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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Um novo amanhã, feliz 2016!


Dietrich Bonhoeffer escreveu o poema abaixo no Ano Novo de 1945, pouco antes de morrer executado por ordem de Hitler:

POR BONS PODERES

1. Por bons poderes fielmente cercado,
maravilhosamente protegido e consolado –
assim com vocês estes dias desejo passar
e com vocês também num novo ano entrar.

2. O antigo nosso coração ainda tortura
e o fardo de maus dias nos traz amargura.
Senhor, dá a nossas almas assustadas
a salvação para a qual foram criadas.

3. Se nos estendes o cálice pesado e amargo
do sofrimento, cheio até a borda,
nós o tomaremos gratos e sem tremor
das tuas mãos plenas de bondade e amor.

4. Mas se ainda quiseres dar-nos alegrias
com este mundo e o brilho dos seus dias,
então nos lembraremos do passado e
entregaremos nossa vida ao teu cuidado.

5. Faz com que chamejem as velas cálidas e claras,
que tu mesmo trouxeste para as nossas trevas.
Permite, se possível, que outra vez nos encontremos!
É a tua luz que brilha na noite, bem o sabemos.

6. Quando se espalhar profundo o silêncio,
faz com que ouçamos aquele som intenso
do mundo que invisível se estende ao nosso redor,
de todo o teu povo que a ti está rendendo louvor.

7. Por bons poderes maravilhosamente protegidos,
esperamos consolados o que nos será trazido.
Deus está conosco de noite e de manhã,
e com toda a certeza a cada novo amanhã.

Ano Novo/1945



domingo, 27 de dezembro de 2015

Mosteiros são oásis de fé e silêncio em São Paulo


Artigo de Edison Veiga no seu blog no Estadão:

Fé faz centenas buscarem 
clausura em mosteiros de SP

Casas religiosas já receberam papas e duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos: Madre Paulina e Frei Galvão

São oásis de tradição e tranquilidade dentro da barulhenta, caótica e estressante São Paulo. Dentro das várias casas religiosas que existem na capital paulista, no total, algumas poucas centenas de paulistanos vivem, em menor ou maior rigidez de clausura. As histórias delas são únicas – duas já receberam papas da Igreja Católica, João Paulo II e Bento XVI; duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos da Igreja Católica: Madre Paulina e Frei Galvão.

Desde 1598, sempre um monge badala um sino às 5h05 da manhã no centro de São Paulo. É o começo da rotina do Mosteiro de São Bento, instituição encravada no coração da cidade. O repique tem a função de despertar os outros 41 religiosos que vivem no claustro. Em 25 minutos eles devem estar a postos no altar da ainda fechada Basílica de Nossa Senhora da Assunção, onde irão entoar o Ofício Divino, primeira das cinco orações do gênero celebradas diariamente.

O dia a dia dos beneditinos segue as orientações contidas nos 73 capítulos da Regra de São Bento, conjunto de normas cuja autoria é atribuída ao santo católico que viveu entre os anos 480 e 550.

Os monges de São Bento têm liberdade para entrar e sair da clausura, desde que com consciência. “Não há uma pré-definição de tempo. O mosteiro é um complexo. A clausura é um espaço físico dentro do mosteiro. O importante é o equilíbrio. Em via de regra o monge deve ter consciência deste transito e movimentação que há no mosteiro”, explica o monge João Baptista. “Temos um colégio e uma faculdade aqui. Há um teatro com eventos diversos. A Igreja é uma das mais visitadas de São Paulo. Nosso mosteiro é bem diferente dos demais, por conta de todos este contexto. Há, portanto, o desafio com o silêncio dentro desta cidade barulhenta. Estamos no centrão de São Paulo – a maior cidade do país – ao lado das ruas 25 de março e Santa Ifigênia. Há o metrô que passa em baixo e diversos helicópteros que sobrevoam nosso céu. Temos todo um diálogo com esta cidade e com o povo que circula e nos procura em busca de palavras espirituais.”

Dentro do mosteiro, as funções internas são distribuídas de acordo com a vocação. “Cargos e funções vão desde o administrativo, sacristia, formação interna dos monges e aulas na faculdade e colégio, padaria, cozinha, biblioteca…”, enumera Baptista. “Os cargos são distribuídos conforme aptidão de cada um. Se entra alguém com outra formação no mosteiro, como da área da saúde, geralmente trabalhará na enfermaria cuidando dos irmãos mais idosos e doentes ou ações do tipo. Se é um advogado trabalhará na área jurídica e assim por diante.”

Um dos pontos altos da história de mais de 400 anos dos beneditinos em São Paulo foi a visita do papa Bento XVI – coincidentemente, um papa chamado Bento, como o fundador da ordem – a São Paulo, em 2007. Ocasião esta em que foram eles os anfitriões do sumo pontífice. O quarto onde ele ficou hospedado se tornou um memorial, preservado exatamente como naqueles dias.

Vinte e sete anos antes, em 1980, quando o papa João Paulo II foi o primeiro líder máximo da Igreja Católica a visitar São Paulo, a honraria coube a outra abadia beneditina que existe em São Paulo: o Mosteiro São Geraldo, fundado em 1950 por monges beneditinos húngaros na região do Morumbi. Os aposentos que hospedaram João Paulo II também foram mantidos como um pequeno museu – uma relíquia que muito orgulha os 17 monges que vivem ali.

Além de papas, instituições religiosas do tipo também se tornaram conhecidas por serem residências de personalidades católicas que depois se tornaram santas reconhecidas pelo Vaticano. É o caso da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, onde viveu a religiosa Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, canonizada em 2002. Fundadora da congregação, o quarto onde ela morreu é preservado como um memorial. Atualmente, a casa abriga 12 religiosas.

“Em nossa organização interna, temos os momentos comuns para orações, celebrações, refeições, estudos, lazer, atividades diversas, onde todas são evolvidas. No que se refere a missão específica, cada Irmã tem uma área de atuação: coordenação da Congregação, animação missionária, evangelização, administração, serviços domésticos, acompanhamento as unidades educativas, centros de hospitalidade, centros de terapias naturais, santuário, serviço de assistência social e as comunidades da Congregação.”, explica Rosacy Soares Costa, vice-coordenadora geral da instituição.

Ali não há uma clausura. “Temos sim nossa privacidade, mas vivemos em uma casa normal”, conta a religiosa. “Nosso contato com o mundo se dar de várias formas, nos diversos espaços onde realizamos nossa missão tanto interna quanto externa. Também participamos de eventos sociais, como teatro, cinema, celebração de aniversário e outros. Administramos o tempo, tendo em vista os momentos comuns e as atividades individuais por meio do planejamento mensal e cronograma para facilitar a vivência comunitária e a realização da missão.”

Já no Mosteiro da Luz, no bairro da Luz, casa fundada e construída por Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou santo em 2007, o silêncio e o isolamento são regra. As 14 religiosas que vivem ali só saem por três razões: saúde – consultas médicas e exames -, compras e um período de férias – geralmente 10 dias a cada dois anos. Mesmo assim, tudo somente sob autorização da abadessa e, geralmente, em duplas. “Também acabam sendo liberadas para participar de festas muito especiais da Igreja, como a procissão de Corpus Christi”, exemplifica o capelão do Mosteiro, padre José Arnaldo Juliano dos Santos.

E são pouquíssimas as pessoas, além das religiosas, que podem, eventualmente, entrar na clausura. “Autoridades religiosas, como o arcebispo, além do capelão e de um padre nomeado para auxiliá-las nas questões administrativas”, enumera padre Santos. “Outras pessoas, um médico por exemplo, apenas com autorização da abadessa.”

Mesmo o padre confessor das religiosas não entra ali. Elas são atendidas em uma sala chamada parlatório, onde ficam separadas do interlocutor por grades.

Natal. As monjas da Luz reforçam o momento de silêncio nos dias que antecedem as festas mais importantes da Igreja Católica, a Páscoa e o Natal. Elas costumam fazer um retiro por duas ou três semanas, com jejum e muita oração, como preparação para tais datas. “Elas têm uma espiritualidade própria, fruto da ordem monástica”, diz o capelão. A ordem, no caso, é a Imaculada Conceição – por isso elas são chamadas de monjas concepcionistas -, fundada na Europa pela Santa Beatriz da Silva (1424-1492).

No São Bento, o Natal é marcado pelas antífonas especiais, entre os dias 17 e 23. “São antífonas do Hino Evangélico do Magnificat, que sempre inicia com a exclamação ‘O’, louvando a realeza de Deus que irá nascer como homem”, afirma o monge João Baptista. “No dia 24, acontece a bênção de nosso presépio que fica exposto aos fiéis até o dia 6. A missa da noite é belíssima e muito concorrida, assim como a do Dia de Natal, às 10h.”

“Internamente temos nossa ceia só com os monges”, relata ele. “No dia 26 fazemos sempre uma confraternização. Ocasião em que todos podemos nos reunir.”

Por São Paulo, já passaram cinco santos

Ainda não há nenhum paulistano que tenha se tornado santo para a Igreja Católica. Mas alguns canonizados viveram ou pelo menos passaram pela cidade. É o caso do padre José de Anchieta (1534-1597), jesuíta espanhol que foi reconhecido como santo pelo Vaticano em 2014. Com outros religiosos, Anchieta subiu ao então Planalto de Piratininga em 1554 e, onde hoje é o Pátio do Colégio, fundou a vila que daria origem a São Paulo.

Outro muito ligado à capital foi Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou o primeiro santo nascido no Brasil. Em São Paulo, onde passou boa parte da vida, ele construiu o Mosteiro da Luz – em cuja igreja, aliás, está sepultado.

Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, nasceu na Itália mas veio para o Brasil com 10 anos. Em 1903, mudou-se para São Paulo, onde ficaria até o fim da vida, no bairro do Ipiranga, cuidando de crianças órfãs e ex-escravos abandonados.

A capital paulista também recebeu a visita dos santos Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), padre espanhol fundador do Opus Dei, em 1974; e do papa João Paulo II (1920-2005), em 1980.

São Paulo já recebeu dois papas

João Paulo II visitou a cidade em 1980, na primeira das três viagens que fez ao Brasil. E Bento XVI veio para São Paulo em 2007. Papa Francisco limitou sua primeira viagem ao País, em 2013, ao Rio de Janeiro e Aparecida.



domingo, 6 de setembro de 2015

É possível meditar caminhando...


Artigo publicado no Brasil Post:

Dicas práticas para transformar uma simples caminhada numa meditação completa

Amy Packham

Mindfulness - a arte de trazer toda a sua atenção para o momento presente - é uma forma de desenvolver a paz e a felicidade em nossas vidas, de acordo com Thich Nhat Hanh.

Hanh é líder espiritual e já publicou mais de 100 títulos sobre meditação e mindfulness, e o seu livro mais recente - Silence (Silêncio, em tradução livre) - foca em como permanecer em silêncio em um mundo barulhento.

No capítulo Mindfulness Means Reclaiming Attention (“Mindfulness Significa Recuperar a Atenção”) Hanh explica como praticar a meditação através de caminhadas, incentivando aqueles que não acreditam que consigam meditar e que na verdade é sim muito fácil.

Ele dá orientações sobre como se concentrar quando sua mente está cheia de pensamentos e também mostra como é possível meditar em qualquer lugar e a qualquer hora.

O seguinte trecho foi retirado do livro Silence de Thich Nhat Hanh:

Não-pensar é uma arte e, como qualquer arte, requer paciência e prática. Recuperar a atenção e manter a sua mente e o seu corpo juntos, mesmo que por dez respirações, pode ser muito difícil no começo.

Mas com prática contínua você pode recuperar a sua capacidade de estar presente e aprender a apenas ser. Encontrar alguns minutos no seu dia para sentar-se calmamente é a maneira mais fácil de começar a treinar e abandonar sua habitual forma de pensar.

Quando você se senta calmamente, você consegue observar como seus pensamentos vão surgindo acelerados e você pode praticar não ruminá-los e, em vez disso, deixá-los ir e vir concentrando-se na sua respiração e no silêncio interior.

Eu conheci uma mulher que decidiu que nunca meditaria porque "não dava certo".

Então eu a chamei para uma caminhada comigo.

Eu não chamaria de "caminhada de meditação", mas nós andamos lentamente com consciência, apreciando o ar e a sensação dos nossos pés no chão.

Quando voltamos os seus olhos estavam brilhantes e ela parecia revigorada e livre.

Se você puder tirar apenas alguns minutos para si mesmo e acalmar desta forma o seu corpo, seus sentimentos, suas percepções, a alegria torna-se possível.

Caminhar é uma ótima maneira de limpar a mente sem tentar limpar a mente. Você não diz: "Agora eu vou meditar!" ou ainda "Agora vou parar de pensar!" Você apenas anda e quando você está se concentrando na caminhada, a alegria e a atenção plena vêm naturalmente.

Para poder aproveitar bem os passos que você dá ao caminhar, permita que sua mente se esvazie completamente de planos ou preocupações. Você não precisa gastar muito tempo e esforço para se preparar em parar de pensar. Com uma inspiração você já parou.

Você respira e dá um passo.

Você pode dar um passo a cada inspiração e um a para cada expiração. Se a sua atenção divagar, gentilmente volte a se concentrar na respiração.

10 ou 20 segundos não é muito tempo. Um impulso nervoso, uma ação em potencial, precisa de apenas um milésimo de segundo. Se quiser você pode se dar ainda mais tempo. Nesse curto tempo você pode sentir a alegria, o prazer, a felicidade de parar.

Durante esse tempo de parada o seu corpo é capaz de curar a si mesmo. A sua mente também tem a capacidade de curar a si mesma. Não há nada, nem ninguém, para impedi-lo de continuar a sentir a alegria que você produziu com um segundo passo, uma segunda respiração.

Os seus passos e a sua respiração estão sempre lá para ajudá-lo a curar-se.

Ao caminhar é possível ver a sua mente sendo empurrada e puxada pelo velho e arraigado hábito de sentir a energia da raiva ou do desejo.

Quando você reconhecer isso, simplesmente sorria e dê a esse impulso um bom banho de atenção plena e de acolhedor e amplo silêncio.

O silêncio não significa apenas não falar.

Grande parte do barulho que ouvimos é a conversa agitada dentro da nossa própria mente. Pensamos e repensamos demais, em círculos.

É por isso que no início de cada refeição devemos nos lembrar de comer apenas a nossa comida e não os nossos pensamentos. Nós praticamos dar atenção plena ao ato de comer. Não há pensamentos; nós apenas focamos toda a nossa atenção para a comida e para as pessoas que estão próximas de nós.

Isso não significa que nunca devemos pensar ou reprimir nossos pensamentos. Significa apenas que ao caminhar nós nos damos o presente de pausar o nosso pensamento, mantendo a nossa atenção em nossa respiração e em nossos passos. 
Se realmente precisamos pensar em algo nós podemos parar de andar e pensar na questão dando a ela toda a nossa atenção.

Não falar, por si só, já pode nos trazer um grau significativo de paz. Se pudermos também oferecer a nós mesmos o silêncio mais profundo de não pensar, poderemos encontrar nesse silêncio uma maravilhosa leveza e liberdade.

Deslocar a atenção para longe dos nossos pensamentos e voltar para casa para o que está realmente acontecendo no presente, é uma prática básica de mindfulness.

Podemos fazer isso a qualquer momento, em qualquer lugar, e encontrarmos mais prazer na vida. Seja cozinhando, trabalhando, escovando os dentes, lavando as roupas ou comendo, nós podemos desfrutar desse silenciamento revigorante dos nossos pensamentos e de nosso discurso.

A verdadeira prática de mindfulness não requer estar sentado meditando nem observando formas exteriores de prática. Implica olhar profundamente e encontrar a calma interior. Se não pudermos fazer isso, não poderemos tratar as energias de violência, medo, covardia e ódio em nós.

Quando nossa mente está a mil e barulhenta, a calma externa é apenas uma pretensão. Mas quando podemos encontrar espaço e calma interior, em seguida, sem nenhum esforço irradiamos paz e alegria.

Nós temos a capacidade de ajudar os outros e criar um ambiente de cura ao nosso redor sem dizer uma única palavra.

Extraído do Silence de Thich Nhat Hanh

(Tradução: Simone Palma)



quarta-feira, 18 de março de 2015

Quando o silêncio é cúmplice


Vídeo produzido pelo governo da província de Ontario, no Canadá, intitulado "Who Will You Help?" ("Quem Você Vai Ajudar?"), que busca prevenir a violência contra as mulheres:




domingo, 10 de março de 2013

O som do silêncio

the sound of silence
"The Sound of Silence" ("O Som do Silêncio") é um clássico lançado em 1965 por Simon & Garfunkel que merece ser sempre revisitado.

Paul Simon e Art Garfunkel eram dois garotos de origem judaica que se encontraram aos 12 anos de idade numa escola do bairro em que moravam em Nova York, isto em 1953.

Desta junção de talentos, improvável para a pré-adolescência em qualquer tempo e circunstância, surgiu uma das duplas mais espetaculares e de maior sucesso na história da música popular, mais especificamente do gênero folk americano.

Felizmente, eles tiveram bom senso e preferiram utilizar seus nomes reais ao invés de perpetuar o Tom & Jerry, primeiro título da dupla. O mundo e o bom gosto agradecem.

Ao lado de vários outros clássicos, como "Bridge Over Troubled Waters", "Mrs. Robinson", "The Boxer" e "Homeward Bound", "The Sound of Silence" marcou uma época dourada do cancioneiro mundial, os gloriosos anos 60.

Curiosamente, a canção surgiu da influência de um fato histórico, o assassinato do presidente John F. Kennedy em 22 de novembro de 1963, mesclada com uma situação corriqueira: uma simples ida ao banheiro.

Paul Simon recorda que gostava de ir com o violão ao banheiro, para ali compor, por causa da reverberação do som nos azulejos das paredes.

No dia 19 de fevereiro de 1964, ao abrir a torneira, e ouvir o som da água caindo na pia, ele percebeu como aquilo quebrava o silêncio do recinto, e compôs os dois primeiros versos da canção:

Olá escuridão, minha velha amiga
Vim conversar com você de novo


Daí fluiu aos borbotões a maravilhosa letra que você pode conferir mais abaixo.

Claro que nem tudo foram flores na carreira de Simon & Garfunkel, sujeita às idas e vindas que caracterizam todo duo, trio, quarteto ou banda da história da música pop.

Entre chuvas e trovoadas, abaixo vão dois vídeos dos dois cantando "The Sound of Silence". O primeiro é do antológico concerto no Central Park de Nova York em 19 de setembro de 1981, e o segundo no Madison Square Garden (também em NY), em 29 de outubro de 2009, por ocasião do 25º aniversário do Hall da Fama do Rock.

Repare que 28 anos de intervalo entre as duas apresentações não foram capazes de afetar o entrosamento, a voz e a afinação dos dois talentos natos, apesar da óbvia (e inevitável) decadência física.

No fundo, mesmo com todas as escoriações causadas pelas décadas de concertos e celebridades, eles continuam sendo os mesmos garotos que um dia se encontraram numa escola pública qualquer.

Obrigado, Simon e Garfunkel, com sua simplicidade e genialidade musicais vocês nos entregaram um mundo muito melhor do que receberam.





The Sound Of Silence

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp

When my eyes were stabbed
By the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening

People writing songs
That voices never share
And no one dare
Disturb the sound of silence

"Fools" said I, "you do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach to you"
But my words like silent raindrops fell
And echoed in the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon God they made
And the sign flashed out it's warning
And the words that it was forming

And the sign said
"The words of the prophets
Are written on the subway walls
And tenement halls"
And whispered in the sound of silence


Tradução:


O Som do Silêncio

Olá escuridão, minha velha amiga
Vim conversar com você de novo
Porque uma visão um pouco arrepiante
Deixou sementes enquanto eu dormia
E a visão que foi plantada em meu cérebro
Ainda permanece dentro do som do silêncio

Em sonhos agitados eu caminhei só
Em ruas estreitas de paralelepípedos
Sob a luz das lampadas da rua
Levantei minha lapela para me proteger do frio e umidade

Quando meus olhos foram apunhalados
Pelo brilho de uma luz de néon
Que rachou a noite
E tocou o som do silêncio

E na luz nua eu vi
Dez mil pessoas, talvez mais
Pessoas conversando sem falar
Pessoas ouvindo sem escutar

Pessoas escrevendo canções
Que vozes jamais compartilharam
E ninguém ousava
Perturbar o som do silêncio

"Tolos" eu disse, "vocês não sabem
Silêncio é como um câncer que cresce
Ouçam as palavras que eu possa lhes ensinar
Tomem os braços que eu possa lhes estender"
Mas minhas palavras caíam como gotas silenciosas de chuva
E ecoavam no poço do silêncio

E as pessoas curvavam-se e rezavam
Ao Deus de néon que elas criaram
E a placa faiscou o seu aviso
Nas palavras que formava

E a placa dizia,
"As palavras dos profetas
Estão escritas nas paredes do metrô
E nos corredores das casas"
E sussurravam no som do silêncio




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 7



Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 6



O capítulo 7 é o mais longo de Eclesiastes, e talvez seja o mais belo e o mais injustiçado, já que muita atenção se dá a Eclesiastes 3 em detrimento da profundidade dos ensinamentos do Pregador em Eclesiastes 7. 

Para mim, este é o momento de sua pregação em que aquilo que parecia etéreo, excêntrico, digamos, "filosófico demais", começa a ter uma aplicação mais prática, mais "pé no chão". 

Assim, ele lista uma série de situações em que a nossa vaidade é despertada, em que nos sentimos importantes e especiais, como no caso de um ungüento precioso (7:1), o banquete na casa (7:2), a canção do insensato (7:5), e a cada uma dessas circunstâncias específicas em que a vaidade é realçada, o Pregador contrapõe outra situação em que a sabedoria verdadeira está sendo negligenciada. 

Temos, portanto, uma sabedoria prática, aplicada às cenas cotidianas que todos nós vivenciamos, e este é o momento em que o Pregador começa a dizer a que veio, e qual é sua real intenção.

Assim, a preocupação do primeiro versículo é com a reputação, com a "boa fama", a qual o Pregador considera melhor do que um perfume caro, o "ungüento precioso", o que não deixa de ser uma comparação bastante atual, já que muitas pessoas preferem camuflar a sua reputação atrás de perfumes e roupas caríssimas, como se elas tivessem o condão de modificar o que lhes vai por dentro. 

A estes Jesus chamaria de "sepulcros caiados" (Mateus 23:27), e alguns de nós poderiam usar o provérbio "por fora bela viola, por dentro pão bolorento". 

Na sabedoria prática de Qohélet, é melhor o dia da morte do que o do nascimento, porque a morte, sobretudo para o cristão, não deixa de ser um momento de redenção, uma tarefa cumprida, uma volta para casa, um encontro com a eternidade, enquanto o nascimento é apenas o começo de uma vida sujeita a todas as vaidades debaixo do sol. 

Neste diapasão, é melhor ir a um velório do que a um banquete (v. 2), pois diante da morte do outro (seja ele querido ou não) é que compartilhamos da humanidade que nos une, do destino comum a todos nós, e aí podemos refletir como estamos, de fato, levando a nossa própria vida. 

Afinal, só temos um vaguíssimo vislumbre da morte pela experiência dela pelo outro.  Curiosamente, nenhum de nós passará - em vida - pela experiência da morte, razão pela qual ninguém sabe exatamente o que seja o fim que a todos é reservado, e é nos velórios que somos lembrados de que ela existe e nos espera. 

Não que os banquetes não sejam bons, mas a comida e a bebida tendem a entorpecer os nossos verdadeiros objetivos nesta vida. E, ainda que não nos demos conta disso, as festas não deixam de ser - também - uma fuga da tomada de consciência da finitude que é inerente a todos nós

Ainda nesta lógica, digamos, esquisita, é melhor magoar-se do que rir (v. 3), permitindo-nos inferir que a mágoa (conforme traduzido na versão Atualizada), em geral, é conseqüência do conhecimento de algo ou de alguém que até então se apresentava (dissimuladamente) como verdadeiro e agora vemos que é falso, enquanto rir pode ser algo meramente inútil e inconsequente. 

Entretanto, "mágoa" talvez não seja a melhor tradução para a palavra hebraica כּעס (ka‛as). A NVI a traduz por "tristeza". As versões católicas são mais felizes ao captar o real significado do v. 3:


Mais vale o desgosto do que o riso,
pois pode-se ter a face triste e o coração alegre.
(Bíblia de Jerusalém)

É melhor sofrer do que rir,
pois dor por fora cura por dentro.
(Bíblia do Peregrino)

O sofrimento, o desgosto e a dor, se devidamente encarados, vividos, apreendidos e aprendidos, sem vitimização ou alarido, purificam e nos fazem crescer. É por isso que "o coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria" (v. 4). 

Repare que há uma palavra que não está escrita no capítulo 7 de Eclesiastes (ela só aparece uma vez em 9:17), mas que está diretamente relacionada ao, digamos, "ambiente" desse contexto de luto: o silêncio.

Saber silenciar-se numa hora de dor, mágoa e sofrimento, para - no tempo oportuno - se recompor, isto sim é uma arte que todos podem e devem aprender.

Embora a maioria das pessoas não goste, é melhor ser repreendido pelo sábio do que juntar-se à cantoria dos insensatos (v. 5), cujas gargalhadas se comparam a espinhos crepitando debaixo de uma panela (v. 6). 

Ora, o que mantém o fogo acesso são as achas de lenha e não os espinhos, que apenas crepitam, fazendo o efeito sonoro irritante que, além de disturbar o silêncio, é inútil para o cozinhar.

A seguir, o Pregador volta a um tema que lhe preocupa bastante durante todo o livro de Eclesiastes, a opressão, que chega a enlouquecer o sábio, e a corrupção dos subornos (v. 7). 

O mundo é corrupto, o sábio não se cansa de dizer, e ninguém está imune a se ver diante de uma situação que pode corrompê-lo ou em que ele pode corromper alguém.

"Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio" (v. 8), o que contraria, até certo ponto, o senso comum, de que o fim das coisas é sempre triste, mas Qohélet tem outros olhos para isso, pois vê as coisas de outra perspectiva, que é a eternidade, como já havia deixado claro em Eclesiastes 3:11. 

Nesse prisma, as coisas que realmente importam não têm princípio nem fim, pertencem a outra dimensão, a qual tocamos rapidamente em nossa passagem pelo planeta, mas neste mundo tudo é temporal e se desgasta naturalmente. 

Ele ainda encontra lugar para nos admoestar de que devemos ser tardios em irar-nos (v. 9), uma característica geralmente atribuída a Deus no Velho Testamento (Números 14:18; Salmos 103:8, 145:8; Joel 2:13, por exemplo) e que Tiago (1:19) nos aconselha a cultivar. 

Salomão já havia dito isso em Provérbios 19:11 – "a sabedoria do homem lhe dá paciência; sua glória é ignorar as ofensas" – NVI. Então, no v. 10, o Pregador dá um conselho que contraria ainda mais aquilo que estamos acostumados a pensar:


"Jamais digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Pois não é sábio perguntar assim."

No nosso mundo, a juventude é admirada, louvada, apreciada, benquista. O envelhecimento é tido como algo feio, sujo, ruim, malvado, que devemos evitar a todo custo, embora seja o curso natural (e inevitável) das nossas vidas. 

Por isso mesmo, nos cercamos de saudosismo e nostalgia. Ficamos a nos lembrar, morbidamente, de como éramos felizes e não sabíamos, de como o que passou tem mais valor do que o que estamos vivendo, de como o passado é melhor do que o presente. 

O Pregador se indigna com este tipo de pensamento, e eu acho que ele está certo. O envelhecimento, visto como amadurecimento, é uma bênção de Deus

Não podemos nos trancar no baú de recordações do passado, recusando-nos a envelhecer e, assim, nos esquecermos de que temos que viver o hoje, e hoje a nossa vida - devida e friamente considerada - é mais feliz e completa do que foi alguns ou muitos anos atrás. 

Não podemos nos esquecer, também, de que a memória é traiçoeira, e ela tende a apagar e relativizar os maus momentos e reforçar, adoçar, açucarar mesmo as boas lembranças. 

Qohélet se insurge contra esta atitude na vida, pois o que verdadeiramente importa é o hoje, o presente. Como eu já havia dito no primeiro capítulo, o Pregador é existencialista no melhor sentido da palavra, e o que lhe importa é o aqui e o agora, não o que passou. 

O elixir da juventude é a eternidade no nosso coração.

Nos vv. 11 e 12, o Pregador faz uma comparação interessante entre sabedoria e dinheiro. Pela primeira vez, ele diz que herança e dinheiro podem ser coisas boas, para aqueles que veem o sol, mas somente a sabedoria preserva a vida. 

Muitas vezes, tanto a herança como o dinheiro causam a morte de quem os recebe. A sabedoria é muito melhor. 

O v. 13 mostra a impotência do homem diante dos decretos de Deus, já que ninguém pode endireitar o que ele torceu. 

É no v. 14 que o Pregador retoma um dos pilares de seu discurso, a providência divina, pois Deus tanto faz o dia da prosperidade como o da adversidade. 

Os bons morrem, e muitos maus vivem bastante (v. 15), logo não há razão para imaginar que a providência de Deus seja uma lógica matemática. 

Somente Ele sabe os seus desígnios e, principalmente, o que se passa dentro de cada coração humano. Portanto, o equilíbrio deve ser buscado em tudo na vida. Todos os extremismos devem ser evitados. 

Não devemos ser demasiadamente justos nem exageradamente sábios (v. 16), mas também não podemos ser demasiadamente perversos ou loucos (v. 17). Estes dois versículos deviam ser mais lidos na igreja para evitar tanto o farisaísmo como a licenciosidade. 

É o equilíbrio que, por assim dizer, constitui o amálgama dos 4 pilares onde se sustenta Eclesiastes: a sabedoria, a providência divina, a eternidade e o temor de Deus, pois "quem teme a Deus de tudo isso sai ileso" (v. 18). 

No v. 20, está uma declaração que embasa também o pensamento de Paulo em Romanos 3:10, pois "não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque". 

Para quê, então, viver à espreita de quem possa estar cometendo um erro ou falando mal de nós (v. 21), se somos todos sujeitos aos mesmos pecados (v. 22)?


Ainda com relação a Eclesiastes 7:16-17, sobre não ser demasiadamente justo, a palavra hebraica traduzida por justo aí é צדּיק - tsaddîyq - que quer dizer basicamente justo, legal, correto, no sentido de algo que está de acordo com a lei. 

Eu acho que "justo" não é uma boa tradução, já que ninguém pode definir exatamente o que seja justiça. Aquilo que é justo para um pode ser injusto para outro. Além disso, há muitas leis injustas. 

Martinho Lutero, por sinal, seguindo seus primeiros ensinamentos de Direito antes da Teologia, vai por esta linha ao comentar Eclesiastes 7:16
É melhor ter paz e sossego, ainda que com desvantagem e direito menor, do que buscar com intranquilidade e desassossego interminável o direito mais exigente e rigoroso. De qualquer modo, até aí jamais chegaremos. Pois não é necessário que um bom atirador acerte sempre na baliza ou na mosca. Quem acerta bem próximo da mosca ou várias vezes no alvo também é bom atirador. Todos os grandes sábios e também a experiência confirmam que existem e diariamente vão surgindo muito mais litígios e casos do que se pudesse abranger com leis e direito. Por isso também dizem que a lei rigorosa é a maior injustiça, como também diz Salomão: "Não sejas demasiadamente justo, para não quebrares a cabeça".
(Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero, p. 624)
Então, parece que estão com a razão alguns comentaristas que dizem que deve se entender essa palavra por legal, legalista, que cumpre a lei ao pé da letra. Desta maneira, não devemos ser legalistas como os fariseus, por exemplo. 

Com relação ao "exageradamente sábio", o significado me parece que seja também de não querer ser o sabe-tudo, o dono da verdade, alguém que não só dita mas detém o monopólio da interpretação das regras como se fosse o próprio Deus. 

Além disso, bem no espírito de Eclesiastes, o Pregador quer que se viva a vida sem grandes obrigações de ser a mais certinha das pessoas. O lema dele é "viva por prazer e não por obrigação". 

Por "demasiadamente perverso ou louco", eu acho que o contexto indica que não devemos ser alucinadamente materialistas, ou seja, que vivamos única e exclusivamente em função de aumentar o nosso prazer material, esquecendo-nos do espiritual e dos pequenos prazeres da vida. 

E entenda-se por "prazer material" aí tanto os excessos carnais como tudo aquilo que desrespeita, rouba, fere e mata os outros, apenas para que consigamos atingir os nossos objetivos mundanos pisando neles. 

É na mescla de todas essas qualidades que o sábio sugere que devemos encontrar o equilíbrio na vida.

Como o Pregador já havia dito logo no começo (1:8), muito conhecimento é enfado. Logo, perseguir a sabedoria apenas por perseguir também é vaidade, pois ela sempre se afasta de nós (v. 23). 

Quanto mais sábios ficamos, menos sabemos, o que lembra a frase atribuída a Sócrates: "só sei que nada sei!". Ser sábio é ter consciência das próprias limitações e a elas se acomodar. 

Isto também tem uma aplicação prática e corriqueira. Por que se preocupar tanto em saber, com minúcias, o que acontece com certa pessoa ou situação? Qual benefício advém de focar a vida unicamente em algo ou alguém?

Querer saber demais nos põe em contato com a perversidade, a insensatez e a loucura (v. 25). Talvez por isso Deus tenha dito a Moisés que "as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus" (Deuteronômio 29:29) e Jesus tenha dito aos discípulos: "ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora" (João 16:12). 

Por fim, Qohélet faz um ataque aparentemente genérico às mulheres no v. 26, mas que deve ser entendido como uma autocrítica de Salomão a respeito de suas mulheres, o momento de introspecção de alguém que tinha 700 mulheres e 300 concubinas, "que lhe perverteram o coração" (1 Reis 11:3). 

As mulheres não devem se sentir desprestigiadas por esse trecho final do capítulo 7, mas há que entender a amargura de um homem poderoso que, no fim da vida, se viu "metido em muitas astúcias" (v. 29) que ele próprio causou.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 8






quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Meditação ou tortura?


Matéria publicada ontem, 01/01/13, na Folha de S. Paulo, mostra que a busca da paz interior mediante o silêncio - às vezes - pode mais se parecer com tortura autoimposta.

Pelo menos a ideia que a jornalista da Folha passa é a de que a busca da divindade externa ou internamente (como prega o budismo) pode - eventualmente - ser confundida com autopunição.

Cá entre nós, não é pra qualquer um...





LAURA CAPRIGLIONE

Viver de esmola em absoluto silêncio, em total disciplina, meditando em posição de lótus durante 12 das 24 horas do dia, sem qualquer contato físico com outra pessoa, em respeito a todos os seres --inclusive baratas, escorpiões, cobras e sapos!--, lavando sua própria roupa, seus pratos, arrumando sua cama.

Sem poder ler, sem poder escrever, sem usar um tocador de mp3 ou CD, sem computador, iPad, e-mail, Facebook. Sem telefone.

A Folha participou do Curso de Meditação Vipassana, um retiro espiritual de dez dias. Baseado em tradição de 2.500 anos, o Vipassana, diz o site, deriva de ensinamentos deixados pelo próprio Buda, transmitidos de geração em geração até hoje.

Dez dias sem saber se o Corinthians sagrou-se campeão mundial de clubes, se o José Dirceu foi preso, se a mãe comprou seu presente de Natal, se o mundo acabou como previram os maias. Dez dias para viver como um monge ou uma monja, praticando os ensinamentos de Buda.

Atrás da promessa da "erradicação das impurezas mentais, da suprema felicidade e da erradicação essencial do sofrimento" (é pouco?), 60 homens e 60 mulheres aterrissaram no dia 12 de dezembro na fazenda Dhamma Santi, área rural de Miguel Pereira (120 km do Rio).

Foram todos logo orientados a deixar objetos de valor (dinheiro, documentos, celulares e câmeras) na portaria.

Quem imaginava um spa de extração orientalista para relaxar em meio a nuvens de incenso, relicários de Buda e bandeiras de oração coloridas ao vento, à moda tibetana, tomou o primeiro susto.

Zero incenso, zero imagem de Buda, zero bandeira colorida. E zero pagamento (os organizadores só aceitam doações, em qualquer valor, de quem passar dez dias lá).

As paredes de tijolo aparente não contêm um só adereço. Das lindas trilhas abertas nas montanhas recobertas de mata atlântica só podem ser percorridos menos de cem metros que separam os dormitórios do salão de meditação e do refeitório. O restante está interditado por placas que avisam: "Limite". Dali não se passa.

É claro que fumar não pode, como também não pode beber, usar calmantes "ou qualquer tipo de intoxicante". Então, fica-se assim: das 24 horas do dia, 12 horas serão dedicadas à meditação e 12 horas servirão para dormir, alimentar-se, descansar, cuidar da higiene.

"Não tem milagre ou mágica. Não adianta focalizar a mente em uma imagem, em uma cor, em um som" [refere-se àquele "ommmm" pronunciado com os olhos fechados], avisa o professor birmanês Satya Narayan Goenka, 88, principal mestre de Vipassana hoje em atividade.

A voz de Goenka gravada em CDs é a única que se ouve no curso. Ele canta, recita ensinamentos em páli (a língua falada no norte da Índia no tempo de Buda), explica em inglês (tudo com tradução).

A ideia da meditação Vipassana é transformar a mente em um scanner que percorre cada parte do corpo, localizando as sensações agradáveis, desagradáveis, fortes e tênues que se manifestam. Então, usando de "equanimidade" (sem avidez ou aversão), vê-se como elas, impermanentes, efêmeras e mutáveis ("Anicca", em páli), dissolvem-se por si mesmas.

Segundo Goenka, "o autoconhecimento baseado na observação resulta numa mente em equilíbrio, cheia de amor e compaixão".

Mas haja força de vontade. Nos dois primeiros dias, é o próprio Goenka quem avisa: "A coluna dói, a cabeça dói (muito), pensa-se em desistir". Tem mais: o tempo não passa, a claustrofobia pega, a chuvarada deixa o retiro às escuras durante dois dias, aparecem pelo menos três sapos, uma cobra coral (megavenenosa), duas baratas, um escorpião e um caramujo, fora os pernilongos.

Duas mulheres não aguentam e "fogem", depois de crises de choro (há testemunhas), dores nas costas (nem precisa) e talvez fome.

A reportagem da Folha emagreceu 3,5 kg nos dez dias de saborosa alimentação vegetariana. Ainda não sabe se está com a mente mais equilibrada, "cheia de amor e compaixão".





LAURA CAPRIGLIONE

A decretação do fim do "nobre silêncio", no último dia do Curso de Meditação Vipassana, encheu de blá-blá-blá, sorrisos e histórias as instalações sóbrias do retiro.

Logo se soube que o sapo do banheiro, um anfíbio safado que parecia se divertir assustando as moças que iam tomar uma ducha, foi removido de lá corajosamente pela meditadora Claudete Sarapu, professora de Santo André. Ela o pegou usando um pano de chão como luva.

Ou que a consultora de sustentabilidade Gabrielle Lopez, 26, uma experiente frequentadora de retiros (já fez em Bali e na Costa Rica), a partir do sétimo dia não conseguiu mais acompanhar as meditações, o pensamento vagando disperso. "E por que você ficou?", quis saber a reportagem. "Tinha esperança de que melhorasse", afirmou.

O "nobre silêncio" não se limita a um "cala a boca". Significa "abster-se totalmente da comunicação com outros, verbal ou física, mesmo que por intermédio de gestos ou olhares", em busca do "silêncio mental". Pesa.

Durante toda a vigência desse silêncio em sentido amplo, ninguém sorriu para ninguém. Acabou também a gentileza, que exige interação entre viventes.

Noite fechada, sem luz (a chuvarada havia derrubado a rede elétrica), quem tinha lanterna fez facilmente o percurso entre os dormitórios e a sala de meditação. A quem não tinha, restou torcer para não pisar em uma cobra. Ninguém ofereceu ou pediu carona no facho de luz.

A mesma coisa aconteceu com os portadores de guarda-chuvas. Quem tinha, tinha. Quem não tinha, tivesse. Muitos chegaram à meditação pingando.

Nada favorecia a interação. No refeitório, as pessoas sentavam-se como se fosse em bancos de igreja. Todos voltados para o mesmo lado, de modo que ninguém se encarasse.

Mas o "nobre silêncio" acabou também com a histeria coletiva. Incrivelmente, a aparição de baratas, escorpiões, sapos e cobras não ocasionou um tsunami de gritos.

Na verdade, nenhum grito se ouviu, nem mesmo quando uma barata cismou de voar sobre as meditadoras concentradíssimas. Seria esse o caminho da iluminação?

Em absoluto silêncio, uma jovem levantou-se calmamente e pegou o chamado "kit salva inseto", que consiste em uma vasilha de plástico transparente e uma cartolina.

A vasilha, emborcada, imobilizou a barata, impedindo-lhe a fuga. Então, a cartolina foi enfiada por baixo. E levou-se a barata aprisionada para um matinho, onde ela foi de novo libertada.

Fiel ao princípio budista de respeito a todos os seres, ali não se matam animais --nem os peçonhentos.

Entre as mulheres houve aquelas que, exasperadas pela disciplina rígida, levaram ao extremo o que era possível. Já que era possível lavar roupas, lavava-se roupas todos os minutos de descanso. Esfrega aqui, torce ali, pendura no varal. E de novo, de novo.

Também podia-se limpar o banheiro, então limpava-se o banheiro compulsivamente. Ou varria-se o quarto. E a varanda. Os dias duram muito --demais-- quando não se pode falar, assistir à televisão ou passear na internet.

O professor Goenka prometeu em várias de suas palestras (sempre ministradas à noite) que o final do curso viria acompanhado por semblantes felizes, típicos de pessoas maravilhadas com as possibilidades abertas pelos ensinamentos recém-adquiridos.

De fato, no final, mesmo todos sendo obrigados a fazer uma faxina final nas instalações, os semblantes estavam exultantes. Havia felicidade no ar.



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