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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Série da TV portuguesa associa evangélicos brasileiros à corrupção

Igreja da Felicidade Universal e Bem Estar Geral - a IFUBEG

Por que será?

A matéria saiu no Comércio do Jahu:

Série lusa trata de corrupção à brasileira

Produção, disponível gratuitamente na internet, satiriza política, religião e relação entre os dois países

Com um grande escândalo de corrupção prestes ser revelado, a ministra da Cultura de Portugal resolve distrair a população patrocinando a criação de uma telenovela grandiosa. O Brasil, que tem experiência de sobra tanto em falcatruas como nos folhetins, é escolhido como parceiro ideal nesta empreitada.

É esse o ponto de partida da série “País Irmão”, exibida agora pela RTP (televisão pública de Portugal), que recorre ao humor ácido e aos clichês das telenovelas para contar uma história política.

Gravada nos dois países, a produção traz rostos conhecidos dos brasileiros, como os atores Marcos Pasquim, Pedro Cardoso e Natália Lage.

A trama narra bastidores dessa fictícia operação abafa, mas com expedientes usados na corrupção real: preços superfaturados, produtora fictícia, edital fraudado, e muitos conflitos de interesses.

Em 18 episódios, explora a trama dos personagens conforme avança na montagem da novela luso-brasileira, escrita por pai e filho que têm uma relação complicada.

A escolha por uma telenovela como mote não foi à toa. “Portugal é provavelmente o único país da Europa que passa três horas de novela no horário nobre”, conta o escritor Hugo Gonçalves, que assina a trama juntamente de Tiago Santos e João Tordo.

“A telenovela é a forma como o Brasil mais chega aos portugueses”, conta o roteirista, que morou por quatro anos no Rio e adquiriu repertório para muitas das piadas e tiradas presentes na trama.

Em um dos episódios ambientados no Rio, a produtora Branca, vivida por Natália Lage, fica cansada de ver um colega português ser sucessivamente enrolado pelos cariocas. De maneira didática, a personagem explica para ele o funcionamento da brasileiríssima “lei de Gérson” (de se levar vantagem em tudo).

Os autores também brincam com a dificuldade que muitos brasileiros têm em entender o sotaque lusitano e as diferenças no português de cada lado do Atlântico.

A sátira política também se mistura à religiosa em “País Irmão”. É que para dar vida à novela de época “Corte Tropical”, que conta história da fuga da família real portuguesa para o Brasil, os políticos corruptos se unem a uma ambiciosa igreja evangélica.

Em troca de apoio e dinheiro para o projeto, o grupo pede que o governo ceda a concessão de um canal de TV, um prédio em área nobre da cidade e o direito de escalar uma fiel da igreja como personagem central da história.

O núcleo da Igreja da Felicidade Universal e Bem Estar Geral (Ifubeg) é recheado de tiradas ácidas. Em determinado momento, os políticos se queixam de como é difícil enrolar o alto funcionário da igreja vivido por Marcos Pasquim. “Quando se trata de aldrabice (trapaças), a religião leva milhões de anos de avanço”, diz o mafioso, resignado.

“País Irmão” pode ser assistida gratuitamente no site da RTP (www.rtp.pt).

40 anos de sucesso

Embora hoje não tenham o mesmo alcance do passado, as novelas brasileiras ainda fazem muito sucesso em Portugal. “Gabriela, Cravo e Canela”, exibida em 1977, inaugurou a obsessão local com as tramas brasileiras.

Segundo a Globo Portugal, mais de 200 folhetins da emissora já foram exibidos. Muitos em horário nobre.

O sucesso incentivou o país de Camões a criar as próprias tramas, que hoje já exportam atores para o Brasil.

“A telenovela é, e com muito mérito, a única indústria audiovisual que Portugal tem. Mas há pouco espaço e pouco dinheiro para apostar em coisas diferentes. E mesmo quando se aposta, é um combate duro. Porque chegam a estar 3 milhões de pessoas a ver novelas no horário nobre”, diz Hugo Gonçalvez.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Vaticano lança moeda homenageando os 100 anos das aparições de Fátima


A informação é da Rádio Vaticano:

Moeda vaticana recorda centenário das aparições de Fátima

O centenário das aparições de Fátima será recordado pelo Departamento Filatélico Numismático do Governatorato do Vaticano com a emissão de uma moeda comemorativa de 2 euros, em 5 de outubro.

Em reconhecimento à Lúcia dos Santos, Francisco e Jacinta Marto – as três crianças que em 1917 tiveram visões da Virgem Maria e são o símbolo da inocência que permite aos homens reconhecer a Deus - a artista Orietta Rossi decidiu dedicar a eles o primeiro plano da composição, retratando-os como aparecem numa célebre fotografia de época que percorreu o mundo. Ao fundo, a imponente basílica construída no local das aparições.

O Papa Francisco recordou o centenário das aparições da Virgem Maria em Fátima com uma Viagem Apostólica realizada em 13 de maio do corrente ano, durante a qual canonizou os pastorinhos Jacinta e Francisco Marto, diante do túmulo dos quais recolheu-se em oração. Lúcia dos Santos por sua vez, falecida em 2005, foi proclamada Serva de Deus e seu processo de beatificação ainda está em andamento.

A moeda de 2 euros do Vaticano terá, como aquela emitida no passado 1 de junho e dedicada aos 1950 anos do martírio dos Santos Pedro e Paulo, uma dupla produção: uma em "FDC - fior di conio" - que é o mais alto grau de conservação, sem nenhum sinal de circulação, conservando o seu brilho natural - com tiragem de 80 mil peças, “comercializadas na fonte” ao preço de 18 euros a unidade e outra em uma pequena caixa, com tiragem de 10 mil exemplares, que o UFN (Ufficio Filatelico e Numismatico) colocará à disposição de coleccionadores e de comerciantes numismáticos ao preço de 37 euros. (BS/JE)



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Papa canonizará 30 brasileiros em outubro


Conforme anunciamos aqui no mês passado, o papa Francisco marcou a canonização de 30 brasileiros para o próximo mês de outubro.

Os 30 brasileiros foram mortos pelos protestantes calvinistas holandeses em 1645, e não escapa ao observador mais atento o fato de que essa canonização coincide com o mês em que se comemora os 500 anos da Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero.

Provavelmente, é uma forma do papa se contrapor à crescente onde conservadora dentro do Vaticano que o critica, enquanto estende a mão para os luteranos numa celebração conjunta da Reforma.

A notícia é da Agência Brasil:

Papa canonizará em outubro os primeiros mártires brasileiros

O papa Francisco canonizará no dia 15 de outubro deste ano, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, os primeiros mártires brasileiros, os sacerdotes André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e o laico Mateus Moreira, além de outras 27 pessoas assassinadas em 1645.

O anúncio foi realizado hoje (20), durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

Para que sejam canonizados, eles não necessitaram nenhum milagre, apenas o parecer positivo dos membros da Congregação para as Causas dos Santos, que reiterou o assassinato por "ódio à fé".

Eles são os primeiros mártires e santos brasileiros assassinados entre os dias 16 de julho e 3 de outubro de 1645 pelos protestantes calvinistas holandeses instalados em Brasil naquela época.

Muitos foram assassinados em Cunhaú e Uruacu, no Rio Grande do Norte, durante uma missa dominical celebrada por André de Soveral. Eles tinham sido beatificados pelo papa João Paulo II em março de 2000, na Basílica de São Pedro.

Os mártires brasileiros serão canonizados em uma cerimônia ao lado de dois meninos mexicanos conhecidos como Mártires de Tlaxcala; o espanhol Faustino Miguez, fundador do Instituto Calasancio Filhas da Divina Pastora e o sacerdote franciscano italiano Luca Antonio Falcone.

Papa canonizará crianças que viram aparição da Virgem Maria

O papa canonizará no próximo dia 13 de maio, durante sua viagem a Portugal, Francisco e Jacinta Marto, os irmãos pastores que, segundo a Igreja católica, presenciaram, ao lado da prima Lúcia, a aparição da Virgem Maria.

O anúncio foi realizado hoje, durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

No dia 23 de março, o pontífice tinha aprovado os decretos para canonizar as duas crianças, de 9 e 10 anos, que morreram pouco depois das aparições, entre maio e outubro de 1917, e que serão as primeiras crianças não mártires declaradas santos.

Francisco viajará para Fátima onde participará dos atos em comemoração do centenário das aparições, nos próximos dias 12 e 13 de maio. A cerimônia de canonização será no sábado (13), quando está prevista uma missa multitudinária na esplanada do santuário mariano.

O milagre pela intercessão dos irmãos que pode decretar a canonização, segundo as normas católicas, é o da suposta cura de uma criança brasileira.

Francisco (1908-1919) e Jacinta Marto (1910-1920), que junto com sua prima Lúcia, que se tornou freira e a única que sobreviveu, presenciaram as aparições na Cova da Iria e foram beatificados no dia 13 de maio de 2000, por João Paulo II, em Fátima.

As três crianças portuguesas garantiram que testemunharam as aparições da Virgem, e quem revelou a elas os chamados três Segredos de Fátima, relatados por Lúcia, que morreu em 2005, para quem também foi aberto um processo de beatificação.

O papa Francisco chegará ao Santuário de Fátima na sexta-feira, dia 12 de maio, e, na base aérea de Monte Real, terá um encontro privado com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.

No dia seguinte, visitará a Basílica de Nossa Senhora do Rosário e celebrará uma missa na esplanada do santuário e onde canonizará as duas crianças. Francisco será o quarto pontífice que visitará Portugal, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).

Edição: Kleber Sampaio



quarta-feira, 29 de março de 2017

Papa poderá canonizar pastorinhos de Fátima em maio


A informação do Estadão:

Pastorinhos de Fátima podem ser declarados santos no dia 13 de maio

Vaticano anunciou que o papa Francisco autorizou a canonização de Francisco Marto e Jacinta Marto

José Maria Mayrink

A postuladora da causa da canonização de Francisco Marto e Jacinta Marto, irmã Ângela Coelho, que é médica, admitiu nesta quinta-feira, 23, por telefone ao Estado que os dois pastorinhos poderão ser declarados santos no dia 13 de maio, em Fátima, se o papa Francisco quiser.

"Está tudo preparado, depende só da decisão do papa", disse a postuladora, horas depois de o Vaticano ter anunciado que Francisco autorizou a Congregação para as Causas dos Santos publicar o decreto de reconhecimento do milagre necessário para a canonização.

O miraculado, ou beneficiário do milagre, é uma criança brasileira, cuja identidade Ângela Coelho não revelou, alegando que, por enquanto, nada mais pode adiantar a respeito. Recentemente, ela comentou que (o milagre) "é bonito por isto mesmo: duas crianças cuidam de uma criança".

Francisco morreu em 1919 com 11 anos, e Jacinta em 1920, com 10 anos, pouco depois das aparições de Fátima, de 1917, quando diziam ter visto a Virgem Maria. A terceira vidente, sua prima Lúcia Santos, foi freira carmelita e morreu em 2005, aos 98 anos de idade. Irmã Lúcia já foi beatificada e também deverá se declarada santa.

A data da cerimônia de canonização de Francisco e Jacinta será anunciada em abril, duas ou três semanas antes de Francisco viajar a Fátima para a comemoração do centenário das aparições. O papa passará menos de 24 horas em Portugal e irá somente a Fátima. Acompanhará a procissão das velas e rezará o terço com os peregrinos na noite do dia 12 de maio e celebrará missa no pátio do Santuário dia 14. Depois, almoçará com os bispos português e voará de volta a Roma.



sábado, 18 de fevereiro de 2017

O bacharel mulato e filho de padre que peitou D. Pedro I e as agruras do séc. XIX

Pelo jeito, o mundo não mudou nada desde então.

Talvez tenha até perdido muito em senso de humor, segundo se depreende do artigo de Mary del Priore em História Hoje:

O bacharel mulato que desafiou D. Pedro I

No Brasil imperial, época de mudanças, um personagem importante invadiu a cena: o mulato. Em seu clássico Sobrados e Mocambos, Gilberto Freyre foi dos primeiros a observar fenômeno: ele era uma força nova e triunfante. Segundo Freyre, o mulato vinha se constituindo em elemento de diferenciação da sociedade rural e patriarcal no universo urbano e individualista. Ele estaria se integrando, ou melhor, se acomodando, entre os extremos: o senhor e o escravo. A urbanização do Império, a fragmentação das senzalas em quilombos, o crescimento de alforrias e a inserção nos cargos públicos e na aristocracia de toga, deu visibilidade aos mulatos, “aos morenos”.

Nos jornais, notícias e avisos sobre “Bacharéis formados”, “Doutores” e até “Senhores Estudantes”, principiaram, desde os primeiros anos do século XIX a anunciar o novo poder daqueles que agiam e se expunham em becas escuras. “Trajes de casta capazes de aristocratizar” seus portadores, diz Freyre. Muitos não dispunham de protetores políticos para chegar à Câmara nem subir à diplomacia. Muitos estudaram ou se formaram graças “ao trabalho de uma mãe quitandeira ou um pai funileiro”. Outros faziam casamento com moças ricas ou de famílias poderosas. Mas eram visíveis em toda a parte.

É o mesmo Gilberto Freyre quem conta o exemplo de José da Natividade Saldanha, bacharel mulato e protagonista de uma história surpreendente. Filho de padre, Saldanha estudou para padre no Seminário de Olinda, mas rebelou-se contra o Seminário. Durante a Revolução Pernambucana, em 1817, ele deixou a cidade com os familiares e rumou para Coimbra, a fim de continuar os estudos. Na volta ao Recife, se insurgiu contra Dom Pedro I e sua constituição. Foi eleito secretário do governo de Manoel de Carvalho Paes de Andrade e encontrava tempo para escrever relatórios sobre a revolução, pensando em deixar para a posteridade as informações do acontecido. Com a derrota dos insurretos, Natividade Saldanha fugiu.

Na primeira tentativa frustrada de refugiar-se na França, perdeu o navio e escondeu-se novamente em Olinda. O cônsul americano James Hamilton Bennet o ajudou na fuga para Filadélfia, Estados Unidos, onde sofreu discriminação, por ser mulato. Viajou, então, para a França, onde conseguiu um passaporte português. Sob perseguição do governo brasileiro, ele foi expulso do país pela polícia local. Foi à Inglaterra e, de lá, à Venezuela, onde sofreu privações. Na Venezuela, Natividade Saldanha conheceu o General Abreu e Lima, que o encaminhou a Simon Bolívar. Conseguiu, então, exercer a advocacia naquele país. Ali, comentou a sentença de um juiz branco, Mayer, na qual ele, Saldanha era chamado de mulato. E retrucou:
”[…] Esse tal mulato Saldanha era o mesmo que adquirira prêmios quando ele, Mayer tinha aprovação por empenho e quando o tal mulato recusava o lugar de auditor de guerra em Pernambuco, ele, Mayer, o alcançava por bajulação”.
Saldanha abandonou Caracas e foi à Colômbia pela selva, passando a residir em Bogotá, onde passou a ensinar Humanidades. Soube, então, que tinha sido condenado à morte por enforcamento no Brasil. Tomando conhecimento que um antigo amigo exercia atividade no tribunal que o condenou, enviou-lhe uma procuração com os seguintes termos:
“Pela presente procuração, por mim feita e assinada, constituo por meu bastante procurador na Província de Pernambuco ao meu colega Dr. Tomaz Xavier Garcia de Almeida, para em tudo cumprir a pena que me foi imposta pela Comissão Militar, podendo este morrer enforcado, para o que lhe outorgo todos os poderes que por lei me são conferidos.
Caracas, 3 de agosto de 1825.
Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Papa irá a Fátima para celebrar centenário das aparições de Maria


Comunicação visual da visita papal já está pronta.

Contrariando o movimento de alguns portugueses contrários à visita, o papa Francisco confirmou presença nas festividades do centenário das aparições da Virgem Maria em Fátima, Portugal, segundo noticia a Rádio Vaticano:

Fátima: O Papa vem para rezar com os portugueses

É o foco da visita que o Papa Francisco vai fazer a Fátima nos próximos dias 12 e 13 de Maio no contexto do centenário das aparições.

Este foi o sentido da conferência de imprensa do passado dia 10 em Fátima do reitor do santuário e coordenador geral da visita, padre Carlos Cabecinhas.

Aos jornalistas, o sacerdote apresentou a identidade visual para a visita do Papa, elaborada pelo designer Francisco Providência.

O cartaz para a visita tem uma imagem do Papa em fundo, onde se desenha um coração com a inscrição 'Papa Francisco' e 'Fátima 2017', a "assinatura motivacional" 'Com Maria peregrino na esperança e na paz' e o logótipo do centenário das Aparições de Fátima.

O reitor não adiantou pormenores sobre o programa da visita de Francisco, mas espera a afluência de uma multidão de peregrinos nesta visita papal centrada exclusivamente na Cova da Iria, e considera pouco «expectável» que surjam novidades sobre a canonização dos videntes.

De Lisboa, o nosso correspondente Domingos Pinto.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Alguns portugueses pedem que papa não prestigie centenário de Fátima

Os "pastorinhos" de Fátima

A matéria foi publicada no El País de 26/11/16:

Fátima: milagre, mentira e/ou negócio

Um abaixo-assinado pede que o papa Francisco não respalde com sua visita a misteriosa aparição na cidade portuguesa

JAVIER MARTÍN

O papa Francisco visitará Portugal no ano que vem para comemorar o centenário da aparição da virgem a três pastorzinhos na localidade de Fátima, segundo a Igreja Católica.

O anúncio motivou um manifesto intitulado Contra a Credibilização do “Milagre” de Fátima, que está recolhendo assinaturas via Internet para que o pontífice visite o que quiser, mas que não perpetue essa história. Já são mais de 600 assinaturas em poucos dias, entre elas a de um sacerdote, além de antropólogos e personalidades da sociedade civil, como o músico Pedro Barroso, um de seus porta-vozes.

O abaixo-assinado não se opõe à visita nem à Igreja Católica, e sim, segundo os signatários, à propagação de algo infundado. “O milagre é um embuste, uma farsa, uma má encenação com cem anos, tempo suficiente para ter desmascarado o que hoje em dia é um negócio”, declarou Barroso à agência Lusa.

“O papa Francisco é uma personalidade que merece algum respeito nosso por muitas atitudes em favor de uma Igreja mais moderna, uma Igreja de verdade, uma Igreja Católica de grande responsabilidade, e muitas vezes com intervenções sociais e públicas de grande valor. Como vai referendar uma coisa destas?”, pergunta-se Barroso.

Os signatários pedem a Francisco que, se visitar Fátima, se muna do açoite para expulsar os vendilhões do templo que, no entender deles, é o que virou o santuário edificado no lugar das supostas aparições aos pastores, visitado por milhares de pessoas anualmente.

O manifesto recomenda uma série de livros sobre o que realmente ocorreu, como Fátima Nunca Mais (1999) e Fátima S/A (2015), do padre Mário do Oliveira, signatário do manifesto, e ressalta que a época do suposto milagre era marcada por um “grande obscurantismo cultural e com evidente aproveitamento dessa rústica ignorância” por parte da Igreja

“Não é preciso um grande esforço”, diz o texto, “para chegar a esta conclusão, nem grande erudição teológica para analisar o caso. A evidência do logro fica bem clara, bastando, no essencial, ler alguns documentos oficiais e alguns livros de pessoas – algumas assumidamente católicas – com autoridade na matéria [...] para concluir pela sua total inconsistência”.

O abaixo-assinado diz que, seguindo a postura de seriedade que vem adotando em seu pontificado, “o melhor serviço que o papa Francisco prestaria à verdade histórica, seria NÃO vir a Fátima, assim desmistificando o chamado ‘milagre dos pastorinhos’, recusando colaborar com ele, ou dar-lhe o seu aval”.

Francisco será o quarto Papa a visitar Fátima, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Portugal se prepara para o centenário das aparições de Fátima

A informação é da Agência Brasil:

Portugal prepara festa dos 100 anos da aparição de Nossa Senhora de Fátima

Marieta Cazarré

A comissão organizadora do centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal, preparou uma extensa programação para comemorar o evento religioso, em maio do ano que vem. Para a Igreja católica, é um acontecimento histórico.

Haverá ciclos de música sacra, produção de documentários, lançamento de livros, exposições, concertos, performances, fóruns de estudo, apresentação de coros infantis, oficinas musicais criativas e oficinas de esculturas, entre outras atividades.

A comemoração do centenário remete ao ano de 1917, quando três pequenos pastores – os irmãos Francisco e Jacinta e Lúcia, prima dos dois – afirmaram ver a imagem de Nossa Senhora na Cova da Iria, local a 2,5 quilômetros da cidade de Fátima.

Segundo relatos da época, naquele ano, Nossa Senhora teria aparecido várias vezes para as três crianças entre maio e outubro. No dia 13 de outubro, uma multidão teria presenciado o chamado Milagre do Sol, quando, repentinamente, uma chuva que caía cessou e as roupas das pessoas secaram instantaneamente.

Ainda para a programação do centenário, serão produzidos spots de rádio com personalidades que farão depoimentos sobre Fátima, haverá um mural online para os peregrinos deixarem recados e lançamento de jogos infantis para tablets. Estão previstas também visitas a mosteiros e dioceses portuguesas, além de concursos de jornalismo e fotografia.

A fama da cidade como local de peregrinação transformou o local em um dos destinos mais procurados de Portugal, atraindo milhares de peregrinos e visitantes todos os anos.

Edição: Nádia Franco



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Na contramão da Europa, Portugal quer receber mais refugiados sírios


A matéria é do jornal português Público, com ortografia lusitana:

Portugal disponível para receber dez mil refugiados

ANA GOMES FERREIRA

António Costa, através de acordos bilaterais, mais do que duplicou a quota atribuída ao país pela União Europeia. Em Bruxelas, o tema refugiados agravou ainda mais o clima de animosidade mas foi marcada, para Março, uma cimeira com a Turquia.

Portugal está disponível para receber cerca de dez mil refugiados – 4486 no âmbito do acordo europeu de recolocações, firmado no ano passado, e os restantes através de acordos bilaterais que o primeiro-ministro, António Costa, propôs à Alemanha e aos países mais afectados pelo fluxo migratório.

Costa, que participa em Bruxelas na cimeira da União Europeia (UE), enviou cartas os chefes dos governos grego, sueco, italiano e austríaco a disponibilizar-se para receber em Portugal milhares de refugiados que estão nestes países.

Em Setembro de 2015, o Governo português (estava então no poder a coligação de direita) aceitou a cota de 4486 refugiados atribuídos no plano de redistribuição de 160 mil pessoas — destas, apenas uma ínfima parte chegou aos seus destinos. No início de Fevereiro, o chefe do novo Executivo (socialista) visitou a Alemanha e disponibilizou-se, junto da chanceler Angela Merkel, para receber mais um grupo alargado de refugiados (duas mil pessoas), que seriam integrados em empregos no sector da agricultura e no ensino superior.

Agora, em Bruxelas, Costa alargou novamente o número através destas ofertas bilaterais.

É com a soma de todos estes números — cota europeia, proposta à Alemanha e novos acordos bilaterais — que se chega aos dez mil refugiados, ou próximo disso.

Em declarações aos jornalistas, o primeiro-ministro português voltou a dizer que estes refugiados que Portugal está disposto a receber poderão ser encaminhados para sectores como a agricultura e florestas, mas que a oferta se alarga também a estudantes universitários.

“É essencial que todos nos mobilizemos para responder de uma forma positiva [ao fluxo de refugiados que chega à Europa]”, disse António Costa. “Isto de forma a que a Europa cumpra os seus deveres de assegurar a protecção internacional a todos aqueles que são perseguidos, a todos aqueles que são vítimas da guerra e que procuram na Europa o seu refúgio”.

Ameaças e decisões unilaterais

Em Bruxelas, porém, a forma de cumprir este dever de protecção que António Costa mencionou não é consensual. No segundo dia da cimeira em que um dos temas na agenda era a travagem do fluxo migratório em direcção à UE e o registo e reincaminhamento dos refugiados e dos chamados imigrantes económicos que já estão no território comunitário (mais de 2,5 milhões, nas contas que já pecam por defeito das Nações Unidas), os países voltaram a ameaçar-se mutuamente ou a tomar decisões unilaterais — ao ponto de a Grécia ameaçar inviabilizar a declaração final, que tem implicações sobre a coesão da UE (o Brexit).

“Precisamos de ajudar o Reino Unido, mas o Reino Unido vai ter um referendo em Junho e esta crise [dos refugiados] está a atingir-nos agora”, disse o primeiro-ministro grego. Alexis Tsipras considerou que, em Bruxelas, se fala da necessidade de “uma maior união”, mas “as fronteiras estão em risco e a União Europeia está a desintegrar-se”.

A decisão da Áustria de aplicar, desde esta sexta-feira, cotas de passagem no seu território (3200 pessoas por dia) — muitos percorrem o seu território para chegar à Alemanha — e um limite para os pedidos de asilo que vai aceitar (80 por dia), além do anúncio de que esses números serão em breve reduzidos, irritou muitos parceiros. Uma notícia que agravou ainda mais o clima de animosidade em Bruxelas — e minou o plano alemão para chegar a um entendimento sobre uma parceria UE/Turquia para estancar o fluxo de gente que atravessa o Mediterrâneo Oriental e chega às ilhas gregas.

A parceria com Ancara é a grande aposta do governo alemão, e apesar de não haver consenso sobre ela, foi decidido que se realizará uma cimeira UE/Turquia no início de Março, antes da cimeira europeia de dia 6 desse mês.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, ficou “exasperado” com a decisão austríaca, diz a Reuters. O chefe da pasta europeia das migrações, Dimitris Avramopoulos, disse que a Áustria está a violar a legislação europeia e internacional sobre asilo. Mas os austríacos mostraram-se inamovíveis. “Estou muito contente com a nossa decisão e vamos mantê-la”, disse a ministra do Interior, Johanna Mikl-Leitner, lembrando que o sue país recebeu onze mil pedidos de asilo desde 1 de Janeiro e que só aceitará 37.500 até ao fim do ano. “Por isso, teremos que introduzir novos limites”, afirmou a ministra dizendo não perceber o “espanto” da Alemanha uma vez que foi este país que “inventou este sistema”.

As decisões unilaterais de controlo de fronteiras prosseguem. Alguns países optaram pelo encerramento de fronteiras, o que na prática significa a criação de uma linha de fronteira interna na UE e que põe em causa a aplicação do acordo de Schengen, que determina a livre circulação de pessoas e bens no espaço comunitário e a que aderiram alguns países não membros. Hungria, República Checa, Eslováquia e Polónia defenderam — e estão a aplicar — um plano de encerramento das suas fronteiras e da dos países que rodeiam a Grécia.

De quinta para sexta-feira, Macedónia, Croácia e Eslovénia decidiram introduzir um sistema conjunto de registo dos que chegam da Grécia e de transporte directo destes para a Áustria. O plano pretende identificar os que são originários de países considerados, como a Síria, o Iraque e o Afeganistão, deixando-os seguir em viagens organizadas (e não os outros), mas não lhes garantindo automaticamente direito a pedido de asilo — pretendem que essa triagem seja feita na Áustria. O chefe da polícia croata, Vlado Dominic, disse que a Bulgária e a Albânia vão ser convidados a juntar-se a esta estratégia uma vez que, perante esta nova realidade, podem tornar-se rapidamente novos países na rota que os refugiados e imigrantes usam para chegar à UE.



sábado, 18 de janeiro de 2014

Eusébio: futebol, fado e Fátima no imaginário português

No dia 5 de janeiro de 2014, faleceu Eusébio, o maior jogador de futebol que Portugal produziu, ainda que através da sua então colônia africana Moçambique.

Conhecido também como o "Pantera Negra", Eusébio despontou em uma década (1960) em que a ditadura de António de Oliveira Salazar (a que muitos chamavam de "o beato") comandava o país desde 1932.

A figura do futebolista de origem moçambicana foi logo apropriada pelo regime como uma espécie de, digamos, "justificativa" para o império colonial português, já nos seus estertores.

Isto numa época em que o fado de Amália Rodrigues e as aparições de Fátima contribuíam para a visão de um Portugal idílico que, de fato, não existia.

É esta a tese do sociólogo lusitano Nuno Domingos em artigo publicado originalmente no Público e reproduzido pelo Estadão:

Brincando nos campos de Salazar

Sociólogo português mostra como a ditadura usou Eusébio para mudar o discurso sobre o negro

Nuno Domingos

No Portugal dos anos 1960, abundavam as imagens de Eusébio da Silva Ferreira. Ele ali estava, espalhado por jornais e revistas, mas também em programas e serviços noticiosos da Radiotelevisão Portuguesa. Atleta do Benfica e da selecção nacional, sempre na sua função de jogador de futebol, era aclamado pelo inegável talento. No Portugal metropolitano de então, onde rareavam ainda os naturais de África, nunca um negro merecera tanto destaque e fora objecto de tamanha glória. Uma representação dessas distinguia-se da imagem do africano, que proliferara na cultura popular. Como demonstrou Isabel Castro Henriques (A Herança Africana em Portugal, ed. CTT), o negro era quase sempre ridicularizado, com evidente crueldade, em livros, imagens, jornais, bandas desenhadas, campanhas publicitárias e anedotas. A construção de um outro tipo de africano, fundada numa distância que permitia as maiores efabulações, só tomou um sentido mais concreto durante a guerra colonial, onde o africano era o inimigo, o "turra".

Desde seus primórdios, o Estado Novo contribuíra decisivamente para a disseminação de um racismo generalizado, garantindo-lhe até um carácter científico. Em exposições e congressos, nos trabalhos de diversas ciências coloniais, e em muitas publicações oficiais, expunha-se um outro africano culturalmente diferente, que fazia parte integrante do império português, mas era colocado à parte, como se se tratasse de um todo racial e cultural discrepante. O império afirmara o atraso civilizacional das populações africanas, legitimando assim uma conquista colonial anunciada como uma missão de desenvolvimento dessas regiões e dos seus povos.

Salazar, o "beato salvador" da nação portuguesa.
Rezas por ele valiam 50 dias de indulgência .
Justificou-se, dessa forma, que Portugal atribuísse uma cidadania específica à maioria dos povos que governava, enquadrada pelo chamado sistema de indigenato, que cessou em 1961, precisamente no ano em que Eusébio começou a jogar no Benfica, depois de chegar a Portugal em dezembro de 1960.

É evidente que as retóricas integracionistas do Estado Novo na década de 1960 obrigavam a outras representações do africano, nomeadamente a de um sujeito colonial assimilado à sociedade portuguesa. Eusébio ajustava-se bem a essa imagem. Sua autobiografia, publicada em 1966 em Portugal e redigida por Fernando G. Garcia a partir de um conjunto de entrevistas (traduzida em inglês no ano seguinte), conta a história de um "bom rapaz", narrativa mestra e memória oficial a partir daí repetida em jornais, biografias e bandas desenhadas.

A "verdadeira" história de Eusébio apresenta um conjunto de etapas, do Bairro da Mafalala na Lourenço Marques colonial, onde vivia com a mãe, Elisa, num contexto de pobreza honrada, os jogos de bairro e a equipa dos "brasileiros", as idas à escola, o deslumbramento com o centro da cidade colonial, que pouco conhecia, a entrada no futebol local, a transferência atribulada para o Benfica e os diversos passos da brilhante carreira profissional.

Nessa história, a lista impressionante de feitos desportivos é intervalada pelo relato do casamento com Flora e pela incorporação de Eusébio, em 1963, no Exército português, profusamente fotografada e utilizada como propaganda. A incorporação militar, o casamento e a vida familiar contribuíam para a construção quase perfeita da biografia de um indivíduo assimilado, preocupado com o trabalho e com a família e plenamente integrado no Portugal de Salazar, um jovem de origens desfavorecidas que, apesar da notoriedade, continuava a perceber seu lugar social.

Amália Rodrigues
A apropriação oficial da imagem de Eusébio não anulava os efeitos produzidos pelo facto de um negro se ter tornado uma figura dominante da cultura popular portuguesa. Eusébio entrou, tal como a fadista Amália, num universo de glorificação cultural até aí constituído por indivíduos com origens e percursos muito distintos, consagrados em actividades oficialmente legitimadas e de onde o futebol e o fado se encontravam afastados.

Apesar do reconhecimento de seu mérito, a apreciação entusiástica que mereceu não resultava de uma inusitada consciência de igualdade racial, tão-pouco poderia servir de prova de que a sociedade portuguesa estava preparada, devido a uma característica cultural adquirida, a aceitar a diferença. A relevância de Eusébio dependia do seu valor enquanto elemento de uma economia particular, no contexto de uma troca muito específica, proporcionada pelo processo de profissionalização do futebol. O jogador moçambicano oferecia quase todas as semanas capitais preciosos à representação nacional, mas sobretudo clubista, a uma específica cidadania exercida diariamente por muitos indivíduos, quase todos homens, durante incontáveis encontros, conversas e imensas retóricas, nos quais se manifestava uma identificação, uma forma de apresentação na vida de todos os dias. Os que no campo representavam com seu génio desportivo essa pertença (ser do Benfica, do Sporting, do Porto, ou da selecção) mereciam quase todas as recompensas, independentemente da sua origem ou da cor da sua pele. O valor de Eusébio nessa economia particular dependia da manutenção de um nível performativo constante, de um ritmo laboral intenso, com consequências físicas conhecidas, como asseveram as inúmeras cirurgias ao seu martirizado joelho.

As exibições no Mundial de 1966 ampliaram a reputação de Eusébio, oferecendo-lhe uma dimensão global. Esse enorme atleta, personagem principal de uma cultura de consumo em expansão que gerava novas identificações, juntou-se à memória visual colectiva de uma geração, ao lado de outros ícones da cultura popular dos anos 1960. Em Inglaterra, país que na altura já abdicara da grande parte das suas colónias, governada em 1966 por um governo trabalhista, os negros eram uma enorme raridade nos campeonatos desportivos e nenhum chegara à selecção nacional.

O efeito do poder mediático de vedetas populares como Eusébio foi alvo de escrutínio, as suas posições interpretadas, os resultados políticos dos seus actos avaliados. Se o Estado Novo sempre desconfiara da espectacularização do desporto assente no movimento associativo, veio depois a perceber que essa lhe podia ser útil. Para as oposições ao regime, menos preocupadas em reconhecer o efeito propriamente político da invulgar notoriedade social de um negro em Portugal, importava denunciar a utilização de Eusébio na defesa da "situação", enquanto elemento da narcotização do povo - ao lado do fado, do chamado nacional-cançonetismo e de Fátima - e especificamente da propaganda imperial, fundada na mitologia do pluri-racialismo, num período em que Portugal lutava pelos seus territórios numa guerra travada em três frentes.

É interessante verificar que nas últimas décadas Eusébio veio a tornar-se objecto de interesse para os estudiosos do continente africano, entendido como um pioneiro do futebol em África, um exemplo de talento extraordinário e, simultaneamente, ao lado de outros grandes nomes negros da história do desporto internacional, nomeadamente norte-americanos, desde Joe Louis a Jesse Owens, alguém que vingara num mundo fortemente discriminatório. O desejo de alguns académicos e jornalistas estrangeiros em encontrar no discurso de Eusébio posições emancipadoras e politizadas esbarrou quase sempre em respostas evasivas e no habitual refúgio no mundo do futebol. Na verdade, o universo que ele, desde pequeno nos espaços livres da Mafalala, aprendera a dominar. Para aquele que foi considerado, depois do Mundial de 1966, como "o melhor da Europa", e de quem se falava estar a disputar com Pelé o título de "rei do futebol mundial", África e a política africana estavam muito longe.

O Estado Novo tratou de voltar a lembrar que Eusébio era africano, parte de um Portugal enorme que se prolongava para sul. Se é evidente que o impacto de Eusébio na sociedade portuguesa não pode ser avaliado apenas à luz de uma história política, sendo essencial investigar o efeito simbólico da notabilidade de um jogador negro, é também certo que na década de 1960 sua glória serviu à defesa de uma excepcionalidade colonial. Foi essa que serviu de justificação à soberania sobre os territórios africanos e a sua história, contada e recontada até nossos dias, contribuiu para lançar um manto sobre o passado e reproduzir mitos sobre a tolerância racial dos portugueses.

Um ano antes do Mundial de 1966, o embaixador português Franco Nogueira, numa conferência na embaixada portuguesa em Londres (em maio de 1965), falou sobre os princípios orientadores da política portuguesa em África: "Nosso primeiro princípio orientador é a igualdade racial - uma pequena noção que trouxemos para África há mais ou menos 500 anos". Portugal orgulhava-se do seu império se constituir como um "espaço multirracial", uma "democracia racial real" onde todos "trabalham harmoniosamente para os mesmos fins".

Falso e mitificador, o olhar de Franco Nogueira, ao incluir o império dentro da sociedade portuguesa, acabava por realçar o facto de que o mundo governado pelos portugueses na década de 1960 era maioritariamente negro e africano, realidade por vezes esquecida nas análises historiográficas sobre Portugal. E qual era o lugar que a gestão colonial portuguesa atribuíra a essa grande maioria da população? Segundo a história mediatizada da vida de Eusébio, existia em Moçambique um contexto de igualdade de oportunidades e uma ausência de preconceito racial, bem ilustrados por um percurso de mobilidade social, desde o Bairro da Mafalala até à metrópole e aos grandes estádios europeus.

Poderá um caso excepcional ilustrar a excepcionalidade de um regime colonial? É que o lugar da população africana, na grande sociedade portuguesa de 1960, era bem diferente do representado pelo caso de Eusébio. Sua integração estava longe de estabelecer qualquer padrão que pudesse explicar os 500 anos de colonialismo de que falava Franco Nogueira.

Mais fiável parecia ser a história da cidade onde o jogador moçambicano cresceu. Desde sua fase moderna, iniciada no final do século 19 e projectada pela industrialização da África do Sul, que Lourenço Marques se dividira entre um centro colono, predominantemente branco, e um subúrbio precário, predominantemente negro. Pela força, afastaram-se as populações locais para a periferia. Separada fisicamente, a mão de obra africana que se acumulava nos subúrbios, essencial para o funcionamento do sistema colonial, foi enquadrada por leis e normas. Essas regulavam uma discriminação racial, a qual era evidente não apenas na lógica do indigenato, mas que se traduzia no quotidiano, nos espaços públicos, nas escolas, nos transportes e nos locais de trabalho, onde sofreram durante muito tempo o flagelo do trabalho forçado. O historiador Valdemir Zamparoni explicou bem esse mesmo processo na sua tese sobre a capital de Moçambique.

Já depois do fim do indigenato persistia o que, num artigo publicado em 1963 no jornal A Tribuna, o arquitecto Pancho Guedes chamava de "cinto do caniço" que separava o centro urbano da "cidade dos pobres, dos serventes e dos criados", isto é, a cidade dos africanos. Lourenço Marques carecia então, segundo o arquitecto, de "uma genuína integração social - ou serão os ‘pretos’ só para estar nas cozinhas e nas recepções?".

Os habitantes dos bairros periféricos da cidade, onde nasceu Eusébio em 1942, trabalhavam nas indústrias locais, nos portos e nos caminhos-de-ferro, nos serviços domésticos, em actividades ditas informais, dependendo de pequenas lavras, ou faziam parte da forte emigração para o país vizinho, controlada e taxada pelo Estado colonial. Essa estrutura laboral era fortemente racializada, pertencia a um sistema onde a cor da pele mostrava os contornos da organização social. Na grande sociedade portuguesa de 1960, o lugar dessa maioria africana, mesmo depois do fim do indigenato, continuava a revelar a herança de um colonialismo predador e racista, não muito diferente dos outros colonialismos nos seus propósitos e objectivos, nos meios e nas estratégias, e absolutamente nada excepcional.

Explicada pela conjugação única entre a profissionalização do futebol e a procura de talentos, a força da cultura popular mediática e um regime que necessitava de defender por todas as formas o mito do pluri-racialismo lusófono, a carreira extraordinária de Eusébio não belisca a imagem pérfida do sistema colonial português. Tão-pouco deve servir de modelo para descrever, hoje, as relações raciais em Portugal.

NUNO DOMINGOS É SOCIÓLOGO E PESQUISADOR DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA. TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM PORTUGAL NO JORNAL PÚBLICO



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quando o bispo Sardinha virou flauta


Bom, essa é só uma remotíssima hipótese levantada pelo brilhante artigo abaixo, de Luisa Tombini Wittmann, que mostra como a música foi decisiva na evangelização dos indígenas brasileiros, matéria publicada na Revista de História:

Apelo gospel

Jesuítas usaram a música para propagar o Evangelho e doutrinar índios.

Luisa Tombini Wittmann

No meio da selva tropical, padres de batinas longas e pretas, com a cruz no pescoço, ensinaram índios nus e pintados a rezar o Pai-Nosso. E a música foi uma grande aliada nessa tarefa religiosa: os nativos pediram bis ao ouvir o canto de uma procissão católica, e os próprios jesuítas acabaram tocando música indígena, conforme os relatos dos missionários que desembarcaram no Brasil em 1549. Não seria tarefa simples a aproximação entre pessoas tão diferentes, mas já nos primeiros dias do contato surgiram pistas de como a música poderia ajudar no diálogo entre os jesuítas e os nativos.

Na época em que navios aproximavam culturas que até então não se conheciam, os seguidores de Inácio de Loyola (1491-1556), membros da Companhia de Jesus, ficaram incumbidos de disseminar a palavra de Cristo entre povos tão distintos como índios e indianos. A crise religiosa europeia forçava a monarquia portuguesa a fazer propaganda do catolicismo, que estava abalado pela Reforma Protestante. Na costa do Brasil, a mensagem cristã ecoou por meio da música, o que é intrigante, porque os jesuítas não costumavam cantar e tocar em suas celebrações litúrgicas, seguindo as regras da Companhia de Jesus. Loyola temia que seus discípulos fossem desviados da principal vocação, que era a atividade missionária. Mas os jesuítas em missão percebiam a cada dia que a música, muito estimada pelos índios, poderia ser um elemento facilitador da evangelização, e a incluíram até mesmo nas missas que celebravam. Considerada linguagem universal, essa arte era perfeita para facilitar a comunicação.

Manuel da Nóbrega (1517-1570) acreditava que deveria contar com a presença de um grupo de músicos para garantir o sucesso das expedições de catequização. Dizia-se que os índios permitiriam a entrada de inimigos em suas aldeias, e até poupariam da morte os guerreiros capturados, caso soubessem cantar e tocar. A postura de Nóbrega o motivou a delegar a um músico, Antônio Rodrigues (1516-1568), o importante cargo de primeiro mestre-escola de São Paulo. O cantor e flautista foi também responsável pela nobre tarefa de ensinar os filhos dos índios a ler, a escrever e a cantar nas capitanias do Rio de Janeiro e da Bahia. Os jesuítas chegaram a solicitar o envio de instrumentos e músicos de Portugal, tamanho era o fascínio que os ameríndios demonstravam pelas canções europeias.

Muitas das narrativas jesuíticas enaltecem a missão ao relatar casos de índios que tocavam e cantavam músicas sacras. Há, porém, indícios de outras manifestações sonoras nas aldeias, inclusive de jesuítas cantando ao modo indígena. Dias após sua chegada, o padre Juan de Azpilcueta Navarro (1521-1557) ensinava o Pai-Nosso conforme os cantos dos índios. Acreditava que, desta forma, além de o aprendizado ser mais rápido, a principal oração do cristianismo cairia no gosto local. Ao visitar aldeias de índios gentios (não cristianizados), os jesuítas costumavam entrar cantando música religiosa europeia, ritual indígena ou novos sons resultantes do contato. Tudo isso prova que a mistura cultural com os índios foi longe, levando inclusive os meninos portugueses a cortar o cabelo igual ao dos curumins.

Padres e meninos órfãos, vindos de Lisboa para auxiliar na catequização das crianças indígenas, participaram de festas gentílicas dançando e tocando ao som do maracá, instrumento sagrado que emitia som similar às cascavéis trazidas pelos europeus para escambo com os nativos. Ambos são uma espécie de chocalho, cujas esferas ocas têm pedrinhas no interior que produzem som por meio da percussão, sendo a cabaça natural do maracá sustentada por um pedaço de pau e decorada com penas, grafismos e às vezes feições humanas. Porém, algo mais uniu cascavéis e maracás: as viagens pelos mares oceânicos. Instrumentos indígenas também fizeram a travessia do Atlântico, levados por índios que deixaram suas aldeias na América para conhecer a Europa. Em Paris e Rouen, espetáculos de índios com seus maracás divertiram a nobreza, o clero e a população francesa em 1550 e 1613, períodos em que estabeleciam projetos comerciais e colonizadores nos atuais estados do Rio de Janeiro e do Maranhão.

Mas a troca musical nas aldeias coloniais não se deu sem percalços. O primeiro bispo do Brasil, Pero Fernandes Sardinha (1496-1556), alertou: viemos para catequizar o gentio, e não o contrário. Manuel da Nóbrega travou com ele uma acirrada batalha de palavras, iniciada em correspondência enviada a Lisboa em 1552 para o padre Simão Rodrigues (1510-1579), um dos fundadores da Companhia. Sardinha viu e ouviu europeus cantando em louvor a Deus, mas ao modo gentílico. Relatou, indignado, que tocavam instrumentos musicais usados pelos índios em rituais antropofágicos. O bispo afirmou que assim os evangelizadores poriam a perder seu árduo trabalho, pois alimentavam nos nativos a ideia de que os costumes indígenas eram verdadeiramente bons.

A resposta de Nóbrega não tardou: ele se justificou em carta ao mesmo destinatário. Escreveu que, ao cantar na língua, no tom e com os instrumentos musicais locais, atraía o coração dos índios. Certa vez, Nóbrega afirmou que seria por meio da música que se conquistariam todos os índios da América. Mas Sardinha discordava. Para ele, as atitudes dos jesuítas e as manifestações indígenas que compartilhavam eram inadmissíveis e inaudíveis. O destino interrompeu a contenda poucos anos depois, quando o navio que levava o bispo à metrópole naufragou na costa do atual estado de Alagoas e os tripulantes foram devorados pela população indígena local. Sabe-se que os ossos de alguns inimigos mortos pelos índios se transformaram em utensílios domésticos, ou até mesmo em instrumentos musicais. Podemos cogitar, e não seria de todo fantasia, que os ossos do grande opositor da música nas aldeias tenham virado, por ironia do destino, flauta indígena.

A experiência cotidiana nas aldeias exigia que os jesuítas adaptassem regras, fizessem concessões e até mesmo expressassem costumes dos índios, pelo menos aqueles que não eram vistos como ritos idólatras ou ofensivos à religião católica. Ao contrário da poligamia e da antropofagia, a música indígena foi até incentivada. Dos males, o menor, pensavam os religiosos. Um século após o contato entre os primeiros jesuítas com os tupis, Antônio Vieira (1608-1697) seguia na Amazônia os caminhos de Manuel da Nóbrega. O ilustre jesuíta foi um defensor da música nas atividades missionárias, e em seus escritos descreveu festas que conjugavam costumes nativos e europeus, inclusive musicais. Em carta de 1654, declarou com uma clareza impressionante que não se deve proibir os índios de cantar e se alegrar. Afinal, não seria perspicaz aborrecer aqueles que se pretende conquistar.

Os índios tinham uma capacidade única de abertura para o outro, e uma necessidade de absorvê-lo de maneira antropofágica, literal e metaforicamente. O contato com o diferente os transformava, sem que isso implicasse uma recusa de si mesmos. Para eles, aprender música católica não significava um desprezo pela sua musicalidade ou sua cultura. O desejo de expressá-la e aprendê-la fez com que os missionários a utilizassem com o propósito de se aproximar cada vez mais daqueles que queriam catequizar. E isso foi feito via sonoridades europeias e indígenas, gerando mesclas musicais.Para entender esta história, deve-se perceber a catequese como consequência do contato, e não como um projeto prévio, imutável e bem-sucedido. A música nas missões revela muito mais do que um estratagema jesuítico, pois se trata de uma história de relações entre diferentes universos, em que todos foram protagonistas. As estratégias de evangelização não foram totalmente elaboradas na Europa, mas também moldadas no cotidiano compartilhado das aldeias.

Nos primeiros anos da presença dos jesuítas em terras indígenas, Nóbrega anunciou que buscaria todos os meios para atrair os índios. Não há dúvida de que a música logo se revelou uma via indispensável no diálogo entre culturas. E ecoou por séculos pelas aldeias do Novo Mundo. Para além do célebre verso modernista de Mário de Andrade, “sou um tupi tangendo um alaúde!”, temos também aqui uma imagem inversa, mas nem por isso oposta: o jesuíta que toca o maracá. Instrumentos passam de mão em mão, trocados e tocados no encontro entre sujeitos tão distintos como um guerreiro tupi e um evangelizador jesuíta.

Luisa Tombini Wittmann é historiadora e autora do livro O vapor e o botoque: imigrantes alemães e índios Xokleng no Vale do Itajaí/SC (1850-1926) (Letras Contemporâneas, 2007).

Saiba Mais - Bibliografia

CUNHA, Manuela Carneiro da (org.) História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

LEITE, Serafim. Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954.

POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial. Bauru: Edusc, 2003.

Saiba Mais - Internet

“Os índios na história do Brasil”, de John Monteiro.


Na gravura aquarelada de Keller Leuzinger, de meados do século XIX, o interior de uma igreja no atual Amazonas. Os jesuítas perceberam a importância da música no processo de integração cultural.(Fundação Biblioteca Nacional)




Ao ler o artigo acima, é inevitável relembrar o espetacular filme "A Missão" ("The Mission", 1986), dirigido por Roland Joffé, com o elenco estelar que incluía Robert de Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson e Aidan Quinn numa das maiores obras-primas que o cinema já produziu e que reproduziu os conflitos que os jesuítas tiveram no Brasil não só com os índios, mas principalmente com a Coroa portuguesa.

Primeiro, a cena em que o padre Gabriel (interpretado por Jeremy Irons) toca oboé para fazer contato pacífico com os aborígenes:


Segundo, o trailer do filme com legendas em português:


Terceiro, a cena que precede a destruição da missão pelos portugueses, com o coral dos guaranis cantando "Ave Maria" em latim:


Se você ainda não teve oportunidade de ver esse filme, não faz ideia do privilegio que está perdendo.




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