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sábado, 27 de dezembro de 2014

O Natal dos zumbis

consumismo natal
Crônica interessante de Eugênio Bucci sobre o moderno significado do Natal, sujeita a múltiplas interpretações ideológicas ao gosto do leitor, que foi publicada no Estadão de 25/12/14:

'Papai Noel, me dá um morto-vivo de Natal?'


Neste novo mundo em que as crianças aprendem inglês decorando o nome de tanques de guerra, morrer não é mais tão definitivo


Nos primórdios dessa história, as meninas pediam bonecas que abriam e fechavam os olhinhos e os meninos pediam um revólver com cinturão e coldre de couro marrom para brincar de mocinho. Nos primórdios dessa história, o emprego de Papai Noel era mais previsível. Uma cozinha em miniatura. Uma espada de plástico. Brincando, as meninas eram adestradas a ser donas de casa. Os meninos aprendiam que a hombridade pressupõe a habilidade de assassinar.

Nos primórdios, era mais fácil. Era mais fácil ser Papai Noel e, também, era mais fácil criticar o Papai Noel. Fácil até demais. O bom velhinho começou a ser contestado por vozes que não queriam que ele estivesse a serviço da mera reprodução do modo de vida viciado da mulherzinha oprimida e do macho homicida. Os ideais libertários da década de 1960 impuseram adaptações pedagógicas (e chatas) ao ofício de dar presentes. O Natal deveria ser, por que não?, um motor da construção do "mundo melhor". Surgiriam assim Papais Noéis meio de esquerda, engajados em causas como a solidariedade, a fraternidade e até mesmo a paz entre as nações.

Tudo ia bem até que, no bojo da chamada revolução tecnológica, viria uma mudança súbita para desorientar os pais que se recusavam a dar bonequinhas submissas às filhas e armas de brinquedo aos filhos. Pretensamente modernos, esses pais queriam dar presentes educativos. No dia de Natal, davam joguinhos eletrônicos embrulhados em papéis metálicos, crentes de que estavam abrindo os caminhos do futuro tecnológico para as novas gerações. Depois, vendo os filhos brincarem com as novíssimas invenções, ficavam estarrecidos. Viam que, em lugar de um reles "revolvinho" de espoleta, tinham presenteado seus herdeiros com gincanas de dizimar "terroristas árabes" com uma pistola 9mm numa mão e um AK47 na outra.

O teatro da guerra que horrorizava os adultos tinha se tornado o passatempo mais excitante das crianças. Nesse embalo, a indústria dos games virou uma febre transnacional, suplantou a indústria do cinema, transformou o mundo inteiro num cassino (em que os impúberes apostam em dinheiro), estetizou a violência, violentou a estética e revogou a noção que tínhamos da morte. Neste novo mundo em que as crianças aprendem inglês decorando o nome de tanques de guerra, morrer não é mais tão definitivo. Se o jogador leva um tiro na cara, ele vai lá e "compra" novas vidas. A vida é uma mercadoria. Os inimigos também contam com o mesmo recurso. Depois de exterminados, ressurgem das trevas, ainda mais ameaçadores. Saídos das profundezas da feitiçaria imemorial, os mortos-vivos ingressaram na indústria do entretenimento para dar vida nova, e múltipla, ao cassino infanto-juvenil em que o planeta se converteu.

Os mortos-vivos são o ideal de beleza e de rentabilidade da indústria do entretenimento. São eles também que ensinam a arte bélica de viver. Graças aos zumbis, as crianças aprenderam que morrer é uma intercorrência descartável, como esfolar o joelho. A morte não é mais uma fronteira simbólica. O zumbi se afirma, agora, como a síntese perfeita de um tempo que se crê inesgotável e invencível. O morto-vivo materializa a condição humana que nos resta.

Já tivemos outros mitos igualmente macabros para animar as fantasias modernas. O Frankenstein de Mary Shelley, por exemplo, produziu com pedaços de cadáveres a criatura viva que o destruiu, na mais célebre metáfora da ciência como força destrutiva. Nascido como ficção na 1.ª Guerra, Frankenstein antecipou o pesadelo da 2.ª Guerra, que traria a inauguração da bomba atômica e as doutrinas que pregavam o genocídio. O monstro de Frankenstein, é claro, também virou máscara de brinquedo de criança e fantasia de carnaval.

Outro mito moderno é o Conde Drácula, de Bram Stocker. O mais famoso vampiro da literatura, Drácula perdura até hoje como a melhor tradução dos que se fartam da energia alheia sem ter de trabalhar. Drácula é aquele a quem o dinheiro nunca falta, aquele que dorme durante o dia e ataca suas vítimas durante noitadas de gozo letal. Também virou brinquedo de criança e adorno carnavalesco.

O interessante é que os dois mitos, o nobre Drácula e a criatura de Frankenstein, são, eles também, precursores do morto-vivo. Um e outro estão além da morte. Não podem morrer, simplesmente. Parecem condenados a não morrer jamais. Também como os zumbis, não existem para assombrar, mas apenas para divertir a humanidade carente de divindades que não seja o Papai Noel (que, aliás, também pode ser visto como uma espécie abobada de morto-vivo).

Os zumbis, contudo, não têm a aura do Drácula ou do monstro de Frankenstein. Não têm uma personalidade individual. Não têm sequer nome e sobrenome. São a massa indiscriminada, o populacho, o proletariado. São mendigos, porteiros, prostitutas, marginais. Em campeões de bilheterias nos cinemas, os zumbis extasiam os adolescentes. Depois, viram games cultuados em todos os continentes. Outras vezes, são os games que inspiram longas-metragens, como no já "clássico" Resident Evil.

Em produções cada vez mais requintadas, os mortos-vivos são o nosso melhor paradigma. Em forma de um game ou de um DVD, chegaram hoje a milhões de lares, trazidos no saco do Papai Noel. Agora, em vez de aprender a ser dona de casa passiva (no caso das meninas) e a ser rápido no gatilho para matar os adversários (no caso dos meninos), as crianças brincam de estar vivas e mortas ao mesmo tempo, como se entre viver e morrer não houvesse mais uma diferença substantiva. Numa era em que o passado é uma obra de ficção e o futuro é necessariamente pior do que os dias atuais, o presente se expande numa embriaguez vazia, tendo a diversão como o único denominador comum. Viver para se divertir é o quanto basta. E só para se divertir vale a pena morrer.

Os mortos-vivos desbancaram a Barbie e o Durango Kid e nos proporcionam um feliz Natal.


zumbi papai noel




domingo, 9 de novembro de 2014

Médicos americanos querem ressuscitar mortos

A matéria é da BBC Brasil:

Médicos que 'ressuscitam mortos' querem testar técnica em humanos

David Robson

"Quando seu corpo está com temperatura de 10 graus, sem atividade cerebral, batimento cardíaco e sangue - é um consenso que você está morto", diz o professor Peter Rhee, da universidade do Arizona. "Mas ainda assim, nós conseguimos trazer você de volta."

Rhee não está exagerando. Com Samuel Tisherman, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, ele comprovou que é possível manter o corpo em estado "suspenso" por horas.

O procedimento já foi testado com animais e é o mais radical possível. Envolve retirar todo o sangue do corpo e esfriá-lo até 20 graus abaixo da sua temperatura normal. Quando o problema no corpo do paciente é resolvido, o sangue volta a ser bombeado, reaquecendo lentamente o sistema. Quando a temperatura do sangue chega a 30 graus, o coração volta a bater.

Os animais submetidos a esse teste tiveram poucos efeitos colaterais ao despertar. "Eles ficam um pouco grogue por um tempo, mas no dia seguinte já estão bem", diz Tisherman.

Testes com humanos

Tisherman causou um frisson internacional este ano quando anunciou que está pronto para fazer testes com humanos. As primeiras cobaias seriam vítimas de armas de fogo em Pittsburgh, na Pensilvânia.

Nesse caso, são pacientes cujos corações já pararam de bater e que não teriam mais chances de sobreviver, pelas técnicas convencionais. O médico americano teme que, por conta de manchetes imprecisas na imprensa, tenha-se criado uma ideia equivocada da sua pesquisa

"Quando as pessoas pensam no assunto, elas pensam em viajantes espaciais sendo congelados e acordados em Júpiter, ou no [personagem] Han Solo, de Guerra nas Estrelas", diz Tisherman.

"Isso não ajuda, porque é importante que as pessoas saibam que não se trata de ficção científica."

Os esforços para trazer as pessoas de volta do que se acredita ser a morte já existem há décadas. Tisherman começou seus estudos com Peter Safar, que nos anos 1960 criou a técnica pioneira de reanimação cardiorrespiratória. Com uma massagem cardíaca, é possível manter o coração artificialmente ativo por um tempo.

"Sempre fomos criados para acreditar que a morte é um momento absoluto, e que quando morremos não tem mais volta", diz Sam Parnia, da Universidade Estadual de Nova York.

"Com a descoberta básica da reanimação cardiorrespiratória nós passamos a entender que as células do corpo demoram horas para atingir uma morte irreversível. Mesmo depois que você já virou um cadáver, ainda existe como resgatá-lo."

Recentemente, um homem de 40 anos no Texas sobreviveu por três horas e meia com a reanimação cardiorrespiratória.

Segundo os médicos de plantão, "todo mundo com dois braços foi chamado para se revezar fazendo as compressões no peito do paciente".

Durante a massagem, ele continuava consciente e conversando com os médicos, mas caso o procedimento fosse interrompido, ele morreria. Eventualmente ele se recuperou e acabou sobrevivendo.

Esse caso de ressuscitação ao longo de um grande período só funcionou porque não havia uma grande lesão no corpo do paciente. Mas isso é raro.

'Limbo'

A técnica desenvolvida agora por Tisherman é baseada na ideia de que baixas temperaturas mantêm o corpo vivo por mais tempo - cerca de uma ou duas horas.

O sangue é retirado e no seu lugar é colocada uma solução salina que ajuda a rebaixar a temperatura do corpo para algo como 10 a 15 graus Celsius.

Em experiência com porcos, cerca de 90% deles se recuperaram quando o sangue foi bombeado de volta. Cada animal passou mais de uma hora no "limbo".

"É uma das coisas mais incríveis de se observar: quando o coração começa a bater de novo", diz Rhee.

Após a operação, foram realizados vários testes para avaliar se houve dano cerebral. Aparentemente nenhum porco apresentou problemas.

O desafio de obter permissão para testar em humanos tem sido enorme até agora. Tisherman e Rhee finalmente receberam permissão para testar sua técnica com vítimas de tiros em Pittsburgh.

Um dos problemas a ser contornado é ver como os pacientes se adaptam com o sangue de outra pessoa. Os porcos receberam o próprio sangue congelado, mas no caso dos humanos será necessário usar o estoque do banco de sangues.

Se der certo, os médicos acreditam que a técnica poderia ser aplicada não só vítimas de lesões, como tiros e facadas, mas em pessoas com ataque cardíaco.

A pesquisa também está levando a outros estudos sobre qual seria a melhor solução química para reduzir o metabolismo do corpo humano.



domingo, 23 de fevereiro de 2014

A síndrome do zumbi


Não, zumbis como aqueles da série The Walking Dead não existem. Pelo menos por enquanto. Há pessoas vivas, entretanto, que - patologicamente - se veem como zumbis.

É o que explica o artigo abaixo, do io9, traduzido e adaptado por Natasha Romanzoti para o HypeScience:

Como tratar um zumbi psicologicamente

A síndrome de Cotard, delírio de Cotard ou síndrome do cadáver ambulante é uma condição que leva as pessoas a acreditar que estão do lado errado da série The Walking Dead. Ou seja, elas pensam que estão realmente mortas. E como você convence alguém de que ele ainda está vivo?

Em 1880, o médico Jules Cotard reportou o primeiro caso desta doença. Sua paciente, conhecida como “Madame X”, acreditava que certas partes do seu corpo haviam desaparecido e que ela não precisava comer. A mulher ainda dizia que sua alma tinha sido roubada pelo diabo, portanto, ela estava morta e não podia morrer. Claro que isso levou a sua real morte, de fome.

Ao longo do século que se seguiu, muitas pessoas foram diagnosticadas com síndrome de Cotard. Seus delírios cobriam vários ângulos de um tema similar: ou elas pensavam que partes de seu corpo estavam mortas, em decomposição, ou faltando, ou simplesmente acreditavam que elas, como pessoas já mortas, não podiam morrer.

Uma mulher filipina de 53 anos de idade foi internada em um hospital psiquiátrico gritando aos médicos que podia sentir o cheiro de sua carne apodrecendo e que deveria ser levada para o necrotério. Um homem no Irã insistiu que estava morto, que era um lobisomem, e que seus filhos haviam se transformado em ovelhas. Duas mulheres chinesas diferentes acreditavam que suas entranhas – coração, fígado ou estômago – haviam sido retiradas e as cavidades preenchidas com água.

Casos mais famosos e clássicos são raros. Um homem de 46 anos acreditava que o seu corpo tinha sido transformado em imaterial, e ele tinha virado um fantasma. Ele parou de comer, já que “não precisava”, e perdeu 14 quilos em dois meses. Acabou internado em um hospital para impedir sua morte por desnutrição. Outro homem foi internado depois de um acidente de moto que o deixou convencido de que ele estava morto. Uma viagem posterior para a África do Sul com sua mãe o convenceu de que ele tinha ido para o inferno (por causa do calor) e que o espírito de sua mãe estava lhe dando um passeio pelo purgatório.

Delírio de Cotard parece ser apenas um aspecto de uma doença mental maior. A maioria dos pacientes são esquizofrênicos, depressivos ou bipolares. Madame X teve a infelicidade de ter a síndrome quando a psiquiatria ainda estava em sua infância, mas hoje a medicina já tem uma visão melhor da condição.

Infelizmente, esta é uma área onde a terapia da conversa raramente tem efeito. Pessoas simplesmente não podem ser convencidas de que estão vivas. No entanto, uma vez que elas já pensam que estão mortas, raramente temem os riscos de tratamentos.

Antipsicóticos e antidepressivos podem ajudar bastante. Além disso, energia elétrica parece ser uma boa forma de trazer as pessoas de volta dos mortos. Uma mulher que acreditou ser um cadáver por sete anos admitiu estar viva novamente após a segunda rodada de eletroconvulsoterapia. Outro homem, que teve lesões em seu cérebro e que afirmava que seu estômago havia desaparecido, não sentiu nenhuma mudança depois de receber medicação, mas respondeu a eletroconvulsoterapia.

Tratamento de choque não é uma coisa brutal como a que vemos em filmes antigos. Os pacientes são anestesiados, recebem choques breves, e só depois são acordados de novo. Pacientes de Cotard muitas vezes se sentem melhor depois de apenas algumas sessões, e começam a socializar, cuidar de si mesmos e aceitar que estão vivos.



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