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domingo, 29 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 29


SOBRE A MÚSICA

Prefácio a todos os bons hinários

Dona Música.
Dentre todos os prazeres sobre a terra
Não há maior que seja dada a alguém
Do que aquela que eu proporciono com meu canto
E com certas doces sonoridades.
Não pode haver má intenção
Onde houver companheiros cantando bem,
Ali não fica zanga, briga, ódio nem inveja,
Toda mágoa tem que ceder,
Mesquinhez, preocupação e o que mais atribular
Se vai com todas as tristezas.
Além disso, cada qual tem o direito
Desse prazer não ser pecado,
Mas, ao invés, agrada a Deus muito mais
Do que todos os prazeres do mundo inteiro.
Ela destrói a obra do diabo
E impede que muitos malvados matem
Isto demonstra o ato do rei Davi
Que muitas vezes, com doce toque da harpa,
Impediu que Saul praticasse grande matança.
Para a palavra e verdade divina
Ela silencia e prepara o coração.
Isto Eliseu declarou,
Ao encontrar o espírito pela execução da harpa.
A melhor época do ano é para mim
Quando cantam todos os passarinhos,
Enchendo os céus e a terra
Com canto agradável e abundante.
Puxa a frente o rouxinol querido
Alegrando tudo em toda parte
Com seu canto maravilhoso;
Por isso, devemos ser-lhe sempre agradecidos
Mais ainda ao amado Deus Senhor
Que assim a criou
De modo a ser uma grande cantora
Maestrina da música.
Para ele ela canta e dança noite e dia;
Ela por nada se cansa do seu louvor,
A ele glorifica e louva também o meu canto
E lhe expressa um agradecimento eterno.


(LUTERO, Martinho. Prefácio a todos os bons hinários. 1538. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. 2000. Vol. 7, págs. 483-484)



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 9



Primeiro Mandamento 

NÃO TERÁS OUTROS DEUSES


Isto é: considerarás somente a mim como teu Deus. Que significa isso e como se deve entendê-lo? Que significa ter um Deus, ou, que é Deus? Resposta: Deus designa aquilo de que se deve esperar todo o bem e em que devemos refugiar-nos em toda apertura. Portanto, ter um Deus outra coisa não é senão confiar e crer nele de todo coração. Repetidas vezes já disse que apenas o confiar e crer de coração faz tanto Deus como ídolo. Se é verdadeira a fé e a confiança, verdadeiro também é o teu Deus. Inversamente, onde a confiança é falsa e errônea, aí também não está o Deus verdadeiro. Fé e Deus não se podem divorciar. Aquilo, pois, a que prendes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente o teu Deus.

Por isso, o sentido desse mandamento é exigir fé genuína e confiança de coração, que vai certeiramente ao verdadeiro e único Deus e se apega exclusivamente a ele. Isso quer dizer tanto como: toma cuidado no sentido de, apenas, eu ser o teu Deus e de forma nenhuma procures outro. Isto é: o que te falta em matéria de coisas boas, espera-o de mim e procura junto a mim, e se sofres desdita e angústia, arrasta-te para junto de mim e apega-te comigo. EU, eu quero dar-te o suficiente e livrar-te de todo aperto. Tão-só não prendas a nenhum outro o coração, nem o deixes em outro descansar.

Devo explanar isso algo mais claramente, a fim de que se entenda e perceba a coisa à luz de exemplos cotidianos de comportamento oposto. Há muito quem pensa que tem Deus e o bastante de tudo quando possui dinheiro e bens. Tão inabalável e confiadamente deles se fia e jacta que ninguém lhe vale coisa nenhuma. Eis que tal homem também tem um deus, Mamon, de nome, isto é, dinheiro e bens, em que põe o coração todo. Esse, aliás, é o ídolo mais comum na terra. Quem possui dinheiro e bens sabe-se em segurança, e é alegre e destemido como se estivesse assentado no meio do paraíso. Por outro lado, quem nada possui, duvida e desespera, como se de nenhum Deus tivesse notícia. Pois a gente vai encontrar bem poucas pessoas que estejam de bom ânimo e não se lastimem nem se queixem quando não têm Mamon. Isto se gruda e adere à natureza até a sepultura.

Assim, também, aquele que se vangloria de grande erudição, inteligência, poder, apreço, parentela e honra, e nisso põe sua confiança: esse também tem um deus; não, porém, o Deus verdadeiro e único. Isso, por sua vez, o percebes, quando se torna aparente, quão presunçoso, seguro e orgulhoso se é em razão desses bens, e quão pusilânime quando inexistem ou deles se é privado. Repito, por isso, que a explicação correta desse ponto é: ter um Deus significa ter algo em que o coração confia inteiramente.

Considera, outrossim, o que praticamos e fizemos até agora na cegueira sob o papado. Se alguém estava com dor de dente, jejuava em honra de Santa Apolônia; se temia incêndio, fazia de São Lourenço seu padroeiro; se pestilência, fazia votos a São Sebastião ou São Roque, e número incontável de semelhantes abominações, cada qual escolhendo o seu santo, adorando-o e invocando-lhe a ajuda em aperturas. Para cá também pertence a atividade excessivamente grosseira daqueles que fazem pacto com o diabo, a fim de que lhes dê dinheiro a rodo, ou lhes ajude em amores, proteja-lhes o gado, recupere-lhes bens perdidos, como fazem, por exemplo, os magos e os bruxos. Pois todos esses põem seu coração e confiança em outra coisa que não no Deus verdadeiro. Nada de bom esperam dele, nem junto a ele o procuram.

Assim entenderás com facilidade o que e quanto esse mandamento requer, a saber, o coração todo do homem e a confiança inteira, exclusivamente para Deus e mais ninguém. Para ter Deus – fácil te será inferi-lo – não se pode pegar e contê-lo com os dedos, nem é possível metê-lo em bolsa ou encerrá-lo em cofre. Quando o coração o alcança e lhe adere, isto sim, chama-se apreendê-lo. Mas aderir-lhe com o coração outra coisa não é senão confiar inteiramente nele. Por isso quer desviar-nos de tudo o mais, fora dele, e atrair-nos para si, visto ser o único e eterno bem. É como se dissesse: O que anteriormente procuraste junto aos santos ou confiaste receber do Mamon ou de qualquer outra coisa, espera-o tudo de mim e considera-me como aquele que te quer ajudar e derramar copiosamente sobre ti tudo o que é bom.

Eis que aqui tens o que é a verdadeira honra e culto divino agradável a Deus e por ele ordenado sob pena de ira eterna, a saber, que o coração não conheça outro consolo e confiança senão a ele. E disso não se deixará arrebatar, mas, sim, há de, sobre isso, arriscar e pospor tudo quanto existe na terra. Fácil te será compreender e julgar, em contraste com isso, como o mundo pratica apenas falso culto a Deus e idolatria. Porque jamais um povo foi tão ímpio que não instituísse e observasse algum culto divino. Cada um erigiu em deus especial aquele de quem fiava coisas boas, ajuda e consolo.

Assim, por exemplo, aqueles gentios que punham sua confiança em poder e domínio erigiram o seu Júpiter em deus supremo; os outros, que aspiravam a riqueza, felicidade ou prazer e dias bons, a Hércules, Mercúrio, Vênus ou outros; as mulheres grávidas a Diana ou Lucina, e assim por diante. Cada qual erigia em deus para si aquilo a que o atraía o coração. De sorte que, realmente, também na opinião de todos os pagãos ter um deus quer dizer confiar e crer. O erro, porém, está em que seu confiar é falso e errado, porquanto não se dirige ao único Deus, além do qual, na verdade, não há Deus, nem no céu, nem na terra. Por isso, os gentios, efetivamente, transformam sua própria fantasia e sonho a respeito de Deus em ídolo e fiam no puro nada. É o que se dá com toda a idolatria. Pois ela não consiste apenas em erigir uma imagem e adorá-la, mas, principalmente, num coração que pasma a vista em outras coisas e busca auxílio e consolo junto às criaturas, santos ou diabos, e não faz caso de Deus, nem espera dele este tanto de bem: que ele queria ajudar. Também não crê que procede de Deus o que de bem lhe sucede.

Existe, além disso, outro culto falso. Trata-se da maior idolatria que até agora praticamos, e ela ainda impera no mundo. Nela, também se fundamentam todas as ordens religiosas. Diz respeito apenas à consciência, quando essa procura ajuda, consolo e salvação em suas próprias obras e presume de forçar a Deus a lhe abrir as portas do céu, e calcula quantas doações fez, o número de vezes que jejuou, rezou missa, etc. Nessas coisas põe sua confiança e delas se abona, como se nada quisesse receber gratuitamente de Deus, mas obtê-lo por esforço próprio ou merecê-lo de modo supererrogatório [supérfluo], exatamente como se Deus estivesse de estar a nosso serviço e ser nosso devedor, nós, porém, os seus senhores feudais. Que é isso senão fazer de Deus um ídolo, sim um deus-maçã, e a si mesmo reputar-se Deus e em tal se erigir? Mas isso aí é um tanto erudito demais, impróprio para alunos de pouca idade.

Todavia, a fim de notarem e reterem bem o sentido desse mandamento, diga-se aos simples este tanto: deve confiar-se exclusivamente em Deus e dele prometer-se e esperar apenas coisas boas. Pois é ele quem nos dá corpo, vida, comida, bebida, nutrição, saúde, proteção, paz e todo o necessário em bens temporais e eternos. Além do que nos preserva de infortúnios e, quando algo nos sobrevém, ele nos salva e liberta. De forma que só Deus – conforme bastantemente se disse – é aquele de quem se recebe todo o bem e por quem se é livrado de todo infortúnio. A meu ver, essa também é a razão por que nós, alemães, desde tempos antigos, designamos a Deus precisamente com esse nome – mais fina e apropriadamente que qualquer outra língia – da palavra “gut”, por ser ele fonte eterna que transborda de pura bondade e do qual mana tudo o que é e se chama “bom”.

Pois, ainda que, de resto, muita coisa boa nos venha de homens, todavia, é receber de Deus tudo quanto se recebe por seu mandado e ordem. Nossos pais e todas as autoridades e, a mais disso, cada um relativamente ao seu próximo têm ordem de nos fazerem toda sorte de bem. De maneira que não o recebemos deles, senão de Deus, por intermédio deles. As criaturas são apenas a mão, o canal e o meio através de que Deus tudo concede, assim como dá seios e leite à mãe para dá-los à criança e dá grãos e toda espécie de frutos da terra para alimentação. Criatura nenhuma pode produzir, por si mesma, um só que seja desses bens. Homem algum se atreva, por isso, a tomar ou a dar algo, a menos que Deus o haja ordenado, a fim de reconhecermos que são dádivas de Deus e que também não se rejeitarão esses meios de receber bens através das criaturas, nem se procurarão, presunçosamente, maneiras e caminhos diversos dos que Deus ordenou. Isso não seria receber Deus, senão procurar de si mesmo.

Atente, pois, cada qual em si mesmo, para que esse preceito seja magnificado e exaltado acima de todas as coisas e não seja levado de galhofa. Inquire e esquadrinha o teu próprio coração miudamente. Descobrirás, então, se se apega ou não com Deus apenas. Se tens um coração que é capaz de esperar somente coisas boas de Deus, especialmente em aflições e penúria, e que, a mais disso, sabe renunciar e abandonar tudo o que não é Deus, então tens o único e verdadeiro Deus. Se, inversamente, o coração se apega em outra coisa, de que se promete, a título de consolo, mais bem e socorro que de Deus, e se, ao se encontrar situação desesperadora, foge dele em vez de para ele refugir, então tens um outro deus, um ídolo.

A fim de que se advirta, por conseguinte, que Deus não quer ver isso tratado de resto, porém, seriamente, quer velar no seu cumprimento, juntou ao preceito, primeiro, uma terrível ameaça, em seguida, uma bela e confortadora promessa, que também se devem inculcar bem e, nelas, martelar junto à mocidade, para que as tome a peito e as lembre.

(Catecismo Maior de Martinho Lutero, in “Livro de ConcórdiaAs Confissões da Igreja Evangélica Luterana”, Editoras Concórdia/Sinodal/Ulbra, 6ª ed., 2006, pp. 394-399)



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Como não louvar a Deus



Ok, o vídeo já é meio antigo, mas continua bem atual, não é mesmo?





terça-feira, 27 de maio de 2014

Por que tarda o pleno avivamento?


Artigo de Mateus Prates Mori, a quem agradecemos por ter gentilmente autorizado sua reprodução aqui:

POR QUE TARDA O PLENO AVIVAMENTO?

Não sou nenhum pastor, teólogo ou filósofo, mas acredito no sacerdócio universal do crente em Cristo Jesus, por isso esse tema tem me incomodado e me chamado atenção. Pode ser que eu esteja errado. Se for, certamente estou falando para mim mesmo. Mas, creio que há algo de errado com TODO o cristianismo contemporâneo.

O título emprestado do livro de Leonard Ravenhill denuncia o mundanismo que adentrou a Igreja de Jesus Cristo. Pior que eu já li esse livro. Milhares de cristãos leram esse livro. E, obviamente, não muita coisa mudou.

O que eu questiono são os pesos que temos dado as práticas diárias da vida cristã. Lembro-me que na última aula da escola bíblica dominical foi levantado uma questão da prática devocional e do testemunho cristão. Um irmãozão meu questionou o ritualismo morto da leitura bíblica que o levava a chegar atrasado no trabalho. Todos foram unânimes em apontar para a necessidade de cumprir o seu dever com excelência, chegando pontualmente, fazendo o seu melhor no serviço, sendo luz naquele ambiente. Aqui, estou pondo minha cara a tapa, pois tenho a certeza que serei duramente criticado (até por reconhecer meu certo "desprezo" com o meu doutorado/trabalho). Porém, estou certo no Espírito Santo de que isso pode ter cara de piedade, mas no fundo é a mais pura vaidade.

Lembro-me de várias passagens a respeito do coração de um adorador. O que dizer da mulher que "desperdiçou" aquele perfume de nardo puro na cabeça de Jesus (Mc 14.3-9)? O que dizer de Maria, enquanto Marta estava atarefada em servir a Jesus, indo lá pra cá, inquieta e impaciente com a "lerdeza e a preguiça" de Maria (Lc 10.38-42)? O que está por trás de tudo isso? O antropocentrismo da obra contra a dependência cristocêntrica da adoração. Temos vivido no desespero confortável de cumprir a nossa agenda ou até mesmo a agenda da nossa igreja, ou temos vivido no descanso amedrontador de cumprir a agenda de Deus?

Quando lembro de sermões da Palavra que os meus pastores Arival e Hernandes tem pregado, não consigo não parar para pensar em como temos respondido. Será que não está na hora de deixarmos os nossos afazeres de segunda, terça, da semana toda e ficarmos em oração, súplica, intercessão, na casa de Deus - que o Senhor afirmou que será chamada casa de oração (Is 56.7; Mt 21.13) - até que Ele nos revista do Alto com o poder do Espírito Santo, para sermos suas testemunhas? Entenda, eu não estou falando de um segundo pentecostes. Estou falando da essência de tudo que é puro e de tudo que é digno diante do Senhor. "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus" (Sl 51.17). Está na hora de nos humilharmos. Onde estão os Neemias do nosso tempo (Nm 1)? Onde estão os Elias (1 Rs 19.9-18)? E onde está a alegria de compartilharmos dos sofrimentos de Cristo, como na Igreja Primitiva (At 5.40-41)?

"Lembra-te, Senhor, do que tem acontecido conosco; olha e vê a nossa desgraça. (..) Dos nossos corações fugiu a alegria; nossas danças se transformaram em lamentos. A coroa caiu da nossa cabeça. Ai de nós, porque temos pecado! E por esse motivo o nosso coração desfalece, e os nossos olhos perdem o brilho. (...) Por que motivo então te esquecerias de nós? Por que haverias de desamparar-nos por tanto tempo? Restaura-nos para ti, Senhor, para que voltemos; renova os nossos dias como os de antigamente" (Lm 5.1, 15-17, 20 e 21).

Antes da obra, a cruz. Antes da ressurreição, a morte. Antes da glória, a humilhação.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Papa quer torcida de adoradores extravagantes

Para os adeptos da assim chamada "adoração extravagante", fenômeno que andava meio esquecido pelo nome, mas continua em alta em muitas igrejas evangélicas brasileiras (além dos católicos carismáticos), uma declaração do papa Francisco deve tê-los reconfortado.

Na sua homilia durante a missa matinal realizada ontem, 27 de janeiro de 2014, na Casa de Santa Marta, no Vaticano, ao comentar o texto bíblico em que Davi vai dançando à frente da Arca da Aliança (2ª Samuel 6:13-16), não por acaso o preferido por aqueles que pregam que "vale qualquer coisa" para louvar a Deus, o papa Francisco disse que "Davi dançava com todas as forças diante do Senhor".

Acrescentou que que essa imagem alegre da Bíblia mostra que todo o povo estava em festa porque a Arca regressava à sua casa.

O louvor de Davi, segundo o papa, "o levou a deixar toda compostura de lado e a dançar diante do Senhor com todas as forças", concluindo que esta "era precisamente a oração de louvor".

Então, o pontífice recordou a história de Sara, que - numa tradução católica um tanto quanto liberal de Gênesis 21:6 ("Deus me tem feito riso") - teria "dançado de alegria diante do Senhor".

Com essa imagem recorrente em mente, o papa observou que "a nós é fácil entender a oração para pedir alguma coisa ao Senhor, e também para agradecer ao Senhor, mas devemos também entender a oração de louvor, de adoração, o que não é tão difícil". E -imaginando um diálogo fictício com um fiel tradicionalista reticente - acrescentou:
"Mas, padre, isso é para aqueles da Renovação Carismática, não para todos os cristãos!". Não, a oração de louvor é uma oração cristã para todos nós. Na missa, todos os dias, quando cantamos o Santo... esta é uma oração de louvor: louvamos a Deus por sua grandeza, porque é grande! E lhE dizemos coisas bonitas, porque gostamos que seja assim. "Mas, padre, eu não sou capaz... eu devo...". Mas você é capaz de gritar quando teu time de futebol faz um gol e não é capaz de cantar os louvores ao Senhor? É difícil sair um pouco de sua contenção para cantar isto? Louvar a Deus é totalmente gratuito. Não pedimos, não agradecemos: louvamos!
Entretanto, no nosso modesto ponto de vista, a comparação da oração, ou da adoração, com o comportamento de uma torcida de futebol, ainda que faça certo sentido no raciocínio peculiar e inconcluso do papa, é perigosa quando percebemos que muitos fiéis das mais diferentes denominações têm um comportamento de torcida organizada quando se trata de defender sua placa de igreja ou seu líder, conforme já comentamos aqui em dezembro de 2009, no artigo "Torcedores brahmeiros e igrejeiros".

Comparações como essas, jogadas ao léu, podem até ser ferramentas de embelezamento e popularização de um discurso (para não dizer que são sofismas), mas dificilmente resistem a um melhor escrutínio e tampouco apontam para o céu.

Agora o que vai ter de gente pegando carona na adoração extravagante futebolística do papa não é brincadeira! Seguuuuuuura, peão!

A fonte das informações acima é o Religión Digital.



sexta-feira, 26 de abril de 2013

Vivendo com fé e paralisia cerebral


Conheça Roger Flournoy Junior. Ele tem paralisia cerebral e mora em Austin, no Texas. No vídeo abaixo, ele fala sobre as dificuldades que enfrenta no seu dia-a-dia e como a fé em Jesus Cristo lhe faz encontrar sentido na vida. A tradução das legendas em inglês está logo a seguir:



Eu tenho paralisia cerebral.

Viver com paralisia cerebral definitivamente não é algo fácil.

Um monte de pessoas não entendem o que é paralisia cerebral e eles me tratam diferente.

Um monte de gente inclusive tem medo de mim ou se sentem muito desconfortáveis ao meu lado.

E isto me machuca porque eu quero ser amigo de todo mundo.

E eu não posso evitar o fato de que tenho paralisia cerebral.

O meu nome é Roger Flournoy Jr. e eu moro no centro de Austin (Texas).

Viva os “longhorns” (como são conhecidos os atletas de diferentes esportes da Universidade do Texas que fica em Austin).

Algumas das lutas que eu enfrento com a paralisia cerebral é que eu tenho que fazer coisas que uma pessoa normal nunca vai ter que fazer, como engatinhar no carpete todo dia, algumas vezes ele fica grudado em mim.

Eu utilizo um computador com um aparelho que se chama “head pointer” e eu digito no teclado como se estivesse catando milho.

Eu me locomovo pela cidade com uma cadeira de rodas elétrica. Ele me permite ter liberdade de me locomover por minha própria conta.v A pior coisa é a solidão.

Eu me transformo no meu pior inimigo quando me deixo sentir solidão.

Mas Jesus significa tudo para mim.

Sem Jesus eu sei que já teria cometido suicídio, porque viver sem Jesus não vale a pena.

Tempos difíceis aparecem todos os dias. Na maioria das vezes eu tento nocauteá-los porque o evangelho mudou a minha vida de uma maneira maravilhosa que eu nunca conseguirei entender em sua plenitude.

A adoração é a minha vida.

Deus me criou para adorar.

Jesus pagou o máximo preço e se eu não adorá-lo totalmente é como se eu não agradecesse por Ele ter morrido por mim.

E isto é tão poderoso.

Um dia eu estarei na eternidade com Deus.



quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma Ferrari em nome de Jesus


Uma reflexão do querido amigo e irmão Almir Albuquerque, que merece ser divulgada:





sexta-feira, 22 de julho de 2011

A arte do divino contentamento


O Gustavo, do site E-Cristianismo (e também editor deste blog), está traduzindo e publicando a obra "A Arte do Divino Contentamento", de Thomas Watson (1620-1686), um dos clássicos da teologia puritana, de leitura altamente recomendável e necessária nesses tempos conturbados que atravessa a igreja evangélica brasileira, obra da qual transcrevo o primeiro capítulo abaixo:

Capítulo 1 – A introdução ao texto

Estas palavras são trazidas por meio de prolepse para antecipar e prevenir uma objeção. O apóstolo deixou, nos versos anteriores, muitas sérias e celestiais exortações: entre elas, "não andar cuidadoso por coisa alguma". Não para excluir, um cuidado prudente; pois, aquele que não provê para seu próprio lar, "tem negado a fé, e é pior que um infiel" (1 Tm 5:8). Nem, um cuidado religioso; pois nós devemos dar toda "diligência para fazer firme nossa vocação e eleição" (2 Pd 1:10). Mas, para excluir todo cuidado ansioso sobre coisas e eventos; "não estejais ansiosos por sua vida, do que vocês deverão comer" (Mt 6:25). E neste sentido deveria ser o cuidado de um cristão, de não ser cuidadoso. A palavra cuidadoso no grego vem de um primitivo, que significa "cortar o coração em pedaços", um cuidado que divide a alma, preste atenção nisto. Nós somos instados a "entregar nosso caminho ao Senhor" (Sl 37:5); a palavra hebraica é, "girar teus caminhos para o Senhor". É nosso trabalho afastar o cuidado (1 Pd 5:7); e é o trabalho de Deus tomar cuidado.

Por nossa imoderação nós tomamos o trabalho de Suas mãos. Cuidado, quando é excêntrico, não confiável ou que distrai, é muito desonroso para Deus. Ele afasta Sua providência, como se Ele se sentasse no céu e não se importasse com o que acontece aqui embaixo; como um homem que faz um relógio, e então o abandona à própria sorte. Cuidado imoderado afasta o coração de coisas melhores; e geralmente enquanto nós estamos pensando em que devemos fazer para viver, nós esquecemos como morrer. Cuidado é uma ferida espiritual que desperdiça e desanima; nós podemos por nosso cuidado mais rapidamente adicionar um estádio [medida de distância] ao nosso sofrimento do que um cúbito ao nosso conforto. Deus ameaça como se ele fosse uma maldição, "eles comerão seu pão com cuidado" (Ez 12:19). Melhor jejuar do que comer aquele pão. "Não andeis cuidadosos por coisa alguma".

Agora, para que ninguém diga, "Está bem, Paulo, você nos tem ensinado isto que você mesmo tem raramente aprendido; você não aprendeu a não ser cuidadoso?", o apóstolo parece tacitamente responder isto, nas palavras do texto: "Eu aprendi, seja qual for a situação que eu me encontre, a estar contente". Um discurso digno de ser gravado em nossos corações, e de ser escrito em letras de ouro nas coroas e diademas de príncipes.

O texto se ramifica nestas duas partes gerais: 1. O estudioso, Paulo; "Eu aprendi". 2. A lição; "ser contente em toda situação".

O segundo capítulo pode ser lido no site E-Cristianismo, bem como os seguintes que serão paulatinamente publicados

sábado, 18 de dezembro de 2010

Precisamos de Barnabés

Só pra lembrar de uma época em que os líderes cristãos não tinham amor ao dinheiro, nem se locupletavam daquilo que os outros repartiam, e a única semente que plantavam era o amor à Igreja e ao próximo, e pra também reviver outra época, em que se fazia música evangélica de qualidade no Brasil:






BARNABÉ, HOMEM DE DEUS


Composição: Guilherme Kerr Neto e Jorge Rehder

Não fica bem a gente passar bem e o outro carestia,
ainda mais quando se sabe o que fazer e não se faz.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
vendeu um homem o que tinha e repartiu.

Era o seu nome Barnabé, natural de Chipre,
também chamado de José da Consolação,
homem bom e piedoso, cheio de temor e fé,
homem de Deus.

E quando Saulo converteu-se a Cristo lhe faltou amigo,
alguém que fosse companheiro, fonte de consolo e abrigo.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
foi um homem procurá-lo, dando-lhe a mão.

E quando a igreja se espalhou por todo canto que havia,
por providência, sim, por mão de Deus chegou a Antioqui.
Precisando de um pastor de almas,
mesmo de um pastor de homens,
foram procurar aquele Deus que preparou.

domingo, 2 de maio de 2010

A igreja precisa de poetas

Eu tenho um problema sério com pessoas que não conseguem ouvir o que seu interlocutor está falando, não exatamente por má audição, mas por má vontade. É claro que há várias explicações possíveis para esta atitude, mas em geral, quando alguém fala demais é porque tem algo a esconder. A verborragia se transforma, portanto, em uma poderosa arma de defesa contra quem ameaça invadir a sua fortaleza de segredos inconfessáveis ou o seu armário repleto de esqueletos empoeirados. Quando esta pessoa se diz cristã, o problema me parece mais sério, pois poder estabelecer um diálogo equilibrado entre o falar e o ouvir é um dos dons que Deus concedeu ao homem, tanto que, no relato da Criação, o próprio Deus em Pessoa ia ao jardim do Éden conversar com Adão e Eva. Jesus – o Logos (Verbo) de Deus - gostava de pregar e conversar, e muitas vezes os seus ensinos e diálogos se mesclavam, como nos rotineiros confrontos com os fariseus e na suprema aula que concedeu a Nicodemos (João 3). Nem Pilatos resistiu ao seu desejo de conversar para tentar entender.

A pregação expositiva é, de fato, bela e necessária, mas ela deve - ao menos - incentivar que seus ouvintes dialoguem com o pregador, no sentido de suscitar dúvidas que possam ser questionadas e ideias que sejam aperfeiçoadas, senão no momento do culto, em algum período reservado para isso dentro ou fora da igreja. O crente é um ser que pensa, embora geralmente seja tratado como repositório inanimado de mensagens não necessariamente inspiradas nem cristãs. O próprio jargão evangélico inibe esta interação, pois hoje os pregadores dizem que “entregam” uma mensagem, como se não houvesse possibilidade de, digamos, "deglutição" do que foi dito. Escondem-se atrás de uma autoproclamada “inspiração” para apregoar barbaridades supostamente autorizadas por um ser alegadamente divino, que, na verdade, se confunde com a pessoa – e as carências - de quem as anuncia. Não provocam nos ouvintes uma atitude de verdadeira entrega em adoração a Deus, mas de rendição incondicional ao pregador. Não por acaso, vemos hoje a igreja se perdendo no turbilhão de ensinamentos errados e heréticos de “pastores” que “apascentam a si mesmos” (Judas 12), que não toleram críticas nem admitem ser questionados, atitudes que se baseiam – principalmente – na passividade a que os ouvintes foram induzidos ao longo das últimas décadas, reduzidos que foram a meros espectadores de um discurso previamente elaborado, que apenas reproduz à exaustão o mais recente modismo evangélico, geralmente seduzido pelo “deus” que se escreve com “d” de “dinheiro”.


Jesus tinha especial prazer em conversar com seus ouvintes. As perguntas e os pedidos que lhe foram feitos serviram para ensinar grandes verdades, como no caso do centurião romano (Mateus 8), da mulher samaritana (João 4) e do jovem rico (Lucas 18). Os diálogos que o Mestre travava com Seus interlocutores eram momentos propícios para que o evangelho fosse anunciado e compreendido. Mesmo na liturgia do Antigo Testamento, os salmos foram poeticamente compostos e eram responsivamente cantados, num símbolo de que o culto a Deus é – também – um diálogo em oração e adoração. Quando Tiago (1:22) nos recomenda que sejamos praticantes da Palavra e não somente ouvintes, ele não está separando radicalmente o ouvir do pregar e do praticar, isentando o pastor de qualquer responsabilidade de também envolver-se no que aqui chamamos de “diálogo” da adoração. A palavra grega (ποιητής - poiētēs ) traduzida ao português por “praticante”, “cumpridor”, também significa “poeta” (como vertida em Atos 17:28). O poeta saboreia, questiona, interpreta e se delicia com as palavras, mediante as quais dialoga com o mundo. Pregar, ouvir e praticar a Palavra de Deus formam um conjunto que está intimamente ligado à poesia espiritual que deve ser a nossa vida e a da nossa comunidade cristã. Precisamos de pastores, entretanto, que não vejam o púlpito como um pedestal do seu próprio ego a declamar versos perversos do seu desejo mórbido de poder, mas que se disponham a construir coletivamente esta obra prima poética do Logos de Deus, que é a Igreja.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Transformados pela contemplação

“E todos nós com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na sua própria imagem.”

(2 Coríntios 3:18)


A principal característica do cristão é essa total abertura diante de Deus, a fim de que sua vida se torne um espelho para outros. Quando somos cheios do Espírito, somos transformados; e pela contemplação, nos tornamos espelhos. Sempre é possível saber quando alguém esteve contemplando a glória do Senhor; sabemos no íntimo de nosso espírito que ele reflete o próprio caráter do Senhor. Cuidado com tudo aquilo que possa embaçar esse espelho em você; quase sempre é algo bom, o bom que não é o melhor.

A regra áurea para a sua vida e para a minha é, com um esforço consciente, mantermos nossa vida sempre aberta para Deus. Abandone tudo o mais – trabalho, roupas, alimento, tudo na terra – exceto essa atitude. A corrida atrás de outras coisas tende sempre a quebrar nossa concentração em Deus. Temos que manter-nos em contemplação; temos que manter a vida toda completamente espiritual. Deixe que as outras coisas venham e vão, como sempre acontece; deixe que outras pessoas façam as críticas que quiserem; mas nunca permita que nada obscureça a vida que está oculta com Cristo em Deus (Colossenses 3:3). Nunca permita que a pressa o faça sair da posição de permanência nele, que, embora não o devesse, é a coisa mais propensa a oscilar. A mais severa disciplina da vida cristã consiste em aprendermos a nos manter “contemplando, como por espelho, a glória do Senhor”.

(“Tudo para Ele”, Oswald Chambers, Ed. Betânia, meditação de 23 de janeiro)

domingo, 1 de novembro de 2009

O que é a contemplação?

por Thomas Merton:

A contemplação é a mais alta expressão de vida intelectual e espiritual do homem. É a própria vida do intelecto e do espírito, plenamente despertada, plenamente ativa, plenamente consciente de que está viva. É um espanto espiritual, uma admiração. Um temor espontâneo, reverencial, diante do caráter sagrado da vida, do ser. É gratidão pelo Dom da vida, pela consciência despertada, pelo ser. É a consciência viva do fato de que, em nós, a vida e o ser procedem de uma Fonte invisível, transcendente e infinitamente abundante. A contemplação é, acima de tudo, a consciência da realidade dessa Fonte. Ela conhece a Fonte, obscuramente, de modo inexplicável, mas com uma certeza que vai além, tanto da razão como da simples fé. Pois a contemplação é uma espécie de visão espiritual a que, pela sua própria natureza, tanto a razão como a fé aspiram, porque sem ela permanecem forçosamente incompletas. A contemplação, entretanto, não é a visão, pois vê “sem ver” e conhece “sem conhecer”. É fé em maior profundidade, conhecimento demasiadamente penetrante para poder ser aprendido em imagens, palavras ou mesmo conceitos claros. Pode ser sugerida por palavras, por símbolos, mas, no próprio momento em que procura indicar o que conhece, o espírito contemplativo retira o que disse e nega o que afirmou. Pois na contemplação conhecemos “não conhecendo”. Ou, melhor, conhecemos além de todo conhecer ou “não conhecer”.

A poesia, a música e a arte têm algo em comum com a experiência contemplativa. Mas a contemplação vai além da intuição estética, da arte, da poesia. Vai, em realidade, além da filosofia e da teologia especulativa. A contemplação resume, transcende e realiza tudo isso e, contudo, parece, ao mesmo tempo pôr de lado e negar tudo. A contemplação vai sempre além de nosso conhecimento, nossas luzes, nossos sistemas, nossas explicações, nosso discursar; vai além do diálogo e além do nosso próprio ser. Para entrar no mundo da contemplação, em certo sentido, temos de morrer. Mas tal morte é, na verdade, passagem para uma vida mais elevada. É morte por causa da vida; deixa atrás de si tudo o que podemos conhecer ou ter em apreço sob forma de vida, pensamento, experiência, alegria, ser.

A contemplação, pois, parece invalidar e desfazer-se de qualquer outra forma de intuição e experiência – seja na arte, na filosofia, na teologia, na liturgia ou nas áreas comuns do amar e do crer. Essa rejeição é, está claro, apenas aparente. A contemplação é e tem de ser compatível com todas essas coisas, pois é a sua mais alta realização. Todavia, na experiência concreta da contemplação perdemos, momentaneamente, todas as outras experiências. Elas “morrem” para nascerem de novo, num plano de vida mais alto.

Em outras palavras, portanto, a contemplação atinge o conhecimento e mesmo a experiência do Deus transcendente e inexprimível. Conhece a Deus parecendo tocá-lo. Ou melhor, conhece-o como se fora por ele tocado... Tocado por Aquele que não tem mãos, mas é a pura Realidade e a fonte de tudo que é real! Daí ser a contemplação um dom, uma tomada de consciência repentina, um despertar à infinita Realidade que existe dentro de tudo que é real. Uma consciência viva do Ser infinito nas raízes de nosso próprio ser limitado. Uma consciência de nossa realidade contingente como algo de recebido, um presente de Deus, um dom gratuito de amor. Esse é o contato existencial de que falamos, quando empregamos a metáfora: “somos tocados por Deus”.

A contemplação é também a resposta a um chamado. Um chamado daquele que não tem voz e no entanto se faz ouvir em tudo que existe, e que, sobretudo, fala nas profundezas de nosso próprio ser, pois nós somos palavras dele. Mas somos palavras que existem para responder a ele, atendê-lo, fazer-lhe eco e mesmo, de certo modo, para estarem repletas dele, contê-lo e significá-lo. A contemplação é esse eco. É uma profunda ressonância no mais íntimo centro de nosso espírito, onde nossa própria vida perde sua voz específica e ecoa a majestade e a misericórdia daquele que é oculto mas Vivo. Ele responde a si mesmo em nós, e essa resposta é vida divina, criação divina, fazendo novas todas as coisas. Nós próprios nos tornamos eco e resposta dele. É como se, ao criar-nos, Deus fizesse uma pergunta e, ao nos despertar para a contemplação, ele mesmo respondesse a pergunta, de modo que o contemplativo é, ao mesmo tempo, pergunta e resposta.

A vida de contemplação implica dois planos de tomada de consciência: primeiro, estar consciente da pergunta e, segundo, estar consciente da resposta. Conquanto sejam esses dois planos distintos e tremendamente diferentes, são, todavia, uma tomada de consciência da mesma coisa. A pergunta é, ela mesma, a resposta. É nós mesmos somos ambas. Entretanto, ignoramos esse fato enquanto não penetramos na segunda espécie de tomada de consciência. Despertamos, não para encontrar uma resposta absolutamente distinta da pergunta, mas para compreender que a pergunta já é a própria resposta. E tudo se resume numa única tomada de consciência – não uma proposição, mas uma experiência: “EU SOU”.

A contemplação de que falo aqui não é filosófica. Não é a tomada de consciência estática de essências metafísicas apreendidas como objetos espirituais, imutáveis e eternos. Não é a contemplação de idéias abstratas. É o aprender religioso de Deus, através de minha vida em Deus, ou através da “filiação”, como diz o Novo Testamento. “Pois todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus... O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus...” A contemplação de que falo é pois um dom religioso e transcendente. Não é algo a que possamos atingir sozinhos pelo esforço intelectual e o aperfeiçoamento de nossas potências naturais. Não é uma espécie de auto-hipnose, resultando da concentração, sobre o nosso próprio ser íntimo, espiritual. Não é fruto de nosso próprio esforço. É o dom de Deus que, em sua misericórdia, completa o trabalho oculto e misterioso da criação em nós, iluminando nosso espírito e nosso coração, despertando em nós a consciência de que somos palavras proferidas em sua Única Palavra, e que o seu Espírito Criador (Creator Spiritus) habita em nós e nós nele. Que estamos “em Cristo” e que Cristo vive em nós. Que a vida natural foi completada, elevada, transformada e plenamente realizada em nós in Christo, pelo Espírito Santo. A contemplação é a consciência e a compreensão, e mesmo, em certo sentido, a experiência daquilo que cada cristão crê obscuramente: “Agora não sou mais eu que vive; é o Cristo quem vive em mim”.

Por isso, a contemplação é mais do que mero considerar de verdades abstratas sobre Deus; mais, até, do que a meditação afetiva das coisas em que cremos. É um despertar, uma iluminação, e a apreensão intuitiva, espantosa, com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica de Deus em nossa vida cotidiana. A contemplação, portanto, não “encontra” simplesmente uma idéia clara sobre Deus, confinando-o dentro dos limites dessa idéia, retendo-o como um prisioneiro a quem se pode sempre voltar. Pelo contrário, a contemplação é que é por ele arrebatada e transportada ao próprio domínio dele, seu mistério, sua liberdade. É um conhecimento puro e virginal, pobre em conceitos, mais pobre ainda em raciocínios, mas capaz, por sua própria pobreza e pureza, de seguir a Palavra “aonde quer que vá”.

(Thomas Merton, “Novas Sementes de Contemplação”, Fisus Editora, pág. 9-13)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Compunção

por Thomas Merton:

"Na linguagem do ascetismo medieval, o reconhecimento clarividente e a aceitação madura de nossas próprias limitações chama-se "compunção". A compunção é uma graça espiritual, um conhecimento profundo das profundezas de nossa alma, que, num relance, penetra através das ilusões que temos sobre nós mesmos, põe de lado e varre as dissimulações e sonhos vãos que alimentamos a respeito de nossa pessoa, de maneira a nos vermos tais quais somos. Mas é, ao mesmo tempo, um movimento de amor e liberdade, uma libertação da falsidade, uma aceitação alegre e cheia de gratidão da verdade, com a resolução de viver em contato com a realidade profunda e espiritual que se abre diante de nós: a realidade da vontade de Deus em nossa vida."

(Thomas Merton, 1915-1968, em "A Vida Silenciosa", Ed. Vozes, pág. 108)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Começando a aprender

Meu Deus, é essa brecha, essa distância que me mata.

Eis o único motivo por que desejo solidão – estar perdido para todas as coisas criadas, morrer para elas e para o conhecimento delas, pois elas me lembram a distância que me separa de Ti. Elas me falam algo de Ti: que estás muito longe delas, embora nelas estejas. Tu as fizeste e a Tua presença lhes sustenta o ser, mas elas Te escondem de mim. Como gostaria de viver sozinho, fora delas! O beata solitude. Ó solidão abençoada!

Pois sabia que somente deixando-as eu poderia chegar a Ti; e por isso tenho me sentido tão infeliz quando parecia que Tu me condenavas a permanecer nelas. Agora a minha dor passou e a minha alegria está por começar: a alegria que se alegra na mais profunda dor. Pois estou começando a entender. Ensinaste-me e consolaste-me e recomecei a esperar e a aprender.

(Thomas Merton, “Diálogos com o Silêncio”, Fissus Editora, 2003, pág. 21)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Será isto contemplação?

Meu Deus, é somente a Ti que posso falar porque mais ninguém me compreenderá. Não posso trazer mais ninguém nesta terra para dentro da nuvem onde habito em Tua luz, isto é, em Tua escuridão, onde estou perdido e perplexo. Não posso explicar para ninguém a angústia que é desfrutar de Ti, nem a perda que é Te possuir, nem a distância de todas as coisas provocada pela chegada a Ti, nem a morte que é o nascimento em Ti, pois eu mesmo nada sei sobre isso. Tudo quanto sei é que desejaria que isso tivesse passado – e desejaria que tivesse começado.

Contradisseste tudo. Deixaste-me na terra de ninguém.

Fizeste-me andar de um lado para outro debaixo dessas árvores, repetindo sem parar: “Solidão, solidão”. Volveste e jogaste o mundo todo em meu colo. Disseste-me: “Largue tudo e Me siga”, e então amarraste a metade de Nova York como uma bola acorrentada a meus pés. Fizeste-me ajoelhar atrás deste pilar com a minha mente barulhenta como uma agência bancária. Será isto contemplação?

(Thomas Merton, em “Diálogos com o Silêncio”, Fissus Editora, 2003, pág. 15)

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