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sábado, 16 de setembro de 2017

Papa diz que quem nega aquecimento global é "estúpido"


E, cá entre nós, o papa pegou leve...

Chamar esses imbecis, para dizer o mínimo, de "estúpidos", até que ficou simpático.

A matéria é da BBC Brasil:

'O homem é um estúpido': a crítica do papa aos que negam mudanças climáticas

O papa Francisco citou a Bíblia para fazer duras críticas a líderes mundiais que se recusam a levar a sério as ameaças das mudanças climáticas.

"O homem é estúpido, é um teimoso que não vê", disse, atribuindo a frase a uma passagem do Antigo Testamento. Em seguida, emendou: "o homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra".

O pontífice disse que os recentes furacões Harvey e Irma mostraram que os efeitos das mudanças climáticas podem ser vistos "com seus próprios olhos".

"Quem nega as mudanças climáticas tem de perguntar aos cientistas. Eles são claros e precisos", assinalou o líder da Igreja Católica em conversa com a imprensa na sua viagem de volta a Roma, após uma visita à Colômbia.

Ele disse ainda que a história julgará os líderes mundiais que nada fazem para minimizar os danos causados ao meio ambiente.

Apesar de o papa associar o aquecimento global às tempestades que provocaram prejuízo milionário a ilhas do Caribe e aos EUA nas últimas semanas, nem todo mundo concorda com essa visão.

Momento inapropriado

O chefe da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, em inglês), Scott Pruitt, disse ser um momento inapropriado para discutir a relação entre aquecimento global e a passagem dos furacões pelo Caribe e EUA.

Pruitt, que anteriormente declarou não concordar que emissões de dióxido de carbono fossem uma das principais causas do aquecimento global, afirmou à rede de televisão CNN que a especulação sobre "as causas e efeitos dos furacões...são descabidas".

O chefe da agência americana disse que as discussões, nesse momento, deveriam focar nos esforços de limpeza.

O prefeito de Miami, Tomás Regalado, que viu a própria cidade ficar parcialmente submersa depois da passagem do furacão Irma, discorda. Ele declarou ao jornal Miami Herald que "agora é a hora de falar sobre aquecimento global". "É a hora do presidente (Trump), da EPA e de quem mais toma decisões de falar sobre mudança climática".

Podemos associar furacões mais devastadores às mudanças climáticas?

Matt McGrath, analista da BBC para assuntos de meio ambiente, afirma que furacões são fenômenos complexos, difíceis de prever, mesmo com ou sem o aquecimento global como pano de fundo das discussões.

Ligar a incidência e a gravidade do impacto dos furacões a mudanças climáticas, diz McGrath, também é difícil de provar, simplesmente porque são eventos raros e não existe uma quantidade significativa de dados históricos para serem analisados e comparados.

Mas o especialista pondera que há algumas certezas. A equação de Clausius-Clapeyron nos permite afirmar que atmosfera mantém mais umidade, diz ele. Para cada grau Celsius extra no clima, a atmosfera pode conter 7% mais de água. Isso tende a tornar as chuvas ainda mais fortes, quando ocorrem.

McGrath diz que outra certeza é que a temperatura dos mares está mais alta - e cita o cientistas Brian Hoskins, do Instituto de Mundanças Climáticas Grantham, que disse que "as águas do Golfo do México estão 1,5 graus mais quentes que a temperatura registrada entre 1980 e 2010".

O debate sobre mudanças climáticas saiu da pauta oficial do governo dos EUA depois que Donald Trump assumiu a Casa Branca.

O presidente dos EUA reverteu algumas leis de proteção ambiental - muita delas implementadas por Barack Obama. Trump também anunciou a intenção de retirar os EUA do Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 países, como resposta global à ameaça da mudança do clima.

No entanto, não se sabe ao certo o que Trump pensa hoje sobre o aquecimento global. Em 2012, ele escreveu no Twitter que "o conceito de aquecimento global foi criado pela China" para prejudicar a competitividade da indústria norte-americana.

Responsabilidade de todos

O papa Francisco, por sua vez, não tem dúvidas sobre essa ameaça. Ele disse temer que o impacto será maior sobre os mais pobres, e critica abertamente quem não se disponha a agir contra o problema.

Suas declarações recentes foram vistas como críticas veladas a líderes como Trump.

"Eu não acho que seja algo para brincar. Cada pessoa tem sua responsabilidade, os políticos têm as suas."

- Desculpe, Sua Santidade, mas eu não acredito.
- Há esperança para todos, meu filho.
- Eu estou falando sobre mudança climática...
- Então, acho que não há esperança para você...




quinta-feira, 30 de março de 2017

Arcebispo primaz chama de traidores os mexicanos que ajudarem a construir o muro de Trump


A informação é da ACIDigital:

Se mexicanos construíssem muro de Trump seriam “traidores da pátria”, diz Arquidiocese

Cidade do México, 29 Mar. 17 / 08:00 am (ACI).- O semanário ‘Desde la Fe’, da Arquidiocese Primaz do México, advertiu que aqueles empresários mexicanos que participarem na construção do muro na fronteira com os Estados Unidos “deveriam ser considerados como traidores da pátria”.

Em seu editorial do dia 26 de março, intitulado “Traição à pátria”, o semanário católico assinalou que “qualquer empresa com intenções de investimento no muro do fanático Trump seria imoral, mas sobretudo, seus acionistas e proprietários deveriam ser considerados como traidores da pátria”.

Desde a campanha eleitoral na qual foi escolhido presidente dos Estados Unidos, Donald Trump ofereceu construir um “grande muro ao longo da fronteira sul” e assegurou que “o México pagará pelo muro”.

Este muro, segundo Trump, ajudaria a combater a imigração ilegal do México aos Estados Unidos.

Em 2016, as autoridades americanas prenderam mais de 415 mil imigrantes ilegais na fronteira com o México. Cerca de 46,4% dos presos eram mexicanos.

‘Desde la Fe’ assinalou que “com o passar dos meses, as políticas migratórias de Donald Trump enfrentam a realidade. Foi fácil a demagogia na campanha, mas as ações, na prática, se tornam difíceis ante a notável oposição da sociedade civil, igrejas e ativistas, que enfrentam um governo errático cujas promessas não são de fácil consolidação”.

“Trump designou um orçamento de dois bilhões de dólares para a construção do muro, o qual deve reunir características sólidas de infraestrutura e de suave estética para esconder, sob a pintura e as luzes, o ódio, a mutilação e a divisão”, assinalou o semanário.

Para a publicação católica, “é lamentável que, deste lado da fronteira, há mexicanos prontos a colaborar com um projeto fanático que aniquila a boa relação no concerto das duas nações que compartilham uma fronteira comum”.

“Não se trata de duas ou três, pois são mais de 500 empresas que buscam conseguir boas fatias econômicas. Para elas, o fim justifica os meios”, criticou e, além disso, lamentou que as autoridades mexicanas “não demonstraram firmeza contra estes empresários”.

Para a publicação da Arquidiocese Primaz do México, que assegura que a construção do muro é um “direito inalienável” dos Estados Unidos, “são estes mesmos míopes que não conseguem ver que o muro é uma grande ameaça que vulnera as relações e a paz social”.

“Recordemos que, em nome da ideologia, nações e continentes inteiros foram divididos, conduzindo milhares de pessoas na incerteza. A única voz predominante foi a das armas, das balas, da repressão e do assassinato legal para qualquer pessoa que se atrevesse a cruzar uma fronteira em busca de liberdade”.

‘Desde la Fe’ assegurou que as empresas mexicanas que se somarem ao projeto de Trump alimentarão “todas estas formas de discriminação que ao longo da história submeteram milhões de seres humanos. Praticamente, unir-se a um projeto que é uma grave afronta à dignidade, é atirar no próprio pé”.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Se hoje você tem o que comer, agradeça a quem viveu no México mais de 5 mil anos atrás


Artigo interessantíssimo do biólogo Fernando Reinach, publicado no Estadão de 10/12/16:

Foi no México, faz 5 mil anos

E você, provavelmente, nunca passou perto do local onde se domesticou o milho

Não se iluda, as bases tecnológicas de nossa civilização não surgiram em renomadas universidades ou em empresas do Vale do Silício. Elas surgiram muito antes, quando o homem desenvolveu a tecnologia que o liberou da busca contínua por alimento, atividade que toma o dia todo das comunidades caçadoras e coletoras. Nesse aspecto, não éramos muito diferentes de uma vaca, que passa o dia todo pastando, e não tem tempo para escrever um romance. Foi no tempo liberado pela agricultura que o cérebro humano pode dedicar-se ao desenvolvimento das artes e da ciência.

A domesticação de espécies de vegetais é uma dessas tecnologias. Ela foi tão importante que hoje, das 50 mil espécies de plantas comestíveis que existem no planeta, somente 15 respondem por 90% de nosso alimento. Pior, três delas, o milho, o arroz e o trigo, respondem por 66% de todo o alimento que consumimos. O milho é talvez o mais importante, pois não só é consumido diretamente, mas é comida de frango. Frango é milho com penas. O mundo produz hoje 900 bilhões de quilos de milho por ano, o equivalente a 10 quilos por habitante por mês.

E você, tão viajado, provavelmente nunca passou perto do local onde o ser humano domesticou o milho. Foi no Vale do Tehuacán, um local perdido no centro do México. Esse desenvolvimento tecnológico começou por volta de 9 mil anos atrás e tomou o esforço de nossos antepassados durante milhares de anos. Nesse período, eles transformaram o teosinto no milho, duas subespécies da mesma planta tão diferentes entre si quanto um chihuahua de um dog alemão.

Na década de 1960, um cientista chamado Richard MacNeish escavou o solo de uma caverna chamada San Marcos, no vale do Tehuacán. Essa caverna era habitada pelos domesticadores do milho. Em diversas camadas dos detritos, depositados por gerações desses cientistas intuitivos, ele descobriu sementes de vegetais que já não eram teosinto, mas ainda não eram milho. Passos intermediários do processo de domesticação.

Nos últimos anos, com o sequenciamento do genoma do teosinto e do milho, os cientistas descobriram os genes que foram alterados durante o processo de domesticação no vale do Tehuacán. Agora foi sequenciado o genoma das sementes que foram encontradas na caverna de San Marcos, que datam de aproximadamente 5.200 anos atrás, quando o processo de domesticação ainda estava em andamento.

Nesses exemplares foi encontrado o gene que deixa a planta ereta, permite o plantio em linhas e facilita a colheita. Também foram encontradas as versões modernas do gene que aumenta o tamanho dos grãos e deixa o milho mais doce. Mas ainda estavam ausentes o gene que deixa a casca do grão mais fina, o que facilita a digestão, e um outro gene que inibe a queda dos grãos maduros da espiga, que é essencial para que possamos colher os grãos ainda na espiga. Essa planta, de 5 mil anos atrás, já não era um teosinto, onde os galhos se espalham e ramificam, os grãos são poucos, pequenos, duros e caem fácil da espiga. Mas também não era o milho moderno com centenas de grãos por espiga, todos grandes, com casca fina, doces e que não se soltam facilmente.

Se você for ao México, não deixe de visitar Tehuacán, e passeando por lá imagine esses geneticistas intuitivos selecionando variedades de milho, que 5 mil anos depois, iriam alimentar a humanidade. O impacto desse desenvolvimento tecnológico deixa no pó a eletricidade, os celulares e as redes sociais.

MAIS INFORMAÇÕES: THE EARLIEST MAIZE FROM SAN MARCOS TEHUACÁN IS A PARTIL DOMESTICATE WITH GENOMIC EVIDENCE OF INBREEDING. PROC. NAT. ACAD. SCI. USA, VOL. 113 PÁG. 14151 (2016)



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Finados no México é dia de festa


A matéria é do HuffPost Brasil:

Dia dos Mortos é celebrado com orações e festa no México

No Brasil, o Dia de Finados costuma ser um dia de silêncio e orações. Já no México, o feriado é celebrado com festa, por três dias.

De 31 de outubro a 2 de novembros, amigos e familiares se reúnem para a milenar tradição do Dia dos Mortos, celebrada desde os aztecas.

Festas, comidas, música, desfiles e maquiagens temáticas, que simulam caveiras, fazem parte do ritual mexicano para lembrar com carinho das pessoas que morreram. A animada festa é considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Os mexicanos também fazem vigílias e levam oferendas para os túmulos. Eles também erguem altares em suas casas para homenagear as pessoas queridas que morreram, segundo o HuffPost México.

A seguir, veja algumas imagens da comemoração do feriado no México e nos locais com imigrantes, como os Estados Unidos:



Festas, comidas, música, desfiles e maquiagens temáticas, que simulam caveiras, fazem parte do ritual mexicano para lembrar com carinho das pessoas que morreram.



Celebrado de 31 de outubro a 2 de novembro, o Dia dos Mortos é um dos feriados mexicanos mais importantes. Na imagem, a vista noturna das lápides no cemitério de San Gregorio Atlapulco, em Xochimilco



Detalhe de uma oferenda em Xochimilco, no México



Pessoas reunidas em um cemitério de San Miguel Canoa



Imagem da celebração em San Miguel Canoa



Iyelitzin Cortes e Tonatzin Cortes exibem suas fantasias, na Cidade do México


Veja mais imagens no HuffPost Brasil.



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Cardeal mexicano relembra aparição de Ocotlán


A matéria é do portal ACI Digital:

Prodígio de Ocotlán: Não há festa maior para celebrar Cristo, diz Cardeal

Diego López Marina

JALISCO, 06 Out. 16 / 05:00 am (ACI).- Na última segunda-feira, 3, foi celebrada a Missa de aniversário da aparição da imagem de Cristo Crucificado no céu de Ocotlán (México), a qual foi vista em 1847 por mais de 2 mil pessoas durante mais de 30 minutos, no cemitério da capela da Puríssima Conceição dessa localidade.

Este acontecimento histórico – aprovado pela Arquidiocese de Guadalajara em 1911 – ficou conhecido como “O Prodígio de Ocotlán” e ocorreu um dia antes de um tremor deixar em ruínas esta localidade do estado de Jalisco, causando a morte de 40 pessoas.

A Santa Missa, que concluiu as tradicionais festas anuais para comemorar o prodígio, foi celebrada na paróquia do Senhor da Misericórdia pelo Arcebispo de Guadalajara, Cardeal Francisco Robles, que exortou os fiéis a examinar “nossa condição de discípulos e seguidores do Senhor da Misericórdia de Ocotlán” porque “vale a pena celebrá-lo com autenticidade”.

“Não há festa maior para celebrar Cristo, nosso Deus e Senhor, nosso rei e pai amoroso, nosso irmão mais velho e amigo, nossa verdade, vida e salvação”.

O Purpurado indicou que “um dos frutos de nos autoexaminarmos, possivelmente, já não é ter a graça de ver novamente a sua bendita imagem no céu. Mas se nos revisamos com humildade e sinceridade em nossa condição de discípulos, então já não poderemos ver Jesus Cristo no céu, mas aqui na terra”.

“Poderemos vê-lo nas ruas de Ocotlán, nos lares e nas famílias, porque cada discípulo é chamado a ser uma imagem viva de Cristo, com seus mesmos sentimentos, atitudes, práticas e mesma relação com Deus e com outros”.

Em seguida, o Cardeal Robles explicou que dessa forma o povo de Ocotlán seria outro “em assuntos de justiça, fraternidade, paz, respeito à integridade da vida humana. Se Cristo, nosso mestre, estivesse vivo e presente em cada discípulo dele, o mundo seria diferente”.

Por esse motivo, fez uma pergunta a modo de reflexão a todos os fiéis reunidos: “Se tivéssemos a sorte de ver novamente a aparição da imagem de Jesus Cristo nos céus e aqui entre nós continuassem acontecendo as mesmas condições de injustiça, egoísmo, pecado, desrespeito à vida ou de violência, para que nos serviria isso se permanecêssemos na escuridão e nas trevas?”.

“Necessitamos da graça de experimentar a sua misericórdia para nos tornar suas testemunhas e discípulos. Que haja um Cristo vivente em cada um de nós. Nosso mundo precisa destas expressões de amor e de misericórdia. Como diz o Papa Francisco, ‘nosso mundo necessita da ternura de Deus’, mas esta se tornará presente na medida em que nós a experimentemos e demos testemunho”, acrescentou.

Finalmente, o Purpurado expressou que “devemos pedir a graça de pouco a pouco assemelhar-nos a Ele”.

“Continuemos celebrando Jesus Cristo presente nesta imagem bendita da sua misericórdia. Continuemos celebrando Jesus Cristo em sua palavra, que acabamos de escutar, mas especialmente em sua presença real, seu corpo e sangue entregue para a nossa salvação”, concluiu.



sábado, 12 de março de 2016

Visita do papa deixou feridas na igreja mexicana

Papa Francisco entre o presidente mexicano Enrique Peña Nieto e sua esposa.
O que será que fez o papa parecer tão preocupado no México?

A análise foi publicada no IHU:

A Igreja mexicana se pergunta: “quem aconselhou mal ao Papa?”


“Quem aconselhou mal ao Papa?”, termina o editorial do semanário da Arquidiocese da Cidade do México, ‘Desde la Fe’, voz da Igreja Católica no país, que enfrenta a enorme controvérsia gerada pela muito dura reprimenda que o Papa Francisco fez a todos os bispos mexicanos, em seu encontro do último dia 13 de fevereiro, na catedral da Cidade do México. 

A reportagem é de Javier Brandoli, publicada por El Mundo, 07-03-2016. A tradução é do Cepat.


Um capítulo a mais das evidentes más relações de Francisco com o cardeal Norberto Rivera e que levaram o Papa, segundo pôde saber El Mundo, a exigir que o núncio, Christophe Pierre, estivesse presente na maioria dos atos, para evitar o encontro direto com Rivera. Aquele encontro com os bispos, que inicialmente seria privado e que Francisco exigiu que fosse público, provocou feridas dentro do catolicismo mexicano.

No semanário, em uma calculada mensagem em que atira a pedra e esconde a mão, apontando o Papa e seu entorno, mas culpando os meios de comunicação de não saber interpretar a mensagem, a Igreja mexicana começa dizendo: “Analisando a mensagem que Sua Santidade pronunciou na Catedral do México, podemos ver como o Papa adverte sobre os riscos que os bispos de nosso país enfrentam diante do secularismo: opacidade, adormecimento, distanciamento, frieza, clericalismo, autorreferência, triunfalismo estéril e obscuridade que pode eclipsar a luz do Evangelho. E os chama a estar alerta”.

Em seguida, a Igreja mexicana começa a analisar o duro sermão dado pelo Papa, apontando aquela que foi a sua frase mais célebre, ainda que sem repeti-la em seu contexto e um pouco maquiada: “Foi a frase – Brigar como homens - a que repercutiu entre os comunicadores – impelidos mais pelo histrionismo midiático que pelo profundo significado das palavras – como uma forte repreensão aos pastores”, disse o editorial, para depois prosseguir estufando o peito: “Aqui, cabe se perguntar: o Papa tem alguma razão para repreender os bispos mexicanos? O que, sim, tem o Papa, está muito claro, é que a Igreja no México é um caso atípico em relação a outros países da América. Em primeiro lugar, em termos de porcentagens, nossa nação conta com a maior quantidade de católicos, com 81% da população em 2014, e é justamente por causa dessa ampla e sólida presença de católicos que nos distinguimos de outros países do continente”.

‘Os esquecidos’ do Santo Padre

De fato, neste aspecto evangélico, a Igreja volta a usar um estilo indireto para comentar os ‘esquecidos’ do Santo Padre: “Por outra parte, seria absurdo pensar que Sua Santidade desconhece a grande resistência que a Igreja Católica mexicana opôs à expansão das comunidades protestantes de marcas carismáticas e pentecostais, que, não obstante, propagam-se sem freio em outros países, especialmente da América Central”, diz o texto que recorda que a Igreja mexicana conta com quase um século “em que a ofensiva anticlerical e maçônica foi desapiedada”, para voltar a se perguntar: “Por acaso, o Papa Francisco desconhecerá isto, para repreender aos bispos?”.

Por último, após vários parágrafos onde só são utilizados termos soltos do dito pelo Papa e se mantêm as conquistas atingidas pela Igreja do México, a arquidiocese mexicana termina com um parágrafo no qual, sempre com perguntas, parece aceitar tudo o que se tenta negar anteriormente, que o Papa tenha repreendido duramente os bispos, e diz: “O Episcopado Mexicano está unido e disposto a enfrentar os desafios que Sua Santidade apresentou. Lamentavelmente, existe a mão da discórdia que tentou colocar os acentos negativos, parcializando a visão de Igreja e procurando influenciar no discurso pontifício para conseguir um efeito contrário no público, ao ressaltar desafios e tentações como males do episcopado. Não é assim. E, aqui, cabe a questão: por que procurar depreciar o trabalho dos bispos mexicanos? Felizmente, o povo conhece seus pastores e os acompanha na construção do Reino de Deus, seja ao preço que for, como foi ao longo da história deste país... Ou será que as palavras improvisadas do Santo Padre corresponderiam a um mau conselho de alguém próximo a ele? Quem aconselhou mal ao Papa?”, conclui.

Não foi ontem a primeira vez que a Igreja mexicana usa o semanário ‘Desde la Fe’ para analisar a visita do Papa, nem para destacar as falhas que houve de organização: “Os erros logísticos e a desorganização salientaram aspectos, incitando mais o protagonismo de responsáveis, desvalorizando a eficiência, desprestigiando o toque de impecabilidade no processo organizativo, poucas mãos concentraram muitas funções, colocando em risco a efetiva preparação e diligente cuidado que deveria ter correspondido a cada uma das dioceses visitadas pelo Papa”, dizia em seu editorial, no último dia 21 de fevereiro.

Críticas

Então, a Igreja atacava o Governo e os meios de comunicação, explicando que “não se importaram com os rigores, as privações e incômodos diante da feroz vigilância que sequestrou as cidades sede. Os exageradíssimos controles das autoridades causaram mais incômodos que benefícios. É certo que o Papa jamais desejaria reféns e mais reféns, longas durações de fechamentos de ruas e paralisação do transporte público. Tudo isto provocou perdas para trabalhadores e chefes de famílias, mas a fé do povo move montanhas”, disseram sobre o Governo.

A respeito dos meios de comunicação, o editorial dizia que “houve supostamente mestres da comunicação que ao invés de informar, induziram o público aos vícios de parcialidade, meias verdades, visceralidade e inflamações deformantes da opinião. Como mercenários, buscaram o lucro, privilegiando a desonestidade acima da verdade e equilíbrio profissionais. Sem um pingo de autoridade moral foram arremedo e figurino de julgamentos implacáveis, quando mordiam a própria língua frente à corrupção e desonestidade de seus atos, não vistos pelo público na tela pequena. Repórteres que, a qualquer preço, louvaram a excentricidade, privilegiando ataques e agressividade”.

A realidade, conforme pôde confirmar El Mundo, sobre o que em todo caso é um segredo de polichinelo, é que as relações entre o Papa Francisco e o cardeal Rivera são péssimas. O cardeal, ao se sentir relegado na viagem, colocou paus nas rodas, especialmente ao não mobilizar voluntários. O próximo capítulo será a rápida renovação da cúpula da Igreja mexicana, onde é provável que o desencontro se torne mais evidente.



terça-feira, 11 de agosto de 2015

E se Jesus andasse de metrô?


É com essa premissa que um programa humorístico mexicano fez a esquete abaixo, gravada no metrô da Cidade do México, que mostra com bom humor a importância de se respeitar os assentos reservados às pessoas com necessidades especiais:




sábado, 23 de maio de 2015

Um rio de mercúrio corre embaixo de pirâmide mexicana


Notícia interessante publicada no Brasil Post:

Um rio de mercúrio líquido, descoberto sob uma pirâmide no México, pode lançar nova luz sobre a antiga cidade de Teotihuacán

Macrina Cooper-White

Mais de 10 anos após a sua descoberta, um túnel misterioso escondido sob uma pirâmide no centro do México está revelando novos segredos.

Arqueólogos dizem que encontraram "grandes quantidades" de mercúrio no fim de um túnel de uns 100 metros, que se encontra sob o lendária pirâmide do Templo da Serpente Emplumada, na antiga cidade de Teotihuacán, cerca de 30 milhas (pouco mais de 48 km) a nordeste da Cidade do México.

"É algo que nos surpreendeu completamente", disse Sergio Gomez, diretor da escavação do túnel, à Reuters, acrescentando que sua equipe ainda não sabe por que o metal líquido foi colocado lá.

O mercúrio foi encontrado em três sítios arqueológicos na América Central, reportou o Guardian. Os arqueólogos acreditam que esse elemento pode ter tido significado ritual, talvez simbolizando uma espécie de rio para o submundo.

"Alguns exemplos foram encontrados na área Maya, mas é muito raro na antiga Mesoamérica", disse o Dr. George Cowgill, antropólogo da Universidade Estadual do Arizona e um dos maiores especialistas do mundo em Teotihuacán, que não está envolvido na descoberta, ao The Huffington Post, por email.

Gomez espera que a descoberta mostre o caminho que leva ao lugar de descanso final de um dos governantes de Teotihuacán. Sem o lugar do enterro o governante nunca foi encontrado - e isso deixa os arqueólogos coçando a cabeça sobre como a cidade pré-histórica foi governada.

Escavações anteriores no túnel levaram a dezenas de milhares de artefatos, incluindo joias, esculturas em pedra e pontas de flechas.

"Essa descoberta pode aumentar um pouco mais as chances de encontrar uma tumba real, mas a incerteza é emocionante", disse Cowgill no e-mail. Isso nos deixa com um monte de suspense e aguardando ansiosamente os novos desenvolvimentos."

No seu auge, entre o 1º e o sétimo séculos D.C., Teotihuacán media cerca de 14 milhas quadradas, com uma população de mais de 100.000 habitantes. A antiga cidade foi designada como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1987.



sábado, 13 de dezembro de 2014

Papa Francisco celebrou "misa criolla" no Vaticano

Primeiramente, dado o significado preconceituoso que a palavra "crioulo" tomou no português falado no Brasil, é preciso lembrar que seu equivalente em castelhano, "criollo" (assim como foi no nosso período colonial), é o nome dado aos descendentes dos europeus e africanos nascidos no continente americano nos primeiros séculos da colonização, e a toda a cultura mesclada que eles geraram. No Brasil, infelizmente, a palavra "crioulo" ficou muito mais associada ao tratamento pejorativo dos afrodescendentes.

"Misa Criolla" é a peça musical composta pelo argentino Ariel Ramírez em 1964 (há 50 anos, portanto), com adaptação litúrgica dos padres Alejandro Mayol e Jesús Gabriel Segade.

Fortemente influenciada pelas músicas andina e folclórica argentina, a "Misa Criolla" é considerada a obra clássica argentina mais executada no mundo. E, cá entre nós, é de uma beleza ímpar.

Pois ontem, 12 de dezembro de 2014, o papa Francisco celebrou em espanhol uma "missa crioula" em homenagem à Virgem de Guadalupe, padroeira do México e de toda a América, com presença de bandeiras e representantes de todo o continente, com uma das leituras em português.

A "Misa Criolla" foi executada por um grupo de cantores e músicos regidos por Facundo Ramírez, filho do compositor Ariel Ramírez (falecido em 2010), tendo como solista Patricia Sosa.

Não foi a primeira vez que a obra foi apresentada na Basílica de São Pedro, mas o ineditismo do ocorrido ontem se deve ao fato de um papa do continente americano ter presidido a cerimônia tipicamente latina.

Confira no vídeo abaixo um trecho do "Kyrie" (Piedade) e do belíssimo "Gloria" da "Missa Criolla":


A gravação integral da "Misa Criolla" celebrada pelo papa Francisco pode ser vista no canal do Vaticano no youtube:




sábado, 6 de dezembro de 2014

México resiste à barbárie


Artigo publicado no Brasil Post:

O México cansado do medo

Maurício Santoro
Assessor de direitos humanos da Anistia Internacional

Julio César Mondragón estava feliz. Era um rapaz pobre que queria continuar a estudar e conseguir um emprego para sustentar a filha recém-nascida, Melisa. Em agosto havia começado as aulas numa escola de formação de professores primários que lhe garantia gratuitamente educação, moradia e a possibilidade quase certa de trabalho após a formatura. Mudou-se da Cidade do México para o estado de Guerrero para aproveitar a oportunidade.

Em 26 de setembro de 2014 Julio Cesar tornou-se um dos 43 estudantes mexicanos assassinados após participarem de um protesto na cidade de Iguala. Em novembro, a Procuradoria Geral do México afirmou que os responsáveis foram a polícia municipal e uma quadrilha de traficantes de drogas. A maioria dos corpos foram esquartejados e queimados. Como o México chegou a tal ponto? A resposta passa por uma longa trajetória de impunidade de atrocidades cometidas pelo Estado e pelo conluio entre agentes públicos e crime organizado.

Iguala fica no mesmo estado das belas praias de Acapulco, conhecidas internacionalmente. Contudo, a maioria dos turistas estrangeiros que lotam seus hotéis de luxo não sabem os detalhes da tradição de mobilização política local, que remonta às revoltas camponesas durante o período colonial, atravessa as guerras civis do século XIX e a Revolução Mexicana. Na década de 1960 houve um massacre de camponeses na região que serviu de estopim para lutas de trabalhadores rurais e estudantes, reprimidas pelo Estado com torturas, mortes e desaparecimentos na chamada "guerra suja".

Além da violência política, também floresceram as relações promíscuas entre o Estado e grupos do crime organizado. Guerrero é a região de maior produção de heroína do México. Quadrilhas conquistaram influência considerável junto a políticos e a cidades inteiras.

O papel dos estudantes

Os estudantes assassinados eram alunos da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, na comunidade de Ayotzinapa. Eram jovens em sua maioria entre 17 e 22 anos, vindos de famílias pobres e descendentes de indígenas. Desde sua fundação na década de 1920, a escola é famosa pelo ativismo político de seus alunos, um centro de mobilização à frente das principais lutas sociais numa região na qual 70% dos habitantes vivem na pobreza.

Em setembro de 2014 um grupo de 100 estudantes foi até o município vizinho de Iguala, para protestar. Queriam mais verbas para a educação, mudanças nas políticas de contratação de professores e ajuda do governo para viajar até a Cidade do México participar de uma manifestação que lembraria o aniversário do massacre de Tlatelolco (1968). Em manifestações anteriores, haviam acusado o prefeito de Iguala da tortura e assassinato do líder camponês Arturo Hernández Cardona, em maio de 2013. O político temia que a mobilização estudantil prejudicasse a campanha para fazer da esposa sua sucessora no cargo.

Os jovens nunca chegaram até Iguala, foram interceptados na estrada pela polícia da cidade. Embora os detalhes do que ocorreu ainda sejam controversos, sabe-se que houve um confronto no qual seis pessoas foram mortas a tiros e outras 25 feridas. Quarenta e três alunos foram detidos pela polícia e quase todos desapareceram - Julio César foi uma exceção. Seu cadáver, com marcas de tortura, foi largado nas ruas de Iguala.

O caso horrorizou a sociedade mexicana e levou a gigantescas mobilizações em todo o país, cobrando justiça e o aparecimento com vida dos estudantes. O governo federal agiu e nas investigações que se seguiram, as autoridades prenderam mais de 70 pessoas, incluindo o prefeito e a primeira-dama de Iguala.

Segundo a Procuradoria Geral da República, os alunos foram levados pelos policiais até um lixão, em furgões superlotados. Quinze morreram por asfixia. Os demais foram entregues a bandidos do cartel Guerreros Unidos, que os assassinaram. De acordo com as investigações, um dos pistoleiros teria dito ao chefe do bando que os rapazes pertenciam a um grupo rival do crime organizado. Seus cadáveres foram queimados numa grande fogueira.

Consequências da militarização

Conluio entre autoridades públicas e crime organizado (quadrilhas, milícias, paramilitares), chacinas, massacres e guerras sujas e desaparecidos que atravessam ditaduras e democracias também são lamentavelmente frequentes em muitos outros países da América Latina, como Brasil, Colômbia, El Salvador e Honduras. Cerca de 30% dos homicídios do planeta acontecem nesta região, que só tem 10% da população mundial.

No México, esse padrão assustador piorou desde 2006, com a decisão do governo federal em engajar as Forças Armadas diretamente no combate ao narcotráfico. Desde então, houve mais de 100 mil assassinatos no país - aumento de mais de 160% antes da militarização - e 26 mil desaparecimentos. Na procura pelos estudantes, foram encontradas seis covas coletivas, onde estavam 28 corpos. De quem são?

O México é um dos países-chave na campanha "Chega de tortura" da Anistia Internacional que destaca a importância de combater esse crime em meio ao aniversário da convenção da ONU contra ele. A escolha do México como uma das prioridades se deu em função do aumento exponencial das denúncias de tortura no contexto da guerra às drogas - 600%, com 7 mil casos de 2010 a 2013. Apenas sete resultaram em condenações. Isso mesmo: uma em mil .

"Já me cansei do medo", bradam os manifestantes. O México hoje é a América Latina em volume mais alto, lá se mostram de maneira mais dura tendências preocupantes que estão presentes também nos outros países da região. Os protestos impulsionados pelo assassinato dos 43 estudantes tocam problemas estruturais que estão na base desses crimes, mas vão além deles. O desdobramento dessas mobilizações é importante para todos os países latino-americanos.



sábado, 29 de novembro de 2014

Adeus, Chaves!

Faleceu ontem aos 85 anos de idade, no México, o ator Roberto Gómez Bolaños, que interpretou com enorme sucesso os personagens Chaves e Chapolim Colorado, que encantaram (e continuam encantando) gerações de crianças e adultos na América Latina.

O seriado Chaves, que continua sendo exibido no Brasil pelo SBT, tem como sua principal característica a ingenuidade e a abordagem (hoje considerada) politicamente incorreta que comunica e faz rir sem nenhuma dificuldade.

Com personagens que vivem numa espécie de cortiço, (des)organizados em famílias disfuncionais (só pai e filha, só mãe e filho, o próprio Chaves é órfão e abandonado), a série retrata a realidade de milhões de pessoas que convivem com a pobreza na América Latina.

Sua linguagem ingênua permite que continue sendo visto apesar da violência romantizada (bofetões entre adultos e os castigos físicos impostos às crianças) e do professor Girafales fumar em plena sala de aula, algo que seria impensável nas produções atuais.

Chaves é datado, portanto, mas o fato de pertencer aos anos 1970 não o impede de continuar sendo visto e apreciado, pois nunca precisou apelar para palavras chulas, sexo ou piadas de duplo sentido para se firmar na televisão.

Fica aqui a nossa homenagem a Roberto Bolaños, com o episódio do primeiro dia de aula, no qual estão presentes todas as principais características do seriado.

Por muitas gerações ainda, continuaremos nos divertindo com a sua genialidade:




terça-feira, 4 de novembro de 2014

O escândalo dos 43 estudantes desaparecidos no México


O absurdo e vergonhoso desaparecimento de 43 estudantes no México expõe as chagas que corrompem toda a América Latina, e exige de todo o mundo a mais veemente reprovação.

A vergonha é nossa e a matéria é do Brasil Post:

Desaparecimento de 43 estudantes no México expõe polícia corrupta e autoridades coniventes com crime

Charlotte Alfred

Após um protesto de estudantes em Iguala, México, em setembro, dezenas de jovens foram vistos sendo colocados em vans da polícia. E então eles sumiram.

Um mês depois, 43 alunos da faculdade de professores rurais de Ayotzinapa seguem desaparecidos, e acredita-se que estejam mortos. Em vez de encontrar os estudantes, as autoridades que investigam os eventos de 26 de setembro descobriram outros horrores: uma série de valas comuns, policiais trabalhando para os carteis de narcotraficantes e autoridades no comando de um submundo sombrio.

A busca ao estudantes trouxe à tona a brutalidade e a impunidade em partes do México ainda sob controle dos carteis, apesar dos anos de guerra contra as drogas.

Eis aqui algumas das descobertas da investigação governamental:

A última vez em que os estudantes foram vistos

Os estudantes – adolescentes do sexo masculino ou com 20 e poucos anos – eram alunos de uma escola que forma professores para as áreas rurais do país. A escola tem histórico de ativismo de extrema esquerda, segundo a BBC. Naquela sexta-feira, eles participariam de um protesto contra discriminação em contratações e também levantariam fundos para um protesto previsto para março do ano que vem.

Testemunhas afirmam que os estudantes estavam em Iguala, cidade no sul do país, quando foram alvejados por tiros da polícia.

No fim da noite, seis estavam mortos. O corpo de um dos estudantes foi encontrado mais tarde com a pele do rosto e os olhos arrancados, segundo a New Yorker, “uma marca registrada de assassinatos cometidos pelo crime organizado”.

Alguns dos estudantes conseguiram fugir de Iguala, mas 43 deles não foram vistos desde aquela noite. Os sobreviventes afirmam que seus colegas foram levados pela polícia, mas as autoridades negam que eles estejam presos.

Como os estudantes não voltaram para casa, parentes e simpatizantes foram às ruas protestar, o governo federal começou uma investigação.

O prefeito da cidade e sua mulher supostamente controlam o cartel de drogas local.

Segundo a investigação, o prefeito de Iguala, José Luis Abarca Velázquez, mandou a polícia impedir o protesto a qualquer custo.

O prefeito e sua mulher, María de los Ángeles Pineda Villa, são os “prováveis mentores” do crime e estão foragidos, segundo o procurador-geral do país.

A investigação levou a acusações de que Abarca e Pineda sejam os cabeças de uma organização assassina, juntamente com o cartel de traficantes locais, os Guerreros Unidos.

Depois de sua prisão, o líder do cartel disse aos investigadores que Pineda – filha e irmã de integrantes do cartel – é a “operadora chave” da rede criminosa de Iguala. Como o protesto dos estudantes ameaçava atrapalhar o evento em que ela lançaria sua candidatura à prefeitura da cidade, Pineda ordenou “uma lição” aos manifestantes, segundo afirmou o chefe do cartel às autoridades, segundo o Daily Beast.

Apesar de o governo expressar choque, os habitantes da região dizem que as autoridades sempre fizeram vistas grossas para as conexões do casal com os criminosos. “Todos sabiam das ligações deles com o crime organizado”, disse à Associated Press Alejandro Encinas, senador do Partido da Revolução Democrática (PRD), o mesmo do prefeito Abarca. “Ninguém fez nada: o governo federal, o governo estadual, a liderança do partido.”

Os investigadores afirmam que a polícia entregou os 43 estudantes desaparecidos para membros do cartel Guerreros Unidos, afirmando se tratar de integrantes de uma gangue rival.

Membros dos Guerreros Unidos admitiram ter matado alguns dos estudantes e ter jogado os corpos numa vala – mas os corpos ainda não foram identificados.

Narcotraficantes presos denunciaram pelos menos 30 policiais locais que trabalhavam diretamente para o cartel. “Eu não chamaria essa polícia de uma ‘polícia’. Eu os chamaria de assassinos de aluguel”, disse o procurador geral do país, Jesús Murillo Karam.

Dezenas de policiais foram presos desde então, e as autoridades afirmam que alguns deles confessaram. O chefe de polícia de Iguala também está desaparecido. A polícia federal assumiu a segurança de Iguala, desarmando a força local.

Enquanto isso, uma faixa exigindo a libertação dos policiais apareceu em Iguala, assinada pelo cartel Guerreros Unidos. “Ou então vamos revelar o nome de todos os políticos que trabalham para nós. A guerra está só começando”, ameaçava a faixa.

O controle do cartel deve ir muito além de uma só cidade. Acredita-se que o cartel Guerreros Unidos controle rotas do tráfico nos Estados de Guerrero, onde fica Iguala, e no vizinho Morelos. A colusão dos criminosos com os governantes vai muito além de Iguala.

A polícia federal assumiu o controle de mais de 12 cidades no sul do México, depois de encontrar “supostos elos com o crime organizado” em suas forças policiais, disse Alexandro Rubido, o comissário de Segurança Nacional do país.

O cartel é um dos vários grupos dissidentes do cartel de Sinaloa que surgiram por volta de 2011, segundo o grupo de jornalismo investigativo InSight Crime. Os enfrentamentos entre os grupos por controle de territórios fez explodir a violência, e Guerrero registrou o maior índice de homicídios do México no ano passado, segundo o grupo.




Muitos mais estão desaparecidos ou mortos

Nas buscas pelos estudantes, os investigadores encontraram pelo menos 12 valas comuns nas proximidades de Iguala, com dezenas de corpos não-identificados. Até agora, as autoridades afirmam que nenhum dos restos mortais corresponde aos estudantes.

As terríveis descobertas confirmam o teor dos moradores: que uma encosta da região seja um cemitério para os desaparecidos.

Somente este ano, 150 corpos foram encontrados em valas secretas no Estado, segundo o InSight Crime, citando as autoridades legistas de Guerrero.

Em todo o país, mais de 20.000 pessoas desapareceram nos últimos oito anos, segundo dados oficiais. Nik Steinberg, da Human Rights Watch, investigou o problema a fundo e escreveu na Foreign Policy que, se metade dos casos forem confirmados, seria “uma das piores ondas de desaparecimento nas Américas em décadas”.

“As evidências sugerem que não só as autoridades deixaram de investigar os desaparecimentos como, em muitos casos, soldados e policiais estão envolvidos neles”, escreveu Steinberg em artigo publicado antes do desaparecimento dos estudantes de Iguala.

Enquanto isso, as famílias dos estudantes mantêm esperanças de que eles possam ser encontrados.

“Hoje, o México inteiro ressoa com o grito de ‘Eles foram levados vivos, que voltem vivos’”, escreveu o poeta e ex-diplomata mexicano Homero Aridjis em um post recente para o The WorldPost. “Os mexicanos estão cansados de viver num estado de impunidade e corrupção”, disse ele.

O desaparecimento dos estudantes e as acusações de cumplicidade por parte das autoridades levaram milhares de manifestantes indignados às ruas do país para exigir que eles sejam encontrados – e também para exigir justiça.



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