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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Em 1777, padre espanhol escondeu mensagem ao futuro em lugar bastante inusitado


A informação esquisitona é da revista Galileu:

Padre usou bunda de estátua de Jesus como "cápsula do tempo"

Esta pode ter sido a primeira vez que um local tão peculiar foi escolhido como esconderijo

Um padre na Espanha do século 18 encontrou um local inesperado para esconder uma mensagem secreta para o futuro: o traseiro de uma estátua oca de Cristo crucificado, chamado Cristo del Miserere. A carta foi encontrada durante a restauração da peça quando especialistas tiraram uma parte do objeto de madeira — mais precisamente o pano que cobre as nádegas de Jesus.

Aparentemente o intuito da estátua realmente era servir como "cápsula do tempo". "Embora seja habitual que muitas esculturas estejam vazias, não é tão difícil encontrar documentos manuscritos dentro", explicou o historiador Efrén Arroyo, membro da Fraternidade da Semana Santa de Sotillo de la Ribera, à Agencia EFE.

O documento foi escrito em 1777 por Joaquín Mínguez, capelão da Catedral do Burgo de Osma, e seu conteúdo conta com a descrição da vida da época, assim como considerações sobre o rei Carlos III, vários regentes e eventos da época.

A carta também detalha as culturas cultivadas na região (trigo, centeio, cevada e aveia e uvas para vinho); as doenças mais comuns (como malária e febre tifóide); e as atividades mais populares da população (como cartas, jogos de bola e jogos de bar).

Ele ainda fornece informações mais gerais, como: "O Tribunal está em Madri, há um Correio e uma Gazeta para as notícias, [e] há uma Inquisição, para a qual não existem erros contra a Igreja de Deus". De acordo com Arroyo, esses detalhes indicam fortemente que Mínguez queria deliberadamente deixar uma mensagem para ser lida no futuro. Resta saber se o padre não ficou com a consciência pesada de guardar esse recado em um local tão peculiar...

(Com informações de Science Alert.)



sábado, 22 de março de 2014

Solidão acompanhada

Artigo perturbador de Sergio Augusto para o Estadão de 15/03/14:

Ciberescapismo

Viciados no Facebook, Twitter e serviços afins vivem como zumbis, almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão

À saída de uma sessão vespertina de Ela, uma senhora pergunta à amiga se aquilo que acabaram de ver poderia acontecer de verdade. "Sei lá", respondeu a outra, "mas quando acontecer, não estaremos mais aqui pra ver." Resposta sensata. Primeiro porque ninguém sabe ao certo se a tecnologia digital atingirá aquele grau de sofisticação mostrado no filme de Spike Jonze. Segundo porque as duas senhoras certamente há muito terão morrido quando os smartphones e computadores puderem oferecer um serviço de interação online como o do filme.

Aos que ainda não viram Ela e nada leram a respeito, resumo: é uma delicada, melancólica e inquietante comédia ciber-romântica na qual um recém-separado de carne e osso, Theodore (Joaquin Phoenix), apaixona-se pela voz e o jeito de falar de um sistema operacional chamado Samantha. Ela não é um autômato como os replicantes de Blade Runner e Gigolo Joe, o edipiano robô humanoide encarnado por Jude Law em A. I., Inteligência Artificial, mas um programa de computador que conversa e interage com o usuário, algo como uma extensão do aplicativo Siri, a assistente pessoal inteligente do iOS da Apple, só que "humanamente" inteligente e sensível. Além de sexy. Até um software vira um tesão com a voz de Scarlett Johansson.

Li em algum lugar que daqui a 30, 40 anos haverá um aplicativo como Samantha ao alcance de todos nós. Se for um quebra-galho full time e onipresente, uma super-Siri, com respostas e recomendações para tudo, beleza. Se uma vampe virtual, uma app-fatale capaz de virar a cabeça de clientes solitários e carentes como o Theodore de Ela, babau. Que não chegue a tal extremo a distopia da Singularidade (ou o momento hipotético em que a inteligência artificial irá superar a inteligência humana), até por ser grande o risco de a NSA, ciente da onisciência do aplicativo, com total acesso aos dados, e-mails e demais segredos de sua freguesia, transformá-lo numa Mata Hari. Como se já não bastassem as coletas de dados dos internautas repassados pelas plataformas de mídia social e aplicativos a empresas e anunciantes.

O filme se passa numa época indefinida, numa Los Angeles asséptica e high tech, com visual de Xangai (onde as externas foram rodadas), justo o oposto da Los Angeles de Blade Runner, que era uma versão degradada de Tóquio, com detalhes maias em sua regressiva arquitetura. Essa concepção de Xangai como protótipo da metrópole do futuro pode sugerir uma visão prospectiva menos sombria, menos pessimista, que a dos autores de Blade Runner, mas a perspectiva de um mundo onde seres humanos inteligentes e sensíveis como Theodore caiam de quatro por vozes movidas a algoritmos não deveria empolgar nem os mais fanáticos apologistas da cibercultura.

Se Samantha é um avatar avançado de Siri, Theodore em nada difere dos cibernautas do presente que vivem vicariamente num mundo à parte, como almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão. São zumbis, e não apenas usuários, das mídias sociais, viciados no Facebook, no Twitter e serviços afins. Diversos estudos recentes, e não tão recentes, sobre os efeitos negativos da convivência virtual revelam dados preocupantes. Conclusão unânime: quanto mais vazia nossa vida pessoal, maior a tendência para preenchê-la na realidade virtual. Quanto mais ocupados e ativos, menos nos deixamos seduzir pelo ciberescapismo.

Permanecer muito tempo nas redes sociais pode provocar insônia, ansiedade, estresse, distúrbios digestivos (revelação da última edição do Journal of Eating Disorders), anorexia, afetar a autoestima, incitar a inveja e o ciúme. A psicoterapeuta Sherri Campbell defende essa tese com ardor: "As mídias sociais nos dão um falso sentimento comunitário, uma falsa conectividade com o mundo e as pessoas. As trocas que nelas se processam são meros simulacros das relações interpessoais no mundo físico. Milhares de contatos, amigos, seguidores e curtições não valem o sucesso real, palpável, que podemos desfrutar no mundo real".

Apesar de ter um pezinho na autoajuda, Sherri Campbell fala com a autoridade de quem há tempos se dedica a pesquisar os motivos que levam as pessoas a sobrepor suas relações nas redes sociais às da realidade concreta.

Metade dos imoderados usuários do Facebook e do Twitter que ela entrevistou admitiu ter ficado, com o passar do tempo, mais ansiosa, frustrada e insatisfeita. Nas mídias sociais a vida dos outros parece perfeita e isso pode nos deixar complexados e deprimidos, ainda que o que os outros nos mostram seja apenas um instantâneo da realidade, eventualmente edulcorada, falsificada, "porque também produto de um complexo de inferioridade", acrescenta a psicoterapeuta, que, a exemplo de Christopher Carpenter, autor de Narcissism on Facebook (Narcisismo no Facebook), oferece duas alternativas aos acometidos de compulsão tecnológica: uma clínica de reabilitação (sem acesso à internet) e uma terapêutica reconexão ao mundo real, com frequentes tête-à-tête com amigos e parentes. Foi o que Theodore, o cibermissivista apaixonado de Ela, compulsoriamente fez.



sábado, 21 de setembro de 2013

O eterno presente dos desaparecidos argentinos

Artigo publicado no Estadão de 25/08/13:

Corpos roubados

MARTÍN CAPARRÓS

Todos morrem. Nós, argentinos, não somos exceção à regra: todos morremos. O extraordinário é o que fazemos com os corpos.

A história argentina transborda de corpos roubados, içados, negociados. A história argentina propriamente dita teve início quando o marinheiro espanhol Juan Díaz Solís, navegando pelo Rio da Prata pela primeira vez, chega às costas argentinas e os nativos o comem: a primeira interação entre europeus e nativos, a origem de nossa cultura e o início da gastronomia crioula. Desde então, corpos argentinos jamais deixaram de ser manipulados de maneira estranha. Mas nunca em tamanha quantidade, com tanta força, com tantas consequências, como nos anos 1970, quando desapareceram com eles.

Entre 1976 e 1980, os militares argentinos, com o apoio de boa parte da sociedade argentina, dedicaram-se a matar militantes de esquerda e ocultar seus corpos. Foi o que o general Videla chamou, numa linguagem invejável, de "desaparecidos". O termo vingou e foi retomado em muitas línguas, Nossa contribuição para o léxico global. Jorge Luis Borges confessou muitas vezes que sua maior ambição era deixar uma locução verbal, uma palavra nova, para o idioma. Aquele que o conseguiu foi o mais brutal dos seus comensais.

Desaparecer com os corpos era entregá-los a um futuro negado. Os generais da ditadura argentina acreditavam no aqui e agora, no momento presente - ou seja, acreditavam num presente permanente, num tempo sem mutação no qual ninguém estaria em condições de exigir que eles prestassem contas. Achavam que, se naquele momento exato não precisavam assumir a responsabilidade, nunca o deveriam. E preferiram não assumir e ocultar os corpos: apostar no presente interminável.

Foucault deixou muito claro: o poder mostra seu poder sobre o corpo do delito - o corpo do delinquente - para ensinar a lei. Castiga, mata em público para impor suas leis. Embora, às vezes, esses mortos possam se rebelar e se tornar estandartes - ou vergonhas.

Na época aqueles poderosos argentinos, sempre medíocres, sempre a meio pau, preferiram não encarar seus atos, não educar por meio desses mortos, apenas desfazer-se de alguns milhares que os molestavam. Os militares renunciaram à ostentação da morte e desmoronaram na pequenez do furto, das pequenas trapaças medíocres.

O desaparecimento é a morte que não se responsabiliza por sua força educativa, legalizadora. O desaparecimento tenta uma espécie de colocação entre parênteses, ilusória no sentido de que todo morto deve ter seu lugar e sua função. Pesadelos e horrores sempre estiveram povoados de mortos errantes.

E nunca foram os mortos que enterraram seus mortos.

O desaparecimento criou ainda outros equívocos: naqueles dias os familiares - as mães - dos mortos não choravam por eles, mas rogavam por vivos atípicos, os "desaparecidos". Para pedir por eles, pedir aos carrascos que procurassem suas vítimas, precisaram mudar a identidade delas, a história. Não podiam dizer "viemos para saber de nossos filhos guerrilheiros". Tinham que dizer "viemos procurar uns bons rapazes, tão tranquilos...".

Assim foi se construindo uma visão da história. Em consequência dos desaparecidos, da inexistência desses mortos, por muito tempo os militantes assassinados não foram o que de fato haviam sido: rapazes e moças que escolheram um caminho na vida. A história não os registrou pelo que fizeram, mas pelo que foi feito com eles: sequestrados, assassinados, escamoteados, desaparecidos.

Para a história, eles não foram os sujeitos das próprias decisões, mas objeto das decisões - violentas, criminosas - de outros, de seus verdugos. Aqueles rapazes e moças perderam, com suas vidas, sua história. Suas mães, os bondosos, os que os amavam, com seus relatos voltaram a desaparecer com os desaparecidos. E também, de algum modo, demonizaram e despolitizaram os militares: como carrascos de bons rapazes inocentes já não eram soldados com o objetivo político de matar seus opositores, mas loucos e ávidos assassinos, perturbados. Assim, as razões verdadeiras de seus atos permaneceram, por muitos anos, nas sombras.

Durante décadas, a maioria dos argentinos aceitou, de algum modo, a decisão dos militares: preferiu não saber exatamente o que se passara. Por isso também todos aqueles jovens - suas histórias, suas vidas - continuaram ocultos sob o nome comum de "desaparecidos".

O tempo das lembranças é confuso; passaram-se mais de 20 anos até formar-se uma massa crítica - além dos desconhecidos de sempre - que procurou saber mais a respeito. Isso começou no final dos anos 1990 e agora, pouco a pouco, aqueles rapazes e moças vão recuperando suas identidades de jovens que não foram vítimas passivas, mas militantes, pessoas decididas. E isso tem gerado discussões, revisões, mesmo confrontos. Que não tornam as vítimas menos vítimas nem inocentam seus assassinos, mas lhes devolvem a sua história.

E assim, pouco a pouco, vamos deixando de chamá-los de desaparecidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


*MARTÍN CAPARRÓS É UM ESCRITOR ARGENTINO, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A QUEM DE DIREITO (COMPANHIA DAS LETRAS)




domingo, 26 de maio de 2013

Ciência ainda não sabe se o mundo terminará no céu ou no inferno


Nossa leitura especial de domingo traz a resenha de dois livros, digamos, "futurólogos", escrita por Helio Schwartsman num artigo pra lá de interessante publicado na Folha de S. Paulo de 19/05/13:

Por que o inferno é aqui, e o paraíso, também

RESUMO O estudo de sistemas complexos, tão caro à ciência atual, está na origem de dois livros que tecem prognósticos opostos sobre o futuro da humanidade. Enquanto para John Casti os avanços tecnológicos podem nos levar ao descontrole e ao fim, para Peter Diamandis e Steven Kotler, eles nos aproximam de uma era de abundância.

O fenômeno é o mesmo --a complexidade--, mas, para um autor, ela trará a redenção da humanidade, na forma de energia e recursos inesgotáveis, enquanto, para o outro, implicará o colapso geral da sociedade. Para tornar as coisas um pouco mais complexas, é perfeitamente razoável sustentar que ambos estão certos.

Se queremos tornar a discussão pelo menos inteligível, convém começar pelo começo.

Numa definição para lá de problemática, "complexidade" é o termo que usamos para caracterizar sistemas compostos por muitas partes, que interagem de diversas maneiras, produzindo resultados que vão além da soma de seus componentes e são frequentemente imprevisíveis. O estudo de sistemas complexos e seus parentes, como a teoria do caos, emergência, dinâmicas não lineares, auto-organização, comportamento coletivo, abordagens holísticas etc., é a nova coqueluche da ciência.

O problema com a complexidade, como já insinuei no parágrafo acima, é que, além de ser complicada, ela anda perigosamente perto da imprevisibilidade ou, pelo menos, de diferentes graus de opacidade em relação ao futuro.

Para tornar o conceito um pouco menos abstrato, vale recorrer a um exemplo concreto. Pense numa carroça. Ela não é muito complexa. Você olha para o boi, as rodas, o eixo etc. e entende mais ou menos o que faz cada parte. Se ela quebrar, você pelo menos sabe qual peça precisa ser reparada ou substituída. Considere agora um avião moderno. Ele é complexo. Nenhuma de suas partes voa, mas elas interagem de forma a que o aparelho possa fazê-lo. E nem pense em consertar em casa o seu Airbus.

A complexidade não se limita a engenhocas. Ela também está presente em fenômenos naturais, como a meteorologia, e, principalmente, humanos. Há poucas coisas mais complexas do que a economia, por exemplo. Nela, milhões de agentes fazendo a mesma coisa quase sempre produzem efeitos qualitativamente diferentes dos que geraria uma única pessoa agindo deste modo.

INFERNO

4 veículos com diferentes níveis de complexidade
Como a complexidade se relaciona à destruição ou à salvação da nossa espécie? Seguindo o modelo de Dante, comecemos pelo Inferno. Aqui, nosso guia não é o poeta Virgílio, mas o matemático John Casti, especializado em teoria dos sistemas, que já lecionou em Princeton e nas universidades do Arizona e de Nova York, autor de "O Colapso de Tudo" [trad. Ivo Korytowski e Bruno Alexander, Intrínseca, 352 págs., R$ 29]. O subtítulo da edição brasileira é ainda mais ameaçador: "Os Eventos Extremos que Podem Destruir a Civilização a Qualquer Momento".

A primeira parte da obra traz uma explicação razoavelmente didática da complexidade e apresenta a noção de eventos X, que são acontecimentos relativamente raros, muito difíceis de prever (senão quanto ao "o quê", pelo menos quanto ao "quando") e que causam enorme impacto para grande número de pessoas. Estamos falando de coisas no patamar do 11 de Setembro ou da crise de 2008.

Não pretendo chatear o leitor descrevendo as propriedades matemáticas da complexidade e como ela se relaciona com os teoremas da incompletude de Gödel, mas creio que vale a pena destacar alguns dos sete princípios elencados por Casti, já que eles nos ajudam a entender melhor com que bicho estamos lidando.

O primeiro, que leva o nome de emersão, é justamente o fato de o todo diferir da soma das partes, como é o caso do seu Airbus.

O segundo princípio a merecer algum detalhamento é o mundialmente famoso efeito borboleta, um emblema da teoria do caos. A história de sua descoberta já revela suas propriedades.

O matemático Edward Lorenz testava modelos meteorológicos nos primeiros computadores --era 1960. Em certa ocasião, resolveu projetar cálculos no futuro, mas se serviu de dados que tinha numa planilha impressa para alimentar a máquina, em lugar de refazer tudo desde o princípio. No fim, os resultados do modelo original não batiam com os das projeções.

A diferença, Lorenz perceberia, tinha origem prosaica: na primeira conta, os dados numéricos iam até a sexta casa decimal, enquanto nas projeções iam só até a terceira, devido ao limite da impressora.

A diferença entre a terceira e a sexta casa --digamos, a diferença entre os números 0,506127 e 0,506-- bastou para "produzir" climas totalmente distintos. Como ela era pequena demais para ser detectada pelos instrumentos meteorológicos existentes à época, Lorenz concluiu que teria sido possível que o bater de asas de uma gaivota provocasse, semanas mais tarde, um furacão do outro lado do mundo. A gaivota, para fins poéticos, virou borboleta, o que não mudou o conceito que diz que sistemas caóticos são patologicamente sensíveis a mudanças minúsculas no estado inicial.

O terceiro princípio que me parece mais relevante é a chamada lei da variedade necessária. Ela basicamente postula que, numa interação entre dois ou mais sistemas, aquele encarregado de exercer a regulação sobre o(s) outro(s) precisa ter pelo menos o mesmo nível de complexidade do(s) controlado(s). Se eles estão em patamares diferentes, é muito possível que sobrevenha um evento X para reequilibrar o jogo.

Um exemplo concreto é o do coletor de impostos. De um modo geral, ele conta com uma variedade de ações para cobrar que é muito menor do que as disponíveis para contadores, advogados e contribuintes evitarem o pagamento.

Como não é muito sábio conferir superpoderes a agentes públicos, a melhor forma de reduzir a diferença é diminuir a variedade de instrumentos ao alcance dos sonegadores. Isso se faz reduzindo a quantidade de leis, decretos, portarias e regimes de exceção (a complexidade) do sistema tributário.

TRAGÉDIAS

Deixemos, porém, as questões teóricas e passemos ao ponto alto do livro de Casti, que é o guia das tragédias prestes a nos atingir. São 11 capítulos que fazem a alegria dos pessimistas, mostrando tudo o que pode dar errado. Os títulos e/ou subtítulos das seções são autoexplicativos: apagão digital, o esgotamento do sistema global de alimentos, um pulso eletromagnético destrói todos os aparelhos eletrônicos, o colapso da globalização, destruição da Terra pela criação de partículas exóticas, a desestabilização do panorama nuclear, o fim do suprimento global de petróleo, uma pandemia global, falta de energia elétrica e de água potável, robôs inteligentes sobrepujam a humanidade, deflação global e o colapso dos mercados financeiros mundiais.

São precisos altos níveis de paranoia para levar muito a sério certos cenários descritos pelo autor, como aquele em que um colisor de partículas acaba criando um buraco negro que suga o nosso planeta para sabe-se lá onde, ainda que eles sejam teoricamente possíveis.

Mas mesmo um realista tranquilo tem de admitir que vários dos casos levantados são não apenas verossímeis como prováveis. Ainda que não na escala imaginada por Casti, vários países já foram atingidos por blecautes mais ou menos generalizados. O problema fundamental é que os avanços tecnológicos cada vez mais complexos dos quais nos tornamos dependentes nos tornam extremamente vulneráveis a falhas nos sistemas.

Pior: como os próprios sistemas tendem a integrar-se e tornar-se dependentes uns dos outros, nossa vulnerabilidade aumenta: muitos dias sem energia significam não só falta de luz, mas também de água (que é bombeada), alimentos (que precisam ser resfriados), comunicações etc. Os distúrbios podem ser raros, isto é, os sistemas são individualmente seguros, mas, se dermos tempo suficiente, é certeza que eles ocorrerão.

Phytophthora ramorum, a praga
Para dar uma ideia mais precisa de "colapso", vejamos mais de perto o que ele tem a dizer sobre a falta de comida que cedo ou tarde nos matará a todos. Casti começa o capítulo lembrando que existem pragas botânicas e cita o terrível fungo Phytophthora ramorum, que pode destruir florestas inteiras de árvores e pula de uma espécie para outra. Imagine agora uma mutação no Phytophthora que o torne capaz de infectar grãos e não apenas árvores, e os dias da humanidade estão contados.

Na sequência, ele se põe a analisar outras ameaças que pairam sobre as culturas vegetais, como a misteriosa morte das abelhas (que são agentes polinizadores), a escassez de água, a erosão dos solos, as mudanças climáticas, o aumento dos preços de petróleo e a maior produção de biocombustíveis, o crescimento da população. Nesse mundo, até uma boa notícia, como o enriquecimento de nações mais pobres (e o consequente crescimento da demanda), se torna um problema.

Antes de comprar seu jazigo no cemitério mais próximo, convém dar uma olhadela no outro lado da complexidade. Para nos servir de guia na viagem ao paraíso, escolhi não Beatriz, mas Peter Diamandis e Steven Kotler, autores de "Abundância - O Futuro É Melhor do que Você Imagina" [trad. Ivo Korytowski, HSM, 424 págs., R$ 69].

Diamandis é um milionário com formação em engenharia espacial, genética e medicina. Kotler é jornalista científico. Ambos são seguidores do futurólogo Ray Kurzweil e membros ativos da Singularity University (SU), o "think tank" que pretende promover tecnologias que revertam para o bem da humanidade.

Quem leu "Cândido", de Voltaire, deve se lembrar do dr. Pangloss, o personagem doentiamente otimista inspirado em Leibniz. Pegue o otimismo de Pangloss, eleve-o a uma potência bem grande e você chegará perto do que diz o pessoal da SU. Para eles, estamos prestes a entrar numa era de superabundância, na qual tecnologias tornarão itens essenciais tão baratos que todos os habitantes da Terra terão acesso a bens e serviços até há pouco ao alcance apenas dos muito, muito ricos. E tudo isso no horizonte de uma geração.

O motor de tamanho progresso é a complexidade, mais especificamente o caráter exponencial do desenvolvimento tecnológico. Vale a pena dedicar algumas linhas a explicar melhor esse conceito.

Não faz muito tempo, o mundo era um lugar linear. Um músico até o século 19, por exemplo, recebia pelo número de execuções que fosse capaz de fazer. Sua plateia era limitada ao número de assentos no local de exibição e, se ele queria um par de trocados a mais, tinha de fazer uma apresentação extra.

Vieram, porém, o fonógrafo, a indústria do entretenimento, os computadores e entramos num universo exponencial. Hoje, um músico pode ficar milionário compondo uma única peça que faça sucesso. A casa cheia do mundo exponencial já não se restringe ao número de cadeiras no teatro, mas aos milhões, talvez até bilhões de terrestres que se disponham a baixar a canção em seus iPods.

A contrapartida disso é que a vida ficou mais difícil para os profissionais que não tiram a sorte grande (a maioria deles). Antes, eles tinham uma espécie de reserva de mercado, que era dada pela proximidade física necessária para escutar os sons emitidos pelos instrumentos. Essa barreira foi rompida. O trompetista do bar de jazz perto da sua casa concorre com todos os trompetistas do mundo, cujas performances estão disponíveis na internet.

LEI DE MOORE

A tecnologia, muito mais do que os músicos, se beneficia desse caráter exponencial. A rapidez e a precisão do computador para fazer contas permitem a criação de programas mais sofisticados, que ajudam a produzir componentes mais eficientes, que melhoram a performance dos computadores, que... No final do processo, temos coisas como a Lei de Moore, segundo a qual os aparelhos dobram sua rapidez a cada 18 meses. E pelo mesmo preço.

Isso, é claro, tem impacto na vida das pessoas. Num exemplo citado pelos autores, hoje, um guerreiro massai com seu smartphone tem acesso a mais informações do que dispunha o presidente dos EUA apenas 15 anos atrás.

Para Diamandis e Kotler, revoluções semelhantes estão para acontecer no acesso a água, alimentos, energia, educação e saúde. No que é provavelmente o aspecto mais interessante do livro, a dupla descreve dezenas de pesquisas, algumas bem adiantadas, que poderão em breve mudar a face do mundo. São coisas como membranas que dessalinizam a água, carne (sem colesterol) sintetizada em tubos de ensaio, reatores nucleares portáteis (e seguros) e telefones celulares que realizam exames de sangue e fornecem diagnósticos de doenças a seus donos.

No ensino, eles preveem nada menos do que "educação praticamente gratuita e personalizada para qualquer um em qualquer lugar". Isso seria possível graças à convergência da "computação infinita com a inteligência artificial, a banda larga ubíqua e os tablets de baixo custo". Evidentemente, uma população muito mais instruída seria capaz de fazer a tecnologia avançar muito mais.

Num exemplo bem escatológico, Diamandis e Kotler falam da verba que a Fundação Bill e Melinda Gates disponibilizou para reinventar a privada. A ideia aqui é desenvolver tecnologias que permitam às pessoas ir ao banheiro sem gastar água nem precisar construir esgotos e, é claro, sem contaminar todos à sua volta.

Em teoria, é possível queimar a matéria fecal e produzir energia suficiente para transformar a urina em água potável e alguns poucos resíduos sólidos. Na verdade, como a queima das fezes expelidas por um ser humano típico dá um megajoule por dia, até sobraria um pouco de energia para carregar o seu celular. As tecnologias para isso já existem. O desafio é juntar tudo a um preço acessível.

Vale destacar aqui que o mentor Kurzweil vai além do que dizem os autores de "Abundância" e prevê para breve uma singularidade tecnológica, na qual o passo dos avanços seria "tão rápido que pareceria infinito". Isso culminaria na criação de uma superinteligência artificial, que nos permitiria manipular características humanas como o desempenho intelectual e sensorial, levando a uma era transumana. Evidentemente, aqui já nos afastamos do terreno das especulações inspiradas na ciência para nos aproximar perigosamente da religião em estado puro.

Quem tem razão? Casti ou a dupla Diamandis/Kotler? O colapso ou a singularidade?

Como destacamos no início do texto, ambos são consequências lógicas possíveis da maior complexidade tecnológica que trouxemos para nossas vidas. Excluídos os cenários mais catastróficos, que impliquem a extinção da humanidade, dificilmente poderemos cravar que um dos lados tenha triunfado.

A razão é que não há linha de chegada definida. Eventos X deverão se alternar com conquistas tecnológicas com potencial para transformar nossas vidas, condenando-nos a uma espécie de maldição de Cassandra, na qual as previsões mais otimistas serão desmentidas por acontecimentos trágicos, e visões muito pessimistas serão rechaçadas por avanços claros.

Por ora, Diamandis/Kotler estão com a vantagem. Para começar, nós ainda estamos aqui. De resto avanços científicos e tecnológicos respondem pelo fato de vivermos hoje mais e, em termos materiais, muito melhor do que nossos antepassados. A expectativa de vida ao nascer saltou de 26 anos na Idade do Bronze para quase 70 anos hoje, chegando a 80 nos países desenvolvidos. A captura de calorias passou de cerca de 2.000 por pessoa por dia, a alimentação mínima necessária para sobreviver, para perdulários 228 mil no Ocidente.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Melhor não contar a ninguém os seus objetivos até que eles se concretizem


Manja aquela ideia brilhante que você teve, mas não deu certo?

Pode ser que a principal dificuldade dela se concretizar foi o fato de que você tê-la "cacarejado" antes de colocá-la em prática.

Muitas vezes, as pessoas têm planos sensacionais, mas perdem tempo e motivação contando-os aos outros antes de trabalharem com afinco para que eles deem certo.

Resultado: dão com os burros n'água.

Portanto, quando você tiver aquele insight, aquela ideia luminosa sobre o que fazer da sua vida, seja em que área for, não conte com o ovo antes da galinha. Guarde-a para si e, antes de mais nada, mãos à obra para implementá-la.

É o que ensina Derek Silvers em mais uma miniconferência TED, no vídeo de 3 minutos com transcrição abaixo. Aprenda:



Todos vocês, por favor, pensem em seus maiores objetivos pessoais. De verdade. Levem um segundo. Vocês precisam sentir isso para aprender. Levem alguns segundos e pensem de seu maior objetivo pessoal. Pronto? Imaginem que estão decidindo agora mesmo que vocês vão realizar isso. Imaginem que vocês contarão a alguém hoje o que fazerão. Imaginem os elogios deles e a boa impressão que terão de vocês. Não é agradável falar disso em voz alta? Vocês não sentem que estão um passo mais próximos desde já, como se isso já se tornasse parte da identidade de vocês?

Pois bem, uma má notícia: vocês deveriam ter ficado de boca fechada, porque aquele sentimento agradável, o torna menos propício a alcançar seus objetivos. Repetidamente, testes psicológicos provaram que contar a alguém a sua meta faz que a realização dela se torne menos provável. Sempre que vocês têm uma meta, existem alguns passos que precisam ser tomados, alguns trabalhos que precisam ser feitos no sentido de realizá-la. Idealmente, vocês não deveriam sentir-se satisfeitos enquanto não tivessem feito o trabalho. Mas quando vocês contam a alguém a meta de vocês, e eles reconhecem isso, os psicólogos descobriram que isso se chama uma realidade social. É como se a mente fosse iludida a sentir que ela já está feita. E então, como vocês sentiram essa satisfação, vocês ficam menos motivados a fazer o trabalho duro que é realmente necesssário. Assim, isso contradiz a sabedoria convencional de que deveríamos contar nossas metas a nossos amigos, certo? -- então, vamos guardar isso conosco, isso mesmo.

Então, vamos olhar as evidências. 1926, Kurt Lewin, fundador da psicologia social, chamou isso de "substituição." 1922, Vera Mahler descobriu, quando alguma coisa era reconhecida pelos outros, ela parecia real na mente. 1982, Peter Gollwitzer escreveu um livro inteiro sobre isso, e em 2009, ele realizou alguns novos testes que foram publicados.

Foi assim: 163 pessoas através de quatro testes separados -- cada um escreveu sua meta pessoal. Metade deles anunciaram seus compromissos com as metas à sala, e metade não anunciou. Então eles tiveram 45 minutos para fazer um trabalho que os levaria diretamente à realização das metas deles, mas disseram a eles que poderiam parar a qualquer momento. Pois bem, aqueles que ficaram com as bocas fechadas trabalharam todos os 45 minutos, em média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que sentiam que tinham um longo caminho a percorrer até atingirem as metas deles. Mas aqueles que tinham anunciado largaram depois de apenas 33 minutos, na média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que se sentiam bem mais próximos de atingirem suas metas.

Então, se isso for verdade, o que podemos fazer? Bem, a gente poderia resistir à tentação de anunciarmos nossas metas. A gente pode retardar a gratificação que o reconhecimento social proporciona. E podemos entender que nossas mentes confundem o falar com o fazer. Mas se a gente precisa mesmo falar sobre alguma coisa, a gente pode falar de modo que não nos proporcione satisfação, algo como, "Eu realmente quero correr essa maratona, portanto preciso treinar cinco vezes por semana, e chutem meu traseiro se eu não fizer isso, certo?"

Portanto, pessoal, na próxima vez que vocês ficarem tentados a contarem suas metas a alguém, o que vocês vão dizer? Exatamente. Muito bem.

(Aplausos)



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Como seria o futuro 100 anos atrás

Você nunca se perguntou como as pessoas de (muito) antigamente imaginavam o mundo de hoje? Se bem que muitos filmes de ficção científica da década de 60 colocavam aqueles botões giratórios e analógicos nas naves espaciais, ou aqueles computadores gigantescos e cheios de luzes, não é mesmo? Abaixo estão alguns cartões postais do início do século XX, e os exercícios de futurologia dos curiosos de 100 anos atrás, imaginando como seria o mundo em janeiro de 2000:

1) balões e bicicletas para andar na água:


2) calçadas rolantes:


3) casa móvel por trem a vapor (imagine a fumaça):


4) uma espécie de televisão bem primitiva:


5) aparelhos voadores individuais:


6) máquina de controlar o clima:


7) hidrovia + ferrovia = locomotiva naval (?!!):


8) passeios subaquáticos:


9) cobertura para cidades:


10) balões para passear com a família:


11) férias de verão no Pólo Norte (por que não praia?):


12) Máquina de viligância com raio-X:



Fonte: Paleofuture

domingo, 24 de janeiro de 2010

O cristão do futuro

Karl Rahner (1904-1984) foi um teólogo católico alemão, um dos mais influentes do seu meio durante o Concílio Vaticano II e no século XX como um todo, que em 1965 publicou o livro “O Cristão do Futuro”, uma série de reflexões que fez sobre o resultado do concílio e suas expectativas para a Igreja e para os cristãos do futuro. 

Já no fim do livro, Rahner, mesmo não se reconhecendo como profeta, fez algumas previsões para o futuro da cristandade como ele vislumbrava naquela época, e é muito interessante reler este trecho, escrito em 1965, quando o mundo vivia o auge da guerra fria, o homem nem tinha chegado à lua, o computador dava seus primeiro passos (e sua versão pessoal só existia na ficção científica), os satélites começavam a ser utilizados, e Marshall MacLuhan lançaria seu livro sobre a ideia de uma “aldeia global” somente em 1968. 

Já em 1965, Rahner antevia um mundo integrado, com uma ideologia hegemônica, com poucas comunidades cristãs verdadeiramente significativas e ideologicamente independentes, em que não haveria nenhuma "vantagem terrena em ser cristão", bem ao contrário daqueles que hoje pregam que só se é cristão se houver algum benefício mundano envolvido.

Lá se vão 45 anos que o teólogo católico escreveu essas linhas, que mostram como ele estava à frente do seu tempo, e ainda que não se concorde com o seu posicionamento, faz-se necessário exercitar a nossa imaginação (por que não dizer “profecia”?) para ter um vislumbre da Igreja cristã daqui a algumas décadas, diante de tantos desafios que ela vem enfrentando hoje em dia. 

Afinal, o futuro para o Karl Rahner de 1965 é hoje, e não deixa de ser um excelente exercício mental (e espiritual) tentar imaginar como será a Igreja cristã de 2050 (se Jesus não tiver voltado antes).

Lembrando sempre, é claro, de Hebreus 3:13-14 (tradução NVI):

Pelo contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama "hoje", de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado, pois passamos a ser participantes de Cristo, desde que, de fato, nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípio.






A SITUAÇÃO DO CRISTÃO NO FUTURO

por Karl Rahner

Para promover o entendimento de algumas das características mais importantes deste decreto (visto que é impossível lidar com ele em sua inteireza, e visto que a maior parte dele já é familiar), talvez me deva ser permitido um pequeno experimento mental. Se for bem sucedido, estará tudo muito bem; se não, não tenho ninguém para responsabilizar senão a mim mesmo, e isso não é uma coisa ruim. Quero colocar-me na situação de um católico comum do futuro, particularmente o de um leigo, e perguntar o que especialmente o afeta neste documento. Não importa se a situação ocorrerá daqui a 20, 30 ou 100 anos. Não sou profeta, e se de fato estou tentando descrever essa situação de um católico futuro, com a pressuposição necessária do experimento, então a descrição não é uma profecia mas um sonho. Quer seja pesadelo, uma utopia feliz ou sem sentido, é uma questão que igualmente não precisa ser levantada.

Nesta data futura haverá comunidades católicas ou cristãs por todo o mundo, embora não distribuídas uniformemente. Por toda parte haverá um pequeno rebanho, porque a humanidade cresce mais rapidamente do que a cristandade e porque os homens não serão cristãos por costume e tradição, por causa das instituições e da história, ou por causa da homogeneidade de um ambiente social e opinião pública, mas – desconsiderando o zelo sagrado do exemplo paterno e a esfera íntima dos clãs, famílias e pequenos grupos – eles serão cristãos apenas por causa de seu próprio ato de fé, obtido numa luta difícil e continuamente reconquistado. Por toda parte, haverá diáspora. O estágio da história humana será uma unidade mais simples do que já é; todos serão vizinhos de todos, e a ação e a atitude de cada um contribuirá para determinar a situação histórica objetiva de todos. E “cada um” significa cada nação, civilização, realidade histórica e, proporcionalmente, cada indivíduo. Sem dúvida o campo da história universal será muito diferente em qualidade de lugar para lugar, com algumas partes em contradição, mas formará uma unidade na qual tudo interagirá historicamente. E visto que os cristãos formarão apenas uma minoria relativamente pequena, sem campo de existência histórica independente, eles, embora em graus variados, viverão na “diáspora dos gentios”. Em nenhuma parte haverá “nações católicas” que coloquem uma marca cristã sobre os homens antes de qualquer decisão pessoal. Por toda parte, os não cristãos e os anticristãos terão plenos e iguais direitos, e talvez possam pela ameaça e pressão contribuir para dar à sociedade seu caráter e até mesmo crescerem juntos em poder e jurisdições como sinais e manifestações do anticristo. E onde quer que, em nome da necessidade de educação e organização uniforme, o Estado ou talvez o futuro super-Estado estabeleça por imposição uma única ideologia, com todos os meios de pressão e formação modernas de enormes multidões de homens, não será uma filosofia cristã que será proclamada como ideologia oficial da sociedade. Os cristãos serão o pequeno rebanho do Evangelho, talvez respeitado, talvez perseguido, talvez dando testemunho da santa mensagem de seu Senhor com voz clara e respeitada no coro polifônico ou cacofônico do pluralismo ideológico, talvez apenas em uma voz baixa, de coração para coração. Eles estarão reunidos ao redor do altar, anunciando a morte do Senhor e confiando as trevas de sua própria sorte – uma escuridão de que ninguém será poupado mesmo no super-Estado de Bem-Estar do futuro – às trevas da morte de seu Senhor. Eles saberão que são como irmãos e irmãs um do outro, porque haverá poucos deles que não têm por sua própria decisão deliberada fixada em seu próprio coração e vida em Jesus, o Cristo, pois não haverá vantagem terrena em ser um cristão. Eles certamente preservarão fiel e incondicionalmente a estrutura de sua sagrada e não mundana comunidade de fé, esperança e amor, a Igreja, como é chamada, como Cristo a fundou. Eles certamente farão uso livre de tudo que o futuro lhes oferecer em termos de organização, comunicação de massa, tecnologia, etc.

A Igreja tem sido conduzida pelo Senhor da história para uma nova época. Ela dependerá em tudo da fé e do santo poder do coração, pois ela não será mais capaz de extrair alguma força, ou muito pouca, do que é puramente institucional, e que não mais sustentará o coração dos homens, mas a base de tudo que é institucional será o próprio coração dos homens. E assim, eles perceberão que são irmãos e irmãs, porque no edifício da Igreja cada um deles, quer ocupando o ofício, ou sem ofício, dependerá sempre do outro, e aqueles no ofício reverentemente receberão toda obediência dos outros como um maravilhoso dom livre e amoroso. Não será apenas o caso, mas também será claro e evidente ver que toda dignidade e todo ofício na Igreja é serviço não convencional, não levando consigo honra aos olhos do mundo, não tendo importância na sociedade secular. Mais aliviado de tal responsabilidade, talvez (quem sabe?) não mais constituirá uma profissão no sentido social e secular. A Igreja será um pequeno rebanho de irmãos da mesma fé, da mesma esperança e do mesmo amor. Ela não se orgulhará disso, e não pensará de si mesma como superior às épocas mais antigas da Igreja, mas obediente e agradecidamente aceitará sua própria época como a que é designada para ela por seu Senhor e por seu Espírito, e não meramente que é forçada a ela pelo mundo perverso.

(RAHNER, Karl. O Cristão do Futuro. São Paulo: Cristã Novo Século, 2004. pp. 78-81)

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