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sábado, 3 de junho de 2017

Conhecido por sua música sacra, Bach também tinha um lado profano


A matéria é do Estadão:

Religioso, Bach via em música profana 
'divertimento do espírito'

Compositor criou mais música profana do que sacra em seus anos vividos em Leipzig

João Marcos Coelho*

A imagem que temos hoje de Johann Sebastian Bach (1685-1750) é a de um compositor capaz de introduzir estudantes na música com as tecnicamente fáceis Invenções a Duas e Três Vozes e o Pequeno Livro de Ana Magalena Bach, mas também de desafiar os maiores virtuoses com o Cravo Bem Temperado, sem esquecer a grandiosidade das 200 cantatas, da Missa em Si Menor e da Arte da Fuga, obra abstrata sem indicação de instrumentação.

Alfa e ômega para os músicos, Bach é o Himalaia do público. Sua imagem convencional é a do homem profundamente religioso que compunha uma cantata por semana como responsável pela música em um punhado de pequenas cidades espalhadas por um raio de cem quilômetros – carreira provincial que culminou na Igreja de Santo Tomás, em Leipzig, em seus derradeiros 27 anos.

Um retrato curiosamente desmontado por um dos maiores especialistas na sua música sacra, o inglês John Eliot Gardiner, responsável pela gravação de todas as cantatas, as paixões, a Missa e o Oratório de Natal. Sua devoção a Bach é tamanha que sua gravadora chama-se SDG, as iniciais da expressão que Bach costumava colocar no pé de seus manuscritos: Soli Deo Gloria. Mesmo num ritmo alucinante de gravações e concertos, comemorou seus 70 anos, em 2013, concluindo e lançando na Inglaterra seu livro Música no Castelo do Céu.

Herdamos do século 19 a imagem que temos de Bach, diz Gardiner, como o organista e compositor de cantatas, religioso por excelência. Alguns números desmentem isso: ele compôs, em 27 anos de atividade em Leipzig, 800 horas de música sacra; e 1.200 horas de música profana em dez anos à frente do Collegium Musicum. Numa peça publicada em 1738, Bach acrescentou ao costumeiro “Soli Deo Gloria” o seguinte: “Para a glória de Deus e o legítimo divertimento do espírito (...) se não se leva isso em conta, não há música verdadeira.”

O capítulo sobre o Bach profano o mostra divertindo-se semanalmente no Café Zimmermann, comandando uma orquestra para dar autênticos shows aos cultores da bebida que, então recém-chegada à Europa, era sinônimo de droga quase proibida. Bach interessou-se pela música profana por causa das constantes brigas com o Conselho da cidade, que lhe tolhia as iniciativas e cortava verbas. De outro lado, seus 20 filhos exigiam que ele se multiplicasse: comercializava instrumentos. Os shows no Zimmermann complementaram sua renda. Ele dirigiu o Collegium Musicum entre 1728 e 1737; nos dois anos seguintes foi “artista convidado” e em 1739 retomou a titularidade até 1741. Anualmente, fazia 61 apresentações no Café: no verão, das 16 às 18 horas, na parte externa, com as mesas ao ar livre; no inverno, à noite, na parte fechada. Para dar mais brilho, compôs as quatro aberturas orquestrais e adaptou para cravo solista concertos originais para violino de Antonio Vivaldi. Um dos hits bachianos era a Cantata do Café, música e versos deliciosos cantando o nirvana que proporcionava a novíssima bebida. Um pesquisador imaginou o repertório desses concertos: Bach esbanjando técnica no estonteante Prelúdio e Fuga em Dó Menor do Cravo (BWV 847); a Suíte para Orquestra em Ré Maior (BWV 1068); e o Concerto em Fá Maior para Cravo, Duas Flautas Doces e Cordas (BWV 1057), que nada mais é do que um arranjo do Concerto de Brandenburgo no. 4, com o próprio solando e liderando os músicos.

Este Bach profano revive no recentíssimo CD Bach Trios (Nonesuch), aventura fascinante de três músicos notáveis: o bandolinista californiano Chris Thile, 35 anos, que surgiu com o grupo de bluegrass progressivo Nickel Creek; o violoncelista Yo-Yo Ma, 61 anos, há décadas superstar que rompeu fronteiras artísticas; e o contrabaixista Edgar Meyer, de 56 anos. Três músicos de experiências, formações e personalidades muito diferentes, que comprovam o acerto da afirmação do jovem compositor californiano Timo Andres, 32 anos, em seu texto no encarte: “Junte aleatoriamente um grupo qualquer de músicos numa sala: independente de seus instrumentos, histórias pessoais e personalidades, eles vão acabar encontrando um fundamento comum tocando Bach.”

Como Bach, que intercambiava melodias em textos ora profanos, ora sacros, e brincava literalmente com todas as músicas do mundo europeu que o rodeava, este trio nos convida a um show bachiano num formato tipicamente barroco, o da trio sonata, em que dois ou três instrumentos melódicos eram acompanhados pelo cravo, que fazia a base harmônica (o chamado baixo contínuo). Aqui, o bandolim ora arpeja como o contínuo, por exemplo, no Prelúdio Coral para Órgão BWV 650; ora assume o comando melódico como no Vivace Inicial da Trio Sonata BWV 530 que abre o CD. O violoncelo de sonoridade ampla democraticamente dá bastante espaço ao bandolim, mas por momentos brilha de modo intenso, como em outro Coral para Órgão, BWV 639.

Tudo aqui é muito conhecido. As melodias frequentam o inconsciente coletivo. Talvez o ponto culminante da perfeita integração entre eles ocorra na Sonata BWV 1029, original para viola da gamba. Na seção central da fuga, uma linha contínua é tocada pelos três instrumentos sucessivamente, como se fosse uma corrida de revezamento, em que é perfeita a passagem do bastão (oops!, da melodia) de um para outro. Isto sim é música que alimenta a alma, como queria o “Soli Deo Gloria” de Bach. Mas sem esquecer que a música é também um “legítimo divertimento do espírito”. Pois só assim “há música verdadeira”.

*João Marcos Coelho é crítico musical e jornalista


Para o nosso deleite, "A Arte da Fuga", BWV 1080 - T. Koopman and T. Mathot:




Uma caricatura de leve para humanizar Bach.




segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Música e religião são mais próximas do que você pensa


Artigo interessante publicado na Deutsche Welle:

Parentesco entre música e religião é extremamente próximo

Duas manifestações aparentemente diversas têm origem nas mesmas necessidades humanas e partem do subconsciente. Canções substituem a oração para alguns, e outros utilizam o ritual como estratégia de marketing.

"Para mim, cantar é como um mantra que cura", revelou a cantora pop italiana Gianna Nannini numa entrevista recente. "Cantar me deixa como que em transe, me faz feliz e transforma minha consciência. E é essa sensação que eu quero levar pelo mundo afora." E, por via das dúvidas, esclarece: "Mas não sou religiosa".

Nannini podia estar falando em nome de muitos de seus colegas, de Jimi Hendrix a Santana, que se dissolvem na própria música e se entregam a uma sensação de êxtase. Os fãs também não conseguem escapar dessa atração, pois o efeito dos sons é subconsciente.

"Música e religião têm a mesma origem", diz a musicóloga e psicóloga suíça Maria Spychiger, que atua em Frankfurt. "Ambas desencadeiam sentimentos difíceis de definir com palavras, têm a capacidade de provocar experiências que ultrapassam o dia a dia."

"Bater de asas de um anjo"

O poder espiritual da música se faz sentir desde os primórdios da história humana até hoje. Em pleno século 21, xamãs empregam em seus rituais o toque de tambores ou sons de flauta. Entre os povos nativos, a música não serve apenas para diversão, mas também ajuda a entrar em contato com os deuses.

No cristianismo, a arte dos sons sempre desempenhou um papel importante. Do canto gregoriano ao gospel, passando pelas cantatas de Johann Sebastian Bach, a música encontra uma linguagem própria para o lamento e o júbilo, a meditação e o êxtase.

Heiner Gembris, especialista em psicologia musical, descreve com uma imagem poética a relação entre esses dois âmbitos: "A música é como o bater de asas de um anjo, que nos toca e faz sentir a presença de algo maior, que nos eleva para além dos limites de nossa prisão no mundo".

No mundo ocidental secularizado, o aspecto religioso da música é cada vez mais colocado em segundo plano. Ao mesmo tempo, os jovens transferem em massa aos astros musicais a idolatria que a geração de seus avós dedicava a Nossa Senhora ou aos santos. Nos shows ao vivo, eles vivenciam sentimentos antes reservados ao campo da oração ou dos rituais religiosos: aqui eles procuram alegria e consolo.

"O lado espiritual não brota simplesmente dos seres humanos", explica Spychiger. "Eles recorrem, antes, a conteúdos já presentes na sua cultura. Para muitos a música tem um valor elevado, nela eles encontram significado e sentido existencial. E alguns até mesmo satisfazem suas necessidades religiosas através do meio música."

Fãs como Elisabeth Dick, de 36 anos, corroboram plenamente tal afirmação. "Antes, eu gostava de escutar o Enigma. A música suave da banda era absolutamente espiritual para mim, me dava a sensação de estar flutuando em outras esferas." Hoje em dia, ela vai muito a shows de rock. "Não é para pensar que tenha qualquer coisa a ver com espiritualidade, mas, quando centenas de fãs dançam a noite toda, é bem fácil a pessoa se sentir levada. Aí eu fico como se fosse em transe."

Esse fenômeno também se manifesta nas festas techno. Os jovens se movem ao som de um ritmo compulsivo e pulsante, o qual, segundo estudos científicos, opera sobre o sistema neurovegetativo, em todo o corpo. Os DJs fazem uso desse saber, ao encadear músicas com a mesma frequência de batidas por minuto. Após horas seguidas consumindo esses ritmos, os dançarinos entram em estado de transe.

A tentação de ser superstar

Assim, não são apenas os astros da música, mas também os DJs a ganharem status de ídolos semirreligiosos, imitados sobretudo pelos jovens em fase de formação da personalidade. Ou, como sintetiza a cantora norte-americana Pink numa de suas músicas de maior sucesso: "God is a DJ" (Deus é um DJ).

Além disso, nos concertos dos seus superstars os fãs desenvolvem um sentimento de comunidade com os demais espectadores. Através de determinados rituais – como vestuário ou ornamentação corporal – alguns grupos até mesmo se isolam intencionalmente dos adeptos de outros estilos musicais.

A mistificação também tem um papel forte na comercialização dos artistas, e a indústria de publicidade trabalha avidamente para transformá-los em supersseres humanos.

A fascinante promessa de se transformar num desses super-homens se reflete em formatos televisivos como Idols/ Superstar (criado na Inglaterra em 2001), ou The Voice (Holanda, 2010). Estas e outras franquias basicamente exploram o desejo de milhares de jovens, que sonham com uma carreira estrondosa como músicos.

Fiéis, hereges e falsos sacerdotes




O papel da religião para cada músico é bastante diverso. Há cantores religiosos, como o alemão Xavier Naidoo, que expressa sua fé nas letras e também na vida quotidiana. Cristão convicto, ele afirma rezar duas vezes por dia.

Outros empregam símbolos religiosos com o fim de provocar. Como Madonna, ao pintar nas mãos as chagas de Cristo e utilizar o crucifixo para fins pouco ortodoxos. O Vaticano escandalizou-se, enquanto a estrela falava em um sinal de emancipação. No fim das contas, tais ações são, em grande parte, uma esperta estratégia de marketing.

Ainda outros, como Michael Jackson, se celebram no palco com fogo, efeitos de luz bombásticos e impressionantes shows de laser. Segundo psicólogos, cenários desse tipo manipulam a percepção dos espectadores, ao aproximar o artista da imagem de um Redentor que condescende em se apresentar a seu povo. O concerto se converte num ritual pomposo, lançando mão de um simbolismo que lembra o Velho Testamento da Bíblia, em que Deus se mostra em pessoa.

Para os amantes do pop e rock, tais análises são totalmente supérfluas: o importante é se divertir. Como relata um fã de 19 anos: "Quando vou a um show de rock com meus colegas, é uma libertação. A gente voa em direção ao céu. Toda a porcaria da semana, o chefe que enche o saco, de repente tudo isso está lá longe e não faz a menor diferença. Eu me sinto como se tivesse chegado a algum lugar... no meu próprio mundo".




E aí, que tal conhecer o alemão Xavier Naidoo?


A seguir a tradução da canção acima, "Bitte Hör Nicht Auf Zu Träumen" ("Por Favor Não Deixe de Sonhar"):

Bitte Hör Nicht Auf Zu Träumen

Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt.
Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt

Du bist die Zukunft,
du bist dein glück.
du träumst uns in die höchsten Höhen,
und sicher auf den Boden zurück.
Und ich bin für dich da,
du für mich.
Seit deiner ersten Stunde glaube ich an dich.

Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt.
Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt

du bist der Anfang,
du bist das licht.
Die Wahrheit scheint in dein Gesicht.
Du bist ein Helfer,
Du bist ein Freund.
Ich hab so oft von dir geträumt.
Du bist der Anlass,
Du bist der Grund.
Du machst die kranken wieder gesund.
Du musst nur lächeln,
und sagst dein Wort.
Denn Kindermund,
tut Wahrheit kund.

Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt.
Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt
Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt.
Bitte hör nicht auf zu träumen,
von einer besseren Welt.
Fangen wir an aufzuräumen,
bau sie auf wie sie dir gefällt.

Por Favor Não Deixe de Sonhar

Por favor não deixe de sonhar
Com um mundo melhor
Vamos começar a organizar
Construí-lo como ti agrada.
Por favor não deixe de sonhar
Com um mundo melhor,
Vamos começar a organizar,
Construí-lo como te agrada

Você é o futuro,
Você é sua felicidade.
Você sonha nós nos mais altos ares
E retornar com segurança ao solo.
E eu ali pra você,
Você para mim.
Desde sua primeira hora, acredito em você.

Por favor não deixe de sonhar..
De um mundo melhor.
Vamos começar a limpar,
Construí-la como você gosta dela.
Por favor, não ouvir, em sonho,
De um mundo melhor.
Vamos começar a limpar,
Construí-la como você gosta dela

Você é o começo,
Vós sois a luz.
A verdade resplandece em seu rosto.
Você é um parceiro ( ajudador)
Você é um amigo.
Sonhei tantas vezes com alguém como você.
Você é a razão
Você é o Motivo.
Você faz o doente ficar são.
Você só tem que sorrir,
E dizer a sua palavra.
Pois boca de criança,
Serve à verdade

Por favor não deixe de sonhar..(repete igual refrão inicial)
De um mundo melhor.
Vamos começar a limpar,
Construí-la como você gosta dela.
Por favor, não ouvir, em sonho,
De um mundo melhor.
Vamos começar a limpar,
Construí-la como você gosta dela
Por favor, não ouvir, em sonho,
De um mundo melhor.
Vamos começar a limpar,
Construí-la como você gosta dela.
Por favor, não ouvir, em sonho,
De um mundo melhor.
Vamos começar a limpar,
Construí-la como você gosta dela.





domingo, 10 de abril de 2011

Para ouvir Bach na floresta

Depois de semanas em que tragédias se sobrepõem a outras tragédias, e a gente fica meio perdido sem saber para onde correr, que tal um refresco no meio de tanta balbúrdia? Veja o vídeo abaixo para recobrar forças para enfrentar as próximas semanas, que esperamos todos que sejam mais pacíficas. Trata-se de uma propaganda japonesa de celular, mas garanto que você nunca viu e ouviu uma "interpretação" sequer parecida de "Jesus, Alegria dos Homens" (Jesus bleibet meine Freude), do gênio Johann Sebastian Bach, que merecia uma homenagem deste nível. Aumente o volume e desfrute:


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Fechando 2009 com Bach

No apagar das luzes de 2009, só tenho que agradecer a Deus pelo ano maravilhoso que tive. Apesar de todos os problemas que todos nós temos na vida, foi um ano abençoado. Acho que mais que do que pedir que Deus faça um milagre em mim, eu tenho que agradecer pelo milagre que é a minha vida nEle. Desejo a todos os leitores e amigos deste blog um 2010 também maravilhoso e abençoado, e que todos experimentem e se satisfaçam plenamente com o dom da vida que Deus nos deu. Obrigado, Senhor!

Para celebrar a passagem do ano, nada melhor do que ouvir o 1º movimento do Concerto N. 1 para violino em Lá menor, do compositor que considero o que mais se aproximou da música divina, o alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), num solo brilhante do violonista russo-ucraniano David Oistrakh (1908-1974). São pouco mais de 4 minutos de um presente valiosíssimo para a alma e uma preparação para os ouvidos diante do ribombar de fogos logo mais. Simplesmente, deixe-se levar...


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