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sábado, 29 de abril de 2017

Após vitória de Le Pen em sua cidade, prefeito francês renuncia para não "dedicar sua vida a um bando de imbecis"

A notícia é da Rádio França Internacional:

Prefeito de cidade que votou em Marine Le Pen anuncia demissão

O prefeito socialista da cidade de Annezin, no norte da França, Daniel Delomez, declarou que não iria “dedicar sua vida a um bando de imbecis”.

Annezin é uma pequena cidade de 6000 habitantes situada no norte do país. Neste domingo (23), no primeiro turno da eleição presidencial, 38,09% de sua população votou na representante do partido de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen. Uma desilusão difícil de superar para o Daniel Delomez, de 70 anos, prefeito da cidade há nove anos. “É uma catástrofe!”.

Nesta segunda-feira (23),o prefeito admitiu “ que se exasperou”, mas a essência de sua opinião “continuava a mesma”. Ele também disse que o clima de domingo à noite na cidade o incomodou. “Fiquei incomodado com tantas pessoas votando na Frente Nacional”, explicou Delomez.

Extrema-esquerda em segundo lugar

Boa parte da população de Annezin representa o eleitorado padrão de Marine Le Pen, formado por operários de baixa renda e pouca instrução. Na cidade, o candidato da extrema-esquerda, Jean Luc Mélenchon, obteve 19,25% dos votos e o do centro, Emmanuel Macron, 17,29% dos votos. No cômputo geral, a candidata da extrema-direita teve 21,5% dos votos e Macron 23,7%. Esta é a primeira vez na história da França que a extrema-direita obtém esse resultado.



sábado, 22 de abril de 2017

Sobre falar, engasgar e soltar pum


Alegre o seu feriadão com a leitura divertidíssima da crônica de Luis Fernando Verissimo, publicada no Estadão em 06/04/17:

Em comum

Uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais, sendo a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa.

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem — ou, mais provavelmente, a mulher — sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou com a pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos.

A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam.

No século XVII um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês, e a serpente falava francês (Sempre a má vontade com os franceses).

Na sua infância — a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” — a humanidade não produzia palavras mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum.

Foi chamada de “teoria bow-wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow-wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo.

Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão.

Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava-Jato etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.



sábado, 18 de fevereiro de 2017

O bacharel mulato e filho de padre que peitou D. Pedro I e as agruras do séc. XIX

Pelo jeito, o mundo não mudou nada desde então.

Talvez tenha até perdido muito em senso de humor, segundo se depreende do artigo de Mary del Priore em História Hoje:

O bacharel mulato que desafiou D. Pedro I

No Brasil imperial, época de mudanças, um personagem importante invadiu a cena: o mulato. Em seu clássico Sobrados e Mocambos, Gilberto Freyre foi dos primeiros a observar fenômeno: ele era uma força nova e triunfante. Segundo Freyre, o mulato vinha se constituindo em elemento de diferenciação da sociedade rural e patriarcal no universo urbano e individualista. Ele estaria se integrando, ou melhor, se acomodando, entre os extremos: o senhor e o escravo. A urbanização do Império, a fragmentação das senzalas em quilombos, o crescimento de alforrias e a inserção nos cargos públicos e na aristocracia de toga, deu visibilidade aos mulatos, “aos morenos”.

Nos jornais, notícias e avisos sobre “Bacharéis formados”, “Doutores” e até “Senhores Estudantes”, principiaram, desde os primeiros anos do século XIX a anunciar o novo poder daqueles que agiam e se expunham em becas escuras. “Trajes de casta capazes de aristocratizar” seus portadores, diz Freyre. Muitos não dispunham de protetores políticos para chegar à Câmara nem subir à diplomacia. Muitos estudaram ou se formaram graças “ao trabalho de uma mãe quitandeira ou um pai funileiro”. Outros faziam casamento com moças ricas ou de famílias poderosas. Mas eram visíveis em toda a parte.

É o mesmo Gilberto Freyre quem conta o exemplo de José da Natividade Saldanha, bacharel mulato e protagonista de uma história surpreendente. Filho de padre, Saldanha estudou para padre no Seminário de Olinda, mas rebelou-se contra o Seminário. Durante a Revolução Pernambucana, em 1817, ele deixou a cidade com os familiares e rumou para Coimbra, a fim de continuar os estudos. Na volta ao Recife, se insurgiu contra Dom Pedro I e sua constituição. Foi eleito secretário do governo de Manoel de Carvalho Paes de Andrade e encontrava tempo para escrever relatórios sobre a revolução, pensando em deixar para a posteridade as informações do acontecido. Com a derrota dos insurretos, Natividade Saldanha fugiu.

Na primeira tentativa frustrada de refugiar-se na França, perdeu o navio e escondeu-se novamente em Olinda. O cônsul americano James Hamilton Bennet o ajudou na fuga para Filadélfia, Estados Unidos, onde sofreu discriminação, por ser mulato. Viajou, então, para a França, onde conseguiu um passaporte português. Sob perseguição do governo brasileiro, ele foi expulso do país pela polícia local. Foi à Inglaterra e, de lá, à Venezuela, onde sofreu privações. Na Venezuela, Natividade Saldanha conheceu o General Abreu e Lima, que o encaminhou a Simon Bolívar. Conseguiu, então, exercer a advocacia naquele país. Ali, comentou a sentença de um juiz branco, Mayer, na qual ele, Saldanha era chamado de mulato. E retrucou:
”[…] Esse tal mulato Saldanha era o mesmo que adquirira prêmios quando ele, Mayer tinha aprovação por empenho e quando o tal mulato recusava o lugar de auditor de guerra em Pernambuco, ele, Mayer, o alcançava por bajulação”.
Saldanha abandonou Caracas e foi à Colômbia pela selva, passando a residir em Bogotá, onde passou a ensinar Humanidades. Soube, então, que tinha sido condenado à morte por enforcamento no Brasil. Tomando conhecimento que um antigo amigo exercia atividade no tribunal que o condenou, enviou-lhe uma procuração com os seguintes termos:
“Pela presente procuração, por mim feita e assinada, constituo por meu bastante procurador na Província de Pernambuco ao meu colega Dr. Tomaz Xavier Garcia de Almeida, para em tudo cumprir a pena que me foi imposta pela Comissão Militar, podendo este morrer enforcado, para o que lhe outorgo todos os poderes que por lei me são conferidos.
Caracas, 3 de agosto de 1825.
Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ratatouille venceu: parisienses querem proteger ratos da cidade


A informação é do Estadão:

Franceses fazem abaixo-assinado contra ‘genocídio’ de ratos em Paris

Medida, que reuniu mais de 17 mil assinaturas, é um protesto contra a decisão da prefeita de Paris de fechar nove parques onde esses animais proliferaram para um plano de combate

PARIS – Um abaixo-assinado alcançou nesta quinta-feira, 15, 17,4 mil assinaturas contra o combate aos ratos iniciado há duas semanas em nove parques de Paris, onde estes animais proliferaram até o ponto de obrigar a prefeitura a lançar um plano de ação.

O abaixo-assinado, que leva o nome “Parem o genocídio dos ratos”, é direcionado à prefeita da capital, Anne Hidalgo, que no dia 7 ordenou o fechamento – durante 15 dias – de nove espaços verdes públicos para poder desenvolver os trabalhos de ‘desratização’.

“A presença de roedores em grande número apresenta problemas sanitários, estéticos e econômicos”, explicou Anne, no comunicado em que anunciou a medida.

Por meio do site MesOpinions.com, Josette Bencherit criou o abaixo assinado para condenar esta erradicação motivada por razões visuais e “por medo”.

No texto, essa antiga psicopedagoga converteu-se em defensora dos direitos dos animais e acusa também um veículo da imprensa francesa de tachar os roedores de “ameaça real” em uma manchete, enquanto no próprio artigo um médico nega que os animais representem algum perigo.

“É preciso parar o massacre. É preciso encontrar outras soluções, como uma política contraceptiva. É preciso ensinar as pessoas a conhecer os ratos para que não tenham medo deles”, declarou a ativista ao jornal Le Parisien.

Josette confessou à publicação francesa que o sucesso do abaixo-assinado foi inesperado e, na realidade, ela pensava que o povo responderia com “um tsunami de hostilidades”.

O fechamento desses parques é a primeira etapa de um plano de ação de um ano de duração concebido pelo prefeitura parisiense em junho, durante um seminário intitulado “Estratégia de gestão dos ratos no meio urbano”. / EFE



sábado, 19 de novembro de 2016

"Strange Fruit", de Billie Holiday, a 1ª canção de protesto

Tempos bicudos esses em que estamos vivendo, não é mesmo?

Parece que esse tal "progresso" da civilização humana é só uma balela que nos vendem para entorpecer nossos sentidos a fim de que não percebamos como a depravação é inerente à nossa espécie inacreditavelmente chamada de "sapiens".

Rumos estranhos esses que o nosso planeta está tomando. Protestar resolve?

É tão difícil responder essa questão com o mínimo de isenção como estabelecer qual foi a primeira "canção de protesto".

Afinal, se você considerar por um certo ângulo, a Marselhesa (o hino nacional da França) é um canto de guerra (composto em 1792 pelo oficial Claude Joseph Rouget de Lisle) que não deixa de ser uma canção de protesto contra os "feróces soldats" que vêm "égorger ("degolar") vos fils, vos compagnes", com o inconveniente hoje politicamente incorreto de "que um sangue impuro banhe o nosso solo" (qu'un sang impur abreuve nos sillons!).

Só que a marcial e revolucionária "La Marsellaise" dá um pique e tanto, você há de concordar. Basta ouvi-la antes dos jogos de futebol da seleção francesa que até o time adversário se sente intimidado.

Já "Strange Fruit" tem uma história mais singela, mas igualmente carregada de dor e pavor.

Originalmente composta em 1937 na forma de poema por um militante comunista norteamericano (sim, eles existiram um dia), Abel Meeropol, sob o pseudônimo de Lewis Allan, ele depois a musicou e a cantou junto com sua esposa e a cantora Laura Duncan em vários comícios em Nova York, inclusive no mítico Madison Square Gordon.

Meeropol compôs o poema depois que viu a foto de dois homens negros, Thomas Shipp e Abram Smith, pendurados (enforcados) em 1930 numa árvore num dos muitos linchamentos por motivação racista que eram comuns no Sul dos Estados Unidos até a década de 1960.

Evitando ferir susceptibilidades, não publicamos a foto aqui, mas ela pode ser vista na página da Wikipedia que trata do acontecimento. 

Em 1939, a canção chegou à lenda chamada Billie Holiday, que após muita resistência dela própria, de sua gravadora e de seu empresário, terminou gravando aquela que ficou conhecida como a primeira canção de protesto da história, pelo menos no que diz respeito à era da popularização da música e da massificação da informação.

Billie dizia que "Strange Fruit" lhe trazia à memória a morte de seu pai, que - devido ao racismo - não pode ser tratado do problema de pulmão que o incomodava.

Ouça, portanto, este clássico, cuja letra e tradução segue mais abaixo:





STRANGE FRUIT

Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop




FRUTA ESTRANHA

Árvores do sul produzem uma fruta estranha
Sangue nas folhas e sangue nas raízes
Corpos negros balançando na brisa do sul
Fruta estranha penduradas nos álamos

Pastoril cena do valente sul
Os olhos inchados e a boca torcida
Perfume de magnólias, doce e fresca
Depois o repentino cheiro de carne queimada

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem
Para a chuva recolher, para o vento sugar
Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair
Aqui está a estranha e amarga colheita



terça-feira, 23 de agosto de 2016

Europa não quer ver mulheres vestindo burcas

A notícia é da Agência Brasil:

Burca é obstáculo à integração, diz Angela Merkel

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, colocou mais lenha na fogueira do debate sobre restrições a trajes islâmicos na Europa e disse nessa quinta-feira (18) que a burca, roupa que cobre todo o rosto da mulher, inclusive os olhos, é um "obstáculo à integração".

Além disso, ela deu pleno apoio para o ministro do Interior, Thomas de Maizière, estabelecer possíveis "proibições parciais" da peça. "No meu ponto de vista, uma mulher totalmente coberta tem poucas possibilidades de se integrar", declarou Merkel.

O partido da chanceler deve apresentar ainda nesta semana um documento pedindo o veto à burca e ao niqab, que deixa apenas os olhos à mostra, em edifícios públicos, em manifestações e ao volante de automóveis.

Recentemente, a cidade de Cannes, na França, proibiu o uso de "burkini" (junção das palavras burca e biquíni) em suas praias e recebeu o apoio do primeiro-ministro Manuel Valls, que disse ser a favor de uma lei nacional contra o traje de banho islâmico.

Setores conservadores também têm pressionado o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, para vetar o uso da burca no país.



sábado, 20 de agosto de 2016

Sociólogo americano vê imperialismo cultural em críticas à torcida brasileira


A matéria é da BBC Brasil:

Impedir barulho e vaias da torcida é imperialismo cultural, diz sociólogo americano

Fernando Duarte

Assim como muitos observadores internacionais acompanhando os Jogos Olímpicos do Rio, o sociólogo americano Peter Kaufman ficou espantado com o episódio das vaias ao atleta francês do salto com vara Renaud Lavillenie. No caso do acadêmico, porém, o que pareceu incomodá-lo mais foi a reação contrária ao comportamento da torcida.

Para o professor da Universidade Estadual de Nova York, que escreve sobre sociologia do esporte e estudou as reações do público ao comportamento de atletas, houve exagero na condenação das manifestações, sobretudo depois do "pito" público dado nos brasileiros pelo presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o alemão Thomas Bach.

Após as vaias a Lavillenie no pódio, Bach usou a conta do COI no Twitter para dizer que o comportamento do público foi "chocante" e "inaceitável nas Olimpíadas".

O COI certamente tem questões bem mais importantes para lidar do que vaias de torcedores", disse Kaufman, em conversa com a BBC Brasil, por telefone.

Veja abaixo, trechos da entrevista:

BBC Brasil - O senhor acompanhou a polêmica das vaias no Brasil?

Peter Kaufman - Sim, porque houve um repercussão considerável de alguns incidentes envolvendo o público na Olimpíada do Rio. O comportamento de torcedores é algo interessante, porque estão em jogo fatores culturais.

Cada cultura tem seus próprios valores: em algumas, é apropriado beijar em vez de apertar a mão quando se é apresentado a alguém, por exemplo. Em outras, é muito aceitável vaiar, assim como em certos países aplausos efusivos podem ser vistos como algo rude.

BBC Brasil - Por que as pessoas vaiam?

Kaufman - É uma questão de expressão, uma forma de interação social e participação. E isso varia de lugar para lugar. Se um alienígena chegasse aqui hoje e fosse assistir a uma competição esportiva, possivelmente teria outra maneira de se comportar de acordo com sua realidade. E, óbvio, sabemos que não é apenas esporte. As Olimpíadas têm um significado muito maior. O público brasileiro pode estar vaiando em desafio às autoridades, ao governo brasileiro e até mesmo ao dinheiro gasto na Olimpíada.

BBC Brasil - É injusto com os atletas?

Kaufman - Alvos de vaias podem se sentir ofendidos, tristes e até ameaçados por uma torcida mais ruidosas. Não os culpo por pensarem apenas na qualidade de seu desempenho em vez de analisar aspectos culturais ou políticos. É perfeitamente compreensível que o atleta francês tenha ficado bastante chateado com as vaias que recebeu até no pódio. Mas ele estava competindo contra um atleta brasileiro e em casa. Pelo que tenho lido sobre a torcida brasileira, era inevitável que ele fosse alvo dessas manifestações.

BBC Brasil - Renaud Lavillenie não foi a primeira "vítima" e não deverá ser a última, mas o comportamento da torcida no Estádio Olímpico, em especial durante provas em que normalmente o silêncio do público é uma questão de etiqueta, como o tênis e a esgrima, irritou até o presidente do COI, Thomas Bach. Como achar um meio termo?

Kaufman - Olha, é irônico que sentimentos de nacionalismo e tribalismo surjam na Olimpíada, uma competição concebida em sua forma moderna para promover a paz e a união ente os povos. Mas o esporte é passional e excitante. As pessoas querem vaiar seu adversário para tentar afetar o resultado de uma partida. E, como costuma ser o caso por causa das rivalidades locais, os brasileiros "pegaram no pé dos argentinos". Também vimos o público vaiando atletas russos por causa da controvérsia envolvendo o doping. As vaias, por sinal, são o menor dos problemas que o COI tem para resolver.

BBC Brasil - Mas Lavillenie não teria razão ao reclamar do barulho durante o momento de seus saltos? Não seria preciso criar uma cultura de torcida mais apropriada para o esporte olímpico?

Kaufman - Isso seria uma atitude de imperialismo cultural. Por que a maneira do brasileiro torcer é errada? A realidade que conhecemos é criada pelo ambiente em que crescemos. Você mencionou o tênis anteriormente: será que não vale a pena discutirmos a razão para o silêncio durante o saque no tênis enquanto no futebol a torcida pode urrar nos ouvidos de um atacante que vai bater um pênalti? A diferença é que o tênis é um esporte muito mais elitizado.

BBC Brasil: O senhor defende o comportamento da torcida, então?

Kaufman: De certa maneira, sim, apesar de que os esportes têm regras para lidar com isso. Acho fascinante o fato de que as normas de comportamento podem ser diferentes. Fica a impressão de que o COI foi pego de surpresa pela passionalidade do torcedor brasileiro. Mas lembremos da Copa do Mundo de 2010, em que as vuvuzelas do torcedor sul-africano criaram um problema até para quem viu os jogos pela TV. Mas ter proibido seu uso teria amputado um componente cultural.

Vaiar é uma expressão de crenças e valores. É tão "errado" quanto torcer.



domingo, 14 de agosto de 2016

Albert Camus, estrangeiro, estranhamento e fanatismo, por Leandro Karnal

Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:

Cordeiros de Deus

"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.

Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.

A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.



quarta-feira, 27 de julho de 2016

Padre francês escreveu pedindo paz mundial antes de ser degolado pelo EI


A matéria é da Agência Brasil:

Em último texto, padre degolado na França pediu “mundo mais humano”

O padre Jacques Hamel, degolado nesta terça-feira (26) durante uma missa na França em um ataque assumido pelo grupo Estado Islâmico, pediu um "mundo mais humano" em sua última mensagem publicada no boletim da paróquia de Saint-Etienne-du-Rouvray.

"Vivemos em uma época que podemos escutar o convite de Deus para tornarmos esse mundo em que vivemos um mundo mais acolhedor, humano e fraterno", escreveu o sacerdote, de 86 anos. Ordenado em 1958, Hamel vivia na igreja onde celebrava missas e era muito conhecido na comunidade católica local, uma das mais fortes da França, apesar da grande presença de muçulmanos.

Dois homens invadiram a igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray ontem e fizeram o padre como refém. A dupla obrigou o sacerdote a se ajoelhar e o degolou. Os dois agressores foram mortos pela polícia e um menor de idade está preso sob suspeita de ligação com o ato.

Padre-auxiliar, Hamel já estava afastado de algumas funções devido à sua idade, mas tinha pedido para permanecer colaborando ativamente na paróquia (o Vaticano permite que um sacerdote se aposente a partir dos 75 anos).



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Terror islâmico não cede na França


O atentado do dia segundo a Agência Brasil:

François Hollande confirma que ataque em Nice foi ato terrorista

O presidente francês François Hollande disse hoje (14), em um pronunciamento de TV, que o atentado com um caminhão em Nice que matou pelo menos 77 pessoas, incluindo crianças, foi um ato terrorista. “A natureza terrorista [do ataque] não pode ser negado. O motorista foi morto a tiros, não sabemos se ele tinha cumplices”, disse Hollande. “Toda a França está sob ameaça do terrorismo islâmico”.

Hollande declarou que o estado de emergência iniciado após os ataques de novembro de 2015 e que se encerrariam no dia 26 de julho agora serão extendidos por mais três meses após o ataque de Nice. De acordo com o presidente, o trabalho da polícia aumentará, inclusive nas fronteiras

O presidente também disse que a França vai fortalecer sua campanha na Síria e no Iraque após o ataque a Nice.

Motorista morto a tiros

O último balanço do ataque registrava 77 mortos após um caminhão avançar contra uma multidão durante as comemorações da Queda da Bastilha, um feriado nacional francês. A prefeitura de Nice disse, pelo Twiter, que houve um atentado. A prefeitura do Departamento dos Alpes Marítimos, onde está localizada a cidade de Nice, disse que o motorista do caminhão foi morto a tiros pela polícia. Segundo a imprensa local, ele seria um residente de Nice de origem tunisiana.

O prefeito de Nice, Christian Estrosi, escreveu no Twitter pedindo para que os moradores residentes em Nice permanecessem em casa. Ele também declarou que foram encontradas armas e granadas no interior do caminhão e que o motorista disparou contra a multidão.

A mídia francesa informou que o caminhão bateu nas pessoas enquanto a multidão estava reunida assistindo a um show de fogos de artifícios no Paseio dos Ingleses, um ponto turístico muito popular em Nice. Também há informações não confirmadas de tiroteios no mesmo local.



domingo, 3 de julho de 2016

100 anos da batalha que matou 1 milhão na 1ª Guerra Mundial

Saltando as trincheiras sangrentas na Batalha do Somme:
1 milhão de mortos para conquistar apenas 9 km de território inimigo.

Além de denunciar a estupidez e a inutilidade de qualquer guerra, a Batalha do Somme foi determinante na sequência da barbárie que dominou o mundo no século XX, e sua influência nefasta perdura até hoje.

Somente no primeiro dia de confrontos, o infame dia 01/07/1916, foram mortos 19.240 soldados britânicos, sem contar as demais nacionalidades envolvidas (franceses e alemães, sobretudo).

A matéria é da BBC Brasil:

O centenário da batalha que matou mais de 1 milhão e traumatizou a Europa

"Cavamos por alguns metros
E lá os deixamos para descansar
Mas o sangue à noite ainda é vermelho
Sim, mesmo à noite
E a face de um homem morto é branca"

O poema de Leslie Coulson, de 1916, é apenas mais um registro dos horrores da Batalha do Somme, uma das mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial e, de acordo com historidadores, uma das maiores chacinas da história da humanidade.

Esta sexta-feita marca o início de um combate em que, durante cinco meses, forças britânicas e francesas enfrentaram tropas alemãs ao longo do rio Somme, na França, em uma frente de apenas 24 km, mas em uma horrenda guerra de atrito que resultou em mais de 1 milhão de mortes.

Apenas no primeiro dia de enfrentamentos, pelo menos 30 mil soldados teriam morrido. A Batalha do Somme se tornou um dos símbolos do trauma provocado pela Primeira Guerra no imaginário europeu e seu impacto teve influência em aspectos não muito óbvios - o escritor J.R.R. Tolkien, por exemplo, lutou nas trincheiras do Somme e muitos acadêmicos dizem que a experiência inspirou a trilogia O Senhor dos Anéis.

E há especialistas que veem a carnificina como desnecessária - cujo resultado final, na prática, foi um avanço de apenas 9 km por território controlado pelo inimigo.

A batalha

A Ofensiva do Somme teve como objetivo reforçar as tropas francesas que lutavam na região de Verdun e enfraquecer as tropas alemãs. Ao contrário dos dois países, porém, o Reino Unido na época da Primeira Guerra não tinha um Exército forte e enviou para o front um imenso número de voluntários, que, em um primeiro momento, não conseguiam penetrar as linhas alemãs.

Apenas no primeiro dia de combates, pelo menos 19 mil soldados britânicos morreram, um número altíssimo de baixas que não convenceu o comandante Douglas Haig a diminuir a intensidade do ataque. Mas aos poucos a superioridade numérica dos aliados começou a falar mais alto - os britânicos, por exemplo trouxeram pelotões de então colônias como Austrália e África do Sul.

Em agosto, os alemães já contabilizavam mais de 250 mil mortos e feridos e ainda tinham de lidar com outros problemas. O maior poder naval britânico e francês resultou em bloqueios no Mar do Norte e no Adriático, causando severa escassez de alimentos na Alemanha.

O quadro apocalíptico fez com que o comandante das forças alemães, Erich von Falkenhayn, renunciasse. Em setembro, mesmo a resistência frenética alemã e os rigores do inverno não pareciam capazes de frear o avanço aliado. Mas foi apenas em novembro que a a última escaramuça da Batalha do Somme teve lugar, nas proximidades do rio Ancre.

Nos 141 dias de batalha, as forças aliadas ganharam apenas 9 km de território inimigo. Mas mesmo esse pequeno avanço teve sua importância: historiadores dizem que levou à maturação da tropas britânicas e à vantagem psicológica obtida sobre os alemães quando o inimigo recuou.

Tecnologia no front

A Batalha do Somme marcou a entrada no teatro militar de importantes inovações tecnológicas. Em 15 de setembro, na Batalha de Flers Courcelette (que fez parte de Somme), os britânicos usaram uma arma secreta: o tanque de guerra. 48 tanques Mark I participaram dos combates, embora apenas 21 tivessem conseguido chegar à linha de frente - 17 quebraram no caminho.

Aviões jã faziam parte do teatro de operações da Primeira Guerra desde o início, em 1914, especialmente para operações de reconhecimento. No Somme, o poder aéreo foi muito mais importante neste sentido, embora pilotos já estivessem equipados com armamento para ataques e pequenos bombardeios.

Batalhões de camaradas

O recrutamento de voluntários para o Exército britânico teve sucesso devido à estratégia de usar o espírito cívico e comunitário como principal isca: milhares de "batalhões de camaradas", recrutados localmente em vez de nacionalmente, sob o raciocínio de que homens se sentiriam mais estimulados a servir com pessoas conhecidas.

Infelizmente, isso também tornou o trauma da guerra mais intenso - com a gradual dizimação de pelotões e mais pelotões. Cidades inteiras choraram a perda de vidas. Um exemplo: o 11º Regimento de East Lancashire enviou para a frente do Somme 784 "camaradas" em 1º de julho - apenas no primeiro dia, quase 600 estavam mortos ou feridos, e rumores de que apenas sete tinha sobrevivido causaram violentos protestos nas ruas da cidade de Accrington, de onde vinham os voluntários.

Guerra nas telas

Pela primeira vez na história, uma guerra foi filmada. E 20 milhões de pessoas no Reino Unido - quase metade da população em 1916 - correu para os cinemas para assistir ao documentário A Batalha do Somme, que usou cenas reais do front.

O filme teve imenso impacto e até hoje é um dos mais vistos na história do cinema britânico - teve mais espectadores que o episódio original de Star Wars. Pessoas conhecidas no front

Tolkien não foi a única pessoa conhecida que participou dos combates no Somme. O compositor Ralph Vaughan Williams já tinha composto The Lark Ascending (uma das peças de música erudita preferidas do público britânico até hoje) quande se alistou como soldado do corpo médico britânico e foi enviado ao front.

Do lado alemão, havia Otto Frank, nascido em Frankfurt, cuja filha Anne ficou famosa ao escrever um diário sobre os anos em que sua família, judia, viveu escondida da perseguição nazista na Holanda. Ele viria a ser o único da família a sobreviver ao Holocausto.

Também estava nas trincheiras um jovem austríaco, de 25 anos, que havia se voluntariado para a guerra. Seu nome? Adolf Hitler.


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Como abraçar um muçulmano


A curiosa experimentação social começou muitos meses atrás, quando o mundo ainda estava em choque pelo surgimento do Estado Islâmico, mas não tão apavorado pela selvageria e pelos atentados que se seguiram.

O programa se chamava "Blind Trust Project" ("Projeto Confiança Cega") e consistia em posicionar um rapaz de pé nas ruas de Toronto (Canadá), com os olhos vendados, braços abertos, e com dois cartazes: um dizia "eu sou muçulmano e sou rotulado como terrorista", e o outro "eu acredito em você. Você acredita em mim? Dê-me um abraço então!".

Veja o que aconteceu:


Algum tempo depois, a experiência ocorreu num lugar ainda mais complicado, em Mumbai (antigamente denominada Bombaim) na Índia, onde a histórica rivalidade entre hindus e muçulmanos já levou a guerras e conflitos constantes entre Índia e Paquistão.

Pois foi exatamente lá que um muçulmano se posicionou numa rua com um cartaz dizendo "eu sou muçulmano e acredito em você. Você acreditaria em mim o suficiente para me dar um abraço?".

O resultado você pode ver no vídeo abaixo:



Já houve inclusive a versão francesa do "abrace um muçulmano" pós-ataques a Paris na sexta-feira 13 passada, com os mesmos dizeres e uma profunda emoção, conforme você pode ver no vídeo abaixo:




É interessante ver como as pessoas reagem aos estereótipos, e depois de uma desconfiança inicial se dispõem a encarar os medos individuais e coletivos.

Peço licença aos leitores para contar uma experiência pessoal que ilustra bem o que quero dizer.

Em maio de 2014, durante um voo de Las Vegas (Nevada) a Charlotte (North Carolina), presenciei uma cena que confrontou meus medos e preconceitos.

O voo é longo, dura mais de 3 horas, e confesso que, logo no embarque, estranhei a presença de 5 jovens tipicamente muçulmanos, com suas vestes e barbas que chamavam a atenção.

Confesso que, por um instante, pensei o pior, mas logo me acalmei. 

Afinal, com toda aquela segurança nos aeroportos dos Estados Unidos, em que o passageiro é revistado, tocado, scaneado e quase despido, a probabilidade de alguém mal-intencionado passar incólume é praticamente nula.

Os aviões americanos que fazem os trajetos nacionais têm uma configuração um pouco diferente daquela que estamos acostumados no Brasil.

Os banheiros ficam no meio do avião e os passageiros são instruídos repetidas vezes para não aglomerar na frente deles.

Eu estava sentado numa poltrona do lado do corredor duas fileiras atrás do banheiro, com um jovem militar devidamente fardado na poltrona de trás e, lá pelas tantas, estranhei o fato de um daqueles jovens - aparentemente muçulmanos - estar parado em frente ao banheiro, lívido, se sentindo - ao que tudo indicava - bastante desconfortável.

Novamente, me acalmei e voltei a ler a revista que estava em minhas mãos quando, alguns minutos depois, houve uma barulhenta comoção generalizada logo à minha frente.

Levei alguns instantes (que pareciam uma eternidade) para reparar que o rapaz muçulmano havia desmaiado, e algumas pessoas se reuniam em volta dele para socorrê-lo.

Felizmente, havia vários médicos no avião retornando de um congresso médico em Las Vegas e todos foram rápidos e bastante solícitos em socorrer o rapaz que imediatamente teve uma poltrona liberada ali do lado para se recompor, enquanto recebia os cuidados dos profissionais habilitados para tanto.

Confesso que, por alguns segundos, meu coração saltou à boca e imaginei o pior, mas logo fui alegremente surpreendido pelo fato de que há pessoas que não se assustam com os estereótipos e se apressam em fazer o melhor que podem para socorrer alguém. 

Vergonha para mim.

Chegamos todos sãos e salvos a Charlotte e, na sala de conexões, os mesmos 5 rapazes apareceram para tomar um voo para Londres no portão ao lado daquele que me traria de volta a São Paulo. 

Pausa, claro, para refletir sobre como nossas reações são condicionadas pelo medo (e pelo inconsciente) coletivo e - felizmente - na imensa maioria das vezes, estamos equivocados.

Claro que tudo que tem acontecido no mundo em termos de fanatismo, decapitações, terrorismo e intolerância religiosa não pode ser explicado na simplificação de um discurso do abraço, mas não custa nada sonhar e manter a esperança de que dias melhores virão.

É o que nos resta, afinal!

Jamais despreze o poder de um abraço. Sim, pode ser que um abraço mude o mundo. 

Pelo menos um pouquinho...



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

França revida ataque do Estado Islâmico


A informação é da BBC Brasil:

Após ataques de Paris, França bombardeia 'Estado Islâmico'

Aeronaves francesas atacaram neste domingo Raqqa, cidade no norte da Síria que é uma das bases do grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico" (EI).

Em comunicado emitido pelo Ministério de Defesa francês, o governo disse que um posto de comando e um campo de treinamento foram destruídos.

Os ataques ocorreram dois dias após os ataques que mataram 129 pessoas na capital francesa, Paris, e deixaram centenas de feridos na última sexta-feira.

O "EI" assumiu a autoria dos atentados e afirmou se tratar de uma retaliação pelo envolvimento da França nos ataques aéreos liderados pelos Estados Unidos a militantes do grupo na Síria e no Iraque.

'Ato de guerra'

O presidente francês, François Hollande, disse que os atentados são um "ato de guerra" e que seu país intensificará os ataques ao "EI".

Hollande afirmou também que a França não terá "misericórdia" em sua resposta ao grupo, prometendo "usar todos os recursos possíveis dentro da lei".

Neste domingo, uma multidão se reuniu na catedral de Notredame, em Paris, para uma missa em homenagem às vítimas.

A cidade vive um clima de tristeza, perplexidade e tensão, com o registro de cenas de pânico em diversos locais por suspeitas de novas ameaças.

O país está oficialmente em estado de emergência desde sexta-feira. A princípio, terá uma duração de 12 dias.

Mas, de acordo com fontes ouvidas pela agência de notícias AFP, Hollande quer estendê-lo por três meses. Para isso, será preciso obter aprovação do Parlamento.



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