, Afton Elaine Burton, mas ele desistiu da ideia.

Em 2012, apresentou uma demanda para obter liberdade antecipada, que foi rejeitada. Ele teria que esperar até 2027 para fazer um novo pedido.



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Batistas do Sul são maiores apoiadores do livre porte de arma nos EUA


A matéria foi publicada no Estadão:

Análise: Evangélicos se opõem a controle de armas

Batistas do sul são os mais propensos a se opor a leis mais rigorosas para o porte de armas do que outros americanos que professam uma religião 

Sarah Pulliam Bailey / W. Post

O massacre de domingo foi o pior ocorrido em uma igreja na história moderna dos EUA. Para muitos evangélicos conservadores, políticas adotadas especificamente para o porte e uso de armas não estão detalhadas na Bíblia e eles não acham que medidas nesse sentido são constitucionais e poderiam resolver o problema dos assassinatos em massa, foi o que disse Russel Moore, presidente do braço político da Convenção Batista do Sul.

Os batistas do sul são os mais propensos a se opor a leis mais rigorosas para o porte de armas do que outros americanos que professam uma religião. Muitos americanos pertencentes a grandes grupos religiosos defendem leis mais rígidas, incluindo os protestantes negros (76%), os católicos (67%), os protestantes brancos (57%), de acordo com pesquisa realizada em 2013 pelo Public Religion Research Institute. Mas os evangélicos – que constituem um quarto da população --, são os menos inclinados a apoiar leis mais rigorosas a respeito (38% são a favor e 59% contra).

Para Jen Hatmaker, escritor e orador conhecido de Austin, o direito às armas se tornou um tema central de debate enraizado na política evangélica. “Conheço perfeitamente mulheres cristãs sensatas, amáveis, que não possuem armas que dirão que ‘não se trata de armas, mas do coração’. É espantoso”, disse ele. “Isso tem raízes profundas e inalteráveis no coração dos evangélicos conservadores, e é tão sagrado quanto a Trindade”.

Depois de o evangelista Franklin Graham ser convidado a rezar durante um café da amanhã da Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), em 2014, ele sugeriu no Facebook que não estava de acordo com a exigência de verificação de antecedentes de todo mundo. Por outro lado, defendeu a verificação de antecedentes no caso de imigrantes muçulmanos.

As armas estão incorporadas na estrutura e na psique da cristandade americana desde sua fundação, afirma Karen Swallow Prior, professora de inglês na Liberty University, que escreveu por que carrega uma arma durante suas idas a áreas rurais da Virgínia. “O país foi fundado para escapar da perseguição religiosa. Os EUA se expandiram como um experimento em individualismo e adentraram fronteiras que exigiam armas para a sobrevivência, para autodefesa e para conseguir alimento”.

Os evangélicos também enfatizam muito mais o individualismo e a responsabilidade pessoal do que outros grupos religiosos.

Algumas pessoas acham que a razão pela qual os evangélicos não desejam leis mais rígidas no campo das armas é simples. Os evangélicos votam nos republicanos e os republicanos têm aversão por políticas mais rígidas para as armas. Muitos evangélicos também se opõem porque acham que elas podem acabar infringindo a liberdade religiosa.

“Acho que eles são totalmente partidários. Os evangélicos votam com base nas linhas do partido, tenham elas sentido teológico ou não. Os que são contra o aborto apoiariam qualquer coisa que fosse parte de uma agenda liberal, o que significaria, no final, endossar o aborto, se for parte dessa agenda”.

Em sua análise de dados de uma ampla pesquisa de 2016 chamada CCES Common Content Dataset, o cientista político Ryan Burge comparou as respostas de evangélicos, protestantes brancos e católicos à seguinte pergunta: Você apoia ou se opõe à uma proibição dos rifles de assalto?”. Ele encontrou diferenças que dependiam mais da filiação partidária do inquirido, se era democrata ou republicano, do que da sua identidade religiosa.

Joe Carter, editor da Gospel Coalition, acredita que os evangélicos são mais avessos a mais regulamentos porque são mais adeptos às armas. Os evangélicos brancos são os mais propensos a possuir uma arma, segundo estudo do Pew Research Center, publicado no Christianity Today. Segundo o estudo, 41% dos evangélicos brancos possuem uma arma, em comparação com 33% dos protestantes brancos (33%), indivíduos sem uma religião definida (32%), protestantes negros (29%) e católicos (24%).

Os evangélicos brancos (44%) também se mostram satisfeitos com as leis sobre armas. Por outro lado, pouco mais da metade dos americanos que professa uma religião (52%) acham que a legislação deve ser mais rígida. Segundo Joe Carter, muitos evangélicos apoiariam leis mais rigorosas se acreditassem que elas seriam eficazes para conter os assassinatos. “Mas eles não acreditam que um criminoso que mata pessoas inocentes irá atender a regras estabelecidas para a compra de armas de fogo”, disse ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Igreja batista atacada no Texas pode ter sido primeira vítima do programa "Igreja com partido"


Ainda é cedo para fazer uma análise profunda da barbárie que acometeu ontem a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs, uma pequena comunidade de 400 habitantes situada a cerca de 56 km de San Antonio, a metrópole mais próxima, e a cerca de 123 km de Austin, outra metrópole não tão longe assim.

O ataque à pacífica Igreja em questão deixou 26 fiéis mortos, 8 da mesma família, segundo as informações mais recentes, com uma faixa etária das vítimas entre 5 e 72 anos de idade, deixando ainda 20 feridos em estado grave.

O acusado do massacre é Devin Patrick Kelley, americano branco (infelizmente, esta referência é necessária dada as circunstâncias atuais dos episódios racistas nos Estados Unidos) de 26 anos de idade, que terminou morto ainda não se sabe se por suicídio ou por ter sido alvejado por alguém das forças de segurança que acudiram imediatamente a igreja que estava sendo atacada.

Dado o pouco tempo transcorrido desde o incidente terrorista de domingo à noite, o  que se sabe até agora é que Devin Patrick Kelley teria se identificado em uma rede social como professor de estudos bíblicos para crianças e, ainda que as informações estejam desencontradas a essa altura dos acontecimentos, parece que ele chegou a frequentar a igreja batista de Sutherland Springs até algum tempo atrás.

É cedo demais, portanto, para entender o que levou Kelly a perpetrar o ato de terror, mas já começam a surgir algumas pistas.

O fato é que a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs não é exatamente uma igreja conservadora no sentido mais estrito da palavra, o que pode ser um pecado mortal no atual estado de coisas que impera no meio evangélico fundamentalista norte-americano, todo ele alinhado com Donald Trump, o atual (e polêmico) presidente do país.

O Estado do Texas, com 38 votos no colégio eleitoral que elege o presidente, é o segundo maior nos Estados Unidos, atrás apenas da California (com 55 votos), e foi maciçamente pró-Trump nas eleições de 2016.

E foi exatamente neste meio fundamentalista que a Primeira Igreja Batista de Sutherland Springs ousou postar em sua página no facebook - em maio de 2016 - um artigo que defendia o direito da rede varejista Target (uma gigante do porte do Walmart, para você ter uma ideia) de autorizar pessoas transgênero a utilizarem o banheiro com o qual se identificassem nas suas lojas, fato que gerou uma comoção entre os mais conservadores (em sua maioria evangélicos fundamentalistas), que se opõem a qualquer iniciativa que vise a reconhecer o direito dos transgêneros em, digamos, existir.

A igreja de Sutherland Springs criticou o boicote organizado pelos evangélicos e disse, através do artigo em questão, que isto causava mais danos ao evangelho do que tolerar a prática institucional da Target.

Ao fazer isto, ela se colocou na contramão da maioria dos evangélicos norteamericanos que creem piamente que o conservador Donald Trump é inspirado por Deus a comandar a nação, conforme a gravura abaixo, que circula nos meios fundamentalistas:



Teria esta atitude maleável e tolerante da igreja acionado o gatilho que perpetrou o abominável ato terrorista?

Ainda não é possível responder afirmativamente a esta questão, mas nestes tempos bicudos em que os evangélicos de todo lugar estão mais preocupados em combater ideologias que não são as suas (sim, eles têm partido...), e defender o programa "Escola Sem Partido" para que seus filhos não sejam educados a conviverem com o diferente, talvez a barbárie ocorrida no Texas seja um símbolo trágico do risco que estão correndo mesmo aqueles evangélicos que ousam discordar da guinada ideologicamente conservadora e partidária que suas igrejas estão seguindo. 

O fim realmente está próximo.

Quem viver, responderá...

First Baptist Church of Sutherland Springs, uma igreja pacífica de gente querida que merece ser lembrada.




sábado, 30 de setembro de 2017

Mórmons abrem ao público seus acervos genealógicos


A matéria foi publicada no Estadão em 25/09/17:

Mórmons ajudam a descobrir raízes

Grupo libera acesso a arquivos de cartórios e igrejas para quem pesquisa sobre antepassados

Edison Veiga

SÃO PAULO - Vocês querem catalogar a humanidade inteira, é isso? A pergunta deste repórter não tirou o foco de Mario Silva, gerente de relacionamento do FamilySearch no Brasil. “Olha, sabemos que é algo impossível. Mas nossa pretensão é fazer o máximo possível nessa direção”, respondeu ele, ciente de que dados de sua instituição guardam 3,5 bilhões de cópias de documentos, microfilmados, em um imenso arquivo-cofre de mais de 6 mil metros quadrados localizado na Granite Mountain, em Salt Lake City, nos Estados Unidos.

Estamos falando do maior acervo de registros genealógicos do mundo, trabalho iniciado em 1894 pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os mórmons. Para esses religiosos, pesquisar a genealogia é mais do que uma curiosidade. “De acordo com nossa doutrina, os laços familiares são eternos”, explica Silva. “Assim, somos incentivados a conhecer os antepassados.”

Aos poucos, em esforço que hoje mobiliza 10 mil arquivos e mais de 200 mil voluntários em todo o mundo, o FamilySearch foi montando seu impressionante acervo. No sistema, hoje digitalizado, estão livros de cartórios e de cemitérios, fichas de imigrantes, certidões emitidas por igrejas católicas e diversos outros tipos de documentos que ajudam a reconstituir árvores genealógicas.

Essas informações sempre estiveram ao alcance de todos, religiosos ou não religiosos, nos Centros de História da Família que funcionam anexos aos templos dos mórmons. De graça. “Entendemos que seria egoísmo restringir essas informações apenas aos membros da igreja”, afirma Silva. Desde 1999, entretanto, com o lançamento do site www.familysearch.org, o acesso a tais materiais pode ser feito de qualquer lugar – com algumas restrições, já que por razões de segurança alguns documentos ainda só podem ser visualizados dos centros físicos.

Atualmente, o site recebe 10 milhões de visitantes por dia. Já são 9 milhões os usuários cadastrados. No sistema, há um banco de 6 bilhões de nomes com pelo menos um documento cada. “Todo indivíduo tem o desejo, ainda que latente, que descobrir de onde vem”, acredita o gerente.

Dos 305 Centros de História da Família do Brasil, um terço está no Estado de São Paulo. A reportagem esteve no maior deles, que fica na sede da instituição no bairro paulistano do Caxingui. Voluntários e funcionários da igreja auxiliam nas pesquisas em computadores e incentivam as pessoas a mergulharem fundo nas suas genealogias. Por mês, o endereço recebe cerca de 300 pesquisadores. “A maior parte é da igreja mesmo. Mas ultimamente tenho observado um número cada vez maior de interessados em descobrir detalhes de antepassados para pleitear dupla cidadania”, comenta Marisa Cuellar, diretora desse Centro de História da Família.

De volta para o passado. Quando um antepassado é encontrado, a comemoração costuma ser compartilhada. Foi assim quando a advogada Magna Pereira da Silva, de 65 anos, encontrou o registro de nascimento de seu avô, Afonso Aloi, italiano da Calábria. “O único documento dele que eu tinha era sua certidão de óbito, já que ele morreu aqui no Brasil há 53 anos”, conta. “Mas nela não estava informado o local de nascimento na Itália, então tive de olhar página por página, de várias cidades, até encontrar.”

Muito além da simples curiosidade, o documento será importante para os planos futuros de Magna. Ciente da localização e data exata do nascimento de seu antepassado, ela vai solicitar agora à Itália a cópia da certidão de nascimento do avô para que possa dar início ao processo de reconhecimento de cidadania italiana.

Uma das mais assíduas pesquisadoras é a administradora de empresas Adriana da Cunha Sinibaldi, 39 anos, frequentadora do centro desde os 16. “Pesquisa genealógica não é algo rápido”, diz ela, que vai ao local presencialmente pelo menos uma vez por semana e diariamente também busca informações de sua casa. “Na igreja a gente dá valor à família, à importância de conhecer os antepassados”, explica ela, que é mórmon.

Como o sistema permite que o usuário vá alimentando sua própria árvore genealógica e esta se cruze com outros pesquisadores com antepassados em comum, as ramificações vão recuando no tempo. “No mais longo ramo da minha família cheguei a 166 gerações”, diz Adriana.

A dona de casa Silvana Lemos Noronha Santos, de 49 anos, já está nos anos 1600 em sua própria genealogia. Tomou gosto pelas pesquisas de família por conta do pai, o funcionário público Expedido Justiniano de Noronha, que morreu em 2006. “Aprenda a amar seus antepassados e serás eterno na lembrança dos que vierem depois”, dizia ele. E então, fazia das férias sempre uma peregrinação por cartórios, cemitérios e igrejas espalhadas pelo País, em busca de algum fragmento que ajudasse a compor sua genealogia. “Colocava a gente no fusquinha azul e íamos todos. Depois escrevia tudo à mão. Fui eu quem passei para o computador”, conta Silvana.

Mas de onde vem toda essa informação? No Brasil, é o gerente Mario Silva quem se encarrega de fazer as parcerias. Firma acordos com cartórios, com igrejas católicas, com arquivos públicos. “Oferecemos a digitalização gratuita de todo o material em troca de termos uma cópia. Não há dinheiro envolvido”, afirma. No País, os mórmons têm 30 câmeras trabalhando simultaneamente. Cada uma tem capacidade de produzir 50 mil imagens por mês.



sábado, 16 de setembro de 2017

Papa diz que quem nega aquecimento global é "estúpido"


E, cá entre nós, o papa pegou leve...

Chamar esses imbecis, para dizer o mínimo, de "estúpidos", até que ficou simpático.

A matéria é da BBC Brasil:

'O homem é um estúpido': a crítica do papa aos que negam mudanças climáticas

O papa Francisco citou a Bíblia para fazer duras críticas a líderes mundiais que se recusam a levar a sério as ameaças das mudanças climáticas.

"O homem é estúpido, é um teimoso que não vê", disse, atribuindo a frase a uma passagem do Antigo Testamento. Em seguida, emendou: "o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra".

O pontífice disse que os recentes furacões Harvey e Irma mostraram que os efeitos das mudanças climáticas podem ser vistos "com seus próprios olhos".

"Quem nega as mudanças climáticas tem de perguntar aos cientistas. Eles são claros e precisos", assinalou o líder da Igreja Católica em conversa com a imprensa na sua viagem de volta a Roma, após uma visita à Colômbia.

Ele disse ainda que a história julgará os líderes mundiais que nada fazem para minimizar os danos causados ao meio ambiente.

Apesar de o papa associar o aquecimento global às tempestades que provocaram prejuízo milionário a ilhas do Caribe e aos EUA nas últimas semanas, nem todo mundo concorda com essa visão.

Momento inapropriado

O chefe da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, em inglês), Scott Pruitt, disse ser um momento inapropriado para discutir a relação entre aquecimento global e a passagem dos furacões pelo Caribe e EUA.

Pruitt, que anteriormente declarou não concordar que emissões de dióxido de carbono fossem uma das principais causas do aquecimento global, afirmou à rede de televisão CNN que a especulação sobre "as causas e efeitos dos furacões...são descabidas".

O chefe da agência americana disse que as discussões, nesse momento, deveriam focar nos esforços de limpeza.

O prefeito de Miami, Tomás Regalado, que viu a própria cidade ficar parcialmente submersa depois da passagem do furacão Irma, discorda. Ele declarou ao jornal Miami Herald que "agora é a hora de falar sobre aquecimento global". "É a hora do presidente (Trump), da EPA e de quem mais toma decisões de falar sobre mudança climática".

Podemos associar furacões mais devastadores às mudanças climáticas?

Matt McGrath, analista da BBC para assuntos de meio ambiente, afirma que furacões são fenômenos complexos, difíceis de prever, mesmo com ou sem o aquecimento global como pano de fundo das discussões.

Ligar a incidência e a gravidade do impacto dos furacões a mudanças climáticas, diz McGrath, também é difícil de provar, simplesmente porque são eventos raros e não existe uma quantidade significativa de dados históricos para serem analisados e comparados.

Mas o especialista pondera que há algumas certezas. A equação de Clausius-Clapeyron nos permite afirmar que atmosfera mantém mais umidade, diz ele. Para cada grau Celsius extra no clima, a atmosfera pode conter 7% mais de água. Isso tende a tornar as chuvas ainda mais fortes, quando ocorrem.

McGrath diz que outra certeza é que a temperatura dos mares está mais alta - e cita o cientistas Brian Hoskins, do Instituto de Mundanças Climáticas Grantham, que disse que "as águas do Golfo do México estão 1,5 graus mais quentes que a temperatura registrada entre 1980 e 2010".

O debate sobre mudanças climáticas saiu da pauta oficial do governo dos EUA depois que Donald Trump assumiu a Casa Branca.

O presidente dos EUA reverteu algumas leis de proteção ambiental - muita delas implementadas por Barack Obama. Trump também anunciou a intenção de retirar os EUA do Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 países, como resposta global à ameaça da mudança do clima.

No entanto, não se sabe ao certo o que Trump pensa hoje sobre o aquecimento global. Em 2012, ele escreveu no Twitter que "o conceito de aquecimento global foi criado pela China" para prejudicar a competitividade da indústria norte-americana.

Responsabilidade de todos

O papa Francisco, por sua vez, não tem dúvidas sobre essa ameaça. Ele disse temer que o impacto será maior sobre os mais pobres, e critica abertamente quem não se disponha a agir contra o problema.

Suas declarações recentes foram vistas como críticas veladas a líderes como Trump.

"Eu não acho que seja algo para brincar. Cada pessoa tem sua responsabilidade, os políticos têm as suas."

- Desculpe, Sua Santidade, mas eu não acredito.
- Há esperança para todos, meu filho.
- Eu estou falando sobre mudança climática...
- Então, acho que não há esperança para você...




terça-feira, 29 de agosto de 2017

Joel Osteen criticado por não abrir mega-igreja a refugiados do furacão Harvey

Parece que não há espaço para gente necessitada na Lakewood Church

Como você já deve estar sabendo, o furacão Harvey provocou uma crise humanitária sem precedentes na rica região de Houston, no Texas, com fortes inundações que parecem ter afundado (temporariamente) a cidade no Golfo do México.

No meio do caos que se instalou em Houston, cerca de 30 mil pessoas perderam quase tudo, inclusive suas casas, e estão sendo abrigadas nas poucas instalações públicas que escaparam às enchentes.

É aí que entra a igreja capitaneada por Joel Osteen, a Lakewood Church, que possui um templo com capacidade para receber 17 mil pessoas sentadas e - em tese - com uma ótima infra-estrutura para atender milhares de refugiados.

O problema é que não dá pra contar com Joel Osteen, o pastor que tem um sorriso de propaganda de dentifrício e uma pregação soft e pasteurizada direcionada a celebridades como Oprah Winfrey, que sempre o recebe em seus programas televisivos.

Você não precisa ir aos EUA para assistir uma pregação de Osteen, basta acessar o youtube para ver vários vídeos, nos quais ele apresenta um discurso muito bem ensaiado com sorrisos brilhantes e jogos de cena e movimentos de câmera perfeitos, mas com profundidade zero.

Nada disso foi suficiente, entretanto, para que Osteen abrisse seu megatemplo para receber os refugiados do furacão Harvey.

Pelo contrário, o megapastor está sendo criticado por, supostamente, sua igreja ter mentido ao dizer que o templo não podia receber ninguém porque estava inundado, quando - na verdade - não havia enchente alguma por lá.

Assim que a desculpa da igreja foi divulgada, dezenas de testemunhos contrários começaram a "pipocar" nas redes sociais, mostrando, inclusive com fotos e vídeos, que não havia qualquer sinal de inundação no templo e nos seus arredores.

Talvez, a exemplo de seus colegas brasileiros, os "evangélicos" americanos não gostem de ajudar gente pobre e necessitada, além de - ultimamente - sentirem seus corações vibrando em paradas nazistas e ouvindo candidatos fascistas à Presidência de seus respectivos países, não é mesmo?

De qualquer maneira, aguarda-se um pronunciamento de Joel Osteen para as próximas horas.

A fonte das informações aqui postadas é o Revere Press.

Um dos melhores empregos dos EUA deve ser o do dentista de Joel Osteen.



sábado, 19 de agosto de 2017

O que fazer quando seu filho é neonazista?

Foto: Evelyn Hockstein / The Washington Post

Pergunta dura e atual inclusive para brasileiros que veem assustados o crescimento do fascismo no Brasil, especialmente nos arraiais que se dizem "evangélicos".

A matéria é do Estadão:

Quando seu filho se torna um neonazista

Se em outros tempos o racismo era absorvido em casa, internet mudou a lógica da radicalização

Jessica Contrera / THE WASHINGTON POST

Durante o fim de semana inteiro, Tefft ficou de olhos fixos na TV. Em sua casa, em Dakota do Norte, passava de um canal de notícias para outro, vendo os manifestantes agitando bandeiras com suásticas, gritando “vocês não nos substituirão”, levantando o braço como nos tempos de Hitler.

E pensou em seu pai, que lutou na 2.ª Guerra, e em sua mãe, que cuidou dos soldados que quase morreram lutando contra os ideais nazistas de superioridade racial. Agora via na TV esses ideais sendo exaltados, pensando se veria o rosto conhecido de um manifestante em meio aquela multidão.

No domingo, esse manifestante bateu a sua porta. Fugira de Charlottesville, Virgínia. Tefft deixou que ele entrasse. Afinal, ainda era seu filho. Há mais de dois anos Tefft vinha discutindo com Peter, seu filho de 30 anos, na esperança de que ele abandonasse todo esse “lixo” racista e sexista que encontrou online. Agora tinha a prova inegável de que seu filho mais novo havia assimilado tais ideias. Como pai, o que deveria dizer?

Durante o fim de semana inteiro, Tefft ficou de olhos fixos na TV. Em sua casa, em Dakota do Norte, passava de um canal de notícias para outro, vendo os manifestantes agitando bandeiras com suásticas, gritando “vocês não nos substituirão”, levantando o braço como nos tempos de Hitler.

E pensou em seu pai, que lutou na 2.ª Guerra, e em sua mãe, que cuidou dos soldados que quase morreram lutando contra os ideais nazistas de superioridade racial. Agora via na TV esses ideais sendo exaltados, pensando se veria o rosto conhecido de um manifestante em meio aquela multidão.

No domingo, esse manifestante bateu a sua porta. Fugira de Charlottesville, Virgínia. Tefft deixou que ele entrasse. Afinal, ainda era seu filho. Há mais de dois anos Tefft vinha discutindo com Peter, seu filho de 30 anos, na esperança de que ele abandonasse todo esse “lixo” racista e sexista que encontrou online. Agora tinha a prova inegável de que seu filho mais novo havia assimilado tais ideias. Como pai, o que deveria dizer?

“Disse-lhe que suas ações eram inaceitáveis e o que eu pretendia fazer”, lembra Pearce Tefft. O que fez foi publicar uma carta no jornal local de Fargos, o Forum, e denunciar abertamente as crenças do seu filho. A carta seria publicada na manhã seguinte.

“Tenho compartilhado minha casa e meu coração com amigos e conhecidos de todas as raças, gêneros e crenças. Ensinei a meus filhos que homens e mulheres são criados iguais. Que temos de amar a todos da mesma maneira. Evidentemente Peter não quis aprender essas lições”, disse em sua carta.

Em outros tempos, se uma pessoa era abertamente racista, supunha-se que suas convicções já vinham de casa, ensinadas pela família. Mas hoje esses conceitos racistas estão disponíveis para qualquer um que tenha uma conexão de internet.

Do mesmo modo que contribuiu para a radicalização de muçulmanos e disseminar as teorias de conspiração, a internet oferece um terreno fértil para os supremacistas brancos, neonazistas e a ciência mentirosa que pretende apoiar suas crenças. Uma pessoa pode digerir e internalizar tudo isso, alterando drasticamente seus conceitos sem nunca ter encontrado aqueles que as persuadiram a pensar desse modo.

Quando jornalistas disseram à mãe de James Alex Fields Jr. que seu filho de 20 anos fora preso por lançar seu carro contra pessoas contrárias aos manifestantes em Charlottesville, ela se surpreendeu quando soube de que tipo de manifestação seu filho estava participando. “Não sabia que se tratava de um encontro de supremacistas brancos”, disse Samantha Bloom. E acrescentou que seu filho já teve um amigo negro.

Investigadores averiguavam fotos de manifestantes que participaram da concentração para identificar seus nomes, idades, cidade natal e empregadores. Com cada nome descoberto, havia a possibilidade de que em algum lugar mais um pai descobrisse em seu filho era um racista declarado. E no caso dos que já sabiam – bem, agora era de conhecimento geral também, e muitos não hesitariam em expor sua repulsa.

Como Tefft, esses pais se defrontarem com uma pergunta: o que fazer quando descobre que seu filho simpatiza com nazistas? Amá-lo incondicionalmente, sabendo que sofrerá a ira da sociedade? Ou acusar publicamente o filho e perder a chance de fazer com que ele mude seus hábitos?

Basta perguntar a Sherry Spencer, mãe de Richard Spencer. Seu filho ficou conhecido por uma conferência logo após a eleição de 2016, quando encerrou seu discurso gritando “Heil Trump! Heil nosso povo!”, enquanto o público fazia a saudação nazista. Ele se tornou um líder da “direita alternativa”, que defende um Estado só de brancos.

Na cidade natal da família, Whitefish, Montana, membros da comunidade exigiram que Sherry renegasse publicamente as crenças do filho. Um corretor de imóveis enviou a ela uma declaração para que assinasse, na qual ela reconhecia que a presença do filho na cidade estava “causando danos aos moradores”. Ela não assinou e fez uma postagem em um blog afirmando que o corretor a estava ameaçando.

Os membros da família de Tefft, especialmente a mãe de Peter, receberam uma avalanche de mensagens na mídia social e telefonemas de pessoas que compartilhavam ou aprovavam suas opiniões. A situação se agravou no fim de semana quando a conta no Twitter @YesYoureRacist postou uma foto de Peter na manifestação de Charlottesville com a legenda: “Esse encantador nazista é Pete Tefft, de Fargo, ND”.

Seu pai disse que as mensagens recebidas de “culpa por associação” eram tão infames que não as repetiria. E cancelou sua linha de telefone fixo.

Tefft soube pela primeira vez das ideias do filho há alguns anos, quando Peter insistiu para que ele visse os sites que estava lendo. Tefft sempre insistiu com os filhos para tentarem compreender o mundo a partir de múltiplas perspectivas. Assim, não se surpreendeu com o fato de Peter procurar ampliar seu conhecimento. Mas o que encontrou nos sites não tinha nada a ver com os valores que procurava incutir na família.

“Eu apontava o que estava errado e ele rejeitava, dizendo ‘não, você não está entendendo’. Dizia a ele que os judeus são brancos e ele respondia, ‘não são’. E também sempre negou o Holocausto. É ridículo”.

Eles discutiam sobre evidências e por que o avô, seu irmão, os irmãos mais velhos de Peter, todos haviam prestado o serviço militar. “Para lutar por um país onde todos se respeitam”, dizia o pai. E discutiam também sobre igualdade das mulheres e essa parte foi a que mais inquietou Tefft.

“Ele dizia coisas estúpidas quando começava a comparar mulheres e assuntos do gênero”, disse Tefft. Ele dizia ao filho: “Deus, você tem quatro tias, quatro irmãs, o que acontece com você?”

Nada funcionou. Quando Peter retornou a Dakota do Norte no domingo, Tefft disse que a partir de então ele não seria mais bem-vindo nas reuniões de família. Prometeu que sempre falaria com ele, mas outros parentes tinham dito que se retirariam se ele aparecesse. Estavam muito zangados com o ódio do qual eram vítimas por causa do ódio que Peter disseminava.

Às 8h21 da segunda-feira a carta foi publicada no site do jornal local. Nessa carta, Tefft lembrou-se de algo que o filho disse certa vez: “A questão é que nós, fascistas, não acreditamos em liberdade de expressão. Você pode dizer o que quiser, nós simplesmente lançamos no forno”. “Peter, você terá de colocar nossos corpos no forno, também. Por favor, renuncie ao ódio, aceite e ame a todos”, suplicou na carta. Depois disso, não teve mais notícias do filho. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

"Mulher atingindo o neonazi com uma bolsa", clássica imagem
do fotógrafo sueco Hans Runesson




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