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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Após tomar o poder com maciço apoio evangélico, Temer se benze com pai-de-santo


Bem, no quesito "pragmatismo religioso de resultados" talvez seja tudo uma coisa só, não é mesmo?

Triste destino de um país e um partido que já tiveram um homem chamado Ulysses Guimarães para liderá-los.

A informação é do Congresso em Foco:

Com “bênção” de pai de santo a Temer, PMDB aprova mudança de nome para MDB

EDSON SARDINHA

Em convenção nacional realizada nesta terça-feira (19), o PMDB aprovou resolução para voltar a se chamar apenas MDB, sigla utilizada entre 1966 e 1979, durante o bipartidarismo na ditadura militar. Desgastada pela crise política e por graves denúncias contra sua cúpula, a legenda tenta colar sua imagem a lideranças do passado, que fizeram história na luta contra o regime autoritário, como Ulysses Guimarães. “Não é volta para o passado, é um passo gigantesco para o futuro”, disse o presidente do partido, senador Romero Jucá (RR), ele mesmo um dos investigados na Operação Lava Jato. “O MDB foi retirado da política por força da ditadura militar. Retorna agora mais pujante”, acrescentou. A mudança no nome da sigla precisa ser confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Depois de ter cancelado sua ida, o presidente Michel Temer compareceu ao evento. Ele foi recebido no palco por um pai de santo chamado Uzêda, com um ramo de arruda. Pai Uzêda, como é chamado, esteve presente à cerimônia de posse de Joaquim Barbosa como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012 e escreveu uma carta a Dilma, em 2015, pedindo que ela tomasse cuidado com o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

Após o evento, Pai Uzêda disse ao Globo que foi contratado pelo partido para benzer Temer e o Palácio do Jaburu. “Fizeram um trabalho de vodu contra o presidente Temer, por isso que ele teve a doença. Jogaram pesado contra o presidente. Eu fui defumar, benzer, tirar tudo. Foram encontrados quatro bonecos com foto do doutor Michel. O trabalho que fizeram contra o Dr. Michel foi para ele morrer no hospital”, contou. O partido negou ter contratado os trabalhos do pai de santo.

Com o seu nome gritado por representantes da juventude peemedebista, Temer ironizou sua baixa popularidade. “Vocês que viram que eu sei ganhar aplauso”, disse, rindo, para a plateia. O presidente defendeu sua gestão, que, segundo ele, tem caráter reformista. “Todas as reformas fundamentais estão sendo feitas pelo PMDB. Temos a coragem de ser um governo reformista, coisa que ninguém [promoveu]. Não foi fácil pegar o governo como peguei, com uma oposição muito radical. Normalmente você tem um tempo de transição entre governos, mas nós não. Quando cheguei ao Palácio [do Planalto], a única preparação foi uma mocinha na recepção. Todos os arquivos tinham sido eliminados dos computadores”, declarou.

Em seu discurso, Romero Jucá disse que o futuro do país pelo MDB, assim como o passado recente do país. “Com Itamar Franco, FHC, Lula e Dilma, garantimos a governabilidade. Entramos, então, na maior crise de todos os tempos. Não fugimos à luta. Com Temer, iniciamos a recuperação do país. Damos um passo para o futuro, com a retomada do nosso nome, MDB. Seguimos na luta pelo direito à liberdade econômica e à prosperidade”, afirmou.

Entre outras mudanças aprovadas pelos peemedebistas está a criação de um segmento evangélico e de outro voltado para a pauta socioambiental. A mudança de nome, com a exclusão do “P” de partido, tem sido adotada por várias legendas para fugir do desgaste político e eleitoral. O PTN virou Podemos; o PTdoB, Avante. Já o PSDC se apresenta como Democracia Cristã, e o PEN, como Patriota.

Maior bancada

Com 62 deputados e 22 senadores, o PMDB possui a maior bancada no Congresso. A sigla nunca chegou à presidência por meio de eleição direta. No entanto, já está em sua terceira presidência do país. O primeiro presidente pelo partido foi José Sarney, em 1985, que assumiu a Presidência após a morte de Tancredo Neves. Em 1992, Itamar Franco, que havia se filiado meses antes, assumiu a Presidência após o impeachment do então presidente Fernando Collor. Situação semelhante ocorreu em 2016, com a chegada de Michel Temer à Presidência em meio ao impeachment de Dilma.

De acordo com levantamento exclusivo da Revista Congresso em Foco, o PMDB é o segundo partido em número de parlamentares investigados no Supremo Tribunal Federal, atrás apenas do PP, que tem 35 parlamentares sob suspeita. O PMDB aparece ao lado do PT, com 32 congressistas com acusações criminais.



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Justiceiros "evangélicos" obrigam mãe de santo a quebrar imagens em terreiro do RJ


É difícil classificar o vídeo abaixo fora das fronteiras da barbárie, em que bandidos invadem um terreiro de umbanda e obrigam a mãe de santo a quebrar seus objetos religiosos.

Talvez sirva para revelar o perigo de um país em que a palavra "evangélico" seja vista mais como ideologia do que teologia, em que pessoas que se sentem superiores a outros só por professarem uma determinada religião e não são capazes de conviver com o diferente.

Esses seres abjetos certamente nunca leram Zacarias 4:6, que diz: 'Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito'

A matéria é da CBN:

Criminosos obrigam mãe de santo a destruir próprio terreiro em Nova Iguaçu

Testemunhas disseram à CBN que os traficantes chegaram a urinar nas imagens sacras. Toda a ação foi gravada e divulgada nas redes sociais. A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa apura um outro vídeo nas mesmas circunstâncias. O caso também teria ocorrido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.

Por André Coelho

Mais um terreiro de candomblé foi atacado por bandidos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Sete criminosos armados invadiram o barracão, no bairro Ambaí, durante uma sessão. Eles obrigaram a yalorixá, sacerdotisa no local, a destruir as próprias imagens sob a mira de uma arma.

Toda a ação foi gravada e divulgada pelos criminosos nas redes sociais. Testemunhas disseram à CBN que os bandidos chegaram a urinar nos santos, dizendo que não permitiriam a prática de "bruxaria" naquela comunidade.

Os "filhos de santo", como são chamados os fiéis, foram obrigados a deixar o local. Criminosos usaram os canos das armas para arrancar as "guias", um tipo de cordão, do pescoço deles.

Nas imagens, é possível ouvir os criminosos usando termos cristãos enquanto a mulher quebra as imagens sagradas.

'Quebra tudo, quebra tudo! Apaga as velas, porque o sangue de Jesus tem poder! Arrebenta as guias todas! Todo o mal tem que ser desfeito, em nome de Jesus! Quebra tudo porque a senhora é quem é o "demônio-chefe"! É a senhora quem patrocina essa cachorrada! Quebra tudo! Arrebenta as guias todas, derrama, quero que quebre as guias todas!'

As imagens de outro ataque também circulam nas redes sociais. As primeiras informações obtidas pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa apontam que o caso teria ocorrido no Parque Flora, também em Nova Iguaçu. Na gravação, um homem é obrigado por criminosos a destruir o próprio terreiro de candomblé.

Os bandidos ameaçam a vítima com um bastão de beisebol onde está escrita a palavra 'diálogo'. Eles dizem para a vítima que ela será morta, caso tente montar um novo terreiro na favela. O grupo chega a gritar o nome de uma facção criminosa durante a ação, além de citar o nome de Jesus Cristo e outros termos comuns em cultos evangélicos.

'É só um diálogo que eu tô tendo com vocês, na próxima vez eu mato! Safadeza, pilantragem! Primeiramente é Jesus! Quando vocês forem bater cabeça aí na casinha do cachorro, vocês primeiro pedem licença a Jesus! Vocês não sabem que o "mano" não quer macumba aqui? Tá peitando por quê? Por que a gente tirou a boca dali? Arrebenta tudo! Eu sou da honra e glória de Jesus! Pensa por que eu não tô na favela essa p*** vai continuar? Já avisei! Se eu pegar de novo ou tentar construir esse c*** de novo, eu vou matar!'

Ativistas que defendem a liberdade religiosa condenaram os novos casos de violência. O presidente da comissão, Ivanir dos Santos, acredita que as ações registradas nos últimos meses são conjuntas. Para ele, os criminosos atuam com base na orientação de lideranças religiosas mal-intencionadas com o objetivo de aumentar a influência sobre comunidades carentes.

'Essa é uma coisa muito bem orquestrada e pensada até de ocupação de espaço geográfico. É sinal de que tem algumas más lideranças religiosas metidas nisso. Porque o cidadão em si ele não acorda, da noite pro dia, tem uma miragem, 'ah, Jesus mandou, fui lá e fiz'. Não é isso que está acontecendo. Eles estão falando com uma retórica, com um discurso muito bem contruído. Então alguém botou isso na cabeça dessas pessoas.'

Ontem, o secretário de Segurança, Roberto Sá, se reuniu com o secretário estadual de Direitos Humanos Átila Nunes e o chefe da Polícia Civil, Carlos Leba, para discutir a possível criação da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. Nós entramos em contato com a Polícia Civil por causa dos dois vídeos, mas ainda não tivemos retorno.

Na semana passada, a CBN exibiu dados do Tribunal de Justiça do Rio que mostram que, desde 2012, o estado não registrou condenações por preconceito ou depredação de itens religiosos.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Polícia investiga suposta aliança entre traficantes e pastores contra umbandistas no RJ


Alguma coisa está errada na Baixada Fluminense e na sua capital. 

Imagine no dia em que os "evangélicos" dominarem o mundo...

A matéria é do Extra:

Ataques a terreiros do Rio podem ter partido de traficantes envolvidos com pastores evangélicos, diz Átila Nunes

Ricardo Rigel

O secretário estadual de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI), Átila Nunes, afirmou ao EXTRA, nesta sexta-feira, que os recentes ataques a terreiros de umbanda e candomblé ocorridos na Baixada Fluminense e na Capital podem ter relações com traficantes envolvidos com supostos pastores evangélicos. Denúncias recebidas através do Disque Combate ao Preconceito (2334-9551), apontam que traficantes estariam ameaçando os líderes religiosos para que deixassem de celebrar os cultos.

— Nós estamos estudando uma forma de resguardar essas pessoas que frequentam esses centros e ao mesmo tempo cobrar que estes casos sejam apurados rapidamente. Nós temos recebido várias denúncias de que falsos pastores têm criado uma relação com o tráfico de drogas de regiões como as de Nova Iguaçu, para lavar o dinheiro do tráfico dentro das igrejas. Tenho conversado com a Polícia Civil para que esses casos passem a ser investigados — contou o secretário Átila Nunes.

Nas últimas duas semanas, seis casos de intolerância religiosa foram registrados em Nova Iguaçu. Segundo a Secretaria Estadual de Direitos Humanos, na terça-feira, um grupo de criminosos invadiu um terreiro de candomblé, no Parque Flora, também no município, e quebrou imagens e objetos usados nos cultos. Mas, neste caso, os donos do terreiro não tiveram coragem de registrar o fato.

— Já conversei com os donos do local, mas eles têm muito medo de tudo que está acontecendo. Estamos fazendo uma mediação com a Polícia Civil, para que tudo seja apurado. Esse é um fenômeno terrível que não pode continuar crescendo em nossa sociedade.

Elaine Dias Pereira, de 64 anos, a Mãe Elaine de Oxalá, responsável por um terreiro de Candomblé, no bairro de Santa Rita, também em Nova Iguaçu, diz que também tem sofrido com ataques de intolerância religiosa. Há quatro meses, criminosos jogaram uma bomba no terreiro dela:

— Foi um absurdo o que fizeram comigo. Explodiram o meu relógio e fugiram. O caso foi registrado como intolerância religiosa. O que mais me deixa tensa é que tenho esse terreira há quase 30 anos e estamos com muito medo de novos ataques.

Ainda de acordo com a mãe de santo, ela também tem conhecimento de que outros terreiros estão sofrendo ameaças de traficantes ligados a pastores.

— Uma filha de santo me relatou que viu um traficante ordenando o fechamento de um terreiro aqui em Nova Iguaçu. Estamos assustados e queremos uma providência das autoridades — reclamou Mãe Elaine de Oxalá.

Entre as denúncias recebidas pela (SEDHMI), um filho de santo de outro terreiro, também em Nova Iguaçu, chegou a relatar os ataques que o centro dele vem sofrendo:

"Nossa casa foi invadida por traficantes. Assim como outras casas também foram. Nos proibiram de exercer qualquer tipo de culto, atabaques e até mesmo usar roupas que remetam a nossa religião. Nosso medo da exposição é exatamente de perder o nosso barracão".

A polícia Civil está investigando os casos relacionados aos ataques em Nova Iguaçu. Ainda segundo Átila Nunes, na próxima semana, ele volta a se reunir com o Secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, e com o delegado Carlos Leba, chefe da Polícia Civil, para definir o cronograma de obras para a implantação da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi):

— A nossa expectativa é que o órgão comece a funcionar ainda este ano.



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Idosa adepta do candomblé é apedrejada no Rio de Janeiro


Aquela imagem de "cordialidade" que o brasileiro tinha até algum tempo atrás parece que não existe mais.

Se até "evangélicos" apoiam candidatos fascistas, o que imaginar dos outros, não é mesmo? 

A matéria é da Agência Brasil:

Idosa é agredida a pedradas no RJ e família denuncia intolerância religiosa

Cristina Indio do Brasil

Uma idosa foi agredida a pedradas no bairro Cerâmica, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A família diz que a mulher foi vítima de intolerância religiosa.

Segundo a filha da idosa, a vendedora Eliane Nascimento da Silva, de 42 anos, a mãe, Maria da Conceição Cerqueira da Silva, de 65 anos, foi agredida quando saiu de casa para ir ao mercado. A vendedora relatou que a mãe retornou com o rosto ensanguentado e ferimentos no braço esquerdo.

Maria da Conceição é candomblecista e a família acusa uma vizinha de ter cometido a agressão, que ocorreu na última sexta-feira, por volta das 15h, por intolerância religiosa.

“Ela veio da Bahia do interior com essa cultura dos ancestrais, da família e seguiu a educação que recebeu lá”, disse a filha.

A aposentada foi atendida no Hospital Geral de Nova Iguaçu, no bairro da Posse, e levou seis pontos na testa e três na boca. A idosa ainda não fez exame oftalmológico para verificar se o olho esquerdo foi afetado.

De acordo com a vendedora, a vizinha havia ameaçado matar Maria da Conceição, a quem chama de “macumbeira e feiticeira”. Além disso, teria dito que a família podia apresentar queixa na delegacia, o que não resultaria em nada.

Eliane entregou aos policiais os vídeos das câmeras de segurança, instaladas na porta da casa da mãe, que mostram o horário que ela saiu e voltou. O local da agressão, ao lado de um caminhão, no entanto, não está no ângulo das câmeras. “Essa moça chegou a ir na delegacia se fazendo de vítima dizendo que a minha mãe tinha uma tesoura para pegar ela. Só que as imagens mostram que a minha mãe não estava com nada na mão e essa menina não tinha um arranhão no corpo”, completou.

De acordo com a Polícia Civil do Rio, a agressão foi registrada na 58ª DP (Posse) e as investigações estão em andamento com diligências para apurar os crimes de lesão corporal e de injúria. A agressão não foi registrada como intolerância religiosa.

Amanhã (21), a aposentada e parentes serão recebidos, às 13h30, na Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos. O órgão colocou à disposição da idosa e da família, assistência jurídica, psicológica e social. A secretaria informou que vai acompanhar as investigações e pedirá que a Polícia Civil registre o caso como intolerância religiosa.

Para o secretário Átila Nunes, casos como esse são inadmissíveis. “Esta senhora foi vítima, no mínimo, de dois crimes: intolerância religiosa e agressão contra idosos”, apontou.

Diante dos casos de intolerância religiosa que vem ocorrendo no Rio, o secretário defendeu a criação da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância . “Crimes como esse, que envolvem o preconceito não só religioso, mas também à pessoa idosa, precisam ser combatidos. Pedimos para quem for vítima de qualquer agressão motivada por intolerância ou preconceito, que entre em contato com o nosso Disque Combate ao Preconceito”, disse.

O Disque Combate ao Preconceito funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h, pelo telefone (21) 2334 9551.

Dados do Disque 100, de Direitos Humanos, indicam que, em 2016, foram registrados 79 casos de intolerância religiosa no Rio, um aumento de 119%, na comparação com 2015.

Edição: Carolina Pimentel



segunda-feira, 24 de julho de 2017

Justiça de MG é criticada por querer "controlar" candomblé

Parece que Xangô, o orixá da justiça, está tendo problemas com a Justiça mineira...

A matéria é do portal Justificando:


Para Juristas, decisão que cerceia candomblé é inconstitucional e se vale de racismo

O caso de repressão e intolerância religiosa sofrido por uma casa de candomblé localizada em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte/MG, em que a Justiça estipulou um conjunto de regras para a realização dos cultos gerou revolta nas redes sociais e levantou críticas de juristas acerca da laicidade do Estado brasileiro.

Na última terça-feira (18), os representantes da religião realizaram um protesto na cidade contra a imposição que determinava que a casa de candomblé poderia executar as atividades somente nas quartas-feiras e em um único sábado do mês, utilizando apenas um atabaque. Em caso de descumprimento das regras, o estabelecimento está sujeito a multa diária de R$100. Vestidos de branco, os representantes se posicionaram em frente ao Ministério Público e pediram por respeito às tradições da cultura afro-brasileira.

Para a desembargadora do TJ-SP, Kenarik Boujikian, o caso configura uma “violência gigantesca”. “Nem sei o que dizer (…) não dá pra ter juiz que não sabe o básico do Estado brasileiro. Ler a Constituição Federal é o mínimo” completou.

A Iyaloríxa do Ile Aiye Orisha Yemanja, Winnie Bueno, formada em Direito e colunista do Justificando, já escreveu em sua coluna sobre a criminalização das religiões de matriz africana. Na ocasião, Winnie afirmou que “a criminalização das tradições religiosas de matriz africana é uma permanência das consequências do processo de colonialismo e escravização que originou a conformação que hoje conhecemos do Estado brasileiro”.

O Just conversou novamente com Winnie sobre o caso específico de Minas Gerais. A Iyaloríxa explicou que “o caso está relacionado com uma regulação que, aparentemente, é jurídica. Trata-se de uma tentativa de suprimir a liberdade religiosa e o livre direito ao culto para essas expressões. [Os códigos das religiões de matriz africana] não são aceitos em sua plenitude pelas epistemologias dominantes e, automaticamente, pelo pensamento jurídico dominante”.

Para o mestre em Direito e doutorando em Ciências Sociais Fábio Mariano a imposição da Justiça mineira é “inconstitucional”. “A norma que fere um princípio fundamental que é do de liberdade de culto num estado laico. Fere a dignidade da pessoa que é limitada ao exercício da sua religião e de seus dogmas de maneira descabida e desproporcional num claro ato de preconceito e racismo, já que é uma religião ancestral”.



quarta-feira, 12 de julho de 2017

Jogador do Bahia enfrenta preconceito ao se declarar adepto do candomblé


Segunda-feira passada, comentamos aqui sobre a iniciativa do novo técnico do Santos F. C., Levir Culpi, em barrar as manifestações religiosas dentro de campo, que - a seu ver - estavam prejudicando o bom desempenho do time.

Agora é a vez de Feijão, volante do E. C. Bahia de Salvador (BA), ser perseguido nas redes sociais por não esconder sua condição de seguidor do candomblé.

A matéria é da ESPN Brasil:

Adepto do candomblé, volante do Bahia sofre preconceito e rebate: 'Tenho muito orgulho e espero que respeitem'

Marcus Alves

Um dos xodós da torcida, o volante Feijão, do Bahia, sofreu preconceito por causa de sua religião.

Adepto do candomblé, o prata da casa de 23 anos foi criticado nas redes sociais após publicar foto recente e fazer referência ao orixá Ogum. Uma das principais lideranças dentro do vestiário tricolor, ele retrucou ao ser chamado de “macumbeiro” por um usuário e pediu respeito. Os crimes resultantes de discriminação de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional preveem reclusão de um a três anos e multa.

A princípio, o atleta não pretende levar o caso adiante.

Procurado pelo ESPN.com.br, ele se manifestou sobre o assunto.

“O cara confundiu as coisas, confundem muito religião com futebol. Nada contra nenhuma religião. Respeito todas as religiões. Espero que respeitem a minha. Sou candomblé, tenho muito orgulho. Tem várias outras pessoas também do candomblé. Agora, espero que tenha coragem de chegar e falar na minha frente. Falar em rede social é muito fácil”, afirmou, através da assessoria de imprensa do clube.

“Querem fazer tumulto, principalmente, comigo, que sou prata da casa, um dos líderes do grupo. Reagi normalmente. Vida que segue. É tranquilidade”, completou.

Entre as religiões, o candomblé e umbanda - colocadas na mesma categoria em censo realizado pelo IBGE em 2010 - estão na quarta posição entre as mais populares da Bahia, atrás da católica, da evangélica e da espírita.

O Rio Grande do Sul é o Estado que reúne o maior número de seguidores da religião brasileira de matriz africana.

“Que diabo de Ogum, por isso que não vai pra frente”, escreveu o suposto torcedor para Feijão, em sua conta no Instagram.

“Ô (sic) seu macumbeiro não venha pra cá tirar sua onda não que eu não como regue (sic) de você sua carniça. Saia do Bahia miséria (sic)”, prosseguiu, após réplica inicial do volante.

“Sou macumbeiro não tenho vergonha não pai quem é você para min (sic) manda embora do bahia também não tenho medo de você não pai vamos si (sic) bater em salvador um dia!”, respondeu o jogador do Bahia.

Em pesquisa realizada pelo jornal Correio* em 2015, nenhum jogador da dupla Ba-Vi se declarou adepto do candomblé na ocasião.

O resultado provocou estranheza porque, especialmente nos anos 80, os dois estiveram representados por Lourinho, torcedor símbolo do Bahia famoso por fazer despachos que teriam ‘amarrado’ adversários na campanha do título de 1988, e Carcaça, massagista do Vitória.

O Bahia volta a campo contra o Fluminense, no próximo domingo, às 16h (de Brasília), na Arena Fonte Nova, em Salvador.



sexta-feira, 28 de abril de 2017

TJSP suspende lei municipal que proibia sacrifício religioso de animais

Adeptos da umbanda e candomblé acompanham o julgamento por telão disponibilizado pelo Tribunal. 

A matéria é do Consultor Jurídico:

TJ-SP fica lotado em julgamento sobre sacrifício religioso de animais

Felipe Luchete

O julgamento de uma lei que proíbe o uso e o sacrifício de animais em rituais ou cultos religiosos em Cotia, no interior paulista, lotou o Salão Nobre do Tribunal de Justiça de São Paulo nesta quarta-feira (26/4).

O espaço, com lugar para cerca de 80 pessoas e que dificilmente supera 20 espectadores em sessões do Órgão Especial, teve as portas fechadas. A corte acabou exibindo a sessão em telão na sala do Tribunal do Júri, quatro andares abaixo. Mas o próprio relator, desembargador Salles Rossi, retirou o processo de pauta.

A maioria dos envolvidos representava grupos de umbanda e candomblé, inclusive de fora de São Paulo, que se organizaram pela internet e por redes sociais contra uma norma em vigor desde setembro do ano passado em Cotia.

A Lei 1.960/2016 fixa multa de R$ 1.504 a toda pessoa física que utilizar, mutilar ou sacrificar animais em locais fechados e abertos, com finalidade “mística, iniciática, esotérica ou religiosa”. Toda pessoa jurídica é obrigada a pagar R$ 752 por animal e perde seu alvará de funcionamento.

Embora a norma seja local, representantes de movimentos entendem que a posição do TJ-SP será relevante como precedente antes que o Supremo Tribunal Federal julgue recurso com tema semelhante (RE 494.601, sobre lei gaúcha que permite o sacrifício, mas é questionada pelo Ministério Público).

Lei suspensa

A pedido de entidades religiosas do município, o Psol moveu ação pedindo que o texto fosse declarado inconstitucional. Uma liminar do relator suspendeu a validade da regra em novembro de 2016, “diante da relevante fundamentação de invasão de competência legislativa exclusiva do chefe do Poder Executivo, assim como de ofensa ao Pacto Federativo e de possível violação à liberdade constitucional do livre exercício dos cultos religiosos”.

O advogado Hédio Silva Júnior, ex-secretário estadual da Justiça, declarou em sustentação oral que a norma também viola leis federais que já tratam de maus tratos contra animais e discrimina religiões ao presumir que todo abate desses seres é errado, enquanto a morte para fins comerciais é sempre considerada legítima.

Depois da suspensão do julgamento, ele afirmou que pela primeira vez representantes do candomblé e da umbanda foram bem recebidos na corte, com vestes características, sem nenhum incidente.

Um desses participantes, Pai Tadeu de Oxossi, afirmou à ConJur que o abate em casas de umbanda e candomblé só é feito por pessoas experientes e que a morte não é em vão, pois todos os animais são consumidos.

ADI 2232470-13.2016.8.26.0000



sábado, 4 de março de 2017

Crivella e o carnaval: mutuamente excludentes


No fundo, cá entre nós, o evangelicalismo brasileiro vive de aparências e conveniências segundo o momento político.

É o que analisa Mario Magalhães em seu blog no UOL:

Por que Crivella esconde que religião motivou sua ausência no Carnaval?

O prefeito Marcelo Crivella não apareceu para entregar a chave da cidade ao Rei Momo.

Nem na Sapucaí, nas duas jornadas de desfile do Grupo Especial.

Uma das desculpas foi uma gripe de sua mulher. Boa notícia: Sylvia Jane se recuperou, porque durante o Carnaval os dois foram a um torneio de tênis.

No sábado, Crivella postou um vídeo em que vistoriava obra. Alegou: ''A gente não sabe sambar, mas sabe trabalhar''.

O prefeito visitou no hospital pessoas que se feriram num acidente com carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, mas permaneceu longe do Sambódromo.

Do Rio e do Brasil, o Carnaval é sobretudo patrimônio cultural.

É também evento de enorme benefício econômico e social para a cidade.

A ausência do prefeito é inexplicável.

A não ser que a sua fé colida com as obrigações de governante.

Crivella é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

A Iurd diz que no Carnaval ''os espíritos malignos se fortalecem''.

Que os acidentes de trânsito nessa época são causados ''na maioria das vezes por espíritos malignos''.

A razão, prega um vídeo da igreja, seriam as oferendas da umbanda e do candomblé.

Marcelo Crivella disse há pouco: ''Nós estamos tratando de um assunto que já está superado. Eu acho que nós temos, cada um, que respeitar as pessoas. Cada um no Rio de Janeiro não deve ser obrigado a fazer nada. Eu acho que tem uma agenda do prefeito que deve ser cumprida e que, não necessariamente, é a agenda da imprensa. E é isso que nós temos que fazer''.

Por que o prefeito cala sobre religião?

Fé é questão pessoal.

Mas constitui tema público quando interfere na vida dos cidadãos.

Crivella deveria ser mais transparente.





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O cantor que transforma música gospel em canto de umbanda


A matéria foi publicada no Extra em 27/01/17:

Ògúntúndéléwa, um talento afro gospel

O alagoano Mario Ferreira é desde criança encantado pela música e pela cultura afro. Aos 18 anos, foi iniciado no Candomblé pelo Babalorixá José Roberto de Òsun, mas completou suas obrigações religiosas com o Babalorixá Altair T’Ògún, que deu-lhe o título de Ògúntúndéléwa (Ògún retornou para casa).

Com Pai T’Ògún aprendeu yorùbá (língua de origem nigeriana, usada na comunicação do Candomblé Kétu). Com o aprendizado do idioma yorùbá, Ògúntúndéléwa passou a interpretar os cânticos para os Orixás, e por sugestão de um amigo, chamado Hunvá, decidiu fazer uma versão em yorùbá da canção gospel lançada em 2008 por Régis Danese, ‘Faz Um Milagre em Mim’. Em 2009, esta canção atingiu recorde de execuções, tornando-se um hit popular em todo o país. Ela foi regravada por vários grupos musicais, como Pique Novo, e cantores como Gusttavo Lima. A cantora evangélica Aline Barros e o Padre Marcelo Rossi também cantaram a canção.

Ainda no ano de 2009, Ògúntúndéléwa foi convidado a cantar sua versão na 3ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, em Copacabana. A apresentação foi um sucesso e lhe rendeu um convite feito pelo Babalorixá Jair de Ògún para cantar em um evento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Ògúntúndéléwa diz que uma de suas propostas musicais é transformar louvores gospel na língua dos Orixás, demonstrando assim respeito por evangélicos e católicos. “A vida é curta demais para se ocupar com diferenças e preconceito. A música unifica os povos, por isso desejo promover a paz através da canção!”

Canção: Faz Um Milagre Em Mim

De: Regis Danese

Como Zaqueu eu quero subir
O mais alto que eu puder
Só pra Te ver, olhar para Ti
E chamar sua atenção para mim
Eu preciso de Ti Senhor
Eu preciso de Ti o pai
Sou pequeno demais
Me dá a Tua paz
Largo tudo pra Te seguir

Refrão: Entra na minha casa, entra na minha vida
Mexe com minha estrutura, sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a Ti
Porque o Senhor é meu bem maior
Faz um milagre em mim!

Versão na língua yorùbá da canção: Faz Um Milagre em Mim

Por: Mario Ferreira - Bàbá Ògúntúndéléwa

Título: Sé isé-amí tikalami

Bási òòsà èmi fé gókè
Sókèsókè nón ki èmi lé
Òkúrú sí ojú, ojú sí ènyin
Npè rè àfiyèsí fún mi
Èmi lè ti ènyin Olúwa
Èmi lè ti ènyin Bàbá
Kékéré rè kéré
Fún mi àlàáfíá
Sé gbogbo sí lówó-ehin
Kósínú ilé mí, kósínú ayé mi
Sodi pèlú mi ènìòn, wòsàn won gbogbo ogbé
Èkó fún mi ní Òrìsà, èmi fé ìfé ènyin
Olódùmare ní dára fírí mi
Sé isé-amí tikalami
Lààyè orin! (Viva a música!)
Axé!



domingo, 18 de dezembro de 2016

Pastor trambiqueiro


A trilha sonora do domingão recebe Bezerra da Silva cantando seu samba "Pastor Trambiqueiro" (vídeo e letra abaixo).

Fica a seu critério homenagear (ou não) algum picareta com esse pagode de responsa:


Pastor Trambiqueiro

Bezerra da Silva

Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente
é o diabo vivo em figura de gente
é o pastor trambiqueiro enganando inocentes

prestem bem atenção, o enredo macabro que ele arruma
seu critério maior é falar mal da macumba
dizendo que à ela também pertenceu
sim, mas só não foi em frente porque a chefe do terreiro é à vera
não aceitou o jogo sujo da fera que vive assim só de arrumação
ele também não explica o porque da mudança da água pro vinho
só porque não umbanda não vale dinheiro
resolveu ser crente pra roubar os irmãozinhos
não é fé que ele tem,é simplesmente a febre do ouro
custa caro a palavra de Deus, o pastor chega pobre e arruma tesouro

Refrão:
Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente
é o diabo vivo em figura de gente
é o pastor trambiqueiro enganando inocentes



terça-feira, 13 de dezembro de 2016

STF chama líder da Canção Nova de "pedante" mas arquiva ação contra ele

Fiel à premissa popular de que "pimentabilis annus outrem refrescorum est", o STF livrou a cara do fundador da Canção Nova, monsenhor Jonas Abib, mas o chamou de "intolerante, pedante e prepotente".

A informação é do Radar On-Line da Veja:

STF arquiva ação contra polêmico líder da Igreja Católica

O Supremo Tribunal Federal arquivou uma ação penal movida pelo Ministério Público da Bahia contra o monsenhor da igreja Católica Jonas Abib, fundador da Canção Nova, por incitação à discriminação religiosa. Ele era acusado de incitar fiéis contra religiões espíritas, incluindo candomblé e umbanda, em seu livro “Sim, Sim, Não, Não – Reflexões de Cura e Libertação”.

A defesa do sacerdote, capitaneada pelo advogado Belisário dos Santos Jr., do escritório Rubens Naves Santos Jr. Advogados, sustentou que as declarações contidas no livro são destinadas a convencer os católicos hesitantes, são sectárias, mas não representam discurso de ódio.

Para o ministro​ relator da ação, Edson Fachin​, não se verifica na esfera penal uma intenção de que fiéis católicos procedam a escravização, exploração ou eliminação de pessoas de outras religiões.

“Apesar de as afirmações serem indiscutivelmente intolerantes, pedantes e prepotentes, entendo que elas encontram guarida na liberdade de expressão religiosa e, em tal dimensão, ainda que reprováveis do ponto de vista moral e ético, não preenchem o âmbito proibitivo da norma penal incriminadora”, disse Fachin.

O livro causador da celeuma




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Malafaia comenta tema da redação do ENEM


Quem diria, né... a notícia é do Extra:

Líderes religiosos e vítimas de intolerância comentam o tema do Enem

Carla Nascimento e Michael Figueredo

A Constituição Federal garante que, no Brasil, o estado é laico. Ainda assim, casos de intolerância religiosa são frequentes no país. E o assunto foi tratado na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2016. Com o tema "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil", o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) fez milhões de jovens discutirem a pauta. A escolha foi aprovada por líderes religiosos.

— Acho extremamente oportuno que esse tema seja tratado com a juventude brasileira. É um problema mundial, mas, sobretudo, local. O Brasil é muito intolerante — afirmou o diácono Nelson Águia, da Arquidiocese do Rio.

Nelson se mostrou curioso em relação ao pensamento dos candidatos. Para ele, a divulgação de algumas redações poderia ser benéfica, por revelar a visão dos jovens sobre o tema. E a presidente da Congregação Espiritual Umbandista, Fátima Damas, concorda.

— Entender o que a garotada pensa seria fundamental. É importantíssimo para ampliar as ideias e o conhecimento. Acontece no mundo inteiro, mas aqui, contra a umbanda e o candomblé, está demais. Por mais que a gente lute, não temos respaldo — comenta Fátima.

O pastor Silas Malafaia considera o tema contextualizado com o atual momento do país. Ele diz que sua própria religião também são vítimas de intolerância. E critica os mais radicais.

— Se tem algum evangélico, espírita ou católico intolerante, ele não representa o pensamento das religiões, menos ainda suas lideranças. As práticas de uns não podem ser espalhadas para o todo — afirma o pastor.

Para o babalaô Ivanir dos Santos, da Comissão de combate à Intolerância Religiosa, a escolha do tema foi um passo importante. Mas pede que o assunto seja ainda mais aprofundado.

— Nós de matriz africana sofremos muito com essa violência. Importante tratarmos não só na redação, mas continuamente na escola. É o melhor meio para disseminar o respeito — diz Ivanir.

Vítimas comemoram a escolha do tema

A menina Kaylane Coelho ainda não chegou no momento de fazer o Enem. Mas, aos 13 anos, conhece muito bem o tema da redação. Ela foi uma das muitas vítimas do ódio e da intolerância contra religiões afro-brasileiras. Quando ainda tinha 11 anos, foi apedrejada na cabeça, simplesmente por estar na rua com trajes brancos do candomblé. A pedra fez dela mais forte e a transformou em ativista contra a intolerância, apesar da pouca idade. Ao saber, pela internet, o assunto tratado na prova, comemorou.

— Nem todo mundo presta atenção no caso da religião, nem todo mundo sabe do que se trata ou procura saber. Quando você faz a prova do Enem, é obrigado a pensar sobre a respeito e acaba sabendo mais — diz.

A avó de Kaylane, Kátia Marinho, é mãe de santo e também ficou satisfeita com o tema.

— Para a gente que levanta essa bandeira, foi um avanço na conscientização dos jovens. Principalmente para quem não entende a intolerância com a gravidade que ela tem — afirma Kátia.



terça-feira, 26 de julho de 2016

Os videntes de São Paulo

Artigo publicado no Estadão de 17/07/16:

Dos postes às mesas dos videntes de São Paulo

'Trabalhos' de descarrego incluem até lençol de 400 fios e podem ser pagos no cartão

Mônica Manir

Dei por mim na calçada, ao pé da porta. Um cartaz amarelo alardeava o que imaginei escondido: Consulta Búzios Tarô. Acima da mesma porta, mais um cartaz: Tarô Vidência. Nos dois, o mesmo número de telefone fixo. Subi os primeiros degraus. Um portão alto, duplamente gradeado, me interrompia o caminho. Toquei a campainha. Veio uma mulher; era a senhora da limpeza, de pés descalços e um cheiro de alvejante que exalava da alma. Eu disse que tinha uma consulta marcada, ela me fez entrar. Subi mais alguns degraus, atravessei uma cerquinha de madeira e por ali fiquei, esquecida numa sala mal alumiada, pesadamente acortinada e com dois sofás gris, sobre um dos quais acomodei minha curiosidade. Acima, um lustre equilibrava folhas de vidro. Abaixo, um tapete grisalho cobria um quadrado do chão de tacos, alguns soltos. “Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio”, diria Machado de Assis em A Cartomante, conto que inspirou este primeiro parágrafo.

Contrariando Machado, o cenário desse sobrado na Vila Mariana não era de pobreza, mas de classe média, como de resto a maioria dos cenários que encontrei nas consultas a videntes que colocam anúncios nos postes de São Paulo oferecendo amarrações e desamarrações de amor. Tevês me apareceram ligadas no Datena ou em desenhos animados, doces crianças em fralda circularam pela sala tomando doces refrigerantes, e cães e gatos, tão doces quanto, se enroscaram nos meus cadarços enquanto os donos ajeitavam consultórios improvisados.

No sobrado em questão da Vila Mariana, também compunham o lugar dez pacotes de panfletos, um deles aberto, do qual certamente saiu o papel que eu tinha em mãos. Ele me fora dado 5 minutos antes, na saída do Metrô Ana Rosa, por um moço magro. Nele lia-se que a sensitiva Beatriz, com mais de 28 anos de experiência no mesmo endereço, solucionava união de casais, afastamentos de rivais, impotência ou frieza, inveja, vícios, depressão, financeiro. O telefone era outro, mas o tal endereço era o mesmo que vi num cartaz dias antes, e que me trouxeram até ali para a consulta daquela manhã.

Quase meia hora depois, a sensitiva Beatriz me fez sentar diante de uma mesa, ela do lado oposto. Entre nós, um pano bordô com búzios, um crucifixo e uma plaqueta com bandeiras de cartão de crédito. Vestia jeans e camiseta preta um tanto curta, que insistentemente puxava para baixo. Perguntou o que eu preferia, búzios ou tarô. Pedi o segundo. Então Beatriz, arriscados 39 anos, pegou as cartas do tarô de Marselha e, enquanto as embaralhava, olhava para mim, mas por baixo dos olhos. Perguntou meu nome inteiro, que dei, a data de nascimento, que dei, e a profissão, que dei como estudante de bioética, o que também sou.

A seu pedido, dividi as cartas em três. Ela juntou tudo novamente e descortinou a Morte. Sorte que depois veio a Roda da Fortuna, disse ela, sinal de que viverei muito. E assim foi arcano atrás de arcano, a Temperança, a Estrela, o Mago ou Charlatão, com pinceladas sobre saúde, família, carreira, finanças – até o enrosco. “Você tem um ex?” Quem não os tem?, pensei. “Pois uma pessoa na sua vida nunca te esqueceu”, vaticinou, “e vocês nem sabem direito por que se separaram”. Beatriz, no entanto, sabia: alguém colocara nosso nome, o meu e o dele, na boca de um defunto. Para me acertar com alguém, apenas após um trabalho liberar o caminho. Um trabalho que pedia 91 materiais, velas dessa altura, cristais africanos. A coisa aconteceria num terreiro na Praia Grande. Levaria um tempo, teria de voltar outras vezes, mas a garantia era total. Olhei para as bandeiras de cartão de crédito.

“Pedido de despacho não tem nada a ver com a tradição do tarô”, ressalva a socióloga Priscila Kuperman, autora do livro Tarot – Uma Linguagem Feiticeira (Editora Mauad). “O tarô atrai porque tem uma aura mágica na medida em que atua no acaso, é razão de estudo e ajuda, as consultas são cobradas num preço previamente combinado, mas nunca passou como algo relacionado a produtos extras”, diz.

Diante da minha hesitação, Beatriz resgatou os 28 anos no mesmo endereço. “Quem não é honesto não fica tanto tempo no mesmo lugar.” Mas quanto, afinal, sairia a limpeza? Puxou a blusa pra baixo. São R$ 850, pagáveis no cartão, se eu quisesse. O ideal, aliás, era começar naquele momento, não havia tempo a perder. Declinei. Disse que precisava pensar, não estava preparada para dispor daquela quantia. Beatriz foi guardando as cartas com ar de muxoxo. Perguntei o valor da consulta. Ela repetiu o que dissera ao telefone: R$ 100. Questionei que no papelzinho estava escrito R$ 50. “R$ 50 são os búzios, e você escolheu o tarô.” Olhei para Antony, o gato que brincou com meus cadarços. Ele deu de ombros.

Para a parapsicóloga Márcia Cobêro, a mentalidade do automático, rápido e descartável contribui para a proliferação desse tipo de oferta. “Em vez de amadurecer, corrigir, fazer terapia, é mais encantador atribuir o problema a outra pessoa ou a uma energia negativa, que não implica esforço pessoal.” Diretora do Instituto Padre Quevedo de Parapsicologia, ao qual também acorrem aflitos, ela desmistifica que as mulheres sejam as maiores vítimas. “Elas fazem mais propaganda de terem ido; os homens são presas discretas.” Mas Márcia aposta num certo perfil machadiano. A mulher, diz ela, normalmente quer se vingar de um amor desfeito ou amarrar outro, enquanto o homem busca dinheiro e poder.

Jaleco. Pois lá estou em outro templo místico, este no Itaim-Bibi, com o tarô cigano aberto e a vida emperrada. É mais um sobrado, mas já na porta os trabalhos são divulgados como “honestos e infalíveis”. Eu havia chegado mais cedo, e Jussara, a vidente que me receberia, tinha saído. “Tudo bem”, disse Sílvia, em seus 65 anos, “sou mãe-de-santo também, é tudo igual”. Botou um jaleco branco, ajeitou-se na mesa lotada de imagens, afastou os búzios da frente e pediu que eu dividisse o baralho em cinco montes. Daí para chegar ao amor mal resolvido e à limpeza espiritual foi uma cartada.

Olhando para um calendário da Caixa, perguntou se eu tinha alguém para me ajudar no serviço. Diante da negativa, disse que poderia fazer um despacho indiano na linha da direita. “Não pode mexer com a da esquerda, de Exu-Pomba-Gira.” O material era completo, tudo “abaixo de encomenda, uma caixa grande que os orixá providencia”. Cada despacho sairia por R$ 550, multiplicados por quatro, porque cuidaria do amor, da saúde, do trabalho e da família. Anunciando pagamento após resultado, embolsou R$ 50 da consulta. Uma coisa é uma coisa, outra é bem outra.

Mais ou menos nessa linha trabalhou a sensitiva Alyne, perto do Metrô Santa Cruz. Não é que o tarô dos anjos mostrou que o negócio estava anuviado e eu precisava de mais uma assepsia? Senti que devia tomar as rédeas do meu destino e disse que compraria tudo. Ela anotou num papel: 21 velas brancas de 90 cm de altura por 40 cm de diâmetro, mais um lençol de 400 fios, que eu poderia achar na Zêlo, mais um champanhe. Lençol avulso de 400 fios, não achei. Só o jogo. O mais em conta saía por R$ 180. Já vela neste diâmetro, nem na fábrica: “Quem pediu essa vela sabe o que é centímetro?”, perguntou o atendente de uma delas. “Vai pesar uns 100 kg e, quando queimar, vai esparramar pra tudo que é lado. Confere lá com ela e me liga de volta. Sucesso!”

Por telefone, Alyne insistia nos 40 cm. Disse que tinha me mostrado a vela, e mostrou mesmo um exemplar na consulta, mas cujo diâmetro era bem menor. “Por favor, pega uma régua e meça aí, a vela não tem 40 cm”, insisti. “Não pode medir numa régua, né, tem de medir numa dimensão de redondo, não de quadrado”, disse, irritada. “Você tem CNPJ de taróloga?”, perguntou. Ouvindo o óbvio não, disse que poderia comprar com desconto numa fábrica de seu conhecimento. Em vez de R$ 65, cada uma sairia por R$ 32,50.

“A questão é que essas pessoas, em geral, são profissionais da área, hábeis em lançar problemas que todo mundo tem”, lembra Márcia Cobêro. “E, a partir do momento em que o vidente foi capaz de adivinhar o problema, que o próprio cliente entrega durante o consulta, o cliente vai julgá-lo apto a resolver.” Junte-se a isso a insegurança dos nossos dias, como o desemprego doméstico e um terrorismo assustador. “Especificamente no momento, gostaríamos que nos amarrassem a esperança, que periga se desprender de nossas assustadas perspectivas frente ao descalabro que vivemos no momento”, metaforiza o psicanalista Sérgio Telles.

Embora negue, pelos sete elementos, que a crise não bateu à porta, o fato é que há um mês Pai Leo de Ogum entregou seu escritório na Barão de Itapetininga e voltou à rua, onde montou um guarda-sol emoldurado de panos indianos. Seu negócio, há 28 anos, são búzios e tarô. Na frente da Praça da República, vira e mexe alguém se acocora para perguntar da consulta: R$ 25 o tarô e R$ 30 os búzios. No escritório, cobrava R$ 60. “Agora estou mais perto do povo, atendo garotas de programa, pobres, ricos, GCM, militar, artistas, gente de todas as gamas”, gaba-se.

Pai Leo de Ogum, originalmente Leo Teodoro, diz ser de Ilhéus, na Bahia, e não tem medo de mostrar a cara. De fato, não achei tantos cartazes mostrando o rosto de um sensitivo, muito menos o corpo, e muito menos o corpo sarado, como ele faz. “O ser humano, pela natureza, é curioso”, diz. “Em visão de espiritualidade, ele quer saber o que vai acontecer na vida dele no presente, no passado e no futuro.” Porque os oráculos vêm desde Jesus Cristo, continua Pai Leo, “quando não tinha praticamente televisão, rádio, carro, nada que se comunicasse, nem luz, praticamente”.

Na consulta aos búzios, ele não viu trabalho emperrando meu caminho. Mas sua comunicação com os orixás parecia desconectada. Pai Leo encontrou documentos pendentes em cartório (que não tenho), confere?, consulta “de mulher” por fazer (feita recentemente), confere?, e filhos (que nem tenho) indo mal na escola. Perguntei se ele tinha filhos. “Tenho um”, mostrou no celular. “Mas a mãe dele não tá mais comigo por preconceito.” Preconceito dela? “A sogra é evangélica, de família japonesa, e eu macumbeiro. Guenta ficar muito tempo?”

Estudioso da religião afro-brasileira, o professor titular sênior da USP, Reginaldo Prandi, diz que muita gente não vai a terreiro de jeito nenhum, por achar que “é coisa do diabo”, mas faz sua fé nos centros urbanos sem checar se esses “consultórios” são de fato pilotados por pais ou mães de santo, que em geral não misturam búzios com cartas. “É como médico, tem que pedir referência, perguntar como trabalha”, avisa.

Em cima dos cartazes do Pai de Ogum se metem os do Bruxo, que atua num prédio de advogados na Rua José Bonifácio. Ele tem seis baralhos e nove números de celular, para atender até via “whatzap”. O Bruxo é Divino Quintiliano, vulgo Phuazza Kwenn, seu nome quando participou de filmes de Zé do Caixão. É de Anicuns, em Goiás, já foi da Aeronáutica e mais não sei porque ele já abre o tarô Rider-Waite pra me escanear. Só registrei a vida longa. Foram amenidades, nenhuma desamarração à vista nem a prazo e a ênfase em que, se eu quisesse, teria poderes para também ler o tarô. Sua frase predileta é “tá tranquilo”. Mas a mais notória foi quando explicou por que existem tantos cartazes de videntes espalhados nas regiões ricas da cidade: “O grã-fino é mais na dele, mas vai aonde o pobre vai”, diz. “O confidente do rico, quer saber, é mesmo a empregada.”

No rigor da lei é estelionato. Ao pé do artigo 171 do Código Penal Brasileiro, cartomancia e afins podem ser entendidos como estelionato, e os infratores estão sujeitos à pena de reclusão de 1 a 5 anos. Afinal, é proibido “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”. Mas o advogado Tarcísio Germano de Lemos lembra que a Constituição garante liberdade de culto, e é nisso que muitos videntes se ancoram. O ataque à Cidade Limpa, porém, não tem fuga se houver o flagrante, pelo qual o infrator pode pagar R$ 10 mil. A Prefeitura afirma que, de janeiro a maio, recolheu mais de 185 mil itens, entre eles vários lambe-lambes de sensitivos.



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