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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Papa é oficialmente convidado para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante

É o que informa o IHU:

Igreja Evangélica alemã faz convite histórico ao Papa Francisco


Pela primeira vez desde a Reforma, a Igreja Evangélica na Alemanha, que representa a grande maioria dos protestantes alemães, convidou o papa a visitar o país, local onde a se iniciou a Reforma. Uma delegação ecumênica da Alemanha visitou o Papa Francisco no Vaticano em 6 de fevereiro como parte da comemoração do 500º aniversário do evento religioso que dividiu o cristianismo ocidental. 

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada por America, 06-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


“Papa Francisco, o senhor desencadeou um sentimento de bondade e misericórdia a todas as pessoas” e “como irmãs e irmãos em Cristo estamos felizes pela clara orientação que nos tem dado”, disse o Bispo Heinrich Bedford-Strohm antes de fazer o convite a Francisco. Bedford-Strohm preside o Conselho da Igreja Evangélica (Evangelische Kirche in Deutschland – EKD) na Alemanha.

O Cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência dos Bispos Católicos Alemães, acompanhava a delegação. Marx sublinhou a significação histórica do convite e expressou a esperança fervorosa de que o papa possa respondê-lo.

O Papa Francisco já participou de uma comemoração católico-luterana conjunta em torno da Reforma em Lund, na Suécia, em outubro do ano passado, mas este convite é mais significativo ainda.

Embora não tenha dado uma resposta ao convite durante a audiência, é possível que o Papa Francisco o aceite. Ele conhece a Alemanha, fala alemão e está ciente da importância do convite.

Saudando a delegação alemã em sua biblioteca particular, Francisco procurou impulsionar os esforços em direção à unidade dos cristãos. Ao considerar uma iniciativa ecumênica, convidou os evangélicos e católicos a se perguntarem: “Podemos partilhar junto com os nossos irmãos e irmãs em Cristo? Será que conseguiremos percorrer mais um outro trecho do caminho juntos?”

“Temos o mesmo batismo: devemos andar juntos, sem nos cansar”, disse Francisco. Não tem caminho de volta no trajeto para a unidade, garantiu o papa à delegação; os católicos e os evangélicos devem “continuar a testemunhar juntos o Evangelho e continuar no caminho da unidade plena”.

O papa descreveu as “diferenças” que ainda existem entre as igrejas em questões como a fé e a moral como sendo “desafios” no percurso à unidade visível almejada pelos fiéis. “Os casais que pertencem a confissões diferentes” sentem particularmente “a dor” da divisão, disse, aludindo ao problema de as famílias não poderem participar juntos da Eucaristia.

O pontífice convidou os católicos a evangélicos a trabalharem para “superar os obstáculos ainda existentes”, perseverando com “oração incessante (...) com todas as nossas forças” e “intensificando o diálogo teológico e reforçando a colaboração entre nós”.

Bedford-Strohm disse ao papa: “Às vezes é uma realidade dolorosa nas famílias: casais que compartilham filhos, netos e amigos ficam divididos na mesa do Senhor”. Ele reconheceu que foi feito um progresso “no espírito da reconciliação”, acrescentando que as igrejas estão trabalhando juntas “para encontrar o caminho para uma parceria eucarística ainda maior”.

Falou que esse tema surgiu em vários diálogos com o Vaticano. O Cardeal Marx confirmou essa iniciativa em uma coletiva de imprensa em Roma com os líderes evangélicos alemães ocorrida na sequência do encontro com o papa. Ele falou que ambos os lados estão trabalhando juntos para “descobrir se podemos alcançar uma linha comum”.

O Papa Francisco saudou o fato de que os católicos e os evangélicos estão comemorando os eventos históricos da Reforma juntos “a fim de pôr, mais uma vez, Cristo no centro das nossas relações”. Ele lembrou que, no fundo, os reformadores estavam “animados e inquietos” sobre como “indicar a estrada para Cristo”. Disse que isso deveria estar no centro dos esforços católicos e evangélicos, hoje, quando caminham na direção da unidade.

O Papa Francisco deu as boas-vindas a uma iniciativa evangélico-católica conjunta na Alemanha para realizar uma cerimônia de Penitência e Reconciliação porque “curar a memória, testemunhar a Cristo” é uma tarefa ecumênica.

Na coletiva de imprensa, Annette Kurschus, da delegação alemã, salientou a importância da “diversidade reconciliada” e enfatizou que a visita ecumênica a Roma – “a cidade global do catolicismo” –, no 500º aniversário da Reforma, também tem uma “significação” para o mundo protestante no percurso à unidade.

A Igreja Evangélica na Alemanha é uma federação de igrejas e denominações luteranas, reformadas (calvinistas) e protestantes unidas regionais na Alemanha, com aproximadamente 24 milhões de membros. Ao saudar o papa, Bedford-Strohm disse: “As nossas igrejas sentem uma responsabilidade especial em desenvolver o ecumenismo, uma vez que as divisões começaram conosco na Alemanha”.

A EKA busca “um diálogo mais profundo” com a Igreja Católica “sobre o batismo e sua significação para os próximos passos ecumênicos” e deseja “seguir uma nova abordagem para garantir que o diálogo não fique estagnado”, acrescentou.

Tanto o papa quanto o bispo destacaram a importância de os católicos e evangélicos darem um testemunho comum a Cristo num mundo marcado pela violência e polarização. Francisco disse que “o chamado urgente de Jesus à unidade” convida os membros de ambas as igrejas a agirem juntos “quando vivenciamos graves dilacerações e novas formas de exclusão e marginalização”. Aqui “a nossa responsabilidade é grande”, disse.

O Bispo Heinrich Bedford-Strohm concordou, acrescentando: “Onde são negadas a misericórdia e a compaixão, o ‘pecado social’ ameaça a vida humana consecutivamente”. Ele observou que “alguns agora aspiram conter a nossa humanidade dentro de muros. Um novo populismo em diferentes países glorifica o país dos seus apoiadores e exclui grandes grupos de pessoas”.

Ele destacou também a situação dos refugiados e migrantes – uma questão cara ao Papa Francisco. Disse que “em 2017, as igrejas cristãs deveriam erguer suas vozes juntas no mundo inteiro no intuito de encorajar os nossos países a demonstrar solidariedade com os refugiados do terror e da guerra, e a distribuir os fardos da maneira mais ampla possível”.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Padre de SP escandaliza fiéis com drag queen em missa


A informação é do Extra:

Fiéis pedem afastamento de padre por presença de drag queen em missa

Um grupo de fiéis que frequenta o Santuário Nossa Senhora da Paz, no distrito de São Miguel Paulista, em São Paulo, criou um abaixo-assinado solicitando o afastamento de Paulo Sérgio Bezerra, o pároco local. A revolta dos fiéis foi motivada pela presença de uma drag queen durante uma das missas celebradas pelo religioso.

O texto, que até o momento foi assinado por 1.849 pessoas, é endereçado ao Bispo Dom Manuel Parrado Carral e afirma que os fiéis da igreja "estão perplexos com as atividades, pronunciamentos e posicionamentos escandalosos" adotados pelo padre. Segundo eles, o religioso convidou uma drag queen para frequentar a igreja, além de abrir as portas da instituição religiosa para que umbandistas também pudessem acompanhar as missas.

Em julho, o ator Albert Roggenbuck, criador da drag queen Dindry Buck, foi convidado pelo pároco para ministrar a homilia no novenário de Nossa Senhora do Carmo. Durante a celebração da missa, Albert também participou da distribuição da comunhão para os fiéis.

Por meio de suas redes sociais, Padre Paulo se defendeu e reafirmou seu propósito na igreja:

"Sou discípulo do homem mais livre que existiu sobre a face da terra: Jesus de Nazaré. Há 57 anos ando com ele (e com outros/as tantos que por ele se deixaram seduzir e convencer) - não me arrependo. Ele (eles) me inspiram ao diálogo com quem quer que seja, à tolerância, à abertura pluralista de idéias e práxis, a não me deixar engessar pela burocracia eclesiástica jurídica, fria e anacrônica. Mesmo que for parar na cruz, vou até o fim e, para escândalo de alguns e loucura para outros tantos, confesso: Ele é meu Senhor e meu Redentor", desabafou o pároco.

Procurado pelo Extra, o padre Paulo preferiu não se manifestar e argumentou que uma nova entrevista poderia "dar mais pano pra manga". O Bispo Dom Manuel Parrado Carral não foi localizado na Diocese para comentar o caso.



terça-feira, 17 de novembro de 2015

Papa visitou igreja luterana de Roma


A visita se deu por ocasião da celebração do 532º aniversário de Martinho Lutero, nascido em 10 de novembro de 1483.

A matéria é do IHU:

Papa Francisco entre os luteranos: "Para mim, ser papa é ser pároco, ser pastor"

"Houve momentos feios entre nós, católicos e luteranos. Pensem nas perseguições entre nós que temos o mesmo batismo. Devemos nos pedir perdão por isso, perdão pelo escândalo da divisão." Esse foi o novo "mea culpa" pronunciado pelo Papa Francisco na homilia – completamente de improviso – na Igreja Luterana da Via Sicilia, em Roma, aonde ele se dirigiu nos passos dos seus antecessores São João Paulo II e Bento XVI.

A reportagem é de Salvatore Izzo, publicada no sítio da Agenzia Giornalistica Italia (AGI), 15-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Durante a visita, o tema sobre o qual ele mais se deteve foi a intercomunhão, ou seja, a possibilidade de que os fiéis de confissões diferentes façam a comunhão juntos. Católicos e luteranos ainda não têm essa possibilidade, e o papa disse que não pode dar uma resposta definitiva, isto é, a permissão para fazê-la. Mas que essa resposta "pode ser pedida ao Senhor".

Desde a sua saudação inicial a Francisco, o pastor Jens-Martin Kruse, que dirige a comunidade luterana de Roma, evocou o tema da intercomunhão, falando de "pessoas que devem sofrer pelo fato de que as Igrejas ainda estão divididas". Depois, mais explicitamente, quem falou sobre isso foi uma jovem mulher casada com um católico, que perguntou ao papa o que pode ser feito para vir em seu auxílio. "O que podemos fazer para alcançar essa intercomunhão, eu não sei", começou Bergoglio, admitindo:

"Não é fácil para mim responder à pergunta. Especialmente diante de um teólogo, como o cardeal Kasper, eu tenho medo. Mas eu acho – acrescentou – que o Senhor nos disse: 'Fazei isto em memória de mim'. Então, quando compartilhamos a ceia, recordamos e imitamos, fazemos o mesmo que Ele disse".

"A ceia do Senhor – continuou – haverá no último dia na nova Jerusalém. Mas no caminho, eu me pergunto: a comunhão é o fim ou o viático para caminhar juntos? Deixo a pergunta aos teólogos e àqueles que entendem".

Não satisfeito com a resposta, Francisco, depois, voltou ao seu raciocínio: "É verdade – observou – que compartilhar é dizer que não há diferenças, que temos a mesma doutrina, palavra difícil. Mas eu me pergunto: mas não temos o mesmo batismo? E, então, não devemos caminhar juntos? Senhora, você é testemunha de um caminho conjugal, profundo, de amor humano, de fé compartilhada: temos o mesmo batismo. Você se sente pecadora, e eu também me sinto pecador. Você pede perdão, e o seu marido católico faz o mesmo e vai ao sacerdote e lhe pede a absolvição. São remédios para manter vivo o batismo. Quando vocês rezam juntos, esse batismo cresce, permanece forte. Quando vocês explicam o Evangelho aos seus filhos, vocês fazem o mesmo, seja em língua luterana quanto católica".

"A ceia? Há perguntas – confidenciou Bergoglio – às quais só podemos responder se formos sinceros com nós mesmos. Dizer 'isto é o meu corpo, isto é o meu sangue' é um viático que nos ajuda a caminhar. Você se pergunta: 'Como eu posso fazer com o meu marido, para que a ceia do Senhor me acompanhe pela minha estrada?'. É um problema ao qual cada um deve responder, mas um bispo episcopaliano, meu amigo, que aos domingos acompanhava a esposa católica e os seus filhos à missa antes de ir presidir o culto, me dizia: 'Nós acreditamos que está presente, e está presente, qual é a diferença? Explicações e interpretações'. Mas a vida – continuou o pontífice, apresentando humildemente o seu pensamento – é maior do que as explicações e as interpretações. Temos em comum uma fé, um batismo, um Senhor. Eu não vou ousar dar a permissão para vocês, não é competência minha. Falem com o Senhor. Não ouso dizer mais."

"Eu gosto de pensar – confidenciou – que o Senhor é o servo da unidade, que nos ajuda a caminhar juntos, a rezar juntos, a trabalhar juntos, a nos amar juntos com amor de irmãos."

Bergoglio também assumiu uma objeção a essa sua esperança: "'Mas, padre, somos diferentes, os nossos livros são diferentes, dizem coisas diferentes...'. Eu respondo – disse – com as palavras de um grande luterano: 'É a hora da diversidade reconciliada no Senhor, no servo de Javé, que veio a nós para que sejam removidos todos os obstáculos."

"Em pequena escala – comentou o pastor Kruse – vê-se o que vale para a universalidade. Este não é só um belo momento: é verdadeiro e real. Infunde-nos coragem e força para continuar nesse caminho."

Paris: não construir muros, mas rezar e servir

"Em Paris, também vimos corações fechados, e também o nome de Deus foi usado para fechar os corações. O que fazer? Falar claro, rezar e servir." O Papa Francisco evocou com essas palavras a tragédia dos ataques terroristas em uma conversa espontânea com os fiéis da Igreja Luterana de Roma, aonde ele se dirigiu na tarde desse domingo por ocasião do quinto centenário de Martinho Lutero.

"O homem – disse –, desde o primeiro momento, se lermos as Escrituras, é um grande construtor de muros. Desde as primeiras páginas do Gênesis vemos isso.".

De acordo com o papa, "há uma fantasia por trás dos muros humanos: tornar-se como Deus. A Torre de Babel é justamente a atitude de dizer: 'Nós somos os poderosos. Vocês, fora'. Existe a soberba do poder na atitude proposta nas primeiras páginas do Gênesis: 'Sereis como Deus'. Para excluir, segue-se essa linha".

"Ao apoiar as jovens mães, vocês – reconheceu Bergoglio ao responder às perguntas dos luteranos que também lhe falaram sobre as suas atividades sociais – não fazem muros, fazem serviço. Em vez disso, riqueza, vaidade, orgulho se tornam um muro diante do Senhor. O egoísmo humano se quer defender, mas, nesse defender-se, se afasta da fonte de riqueza. Os muros, no fim, são como um suicídio. Fecham você. É uma coisa feia ver o coração fechado."

"No dia do Juízo – continuou Francisco na Igreja Luterana de Roma – não será perguntado se você foi à missa, mas se você usou a sua vida para fazer muros ou para servir. Todos nós, batizados, luteranos e católicos, estamos nessa escolha: o serviço, ser servo."

Brincando sobre a nacionalidade da ecônoma da comunidade luterana de Roma, Francisco continuou depois: "Você, sendo suíça e sendo a tesoureira, tem todo o poder em mãos. Mas você me pergunta o que fazer para ajudar mais. A palavra que vem espontaneamente é: serviço, faça-se última, lave os pés, ponha-se a serviço dos outros, dos irmãos e irmãs, dos mais necessitados".

A este respeito, Bergoglio evocou a Madre Teresa de Calcutá e os enormes esforços que ela fazia apenas para oferecer um leito e o conforto aos moribundos, apenas para fazê-los morrer com mais dignidade, a três ou quatro dias da morte. "Uma gota de água no mar, mas – disse –, depois disso, o mar não é o mesmo."

Sobre a centralidade da pessoa, que sempre deve ser defendida, o papa também citou um episódio da tradição judaica, a dos operários que caíam na construção da Torre de Babel. Mas havia mais preocupação com os custosos tijolos que se destruíam, em vez das vidas deles.

"Eu gosto de ser pároco, estar com as crianças e os presos"

"Para mim, ser papa é ser pároco, pastor: senão, um papa pode até ser uma pessoa inteligente e importante e ter influência, mas acho que não é feliz." São as palavras do Papa Francisco no diálogo com um menino luterano na Igreja protestante da Via Sicilia, onde, abandonando todo o protocolo, Bergoglio aceitou responder espontaneamente algumas perguntas.

E o menino, então, lhe perguntou: "O que você mais gosta em ser papa?". "A resposta – respondeu Bergoglio com uma piada – é simples: se eu perguntar para você o que você gosta da refeição, você me responde 'a sobremesa', não? Mas é preciso comer tudo". Depois, o pontífice explicou a sua metáfora: "Eu gosto de ser pároco, pastor, eu não gosto do trabalho burocrático, nem as entrevistas protocolares, mas esta não é protocolar, é familiar".

"A coisa que eu gosto de fazer – confidenciou o papa – é o serviço: eu me sinto bem quando visito os doentes ou falo com as pessoas desesperadas e tristes, amo muito ir à prisão, falar com os presos. Toda as vezes em que eu vou encontrá-los, eu me pergunto: 'Por que eles e não eu?'. E sinto a salvação de Jesus: Ele me salvou. Eu não sou menos pecador do que eles, mas o Senhor me tomou pela mão."

Francisco também lembrou nessa sua resposta ao menino a sua experiência em Córdoba, Argentina, onde, contou, "eu tinha que ser pároco, enquanto era reitor da Faculdade de Teologia. e eu gostava de ensinar a catequese às crianças e, aos domingos, fazer a missa com eles. Eram 250, e era difícil mantê-los todos em silêncio, mas o diálogo com as crianças me agrada, porque – você, garoto, talvez vai me entender – vocês são concretos, não fazem perguntas teóricas no ar... Sendo pároco e estando com as crianças, se aprende muito".

"Por isso – concluiu – eu quero ser papa com o estilo de um pároco."



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Vinho da época de Jesus seria intragável para os padrões atuais


É o que supõe matéria publicada na revista Veja, ed. nº 2334, de 14 de agosto de 2013, págs. 108-109. Não vai mudar a sua vida ou a sua fé (ou a falta dela), mas não deixa de ser curioso:

As vinhas da história

Um acadêmico revisa a trajetória do vinho e conclui que a bebida que era assim chamada na Antiguidade tem pouco em comum com a que se consome hoje

Escavações em um sítio arqueológico em Lattes, na costa mediterrânea da França, provaram que os gauleses produziam vinho pelo menos desde o século V a.C. O trabalho da equipe do arqueólogo Patrick McGovern, da Universidade da Pensilvânia, publicado em junho, apresenta assim a evidência mais antiga de vitivinicultura no país hoje líder no setor. Ela vem se somar a centenas de outras que confirmam a tradição milenar da bebida – tradição que os produtores e comerciantes adoram cantar e os consumidores, ouvir. O vinho de nossos dias tem, contudo, pouco em comum com aquele bebido por Sócrates em O Banquete, de Platão, ou por Jesus Cristo na Santa Ceia. É uma invenção recente. Essa é a tese do livro Inventing Wille: A New History of One of lhe World’s Most Aliciem Pleasures (Inventando o Vinho: uma Nova História de um dos Prazeres Mais Antigos do Mundo), de Paul Lukacs.

Segundo o autor, o aroma e o sabor do vinho na Antiguidade seriam detestáveis para o paladar moderno: um fermentado de uva oxidado, avinagrado, repleto de contaminações por fungos e bactérias. Devido à falta de higiene e à incapacidade tecnológica de evitar o contato do liquido com o ar, o vinho dos dias de Sócrates e Jesus nem tinha os aromas frescos da juventude nem envelhecia de forma saudável. O remédio aplicado piorava as coisas. Para disfarçarem o mau cheiro, os antigos usavam ervas aromáticas secas, pimenta e outras especiarias. Na tentativa de aumentarem a longevidade acrescentavam mel e até sal à bebida. Para impedirem a entrada de ar nas ânforas, besuntavam-nas com óleos e resinas de diferentes árvores. Tudo isso alterava o vinho. Nem por isso os amigos deixavam de apreciá-lo. Plínio, o Velho, que no século I dissertou longamente sobre a bebida em sua História Natural, era um connoisseur das diversas resinas usadas para a vedação de ânforas.

As diferenças entre o vinho de então e o de hoje estão não só no sabor mas, nota Lukacs, também na sua função social, que no passado era menos ligada ao prazer e mais à religião. Nos primeiros relatos da Antiguidade, o vinho aparecia como uma bebida de caráter divino. Usada em rituais e nos templos, não precisava ter qualidade. Depois, nas cidades-estado gregas e em Roma, começou a surgir um mercado do vinho já mais preocupado com o sabor. Na Grécia, as ilhas do mar Egeu eram tidas como fonte de bom vinho. No Império Romano, o mais famoso deles vinha das encostas do Monte Falerno. Feitos de uvas-passas, ambos eram muito doces e, por isso, estragavam menos que os outros – o açúcar age como conservante natural. A técnica de produção era próxima à usada hoje para fabricar os chamados vinhos passificados, como o Vinsanto da ilha grega de Santorini ou o Passito, de Pantelleria, ilha italiana entre a Sicília e a Tunísia.

Foi só na Idade Média, quando a Igreja separou o vinho do culto daquele que se bebia no dia a dia, que a bebida de fato e secularizou. Curiosamente, foram os freis e abades que, isolados em seus monastérios, trabalharam na qualidade do vinho secular. Os mais importantes deles foram os monges beneditinos da Abadia de Cister, na Borgonha, que a partir do século XII mapearam alguns dos vinhedos mais caros dos nossos dias. A popularização das garrafas, no século XVII, possibilitou a criação de vinhos finos na Alemanha e na própria França. A grande massa, no entanto, continuou bebendo “uma mistura pavorosa até a segunda metade do século XX. Acredita Lukacs – que decerto nunca bebeu um vinho de garrafão brasileiro – que, dos anos 1990 para cá, até vinhos baratos deixaram de cometer pecados mortais.

Lukacs não é historiador mas é, sim, acadêmico (além de enófilo). Professor de inglês da Universidade Loyola Maryland, fundamenta sua hipótese com uma vasta bibliografia. Seu trabalho irrita quando prova ao leitor que a região de Bordeaux, ícone máximo da tradição em vinhos, só no século XVIII se tornou o que é hoje. Mas pode ser de grande ajuda ao apreciador de vinhos, ao estudioso de história ou antropologia e a todo aquele que busca entender os favoritismos do paladar para essa bebida ancestral – mas moderna.






quarta-feira, 29 de maio de 2013

Escassez de vinho ameaça eucaristia nas missas venezuelanas

A notícia inusitada e - cá entre nós - sensacionalista, daquelas que você nunca tinha imaginado ouvir, vem do Terra:

Escassez na Venezuela: Igreja diz que falta vinho para as missas

Depois do problema da falta de papel higiênico, o desabastecimento na Venezuela agora afeta a Igreja Católica. Comunicado da Conferência Episcopal afirma que já começa a faltar vinho para a celebração das missas.

A Igreja reclama da “extrema necessidade” de conseguir vinho adequado para a celebração, que deve ser natural e puro. O comunicado também diz que há dificuldades para importar o produto por falta de divisas.

Segundo os padres, a empresa que fabrica o vinho utilizado na celebração de missas não consegue garantir a produção e a distribuição por falta de insumos para engarrafar o produto. A Igreja Católica não autoriza os párocos a celebrar as missas com qualquer vinho. O produto não pode ter acréscimo de nenhuma substância, como açúcar ou água.

Por causa do problema, a Igreja Católica autorizou os padres a utilizar provisoriamente vinhos chilenos ou argentinos.






domingo, 16 de dezembro de 2012

Hitchcock, religião e morte


Artigo interessante sobre o rei do suspense, publicado no IHU:

O final surpresa de Alfred Hitchcock

Um biógrafo diz que o renomado diretor norte-americano, no fim de sua vida, evitou a religião. "Não é verdade", diz um jesuíta. "Eu estava lá".

A opinião é do jesuíta norte-americano Mark Henninger, professor de filosofia da Georgetown University. O artigo foi publicado no jornal The Wall Street Journal, 07-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu lembro que, quando eu era jovem, eu assistia ao programa "Alfred Hitchcock Presents", em preto e branco, na TV, e ficava encantado desde o início pela caricatura desenhada em nove linhas do perfil rotundo do famoso diretor de cinema. O tema musical malicioso definia o clima, enquanto Hitchcock aparecia em silhueta a partir da borda direita da tela e depois caminhava até o centro, substituindo a caricatura. "Boa noite". Seguiam-se as suas introduções jocosas, tão diferentes de qualquer outra coisa da televisão.

Tais emoções de infância voltaram novamente quando, no início de 1980, eu entrei em sua casa em Bel Air para vê-lo dormindo em uma cadeira em um canto da sua sala de estar, vestido em um pijama preto azeviche.

Na época, eu era um estudante de graduação em filosofia na Universidade da Califórnia e era (e continuo sendo) um padre jesuíta. Um colega padre, Tom Sullivan, que conhecia Hitchcock, disse em uma quinta-feira que, no dia seguinte, ele iria ouvir a confissão de Hitchcock. Tom perguntou se na tarde de sábado eu o acompanharia para celebrar uma missa na casa de Hitchcock.

Eu fiquei estupefato, mas é claro que eu disse que sim. Naquele sábado, quando encontramos Hitchcock dormindo na sala de estar, Tom gentilmente o sacudiu. Hitchcock acordou, olhou para cima e beijou a mão de Tom, agradecendo-lhe.

Tom disse: "Hitch, este é Mark Henninger, um jovem padre de Cleveland".

"Cleveland?", perguntou Hitchcock. "Vergonhoso!"

Depois de conversarmos por um tempo, todos cruzamos a sala através de um corredor até o seu escritório, e lá, com a sua esposa Alma, celebramos uma missa tranquila. À minha frente, estavam os volumes encadernados de os roteiros de seus filmes Os Pássaros, Psicose, Intriga Internacional, e outros – uma grande distração. Hitchcock havia se afastado da Igreja por algum tempo, e ele dizia as respostas em latim, na forma antiga. Mas a visão mais marcante foi que, depois de receber a comunhão, ele chorou silenciosamente, com lágrimas escorrendo pelas suas enormes bochechas.

Tom e eu voltamos várias vezes, sempre nas tardes de sábado, às vezes juntos, mas eu me lembro de ir sozinho uma vez. Eu fico um pouco com a língua presa perto de pessoas famosas e achei um pouco estranho bater papo com Alfred Hitchcock, mas o fizemos, prazerosamente, em sua sala de estar. Em certo momento, ele disse: "Vamos rezar a missa".

Ele tinha 81 anos e tinha dificuldade para se movimentar, por isso eu o ajudei a se levantar e assisti-o ao longo de todo o corredor. À medida que caminhávamos devagar, eu senti que tinha que dizer algo para romper o silêncio, e o melhor que eu consegui foi: "Bem, Sr. Hitchcock, o senhor viu algum filme bom ultimamente?". Ele fez uma pausa e disse enfaticamente: "Não, não vi. Quando eu fazia filmes, eles eram sobre pessoas, não sobre robôs. Robôs são chatos. Vamos, vamos rezar a missa". Ele morreu logo depois dessas visitas, e a sua missa fúnebre foi na Igreja Católica do Bom Pastor, em Beverly Hills.

Alfred Hitchcock voltou ao noticiário recentemente, graças a um retrato aparentemente pouco lisonjeiro dele em uma nova produção de Hollywood. Alguns de seus biógrafos também não têm sido bons. A religião, também, está muito no noticiário, também apresentada muitas vezes sob uma luz pouco lisonjeira, porque crenças conflitantes estão em questão em guerras e terrorismo. A violência provoca algumas pessoas a rejeitar a religião. Para muitos que experimentam a religião só dessa forma – em segunda mão, na mídia, de longe – tal reação é a de um grau compreensível.

O que eles perdem é que a religião é um questão intensamente pessoal. Santo Agostinho escreveu: "Magnum mysterium mihi" – eu sou um grande mistério para mim mesmo. Por que exatamente Hitchcock pediu para que Tom Sullivan o visitasse não está claro para nós e, talvez, não estava completamente claro para ele. Mas algo sussurrou em seu coração, e as visitas respondiam a um profundo desejo humano, a uma necessidade humana real. Quem de nós não tem essas necessidades e desejos?

Algumas pessoas consideram suspeitas essas voltas à religião no fim da vida, um sinal de fraqueza ou de que a pessoa está "perdendo o autocontrole". Mas nada concentra mais a mente do que a morte. Há uma longa tradição que remonta a tempos antigos de memento mori, lembrar-se da morte. Por quê? Eu suspeito que, ao enfrentar a morte, podemos finalmente ver com sobriedade, seja claramente ou não, verdades perdidas durante anos, o que finalmente vale a nossa atenção.

Sopesar a vida com a sua parte de feridas sofridas e infligidas em tal perspectiva e buscar a reconciliação com um Deus que experimentamos e que perdoa me parece ser profundamente humano. A extraordinária reação de Hitchcock ao receber a comunhão foi o rosto da humanidade e da religião reais, distantes das manchetes... ou dos atuais cineastas e biógrafos.

Um dos biógrafos de Hitchcock, Donald Spoto, escreveu que Hitchcock deixou dito que ele "rejeitava sugestões de que ele permitia que um padre (...) viesse para uma visita, ou celebrasse um ritual discreto e informal em casa para o seu conforto".

O fato de que, nos dias finais do diretor do filme, ele tenha deliberada e exitosamente permitido que estranhos acreditassem exatamente no contrário do que aconteceu, é Hitchcock puro.





quarta-feira, 31 de outubro de 2012

De volta aos reformadores

1517-2012 
495 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE


Nesses tempos bicudos, em que vemos muitas pessoas se servindo da Igreja em vez de servir a Deus e ao próximo, não nos surpreende em nada encontrar nos reformadores quem se opusesse a esta mercantilização da religião. 

Pena que, na atual era dos "teólogos" profanos do utilitarismo, os reformadores sejam muito pouco lidos e respeitados, quando não espezinhados e rejeitados por aqueles que alegam seguir o caminho aberto por eles. 

Em 1519, Martinho Lutero escreveu o seu "Sermão sobre o Venerabilíssimo Sacramento do Santo e Verdadeiro Corpo de Cristo e sobre as Irmandades" (que pode ser lido na íntegra no e-cristianismo), em que fala sobre a Eucaristia, ainda numa visão mais próxima da Igreja Católica do que aquela que formularia ao longo do seu ministério. 

É preciso ler este Sermão levando em conta que Lutero ainda estava no início de sua separação do Vaticano. As 95 teses haviam sido pregadas na porta da Igreja de Wittenberg em 31 de outubro 1517 e  a Dieta de Worms se reuniria apenas em 1521 para julgá-lo, ano em que o papa o excomunga. 

Para Lutero, a eucaristia era um dos temas centrais da vida da Igreja, e ele enfatiza a questão da fé, da comunhão e do serviço cristãos, que, infelizmente, vêm sido esquecidos pela igreja evangélica brasileira em pleno século XXI:

13. Não é difícil encontrar pessoas que gostam de desfrutar, mas não querem contribuir. Isto é: gostam de ouvir que neste sacramento lhes é prometido e dado auxílio, comunhão e assistência de todos os santos. Elas, entretanto, não querem retribuir a comunhão, não querem ajudar o pobre, tolerar os pecadores, cuidar dos miseráveis, solidarizar-se com os que sofrem, interceder pelos outros. Também não querem apoiar a verdade, buscar o melhoramento da Igreja e de todos os cristãos empenhando seu corpo, seus bens e sua honra. Elas não o fazem porque temem o mundo, porque não querem ter que sofrer desfavor, prejuízo, vergonha ou morte, embora Deus queira que, por causa da verdade e do próximo, elas sejam deste modo impelidas a desejar tão grande graça e força desse sacramento. Estas são pessoas que buscam seu próprio proveito, às quais este sacramento de nada serve, assim como é insuportável o cidadão que quisesse ser apoiado, protegido e favorecido pela comunidade, mas que, em contrapartida, não servisse à comunidade e nada fizesse por ela. Nós, pelo contrário, precisamos deixar claro que os males dos outros também sejam nossos, se queremos que Cristo e seus santos assumam os nossos males; assim a comunhão se torna plena e se faz justiça ao sacramento. Pois onde o amor não cresce diariamente e transforma a pessoa de tal forma que ela participe da existência de todos, aí o fruto e o significado desse sacramento estão ausentes.
[...]
Entra aqui a terceira parte deste sacramento: a FÉ, que é o que importa. Pois não basta saber o que é e o que significa este sacramento. Não basta saberes que se trata de uma comunhão e de uma misericordiosa permuta ou mistura do nosso pecado e sofrimento com a justiça de Cristo e de seus santos. Tu também precisas desejá-lo e crer firmemente que o recebeste. É neste ponto que o diabo e a natureza mais se esforçam, para fazer com que a fé de modo algum persista. Algumas pessoas exercitam sua habilidade e sutileza tentando descobrir onde fica o pão ao ser transformado na carne de Cristo e o vinho [ao ser transformado] em seu sangue, e como, sob tão pequena porção de pão e vinho, pode estar encerrado todo o Cristo, sua carne e seu sangue. Não importa que tu não te preocupes com essas questões. É suficiente que saibas que é um sinal divino, no qual a carne e o sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos; deixa o "como" e o "onde" por conta dele mesmo.
[...]
Por isso também é útil e necessário que o amor e a comunhão de Cristo e de todos os santos aconteçam ocultamente, de modo invisível e espiritual, e que nos seja dado apenas um sinal corporal, visível e exterior dos mesmos. É que se esse amor, comunhão e apoio fossem evidentes como a comunhão temporal das pessoas humanas, não seríamos fortalecidos nem exercitados no sentido de confiar nos bens invisíveis e eternos ou de desejá-los; antes, seríamos exercitados em confiar apenas nos bens temporais e visíveis, ficando tão habituados a eles que não abriríamos mão deles de bom grado e seguiríamos a Deus somente na medida em que nos precedessem coisas visíveis e palpáveis. Desta forma, seríamos impedidos de jamais chegar a Deus, pois, para chegarmos até ele, todas as coisas temporais e perceptíveis devem desaparecer e nós devemos nos desacostumar delas por completo.
(Martinho Lutero, in Obras SelecionadasOs primórdios – Escritos de 1517 a 1519, Eds. Sinodal/Ulbra/Concórdia, 2004, vol. 1, 2ª ed., pp. 425-444, tradução de Annemarie Höhn et al.)
De volta à Reforma, já!






sábado, 13 de outubro de 2012

Milagre nos Andes, 40 anos depois


A foto em preto e branco acima é o retrato definitivo de uma das mais belas e - simultaneamente - trágicas páginas da história da humanidade.

É que hoje faz exatos 40 anos do acidente aéreo que entrou para a História como o caso dos sobreviventes dos Andes, no dia 13 de outubro de 1972, uma sexta-feira 13 que - lamentavelmente - fez jus à superstição.

Essa é uma das histórias mais conhecidas de acidente aéreo no mundo, numa época em que era praticamente impossível que alguém sobrevivesse a tragédias com aviões.

Hoje, felizmente, a indústria aeronáutica evoluiu tanto que os acidentes se tornaram muito menos frequentes, e já não são mais raras as oportunidades em que haja um bom número de sobreviventes quando um avião sofre uma avaria qualquer.

Naquele tempo, entretanto, a notícia do desaparecimento do voo 571 da Força Aérea Uruguaia quando sobrevoava a Cordilheira dos Andes, na fronteira entre Argentina e Chile, despertou os piores temores e o longo período de buscas infrutíferas provocou a certeza de que ninguém havia sobrevivido.

O avião modelo Fairchild Hiller FH-227 transportava o time amador de rugby dos "Old Christians", do Colégio Stella Maris de Montevidéu, que disputaria uma partida em Santiago do Chile, que no dia anterior já havia feito uma parada forçada em Mendoza, na Argentina, por conta do mau tempo.

Eles não sabiam até então, mas 23 dos 78 aviões Fairchild 227 fabricados no mundo sofreram graves acidentes ao longo de sua vida (in)útil em razão de problemas de potência no motor, matando 393 pessoas no total.

Tudo indica que foi exatamente o motor fraco, associado ao cálculo equivocado dos fortes ventos contrários (que reduziram dramaticamente a velocidade real em comparação com aquela apontada pelos controles do avião), que levou os pilotos a se chocarem contra as montanhas numa área de ínfima visibilidade.

Milagrosamente, depois dos seguidos choques com a crista da montanha, que foram tirando as asas e a fuselagem traseira do avião, só sobrou o "charuto" anterior, onde se concentraram os sobreviventes.

Das 45 pessoas a bordo, (40 passageiros e 5 tripulantes), 7 desapareceram lançados aos ares nos primeiros choques e 6 morreram instantaneamente no impacto final com o solo.

Havia 32 sobreviventes quando os restos do avião "estacionaram" na neve após deslizarem por centenas de metros no local conhecido como "Glaciar de las Lágrimas", a 3.500 m de altitude sobre o nível do mar, 2 km abaixo de onde a cauda se havia despedaçado ao tocar o primeiro pico.

Na madrugada e no dia seguintes, mais 4 passageiros não resistiram aos graves ferimentos provocados não só pelo choque como pela "avalanche" de poltronas que se amontoaram nos bancos da frente.

6 corpos dos 7 desaparecidos lançados aos ares foram encontrados por uma expedição no dia 24 de outubro, mas não havia nem sinal do avião, cujos ocupantes agonizavam num local de difícil acesso e visualização pelas equipes de resgate.

No domingo, 29 de outubro de 1972, uma avalanche soterra os sobreviventes por 3 dias, matando 8 deles que até então resistiam bravamente às intempéries e à tragédia anunciada.

Nos dias 15 e 18 de novembro, e 11 de dezembro, morrem mais 3 corajosos (até então) sobreviventes, um em cada dia.

Desde o começo, eles haviam racionado os poucos alimentos que tinham, mas diante da impossibilidade de encontrar comida animal ou vegetal no local em que estavam, são obrigados a se valer dos corpos enterrados na neve, de seus amigos e familiares, para continuarem vivos.

Talvez tenha sido o canibalismo que mais chamou a atenção do mundo do que o acidente em si, mas um dos sobreviventes, José Pedro Algorta buscou uma referência religiosa - na eucaristia católica - para justificar o ato e dar ânimo aos demais dizendo que "seus amigos lhes davam os seus corpos para sua vida física, assim como Jesus  lhes havia dado o seu corpo para sua vida espiritual".

Foi esta decisão radical - verdadeira injeção de ânimo - que lhes permitiu seguirem vivos, até que três deles, Antonio Vizintín, Fernando Parrado e Roberto Canessa, inconformados com o decreto de morte certa, um dia após a última morte de um companheiro, decidem se aventurar pela cordilheira em busca de socorro, já que não havia mais esperança sequer de que alguém continue tentando encontrá-los.

Com muito esforço, eles haviam feito o rádio do avião funcionar e já sabiam que eram dados como mortos e as buscas já tinham sido suspensas.

Depois de 3 dias de caminhada, Vizintín escorrega e se machuca, voltando ao improvisado "acampamento", e depois de percorrerem 55 km, 10 dias após haverem iniciado a marcha equivocadamente para oeste (no Chile, quando seria muito mais rápido e fácil serem localizados indo para leste, na Argentina), Parrado e Canessa encontram o chileno Sergio Catalán, que chama os carabineiros para socorrerem os 16 sobreviventes.

No dia 22 de dezembro de 1972, para delírio e alívio do mundo que acompanhava o drama (inclusive deste que vos escreve, então com 9 anos de idade) termina o resgate do último sobrevivente, 72 dias após o terrível acidente.

Essa é, sem dúvida, uma das mais emocionantes, famosas e impressionantes histórias de resgate de vítimas e superação humana de que se tem notícia, razão pela qual se tornou objeto de muitos livros e filmes ao longo desses 40 anos.

Em 2010, não muito longe dali, só que no deserto de Atacama, 33 mineiros chilenos manteriam o mundo em suspense até seu resgate espetacular. Estranha (e feliz) propensão dessa região a proporcionar histórias quase inacreditáveis de sobrevivência em ambientes hostis.

Se os Andes por si só já representam um milagre da natureza, um presente de Deus para os sulamericanos, a história dos heróis uruguaios da humanidade será contada para sempre como um dos mais belos milagres que se tem notícia.

O Terra preparou um belo infográfico para celebrar a data, e abaixo seguem dois vídeos, o primeiro da reconstituição do acidente no filme "Vivos" ("Alive" - 1993) e o segundo um excelente documentário ("Estou Vivo: Milagre nos Andes") na íntegra do History Channel:





Último grupo de sobreviventes na última noite no avião,
felizes por saber que seriam resgatados na manhã seguinte.
Os 16 sobreviventes em foto tirada esta semana


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Padre italiano nega comunhão a menino deficiente

Aparentemente, num mundo em que o dogma é idolatrado, não há espaço para a inteligência nem para a compreensão e gentileza, e muito menos para a humanidade. A notícia vem do IHU:

Padre nega a comunhão a menino deficiente

Comunhão negada a um menino de dez anos que sofre de uma grave deficiência mental. O menino não seria, segundo o sacerdote, capaz de compreender o mistério da Eucaristia.

A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 11-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A decisão de Piergiorgio Zaghi, pároco de Porto Garibaldi, em Ferrara, na Itália, que havia falado sobre isso em uma homilia, dividiu os paroquianos e provocou um forte debate. Os leigos da cidade condenaram o comportamento do sacerdote, enquanto os paroquianos se dividiram entre aqueles que se dizem próximos à escolha do pároco (lembrando também o fato de que os pais estão divorciados e não o acompanham continuamente à missa e à catequese) e aqueles que estão mais perplexos, referindo-se também ao apelo do papa para garantir a Eucaristia, na medida do possível, mesmo aos deficientes mentais.

"É incrível que essas coisas aconteçam". O Pe. Andrea Gallo não usa meias palavras ao comentar a notícia do pároco da província de Ferrara que pulou na fila da Eucaristia um menino com retardo mental. A comunhão é um "momento altíssimo", em que "o corpo de Jesus é 'partido' para todos, em que se diz do sangue 'bebam todos'", explica Pe. Gallo. "Tomemos o exemplo das primeiras comunidades cristãs: naquela época não havia a hóstia, mas sim o pão que justamente se partia para todos. Nesse gesto, as migalhas que restavam eram também dadas a todos os presentes. E, depois, este menino também havia participado da catequese".

Segundo o Pe. Gallo, "mesmo que o menino tivesse dificuldade para engolir, esse problema poderia ser superado, imagine... Ele andava em um corpo martirizado, sofredor. Quem pode dizer qual é a verdadeira linguagem real de um deficiente? Às vezes, eles falam com um gesto, com os olhos".

O Pe. Gallo encontra "deficientes mentais todos os dias. Eles falam com os olhos, com pequenos gestos. O pároco diz que era importante entender se o menino intuía a dimensão do sacramento? Eu só estou dizendo que não se podia excluí-lo com esse gesto. Quem me diz, ao contrário, que aqueles que fazem a comunhão a entendem? Pode acontecer, até mesmo comigo, que a fé possa vacilar: mas depois eu me confio a Jesus, porque o amor não exclui ninguém. Como reparar este dano? dando-lhe o pão, pondo-o no centro, fazendo-o entender que ele não está excluído de nada".

Para o Pe. Giovanni Ramonda, responsável da Comunidade João XXIII, fundada pelo Pe. Benzi, "diversos párocos dão desenvoltamente a comunhão a divorciados em segunda união, transgredindo uma clara indicação da Igreja, enquanto a uma criatura predileta pelo Senhor é negado o seu corpo e o seu sangue. Fiquemos atentos para não filtrar os mosquitos e engolir os camelos. Como dizia o Pe. Benzi, os deficientes são 'anjos crucificados'".

O episódio foi definido como "absurdo, não apenas no plano ético, mas principalmente no que diz respeito aos direitos fundamentais reconhecidos às crianças", diz o sociólogo Antonio Marziale, presidente do Observatório dos Direitos dos Menores. "Estou transtornado com o episódio – disse – que denuncia um estado de obscurantismo cultural digno do pior da Idade Média".

A decisão foi duramente criticada também pela associação de católicos progressistas Nós Somos Igreja. "Em Porto Garibaldi – disse o coordenador regional Giuliano Bianco – tem-se a impressão de que a Igreja perdeu de vista a presença real de Cristo na Eucaristia: quem sonharia em proibir a uma mãe e a um pai, que levam o seu filhinho, incapaz de entender e de querer, diante da presença de Jesus de se aproximar, de tocar e de receber o Salvador?".

A família se fechou na reserva. O seu interesse, neste momento, é principalmente o de proteger seu filho, que se tornou objeto de um debate do qual ele certamente abriria mão.



Não é a primeira vez que isso ocorre na Europa, entretanto. Há cerca de 3 anos, algo parecido aconteceu em Barcelona com uma menina portadora da síndrome de Down, em que o mais surpreendente foi o fato de que o padre não só lhe negou a possibilidade de comunhão como disse que se empenharia em "perseguir" a família caso eles procurassem outra paróquia para garantir à garota o sacramento. O caso catalão, ao que parece, teve um final feliz, segundo noticiou em junho de 2009 o Correio da Manhã de Portugal:

Padre nega comunhão a deficiente

Um padre negou a primeira comunhão a uma menina de Barcelona alegando que a menor, com síndrome de Down, é "um anjo de Deus" logo, não peca, e portanto não necessita do sacramento divino. Os pais da menor contestam o sacerdote e acusam-no de discriminação.

Tudo começou há três anos, quando a mãe, Lídia, levou a filha Carla e o seu irmão gémeo à Igreja de Sant Martí para começarem a frequentar a catequese. O pároco Josep Lluís Moles recusou a criança porque esta "teria de amadurecer" e poderia "prejudicar o desenvolvimento da catequização".

Os pais aceitaram a decisão. Um ano mais tarde, levaram novamente Carla para a catequese. Desta feita o padre decidiu fazer depender a primeira comunhão da capacidade da criança: se aprendesse o Pai Nosso em sete meses dar-lhe-ia a primeira comunhão. Só que, meses depois, mudou de ideias, e, quando a mãe foi confirmar a data da cerimónia, referiu que "não era necessário" que a criança comungasse, porque ao "ser um anjo de Deus não é uma pecadora".

Como o irmão gémeo queria fazer a primeira comunhão na mesma igreja que a irmã, a mãe procurou outro sítio em que a filha pudesse comungar. Mas, segundo ela, o sacerdote garantiu-lhe que interferiria para impedir o acto.

A família encontrou por fim uma igreja em Badalona disposta a dar a primeira comunhão aos dois irmãos gémeos. A cerimónia acontece hoje.



quinta-feira, 1 de março de 2012

Padre nega comunhão a lésbica em funeral da mãe dela nos EUA

A notícia é do Washington Post e foi traduzida e publicada no Brasil pelo IHU:

Padre nega comunhão a lésbica no funeral da própria mãe

Com profunda tristeza e luto, Barbara Johnson estava no primeiro lugar da fila para a Comunhão no funeral de sua mãe, na manhã de sábado. Mas o padre à sua frente imediatamente deixou claro que ela não iria receber o pão e o vinho sacramentais.

A reportagem é de Michelle Boorstein, publicada no sítio do jornal The Washington Post, 29-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Johnson, dona de um estúdio de arte, havia chegado à Igreja de São John Neumann, em Gaithersburg, com a sua parceira lésbica. O Pe. Marcel Guarnizo ficara sabendo de seu relacionamento pouco antes da celebração.

"Ele colocou a mão sobre o corpo de Cristo e olhou para mim e disse: 'Eu não posso lhe dar a Comunhão, porque você vive com uma mulher, e, aos olhos da Igreja, isso é pecado", recordou ela.

Ela reagiu com um silêncio atordoado. Sua raiva e indignação, agora, levaram a ela e aos membros de sua família a exigir que Guarnizo seja removido do seu ministério.

Seus familiares disseram que o padre deixou o altar enquanto Johnson, de 51 anos, estava proferindo um elogio fúnebre e não compareceu ao enterro nem encontrou outro padre para estar lá.

"Você trouxe a sua política, e não o seu Deus, para aquela Igreja ontem, e você vai pagar caro no dia do juízo por me julgar", escreveu ela em uma carta a Guarnizo. "Vou rezar pela sua alma, mas primeiro vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ver você removido da vida paroquial, para que assim você não tenha a permissão de ferir ainda mais famílias".

Na noite de terça-feira, Johnson recebeu uma carta de desculpas do Pe. Barry Knestout, um dos mais altos administradores da arquidiocese, que disse que a falta de "bondade" que ela e sua família receberam "é causa de grande preocupação e de arrependimento pessoal para mim".

"Lamento que o que deveria ter sido uma celebração da vida de sua mãe, à luz da fé dela em Jesus Cristo, foi ofuscada por uma falta de sensibilidade pastoral", escreveu Knestout. "Espero que a cura e a reconciliação com a Igreja possam ser possíveis para você e para outras pessoas que foram afetadas por essa experiência. Enquanto isso, vou oferecer a missa pelo feliz repousou da alma de sua mãe. Que Deus traga conforto a você e à sua família em seu luto e esperança na Ressurreição".

Johnson chamou a carta de "reconfortante" e disse que aprecia muito o pedido de desculpas. Mas, acrescentou, "eu não ficarei satisfeita" enquanto Guarnizo não for removido.

A ação do padre também provocou um tumulto entre os ativistas pelos direitos dos gays e animou alguns conservadores religiosos. Ela ocorreu poucos dias depois que a Câmara dos Deputados do Estado de Maryland aprovou uma lei que legaliza o casamento homossexual no Estado. O governador Martin O'Malley (democrata) deve assiná-la ainda esta semana.

"O Pe. Marcel Guarnizo foi jogado embaixo do ônibus por seguir o cânone 915! [1]", escreveu um blogueiro católico da arquidiocese. "A questão aqui não é o padre, mas sim Barbara Johnson".

As autoridades da arquidiocese, no início, emitiram uma breve declaração dizendo que as ações do sacerdote eram contra as "políticas" da Igreja e que eles iriam olhar para o caso como um assunto pessoal.

"Quando surgem dúvidas sobre se um indivíduo deve ou não se apresentar à Comunhão, não cabe às políticas da arquidiocese de Washington repreender publicamente essa pessoa", disse o comunicado. "Qualquer questão relativa à adequação de um indivíduo para receber a Comunhão deve ser abordada pelo padre com essa pessoa em um ambiente privado e pastoral".

Mensagens enviadas para Guarnizo e outros membros da paróquia não foram respondidos. Nem ele nem outras lideranças paroquiais estavam na igreja ou na secretaria paroquial na noite da última terça-feira.

Católicos ativos na região metropolitana de Washington disseram que não conseguiam se lembrar de outra ocasião recente em que um padre se recusou a administrar o sacramento a um católico gay. A recusa de Guarnizo, disseram, parece estar em desacordo com a firme posição contra a negação da Comunhão aos católicos enunciada pelo arcebispo de Washington, o cardeal Donald Wuerl.

Wuerl disse não acreditar na negação da Comunhão, porque é impossível saber o que está no coração da outra pessoa. A questão surgiu durante a campanha presidencial de 2004, quando alguns líderes católicos conservadores disseram que o senador John F. Kerry, de Massachusetts, candidato democrata, deveria ter a Comunhão negada por causa de seus pontos de vista pro-choice [em defesa do direito a abortar ou não].

Johnson disse que sua parceira de 20 anos estava ajudando a família na igreja antes do caso, quando o padre lhe perguntou quem ela era. "E ela disse: 'Eu sou a parceira dela'", lembrou Johnson.

Quando Guarnizo cobriu o vinho e as hóstias com a mão durante a Comunhão, Johnson ficou ali por um momento, pensando que ele iria mudar de ideia, contou. "Eu só fiquei ali, em estado de choque. Eu estava de luto, chorando", disse ela. "O corpo da minha mãe estava atrás de mim, e tudo que eu queria fazer era ficar junto dela, e a última coisa era fazer um funeral bonito, e aqui estava eu a decepcionando porque havia uma cena...".

A mãe de Johnson e seu falecido pai foram fiéis praticante por toda a vida, que sofreram para mandar seus quatro filhos para escolas católicas, disse Barbara e seu irmão, Larry Johnson, um contador forense que vive em Loudoun County. Barbara vive no noroeste de Washington e, durante anos, lecionou arte na Elizabeth Seton High School, em Bladensburg, seu ex-colégio.

Apesar de sua indignação, a família Johnson disse que não vê o incidente como razão para criticar a Igreja de forma mais ampla. "Concordamos que essa não é uma discussão sobre os direitos dos gays ou sobre os ensinamentos da Igreja Católica", disse Larry Johnson.

Mas, desde sábado, outros católicos disseram a eles que a experiência abalou a sua fé. "Há sérios questionamentos sobre como os católicos norte-americanos em particular praticam a sua fé. Quantas pessoas divorciadas vivem em um estado técnico de pecado? Quantas pessoas praticam alguma forma de controle de natalidade artificial em estado de pecado?", questionou ele. "Se a Igreja agora aplicar essa polícia do 'estado de graça', como vai ser? Essa [a homossexualidade] é a coisa mais pessoal do mundo – entre a pessoa e Deus".

Nota:

1 – O cânone 915 diz literalmente o seguinte: "Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto".




O bispo-auxiliar da Arquidiocede de Washington, Barry Knestout, enviou uma carta à família Johnson pedindo desculpas "pela falta de sensibilidade" do padre Guarnizo, que pode ser lida em .pdf e inglês clicando aqui.



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