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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Leandro Karnal disseca a amizade

O artigo foi publicado no Estadão em 28/08/16:

Porque era ele, porque era eu

Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso

João deitou a cabeça no peito de Jesus. Era a confiança absoluta no Mestre durante a última ceia. Poucas horas depois, o gesto era retribuído e magnificado: Jesus entregou-lhe a guarda da pessoa mais importante. “Filho, eis aí tua mãe”. A cena sob a Cruz mostra algo sublime: a amizade tornara João parte da família.

Amizades surgem entre pessoas que se admiram. A estreita relação entre os filósofos Montaigne e Étienne de la Boétie resulta numa das mais belas frases já escritas sobre este tipo de afeto. Nos seus ensaios, o nobre tenta explicar por que amava La Boétie. Só consegue dizer que a causa central era “porque era ele, porque era eu”. O autor dos Ensaios reconhece que, na especificidade absoluta do outro, está a chave da fusão elevada a que chamamos amizade.

A cabeça pendente de João e a afirmação de Montaigne mostram que a amizade encontra um campo além da razão: algo entre a fraternidade adotada e a entrega ao mistério da afinidade afetiva. Fraternidade adotada porque o amigo torna-se um irmão por desejo recíproco. O mistério da afinidade afetiva porque, diante do amigo, torno-me, de fato, quem sou. Não existe uma racionalidade que abarque isso. A amizade é uma epifania lenta.

Há pedras no caminho. Amigos também possuem egos e as circunstâncias, por vezes, sufocam tudo. Desde que se conheceram na Paris ocupada, Sartre e Camus perceberam uma atração afetiva imediata. Já admiravam a obra um do outro. Dois homens diferentes: Sartre, burguês e bem formado; Camus de família pobre e nascido na Argélia. Também havia o fato de que o parisiense se esforçava muito para agradar às mulheres, mas era feio como uma cólica. Camus era bonito, mas sem a lábia retórica do autor de A Náusea. Havia uma admiração recíproca e uma concorrência entre ambos. Sartre apoiou a URSS mais do que Camus gostaria e as conversas foram ficando ácidas. Numa carta endereçada à revista que Sartre dirigia (Les Temps Modernes), ocorreu o afastamento definitivo. Sartre respondeu no mesmo número com um texto muito duro, duvidando até da capacidade de compreensão filosófica do ex-amigo. A trágica morte de Camus impediu uma reaproximação. Sartre escreveu um lindo obituário. A morte vencera o ego.

Vaidades e disputas afastam amigos. Alguns afirmam que ex-amigos, de fato, nunca foram amigos de verdade.

Ocorrera algo similar no Brasil. Oswald de Andrade jogou sobre Mário de Andrade duas palavras que evisceravam os pontos mais dolorosos do autor de Macunaíma: chamou-o de “boneca de pixe”. Atacando Mário como mulato e homossexual, Oswald causou uma ferida que nunca cicatrizou. Amigos se aproximam do coração e, quando isto resulta em estocada, ela quase sempre é fatal. Amigos baixam a guarda uns para os outros e este setor não defendido, ao ser flechado, magoa como poucas coisas.

Talvez a amizade seja sempre um desafio. Entregar-se à relação com um amigo é observar-se num espelho pouco generoso. Os amigos nos conhecem e, para eles, as cenografias sociais são inúteis. Sim, nossos amigos nos amam, e nos conhecem, e nunca saberemos se nos amam por nos conhecer ou apesar de nos conhecer. Mas a entrega à amizade intensa é uma entrega a uma jornada de intimidade e apoio.

O olhar do amigo não tem a doçura absoluta do materno e escapa do tom acre e ressentido do inimigo. Assim, longe do mel estrutural e do fel defensivo, é um olhar de sinceridade. Para ter um amigo, preciso de condições específicas. Eu identificaria três fundamentais.

A primeira é a capacidade de se observar e continuar em frente. Uma conversa genuína com um amigo é uma dissecação anatômica da minha alma. Nem todos conseguem isso. Não é fácil atender ao preceito socrático: conhece a ti mesmo. Na minha experiência, conhecer aos outros é infinitamente mais fácil do que conhecer a si. Se os filósofos já garantiram que homens maus não possuem amigos, mas apenas cúmplices, eu acrescentaria que pessoas superficiais possuem apenas colegas e conhecidos, mesmo que os denominem amigos.

A segunda é o tempo. Não se criam amigos de um dia para o outro. Amigos demandam história, repertório de casos, vivências em conjunto. Amigos precisam viajar juntos. Assim, os afetos integram as vidas das respectivas famílias. Amigos acompanham nossos sucessos e fracassos amorosos, choram e riem com nossa biografia. Quem adicionei ontem na minha rede social é um fantasma, um fóton, jamais um amigo. Amigos precisam de cultivo constante. Todo amigo é, dialeticamente, um frágil bonsai e frondoso carvalho.

A terceira é o controle do próprio orgulho. A mais espaçosa dama da alma é a vaidade. Quando ela preenche o ambiente, sobram poucos assentos livres. Pessoas vaidosas são frágeis e temem a entrega da amizade. O amor é privilégio de maduros, dizia Carlos Drummond. Talvez a amizade também o seja. Talvez não seja apenas para maduros, mas, com certeza, é um privilégio. Encerro com o conselho sábio dado por um tolo. Polônio prescreve ao filho Laertes (peça Hamlet): “Os amigos que tens por verdadeiros, agarra-os a tu’alma em fios de aço; mas não procures distração ou festa com qualquer camarada sem critério”. O cortesão infeliz sintetiza tudo o que tentei escrever aqui. Já falou com seu amigo hoje? Um bom domingo a todos vocês!



domingo, 28 de fevereiro de 2016

A melhor sequência inicial da história do cinema


Como o dia é de entrega do Oscar, o mais famoso prêmio da indústria do cinema, decidi escrever sobre aquela que eu considero, na minha modesta opinião e com uma certa (muita, talvez) ingenuidade, a abertura mais espetacular da história das telonas.

Os cinéfilos mais autorais talvez sugiram "O Sacrifício" de Andrei Tarkovski (1986), os mais práticos talvez prefiram "O Resgate do Soldado Ryan" (1998), os mais clássicos devem recorrer a "Crepúsculo dos Deuses" (1950), entre tantos outros que merecem igual crédito.

Trata-se de um desenho animado produzido pela Disney em 1994, "O Rei Leão" ("The Lion King"), que reviveu o gênero até então esquecido e menosprezado em Hollywood e o elevou a um novo patamar com múltiplas produções que fizeram com que - a partir de 2002 - a Academia criasse um prêmio específico para a categoria, na qual o filme brasileiro "O Menino e o Mundo", do diretor paulistano Alê Abreu, concorre esta noite.

Em "O Rei Leão", tudo é feito à perfeição. Do roteiro hamletiano bem amarrado à trilha sonora espetacular (orquestrada) de Hans Zimmer, com músicas de Elton John e letras de Tim Rice. 

Além do Oscar para Hans Zimmer, três canções do filme concorreram ao Oscar de melhor música: "Circle of Life", "Hakuna Matata" e "Can You Feel The Love Tonight", com o prêmio indo para a última.

Tudo é tão bem ajustado em "O Rei Leão" que as vozes originais em inglês foram dubladas por atores consagrados como James Earl Jones (a voz original do Darth Vader em "Star Wars", que aqui dá vida a Mufasa), Rowan Atkinson (o Mr. Bean interpretando Zazu), Matthew Broderick como o jovem Simba, Nathan Lane como Timão, Whoopi Goldberg como a hiena Shenzi, sem contar Jeremy Irons como o antagonista Scar, a quem cabe também interpretar lindas canções como "Be Prepared!".

A abertura ficou tão sensacional que, caso único na história do cinema, ela própria se tornou o trailer promocional. Antes da estreia do filme, as pessoas viam esta exata abertura anunciando a data em que poderiam vê-lo na íntegra, o que gerou uma comoção como nunca se havia visto em relação a um desenho animado nos cinemas.

Na sequência inicial, embalada pela canção "Circle of Life", tudo se encaixa perfeitamente. O sol nasce na África e sua exuberante fauna é chamada para festejar o nascimento de Simba, o herdeiro do rei-leão então no Trono, Mufasa).

Das cataratas de Vitória ao monte Kilimanjaro, passando pelas savanas do Serengeti, todos os animais africanos, dos menores aos maiores, terrestres e alados, se reúnem numa caravana em direção à Pedra do Reino, para conhecer o rebento.

Zebras, gnus, guepardos, flamingos, girafas, participam em perfeita harmonia de uma procissão em que os gentis elefantes dão carona aos pássaros cansados nos seus marfins.

Há uma espécie de trégua apocalíptica para que todos os animais, sem exceção, possam se reunir para celebrar a promessa de continuidade do reino que os une.

As referências religiosas são óbvias, e de clara inspiração cristã. Búfalos e antílopes abrem passagem para o sacerdote mandril (a quem Simba depois chama ironicamente de "babuíno"), Rafiki, que sobe à Pedra do Reino e, após cumprimentar os pais, "batiza" o príncipe herdeiro.

Em seguida, Rafiki leva o jovem leãozinho à frente para exibi-lo aos fiéis súditos que o aguardam. Diante de Simba, então, os animais selvagens irrompem em êxtase diante do futuro rei e ordenadamente se ajoelham mostrando sua submissão nesse estranho mundo perfeito em que um raio de luz solar vem chancelar a cena com o selo divino.

Eis a sequência:


O filme segue nessa linha de eterno retorno e redenção, celebrando os símbolos do "ciclo da vida" em que novas gerações e estações vão se sobrepondo às antigas, mas o mundo insiste em manter uma harmonia sem fim.

Tudo se vive, tudo se sofre, tudo se alegra, tudo se renova em "O Rei Leão", mais ou menos como é a vida de cada um de nós.

Isto fica claro na sequência final de "O Rei Leão", quando Simba termina por assumir de fato o trono que era de seu pai, abençoado por Rafiki que lhe diz "It is time!" ("Chegou a hora!") e Mufasa que - redivivo - dos céus lhe dirige a voz com a mensagem "Remember!" ("Lembre-se").

Lavado pela chuva que leva embora a amargura, a dor, o remorso, o sofrimento e as cinzas do passado, a fauna africana vê Simba e sua companheira Nala apresentarem o novo herdeiro a um mundo que clama continuamente por renovo, fé e esperança.

Delicie-se também, portanto, com mais esta belíssima cena de "O Rei Leão":




terça-feira, 24 de março de 2015

530 anos depois, Ricardo III finalmente tem o seu funeral de rei

Ricardo III (1452-1485) foi rei da Inglaterra de 26 de junho de 1483 a 22 de agosto de 1485, data de sua morte.

Para chegar ao trono, não economizou conspirações nem mortes dos herdeiros que estavam à sua frente na linha de sucessão.

Eternizado na peça que leva seu nome, de Shakespeare, Ricardo III passou para a história como o vilão usurpador que, a pé diante dos inimigos nos últimos instantes de vida, clamava "meu reino por um cavalo!".

Com os ossos descobertos recentemente, o polêmico rei shakespeariano finalmente terá seu funeral de Estado, segundo noticia o Correio Braziliense:

Ricardo III terá enterro digno após corpo ser encontrado em estacionamento

O monarca morreu aos 32 anos, entre 1483 e 1485, pôs fim à Guerra das duas Rosas

O rei Ricardo III da Inglaterra, monarca do século XV, cujos restos mortais foram encontrados debaixo de um estacionamento em 2012, receberá, enfim, um enterro digno de um membro da realeza na quinta-feira na Catedral de Leicester. A cerimônia, que será transmitida pela televisão, será o ponto culminante de cinco dias de celebrações iniciadas neste domingo.

Seu caixão foi exposto na Universidade de Leicester (centro da Inglaterra) neste domingo pouco antes das 11h00 GMT (8h00 no horário de Brasília). Membros da universidade e alguns de seus descendentes depositam cada um rosas brancas sobre o caixão.

O último rei da dinastia Plantagenet seguiu em seu caixão de chumbo para o lugar onde foi disputada a batalha de Bosworth, onde encontrou a morte. O último rei medieval da Inglaterra será sepultado na quinta-feira, na presença de membros da família real e dos mais importantes clérigos do país.

A morte, aos 32 anos, de Ricardo III, monarca entre 1483 e 1485, pôs fim à Guerra das duas Rosas, entre a casa de York e os Plantagenet. Embora seu corpo nunca tenha sido encontrado, segundo alguns escritos, ele repousava em uma capela franciscana, destruída no século XVI.

Após a sua morte, a coroa passou para Henrique VII e os reis da dinastia Tudor que, com ajuda de Shakespeare e de outros dramaturgos, descreveram Ricardo III como um vilão brutal e corcunda, que não se detinha diante de nada, chegando a assassinar dois jovens sobrinhos para assegurar o trono.

A Alta Corte de Londres decidiu, em maio, que o rei tinha de ser enterrado na catedral de Leicester, descartando assim o apelo de seus descendentes, que pretendiam enterrá-lo em York.

A extraordinária epopéia de como seu esqueleto foi encontrado em um estacionamento cerca de 530 anos após sua morte, em 1485, rodou o mundo.

"É incrível tê-lo encontrado intacto", afirma Mathew Morris, que liderou as escavações, explicando que uma obra da era vitoriana havia passado a centímetros do crânio de Ricardo III.

Coincidência ou um sinal? O "esqueleto nº 1", como foi batizado num primeiro momento, foi encontrado sob a vaga do estacionamento marcado com a letra "R" de "reservado".

Última batalha antes de sepultamento

Antes mesmo dos testes de DNA, a probabilidade do esqueleto em questão ser de Ricardo III era muito forte: a datação por carbono 14 mostraram que o homem tinha morrido entre 1455 e 1540, enquanto que a coluna vertebral curvada e as oito lesões na cabeça eram coerentes com a história deste rei, que sofria de escoliose grave e que morreu no campo de batalha.

O "esqueleto nº1" foi finalmente identificado oficialmente por meio de testes de DNA realizados em Michael Ibsen e Wendy Duldig, ambos descendentes da irmã mais velha de Ricardo III, Ana de York.

Mas estes testes também trouxeram à tona evidências de uma "falsa paternidade", o que levanta dúvidas sobre as alegações reais de gerações de monarcas britânicos.

Durante as análises, os pesquisadores não encontraram combinações na linhagem masculina da família, descendente de João de Gaunt, irmão do bisavô de Ricardo III.

Isto significa que, em algum ponto, deve ter havido uma criança, cujo pai presumido, segundo a genealogia oficial, não era o pai verdadeiro.

De todas as formas, Ricardo III precisou travar uma última batalha antes de poder descansar em paz, a escolha do local para o sepultamento. Por fim, a justiça decidiu a favor dos arqueólogos, escolhendo Leicester à custa de York.

Embora católico, o rei medieval será enterrado de acordo com o rito anglicano. Contudo, rituais católicos acontecerão ao longo da semana, incluindo uma missa de requiem na segunda-feira, conduzida pelo cardeal Vincent Nichols, o mais alto prelado católico da Inglaterra.

Quinta-feira, o enterro será celebrado na presença do chefe da Igreja Anglicana, o arcebispo de Canterbury Justin Welby, e da condessa de Wessex, Sophie, nora de Elizabeth II, e do príncipe Ricardo, Duque de Gloucester, patrono da associação Ricardo III e descendente do rei.

O túmulo será aberto ao público no sábado.



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