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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Para os restaurantes, clientes paulistanos são os mais chatos do mundo



Finalmente, alguém conseguiu colocar em palavras algo que eu já havia percebido nos meus muitos anos em que fui um feliz habitante da capital bandeirante, e que eu já havia comentado sob outro ângulo no texto intitulado "A síndrome do turista paulista".

O artigo foi publicado no blog Cozinha Bruta do portal da Folha de S. Paulo:

Cliente paulistano é o mais chato do mundo – e paga caro por isso no restaurante

POR MARCOS NOGUEIRA

Mimado, exigente, arrogante e rude, o cliente de restaurantes paulistano é o mais chato do mundo. É por isso que ele paga caro pela comida.

Eu, tão paulistano quanto a estátua do Borba Gato, estou no balaio. Ouso dizer que já fui mais chato do que a maioria dos chatos – depois de medicado corretamente pela minha psiquiatra, melhorei bastante.

Claro que existem chatos de muitos tipos (caso você tenha interesse em se aprofundar no assunto, sugiro a deliciosa leitura do “Tratado Geral dos Chatos”). Em algumas partes do país, é corriqueiro o tipo de cliente que chega ao restaurante e se comporta como se fosse dono do lugar. Fala alto para caramba e deixa as crianças quicando pelo salão. Se a mesa estiver perto da entrada, estaciona o carro em frente e liga o som. Em geral, fala com os funcionários como se fosse seu melhor amigo. E não estressa com a lentidão do serviço.

Essa modalidade não é muito comum em São Paulo. Não nos lugares que eu costumo frequentar.

O cliente paulistano é folgado à sua própria maneira. Por ser pagante, ele julga merecer tratamento de realeza.

O indivíduo – gênero neutro, repare – chega ao restaurante e pede uma mesa. Caso haja espera, a pessoa supõe que haja também uma área em que ela possa esperar sentada. Se a espera não permitir o consumo de bebidas e petiscos, o sujeito fica contrariado. A espera muito longa irrita sobremaneira essa gente.

(Reservar mesa não é para o paulistano médio. Ele presume que a mesa estará à sua disposição em qualquer hora e situação.)

Uma vez acomodado, trata os garçons como serviçais particulares.

O cliente exige disponibilidade total. O atendente anota as bebidas e, quando as entrega, comanda o suco de acerola da Valentina, que a mamãe esqueceu de pedir antes. Ao trazer o suco, é instado a substituir o copo do pequeno Enzo, que queria apenas gelo, não gelo e limão. Com o copo em mãos, alguém na mesa resolve pedir lula frita. O garçom anota. Assim que ele entrega a comanda na cozinha, é chamado de volta porque deve trocar a lula por mandioca – o João Vítor é alérgico a frutos do mar, mas o tio não sabia. Então, eu um ato audaz, ele sugere que a mesa peça os pratos principais: todos entram em pânico e solicitam o cardápio novamente, numa clara manobra protelatória.

E assim vai até o pagamento da conta.

Quando viaja dentro do país, o paulistano quase enlouquece nos restaurantes. Especialmente se o destino é Salvador. No estrangeiro, se comporta bem. Porque sabe que vai tomar uma bela invertida de quem serve a mesa – e porque não tem repertório linguístico para encarar uma discussão.

Em países mais, hum, desenvolvidos, os restaurantes informais costumam ser familiares. Os pais são donos e os filhos servem as mesas, ou algo do tipo. Mesmo quando o negócio é um pouco maior, o número de garçons é muito limitado. A pessoa tem pouco tempo de atenção a dispensar para cada mesa. Então, ela supõe que o freguês peça tudo ao mesmo tempo – a cozinha se encarrega de soltar primeiro as entradas, depois os principais.

Menos funcionários no salão, menos custo. Matemática elementar.

Em São Paulo, esperamos que o botequim tenha o mesmo padrão de serviço do Fasano. Essa pressão faz com que as casas contratem mais gente. E o custo, é evidente, aparece na dolorosa.



quarta-feira, 5 de abril de 2017

Um brodo de capeletti sela a paz entre o papa e o cardeal emérito de Bolonha


Ah, noi gli italiani siamo davvero tutti uguali!

Carlo Caffarra, cardeal arcebispo emérito de Bolonha, era tido como ex-amigo e atual inimigo do papa Francisco, até que aquele fumegante brodo (caldo) de capeletti servido com o autêntico pão italiano, aquela saladinha campeã de radicci e acompanhado de um bom Lambrusco pôs as divergências em pratos limpos.

Ah, fratelli, non c'è cuore che resista!

A matéria é do IHU:

O abraço de Francisco: paz com o "inimigo" Caffarra


Bastou um prato de capeletes fumegantes para fazer desaparecer toda teoria da conspiração cismática. Sim, porque, durante meses e meses, o refrão interno, nos blogues católicos mais radicais, nos bastidores curiais, o pontificado de Francisco era ciclicamente submetido a boatos de iminentes motins inspirados na linha do cardeal Carlo Caffarra, até hoje apontado como o mais renomado e orgulhoso opositor das ideias inovadoras contidas na Amoris laetitia, o documento papal que trata de amor e matrimônio, mas que, inicialmente, levantara temores e desconfianças. 


A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 03-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Na viagem à Emília-Romanha, na Itália, algo mudou. Bastou um almoço, um abraço benevolente, uma missa celebrada com intensidade. Em suma, fizeram-se as pazes. Sentado à direita do Papa Bergoglio, na mesa aparelhada pelos aspirantes a padre do seminário de Carpi, um dos muitos edifícios restaurados depois do terremoto, estava sentado um dos quatro cardeais das dubia: o arcebispo emérito de Bolonha, Caffarra.

Como na melhor tradição familiar, também neste caso a paz chegou no almoço, simbolicamente, entre um prato de capeletes com caldo e um bom copo de Lambrusco di Sorbara.

O clima entre os comensais foi descrito unanimemente como familiar, alegre, relaxado, um pouco como se fosse o reencontro de velhos amigos, que, sem embaraços nem timidez, tinham a intenção de trocar considerações, fazendo piadas, entregando-se a risadas espontâneas.

A reconstrução dos corações também foi essa e, às vezes, passou de momentos de descontração, como aquela alegre mesa, enquanto o bispo de Carpi, Francesco Cavina, fazia as honras da casa, preparando o terreno para a reconciliação entre Bergoglio e Caffarra, seu bom amigo. Degustaram juntos os tortellini doces ao Savur, uma pasta feita com uma geleia especial de maçãs cozidas durante uma noite inteira, sem açúcar, em uma panela grande.

Junto com o almoço no seminário, houve também uma foto-símbolo. Ela foi tirada na catedral de Carpi e logo começou a dar a volta ao mundo nas redes sociais e nos sites católicos. Ela mostra, em toda a sua intensidade, o abraço amigo entre o papa e Caffarra.

Ela foi tirada por um fotógrafo pouco antes da missa, na qual também concelebraram os outros bispos da Emília-Romanha, incluindo aqueles que, nos últimos anos, causaram mais problemas para o papa.

De um lado, Caffarra, de outro, Dom Negri, ex-arcebispo de Ferrara, crítico ferrenho não só da reforma do processo canônico matrimonial, mas também das nomeações episcopais. O cardeal Caffarra, um dos quatro cardeais das dubia (junto com o estadunidense Burke, do austríaco Brandmüller e do alemão Meisner), tinha dirigido a Francisco interrogações teológicas, convocando-o a responder. Pela maneira como tinham sido formuladas, Francisco evitou dar espaço para reflexões públicas.

Caffarra, há um ano, em uma entrevista ao jornal Il Foglio, explicou que, para “os cardeais, existe o dever grave de aconselhar o papa no governo da Igreja. É um dever, e os deveres obrigam. Depois, há o fato de que só um cego pode negar que, na Igreja, existe uma grande confusão, incerteza, insegurança causadas por alguns parágrafos da Amoris laetitia”.

Hoje, tudo parece atenuado, distante, já nuançado. Talvez, as dúvidas permaneçam, mas, em Carpi, foi virada uma página importante.

Brodo de capeletti: um santo remédio para mágoas encruadas...




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Se hoje você tem o que comer, agradeça a quem viveu no México mais de 5 mil anos atrás


Artigo interessantíssimo do biólogo Fernando Reinach, publicado no Estadão de 10/12/16:

Foi no México, faz 5 mil anos

E você, provavelmente, nunca passou perto do local onde se domesticou o milho

Não se iluda, as bases tecnológicas de nossa civilização não surgiram em renomadas universidades ou em empresas do Vale do Silício. Elas surgiram muito antes, quando o homem desenvolveu a tecnologia que o liberou da busca contínua por alimento, atividade que toma o dia todo das comunidades caçadoras e coletoras. Nesse aspecto, não éramos muito diferentes de uma vaca, que passa o dia todo pastando, e não tem tempo para escrever um romance. Foi no tempo liberado pela agricultura que o cérebro humano pode dedicar-se ao desenvolvimento das artes e da ciência.

A domesticação de espécies de vegetais é uma dessas tecnologias. Ela foi tão importante que hoje, das 50 mil espécies de plantas comestíveis que existem no planeta, somente 15 respondem por 90% de nosso alimento. Pior, três delas, o milho, o arroz e o trigo, respondem por 66% de todo o alimento que consumimos. O milho é talvez o mais importante, pois não só é consumido diretamente, mas é comida de frango. Frango é milho com penas. O mundo produz hoje 900 bilhões de quilos de milho por ano, o equivalente a 10 quilos por habitante por mês.

E você, tão viajado, provavelmente nunca passou perto do local onde o ser humano domesticou o milho. Foi no Vale do Tehuacán, um local perdido no centro do México. Esse desenvolvimento tecnológico começou por volta de 9 mil anos atrás e tomou o esforço de nossos antepassados durante milhares de anos. Nesse período, eles transformaram o teosinto no milho, duas subespécies da mesma planta tão diferentes entre si quanto um chihuahua de um dog alemão.

Na década de 1960, um cientista chamado Richard MacNeish escavou o solo de uma caverna chamada San Marcos, no vale do Tehuacán. Essa caverna era habitada pelos domesticadores do milho. Em diversas camadas dos detritos, depositados por gerações desses cientistas intuitivos, ele descobriu sementes de vegetais que já não eram teosinto, mas ainda não eram milho. Passos intermediários do processo de domesticação.

Nos últimos anos, com o sequenciamento do genoma do teosinto e do milho, os cientistas descobriram os genes que foram alterados durante o processo de domesticação no vale do Tehuacán. Agora foi sequenciado o genoma das sementes que foram encontradas na caverna de San Marcos, que datam de aproximadamente 5.200 anos atrás, quando o processo de domesticação ainda estava em andamento.

Nesses exemplares foi encontrado o gene que deixa a planta ereta, permite o plantio em linhas e facilita a colheita. Também foram encontradas as versões modernas do gene que aumenta o tamanho dos grãos e deixa o milho mais doce. Mas ainda estavam ausentes o gene que deixa a casca do grão mais fina, o que facilita a digestão, e um outro gene que inibe a queda dos grãos maduros da espiga, que é essencial para que possamos colher os grãos ainda na espiga. Essa planta, de 5 mil anos atrás, já não era um teosinto, onde os galhos se espalham e ramificam, os grãos são poucos, pequenos, duros e caem fácil da espiga. Mas também não era o milho moderno com centenas de grãos por espiga, todos grandes, com casca fina, doces e que não se soltam facilmente.

Se você for ao México, não deixe de visitar Tehuacán, e passeando por lá imagine esses geneticistas intuitivos selecionando variedades de milho, que 5 mil anos depois, iriam alimentar a humanidade. O impacto desse desenvolvimento tecnológico deixa no pó a eletricidade, os celulares e as redes sociais.

MAIS INFORMAÇÕES: THE EARLIEST MAIZE FROM SAN MARCOS TEHUACÁN IS A PARTIL DOMESTICATE WITH GENOMIC EVIDENCE OF INBREEDING. PROC. NAT. ACAD. SCI. USA, VOL. 113 PÁG. 14151 (2016)



sábado, 2 de janeiro de 2016

Como combater os excessos de fim de ano


Matéria publicada na BBC Brasil:

Como o corpo reage aos excessos do fim de ano

Chris Baraniuk

É difícil não associar as festas de fim de ano com comida e bebida demais e horas de sono de menos. Mas se você normalmente tem um estilo de vida saudável, será que há problema em se deixar levar por excessos de vez em quando?

A resposta é, ao mesmo tempo, sim e não. "Tudo depende de quanto cada um se excede", afirma Barry Campbell, gastroenterologista da Universidade de Liverpool, na Grã-Bretanha.

Para começar, a preocupação não deve ser só o aumento de peso ou o colesterol alto. As bactérias presentes em nosso sistema digestivo sofrem um impacto quando ingerimos alimentos ricos em gordura, por exemplo. Um estudo da Universidade de Chicago indicou que a proporção entre bactérias benéficas e microrganismos prejudiciais pode ser alterada pela má alimentação.

Segundo Campbell, se essa maneira de se alimentar for mantida por um certo tempo, podem ocorrer distúrbios a longo prazo, como uma inflamação intestinal. Por outro lado, nosso microbioma tem a capacidade de se recuperar.

"Nada faz realmente mal se for com moderação", explica o gastroenterologista. "As mudanças que observamos quando exageramos na comida ou na bebida não são boas a curto prazo, mas elas não provocam danos a longo prazo."

Nesses termos, um dia de comilança ou bebidas em excesso seguido de um período de alimentação mais leve e equilibrada, não é necessariamente nocivo.

Importância dos legumes e verduras

Há outra notícia boa para quem não resiste à ceia natalina e as delícias do Réveillon. De acordo com Campbell, certos legumes e verduras são particularmente benéficos, inclusive alguns que fazem parte do cardápio desta época do ano.

Eles são ricos em antimutagênicos, agentes que podem ter um papel na redução do câncer intestinal, por exemplo. Esses componentes neutralizam o efeito das proteínas conhecidas como lectinas, que podem ser bastante prejudiciais. "Elas podem modificar ou até destruir células", diz o cientista.

Até mesmo quem não consome carnes – ricas em lectina – pode estar sob risco se ingerir leguminosas, que também contêm proteínas.

Jonathan Hoare, gastroenterologista da The London Clinic, concorda que um episódio ou outro de comilança não é tão preocupante. "Apesar do risco de indigestão, um dia de exageros não deve provocar graves consequências", afirma.

No entanto, o médico ressalta que o que realmente pode provocar um impacto em nossa saúde durante a temporada de festas é o fato de os excessos não se limitarem a apenas uma refeição ou um dia.

Maneiras de compensar

Um estudo publicado na revista científica New England Journal of Medicine sugere que, ao contrário do que se acredita, o ganho de peso de um grupo de voluntários não foi mais acentuado durante as festas de fim de ano. Mas essas pessoas tiveram mais dificuldades de perder os quilos extras depois das férias, provocando um acúmulo de peso ano a ano.

"Um ganho de 0,48 quilos nos meses de festas e também durante o inverno provavelmente contribui para o aumento de peso que frequentemente ocorre na idade adulta", afirma o artigo.

Outra pesquisa, publicada no Journal of Physiology, descobriu que até mesmo uma pequena quantidade de atividade física durante o período das festas pode ajudar. Segundo os autores, um exercício diário em uma época em que a ingestão de calorias é bem maior que o normal, melhora a regulação do açúcar no sangue e diminui a indesejada variação genética nas células de gordura.

"Meu conselho aos pacientes é se divertir e aproveitar, mas depois compensar – manter uns dias de alimentação leve e fazer caminhadas", diz Hoare.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Fazer pão é uma arte no Tadjquistão


No último domingo, comentamos sobre as agruras de se levar uma vida feliz no Tadjquistão, mas nem tudo é só tristeza e repressão.

Há beleza também, como você pode observar no vídeo abaixo, da National Geographic, que mostra o belo ritual para fazer pães, a principal fonte de calorias da população local.

O vídeo foi gravado em Kumsangir, a 50 km da fronteira com o Afeganistão.




sábado, 22 de agosto de 2015

Comer pimenta pode ser o segredo para uma vida longa


É o que diz uma pesquisa da Universidade de Harvard, que segue mais abaixo.

Restam duas dúvidas cruéis entretanto, uma real e outra imaginária, se bem que a primeira é praticamente uma certeza: quem tem hemorroida ou doença hemorroidária deve continuar passando longe de pimenta?

A dúvida imaginária é uma tentativa de se fazer humor: imagine o quanto vive aquele sujeito que você chama de "seca-pimenteira"?

Confira a matéria do Brasil Post:

Pessoas que comem pimenta têm menos risco de morrer cedo, sugere pesquisa

Ione Aguiar

Boa notícia para quem curte pimenta: pessoas que comem comida picante mais de três vezes por semana podem viver mais.

Cientistas da Harvard University analisaram os hábitos alimentares e o estado de saúde de quase 500 mil chineses ao longo de sete anos, considerando fatores como sexo, idade, estado civil, frequência de exercícios, escolaridade e outros.

A conclusão do estudo, publicado no British Medical Journal, foi a taxa de mortalidade foi 10% menor entre aqueles que comem pimenta -- principalmente a fresca-- mais de uma vez por semana, e 14% menor entre aqueles que come entre três e sete vezes por semana.

"A relação inversa entre a mortalidade e o consumo de alimentos apimentados foi mais forte até do que a diferença entre os que consumiam álcool e não consumiam", disseram os pesquisadores.

Estúdios prévios já mostraram que a capsaicina, substância que faz a pimenta arder, tem propriedades antiinflamatórias, além de ser uma espécie de "antibiótico natural".

Vale lembrar que, como em quase todo estudo desse tipo, não há como comprovar relação de causalidade entre a pimenta e a taxa de mortalidade.

O fato é que quem comeu pimenta não morreu tão cedo, mas isso pode ter várias explicações. É possível, por exemplo, que pessoas com saúde mais fraca evitem coisas picantes.

Por isso, os autores do estudo não recomendam que você passe a comer pimenta todo dia se você já não tem esse hábito, principalmente se tiver o estômago sensível.

"Basta aumentar a quantidade moderadamente. Comer de uma a duas vezes por semana tem efeito muito similar a comer de três a cinco vezes", disse Lu Qi, professor da Harvard School of Public Health e autor do estudo, à Time.



segunda-feira, 20 de julho de 2015

Estamos comendo carne demais


A matéria é do IHU:


A carne do futuro será a do passado.
Consumo de carne cresce em ritmo acelerado e pode se tornar insustentável


Na coroação da rainha Isabel II, em 1953, foi servido frango, uma ave que pode parecer muito pouco nobre para um momento de pompa como este. Daquela cerimônia nasceu uma das receitas britânicas mais famosas, a Coronation Chicken. A partir de então, o consumo de carne no Ocidente acelerou-se de forma tão espetacular que aquilo que era extraordinário agora é comum. Só entre 1990 e 2012, segundo dados da FAO, o número de frangos no mundo cresceu 104,2%, passando de 11.788 para 24,7 bilhões, e o gado bovino, muito poluidor para o meio ambiente, passou de 1,4 bilhão para quase 1,7 bilhão de cabeças (um aumento de 16,5%). O problema está em saber se o planeta tem condições para suportar este aumento: um estudo de 2013, também da organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura, garante que a produção da carne é responsável por 14,5% das emissões de carbono e que, ao mesmo tempo, nos países desenvolvidos o consumo de carne cresce em torno de 5% ou 6% ao ano. “O gado tem um papel muito importante na mudança climática”, concluía a FAO.

A reportagem é de Guillermo Altares e publicada por El País, 15-07-2015. A tradução é de André Langer.

“A nossa alimentação está baseada em produtos de origem animal e sabemos que sua repercussão ambiental é muito grande”, explica Emilio Martínez de Victoria Muñoz, ex-presidente do Comitê Científico da Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição. “Um quilo de carne é muito menos sustentável que um quilo de verduras”. O antropólogo Jesús Contreras, do Observatório da Alimentação, assinala: “Se todos os habitantes da China consumissem a mesma quantia de carne que nós, seria insustentável. Temos um problema de sustentabilidade, porque mantemos uma alimentação energeticamente muito cara”.

A carne sofreu várias crises. Por um lado, existem os conselhos médicos relacionados ao excessivo consumo de determinadas variedades (suínos, carne vermelha). Por outro lado, como ocorreu com as vacas loucas, há as polêmicas provocadas pelos produtos com os quais se alimenta o gado. Mas o grande problema envolvido em seu consumo tem agora muito mais a ver com o meio ambiente do que com a saúde. A chamada pegada de carbono, que mede os recursos necessários para produzir algo, é gigantesca no caso da carne, tanto que ninguém acredita que se possa manter o ritmo atual. Novamente segundo a FAO, no conjunto dos países desenvolvidos consumiam-se em média 60 quilos de carne em 1964; agora são 95,7 e calcula-se que serão 100,1 em 2030.

O jornalista Andrew Lawyer, que acaba de publicar um livro sobre a história dos frangos, Why did the chicken cross the world? (Por que o frango cruzou o mundo?), garante não poder calcular o número de aves que são sacrificadas diariamente no mundo: “Não existem estatísticas, mas estou seguro de que são dezenas de milhões. O consumo de frango cresce muito rapidamente. Quanto mais urbanizados são os países, mais ovos e frangos consomem”. A Espanha passou de uma produção de 836 mil toneladas de carne de aves para 1,3 milhão entre 1990 e 2013.

A carne representa uma indústria muito importante na Espanha. Segundo os últimos dados disponíveis da associação de produtores de carne, em 2013 o país exportou 1,57 milhão de toneladas pelo valor de 4,2 bilhões de euros. Com 3,4% da produção mundial, a Espanha é, além disso, o quarto maior produtor de carne suína, atrás apenas da China (que produz 50% da carne suína do mundo), dos Estados Unidos (10%) e da Alemanha (5,3%). Ao mesmo tempo, é o segundo país europeu em produção, representando 16% do total.

Esse mundo industrial, do qual vivem milhares de pequenas economias – basta recordar a crise que houve em Burgos no final de 2014 quando um incêndio destruiu a fábrica de Cantimpalos –, pode ser encontrado na localidade de Cantimpalos, com 1.400 habitantes, 16 indústrias de embutidos e uma produção de chouriço de 42 toneladas em 2013: “O setor de suínos não tem ajudas comunitárias”, explica Pedro Matarranz (foto abaixo), um pequeno produtor. “Este povo vive das indústrias de embutidos, da pecuária ou da agricultura”, afirma.

Sob o calor de julho no planalto da Segóvia, uma visita à sua pequena propriedade mostra as enormes dificuldades do ofício, desde o manejo de cerca de 500 toneladas de esterco ao ano (apesar de que ele utilize sobretudo palha) para transformá-los em adubo até as enormes medidas de segurança alimentar. Também em escala familiar, que beira o artesanal, a carne de porco requer um esforço energético muito grande.

“A alimentação do futuro será a alimentação do passado”, explica Sandro Dernini, assessor da FAO. “A pegada de carbono da produção de proteínas animais é enorme”, assinala. “Este ofício mudou muito pouco em 200 anos”, explica Jesús González Veneros (ver primeira foto), um pecuarista de Ávila, enquanto aponta para as manchas pretas em um morro distante da Sierra de Gredos. Um olho inexperiente é incapaz de distinguir o gado, mas ele o localiza perfeitamente. Para chegar até ali precisa de um cavalo, como seu bisavô, seu avô e seu pai, que também eram criadores de gado. Estas propriedades representam a máxima expressão de uma carne ecológica, da qual depende um ecossistema econômico e social, mas é impossível que por meio deste tipo de propriedade se consiga sustentar a demanda mundial, salvo se reduza drasticamente o seu consumo.

Este problema se coloca, além disso, em um mundo no qual em torno de 900 milhões de pessoas passam fome diariamente. Como assinala a FAO, o setor de carnes enfrenta um desafio impossível de aumentar a produção diante de um crescimento da demanda e da população do planeta e a necessidade de frear ao mesmo tempo as emissões.



terça-feira, 9 de junho de 2015

Justiça italiana decide que mãe vegetariana deve dar carne ao filho


Notícia interessante da BBC Brasil:

Justiça italiana obriga mãe macrobiótica a dar carne para filho

Erika Zidko

Na Itália, cada vez mais a alimentação dos filhos é caso de Justiça. Uma recente decisão do Tribunal de Bergamo, no norte do país, obrigando uma mãe a modificar a dieta macrobiótica do filho, acendeu o debate sobre o controle de regimes alimentares de filhos de pais separados.

De acordo com o jornal L'Eco di Bergamo, a ação foi movida pelo pai de uma criança de 12 anos contra a ex-mulher, adepta da dieta macrobiótica (alimentação rica em cereais e legumes). Com a decisão, a mãe deve incluir carne na refeição do filho ao menos uma vez por semana. Já o pai se compromete a não dar carne mais de duas vezes nos finais de semana em que estiver com a criança.

"Cada vez mais, em casos de separação e divórcio, os filhos são o centro de polêmicas e acabam sendo instrumentalizados pelos pais. A questão alimentar, que é particularmente delicada, é uma delas. É um fenômeno que tem ocorrido com maior frequência", diz à BBC Brasil o advogado Carlo Prisco, especialista em questões relacionadas à alimentação vegetariana (que exclui carne) e vegana (priva de qualquer substância de origem animal).

Apesar de ser uma ordem judiciária, a decisão de Bergamo não é tecnicamente uma sentença, é um acordo entre as partes, orientado pelo juiz. "Quando os pais separados divergem sobre o regime alimentar dos filhos, na maioria das vezes os vegetarianos ou veganos acabam cedendo à pressão para evitar maiores conflitos", afirma o advogado.

Já o caso contrário é mais raro, segundo o advogado.

"É difícil ver alguém entrar na Justiça para garantir a alimentação vegana aos filhos. A maioria se sente desencorajada."

Prisco vê como preconceituosa a posição de muitos médicos e juízes em relação à alimentação vegetariana ou vegana.

"A maioria tende a deduzir que a alimentação onívora (que inclui indiferentemente substâncias animais ou vegetais) seja a mais saudável por conter mais alimentos. Acreditam, erroneamente, que o melhor genitor é o que oferece mais comida. Além disso, o simples fato de se declarar onívora ou vegana, não significa que a pessoa se nutra, efetivamente, de forma correta e equilibrada."

Mas as disputas relacionadas a regimes alimentares não acontecem apenas em família. Contratado por um casal vegano, o advogado está acompanhando o caso de uma criança de quase dois anos de idade cujo pediatra, após constatar que o peso e a altura estavam pouco abaixo da média e que o paciente seguia a dieta dos pais, advertiu os serviços de assistência social.

A perícia de um segundo médico, contratado pela família, certificou que o menor não apresenta problemas de desenvolvimento.

"Muitas vezes o estado de saúde da criança é determinado apenas com base na rapidez do crescimento. Outros fatores, como exames de sangue, ausência de patologias e o fato de que não seja obesa não são levados em consideração", afirma Prisco.

Ele também move uma ação no Tribunal de Bolzano contra um jardim de infância que, apesar de oferecer um cardápio alternativo à dieta onívora, como determina o Ministério da Educação, exige que cada mãe que optar pela dieta vegetariana para o seu filho apresente regularmente certificados médicos da criança.

"Acreditamos que se trate de uma discriminação. A previsão é de que a sentença seja divulgada no próximos dias. Se vencermos a ação, outros pais poderão basear-se nesta decisão."

Mudanças culturais

Para Annamaria Bernardini de Pace, uma das advogadas de Direito de Família mais conhecidas da Itália, a alimentação dos filhos é e sempre foi motivo de briga entre pais separados ou divorciados.

"Do mesmo modo como discutem para decidir entre escola pública ou particular, curso de inglês ou de alemão, férias na praia ou em montanha, se frequentar ou não as aulas de religião, eles questionam muito a dieta dos filhos. Há quem tema a obesidade e acuse o outro genitor por deixar os filhos comerem demais, há quem se preocupe que as filhas façam regime quando estão com a mãe e possam tornar-se anoréxicas", disse à BBC Brasil.

A decisão do Tribunal de Bergamo, segundo a advogada, demonstra que problemas deste tipo existem. "A dieta normal é a onívora. As outras formas de alimentação, como vegetariana, macrobiótica, são escolhas minoritárias e nem sempre são aceitas pelo outro genitor."

"As pessoas devem ter a liberdade de escolha, mas quando os pais não conseguem entrar em acordo sobre a alimentação dos filhos menores é o juiz quem deve intervir, baseando-se no parecer de médicos, psicólogos ou outros especialistas", afirma.

"Não existe um preconceito contra quem não segue a dieta normal", diz a advogada. "Até porque muitos juízes são vegetarianos."



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Dieta propõe reduzir risco de Alzheimer em 50%


A matéria é do Brasil Post:

Esta dieta pode cortar seus riscos de Alzheimer em 50%

The Huffington Post | De Carolyn Gregoire

E se houvesse uma medida preventiva que pudesse cortar pela metade o risco de desenvolver mal de Alzheimer?

Alguns nutricionistas podem ter encontrado a fórmula: uma dieta mediterrânea com muitos nutrientes e pequenas quantidades de açúcar e gorduras não-saudáveis.

A dieta ganhou o nome de MIND (em inglês, a palavra significa mente e compõe a sigla de intervenção mediterrânea para retardar a degeneração neurológica) e pode ser eficaz mesmo que não seguida à risca, segundo um novo estudo da Universidade Rush . Pesquisadores descobriram que as pessoas que seguiram a dieta de perto tinham uma probabilidade 53% menor de desenvolver Alzheimer. Aqueles que a fizeram de forma moderada baixaram em 35% o risco de desenvolver dessa doença devastadora.

A dieta MIND incorpora elementos da dieta mediterrânea – muito peixe, gorduras saudáveis, vegetais e grãos integrais, uma combinação que pode reduzir o risco de doenças cardíacas e câncer – e da DASH (sigla em inglês para abordagem dietética para evitar a hipertensão) – que tem muitas frutas, vegetais e laticínios de baixo teor de gordura e pode reduzir o risco de hipertensão, ataques do coração e derrames.

Em um comunicado de imprensa, os pesquisadores afirmam que a dieta MIND é mais fácil de seguir que a dieta mediterrânea completa, que exige consumo diário de peixe e várias porções de frutas e vegetais.

Eis um dia típico da dieta MIND:

3 porções de grãos integrais
Uma salada mais um vegetal
Um copo de vinho
Nozes para o lanche
Mirtilo ou morangos
Frango ou peixe
Feijões (dia sim dia não)

Além de ingerir esses alimento saudáveis, o protocolo MIND exige evitar comidas como manteiga e queijo, carne vermelha, doces e comidas fritas ou processadas.

No geral, a dieta “enfatiza comidas baseadas em plantas e consumo limitado de carne animal e comidas com gorduras saturadas, além de especificar o consumo de frutas silvestres e verduras”, diz o estudo.

Para avaliar o efeito protetor da dieta, os pesquisadores olharam para os dados de consumo de comida de 900 americanos mais velhos que já participavam do Projeto Rush de Memória e Envelhecimento. O projeto começou em 1997 e estuda problemas relacionados ao envelhecimento. Em vez de pedir que os voluntários do estudo seguissem a dieta MIND, eles analisaram dados de uma década dos participantes que já se alimentavam segundo os princípios da dieta, assim como aqueles que baseavam sua alimentação nas dietas mediterrânea e DASH.

Ao longo de um período de cinco anos, a equipe coletou dados de incidência de Alzheimer. O estudo controlou vários fatores que têm influência conhecida no desenvolvimento da doença, como educação, atividade física, fumo e condições cardiovasculares.

A equipe descobriu que a dieta MIND reduzia os riscos de Alzheimer em 53%, enquanto a dieta mediterrânea reduzia os riscos em 54% e a DASH, em 39%. Mas, mesmo quando a dieta MIND era seguida de forma parcial, o risco de desenvolver Alzheimer foi reduzido em 35%. No caso das outras dietas, os benefícios foram negligenciáveis.

“Foi surpreendente descobrir que até mesmo os indivíduos que faziam a dieta MIND de forma moderada tiveram redução no risco de Alzheimer”, disse por email ao The Huffington Post Martha Morris, autora do estudo. “Não foi o caso com a dieta DASH ou a mediterrânea. Para ambas, só uma aderência completa mostrou benefícios.”

A explicação deve residir no fato de que a dieta MIND foi desenvolvida especificamente para refletir as pesquisas mais recentes sobre nutrição e cérebro, diz Morris. Se seguida por muitos anos, a dieta é muito promissora na prevenção do mal de Alzheimer.

“As pessoas que se alimentam conforme essa dieta ao longo dos anos têm a melhor proteção”, diz Morris em um comunicado.

Muitos fatores podem contribuir para o desenvolvimento da doença – incluindo genética, ambiente e estilo de vida --, mas a pesquisa sugere que a dieta certamente está entre esses fatores. Portanto, a nutrição pode ser uma medida preventiva eficaz.

A pesquisa foi publicada na edição de março do Journal of the Alzheimer’s Association.



domingo, 11 de janeiro de 2015

As vacas não são nem um pouco sagradas


Artigo curioso publicado no Brasil Post:

As vacas são a raiz de todo o mal, mas nós estamos com muita fome para nos importarmos

The Huffington Post | De Andy McDonald

Vistos em perspectiva, todos esses fatores fazem sentido: o esgotamento acelerado de nossos recursos naturais, as agressões à nossa saúde corporal, o bombardeio de nosso olfato, a flatulência que está destruindo o planeta –as vacas só podem querer acabar conosco. Ou, no mínimo, querem que saiamos do caminho para deixar a área livre para a chegada de seus senhores extraterrestres. De um jeito ou outro, as vacas estão à raiz de todo o mal.

Vejamos.

As vacas usam nosso espaço e devoram nosso alimento

Alimentar nosso modo de vida carnívoro requer quantidades imensas de recursos. Embora a carne bovina seja uma delícia, não seria descabido questionar se estamos recebendo valor suficiente em troca do que estamos dando. Para produzir um único hambúrguer de 114 gramas são necessários 6,92 metros quadrados de terra de pastagem e para o plantio de variedades que vão alimentar o gado, mais 200 litros de água para o gado e a irrigação de plantações.

A criação de animais ocupa um quarto da superfície terrestre do planeta, e boa parte dessa área é usada para criar gado bovino. Para alimentar esses animais, usamos um terço das terras aráveis do mundo.

Muitos enxergam a criação de animais, e mais especificamente de vacas, como uma maneira altamente ineficiente de alimentar a população mundial. Rosamond Naylor, professora de economia na Universidade Stanford, disse ao New York Times que a produção de uma caloria de carne através da criação de gado consome duas a cinco vezes mais grãos do que seriam gastos se simplesmente consumíssemos os grãos diretamente. Esse número é multiplicado por dez no caso da carne bovina dos EUA, alimentada com grãos. É um desequilíbrio enorme, especialmente considerando quantos humanos ainda passam fome no mundo.

As vacas invadem nosso corpo como cavalos de Troia

Embora a carne vermelha seja uma boa fonte de proteína e vitaminas B, seu consumo frequente contribui significativamente para a deterioração da saúde cardíaca de milhões de pessoas em todo o mundo. Um estudo conduzido este ano na Clínica Cleveland testou uma substância química pouco conhecida chamada TMAO. Os pesquisadores achavam que a carnitina era a responsável pelo aparecimento de doenças cardíacas, mas na realidade bactérias nos intestinos metabolizam a carnitina e liberam a substância química TMAO, que permite a entrada de colesterol nas paredes das artérias e impede o corpo de excretar o excesso da substância, que entope as artérias.

Mas a descoberta mais reveladora foi que a bactéria que produz o TMAO é encontrada principalmente em pessoas que consomem carne vermelha regularmente. Os veganos e vegetarianos aos quais se pediu que comessem um bife pela primeira vez em pelo menos um ano apresentaram praticamente zero de TMAO em seu sangue.

As vacas são malandras. Elas se disfarçam de bifinhos e outras delícias, e então, uma vez dentro de seu corpo, partem para o ataque às suas artérias com seu colesterol assassino.

Silenciosos ou não, os peidos de vacas são mortíferos

Nos EUA, o gado é responsável por 20% das emissões anuais de metano – ou seja, cerca de 5,5 milhões de toneladas métricas. Um estudo realizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) constatou que a criação de animais é responsável por 14,5% de todos os gases estufa gerados pelo homem, e que, desse total, as emissões gasosas de vacas são responsáveis por quase 40%.

Obviamente, estamos numa encruzilhada da história em termos das mudanças climáticas. Quanto mais pudermos fazer para ajudar a maré a virar, melhor. A flatulência de vacas contribui para o aquecimento acelerado e catastrófico de nosso planeta que, dizem cientistas, vai redefinir drasticamente os traçados costeiros em todo o mundo.

As vacas soltam o que têm que soltar. Será que nós, humanos, não temos outra escolha senão sentir o mau cheiro resultante?

As vacas geram lagos de dejetos

Nas grandes fazendas de criação agroindustrial, o estrume e a urina das vacas são coletados e direcionados para enormes lagoas. Estas são usadas unicamente para conter esse caldo tóxico, às vezes em áreas de até 28 mil metros quadrados, contendo até 200 mil litros de resíduos. Além de emitir substâncias químicas tóxicas como metano, sulfeto de hidrogênio e amônia, essas lagoas geram o risco de infiltração, contaminando a água subterrânea.

E, embora o estrume muitas vezes seja reutilizado como fertilizante em plantações, mesmo essa prática encerra muitos problemas. O uso exagerado de estrume pode levar o excesso a contaminar o ambiente em volta ou a evaporar na forma de gases estufa tóxicos, que poluem a atmosfera e sobreaquecem nosso planeta ainda mais.

É das vacas que vem o queijo, no qual somos viciados

Hoje em dia há queijo em cima de tudo. Adoramos queijo. E, embora o queijo seja uma delícia e proporcione alguns benefícios à saúde, quando você exagera em seu consumo –coisa que acontece com certa frequência --, coisas ruins podem acontecer com seu corpo. O consumo de queijo nos Estados Unidos TRIPLICOU desde 1970. Cada americano consome em média 10,5 quilos de queijo por ano. São mais de 3,17 bilhões de quilos de queijo!

As vacas são usuárias pesadas de drogas

As vacas passam a maior parte do tempo sob o efeito de drogas. É a mesma coisa com muitos animais de criação. Como quando você interage com uma pessoa drogada, pode ser imprevisível e frequentemente problemático. Segundo um relatório do Centro Johns Hopkins por um Futuro Vivível, 80% dos antibióticos vendidos nos Estados Unidos são dados a animais que, então, servem de alimento de humanos. O problema dos antibióticos é que, quando são dados em excesso aos animais, as bactérias que devem combater podem adquirir resistência aos antibióticos. E há evidências crescentes de que os humanos que consomem essas bactérias, muitas vezes em carnes não corretamente cozidas, podem não apenas adoecer, mas também passar a ter resistência a antibióticos.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças constatou que estimados 23 mil americanos morrem a cada ano de infecções resistentes a antibióticos, enquanto 2 milhões adoecem. Para evitar que esses números aumentem, parlamentares estão fazendo um esforço para proibir a venda de carne de animais que receberam antibióticos, mas a agroindústria e a indústria farmacêutica são lobbies poderosos que não têm nenhum interesse em deixar que isso aconteça.

As vacas podem estar colaborando com invasores espaciais

Se quisermos proteger a espécie humana contra qualquer eventualidade, seria bom considerar todas os modos em que a civilização humana poderia desabar. E um dos cenários potenciais seria – sim, isso mesmo – “As Vacas se Aliam aos ETs”. Você pode achar risível hoje, mas, quando os extraterrestres finalmente chegarem, e as vacas ganharem uma posição de autoridade sobre os homens, a título de recompensa por toda a ajuda deliciosa que prestaram, você vai questionar por que lhes demos uma posição de tanto destaque em nossa mesa, para começo de conversa. E vale apostar que, depois de tudo o que nós lhes fizemos, elas não serão muito boazinhas quando chegar a hora de mandar em nós.

Pense um pouco. Se você fosse uma espécie alienígena interessada em conquistar a raça humana, planejaria um ataque frontal, cutucando o vespeiro e nos levando a mergulhar num frenesi defensivo imprevisível? Ou optaria por enfraquecer a humanidade aos pouquinhos, mirando uma de suas maiores fontes alimentares, a meiga vaquinha, num esforço de deixar a raça humana enfraquecida e pronta para ser dominada? Se fosse bem feito, quando os ETs finalmente invadissem nosso planeta, estaríamos cochilando num coma alimentar e nem prestaríamos atenção.

Isso pode levar algumas pessoas a perguntar: “Mas então por que vacas são sequestradas e mutiladas por aliens?”. Talvez os seres de outros mundos estejam querendo conhecer a biologia bovina mais de perto, para afiar seu plano de dominação mundial através das vacas. Ou então eles estão degustando a carne de vaca, eles próprios. Porque ela é uma delícia.

Uma vaca aí fora pode ser o demo

O Diabo tem chifres. Vacas, também. As provas se acumulam.

Ei, todo mundo: a lua de mel acabou

Está na hora de enxergarmos as ameaças que as vacas representam para a raça humana: para nossa saúde, nosso meio ambiente, nossa própria existência enquanto espécie.

Vamos parar de ser estúpidos. Como em quase tudo, vamos seguir o conselho de Troy McClure, dos Simpsons:
“Não se iluda, Jimmy. Se uma vaca tivesse a chance, devoraria você e todo o mundo de quem você gosta.”




domingo, 5 de janeiro de 2014

Prazer com desgraça alheia pode não ser tão ruim

Que tal fazer uma viagem profunda aos inescrutáveis labirintos da alma humana lendo o artigo abaixo, publicado no UOL Bem-Estar?

Sentir prazer com o constrangimento alheio não é tão ruim, diz psicólogo

Christie Aschwanden 
The New York Times

A espetacular decadência do atleta mais bem pago do mundo teve início quando ele bateu um Cadillac utilitário em um hidrante e uma árvore. Os relatos iniciais do acidente de Tiger Woods, ocorrido em 2009, davam conta de que sua esposa tinha quebrado a janela do veículo com um taco de golfe para tirá-lo lá de dentro, mas quando se espalhou a notícia de que o casal tinha tido brigas motivadas por alegações de infidelidade de Woods, a janela quebrada se tornou uma metáfora do desmoronamento da sua reputação.

À medida que o escândalo foi se desenrolando, a celebridade esportiva que tinha construído um império baseado na sua imagem de homem de família íntegro foi se revelando um viciado em sexo extraconjugal, autor de mensagens de mau gosto para amantes e acompanhantes pagas. Quase de um dia para o outro, Woods passou a ser ridicularizado, inclusive com um site e uma conta no Twitter cujo único propósito era de publicar piadas sobre ele.

O prazer perverso sobre o rumo desses acontecimentos é designado por uma palavra alemã tão perfeita para ele que passamos a adotá-la em inglês. "Schadenfreude", ou "alegria perante o prejuízo", é o prazer derivado do infortúnio de outrem, e Richard H. Smith, professor de psicologia da Universidade de Kentucky, dedicou a carreira a estudá-la, pesquisando ainda outras emoções ligadas ao convívio social, tendo inclusive publicado uma antologia sobre a inveja, parente próximo do "schadenfreude".

Função adaptativa

Por mais perverso que esse sentimento possa parecer, ele tem uma função adaptativa, argumenta Smith neste agradável livro. Trata-se de uma emoção que decorre de comparações sociais que nos permitem avaliar os nossos talentos e perceber qual a nossa posição na ordem social. O desejo de fazer essas comparações parece ser um padrão recorrente - estudos mostram que até macacos e cães se comparam com os seus pares.

O "schadenfreude" nos dá uma ideia do que os psicólogos Roy F. Baumeister e Brad J. Bushman têm chamado de "o conflito mais básico da psique humana" – o atrito entre os nossos impulsos egoístas e o autocontrole. "Somos todos selvagens por dentro", escreveu Cheryl Strayed em sua coluna Dear Sugar no site The Rumpus. "Todos nós queremos ser o escolhido, o amado e o estimado."

Porém, a vida nem sempre é assim, e quando nos deparamos com alguém mais escolhido, amado ou estimado do que somos, o nosso instinto natural é querer colocá-lo no nosso nível. Se esse desejo imoral é por acaso atendido, o sentimento de "schadenfreude" se manifesta. Clive James capturou o espírito desse sentimento em um poema que tira seu título de sua primeira linha: "O livro do meu inimigo foi descartado / E eu estou satisfeito".

Quando a inveja invoca dor, o "schadenfreude" fornece um antídoto poderoso. O sucesso de Woods no campo de golfe e a sua vida aparentemente perfeita - sua linda esposa e família, sua reputação ilibada – "representavam um contraste agudo para a maioria das pessoas, mesmo que elas não estivessem interessadas em golfe", escreve Smith. Embora algumas pessoas tivessem sido certamente inspiradas por ele, talvez um número maior ainda delas se sentisse diminuído. A sua decadência o trouxe para mais perto do nível dessas pessoas, e, assim, permitiu que aqueles que o invejavam se sentissem melhor consigo mesmos.

Reality shows

O filósofo do século 17 Thomas Hobbes afirmou que o humor muitas vezes vem de uma súbita sensação de superioridade, e Smith escreve que a nossa cultura se desenvolve com base em comparações feitas a partir de uma posição de superioridade que proporcionam essa "glória repentina".

"Será que assistimos aos reality shows em busca de conhecimentos preciosos sobre a condição humana?", pergunta ele. "Por favor. Nós assistimos a esse tipo em programa em busca daquelas cenas constrangedoras que nos fazem sentir um pouquinho melhores quanto às nossas próprias vidinhas anônimas."

Uma sensibilidade semelhante alimenta as revistas de fofoca. Em uma análise que investigou durante dez semanas as publicações da The National Enquirer, Smith e Katie Boucher, psicóloga da Universidade de Indiana, descobriram que quanto mais alto for o status de uma celebridade, maior a probabilidade de encontrar um artigo sobre ela focado em infortúnios.

Sentimos ainda mais prazer quando o "schadenfreude" parece merecido, como acontece quando o status mais elevado de alguém abala a nossa autoimagem. Uma pesquisa feita por Benoît Monin, um psicólogo social de Stanford, mostra que a mera presença de um vegetariano pode fazer os onívoros se sentirem moralmente inferiores, já que eles preveem que serão julgados.

"Os vegetarianos não precisam dizer uma palavra; o mero fato de existirem, do ponto de vista de um comedor de carne, causa uma irritação moral", escreve Smith. Descobrir que a pessoa de comportamento supostamente superior está sendo hipócrita alivia essa irritação, de modo que pegar um vegetariano devorando um pedaço de carne faz com que os amantes de bife sintam uma explosão de "schadenfreude": "Nós não somos tão inferiores quanto fomos levados a acreditar; agora podemos assumir a posição contrastante de superioridade moral".

Segundo as suas definições tradicionais, o "schadenfreude" é uma emoção passiva sentida pelos espectadores que não desempenham funções nos infortúnios experimentados pela pessoa que têm como alvo, mas Smith argumenta que essa demarcação é "estreita demais", alegando que embora a ação "complique a situação", ela não elimina o "schadenfreude".

No entanto, ampliar o sentido do termo de modo a incluir a vingança e outras ações tira a especificidade da característica de satisfação da palavra. É a falta de participação por parte das testemunhas que adiciona um sentido de deleite ao "schadenfreude" e torna o seu reconhecimento permissível – a pessoa que você tinha secretamente como alvo se deu mal, e você não teve nada a ver com isso.

Embora este livro seja destinado para leitores leigos, a escrita às vezes parece acadêmica, e o autor se mostra muito propenso a fazer resumos, oferecendo citações sucessivas de outros estudiosos, quando seria melhor uma síntese mais forte ao leitor. E, embora seja provavelmente verdade que as comparações sociais subjacentes ao "schadenfreude" ajudaram a alimentar o antissemitismo na Alemanha nazista, um capítulo sobre o papel do "schadenfreude" no Holocausto se apresenta como uma tentativa de dar ao assunto uma gravidade desnecessária.

Apesar de suas falhas, vale a pena ler este livro curto para conhecer os seus insights sobre o lado sombrio da natureza humana e as ilustrações maravilhosas que aparecem periodicamente no texto. Feitos pela filha do autor, Rosanna Smith, esses desenhos – uma tartaruga erguendo o braço para expressar vitória, a formiga e o gafanhoto de Esopo dividindo uma refeição – dão a mesma sensação de prazer suscitada pelas ilustrações que apimentam as páginas da revista The New Yorker.

Smith conclui que "o 'schadenfreude' não precisa ser demonizado". É melhor aproveitar a oportunidade que ele oferece de saciar nossos lados sombrios do que negar a sua existência. Enquanto permanecer passivo, o "schadenfreude" pode melhorar a nossa autoestima e nos lembrar de que até mesmo as pessoas mais invejáveis são falíveis – assim como nós.

Sobre o livro:

'The Joy of Pain: Schadenfreude and the Dark Side of Human Nature'
("A alegria diante da dor: o Schadenfreude e o lado sombrio da natureza humana", em tradução livre)
Por Richard H. Smith
256 páginas. Oxford University Press. U$ 24,95

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