Mostrando postagens com marcador facebook. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador facebook. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de julho de 2016

Quando as redes sociais prejudicam o diálogo


A entrevista com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman foi publicada na versão brasileira do El País em 09/01/16:

Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”

Ele é a voz dos menos favorecidos. O sociólogo denuncia a desigualdade e a queda da classe média. E avisa aos indignados que seu experimento pode ter vida curta

Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.

R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.

P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.

R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.

P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.

R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.

P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?

R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.

P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?

R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

As redes sociais nos tornam menos humanos

Artigo instigante de Lara Brenner para a Revista Bula:

REDES SOCIAIS: O ESTRANHO UNIVERSO QUE NOS APROXIMA E AFASTA DOS OUTROS E DE NÓS

Por que divido minha intimidade com o resto do mundo a todo instante? Por que não consigo ficar em minha companhia por alguns minutos, sem que qualquer tecnologia se coloque entre mim e mim? Por que vivo a sonhar com a próxima viagem, quando sequer paguei pela anterior? Por que me privo do que gosto de comer e fazer em busca do corpo que alguém um dia definiu como ideal? Ora, a resposta não é óbvia?

Não é isso que todo mundo faz?

Às vezes, é preciso repensar o óbvio para se alcançar a verdade individual. “Óbvio”, essa palavra simples que carrega em si o perigo de afastar o questionamento e a inquietação e que, em sua nudez aparentemente despretensiosa, guarda o risco da dormência e da conformação. Afinal, se é tudo tão óbvio, por que pensar?

Bem, talvez nem todas as respostas sejam assim evidentes.

Quanto mais possibilidades o mundo oferece, mais determinista parece tornar-se o homem, vitimado pela infinidade de caminhos que ele próprio construiu. Esconder-se atrás de expressões da pós-modernidade, como “correria” e “networking”, tem levado a um movimento de incertezas absolutas que faz as ações humanas não saírem da superfície: nunca se viajou tanto, nunca se esteve presente em tantas redes sociais, nunca se compartilhou tanto a vida íntima com os iguais… Em contrapartida, nunca se esteve tão ausente das pessoas ao redor e do instante em que se vive. Em que se vive de verdade, diga-se de passagem, e não virtualmente. “Mundo líquido”, diria Bauman, “nada é feito para durar”.

As relações humanas, cada vez mais abundantes e menos sólidas, caminham em direção ao abismo. Tenho tantos amigos quanto minhas redes sociais apontam, mas sequer me recordo da última vez em que lhes perguntei, olho no olho, algo singelo como: “E a vida? Anda bem?”, para de fato ouvir com interesse sua resposta.

Não há como negar que a casca tem sido o lugar mais frequentado do fruto, num ato solene de esquecimento do básico: o que frutifica as relações são as sementes. É preciso dispor de terra fértil e ir fundo até se conectar a elas.

Rubem Alves certa vez escreveu sobre uma mulher que subitamente ganhou olhos de poeta. Passou a ver as cebolas como rosáceas de uma catedral gótica. De repente, todos os legumes lhe eram presentes aos olhos, tudo causava espanto. “Acho que estou ficando louca”, disse ela ao escritor. Analisando-a atentamente, concluiu ele sobre a saga que sua paciente acabara de vivenciar: “A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer”.

Talvez o mundo líquido esteja roubando-nos os olhos como órgãos de prazer, retirando-os da caixa de brinquedos para conformá-los à de ferramentas. Pelo jeito, tantas fotografias óbvias, vídeos previsíveis, felicidade forçada, corpos biônicos e risadas virtuais estão nos tornando menos gente, menos olhos. Talvez seja hora de começar a repensar o óbvio, como fez a mulher de Rubem Alves com sua cebola magnífica. E aí, somente aí, é provável que se possa começar a enxergar o mundo não mais com olhos falsos de quem vive sem viver, mas com aqueles sensíveis e honestos de um verdadeiro poeta.



sábado, 13 de junho de 2015

Umberto Eco diz que redes sociais dão voz a uma "legião de imbecis"


Matéria do UOL Notícias:

Redes sociais deram voz a legião de imbecis, diz Umberto Eco

Crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".

A declaração foi dada nesta quarta-feira (10), durante o evento em que ele recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália.

"Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel", disse o intelectual.

Segundo Eco, a TV já havia colocado o "idiota da aldeia" em um patamar no qual ele se sentia superior. "O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade", acrescentou.

O escritor ainda aconselhou os jornais a filtrarem com uma "equipe de especialistas" as informações da web porque ninguém é capaz de saber se um site é "confiável ou não".



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O rolo compressor das eleições 2014 sobre as amizades

A frase de Winston Churchill é surrada, mas continua válida:"a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas as outras".

Como não inventaram nada melhor até hoje, o jogo democrático deve ser jogado, mas existem regras mínimas para que a cordialidade e o respeito sempre vençam, apesar das inevitáveis escoriações.

Infelizmente, não foi isso o que vimos nas últimas semanas no Brasil.

As recentes eleições foram radicalizadas demais, e as redes sociais expuseram todas as facetas do que existe de pior na humanidade, da bravata ao discurso de ódio, passando pelas ofensas pessoais.

Pelo pouco que aprendi da observação desses meios eletrônicos de, digamos, "convivência", a super-exposição das redes sociais potencializa os nossos (muitos) defeitos enquanto minimiza as nossas (poucas) qualidades. Trata-se de um jogo de "perde-perde".

E foi nesse embalo que muitos amigos se perderam pelo caminho, muitas amizades foram derretidas no caldeirão das paixões políticas, e talvez seja chegado o momento de começar a pensar se valeu a pena e - tanto quanto possível - reparar os caminhos e reconstruir as pontes.

O artigo abaixo, de Mariana Tokarnia, com a colaboração de Pollyane Marques, publicado na Agência Brasil, pode ser um bom começo:

Debate sobre eleições nas redes sociais abala amizades

O intenso uso das redes sociais para expressar apoio político nestas eleições e o acirramento das tensões devido à proximidade do segundo turno, marcado para o próximo domingo (26), têm afetado amizades e relações familiares. Uma usuária do Twitter resumiu a situação em um post que lhe rendeu mais de 17 mil curtidas: "Gente, quem perdeu família ou amigos por causa dessa eleição vamos combinar de passar o Natal juntos".

Pesquisa Datafolha divulgada na última quarta-feira (22) mostrou aumento no índice de pessoas que disseram ter interesse nas eleições. Dos 4.355 entrevistados, 50% responderam que têm interesse no pleito. No fim de agosto, essa porcentagem era 39%. Esse crescimento também influencia no aumento da circulação de vídeos, textos e até mesmo ofensas nas redes sociais.

A gerente de comunicação digital Glaucimara Silva deixou de seguir e de visualizar publicações de várias amigos no Facebook. Em casos mais graves, em que houve preconceito ou discurso de ódio, ela desfez a amizade na rede social. "As pessoas se revelam muito nesse momento", diz. Ela acredita que, por estarem protegidas por um computador, "as pessoas se sentem mais à vontade para falar coisas que não falariam cara a cara".

Apesar de a maior parte das amizades desfeitas serem de amigos apenas de Facebook, Glaucimara chegou a se afastar de uma amizade na vida real. "Um amigo muito próximo parou totalmente de conversar comigo porque considerou que temos uma visão política muito diferente e por isso não temos mais nada em comum", conta.

A assessora de imprensa Juliana Carvalho decidiu encerrar as contas nas redes sociais até o fim das eleições. "Estava virando um ringue para mim, eu via as pessoas extremamente irritadas e xingando umas às outras."

Para o sociólogo e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Marcello Barra, a proporção a que chegaram as discussão nas redes sociais nestas eleições é algo inédito. "No grau que assume é realmente uma coisa que aparentemente é inedita e tem correlação imediata com a disputa [eleitoral], uma disputa muito acirrada."

Ele explica que as redes apresentam um grau de politização muito mais avançado diante de outros meios de comunicação, como a televisão ou o rádio. "Permitem não só a expressão de vários assuntos que vão além da política, como a política é tratada muito intensamente, discutida numa base diária. Isso é muito relevante para a democracia", destaca.

O mestre em direito pela UnB e ciberativista Paulo Rená também considera a discussão nas redes positiva, mas alerta para o discurso de ódio e para os crimes cometidos pelos usuários que, muitas vezes, saem ilesos a comentários racistas ou de preconceito regional.

"Acho importante que as pessoas entendam que não é porque estão na internet que o discurso de ódio está liberado. E isso não é nenhuma restrição à liberdade de expressão", diz. "Aquelas condutas inadequadas e eventualmente criminosas que eram feitas em ambientes privados, que eram feitas dentro de casa, agora passam a ocorrer também em ambientes públicos. Não tem nenhuma restrição para que esse comportamento inadequado seja punido aconteça ele na internet ou em qualquer lugar."

Rená orienta aqueles que se sentirem agredidos a, dependendo do nível da ofensa, procurarem uma delegacia de polícia e registrarem boletim de ocorrência ou recorrerem à Justiça. O Ministério Público também pode atuar no combate a discursos preconceituosos a determinados grupos.



sábado, 22 de março de 2014

Solidão acompanhada

Artigo perturbador de Sergio Augusto para o Estadão de 15/03/14:

Ciberescapismo

Viciados no Facebook, Twitter e serviços afins vivem como zumbis, almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão

À saída de uma sessão vespertina de Ela, uma senhora pergunta à amiga se aquilo que acabaram de ver poderia acontecer de verdade. "Sei lá", respondeu a outra, "mas quando acontecer, não estaremos mais aqui pra ver." Resposta sensata. Primeiro porque ninguém sabe ao certo se a tecnologia digital atingirá aquele grau de sofisticação mostrado no filme de Spike Jonze. Segundo porque as duas senhoras certamente há muito terão morrido quando os smartphones e computadores puderem oferecer um serviço de interação online como o do filme.

Aos que ainda não viram Ela e nada leram a respeito, resumo: é uma delicada, melancólica e inquietante comédia ciber-romântica na qual um recém-separado de carne e osso, Theodore (Joaquin Phoenix), apaixona-se pela voz e o jeito de falar de um sistema operacional chamado Samantha. Ela não é um autômato como os replicantes de Blade Runner e Gigolo Joe, o edipiano robô humanoide encarnado por Jude Law em A. I., Inteligência Artificial, mas um programa de computador que conversa e interage com o usuário, algo como uma extensão do aplicativo Siri, a assistente pessoal inteligente do iOS da Apple, só que "humanamente" inteligente e sensível. Além de sexy. Até um software vira um tesão com a voz de Scarlett Johansson.

Li em algum lugar que daqui a 30, 40 anos haverá um aplicativo como Samantha ao alcance de todos nós. Se for um quebra-galho full time e onipresente, uma super-Siri, com respostas e recomendações para tudo, beleza. Se uma vampe virtual, uma app-fatale capaz de virar a cabeça de clientes solitários e carentes como o Theodore de Ela, babau. Que não chegue a tal extremo a distopia da Singularidade (ou o momento hipotético em que a inteligência artificial irá superar a inteligência humana), até por ser grande o risco de a NSA, ciente da onisciência do aplicativo, com total acesso aos dados, e-mails e demais segredos de sua freguesia, transformá-lo numa Mata Hari. Como se já não bastassem as coletas de dados dos internautas repassados pelas plataformas de mídia social e aplicativos a empresas e anunciantes.

O filme se passa numa época indefinida, numa Los Angeles asséptica e high tech, com visual de Xangai (onde as externas foram rodadas), justo o oposto da Los Angeles de Blade Runner, que era uma versão degradada de Tóquio, com detalhes maias em sua regressiva arquitetura. Essa concepção de Xangai como protótipo da metrópole do futuro pode sugerir uma visão prospectiva menos sombria, menos pessimista, que a dos autores de Blade Runner, mas a perspectiva de um mundo onde seres humanos inteligentes e sensíveis como Theodore caiam de quatro por vozes movidas a algoritmos não deveria empolgar nem os mais fanáticos apologistas da cibercultura.

Se Samantha é um avatar avançado de Siri, Theodore em nada difere dos cibernautas do presente que vivem vicariamente num mundo à parte, como almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão. São zumbis, e não apenas usuários, das mídias sociais, viciados no Facebook, no Twitter e serviços afins. Diversos estudos recentes, e não tão recentes, sobre os efeitos negativos da convivência virtual revelam dados preocupantes. Conclusão unânime: quanto mais vazia nossa vida pessoal, maior a tendência para preenchê-la na realidade virtual. Quanto mais ocupados e ativos, menos nos deixamos seduzir pelo ciberescapismo.

Permanecer muito tempo nas redes sociais pode provocar insônia, ansiedade, estresse, distúrbios digestivos (revelação da última edição do Journal of Eating Disorders), anorexia, afetar a autoestima, incitar a inveja e o ciúme. A psicoterapeuta Sherri Campbell defende essa tese com ardor: "As mídias sociais nos dão um falso sentimento comunitário, uma falsa conectividade com o mundo e as pessoas. As trocas que nelas se processam são meros simulacros das relações interpessoais no mundo físico. Milhares de contatos, amigos, seguidores e curtições não valem o sucesso real, palpável, que podemos desfrutar no mundo real".

Apesar de ter um pezinho na autoajuda, Sherri Campbell fala com a autoridade de quem há tempos se dedica a pesquisar os motivos que levam as pessoas a sobrepor suas relações nas redes sociais às da realidade concreta.

Metade dos imoderados usuários do Facebook e do Twitter que ela entrevistou admitiu ter ficado, com o passar do tempo, mais ansiosa, frustrada e insatisfeita. Nas mídias sociais a vida dos outros parece perfeita e isso pode nos deixar complexados e deprimidos, ainda que o que os outros nos mostram seja apenas um instantâneo da realidade, eventualmente edulcorada, falsificada, "porque também produto de um complexo de inferioridade", acrescenta a psicoterapeuta, que, a exemplo de Christopher Carpenter, autor de Narcissism on Facebook (Narcisismo no Facebook), oferece duas alternativas aos acometidos de compulsão tecnológica: uma clínica de reabilitação (sem acesso à internet) e uma terapêutica reconexão ao mundo real, com frequentes tête-à-tête com amigos e parentes. Foi o que Theodore, o cibermissivista apaixonado de Ela, compulsoriamente fez.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Facebook completa 10 anos hoje

No dia 4 de fevereiro de 2004, entrava no ar a rede social que revolucionaria a maneira das pessoas interagirem no mundo e se tornaria hegemônica nos nossos dias: o facebook.

Entretanto, o que parece estar em jogo uma década depois é a própria sobrevivência do portal, conforme matéria publicada no UOL em 22/01/14:

Cientistas associam epidemia a Facebook; 80% devem deixar site até 2017

Cientistas da Universidade de Princeton (Nova Jersey, EUA) usaram uma fórmula referente ao ciclo de epidemias para analisar a popularidade do Facebook. Segundo o levantamento do departamento de engenharia mecânica e espacial, entre 2015 e 2017 a rede social perderá 80% dos usuários ativos no auge de sua popularidade (registrada em 2012, de acordo com o mesmo estudo).

Para a pesquisa, não foi levado em conta o número de usuários, mas sim a quantidade de buscas feitas no Google referente às redes sociais. Utilizando um modelo chamado SIR, para avaliação de doenças infecciosas, os pesquisadores John Cannarella e Joshua A. Spechler consideraram a adoção das redes como uma infecção e seu abandono como a recuperação.

"O Facebook já atingiu seu pico de popularidade e entrou na fase de declínio, como sugere a queda nas buscas [feitas via Google] depois de 2012. A rede deve apresentar rápida decadência nos próximos anos", diz a pesquisa. O levantamento indica que essa queda será significativa já em dezembro de 2014.

O MySpace serviu como base para aplicação da fórmula que previu a queda de interesse no Facebook. Fundado em 2003 e com pico de 75,9 milhões de usuários nos EUA em 2008, o site para fãs de música foi abandonado pela grande maioria até 2011. No Brasil, o Orkut representa um caso parecido: já teve 40 milhões de usuários, mas somente 6 milhões visitaram o site em dezembro.



domingo, 11 de agosto de 2013

Clássicos do mundo antigo tinham suas próprias redes sociais


É o que afirma interessante artigo publicado na Folha de S. Paulo de 04/08/13:

Os gregos já curtiam uma comunidade

De Homero a Zuckerberg, pouco mudaram os relacionamentos

NELSON DE SÁ

RESUMO Estudos que combinam ciências exatas e literatura apontam para o fato de que relacionamentos nas redes sociais se assemelham aos observados em mitos e obras clássicas. Analisados por brasileiros na Escócia, elos entre personagens da "Odisseia" se aproximam muito do padrão registrado entre pessoas na vida real.

HÁ dois anos, Franco Moretti, professor da Universidade Stanford, saudou o fato de que os métodos quantitativos estavam novamente em ascensão nos estudos literários. Dessa vez, devido às grandes bases de dados digitais, "big data", vinham para ficar. Foi o que escreveu em artigo para a "New Left Review", em que relatava os levantamentos feitos no Stanford Literary Lab sobre a rede de conexões em "Hamlet".

O acadêmico, que é irmão do cineasta italiano Nanni Moretti, defendeu então que linguagem e estilo são apenas parte da questão literária: seu trabalho sobre a tragédia shakespeariana se apresentou como "o início de uma resposta" à pergunta sobre o enredo --se este poderia ou não, diferentemente do estilo, ser quantificado.

Desenhou um primeiro mapa, incipiente, dos "hubs" (entroncamentos, que são os protagonistas com os quais os outros integrantes de uma rede se relacionam mais) de "Hamlet". Uma de suas revelações sobre o enredo da peça foi que Horácio, um personagem menor, é um ponto de confluência quase tão frequente quanto o rei Cláudio ou mesmo o príncipe Hamlet.

No artigo, intitulado "Teoria de Redes, Análise de Enredo", Moretti tomou como ponto de partida as redes "small world", identificadas pelo psicólogo americano Stanley Milgram em 1967. O "pequeno mundo" de Milgram se traduziu, popularmente, nos "Seis Graus de Separação" da peça de John Guare (1990)--a ideia de que apenas seis laços separam quaisquer duas pessoas no mundo.

Mesmo que o professor italiano de literatura comparada tenha admitido não ter a "inteligência matemática necessária" para lidar com a teoria de redes, ele estava certo ao identificar a ascensão dos métodos quantitativos, e das redes em especial, nos estudos literários mais recentes.

Passados dois anos, um grupo de físicos brasileiros veio se somar à atenção crescente de outras disciplinas --mais afeitas à matemática-- pela abordagem quantitativa de textos literários e/ou míticos. No caso, trata-se do estudo "Análise de Comunidades numa Rede Social Mitológica", mais precisamente, na "Odisseia", de Homero, publicado há um mês na Escócia.

Milgram e Moretti são lembrados como referências distantes por Sandro Ely de Souza Pinto, professor da Universidade de Ponta Grossa, no Paraná, no momento fazendo pós-doutorado na universidade escocesa de Aberdeen. Ele encabeça o estudo, feito em colaboração com Murilo da Silva Baptista, do Instituto de Sistemas Complexos de Aberdeen, e com o mestrando Pedro Jeferson Miranda.

No trabalho sobre a "Odisseia", diz Souza Pinto, "o que a gente mostra é que a rede parece ser real, tem indícios de que aquilo que Homero relatou é real". O que o grupo fez foi analisar as relações sociais dos personagens e transformá-las numa rede, graficamente, que se revelou "muito parecida com as redes sociais reais, inclusive com as redes de Facebook".

COMUNIDADES Entre as características que aproximam a "Odisseia" do mundo real estão ser "pequeno mundo", como na constatação de Milgram, e "altamente repartida em comunidades". Também ser "altamente hierarquizada", fenômeno identificado nas redes por teóricos como o húngaro Albert-László Barabási, hoje professor de física na Universidade Northeastern, nos EUA, e referência central do estudo.

A exemplo do que aconteceu com Milgram e os seis graus de separação, Barabási vem se popularizando para além da teoria das redes pela expressão "os mais ricos ficam mais ricos, os mais pobres ficam mais pobres", adaptada do Evangelho de Mateus. Em outras palavras, numa rede, os "hubs" com mais conexões sociais atraem novas conexões com mais facilidade, acentuando a hierarquização.

"Estudamos a Odisseia' profundamente e acabamos chegando à conclusão de que Homero talvez tenha sido o primeiro a entender o que é uma rede social", diz Souza Pinto. "Para construir uma rede, você precisaria saber um pouco como é a distribuição das comunidades, dos círculos de amizade, que seguem certas leis matemáticas. E Homero observa tudo isso na construção de sua obra."

Em números, o grupo identificou na "Odisseia" 342 personagens, ligados por 1.747 relações e formando 32 comunidades, sendo dez mais influentes, entre elas aquelas que se formam em torno de Odisseu e Menelau.

O estudo de Souza Pinto, Baptista e Miranda repercutiu no "Technology Review", do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA, que elogiou o "novo e interessante teste, que dá um importante insight' para a história de textos antigos". E ao menos duas empresas de tecnologia, a americana Torux e a francesa Linkfluence, procuraram os brasileiros em busca de "parceria".

Nem todos, no entanto, se mostram tão entusiasmados com as descobertas. O editor de tecnologia da revista britânica "The Economist", Tom Standage, que lança em outubro um livro com a trajetória das redes sociais desde Roma até hoje, "Writing on the Wall", afirmou à Folha já ter lido o estudo e diz preferir aguardar outros levantamentos, de outras obras.

"Eu gostaria de ver a análise repetida para outros trabalhos ficcionais, para ver se também parecem reais', antes de concluir se essa análise apoia a ideia de que os personagens na Odisseia' realmente existiram", disse Standage. "Imagino se qualquer história plausível precisa de redes sociais que pareçam plausíveis. [A série de televisão] Game of Thrones', por exemplo."

SONETOS Os brasileiros não são os primeiros físicos a atuar em estudos literários quantitativos. No ano passado, Pádraig Mac Carron e Ralph Kenna, da Universidade de Coventry, na Inglaterra, publicaram trabalho concentrado no épico "Táin bo Cuailnge", da Irlanda, também concluindo que ele tem relação com redes reais --e não seria tão "artificial" quanto a crítica literária costuma descrever.

O estudo de Mac Carron e Kenna, intitulado "Propriedades Universais de Redes Mitológicas", foi outra referência para o trabalho de Souza Pinto, Baptista e Miranda, que citam ainda o livro "O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbell.

Além do épico irlandês, os dois pesquisadores da Universidade de Coventry estudaram paralelamente textos como a saga "Beowulf", a peça de Shakespeare "Ricardo 3º" e o best-seller "Harry Potter e a Pedra Filosofal", avaliando que o primeiro seria mais realista, e os outros dois, não. Kenna chegou a observar que, nas telenovelas, "todo mundo tende a conhecer todo mundo", algo "muito diferente de redes reais e sinal muito forte de artificialidade".

Souza Pinto concorda com a noção, que ele vê validada, inclusive, pelas telenovelas brasileiras. "O que a gente observa é que, quanto mais erudito o autor, se você levanta a rede social da obra, mais perto da realidade ela está", diz, acrescentando que prepara, com Baptista e Miranda, outros levantamentos, mas nada de analisar criações "literariamente pobres".

O grupo estuda no momento as redes de conexões sociais de "O Fio da Navalha", de Somerset Maugham, e "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien. A primeira foi escolhida por ter "um personagem que viaja pelo mundo e conhece muitas pessoas e cada uma é diferente". A segunda, por ser de "um erudito que criou várias realidades para poder escrever sua obra".

Simultaneamente, o grupo iniciou um levantamento quantitativo, "mas não com rede social", sobre os sonetos de Shakespeare, Camões e Bocage. "O que a gente quer fazer é o reconhecimento da autoria, dizer o que é ou não de Shakespeare, de Camões, através das características matemáticas das sílabas métricas." E um terceiro estudo avalia seis traduções da "Divina Comédia".

Sandro Ely de Souza Pinto diz que, a exemplo de Franco Moretti, ouve regularmente questionamentos a seus trabalhos. Ele acredita que a recepção no Brasil seja diferente do que na Europa e nos EUA devido à crescente interdisciplinaridade. "As pessoas cada vez mais aliam matemática com biologia, matemática com literatura, matemática com redes sociais."

"Aqui no Reino Unido não ouço tanto, mas no Brasil as pessoas perguntam: Para que serve? Por que você está fazendo isso?'. É mais uma ferramenta da literatura, uma extensão da ferramenta que já existe na matemática e na física. Como sou matemático e físico, estou usando o que sei".

Colaborou MARCELO SOARES, de São Paulo



terça-feira, 30 de abril de 2013

Livro grátis do dia para kindle - 4

Você já sentiu dificuldade em se "desligar" do mundo virtual e de todas as suas ramificações? Acha que gasta tempo demais na frente do computador e que poderia aproveitá-lo melhor com outras coisas?

A dica de livro gratuito para kindle, o e-reader da Amazon, é o livro abaixo, "Unfriend Yourself", de Kyle Tennant, que se propõe a responder essas questões e pode ser baixado na página da Amazon brasileira clicando aqui. A seguir, a resenha do livro em inglês com nossa tradução livre em português:

We are all connected. To each other, to our devices, to our networks, to everything... The world of social media has turned the rest of our worlds upside down.

Can you disconnect for three days to assess the situation in your own life? This short book is split into three sections to help you DETOX, DISCERN, and DECIDE what role Facebook, Twitter, Google+, and all the rest can and should have in your life. Unfriend Yourself will help you think critically, biblically, and practically from a Christian perspective about the merits and ramifications of our social media culture.

Don't worry, the world can wait; your friends won't even know you're gone-seriously, there are over half a billion of them out there. I doubt you'll be missed.

Todos nós estamos conectados. Uns aos outros, aos nossos aparelhos às nossas redes, a tudo... o mundo da mídia social virou de ponta-cabeça todo o resto de nossos mundos.

Você conseguiria se desconectar por três dias para avaliar a situação da sua própria vida? Este pequeno livro é dividido em três seções para ajudá-lo a DESINTOXICAR, DISCERNIR e DECIDIR qual o papel que Facebook, Twitter, Google+ e todas as redes sociais deveriam ter na sua vida. "Unfriend Yourself" (algo que poderia ser traduzido como "Desfaça a Amizade Você Mesmo") vai ajudá-lo a pensar crítica, bíblica e praticamente a partir de uma perspectiva cristã sobre os méritos e ramificações da nossa cultura de mídias sociais.

Não se preocupe, o mundo pode esperar; seus amigos não vão nem saber que você desapareceu - é sério, há cerca de meio bilhão deles lá fora. Eu duvido que sentirão a sua falta.



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A culpa é do facebook

Essa música é dedicada a você que ficou no facebook o ano inteiro e terminou reprovado na escola:




quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Profetadas de rede social

Algum tempo atrás circulou na internet o vídeo de um "pastor", cujo nome nem merece ser lembrado, que era especialistas em fazer "profetadas" durante cultos, onde ficava claro que ele tinha - antes - consultado, estudado e memorizado o orkut dos membros da igreja evangélica que ele estava visitando.

Mesmo que orkut seja coisa do passado, engolido que foi pelo facebook, hoje os internautas não estão imunes a situações parecidas com essa, só que com consequências talvez mais graves.

Se você gosta de se expor nas redes sociais, e acha que isso não é problema, talvez seja o caso de repensar as suas práticas virtuais.

A Federação Belga do Setor Financeiro produziu um vídeo muito interessante que mostra como os seus dados pessoais estão abertos nas redes sociais e podem ser utilizados por qualquer um para os mais variados fins, nem sempre lícitos.




sábado, 29 de dezembro de 2012

Não confie na foto do perfil

OK, a propaganda da câmera da Samsung é de 2009 (o que a torna antiga para os padrões tecnológicos atuais), mas continuam valendo as dicas para esconder aquelas, digamos, "imperfeições" que incomodam tanto na hora de se mostrar nas redes sociais:






quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Internet não é sinônimo de livre informação

Interessante matéria publicada na revista Época de 06/08/12:

"A internet esconde quem discorda de você"

Autor do livro O filtro invisível, o ativista digital americano Eli Pariser alerta contra a personalização do conteúdo em sites como o Google e o Facebook

DANILO VENTICINQUE

Numa tarde em 2011, ao acessar seu perfil no Facebook, o americano Eli Pariser, de 31 anos, notou uma mudança repentina. Sem aviso, todos os posts de seus amigos republicanos tinham desaparecido. A fórmula usada pelo site para decidir que posts eram mais relevantes determinara que, como ele clicava mais em links enviados por democratas, as atualizações desses amigos eram mais importantes que as dos outros e deveriam receber mais destaque. A mudança não lhe agradou. Embora trabalhasse num site que arrecadava doações para as campanhas de candidatos democratas, Pariser não queria deixar de ter acesso às opiniões de colegas conservadores, que considerava igualmente importantes para seu trabalho.

A busca por uma explicação para o sumiço dos amigos republicanos inspirou o livro O filtro invisível, que aborda os perigos da personalização do conteúdo em sites como o Facebook e o Google. Quanto maior for o esforço para oferecer informações personalizadas a cada usuário, maior o risco de que os filtros isolem as pessoas em bolhas virtuais, sem nenhum acesso a opiniões diferentes das suas. Além de transformar o autor num dos palestrantes mais populares do mundo da tecnologia, o livro provocou um debate intenso nas redes sociais e inspirou pequenas mudanças no sistema de buscas do Google.

ÉPOCA – O título de seu livro, O filtro invisível, sugere que as informações que acessamos na internet são filtradas antes de chegar a nós. Quando isso começou a acontecer?

Eli Pariser – Costumo dizer que a internet não é a mesma desde dezembro de 2010, quando o Google ativou as buscas personalizadas para todos os usuários. Foi o momento em que deixamos de ter um Google para todos, com os mesmos resultados, e passamos a ter resultados filtrados para cada pessoa. Duas pessoas procurando as mesmas palavras ao mesmo tempo podem receber resultados muito diferentes. Foi uma mudança importante, pois os usuários imaginam que o Google seja neutro e imparcial e ofereça respostas universais. Mas ele deixou de fazer isso há algum tempo.

ÉPOCA – Como esses filtros digitais funcionam?

Pariser – A personalização surgiu como uma forma de tentar adivinhar o que o usuário quer, mesmo que ele faça uma busca incompleta. Se você buscar por “Egito” e suas informações pessoais armazenadas no banco de dados do Google indicarem que você costuma viajar com frequência, é mais provável que os primeiros resultados sejam sites de companhias aéreas que vendam passagens para lá. Isso pode até ser bom. Mas informações importantes podem ficar de fora dos resultados. Se a situação interna no Egito estiver tensa e houver algum tipo de revolta naquele dia, essa informação é tão importante para você quanto para um amigo seu interessado em política internacional. O mesmo vale para o Facebook. O site edita o conteúdo de sua linha do tempo para dar mais ênfase aos amigos com quem você costuma interagir mais e esconder os posts de amigos com quem você interage menos. Isso é feito por fórmulas matemáticas complexas, que levam em conta cada um de nossos cliques quando estamos no site, e funciona de acordo com regras obscuras para o usuário. Sabemos de concreto apenas que, quanto mais tempo passamos no Facebook, mais temos acesso apenas às opiniões de nossos amigos. E, entre nossos amigos, as pessoas com quem interagimos mais ou concordamos mais têm um peso maior. Isso nos coloca num ciclo: quanto mais vemos os posts de algumas pessoas, mais interagimos com elas e mais destaque elas têm. No fim das contas, os sites escondem quem discorda de você, e sua visão de mundo acaba ficando distorcida.

ÉPOCA – Fora da internet, também é comum dar mais atenção a pessoas cujas opiniões são parecidas com as nossas. Esse fenômeno nas redes sociais não seria apenas a repetição de um hábito comum a todos?

Pariser – Isso sempre existiu, mas o agravante da internet é que existe uma suposta neutralidade. Quando você lê uma revista ou liga a televisão, você tem uma ideia de qual é a linha editorial daquela publicação ou canal. O mesmo vale, mais ainda, quando você conversa pessoalmente com um amigo cujas opiniões políticas você conhece. Você sabe quais pontos de vista estão lá e quais não estão, e sabe onde encontrar os que ficaram de fora. No Google e no Facebook, nada é explícito. Você não sabe em que perfil de usuário os sites te enquadram nem em que informações se basearam para chegar àquela conclusão. Não é possível saber o que você está perdendo, que partes da internet estão fora de seu alcance. As informações desaparecem sem aviso.

ÉPOCA – O livro compara a ação dos filtros à censura. Não é exagero?

Pariser – É uma forma muito sutil de censura. Você não é proibido de ver nada, mas sua atenção é dirigida de forma que você não note que a informação existe. Como dependemos cada vez mais dos resultados de busca ou de indicações nas redes sociais para chegar a um conteúdo na internet, o filtro invisível pode esconder páginas e pessoas definitivamente. As consequências disso podem ser muito graves.

ÉPOCA – Isso muda a visão romântica da internet como um espaço livre e sem fronteiras para a troca de informações?

Pariser – É pior que isso. Nós, na prática, não estamos todos na mesma internet. Duas pessoas podem acessar o mesmo site ao mesmo tempo e ver informações diferentes, adaptadas a suas opiniões. Cresci com grandes expectativas em relação à internet. Esperava que ela fosse um lugar em que todos pudessem expandir sua visão de mundo. A personalização excessiva não permite que isso aconteça. E a tendência é que ela aumente, porque os sites que fazem isso são muito lucrativos. É mais fácil vender publicidade num site quando o anunciante sabe que o público que chegou a ele foi filtrado e gosta do produto anunciado. Também existe um mercado enorme para empresas que vendem nossas informações pessoais para outros sites. Quanto mais empresas compram essas informações, mais nossas preferências continuam a ditar o que nos é mostrado. Há muito dinheiro nesse mercado. Mas o mais lucrativo não é necessariamente o melhor para a sociedade. As grandes empresas de tecnologia são comandadas por pessoas muito jovens, com uma capacidade técnica impressionante, mas que não têm a formação humana necessária para perceber que existe um dilema ético na personalização dos sites.

ÉPOCA – Que riscos corremos quando não temos contato com opiniões diferentes das nossas?

Pariser – A primeira coisa que você perde é seu senso de falibilidade. Quando todas as pessoas a seu redor concordam com você, é fácil acreditar que sua opinião é a verdade para todos, e não apenas para alguns de seus amigos. E, se ninguém enfrenta seus argumentos, é natural que você imagine que está certo e que não há espaço para discussão. Isso vale para tudo, desde as grandes questões políticas aos pequenos preconceitos. Com o tempo, essa falta de debate pode tornar as pessoas mais intolerantes.

ÉPOCA – É possível reverter esse fenômeno ou a era de ouro da internet acabou?

Pariser – Não sou um pessimista. Acredito que as empresas precisam achar uma maneira de dar poder aos usuários, e não apenas aos anunciantes. É possível encontrar formas de personalizar o conteúdo e, ao mesmo tempo, permitir que os usuários saibam o que é deixado de fora. Assim, poderíamos decidir se queremos os resultados filtrados ou não. Depois que lancei meu livro, o Google passou a permitir que as pessoas tivessem acesso aos resultados sem filtro mais facilmente. Algumas pesquisas que fizemos mostram que vários usuários preferem esses resultados. Fiquei feliz com a mudança. Quando tive minhas primeiras conversas com executivos do Google para escrever O filtro invisível, era muito difícil convencê-los de que havia dilemas éticos na maneira como os resultados das buscas eram apresentados. O Twitter é outro bom exemplo de como o usuário pode estar no controle. Ao contrário do Facebook, ele não atribui maior ou menor relevância aos tweets de quem concorda conosco. Quando você decide seguir alguém, passa a receber todo o conteúdo produzido pela pessoa. Se quiser deixar de ver os posts de alguém, precisa deixar de segui-lo. É uma relação menos passiva entre usuário e serviço.

ÉPOCA – O que podemos fazer para evitar esses filtros quando estamos na internet?

Pariser – É muito difícil acessar a internet sem fornecer informações pessoais. O Facebook não existe sem isso. Alguém que quisesse escapar do filtro invisível teria de ficar fora dessa rede social. Para algumas pessoas, seria uma perda muito grande. O Google também depende muito dessas informações para funcionar. Se você fizesse uma busca por “pizza” sem que o Google tivesse acesso a dados sobre sua localização, seria impossível indicar uma pizzaria perto de sua casa. Um pouco de personalização ajuda a fornecer resultados mais úteis. O que precisamos fazer não é evitar usar esses sites, mas sim lutar para que eles nos permitam escolher se acessaremos a versão personalizada ou não. Também deveríamos ter mais controle sobre o que é feito com nossas informações pessoais. Elas são valiosas. Quando acessamos um serviço teoricamente gratuito, como o Gmail ou o Facebook, na verdade estamos pagando com nossos dados, que têm um valor de mercado. Essas informações ajudam a construir filtros de conteúdo ainda mais elaborados, usados para vender publicidade. Não sabemos o preço que estamos pagando para acessar um site gratuito, mas as empresas sabem.



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A religião do facebook

Internamente, o facebook funciona como uma religião, segundo uma ex-empregada. E para o público externo, será que já chegou a esse patamar? A matéria (com detalhes interessantíssimos sobre a privacidade online) é do caderno Link do Estadão:

Reino de engenheiros

No Facebook o importante é a evolução a qualquer preço, diz ex-funcionária

Diogo Antonio Rodriguez

SÃO PAULO – Em 2005, o Facebook não era mais do que um amontoado de mesas e computadores em um endereço comercial em Palo Alto, Califórnia. Os usuários ainda se resumiam a algumas dezenas de milhões e o ambiente tinha de uma certa precariedade.

Funcionária número 51 da empresa, Katherine Losse e todos os seus colegas usavam a mesma senha para administrar o site – algo impensável hoje, com centenas de milhões de perfis e ações em jogo na bolsa de valores.

Os bastidores desse ambiente estão no livro escrito por Katherine Losse e lançado no fim de junho dos EUA. Em The Boy Kings: A Journey into the Heart of the Social Network (Os meninos-reis: uma jornada ao coração da rede social, ainda inédito no Brasil), a história do Facebook é contada pela perspectiva de Losse, uma mulher formada em letras no meio de homens meio meninos fascinados por engenharia.

A primeira função de Losse, em 2005, foi responder a e-mails de usuários. Quando saiu, em 2010, sua função era redigir os textos assinados por Zuckerberg.

Ela viu o Facebook passar de um pequeno escritório a um império na internet. Sua contribuição foi coordenar a tradução para línguas, como japonês, italiano e espanhol.

O tempo lhe mostrou as peculiaridades de Mark Zuckerberg. Não demorou até que percebesse que havia um caminho mais fácil para conseguir respeito e sucesso. “Minhas preocupações no começo tinham a ver a com o fato de que era difícil para alguém progredir no Facebook se não fosse engenheiro”, disse em entrevista ao Link.

Esta era também a filosofia de negócios: “Na visão de Mark e de alguns engenheiros, o crescimento rápido e irrestrito da plataforma era bom porque provava que, no Facebook, o desenvolvimento técnico, e não os desejos do marketing ou dos usuários, era o rei”, afirma no livro.

O feed de notícias, por exemplo, foi incorporado sem aviso. Milhões viram expostos seus relacionamentos, fotos e curtidas. Katherine leu milhares de e-mails raivosos. Mais importante era evoluir a qualquer preço.

Losse observa: “Mark tem sido claro em suas declarações públicas. Ele acredita que o mundo vai na direção de ser um lugar mais ‘aberto’ e menos privado, e ele quer que o Facebook participe desse movimento”. A ambição de Zuckerberg é criar uma enorme “lista telefônica” mundial, queiram as pessoas estar nela ou não.

Os perfis “obscuros” – de pessoas que não estavam no Facebook, mas eram marcadas por amigos em fotos – são prova disso. No livro, Losse conta que a ferramenta foi criada em 2006 porque os funcionários da empresa “estavam convencidos de que o Facebook era algo que todos deveriam ter”. E os perfis ficavam escondidos.

A ideia de alguém que não quisesse estar na rede era estranha para eles. “O Facebook era nossa religião e acreditávamos que todos deveriam ser usuários, mesmo que ainda não tivessem consentido”, escreve ela.

As primeiras cobaias das novidades eram justamente os funcionários, que faziam testes em seus próprios perfis: “A ideia de trabalhar no Facebook era participar da construção desse mundo social virtual, então testar o produto era parte disso. Não havia muitas fronteiras entre a vida pessoal e o trabalho”, diz Losse.

Em relação à privacidade, a mensagem é clara: “se você espera que o Facebook continue muito privado, talvez tenha uma expectativa errada a respeito do site”, avisa.

Fora da empresa desde 2010, ela diz que tem boas lembranças daquela época, apesar de “não sentir saudades”. Seu único vínculo com o ex-patrão é, claro, um perfil no Facebook.



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails