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domingo, 25 de setembro de 2016

A estranha associação de boa memória com colesterol alto no seu cérebro


Matéria intrigante publicada no El País:

Colesterol, a arma secreta do cérebro para preservar a memória

Cientistas espanhóis comprovam em ratos que essa molécula poderia prevenir os sintomas da demência e o Alzheimer

NUÑO DOMÍNGUEZ

Uma de cada três pessoas sofrerá de demência ao longo de sua vida. A perda progressiva da memória é uma das consequências mais frequentes do envelhecimento e se deve a uma longa relação de alterações que ocorrem no encéfalo e que se acumulam com o passar do tempo. Entre elas está a morte de neurônios causada pelo Alzheimer, a variante mais comum de demência, a mais difícil de combater e uma das maiores ameaças enfrentadas pela nossa civilização.

Um novo estudo de pesquisa básica acaba de descobrir uma outra possível causa para a perda da memória e aponta um aliado que poderia ser capaz de resgatá-la: o colesterol.

O excesso de colesterol ruim (LDL) no sangue faz aumentar o risco de infarto e outras doenças cardiovasculares fatais. Mas o cérebro produz o seu próprio colesterol, e, dentro desse órgão, ele é essencial para manter os neurônios vivos e saudáveis.

Cada vez que uma recordação é formada, os neurônios acionam determinados genes para fixá-la. Para isso, precisam ter colesterol o suficiente na parte exterior de sua membrana. Como um óleo que lubrifica uma máquina, o colesterol funciona como um transmissor dos sinais externos necessários para ativar os genes. A presença dessa molécula no encéfalo tende a diminuir com a idade, e as pessoas idosas, sejam saudáveis ou atingidas pelo Alzheimer, costumam apresentar taxas de colesterol cerebral inferiores ao normal.

Nesse novo estudo, publicado em Cell Reports, a equipe de Carlos Dottino, pesquisador do Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa, de Madri, demonstra o papel fundamental desempenhado por essa molécula para a manutenção da memória em bom estado. Os ratos mais velhos possuem taxas de colesterol baixas demais no hipocampo, uma área do cérebro relacionada à memória. Os cientistas demonstram que, quando se aplica uma substância que impede a perda de colesterol no encéfalo, a memória dos roedores mais velhos melhora significativamente. Isso poderia abrir um novo caminho para a melhora da memória em pessoas idosas.

“Acreditamos que essa descoberta pode avançar para a clínica”, explica Dotti ao EL PAÍS. “Normalmente, seriam necessários muitos estudos” sobre a substância utilizada no trabalho, mas, neste caso, “muitas delas já estão disponíveis, pois a droga em questão já foi aprovada, e se trata do voriconazol”. Esse medicamento, que leva o nome comercial de Vfend e é produzido pela Pfizer, é usado para combater infecções por fungos em pessoas com o sistema imunológico muito fragilizado, como as que acabam de receber um transplante ou que contraíram aids.

Por acaso, a equipe acabou por descobrir que essa substância também inibe uma enzima responsável pela eliminação do colesterol dentro do cérebro e cuja atividade é acelerada com o passar dos anos. Nos animais estudados, o medicamento inibe esse efeito negativo da idade e permite que todo o colesterol necessário seja preservado, e, com ele, a memória. O próximo passo, comenta Dotti, “seria testar o medicamento em animais mais parecidos com os humanos, cães ou macacos”, e comprovar se também nesses casos a capacidade cognitiva é resgatada.

O risco das estatinas

“Trata-se de um estudo em ratos. Por isso, é preciso vê-lo com cautela. Mas, de todo modo, é uma demonstração de que o colesterol não é o inimigo público número um”, avalia Félix Viñuela, coordenador do Grupo de Estudos de Neuropsicologia da Sociedade Espanhola de Neurologia. O pesquisador destaca a importância dos estudos de ciência básica com ratos, como neste caso. A grande maioria acaba não sendo reproduzível em humanos, admite ele, mas alguns são, como ficou evidenciado recentemente com um anticorpo que poderia combater o Alzheimer em pacientes e que começou a ser testado em ratos há vários anos.

Outro aspecto importante do estudo está relacionado a um tipo de medicamento que é consumido diariamente por milhões de pessoas na Espanha. Hoje em dia, os medicamentos mais utilizados para diminuir o chamado colesterol ruim são as estatinas. Esses compostos são eficazes, mas poderiam ser responsáveis também por efeitos colaterais não previsto inicialmente. Recentemente, a agência de medicamentos dos EUA alertou para o fato de que certos pacientes que ingerem estatinas podem sofrer perda de memória e uma deterioração cognitiva por razões desconhecidas.

“Existem estatinas que são capazes de passar da corrente sanguínea para o cérebro”, explica Dotti, destacando que é possível que essas drogas estejam diminuindo os níveis de colesterol normais no encéfalo e danificando, assim, a memória dos pacientes.

Viñuelas, que não participou diretamente do estudo, mas que irá coordenar um teste com o anticorpo experimental contra o Alzheimer no Hospital Universitário Virgem de Macarena, em Sevilha, concorda: “As estatinas salvaram vidas controlando o colesterol patológico, mas também podem ter um lado negativo”. “Talvez devêssemos nos colocar a possibilidade do uso de estatinas que não sejam capazes de cruzar a barreira de proteção hemato-encefálica”, sugere.



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Como se formam, são arquivadas e acessadas as nossas memórias?

Artigo interessante publicado no Estadão de 27/08/16:

Como são datadas nossas memórias

'Cada lembrança está associada a um conjunto de neurônios responsável por sua manutenção'

Fernando Reinach*

Passei vergonha no dia em que soube do assassinato de John Lennon. Ainda iniciando meu doutoramento, dividia o apartamento com Benjamin, um judeu ortodoxo. Era de manhã. Estava no banho quando Benjamin descobriu que na noite anterior eu havia fritado bacon na sua frigideira. Sem graça, abatido pela bronca, caminhei até o laboratório. Lá descobri que enquanto eu fritava bacon Lennon havia sido assassinado. Depois disso, essas duas memórias estão intimamente associadas no meu cérebro. A novidade é que agora os cientistas descobriram a razão.

Faz alguns anos, sabemos que a formação de uma memória ocorre quando um conjunto de neurônios aumenta sua atividade, reforçando a relação entre eles. Se essa atividade for bloqueada, a memória não se forma. Assim, cada memória está associada a um conjunto de neurônios responsável por sua manutenção. O conjunto de neurônios associado a uma memória é chamado de engram. Cada vez que nos lembramos de uma memória é porque seu engram está ativo.

Quando você ensina um camundongo a ter medo de um som, submetendo o bichinho a um choque elétrico cada vez que ouve o som, é possível demonstrar que um grupo específico de neurônios (o engram dessa memória) é ativado. E as relações entre esses neurônios permanecem fortes enquanto a memória persistir. Se você apagar essa memória, tocando o som sem aplicar o choque, a relação entre esses neurônios fica fraca e o engram desaparece.

Nesse novo experimento os cientistas estudaram a relação entre os engrams de duas memórias formadas sequencialmente. Primeiro, o camundongo ouvia um som (somA) e tomava um choque. Depois ouvia outro som (somB) e também tomava choque. Desse modo, eles ficavam com medo dos dois tipos de som (coitados). Os camundongos estavam divididos em quatro grupos, e a diferença entre os grupos era o tempo que separava o somA/choque do somB/choque durante o treino. Em um grupo o tempo que separava o primeiro do segundo estímulo era 1,5 hora; em outro, 6 horas; e nos outros dois grupos, 18 e 24 horas.

A primeira coisa que os cientistas descobriram é que nos camundongos treinados com intervalos curtos entre os sons A e B (1,5 e 6 horas), quando os cientistas “apagavam” o medo do primeiro som (sem dar o choque), o medo do segundo som também desaparecia. Em outras palavras, se me fizerem esquecer do bacon frito, vou esquecer da morte de Lennon. Mas nos camundongos em que as duas memórias haviam se formado com um intervalo de tempo longo (18 ou 24 horas), quando uma memória era apagada a outra permanecia intacta. Ou seja, se eu tivesse levado a bronca do bacon frito na semana anterior ao assassinato de Lennon, a memória da bronca não estaria associada à morte de Lennon. Esse resultado demonstra que o tempo entre a formação das memórias determina se existe ligação entre elas.

Em seguida, os cientistas estudaram os neurônios ativados por cada uma das duas memórias nos diversos grupos de camundongos (seus engrams). Para isso, eles precisam provocar o medo (som mais choque) e em seguida sacrificar o camundongo e identificar os neurônios que haviam sido ativados. O conjunto de neurônios ativados em cada caso é o engram daquela memória.

Os cientistas descobriram que nos casos em que as memórias haviam se formado com um espaçamento temporal longo (18 e 24 horas) os engrams das duas memórias (medo do som A e medo do som B) eram completamente independentes. Ou seja, os dois engrams não compartilhavam neurônios. Mas no caso dos camundongos em que as memórias haviam sido formadas uma logo após a outra (1,5 e 6 horas) havia uma sobreposição de células entre os dois engrams. Apesar de os engrams serem diferentes, existia um grupo de células que pertencia aos dois engrams.

Essa sobreposição dos engrams explica por que duas memórias ficam associadas em nosso cérebro quando são formadas uma logo depois da outra. Também explica por que a remoção de uma memória leva à perda da outra formada logo em seguida. Como seus engrams têm neurônios em comum, a perda de uma enfraquece a outra.

Esse experimento sugere como o tempo entre memórias é registrado no cérebro. Os engrams de uma memória se sobrepõem ao engram da memória anterior e ao engram da posterior, causando uma cadeia sequencial de engrams que registra o passar do tempo na memória.

Com o envelhecimento, e a perda gradual de neurônios, é de se esperar que a ligação temporal entre as memórias fique mais frágil e é isso que observamos em nossos cérebros ao longo dos anos. Vai chegar um dia em que comer bacon não me fará lembrar da morte de John Lennon. Aí meu colesterol vai subir.

MAIS INFORMAÇÕES: COMPETITION BETWEEN ENGRAMS INFLUENCE FEAR MEMORY FORMATION AND RECALL. SCIENCE VOL. 353 PAG. 383 2016 

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Como o seu trabalho afeta o seu cérebro

Artigo publicado no Brasil Post:

Como a sua profissão afeta o seu cérebro

Ana Prado

O seu trabalho influencia aspectos da sua vida que vão muito além daquelas oito horas que você passa na firma – pode afetar sua saúde, sua vida familiar e até determinar o tipo de pessoas com quem você anda e o tipo de lugar que frequenta. Mas um estudo publicado nesta quarta-feira (29) na Neurology, jornal médico da Academia Americana de Neurologia, indica que ele faz ainda mais: pode determinar como o seu cérebro vai envelhecer.

Os pesquisadores acompanharam 1.054 pessoas com mais de 75 anos por oito anos. Eles passavam, a cada 18 meses, mais ou menos, por um teste clínico chamado “Mini-Mental State Examination” (MMSE), que media sua memória e habilidades de raciocínio. Os participantes também tiveram que contar sua história profissional e categorizar as tarefas que desempenhavam no trabalho em três grupos: executivo (inclui programar trabalhos e atividades, desenvolver estratégias e resolver conflitos), verbal (envolve avaliar e interpretar informações) e fluido (inclui aquelas tarefas que exigem atenção seletiva e análise de dados).

A conclusão foi que profissionais cujos empregos exigem mais atividades verbais, desenvolvimento de estratégias, resolução de conflitos e atividades gerenciais podem apresentar melhor proteção contra o declínio da memória e do raciocínio decorrente da velhice. “Nosso estudo é importante porque sugere que o tipo de trabalho que você faz toda a sua carreira pode ter um significado ainda maior em sua saúde cerebral do que a educação que você teve”, afirmou ao Medical Xpress a autora, Francisca S., da Universidade de Leipzig, na Alemanha. “A educação é um fator bem conhecido que influencia o risco de demência”, completa.

Nos testes de memória e raciocínio, aqueles cujas carreiras tinham o nível mais alto dos três tipos de tarefas marcaram dois pontos a mais em relação às pessoas com nível mais baixo. É importante notar que, nos testes MMSE, uma pequena diferença em pontos faz muita diferença na prática. Eles também tiveram a taxa mais lenta de declínio cognitivo: durante os oito anos em que foram acompanhados, sua taxa de declínio foi a metade da taxa dos outros participantes. As tarefas que mais pesaram para essa diferença foram as executivas e verbais.

Isso quer dizer que ter um trabalho desafiador pode significar um futuro saudável para o seu cérebro. Nas palavras da autora do estudo: “Esses desafios podem ser um elemento positivo, se ajudarem a construir a reserva mental de uma pessoa no longo prazo.”



domingo, 22 de fevereiro de 2015

É possível "aprender dormindo"?


A matéria é da BBC Brasil:

A ciência de 'aprender dormindo'

David Robson

A ideia de aprender enquanto dormimos é tão atraente quanto controversa. Na literatura e no cinema, o mais comum é que ela tome a forma de uma mente inconsciente absorvendo novas informações a partir de uma gravação tocando ao fundo.

Hoje, se sabe que este tipo de aprendizado durante o sono é quase certamente impossível. Embora estudos iniciais tivessem sugerido que as pessoas sejam capazes de guardar alguns fatos durante o sono, a verdade é que os cientistas nunca puderam descartar que elas não tivessem simplesmente acordado levemente e ouvido a gravação.

Para testar essas suspeitas, Charles Simon e William Emmons conectaram eletrodos ao couro cabeludo de voluntários e se asseguraram de que suas 'cobaias' estavam dormindo no momento em que gravações fossem tocadas. As pesquisas, feitas nos anos 1950, confirmaram as suspeitas: as pessoas não aprenderam nada do que foi tocado para elas enquanto dormiam.

Apesar de ser impossível ensinar habilidades do zero a uma pessoa durante o sono, há muitas maneiras, básicas ou sofisticadas, de ajudá-la a consolidar conhecimento adquirido enquanto descansa.

Quando dormimos, nosso cérebro pode não enxergar ou escutar novas informações, mas está absorvendo as experiências do dia anterior, enviando memórias do hipocampo, onde os cientistas acreditam que elas se formam, para as várias áreas do córtex, onde são armazenadas a longo prazo.

"O sono ajuda a estabilizar as memórias e a integrá-las a uma rede de recordações mais antigas", diz Susanne Diekelmann, da Universidade de Tubingen, na Alemanha. Dormir também possibilita a generalização daquilo que aprendemos, para podermos aplicar o conhecimento em novas situações.

'Manipulando' sonhos

Assim, vários experimentos têm buscado estimular o cérebro durante o sono com a finalidade de ajudá-lo a consolidar fatos e habilidades aprendidos durante o dia.

Entre os métodos existentes para alcançar esse fim, o mais simples deriva de uma pesquisa realizada no século 19 pelo nobre francês Marquês d’Hervey de Saint-Denys.

Explorando maneiras de manipular seus sonhos, ele descobriu que podia evocar certas lembranças com odores, sabores e sons. E usava esses estímulos durante o sono para ter noites com sonhos mais prazerosos.

Essa mesma abordagem pode fazer o cérebro reproduzir, durante o sono, habilidades e fatos adquiridos, reforçando o aprendizado.

Diekelman fez uma experiência com voluntários na qual pediu para eles memorizarem uma sequência de objetos enquanto inalavam um aroma artificial e sutil. Quando os voluntários dormiam, a cientista borrifou o mesmo aroma nas narinas de alguns deles.

Uma tomografia mostrou que eles apresentavam uma comunicação maior entre o hipocampo e as áreas do córtex. No dia seguinte, esses voluntários lembraram de 84% dos objetos na sequência, enquanto o grupo que não foi submetido ao aroma durante o sono lembrou de apenas 61%.

Upgrade tecnológico

Em um futuro próximo, a tecnologia poderá oferecer novas maneiras de incentivar os ciclos do sono no cérebro. Cientistas acreditam que a consolidação da memória ocorre durante oscilações específicas e lentas da atividade elétrica cerebral. Por isso, estão tentando estimular esse tipo de onda no cérebro sem acordar o paciente.

Jan Born, da Universidade de Tubingen, é um dos pioneiros nesse tipo de experiência. Recentemente, Born testou uma espécie de touca de eletrodos que medem a atividade neural enquanto um fone de ouvidos toca sons em sincronia com as ondas cerebrais.

"O método aprofunda o sono de ondas lentas e o torna mais intenso. É uma maneira mais natural de fazer o sistema funcionar em um certo ritmo", explica.

Já Miriam Reiner, do Instituto de Tecnologia Technion, em Haifa, em Israel, está elaborando um tipo de "neurofeedback" que permite aos voluntários controlar sua atividade neural enquanto estão acordados. Um eletrodo ligado à cabeça dos voluntários envia sinais a um jogo no qual cada pessoa tem que dirigir um carro com o poder do pensamento.

Quando o eletrodo registra a frequência correta de ondas cerebrais, normalmente associada com a consolidação da memória durante o sono, elas aceleram. A mudança no estado mental é visível. "Me sinto mais relaxada, como se estivesse em um lugar sereno e bonito", diz Reiner.

A ideia é dar um impulso à consolidação da memória logo após o aprendizado, o que faz com que o cérebro funcione melhor durante o sono.

Pesquisas

Ainda são necessários testes mais abrangentes e com mais voluntários antes que essas técnicas sejam adotadas no dia-a-dia. Para Reiner, ainda precisamos nos perguntar se seria correto começar a manipular as memórias das pessoas, ainda que com boas intenções.

"O sono é um estado vulnerável", observa ela.

Mas a cientista ressalta que questões como essa não devem conter o interesse em aprender dormindo.

Em última instância, pesquisas sobre o assunto podem mudar a maneira como percebemos essa parte tão subestimada de nossas vidas.

Em uma cultura ocidental onde ser workaholic é aceitável, o sono às vezes tende a ser considerado uma perda de tempo que tentamos vencer com uma boa dose de cafeína. Mas quem sabe um dia comecemos a valorizar o dormir como uma parte do dia rentável na qual não precisamos fazer nada, a não ser relaxar.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Dilema: já podem lhe induzir a ter memória de algo que você não viveu

A matéria foi publicada na Folha de S. Paulo de 28/12/13:

Falsas memórias

Estudo mostra que mesmo as pessoas com memória excepcional estão sujeitas a 'lembrar' coisas que, na verdade, elas não viveram

RICARDO BONALUME NETO

A memória humana é algo maleável, capaz de ser facilmente adulterada, e isso tende a criar problemas jurídicos e terapêuticos graves.

OK, isso nunca foi muita novidade.

Mas se viu agora que mesmo uma memória excepcional não impede que ela possa ser falsificada deliberadamente. E resta a dúvida: o que é falso, o que é verdadeiro naquilo que uma pessoa lembra? Ou melhor, "lembra"?

"Sem confirmação independente, você não tem como ter certeza se uma memória é verdadeira ou um produto de algum outro processo", disse à Folha a pesquisadora Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia em Irvine, EUA.

Um novo trabalho da sua equipe, publicado na revista "PNAS", da Academia de Ciências dos EUA, mostrou que é possível implantar memórias falsas mesmo em pessoas capazes de lembrar pequenos detalhes da sua vida de uma década atrás.

Estudos nos EUA há mais de uma década mostraram que é possível fazer as pessoas acreditarem que viveram algo de que não participaram.

Loftus e colegas agora avaliaram voluntários com a "supermemória".

Ela podia fazer, por exemplo, alguém "relembrar" que tinha sido perdido dos pais em um shopping center, quando isso nunca aconteceu. E ainda por cima acrescentar detalhes do "evento".

NINGUÉM É IMUNE

A descoberta de pessoas com memórias excepcionais sobre sua própria vida indicaria que elas estariam imunes a esse tipo de "lavagem cerebral". Mas não foi o caso, como testes demonstraram.

Esse tipo de gente é algo difícil de acreditar. Basta ver uma série de televisão americana, "Unforgettable" ("inesquecível"). Uma policial de Nova York, Carrie Wells, lembra cada detalhe de cada dia da sua vida e isso a ajuda a resolver os casos. Ficção?

Não até descobrirem alguns poucos indivíduos --apenas 20 foram estudados por Loftus e colegas-- com a chamada memória autobiográfica altamente superior.

Pergunte a um deles o que fizeram em certo dia --por exemplo 5 de setembro de 1987--, e a pessoa dirá o que fez, o que comeu de almoço, o que leu no jornal do dia...

Como uma pessoa assim é capaz de se lembrar de algo que aconteceu há uma década bem melhor do que uma pessoa comum se lembra de um simples mês atrás, seria de se esperar que fossem imunes aos testes criados pelos psicólogos para produzir falsas memórias.

Foram testados os 20 voluntários com memória superior e 38 pessoas com memória normal de idades e sexo semelhantes, utilizando experimentos com palavras, imagens e sentenças e a falsa memória de um vídeo não existente ligado aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA.

Resultado: ter a supermemória não impediu que ela fosse distorcida.

CONSEQUÊNCIAS

Lawrence Patihis, da equipe de Loftus, lembra que as consequências das "falsas memórias" continuam sendo um problema. Na década de 1990, essas memórias eram usadas por psicoterapeutas para fins questionáveis -- "provando" casos de abuso sexual que nunca existiram.

Essas alegações diminuíram muito. "Isso em parte reflete o trabalho da professora Loftus na área", diz ele.

Recentemente, Loftus fez pessoas desistirem de tomar vodca achando que tinham tido uma péssima experiência preliminar com a bebida.

"Se fizer as pessoas pensarem que ficaram doentes com alimentos gordurosos fazerem-nas evitar essa comida, então isso poderia ter implicações para o seu comportamento alimentar e ser terapêutico", diz ela. "Também podemos implantar uma memória positiva sobre alimentação saudável."

Segundo a pesquisadora, essas são algumas maneiras pelas quais falsas memórias podem ajudar as pessoas.



domingo, 27 de outubro de 2013

Esqueçam de mim!


O "direito ao esquecimento" é um dos temas mais recentes no campo das liberdades individuais e garantias fundamentais do ser humano, e por isso mesmo, começa a ser disciplinado pelos tribunais, embora ainda haja muita discussão a ser enfrentada.

No caso de pessoas que cometeram um crime e cumpriram a pena, ou foram acusadas e inocentadas da prática de um ilícito penal, o dilema é equilibrar o direito ao anonimato com a liberdade de expressão, de informação e de imprensa.

A matéria abaixo, do Superior Tribunal de Justiça, traz vários elementos interessantes para o debate, que pode inclusive extrapolar o campo da ciência jurídica e invadir outras searas, como a superação dos erros do passado por qualquer pessoa, ou outro problema que se agrava a cada dia que passa: como proteger a privacidade em tempos virtuais, com tantos dados pessoais sendo vazados diariamente?

Eis o artigo:

O direito de ser deixado em paz

Responsável por uniformizar a interpretação da lei federal seguindo os princípios constitucionais e a defesa do Estado de Direito, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) está sempre aberto à discussão dos temas mais relevantes para a sociedade brasileira. Este ano, o Tribunal da Cidadania trouxe à tona o debate sobre o chamado direito ao esquecimento.

O direito ao esquecimento não é um tema novo na doutrina jurídica, mas entrou em pauta com mais contundência desde a edição do Enunciado 531 da VI Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça Federal (CJF). O texto, uma orientação doutrinária baseada na interpretação do Código Civil, elenca o direito de ser esquecido entre os direitos da personalidade.

Ao estabelecer que “a tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao esquecimento”, o Enunciado 531 estabelece que o direito de não ser lembrado eternamente pelo equívoco pretérito ou por situações constrangedoras ou vexatórias é uma forma de proteger a dignidade humana.

A tese de que ninguém é obrigado a conviver para sempre com erros do passado foi assegurada pela Quarta Turma do STJ no julgamento de dois recursos especiais movidos contra reportagens exibidas em programa de televisão.

Chacina da Candelária

No primeiro caso (REsp 1.334.097), a Turma reconheceu o direito ao esquecimento para um homem inocentado da acusação de envolvimento na chacina da Candelária e posteriormente retratado pelo programa Linha Direta, da TV Globo, anos depois de absolvido de todas as acusações.

Nesse acaso, a Turma concluiu que houve violação do direito ao esquecimento e manteve sentença da Justiça fluminense que condenou a emissora ao pagamento de indenização no valor R$ 50 mil.

O homem foi apontado como coautor da chacina da Candelária, sequência de homicídios ocorridos em 23 de julho de 1993, no Rio de Janeiro, mas foi absolvido por unanimidade. No recurso, ele sustentou que recusou pedido de entrevista feito pela TV Globo, mas mesmo assim o programa veiculado em junho de 2006 citou-o como um dos envolvidos na chacina, posteriormente absolvido.

Ele ingressou na Justiça com pedido de indenização, sustentando que sua citação no programa levou a público, em rede nacional, situação que já havia superado, reacendendo na comunidade onde reside a imagem de chacinador e o ódio social, e ferindo seu direito à paz, anonimato e privacidade pessoal. Alegou, ainda, que foi obrigado a abandonar a comunidade para preservar sua segurança e a de seus familiares.

Acompanhando o voto do relator, ministro Luis Felipe Salomão, a Turma concluiu que a ocultação do nome e da fisionomia do autor da ação não macularia sua honra nem afetaria a liberdade de imprensa.

A Turma entendeu que o réu condenado ou absolvido pela prática de um crime tem o direito de ser esquecido, pois se os condenados que já cumpriram a pena têm direito ao sigilo da folha de antecedentes e à exclusão dos registros da condenação no instituto de identificação, por maiores e melhores razões aqueles que foram absolvidos não podem permanecer com esse estigma, conferindo-lhes a lei o mesmo direito de serem esquecidos.

Para os ministros da Quarta Turma, a fatídica história poderia ter sido contada de forma fidedigna sem que para isso a imagem e o nome do autor precisassem ser expostos em rede nacional, até porque, certamente, ele não teve reforçada sua imagem de inocentado, mas sim a de indiciado.

Caso Aída Curi

No segundo caso (REsp 1.335.153), a mesma Quarta Turma negou direito de indenização aos familiares de Aída Curi, que foi abusada sexualmente e morta em 1958 no Rio de Janeiro. A história desse crime, um dos mais famosos do noticiário policial brasileiro, foi apresentada no programa Linha Direta com a divulgação do nome da vítima e de fotos reais, o que, segundo seus familiares, trouxe a lembrança do crime e todo sofrimento que o envolve.

Os irmãos da vítima moveram ação contra a emissora com o objetivo de receber indenização por danos morais, materiais e à imagem. Por maioria de votos, o STJ entendeu que, nesse caso, o crime era indissociável do nome da vítima. Isto é, não era possível que a emissora retratasse essa história omitindo o nome da vítima, a exemplo do que ocorre com os crimes envolvendo Dorothy Stang e Vladimir Herzog.

Segundo os autos, a reportagem só mostrou imagens originais de Aída uma vez, usando sempre de dramatizações, uma vez que o foco da reportagem foi no crime e não na vítima. Assim, a Turma decidiu que a divulgação da foto da vítima, mesmo sem consentimento da família, não configurou abalo moral indenizável.

Nesse caso, mesmo reconhecendo que a reportagem trouxe de volta antigos sentimentos de angústia, revolta e dor diante do crime, que aconteceu quase 60 anos atrás, a Turma entendeu que o tempo, que se encarregou de tirar o caso da memória do povo, também fez o trabalho de abrandar seus efeitos sobre a honra e a dignidade dos familiares.

O voto condutor também destacou que um crime, como qualquer fato social, pode entrar para os arquivos da história de uma sociedade para futuras análises sobre como ela – e o próprio ser humano – evolui ou regride, especialmente no que diz respeito aos valores éticos e humanitários.

Esquecimento na internet

O surgimento do direito ao esquecimento, como um direito personalíssimo a ser protegido, teve origem na esfera criminal, mas atualmente foi estendido a outras áreas, como, por exemplo, nas novas tecnologias de informação. Ele em sido abordado na defesa dos cidadãos diante de invasões de privacidade pelas mídias sociais, blogs, provedores de conteúdo ou buscadores de informações.

O instituto vem ganhando contornos mais fortes em razão da facilidade de circulação e de manutenção de informação pela internet, capaz de proporcionar superexposição de boatos, fatos e notícias a qualquer momento, mesmo que decorrido muito tempo desde os atos que lhes deram origem.

Para a ministra Eliana Calmon, do STJ, isso acontece porque as decisões judiciais são baseadas na análise do caso concreto e no princípio de que a Justiça deve estar sempre em sintonia com as exigências da sociedade atual. “O homem do século 21 tem como um dos maiores problemas a quebra da sua privacidade. Hoje é difícil nós termos privacidade, porque a sociedade moderna nos impõe uma vigilância constante. Isso faz parte da vida moderna”, afirma.

Autor do Enunciado 531, o promotor de Justiça do Rio de Janeiro Guilherme Magalhães Martins explica que o direito ao esquecimento não se sobrepõe ao direito à liberdade de informação e de manifestação de pensamento, mas ressalta que há limites para essas prerrogativas.

"É necessário que haja uma grave ofensa à dignidade da pessoa humana, que a pessoa seja exposta de maneira ofensiva. Porque existem publicações que obtêm lucro em função da tragédia alheia, da desgraça alheia ou da exposição alheia. E existe sempre um limite que deve ser observado”, diz ele.

Martins ressalta que, da mesma forma que a liberdade de expressão não é absoluta, o direito ao esquecimento também não é um direito absoluto: “Muito pelo contrário, ele é excepcional.”

O promotor ainda esclarece que, apesar de não ter força normativa, o Enunciado 531 remete a uma interpretação do Código Civil referente aos direitos da personalidade, ao afirmar que as pessoas têm o direito de ser esquecidas pela opinião pública e pela imprensa.

Sem reescrever a história

Uma foto tirada em momento de intimidade pode se propagar por meio das mídias sociais com impensada rapidez. Fatos praticados na juventude, e até já esquecidos, podem ser resgatados e inseridos na rede, vindo a causar novos danos atuais, e até mais ruinosos, além daqueles já causados em época pretérita. Quem pretende ir à Justiça com a intenção de apagar essas marcas negativas do passado pode invocar o direito ao esquecimento.

O desembargador do Tribunal Regional Federal da 5ª Região Rogério Fialho Moreira, que coordenou a Comissão de Trabalho da Parte Geral na VI Jornada, explica que o enunciado garante apenas a possibilidade de discutir o uso que é dado aos eventos pretéritos nos meios de comunicação social, sobretudo nos meios eletrônicos. De acordo com ele, na fundamentação do enunciado ficou claro que o direito ao esquecimento não atribui a ninguém o direito de apagar fatos passados ou reescrever a própria história.

“Não é qualquer informação negativa que será eliminada do mundo virtual. É apenas uma garantia contra o que a doutrina tem chamado de superinformacionismo. O enunciado contribui, e muito, para a discussão do tema, mas ainda há muito espaço para o amadurecimento do assunto, de modo a serem fixados os parâmetros para que seja acolhido o esquecimento de determinado fato, com a decretação judicial da sua eliminação das mídias eletrônicas”, diz o magistrado.

Parâmetros que serão fixados e orientados pela ponderação de valores, de modo razoável e proporcional, entre os direitos fundamentais e as regras do Código Civil sobre proteção à intimidade e à imagem, de um lado, e, de outro, as regras constitucionais de vedação à censura e da garantia à livre manifestação do pensamento.

De acordo com o magistrado, na sociedade de informação atual, até mesmo os atos mais simples e cotidianos da vida pessoal podem ser divulgados em escala global, em velocidade impressionante.

“Verifica-se hoje que os danos causados por informações falsas, ou mesmo verdadeiras, mas da esfera da vida privada e da intimidade, veiculadas através da internet, são potencialmente muito mais nefastos do que na época em que a propagação da notícia se dava pelos meios tradicionais de divulgação. Uma retratação publicada em jornal podia não ter a força de recolher as ’penas lançadas ao vento’, mas a resposta era publicada e a notícia mentirosa ou injuriosa permanecia nos arquivos do periódico. Com mais raridade era ressuscitada para voltar a perseguir a vítima”, esclarece.

O enunciado, segundo o magistrado, ajudará a definir as decisões judiciais acerca do artigo 11 do Código Civil, que regulamenta quais direitos de personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, assim como do artigo 5º da Constituição Federal, como o direito inerente à pessoa e à sua dignidade, entre eles a vida, a honra, a imagem, o nome e a intimidade.

Right to be let alone

No entendimento do desembargador, a teoria do direito ao esquecimento surgiu exatamente a partir da ideia de que, mesmo quem comete um crime, depois de determinado tempo, vê apagadas todas as consequências penais do seu ato. No Brasil, dois anos após o cumprimento da pena ou da extinção da punibilidade por qualquer motivo, o autor do delito tem direito à reabilitação. Depois de cinco anos, afasta-se a possibilidade de considerar-se o fato para fins de reincidência, apagando-o de todos os registros criminais e processuais públicos.

Ainda segundo ele, o registro do fato é mantido apenas para fins de antecedentes, caso cometa novo crime e, mesmo assim, a matéria encontra-se no Supremo Tribunal Federal (STF), para decisão sobre a constitucionalidade dessa manutenção indefinida no tempo.

Mas, extinta a punibilidade, a certidão criminal solicitada sai negativa, inclusive sem qualquer referência ao crime ou ao cumprimento de pena. "Ora", conclui Moreira, "se assim é até mesmo em relação a quem é condenado criminalmente, não parece justo que os atos da vida privada, uma vez divulgados, possam permanecer indefinidamente nos meios de informação virtuais. Essa é a origem da teoria do direito ao esquecimento, consagradora do right to be let alone, ou seja, do direito a permanecer sozinho, esquecido, deixado em paz."



domingo, 9 de junho de 2013

As peças que a memória prega

Nossa leitura (sempre) especial de domingo traz hoje Oliver Wolf Sacks, que é professor de neurologia e psiquiatria na Universidade de Columbia, em Nova York.

Com base em sua experiência real com pacientes catatônicos que recobram a vida normal, em 1973 escreveu o livro "Awakenings" que - em 1990 - foi levado ao cinema com o título brasileiro de "Tempo de Despertar", com Robin Williams no papel principal.

Sacks nos oferece hoje o brilhante artigo abaixo, que fala - entre outras coisas interessantíssimas - sobre memória, plágio e autoplágio,  que foi originalmente escrito para o The New York Review of Books, traduzido para o português por Clara Allain e publicado na Folha de S. Paulo:

Fala, memória

Quando as lembranças nos pregam peças

OLIVER SACKS
TRADUÇÃO CLARA ALLAIN

RESUMO Nem sempre as lembranças mais vivas correspondem a situações vividas: podem ser herdadas de outros ou fruto de "reconfiguração" pela mente. O mecanismo é explicado com base em casos de plágio, autoplágio, "criptomnésia" ("plágio" inconsciente) e sugestionabilidade em sessões de tortura e acusações de pedofilia.



É espantoso perceber que algumas de nossas recordações mais queridas talvez nunca tenham acontecido --ou talvez tenham acontecido com outra pessoa. Desconfio de que muitos de meus entusiasmos e impulsos, que parecem ser inteiramente meus, tenham nascido das sugestões de outros que me influenciaram, de modo consciente ou não, e depois foram esquecidas.

De modo semelhante, embora eu volta e meia faça palestras sobre tópicos similares, jamais consigo me lembrar exatamente do que disse em ocasiões anteriores, nem suporto reler notas antigas.

Ao perder a memória consciente do que disse antes e não tendo texto em que me basear, descubro meus tópicos novamente a cada vez, e eles volta e meia me parecem novos em folha. Esse tipo de esquecimento talvez seja necessário para uma criptomnésia criativa ou saudável, que permita que pensamentos velhos sejam reunidos, retranscritos, recategorizados e imbuídos de novos significados.

Ocasionalmente esses esquecimentos chegam a constituir autoplágio: eu me pego reproduzindo expressões ou orações inteiras como se fossem novas, e isso às vezes pode ser agravado por esquecimento genuíno. Relendo velhos cadernos, descubro que muitos pensamentos ali anotados foram esquecidos por anos e então retrabalhados como se fossem novos.

Desconfio de que esse tipo de esquecimento atinja a todos e que isso seja especialmente comum nas pessoas que escrevem, pintam ou compõem, pois a criatividade talvez exija tais esquecimentos para que nossas memórias e ideias possam renascer e ser vistas em novos contextos e perspectivas.

O dicionário "Webster" define "plagiar" como "roubar ou fazer passar por nossas (as ideias ou palavras de outro): usar (a produção de outro) sem citar a fonte [...] cometer roubo literário: apresentar como sendo nova e original uma ideia ou um produto derivado de uma fonte existente".

Existe uma sobreposição considerável entre essa definição e a de "criptomnésia". A diferença essencial é que o plágio, conforme é comumente entendido e reprovado, é consciente e intencional, enquanto a criptomnésia não é nem uma coisa nem outra. Talvez o termo "criptomnésia" precise ser mais bem conhecido, pois, embora possamos falar em "plágio inconsciente", a própria palavra "plágio" é tão moralmente carregada, tão sugestiva de delito e logro que conserva seu tom repreensível, mesmo que seja "inconsciente".

Em 1970, George Harrison compôs uma canção que foi um sucesso enorme, "My Sweet Lord", que, conforme se descobriu, guardava grandes semelhanças com uma canção de Ronald Mack ("He's So Fine"), gravada oito anos antes. Quando o caso foi a julgamento, o juiz considerou Harrison culpado de plágio, mas demonstrou "insight" psicológico e empatia na súmula que fez. Ele concluiu:

"Harrison utilizou propositalmente a música de He's So Fine'? Não creio que ele o tenha feito de caso pensado. Não obstante [...] trata-se, segundo a lei, de infração de direitos autorais, e não deixa de sê-lo, mesmo que tenha sido cometida de modo subconsciente."

Helen Keller foi acusada de plágio quando tinha apenas 12 anos de idade.1 Apesar de ter sido surda e cega desde pequena e de ignorar a linguagem até conhecer Anne Sullivan, aos seis anos, tornou-se escritora prolífica depois de aprender datilologia e braille.

Quando menina, escreveu um conto intitulado "The Frost King" (O rei da geada), que deu a uma amiga como presente de aniversário. Quando o conto saiu numa revista, os leitores logo perceberam que ele guardava várias semelhanças como "The Frost Fairies" (As fadas da geada), conto infantil de Margaret Canby.

A admiração por Helen Keller converteu-se em repreensão, e Keller foi acusada de plágio e falsidade proposital, apesar de afirmar não ter nenhuma lembrança de ter lido o conto de Canby e de achar que tinha criado a história. A pequena Helen foi sujeita a uma inquisição implacável que a deixou marcada pelo resto da vida.

Mas ela também teve defensores, entre os quais a plagiada Margaret Canby, que se surpreendeu ao saber que um conto "escrito" com o dedo sobre a mão de Helen três anos antes pudesse ser recordado ou reconstruído por ela com tantos detalhes. "Que mente maravilhosamente atenta e retentiva essa criança talentosa deve ter!", Canby escreveu. Alexander Graham Bell se manifestou em defesa de Keller, dizendo: "Nossas composições mais originais são feitas exclusivamente de expressões derivadas de outros".2

Na realidade, a mente e a imaginação notáveis de Helen não teriam podido se desenvolver e tornar-se tão férteis quanto foram sem se apropriarem da linguagem alheia. Talvez, de modo geral, sejamos todos dependentes dos pensamentos e das imagens de outros.

A própria Helen disse, fazendo referência a tais apropriações, que a probabilidade de ocorrerem era maior quando os livros eram traçados sobre suas mãos, sendo suas palavras recebidas passivamente. Ela disse que às vezes, quando isso era feito, ela não conseguia identificar ou lembrar-se da fonte, nem mesmo, por vezes, lembrar se o material vinha de fora dela ou não. Esse tipo de confusão raramente ocorria quando ela lia ativamente, usando o Braille e movendo seu próprio dedo pelas páginas.

COLERIDGE A questão dos plágios, paráfrases, criptomnésias ou apropriações feitas por Samuel Taylor Coleridge intriga estudiosos e biógrafos há quase dois séculos e é especialmente interessante em vista de sua memória prodigiosa, seu gênio imaginativo e seu senso de identidade complexo, multiforme, por vezes atormentado. Ninguém o descreveu com mais beleza que Richard Holmes, em sua biografia em dois volumes do poeta.

Coleridge era um leitor voraz e onívoro, que parecia reter tudo. Há descrições dele, estudante, lendo "The Times" de modo casual e depois sendo capaz de reproduzir o jornal inteiro "ipsis litteris", incluindo os anúncios. "No jovem Coleridge", Holmes escreve, "isso é realmente parte de seu dom: uma enorme capacidade de leitura, uma memória retentiva, o talento de falador para recriar e orquestrar ideias de outras pessoas e o instinto natural de um palestrante e pregador para colher materiais onde quer que os encontrasse."

A apropriação literária era comum no século 17 --Shakespeare apropriava-se livremente de criações de muitos de seus contemporâneos, e John Milton fazia o mesmo.3 A apropriação amigável continuou a ser comum no século 18, e tanto Coleridge como William Wordsworth e Robert Southey se apropriaram de materiais uns dos outros, chegando até mesmo, segundo Holmes, a publicar trabalhos sob os nomes uns dos outros.

Mas algo que era comum, natural e feito em espírito de brincadeira na juventude de Coleridge foi pouco a pouco assumindo uma forma mais inquietante, especialmente em relação aos filósofos alemães (sobretudo Friedrich Schelling), que Coleridge "descobriu", venerou, traduziu e, por fim, acabou utilizando de modo extraordinário. Páginas inteiras da "Biographia Literaria" de Coleridge consistem em trechos de Schelling reproduzidos "ipsis litteris" e não reconhecidos como tais.

Embora esse comportamento prejudicial e aberto tenha sido pronta (e redutivamente) qualificado como "cleptomania literária", o que aconteceu de fato é complexo e misterioso, como Holmes estuda no segundo volume de sua biografia, em que ele vê os plágios mais evidentes de Coleridge como tendo ocorrido num período devastadoramente difícil de sua vida, quando ele tinha sido abandonado por Wordsworth, estava paralisado por ansiedade profunda e dúvidas quanto a seu próprio valor intelectual e se encontrava mais profundamente dependente do ópio do que nunca. Nesse momento, escreve Holmes, "os autores alemães lhe proporcionavam apoio e conforto; numa metáfora que ele próprio empregava com frequência, Coleridge os enlaçava, como a hera enlaça o carvalho".

Antes disso, na descrição de Holmes, Coleridge tinha descoberto outra afinidade extraordinária, esta pelo escritor alemão Jean-Paul Richter --afinidade que o levou a traduzir e transcrever os escritos de Richter e então a deslanchar a partir deles, modificando-os à sua própria maneira e, em seus cadernos de anotações, dialogando com Richter. Em alguns momentos as vozes dos dois homens se misturam de tal maneira que se tornam quase indistinguíveis. [...]

Freud era fascinado pelos lapsos e deslizes de memória que ocorrem no cotidiano e por sua relação com a emoção, especialmente a emoção inconsciente; mas ele também foi obrigado a considerar distorções de memória muito mais grosseiras manifestadas por alguns de seus pacientes, especialmente quando relatavam que teriam sido seduzidos ou que teriam sofrido abuso sexual na infância.

De início ele interpretou todos esses relatos literalmente, mas, com o tempo, quando pareceu que havia poucas evidências ou plausibilidade em vários casos, começou a se perguntar se as recordações não poderiam ter sido distorcidas pela fantasia e se algumas delas não poderiam, na realidade, ser inteiramente fantasiosas, construídas inconscientemente, mas de modo tão convincente que os próprios pacientes acreditassem totalmente nelas.

As histórias que os pacientes contavam e tinham contado a si mesmos poderiam ter um efeito muito poderoso sobre suas vidas, e pareceu a Freud que a realidade psicológica dessas histórias poderia ser igual, quer elas viessem de experiências reais ou de fantasias.

Em nossa época, as descrições e acusações de abuso na infância alcançaram proporções quase epidêmicas. Muita importância é atribuída às chamadas memórias recuperadas --memórias de experiências tão traumáticas que foram reprimidas defensivamente e então, com terapia, libertadas da repressão. As formas particularmente sombrias e fantásticas disso incluem descrições de rituais satânicos de alguma espécie, com frequência acompanhados por práticas sexuais coercitivas.

Vidas e famílias foram devastadas por acusações dessa natureza. Mas foi demonstrado, pelo menos em alguns casos, que tais descrições podem ser insinuadas ou plantadas por outros. Aqui, a combinação frequente de uma testemunha sugestionável (muitas vezes uma criança) com uma figura de autoridade (talvez um terapeuta, professor, assistente social ou investigador) pode ser especialmente poderosa.

TORTURA Desde a Inquisição e os julgamentos das bruxas de Salem até os julgamentos soviéticos da década de 1930 e Abu Ghraib, variedades de "interrogatório extremo" ou tortura física e mental pura e simples vêm sendo empregadas para extrair "confissões" políticas ou religiosas.

Embora tais interrogatórios possam ter como objetivo inicial extrair informações, suas intenções mais profundas talvez sejam promover uma lavagem cerebral, efetuar uma mudança genuína de pensamentos, preencher a mente com memórias implantadas, autoincriminadoras, e nisso eles podem ter êxito assustador.4

Mas talvez não seja preciso recorrer à sugestão coercitiva para afetar as memórias de uma pessoa. Depoimentos de testemunhas oculares são notoriamente sujeitos à sugestão e ao erro, muitas vezes com efeitos altamente nocivos aos acusados sem razão.5

Com o advento dos exames de DNA, hoje é possível, em muitos casos, encontrar corroboração ou refutação objetivas de tais depoimentos, e Schacter observa que "uma análise recente de 40 casos em que provas de DNA apontaram a inocência de indivíduos erroneamente encarcerados revelaram que 36 desses casos (90%) envolveram a identificação equivocada feita por testemunhas oculares".

Se os últimos 30 anos foram marcados pelo surgimento ou ressurgimento de síndromes de memória e identidade ambíguas, também levaram a pesquisas importantes --forenses, teóricas e experimentais-- sobre a maleabilidade da memória.

A psicóloga e pesquisadora da memória Elizabeth Loftus documentou um sucesso inquietante na implantação de memórias falsas através da mera sugestão feita a um sujeito de que ele teria passado por um acontecimento fictício.

Esses pseudoeventos, inventados por psicólogos, podem variar desde incidentes cômicos ou incômodos leves (de que uma pessoa se perdeu num shopping quando era criança, por exemplo) até incidentes mais graves (que alguém foi vítima de um ataque grave de um animal ou de uma agressão grave por outra criança).

Depois do ceticismo inicial ("Nunca me perdi num shopping") e, em seguida, da incerteza, o sujeito pode passar a nutrir uma convicção tão profunda que continuará a insistir sobre a veracidade da memória implantada, mesmo após o autor do experimento revelar que o incidente nunca aconteceu.

O que fica claro em todos esses casos é que --quer se trate de abusos imaginados ou reais na infância, de memórias genuínas ou experimentalmente implantadas, de testemunhas induzidas ao engano ou de prisioneiros submetidos a lavagem cerebral, de plágio inconsciente ou das memórias falsas que todos nós provavelmente temos, baseadas em confusão quanto às fontes ou em atribuição equivocada--, na ausência de confirmação externa, não existe uma maneira fácil de distinguir uma memória ou inspiração genuína, sentida como tal, daquelas que foram apropriadas ou sugeridas; de distinguir entre o que o psicanalista Donald Spence descreve como "verdade histórica" e "verdade narrativa".

Mesmo que seja exposto o mecanismo subjacente a uma memória falsa [...], isso pode não modificar a sensação de uma experiência vivida de fato ou a realidade que tais recordações possuem.

Tampouco as contradições óbvias ou o caráter absurdo de determinadas memórias pode modificar o sentimento de convicção e de crença nelas. Na maioria dos casos, pessoas que afirmam terem sido abduzidas por extraterrestres não mentem quando contam como foram levadas até naves espaciais de alienígenas, não mais do que mentem quando têm consciência de terem inventado uma história: algumas creem genuinamente que foi isso o que aconteceu.

Uma vez construída tal narrativa ou memória, acompanhada de imagens sensoriais vívidas e de emoção forte, pode não haver jeito psicológico, interno, nem externo, neurológico, de distinguir o que é verdadeiro do que é falso.

As correlações fisiológicas dessa memória podem ser examinadas com neuroimagiologia funcional, e as imagens mostram que memórias vívidas produzem ativação ampla no cérebro, envolvendo áreas sensoriais, emocionais (límbicas), e executivas (lobo frontal) --padrão que é virtualmente idêntico, quer a "memória" seja baseada numa experiência, quer não.

Parece que não existe, nem na mente nem no cérebro, nenhum mecanismo para garantir a verdade de nossas recordações, ou pelo menos o caráter verídico delas. Não temos acesso direto à verdade histórica, e aquilo que sentimos ou afirmamos como sendo verdadeiro (como Helen Keller estava em ótima posição para observar) depende tanto de nossa imaginação quanto de nossos sentidos.

Não existe um modo pelo qual os acontecimentos do mundo possam ser transmitidos ou gravados diretamente em nossa mente; eles são experimentados e construídos de modo altamente subjetivo, que é diferente em cada indivíduo, para começar, e reinterpretado ou revivido diferentemente a cada vez que são recordados. (O neurocientista Gerald M. Edelman costuma falar em apreender como sendo "criar" e em lembrar como sendo "recriar" ou "reclassificar".)

Com frequência nossa única verdade é a verdade narrativa, as histórias que contamos uns aos outros e a nós mesmos --histórias que reclassificamos e refinamos sem cessar. Essa subjetividade está embutida na própria natureza da memória e decorre de seus mecanismos e bases no cérebro. O que surpreende é que aberrações grosseiras sejam relativamente raras e que, na maior parte do tempo, nossas memórias sejam relativamente sólidas e confiáveis.

Nós, seres humanos, carregamos sistemas de memórias que têm pontos falhos, fragilidades e imperfeições, mas que também possuem grande flexibilidade e criatividade. A confusão sobre fontes ou a indiferença a elas podem representar uma força paradoxal: se pudéssemos rotular as fontes de todos nossos conhecimentos, ficaríamos submersos em informações em muitos casos irrelevantes.

A indiferença às fontes nos permite assimilar o que lemos, o que nos é dito, o que outros dizem, pensam, escrevem e pintam com tanta intensidade e riqueza como se fossem experiências primárias. Ela nos permite enxergar e ouvir com outros olhos e ouvidos, penetrar em outras mentes, assimilar a arte, ciência e religião da cultura inteira, penetrar na mente comum e contribuir para ela, para a comunidade geral do conhecimento.

Essa espécie de partilha e participação, essa comunicação não seria possível se todos os nossos conhecimentos, as nossas memórias, fossem rotulados e identificados, vistos como privados, exclusivamente nossos. A memória é dialógica e nasce não só da experiência direta, mas também da intercomunicação de muitas mentes.

Notas

Originalmente publicado no jornal "The New York Review of Books" --leia íntegra em folha.com/ilustrissima. O título, "Speak, Memory", alude às memórias de Vladimir Nabokov, "Speak, Memory", publicadas no Brasil como "A Pessoa em Questão" (Cia. das Letras). (Nota do Editor)

1. Esse episódio é relatado de modo detalhado e empático por Dorothy Herrmann em sua biografia de Keller, "Helen Keller: A Life" (University of Chicago Press, 1998).


2. Mark Twain escreveu mais adiante a Helen Keller: "Quão indizivelmente engraçada e absurdamente idiota e grotesca foi aquela farsa do plágio'! Como se existisse muito de qualquer coisa na expressão humana que não seja plágio!... Pois, substancialmente, todas as ideias são de segunda mão, consciente e inconscientemente tiradas de um milhão de fontes externas."
De fato, o próprio Mark Twain tinha cometido um roubo inconsciente desse tipo, conforme descreveu em um discurso no 70º aniversário de Oliver Wendell Holmes: "Oliver Wendell Holmes... foi... o primeiro grande homem literário de quem eu roubei alguma coisa --e foi assim que eu acabei escrevendo a ele e ele a mim. Quando meu primeiro livro ainda era recente, um amigo me disse: Essa dedicatória é muito boa'. Sim, falei, eu achava que era. Meu amigo falou: Sempre a admirei, mesmo antes de vê-la em "The Innocents Abroad"'.
Naturalmente, eu disse: Como assim? Onde você a viu antes?'
Bem, eu a vi primeiramente alguns anos atrás como a dedicatória escrita pelo Doutor Holmes em suas "Songs in Many Keys".' Bem, naturalmente, eu escrevi ao dr. Holmes e lhe disse que não tinha tido a intenção de roubar, e ele escreveu de volta, e, nos termos mais gentis, me disse que não havia problema e que não tinha sido feito nenhum mal; e acrescentou acreditar que todos nós inconscientemente retrabalhamos ideias recebidas ao ler e ouvir, imaginando que sejam originais nossas."


3. "The Cambridge History of English and American Literature" diz a respeito de Milton: "Os caçadores de paralelos, plágios e fontes se deram a trabalho enorme [...] para demonstrar que Milton imitou, apropriou-se de ou, desse modo ou daquele, seguiu o Adamo' de [...] Andreini (1613), o Lucifer' [...] de [...] Vondel (1654), o Adamus Exul' de Grotius (1601), Du Bartas' (1605), de Sylvester, e até mesmo Caedmon. [...] Supondo que Milton tivesse lido todos esses livros, Paradise Lost' ainda seria obra de Milton; e é absolutamente certo não apenas que ninguém mais poderia ter construído Paradise Lost' a partir dessas outras obras, mas que um comitê composto pelos autores delas, cada um deles em seu melhor veio e trabalhando juntos como jamais colaboradores conseguiram trabalhar, não teria chegado nem sequer a uma distância mensurável de Paradise Lost' ou de Milton."

4. O tema da lavagem cerebral ou subjugação de um homem, com a desorganização forçada de sua memória, é ilustrada de modo assustador no romance "1984", de George Orwell, e no filme "Prisioneiro do Remorso", com Alec Guinness.

5. "O Homem Errado", de Alfred Hitchcock (o único filme de não ficção que o diretor fez), documenta as consequências apavorantes de uma identificação equivocada baseada no relato de uma testemunha ocular.



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