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quarta-feira, 10 de maio de 2017

O ovo ou a galinha


Não costumo ser pessimista, mas tudo indica que o pior ainda está por vir.

É que a crescente (e trágica) polarização político-ideológica no Brasil prenuncia uma espécie de estado de horror sem fim.

Gerações futuras (se houver) poderão estudar com mais rigor metodológico e responder cientificamente a dúvida cruel: foram as redes sociais que provocaram esta situação ou se ela seria produzida de qualquer maneira, independentemente da força atômica da internet, para o bem e para o mal.

O fato é que o advento das tecnologias modernas de comunicação deu vez e voz a uma legião de ódios e preconceitos que agora podem destilar livremente seu veneno no fluxo incontrolável de verdades alternativas e mentiras aleatórias que singram os mares do desconforto coletivo de não saber em quem e no que acreditar.

Talvez o fato que nos roube mais a esperança de algo bom no horizonte seja a nossa incapacidade de dialogar e conviver com o diferente.

Parece que ninguém percebeu (ainda) que não temos outra opção se quisermos viver todos juntos no mesmo país.

Por isso, é particularmente triste ver que amigos não conseguem se ouvir, que a única resposta possível para uns é a exclusão de plano, com a pré-desqualificação dos outros para o debate, e que não existe mais um mínimo de empatia para tão somente sentar-se à mesa, incluir e discutir o bem comum.

No fundo, os afetos e discursos envenenados matam tanto o ovo como a galinha, e nada consegue nascer de novo.

Acorda, Brasil, ainda há tempo!



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Guia para terminar uma amizade ruim


Artigo interessante publicado na VICE Brasil:

Como terminar uma amizade ruim

SIERRA BEIN

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá.

A primeira vez que terminei uma amizade foi na primeira série. Percebi que minha melhor amiga pedia mais de mim do que dava; ela também me julgava muito. Mesmo tendo só uns sete anos, eu sabia que ela tinha que ir. Naquela idade parecia fácil cortar pessoas da minha vida. Hoje, 15 anos depois, percebo como é difícil terminar com um melhor amigo. Agora, no meu último ano de faculdade, terminei como outra amiga. Ainda fico triste pensando como a gente era próxima. Terminar uma amizade é especialmente doloroso.

Seu namorado pode não saber o número real de pessoas com quem você transou — mas sua amiga sabe. Amigos são especiais, e eu diria que terminar com um amigo é tão traumático quanto terminar um relacionamento romântico. Términos de amizade modernos tendem a separar grupos de amigos; você ainda precisa lidar com a falta que a pessoa faz na sua vida; você a bloqueia nas redes sociais ou fica stalkeando na esperança de que dê merda na vida dela (geralmente não dá); e agora também tem que evitar os lugares que vocês frequentavam. As coisas podem dar errado muito fácil. Então falei com alguns terapeutas de relacionamento, para entender se existe um jeito de, sem drama, terminar com um BFF.

Passo 1: Reconheça que tem algo errado

Dá pra perceber quando é uma boa hora de acabar uma amizade. Talvez vocês não se falem tanto ou você se vê procurando desculpas para encontrar a pessoa no bar. Mas os sinais são bastante universais.

"Acho que um dos fatores mais comuns é uma falta de conexão, em qualquer nível. Pode ser sobre valores, prioridades, objetivos ou interesses", me disse Jenny Glozman, uma terapeuta de Toronto. Mas além disso, ela diz que expectativas diferentes, falta de confiança e falta de comunicação são razões que ela geralmente vê para amizades terminarem, incluindo um sentimento de que você está dando mais que recebe. ("Quantas rodadas você me deve mesmo?")

Allan Studd, outro terapeuta de Ottawa Valley, descobriu que saúde mental individual pode afetar amizades. "Coisas como depressão podem facilmente entrar em jogo", ele diz. "Depressão, estresse, ansiedade, todas essas coisas afetam um relacionamento e colocam pressão sobre a relação."

Quando chegamos à faixa dos 20 anos, mudamos e aprendemos mais sobre nós mesmos. Acontece tipo uma crise de um quarto de idade, você começa uma carreira, entra num relacionamento sério (ou não), então acaba tendo que matar amizades ruins pelo caminho.

Passo 2: Saiba quando acabou




Todo mundo que já assistiu algum tipo de comédia/drama adolescente sabe do poder das últimas palavras. Na verdade, quando está no ensino médio a maioria simplesmente manda uma mensagem abrupta e quando entra na universidade já deu um perdido completo. Quando quero terminar com amigos, quero sempre aquele término perfeitamente claro, mas aparentemente essa é uma das piores maneiras de terminar, segundo os terapeutas.

"Quando você apenas não fala com a pessoa e tenta tirar ela da sua cabeça, muitas vezes isso cria esse laço negativo contínuo entre vocês", diz Glozman. "Você vai se apegar a essa raiva e ressentimento, e isso nunca vai desaparecer." "Sugiro terminar sempre cara a cara e da maneira mais honesta possível", diz Studd. "O que significa dizer para a pessoa 'isso não está dando certo para mim' ou 'parece que não temos mais tanto em comum'."

Outro jeito menos dramático de terminar uma amizade é quando vocês se distanciam. Essa é uma separação mais neutra e ambas as partes tendem a ter responsabilidade: mudança de interesses, mudança de cidade, etc. "Quando mais próxima a amizade, mais esforço você deve colocar nela (desde que seja seguro fazer isso)", disse Ellis Nicolson, um psicoterapeuta de casais e famílias. "Ser transparente provavelmente não vai magoar a outra pessoa."

Então mesmo que você esteja inclinado a simplesmente sumir, considere o fato de que os especialistas dizem que é mais saudável fazer o oposto.

Passo 3: Beba, chore, sofra




Vinho vagabundo, sexo equivocado e um novo corte de cabelo geralmente são as opções preferidas dos jovens adultos depois de um término normal. Mas quando uma amizade acaba, você pensa em todas as conversas sérias que vocês tiveram, histórias vergonhosas e fotos constrangedoras que a outra pessoa ainda tem, sem falar nas piadas internas que você não pode mais usar. O pior é pensar nos amigos em comum. Você fica sem saber o que fazer e pensa: "Meus outros amigos estão do lado dela ou será que acham tudo isso bobagem?" Para entender os efeitos pós-emocionais de uma amizade que acaba, os especialistas fizeram referência aos cinco estágios da perda: negação, barganha, tristeza/depressão, raiva e aceitação.

"Vejo esses passou como uma espiral, você pula de um sentimento ao outro até completar o círculo, e com o tempo começa a experimentar o estágio da aceitação mais e mais", diz Glozman.

É nesses primeiros estágios que você começa a sentir todo tipo de emoção negativa contra a pessoa. É nessa época que começamos a culpar o outro por todo tipo de coisa imaginável. "Ela fez aquilo comigo. Eu nunca fiz nada de errado, como ela ousou?" E mesmo que pensar essas coisas (eu mesma tenho que admitir) seja satisfatório em algum grau, Glozman lembra que é importante pensar no seu papel no término.

"É nessa parte que você realmente aprende. Essa é a parte que você pode controlar para seguir adiante", ela diz.

"É uma rua de mão dupla. Sempre digo aos casais com quem trabalho que uma relação é meio a meio... Que cada parceiro tem 100% de responsabilidade na sua parte do relacionamento", diz Studd. "Em termos de terapia, eu cuidaria de uma amizade do mesmo jeito que cuidaria de um casal."

Em outras palavras, eu e você erramos em algum ponto do caminho, e não devemos ficar tristes o tempo todo.

Passo 4: Ver a pessoa de novo




Agora vem a parte desconfortável: vocês vão se encontrar de novo em algum momento. Pode ser numa festa, na escola ou no trabalho — pode ser na padaria, tanto faz, você entendeu onde quero chegar. Vai parecer que a pessoa está em todo lugar em certos momentos.

"Você precisa agir de um jeito que honre vocês duas, seja do jeito que for. Para alguns é ser superior, para outros pode ser uma tentativa de resolver questões que ficaram para trás, para outros é a distância", disse Nicolson.

Dito isso, meu melhor conselho é parar de desperdiçar tempo planejando o que você vai dizer, estilo série adolescente. Essa é sua chance de mostrar que você está bem! Você quase não reconheceu a pessoa! Você não perdeu o sono pensando nela, ouvindo suas músicas favoritas e chorando! Se a pessoa perguntar daquela camiseta que deixou com você, diga que doou por acidente — você se tornou uma pessoa muito melhor sem ela. Mas os terapeutas provavelmente vão discordar de mim nessa.

"Qual o propósito do plano? Qual o objetivo disso? Esse tipo de 'esquema de vingança', se você preferir — isso provavelmente é mais prejudicial do que basicamente ter um plano de segurança", diz Glozman. "Acho que é importante ter um plano de segurança na cabeça, porque isso faz você não ter medo da interação."

Passo 5: Superar




Consertar relacionamentos nunca foi uma prioridade para mim, mas todos os terapeutas com quem falei disseram que isso quase sempre é possível.

"Você pode lidar com muitas coisas no contexto de um relacionamento", diz Glozman. "Há meios de cura, só que dão trabalho. Temos que ter muita disposição para sentar com os sentimentos de outra pessoa e... nem sempre estamos dispostos a fazer isso."

"Seja claro sobre suas necessidades. Se a outra pessoa não responder a elas, então é hora de deixá-la para trás", acrescentou Nicolson.

Mais importante, os terapeutas aconselharam falar com alguém, ou procurar um terapeuta (humm, $$$) se você realmente precisar se abrir. "As pessoas sempre acham que tem que ser algo muito severo ou extremo para procurar ajuda psiquiátrica, e acho que, culturalmente falando, não contextualizamos o fim de uma amizade nesse nível. Mas você está certa, pode ser tão traumático quanto qualquer final de relacionamento, é só que não falarmos sobre isso dessa maneira, e portanto desencorajamos as pessoas a procurar ajuda."

Se a coisa for impossível de salvar mesmo, pelo menos faça algumas das coisas que faria no caso de qualquer perda na sua vida — tome sorvete, durma um monte, assista séries, tente fazer exercícios ou algo produtivo. Seja um pouco egoísta e faça algo por você.





quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Leandro Karnal disseca a amizade

O artigo foi publicado no Estadão em 28/08/16:

Porque era ele, porque era eu

Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso

João deitou a cabeça no peito de Jesus. Era a confiança absoluta no Mestre durante a última ceia. Poucas horas depois, o gesto era retribuído e magnificado: Jesus entregou-lhe a guarda da pessoa mais importante. “Filho, eis aí tua mãe”. A cena sob a Cruz mostra algo sublime: a amizade tornara João parte da família.

Amizades surgem entre pessoas que se admiram. A estreita relação entre os filósofos Montaigne e Étienne de la Boétie resulta numa das mais belas frases já escritas sobre este tipo de afeto. Nos seus ensaios, o nobre tenta explicar por que amava La Boétie. Só consegue dizer que a causa central era “porque era ele, porque era eu”. O autor dos Ensaios reconhece que, na especificidade absoluta do outro, está a chave da fusão elevada a que chamamos amizade.

A cabeça pendente de João e a afirmação de Montaigne mostram que a amizade encontra um campo além da razão: algo entre a fraternidade adotada e a entrega ao mistério da afinidade afetiva. Fraternidade adotada porque o amigo torna-se um irmão por desejo recíproco. O mistério da afinidade afetiva porque, diante do amigo, torno-me, de fato, quem sou. Não existe uma racionalidade que abarque isso. A amizade é uma epifania lenta.

Há pedras no caminho. Amigos também possuem egos e as circunstâncias, por vezes, sufocam tudo. Desde que se conheceram na Paris ocupada, Sartre e Camus perceberam uma atração afetiva imediata. Já admiravam a obra um do outro. Dois homens diferentes: Sartre, burguês e bem formado; Camus de família pobre e nascido na Argélia. Também havia o fato de que o parisiense se esforçava muito para agradar às mulheres, mas era feio como uma cólica. Camus era bonito, mas sem a lábia retórica do autor de A Náusea. Havia uma admiração recíproca e uma concorrência entre ambos. Sartre apoiou a URSS mais do que Camus gostaria e as conversas foram ficando ácidas. Numa carta endereçada à revista que Sartre dirigia (Les Temps Modernes), ocorreu o afastamento definitivo. Sartre respondeu no mesmo número com um texto muito duro, duvidando até da capacidade de compreensão filosófica do ex-amigo. A trágica morte de Camus impediu uma reaproximação. Sartre escreveu um lindo obituário. A morte vencera o ego.

Vaidades e disputas afastam amigos. Alguns afirmam que ex-amigos, de fato, nunca foram amigos de verdade.

Ocorrera algo similar no Brasil. Oswald de Andrade jogou sobre Mário de Andrade duas palavras que evisceravam os pontos mais dolorosos do autor de Macunaíma: chamou-o de “boneca de pixe”. Atacando Mário como mulato e homossexual, Oswald causou uma ferida que nunca cicatrizou. Amigos se aproximam do coração e, quando isto resulta em estocada, ela quase sempre é fatal. Amigos baixam a guarda uns para os outros e este setor não defendido, ao ser flechado, magoa como poucas coisas.

Talvez a amizade seja sempre um desafio. Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso. Os amigos nos conhecem e, para eles, as cenografias sociais são inúteis. Sim, nossos amigos nos amam, e nos conhecem, e nunca saberemos se nos amam por nos conhecer ou apesar de nos conhecer. Mas a entrega à amizade intensa é uma entrega a uma jornada de intimidade e apoio.

O olhar do amigo não tem a doçura absoluta do materno e escapa do tom acre e ressentido do inimigo. Assim, longe do mel estrutural e do fel defensivo, é um olhar de sinceridade. Para ter um amigo, preciso de condições específicas. Eu identificaria três fundamentais.

A primeira é a capacidade de se observar e continuar em frente. Uma conversa genuína com um amigo é uma dissecação anatômica da minha alma. Nem todos conseguem isso. Não é fácil atender ao preceito socrático: conhece a ti mesmo. Na minha experiência, conhecer aos outros é infinitamente mais fácil do que conhecer a si. Se os filósofos já garantiram que homens maus não possuem amigos, mas apenas cúmplices, eu acrescentaria que pessoas superficiais possuem apenas colegas e conhecidos, mesmo que os denominem amigos.

A segunda é o tempo. Não se criam amigos de um dia para o outro. Amigos demandam história, repertório de casos, vivências em conjunto. Amigos precisam viajar juntos. Assim, os afetos integram as vidas das respectivas famílias. Amigos acompanham nossos sucessos e fracassos amorosos, choram e riem com nossa biografia. Quem adicionei ontem na minha rede social é um fantasma, um fóton, jamais um amigo. Amigos precisam de cultivo constante. Todo amigo é, dialeticamente, um frágil bonsai e frondoso carvalho.

A terceira é o controle do próprio orgulho. A mais espaçosa dama da alma é a vaidade. Quando ela preenche o ambiente, sobram poucos assentos livres. Pessoas vaidosas são frágeis e temem a entrega da amizade. O amor é privilégio de maduros, dizia Carlos Drummond. Talvez a amizade também o seja. Talvez não seja apenas para maduros, mas, com certeza, é um privilégio. Encerro com o conselho sábio dado por um tolo. Polônio prescreve ao filho Laertes (peça Hamlet): “Os amigos que tens por verdadeiros, agarra-os a tu’alma em fios de aço; mas não procures distração ou festa com qualquer camarada sem critério”. O cortesão infeliz sintetiza tudo o que tentei escrever aqui. Já falou com seu amigo hoje? Um bom domingo a todos vocês!



domingo, 17 de janeiro de 2016

Confiança é a base da amizade (entre macacos)


Os resultados da curiosa pesquisa foram publicados no Estadão:

Amizade entre chimpanzés é baseada em confiança, dizem cientistas

GIOVANA GIRARDI

Cientistas partiram da noção de que confiança traz benefícios evolutivos quando a espécie depende pesadamente em cooperação entre os indivíduos

SÃO PAULO - Que chimpanzés fazem alianças e têm amigos, em comportamentos semelhantes aos humanos, é algo sabido já há bastante tempo pela ciência. Mas uma nova pesquisa mostra que esses relacionamentos são baseados em algo que se imaginava ser unicamente um traço do Homo sapiens: a confiança.

É o que diz uma dupla de pesquisadores em um estudo publicado nesta quinta-feira (14) na revista científica Current Biology.

Eles partiram da noção de que confiança traz benefícios evolutivos quando a espécie depende pesadamente em cooperação entre os indivíduos e imaginaram se esse seria o caso entre os animais mais próximos de nós na linha evolutiva – os chimpanzés.

A premissa é que confiança não é algo com o qual facilmente se possa contar porque envolve o risco de não-reciprocidade e de traição. Por exemplo, entregar a alguém uma quantidade de recursos, achando que vai receber algo em troca, e o outro simplesmente desaparecer com tudo. Por outro lado, quando dá certo, é algo que ajuda os indivíduos a prosperar juntos.

Foi isso que os pesquisadores Jan Engelmann e Esther Herrmann, do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, na Alemanha, investigaram com um grupo de 15 chimpanzés de um santuário para esses animais no Quênia.

A princípio, ao longo de um período de cinco meses, eles avaliaram como eram as interações sociais entre esses indivíduos. Com quem os animais, por exemplo, comiam juntos e em quem faziam “grooming” (uma espécie de “carinho” entre os chimpanzés, aquela coçadinha que um dá na cabeça do outro, catando piolho, etc). Dessa observação, os cientistas estabeleceram quais eram amigos e quais não.



Na sequência eles passaram por uma bateria de testes semelhante ao jogo de confiança feito entre humanos. De dois em dois, uma de cada lado de duas cordas ligadas a bandejas com comida, os chimpanzés eram colocados diante da escolha de puxar a “corda da confiança” ou a “corda da não confiança”.

Se o primeiro animal puxasse a corda da não confiança, ele imediatamente recebia uma porção de comida que ele não gosta muito. Mas se puxasse a outra, o outro animal receberia um alimento bem mais gostoso. Este, por sua vez, tinha a possibilidade de enviar uma parte dessa comida de volta para o outro. Nesta opção, os dois lados saiam ganhando, mas somente se o primeiro confiasse que o segundo lhe mandaria algo em retorno.

Cada animal participou do jogo repetidas vezes: 12 rodadas com um amigo e 12 rodadas com um não-amigo. E o resultado é que os chimpanzés demonstraram confiar muito mais no primeiro do que no segundo. “Eles foram significativamente mais propensos a voluntariamente colocar recursos à disposição dos parceiros, desse modo escolhendo uma opção arriscada, mas potencialmente de retorno mais alto, quando a interação era com um amigo, na comparação com um não-amigo”, escrevem os autores no artigo.

Se entre humanos amizade e confiança são sentimentos praticamente intrínsecos, o mesmo não se tinha certeza em relação a chimpanzés. “Na verdade nem mesmo a noção de que eles formam amizades é algo amplamente aceito entre cientistas”, disse Engelmann ao Estado. “Muitas pessoas ainda acreditam que só humanos são capazes disso. Por isso queríamos checar se fortes relações entre eles são baseadas em confiança. Muitos argumentam que interações cooperativas entre chimpanzés são devidas a intimidação ou dominação pela força. Nossos resultados sugerem, no entanto, que os chimpanzés se engajam numa cooperação baseada na confiança”, explicou o pesquisador.

No artigo, os autores escrevem que “os chimpanzés, assim como os humanos, desenvolveram formas robustas de confiança em relação aos seus parceiros sociais mais próximos, o que pode permitir que eles forjem relações de cooperação mesmo em contextos onde existem riscos de deserção por traidores”.

Ao Estado, ele afirmou ainda que pesquisas com outras espécies de primatas, como babuínos, por exemplo, mostrou que indivíduos que formam relações de longo prazo, como amizades, vivem mais, tem mais filhos e níveis de estresse mais baixos. “Então eu diria que confiar em algo e, desse modo formar relações duradouras, tem claros benefícios evolutivos.”



domingo, 11 de outubro de 2015

Encontrar seus amigos pessoalmente ajuda a combater a depressão


A matéria é do Brasil Post:

Encontrar amigos pessoalmente reduz risco de depressão

Pessoas que encontram amigos e familiares pessoalmente pelo menos três vezes por semana correm um risco menor de desenvolver depressão, em comparação com aqueles que mantêm apenas contato virtual. É o que diz um estudo publicado recentemente no periódico científico American Geriatrics Society.

Os pesquisadores, da Universidade do Michigan, nos Estados Unidos, acompanharam 11.000 adultos, com mais de 50 anos, ao longo de dois anos.

Os resultados mostraram que indivíduos que encontravam amigos e parentes apenas uma vez por semana tinham 11,5% de chance de ter sintomas de depressão após dois anos.

Em compensação, aqueles que encontravam os entes queridos pelo menos três vezes por semana corriam um risco de 6,5%.

De acordo com os autores, a regularidade e frequência do contato virtual, por telefone, e-mail ou redes sociais não afetaram o risco descoberto.

"Nós descobrimos que as formas de socialização não são iguais. Ligações ou comunicação digital com amigos e familiares não têm o mesmo poder das interações pessoais para ajudar a afastar o risco de depressão", afirmou Alan Teo, principal autor do estudo.

Apesar do contato pessoal reduzir o risco de depressão independente da idade do participante, os pesquisadores descobriram que pessoas entre 50 e 69 anos se beneficiam mais do contato com amigos, enquanto para aquelas com mais de 70 anos, o contato com crianças e familiares terá maior impacto.

"Outras pesquisas já haviam mostrado que fortes laços sociais fortalecem a saúde mental. Mas esse é o primeiro trabalho que analisa o papel de tipos específicos de comunicação como protetores da depressão", disse Teo.

Embora o estudo tenha sido realizado com pessoas com mais de 50 anos, os autores acreditam que os resultados beneficiam a população em geral. "O contato pessoal pode ser considerado medicina preventiva, assim como tomar vitaminas regularmente", ressaltou o autor, à revista americana Time.



domingo, 13 de setembro de 2015

Ler um livro pode turbinar os seus relacionamentos


A matéria é do Brasil Post:

Por que ler um livro faz bem para seus relacionamentos

Leigh Weingus

Boa notícia para todos vocês aí fora que gostam de ler: praticar a leitura por prazer traz muitos benefícios sociais, revela um estudo novo.

Uma sondagem realizada com 4.000 adultos no Reino Unido constatou que as pessoas que leem por prazer têm habilidades sociais melhores, comunicação melhor entre pais e filhos, índices mais baixos de depressão e demência e nível mais alto de bem-estar geral.

Por que será que passar um bom tempo a sós com um livro faz tanto bem a nossos relacionamentos?

“A prática da leitura nos leva a entender melhor nossa própria identidade e também pode nos ajudar em muito a nos relacionar com outras pessoas, entender a visão de mundo das outras pessoas e assim por diante”, diz a pesquisa do grupo britânico The Reading Agency, que promove a leitura. A informação é da BBC.

É claro que os benefícios de se perder em um livro vão muito além do que revelou a pesquisa mais recente. Um estudo de 2009 constatou que a leitura ajuda as pessoas a superar o estresse; outro estudo menor descobriu que as pessoas que leem na idade adulta mais avançada apresentam índice 32% mais baixo de declínio mental. E, se tudo isso não bastasse, ler livros também pode ajudar você a dormir melhor.

Ou seja, é hora de mergulhar fundo em um bom livro do tipo que você lê por prazer.



terça-feira, 7 de julho de 2015

Papa se encontra com padre Paquito no Equador

O encontro efetivamente aconteceu, conforme já prenunciava o Estadão em sua edição de ontem, 06/07/15:

Em Guayaquil, papa fará primeira missa no Equador e encontrará o "xará" Paquito

RODRIGO CAVALHEIRO

Francisco celebrará missa na capital econômica do Equador no começo da tarde desta segunda-feira antes de almoçar com vice-reitor do Colégio Javier, Francisco Cortés

QUITO - O padre espanhol Francisco Cortés tornou-se uma celebridade no Equador, depois de o papa Francisco repetir que uma das razões de sua viagem ao país era ver o "padre Paquito", apelido pelo qual o religioso equatoriano é conhecido em Guayaquil. Aos meios locais de imprensa, Paquito - apelido comum para o nome Francisco entre os hispânicos - disse que fará ao papa uma pergunta que o intriga. "Quero perguntar por que se lembrou de mim", disse ao jornal El Comercio, de Quito.

Paquito tem 91 anos e se orgulha de ter recebido saudações do papa enviadas por seis pessoas. Ele almoçará com o pontífice nesta segunda-feira, 6, depois da missa prevista para as 13h45 (horário de Brasília). O espanhol é o vice-reitor do Colégio Javier, na capital econômica equatoriana, no sul do país.

O papa argentino era o reitor do Colégio San José, no bairro de Flores, em Buenos Aires, quando escolheu em 1981 a sede equatoriana para seus alunos seminaristas prestarem serviço comunitário, obrigatório para a formação sacerdotal. O espanhol viu o amigo Jorge Bergoglio pela última vez em 1985, quando acompanhou na capital argentina a ordenação dos alunos que haviam passado por Guayaquil. Em 2013, quando Bergoglio escolheu o nome para o pontificado, ambos viraram "xarás".

Papa e avião. Durante o voo de Roma a Quito, no domingo, o Papa Francisco enviou telegramas ao rei da Espanha e aos presidentes dos países sobrevoados. No telegrama ao presidente português Aníbal Cavaco Silva, disse: "Ao sobrevoar Portugal numa visita pastoral que me leva ao equador, Bolívia e Paraguai, tenho o prazer de saudar Vossa Excelência formulando cordiais votos para sua pessoa e inteira Nação sobre a qual invoco benevolência divina para que seja consolidada nela a esperança e alegria de viver na harmonia e bem-estar de todos seus filhos. Francisco PP"

Papa e a tietagem. Nos estreitos corredores do avião da companhia Alitalia durante a viagem ao Equador, o papa Francisco voltou a mostrar simpatia e carisma brincando com os jornalistas que estavam no voo. Recebeu dezenas de presentes , abençoou fotos e até posou para os pedidos de "selfies". Após terminar o café da manhã - fruta, frios, queijo, doces e iogurte - Francisco, que viajou na parte dianteira da aeronave, foi ao fundo do avião onde era esperado por 75 jornalistas que o acompanham nesse retorno à América do Sul.

Francisco começou a cumprimentar um a um os jornalistas pelos estreitos corredores do Airbus A330, rodeado por câmeras de televisão, máquinas fotográficas, tablets e celulares. Quase todos queriam um registro ao lado do pontífice. Casa, ou melhor, América Latina, onde Francisco já esteve em julho de 2013, quando visitou o Brasil. Porém, no Equador, Bolívia e Paraguai o papa pode se expressar em espanhol, sua língua materna.

Como em qualquer audiência das quartas-feiras, os jornalistas repetiram os gestos dos fiéis na praça São Pedro. Trouxeram presentes e pediram "selfies" e bênçãos ao pontífice. Os mais emocionados eram os seis jornalistas dos países nos quais o papa passará: dois do Equador, dois da Bolívia e dois do Paraguai. Um dos equatorianos trouxe fotos de sua família para ser abençoada. Já uma boliviana o presenteou com uma das cruzes de madeira que o papa dará a bênção em Santa Cruz, durante a missa de abertura do Congresso Eucarístico na Praça do Cristo Redentor.

Francisco não hesitou em posar para uma "selfie" para a outra jornalista boliviana, que fez o pedido com muita vergonha, revelou o papa após o registro. Além disso, o pontífice brincou com os repórteres cinematográficos, que não podem largar as câmeras para cumprimentá-lo.

Francisco distribuiu até "bênçãos digitais" ao atender ao pedido de um jornalista que mostrou a foto de sua avó ao papa através de um celular. Aos que lhe perguntaram sobre o que ele esperava da dura viagem, a mais longa realizada até agora, o papa respondeu brincando: "Não ocorrerá nada, mascarei (a folha de) coca".

Francisco teve um pulmão retirado quando tinha 21 anos, razão pela qual havia preocupação com a reação de seu organismo à altitude de Quito, a 2,8 mil metros sobre o nível do mar. Ele ainda passará pelos 4 mil metros de altitude de El Alto, na Bolívia, onde chegará na quarta-feira.





domingo, 17 de maio de 2015

Turistas brasileiros são os que mais fazem amizades quando viajam

A informação é do Brasil Post:

Brasileiros são os que mais fazem amizades quando viajam, aponta pesquisa

Larissa Baltazar

Uma pesquisa feita com mais de 5.500 pessoas entre 16 e 65 anos de idade, de 13 países diferentes, revelou o que todo mundo já sabia: Brasileiros são ótimos em fazer amizades. Na verdade, são os melhores.

comendada pela rede de hotéis Mercure, o objetivo da pesquisa era calcular quais nacionalidades fazem mais amigos em viagens. O Brasil, com 84% dos entrevistados confirmando a tese, deixou a média mundial de 56% no chinelo.

Do outro lado do mundo, e também do ranking, no Japão apenas 11% confirmaram que fizeram novas amizades durante das viagens. A pesquisa ficou assim:

  1. Brasileiros - 84%
  2. Italianos- 73%
  3. Chineses- 71%
  4. Espanhóis- 63%
  5. Portugueses- 61%
  6. Polônia - 60%
  7. Australianos- 57%
  8. Belgas- 56%
  9. Alemães-54%
  10. Franceses- 46%
  11. Holandeses- 44%
  12. Britânicos- 44%
  13. Japoneses-11%


Outro destaque foi para as muitas formas que os brasileiros utilizam para manter contato com esses novos amigos: chamadas de voz, de vídeo, redes sociais, e-mails e todas as possíveis derivações são utilizadas acima da média em comparação aos outros países da lista.

E já que a ideia é fazer amizades, os brasileiros também se destacam por procurar amigos de amigos quando viajam. Com o segundo lugar no ranking, 67% dos brasileiros confirmam que já adotaram a medida, perdendo somente para os chineses com 77%.

A pesquisa indica que 52% dos entrevistados recorrem aos amigos dos amigos para ter dicas e conselhos práticos sobre a viagem, 44% para ter um contato local em caso de emergência e, em 39% dos casos, para ter alguém com quem sair.



quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

É melhor ter inimigos do que amigos que irritam


Matéria curiosa (com jeitão de que corresponde à verdade, cá entre nós) publicada na BBC Brasil:

'Amigos que odiamos' estressam mais que inimigos, diz estudo

David Robson

Uma pesquisa feita por psicólogos nos Estados Unidos revelou que as "relações ambivalentes" – amigos com quem costumamos ter uma relação de amor e ódio – podem ter um efeito mais nocivo na nossa saúde do que nossos inimigos.

Na língua inglesa existe até mesmo um termo para descrever esse tipo de pessoa: "frenemy" – uma combinação das palavras "friend" ("amigo") e "enemy" ("inimigo").

Segundo a psicóloga Julianne Holt-Lunstat, da Bringham Young University do Estado americano de Utah, metade das pessoas que conhecemos, em média, são pessoas com quem mantemos esse tipo de relação.

"É raro encontrar alguém que não possui pelo menos uma dessas relações", diz Holt-Lunstad.

Amizade e saúde

As relações que mantemos são importantes para nossa saúde. Cerca de 150 estudos diferentes analisados pela psicóloga mostraram que relações sociais saudáveis podem reduzir o risco de morte pela metade – o mesmo índice registrado por pessoas que param de fumar. Ser solitátio é quase duas vezes mais perigoso que ser obeso.

Amigos ajudam a reduzir os níveis de estresse, reduzindo a pressão sanguínea e riscos de infecção. Alguns males como distúrbios de sono estão ligados à falta de amizades.

Mas as amizades possuem diferentes graus. O famoso antropólogo Robin Dunbar, da universidade de Oxford, chegou a propor o "número de Dunbar": ele sustenta que cada pessoa só é capaz de manter 150 amizades com alguma profundidade.

"[Em suas relações com os outros] você está sempre lidando com vários interesses que concorrem entre si. O problema é neutralizar os estresses para permitir que o seu grupo social se mantenha coerente ao longo do tempo", diz Dunbar.

"Então é preciso agradar seus aliados, o que pode incluir alguns 'frenemies'. Você os tolera para conseguir administrar melhor os seus interesses."

Pesquisas

Mas estudos conduzidos em Utah mostram que tentar administrar relações com pessoas que "amamos e odiamos" pode trazer mais malefícios do que se pensa.

Em uma das pesquisas, cientistas mediram a pressão sanguínea de voluntários quando em contato com seus amigos. Como seria de prever, os amigos mais amados produziram pressões sanguíneas baixas nos voluntários; colegas de trabalho irritantes ou chefes ruins fizeram a pressão subir.

Mas a surpresa foi descobrir que a pressão atingiu seu ponto mais alto diante de um certo grupo de amigos – justamente os "frenemies".

Outras pesquisas posteriores confirmaram e ampliaram estes resultados.

"Mesmo quando a pessoa em questão está no quarto ao lado, a pressão aumenta, com maiores níveis de ansiedade. Só por causa da sensação de logo ter que lidar com a pessoa", diz Holt-Lunstad. Em alguns casos, bastava mostrar o nome da pessoa em uma tela para que o batimento cardíaco subisse.

O problema, segundo os cientistas, é que esses amigos de amor e ódio têm um impacto muito grande na vida das pessoas. Pequenos sinais do cotidiano que desencadeiem memórias deles são suficientes para castigar o corpo com sensações ruins.

Para Hold-Lunstad, é a falta de constância na relação que gera estresse.

"Há sempre uma incerteza [quando encontramos um 'frenemy']. Será que a pessoa veio para me ajudar ou para falar novamente de algo desagradável?"

O psicólogo Bert Uchino, que trabalhou na mesma pesquisa, diz que "frenemies" têm um impacto mais nocivo no nosso comportamento porque são pessoas que costumamos levar a sério e com quem nos importamos. Segundo ele, comentários maldosos feitos por inimigos nossos são mais fáceis de serem ignorados, já que não consideramos muito a opinião de quem não gostamos.

"Temos tendência a ficar ruminando conversas dolorosas [que tivemos com nossos 'frenemies'] por mais tempo", diz Uchino.


Estratégias

Por ora, todas as pesquisas feitas analisam apenas períodos curtos, mas os cientistas querem entender o efeito de longo prazo dessas relações na nossa saúde. Uchino está estudando o impacto das amizades no DNA para determinar se há consequências mais graves para a saúde, como a incidência de câncer.

O desafio para a maior parte das pessoas, segundo os psicólogos, é romper as relações com os "frenemies", já que muitos deles são amigos de longa data. Há também uma sensação de que se deve ter "grandeza" e manter relações mesmo com pessoas que não amamos totalmente.

Uchino conta que, pessoalmente, estuda duas estratégias para lidar com seus "amigos que odeia". Uma delas é expor mais os pontos de conflito na relação, na tentativa de reduzir a sensação de ambiguidade e incerteza. A outra é meditar sobre o papel de cada amigo na sua vida, o que segundo alguns estudos pode ajudar a reduzir o estresse nas relações.

No entanto, ele diz que esses estudos ainda não são cientificamente robustos o suficiente para serem levados a sério.



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O rolo compressor das eleições 2014 sobre as amizades

A frase de Winston Churchill é surrada, mas continua válida:"a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as outras".

Como não inventaram nada melhor até hoje, o jogo democrático deve ser jogado, mas existem regras mínimas para que a cordialidade e o respeito sempre vençam, apesar das inevitáveis escoriações.

Infelizmente, não foi isso o que vimos nas últimas semanas no Brasil.

As recentes eleições foram radicalizadas demais, e as redes sociais expuseram todas as facetas do que existe de pior na humanidade, da bravata ao discurso de ódio, passando pelas ofensas pessoais.

Pelo pouco que aprendi da observação desses meios eletrônicos de, digamos, "convivência", a super-exposição das redes sociais potencializa os nossos (muitos) defeitos enquanto minimiza as nossas (poucas) qualidades. Trata-se de um jogo de "perde-perde".

E foi nesse embalo que muitos amigos se perderam pelo caminho, muitas amizades foram derretidas no caldeirão das paixões políticas, e talvez seja chegado o momento de começar a pensar se valeu a pena e - tanto quanto possível - reparar os caminhos e reconstruir as pontes.

O artigo abaixo, de Mariana Tokarnia, com a colaboração de Pollyane Marques, publicado na Agência Brasil, pode ser um bom começo:

Debate sobre eleições nas redes sociais abala amizades

O intenso uso das redes sociais para expressar apoio político nestas eleições e o acirramento das tensões devido à proximidade do segundo turno, marcado para o próximo domingo (26), têm afetado amizades e relações familiares. Uma usuária do Twitter resumiu a situação em um post que lhe rendeu mais de 17 mil curtidas: "Gente, quem perdeu família ou amigos por causa dessa eleição vamos combinar de passar o Natal juntos".

Pesquisa Datafolha divulgada na última quarta-feira (22) mostrou aumento no índice de pessoas que disseram ter interesse nas eleições. Dos 4.355 entrevistados, 50% responderam que têm interesse no pleito. No fim de agosto, essa porcentagem era 39%. Esse crescimento também influencia no aumento da circulação de vídeos, textos e até mesmo ofensas nas redes sociais.

A gerente de comunicação digital Glaucimara Silva deixou de seguir e de visualizar publicações de várias amigos no Facebook. Em casos mais graves, em que houve preconceito ou discurso de ódio, ela desfez a amizade na rede social. "As pessoas se revelam muito nesse momento", diz. Ela acredita que, por estarem protegidas por um computador, "as pessoas se sentem mais à vontade para falar coisas que não falariam cara a cara".

Apesar de a maior parte das amizades desfeitas serem de amigos apenas de Facebook, Glaucimara chegou a se afastar de uma amizade na vida real. "Um amigo muito próximo parou totalmente de conversar comigo porque considerou que temos uma visão política muito diferente e por isso não temos mais nada em comum", conta.

A assessora de imprensa Juliana Carvalho decidiu encerrar as contas nas redes sociais até o fim das eleições. "Estava virando um ringue para mim, eu via as pessoas extremamente irritadas e xingando umas às outras."

Para o sociólogo e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Marcello Barra, a proporção a que chegaram as discussão nas redes sociais nestas eleições é algo inédito. "No grau que assume é realmente uma coisa que aparentemente é inedita e tem correlação imediata com a disputa [eleitoral], uma disputa muito acirrada."

Ele explica que as redes apresentam um grau de politização muito mais avançado diante de outros meios de comunicação, como a televisão ou o rádio. "Permitem não só a expressão de vários assuntos que vão além da política, como a política é tratada muito intensamente, discutida numa base diária. Isso é muito relevante para a democracia", destaca.

O mestre em direito pela UnB e ciberativista Paulo Rená também considera a discussão nas redes positiva, mas alerta para o discurso de ódio e para os crimes cometidos pelos usuários que, muitas vezes, saem ilesos a comentários racistas ou de preconceito regional.

"Acho importante que as pessoas entendam que não é porque estão na internet que o discurso de ódio está liberado. E isso não é nenhuma restrição à liberdade de expressão", diz. "Aquelas condutas inadequadas e eventualmente criminosas que eram feitas em ambientes privados, que eram feitas dentro de casa, agora passam a ocorrer também em ambientes públicos. Não tem nenhuma restrição para que esse comportamento inadequado seja punido aconteça ele na internet ou em qualquer lugar."

Rená orienta aqueles que se sentirem agredidos a, dependendo do nível da ofensa, procurarem uma delegacia de polícia e registrarem boletim de ocorrência ou recorrerem à Justiça. O Ministério Público também pode atuar no combate a discursos preconceituosos a determinados grupos.



sábado, 22 de março de 2014

Solidão acompanhada

Artigo perturbador de Sergio Augusto para o Estadão de 15/03/14:

Ciberescapismo

Viciados no Facebook, Twitter e serviços afins vivem como zumbis, almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão

À saída de uma sessão vespertina de Ela, uma senhora pergunta à amiga se aquilo que acabaram de ver poderia acontecer de verdade. "Sei lá", respondeu a outra, "mas quando acontecer, não estaremos mais aqui pra ver." Resposta sensata. Primeiro porque ninguém sabe ao certo se a tecnologia digital atingirá aquele grau de sofisticação mostrado no filme de Spike Jonze. Segundo porque as duas senhoras certamente há muito terão morrido quando os smartphones e computadores puderem oferecer um serviço de interação online como o do filme.

Aos que ainda não viram Ela e nada leram a respeito, resumo: é uma delicada, melancólica e inquietante comédia ciber-romântica na qual um recém-separado de carne e osso, Theodore (Joaquin Phoenix), apaixona-se pela voz e o jeito de falar de um sistema operacional chamado Samantha. Ela não é um autômato como os replicantes de Blade Runner e Gigolo Joe, o edipiano robô humanoide encarnado por Jude Law em A. I., Inteligência Artificial, mas um programa de computador que conversa e interage com o usuário, algo como uma extensão do aplicativo Siri, a assistente pessoal inteligente do iOS da Apple, só que "humanamente" inteligente e sensível. Além de sexy. Até um software vira um tesão com a voz de Scarlett Johansson.

Li em algum lugar que daqui a 30, 40 anos haverá um aplicativo como Samantha ao alcance de todos nós. Se for um quebra-galho full time e onipresente, uma super-Siri, com respostas e recomendações para tudo, beleza. Se uma vampe virtual, uma app-fatale capaz de virar a cabeça de clientes solitários e carentes como o Theodore de Ela, babau. Que não chegue a tal extremo a distopia da Singularidade (ou o momento hipotético em que a inteligência artificial irá superar a inteligência humana), até por ser grande o risco de a NSA, ciente da onisciência do aplicativo, com total acesso aos dados, e-mails e demais segredos de sua freguesia, transformá-lo numa Mata Hari. Como se já não bastassem as coletas de dados dos internautas repassados pelas plataformas de mídia social e aplicativos a empresas e anunciantes.

O filme se passa numa época indefinida, numa Los Angeles asséptica e high tech, com visual de Xangai (onde as externas foram rodadas), justo o oposto da Los Angeles de Blade Runner, que era uma versão degradada de Tóquio, com detalhes maias em sua regressiva arquitetura. Essa concepção de Xangai como protótipo da metrópole do futuro pode sugerir uma visão prospectiva menos sombria, menos pessimista, que a dos autores de Blade Runner, mas a perspectiva de um mundo onde seres humanos inteligentes e sensíveis como Theodore caiam de quatro por vozes movidas a algoritmos não deveria empolgar nem os mais fanáticos apologistas da cibercultura.

Se Samantha é um avatar avançado de Siri, Theodore em nada difere dos cibernautas do presente que vivem vicariamente num mundo à parte, como almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão. São zumbis, e não apenas usuários, das mídias sociais, viciados no Facebook, no Twitter e serviços afins. Diversos estudos recentes, e não tão recentes, sobre os efeitos negativos da convivência virtual revelam dados preocupantes. Conclusão unânime: quanto mais vazia nossa vida pessoal, maior a tendência para preenchê-la na realidade virtual. Quanto mais ocupados e ativos, menos nos deixamos seduzir pelo ciberescapismo.

Permanecer muito tempo nas redes sociais pode provocar insônia, ansiedade, estresse, distúrbios digestivos (revelação da última edição do Journal of Eating Disorders), anorexia, afetar a autoestima, incitar a inveja e o ciúme. A psicoterapeuta Sherri Campbell defende essa tese com ardor: "As mídias sociais nos dão um falso sentimento comunitário, uma falsa conectividade com o mundo e as pessoas. As trocas que nelas se processam são meros simulacros das relações interpessoais no mundo físico. Milhares de contatos, amigos, seguidores e curtições não valem o sucesso real, palpável, que podemos desfrutar no mundo real".

Apesar de ter um pezinho na autoajuda, Sherri Campbell fala com a autoridade de quem há tempos se dedica a pesquisar os motivos que levam as pessoas a sobrepor suas relações nas redes sociais às da realidade concreta.

Metade dos imoderados usuários do Facebook e do Twitter que ela entrevistou admitiu ter ficado, com o passar do tempo, mais ansiosa, frustrada e insatisfeita. Nas mídias sociais a vida dos outros parece perfeita e isso pode nos deixar complexados e deprimidos, ainda que o que os outros nos mostram seja apenas um instantâneo da realidade, eventualmente edulcorada, falsificada, "porque também produto de um complexo de inferioridade", acrescenta a psicoterapeuta, que, a exemplo de Christopher Carpenter, autor de Narcissism on Facebook (Narcisismo no Facebook), oferece duas alternativas aos acometidos de compulsão tecnológica: uma clínica de reabilitação (sem acesso à internet) e uma terapêutica reconexão ao mundo real, com frequentes tête-à-tête com amigos e parentes. Foi o que Theodore, o cibermissivista apaixonado de Ela, compulsoriamente fez.



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