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sexta-feira, 24 de março de 2017

Papel-moeda entra em extinção no mundo

A matéria é da BBC Brasil:

Os países onde o dinheiro vivo está prestes a ser extinto

Lauren Comiteau

Em tempos de turbulência econômica, não é de se espantar que algumas pessoas prefiram guardar seu dinheiro à moda antiga: em espécie, em algum cofre ou em algum esconderijo. Pelo menos até a tempestade passar.

Mas em alguns países do mundo, como a Holanda, o dinheiro em espécie está praticamente em vias de extinção - a ponto de alguns estabelecimentos simplesmente recusarem cédulas ou moedas.

Da badalada rede de lojas de comida natural Marqt à padaria do bairro, todos preferem receber pagamentos em cartão de débito ou crédito. Alguns dos varejistas chegam a definir essa prática como "mais limpa" e "mais segura".

Eu fiz uma experiência: deixei o cartão em casa e tentei ver até onde poderia chegar com um punhado de dinheiro vivo em Amsterdã.

Espanto e resistência

Como era de se esperar, fui recebida com expressões de espanto e com resistência quando quis pagar meu aluguel em dinheiro.

"Não me lembro da última vez que recebemos pagamento em dinheiro", conta Marielle Groentjes, contadora da imobiliária que administra meu apartamento, há dez anos no cargo.

"Não gostamos de ter dinheiro aqui na agência. Não temos cofre e os bancos nos cobram para fazer um depósito."

Mas são itens menores e mais baratos que dão mais dor de cabeça. Se não sou impedida de fazer compras em lojas que só aceitam cartões, sou obrigada a ficar em uma fila enorme de pessoas pagando em dinheiro, enquanto vejo outras resolvendo suas vidas rapidamente nos caixas automáticos.

Os euros no meu bolso não servem para eu comprar um sanduíche nem para que eu estacione o carro em Amsterdã.

"Dinheiro em espécie é um dinossauro, mas ele ainda não vai ser extinto", afirma Michiel van Doeveren, conselheiro sênior no Banco Central holandês, o DNB.

Segundo ele, é a logística que está encarecendo as transações em dinheiro, uma vez que ele precisa ser transportado, vigiado, contado e registrado. "É importante que a economia eletrônica ganhe mais espaço porque queremos adotar pagamentos mais eficientes."

Como ganhar mais

Os pagamentos eletrônicos nas lojas e supermercados da Holanda ultrapassaram as transações em dinheiro pela primeira vez em 2015, por uma margem estreita: 50% delas em cartões de débito, 49,5% em dinheiro e 0,5% em cartões de crédito.

Um movimento conduzido por um grupo de bancos e varejistas holandeses quer que essa proporção suba para 60%-40% até 2018. Eles argumentam que pagamentos eletrônicos são mais baratos, mais seguros e mais convenientes.

Assim como a Holanda e seus vizinhos na Escandinávia, a Suécia está entre os primeiros na corrida pela erradicação do dinheiro vivo. Mas nem todo o mundo simpatiza com a ideia.

"Trata-se de um problema enorme. Para pequenas empresas, é muito caro depositar dinheiro no banco", afirma Guido Carinci, diretor da associação de pequenos empresários TOMER. Ele diz que tem que pagar uma taxa de 300 coroas suecas por mês (cerca de R$ 120) para uma empresa que está autorizada a fazer depósitos em sua conta.

Segundo ele, os bancos lucram bastante com a cobrança de taxas sobre transações eletrônicas, enquanto não faturam com o dinheiro vivo. Isso tira o incentivo para que eles aceitem cédulas ou moedas.

Muitas lojas suecas já despacharam suas caixas registradoras, incluindo a gigante das telecomunicações Telia, cujas 86 filiais pararam de aceitar dinheiro vivo em 2013. Os ônibus suecos já não aceitam pagamento em dinheiro há vários anos. E até os sem-tetos que vendem revistas na rua aceitam receber em cartão ou através de aplicativos de celular.

O problema se tornou tão grave que a maioria dos suecos enfrentam o dilema de o que fazer com a pilha de notas que os bancos não querem. Alguns estão até recorrendo a guardar tudo "embaixo do colchão", segundo Bjorn Eriksson, diretor da empresa de segurança Säkerhetsbranschen.

Laços culturais

Apesar disso, as atitudes variam bastante dentro da Europa e em outras regiões do mundo. Algumas culturas relutam firmemente em desistir do dinheiro em espécie. É o caso, por exemplo, da Alemanha, cujos consumidores acreditam que o dinheiro vivo os ajuda a controlar melhor seus gastos, segundo um estudo realizado recentemente pelo Banco Central alemão.

Na superpotência da Europa, mais de 75% dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro. A Itália é ainda menos adepta das transações eletrônicas, com 83% dos pagamentos em dinheiro.

E por mais que os americanos adorem suas notas verdinhas, o país está começando a viver um movimento no sentido de se tornar mais eletrônico. No ano passado, eles adotaram cartões de crédito com chip - uma década depois de muitos países europeus.

Em janeiro passado, várias filiais da rede de lanchonetes Sweetgreen pararam de aceitar dinheiro vivo, inclusive em sua loja em Wall Street, onde a maioria dos jovens executivos usam aplicativos de "carteira" em seus celulares, como o Apple Pay, por exemplo.

Os avanços na tecnologia móvel também está mudando costumes em alguns países da África. No Quênia e na Tanzânia, o serviço digital M-Pesa permite que milhões de pessoas hoje paguem suas contas, cobrem seus salários e realizem pequenas transações em mercados locais através de suas contas em seus celulares.



sábado, 25 de junho de 2016

Papa se manifesta sobre saída da Grã-Bretanha da União Europeia


A matéria é do IHU:

Francisco sobre a Brexit: “É a verdade manifestada pelo povo. 
Requer de nós uma grande responsabilidade”


O Papa já está na Armênia. Poucos minutos antes das 13h, o voo papal aterrissou no aeroporto de Erevan. Sua Santidade foi recebido por um coro de crianças, vestidas com os trajes típicos da Armênia, e pelo presidente do país, Serj Sargsian, e pelo líder da Igreja apostólica armênia, Karenin II, a quem deu um longo abraço. 

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada por Religión Digital, 24-06-2016. A tradução é de André Langer.


Começa uma viagem complicada e polêmica, com a questão do “genocídio armênio” sobre o papel. Não se espera que Francisco faça referência explícita ao assunto, embora exija à comunidade internacional respeito e reparação ao dano causado no sábado, durante a sua histórica visita ao Memorial de Tzitzernakaberd.

Faz calor em Erevan, de certa forma mitigado pela brisa. Uma representação do Exército acompanha o Pontífice até sua chegada ao Palácio Presidencial, onde acontece a cortesia ao presidente da República. À tarde, o Papa fará um discurso às autoridades civis e ao corpo diplomático, ao passo que o último ato do seu primeiro dia na Armênia será um encontro pessoal com o Catholicos, no Palácio Apostólico.

Antes, durante o voo papal – e contra a prática comum de conceder uma entrevista coletiva na volta – Francisco quis dar sua opinião sobre o resultado do referendo no Reino Unido e a assinatura do cessar-fogo entre o Governo colombiano e as FARC.


A votação sobre o Brexit é, segundo o Papa, “a vontade manifestada pelo povo. Requer de nós uma grande responsabilidade”. Francisco deixou o protocolo de lado e respondeu a duas perguntas feitas pelo padre Lombardi.

Sobre o Brexit, o Papa foi conciso e prudente: “Fiquei sabendo do resultado final aqui no avião, porque quando saí de casa ainda não estava nada definido”.

“Foi a vontade manifestada pelo povo – continuou Francisco – e isto exige de todos nós uma grande responsabilidade para garantir o bem do povo do Reino Unido e também o bem e a convivência de todo o continente europeu”.

Sobre o acordo de paz na Colômbia, Francisco disse: “estou feliz com esta notícia, que recebi ontem. Mais de 50 anos de guerra, de guerrilha, muito sangue derramado! Foi uma bela notícia; espero que os países que trabalharam para fazer a paz sejam fiadores, deem a garantia para que isto prossiga”.






quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Na contramão da Europa, Portugal quer receber mais refugiados sírios


A matéria é do jornal português Público, com ortografia lusitana:

Portugal disponível para receber dez mil refugiados

ANA GOMES FERREIRA

António Costa, através de acordos bilaterais, mais do que duplicou a quota atribuída ao país pela União Europeia. Em Bruxelas, o tema refugiados agravou ainda mais o clima de animosidade mas foi marcada, para Março, uma cimeira com a Turquia.

Portugal está disponível para receber cerca de dez mil refugiados – 4486 no âmbito do acordo europeu de recolocações, firmado no ano passado, e os restantes através de acordos bilaterais que o primeiro-ministro, António Costa, propôs à Alemanha e aos países mais afectados pelo fluxo migratório.

Costa, que participa em Bruxelas na cimeira da União Europeia (UE), enviou cartas os chefes dos governos grego, sueco, italiano e austríaco a disponibilizar-se para receber em Portugal milhares de refugiados que estão nestes países.

Em Setembro de 2015, o Governo português (estava então no poder a coligação de direita) aceitou a cota de 4486 refugiados atribuídos no plano de redistribuição de 160 mil pessoas — destas, apenas uma ínfima parte chegou aos seus destinos. No início de Fevereiro, o chefe do novo Executivo (socialista) visitou a Alemanha e disponibilizou-se, junto da chanceler Angela Merkel, para receber mais um grupo alargado de refugiados (duas mil pessoas), que seriam integrados em empregos no sector da agricultura e no ensino superior.

Agora, em Bruxelas, Costa alargou novamente o número através destas ofertas bilaterais.

É com a soma de todos estes números — cota europeia, proposta à Alemanha e novos acordos bilaterais — que se chega aos dez mil refugiados, ou próximo disso.

Em declarações aos jornalistas, o primeiro-ministro português voltou a dizer que estes refugiados que Portugal está disposto a receber poderão ser encaminhados para sectores como a agricultura e florestas, mas que a oferta se alarga também a estudantes universitários.

“É essencial que todos nos mobilizemos para responder de uma forma positiva [ao fluxo de refugiados que chega à Europa]”, disse António Costa. “Isto de forma a que a Europa cumpra os seus deveres de assegurar a protecção internacional a todos aqueles que são perseguidos, a todos aqueles que são vítimas da guerra e que procuram na Europa o seu refúgio”.

Ameaças e decisões unilaterais

Em Bruxelas, porém, a forma de cumprir este dever de protecção que António Costa mencionou não é consensual. No segundo dia da cimeira em que um dos temas na agenda era a travagem do fluxo migratório em direcção à UE e o registo e reincaminhamento dos refugiados e dos chamados imigrantes económicos que já estão no território comunitário (mais de 2,5 milhões, nas contas que já pecam por defeito das Nações Unidas), os países voltaram a ameaçar-se mutuamente ou a tomar decisões unilaterais — ao ponto de a Grécia ameaçar inviabilizar a declaração final, que tem implicações sobre a coesão da UE (o Brexit).

“Precisamos de ajudar o Reino Unido, mas o Reino Unido vai ter um referendo em Junho e esta crise [dos refugiados] está a atingir-nos agora”, disse o primeiro-ministro grego. Alexis Tsipras considerou que, em Bruxelas, se fala da necessidade de “uma maior união”, mas “as fronteiras estão em risco e a União Europeia está a desintegrar-se”.

A decisão da Áustria de aplicar, desde esta sexta-feira, cotas de passagem no seu território (3200 pessoas por dia) — muitos percorrem o seu território para chegar à Alemanha — e um limite para os pedidos de asilo que vai aceitar (80 por dia), além do anúncio de que esses números serão em breve reduzidos, irritou muitos parceiros. Uma notícia que agravou ainda mais o clima de animosidade em Bruxelas — e minou o plano alemão para chegar a um entendimento sobre uma parceria UE/Turquia para estancar o fluxo de gente que atravessa o Mediterrâneo Oriental e chega às ilhas gregas.

A parceria com Ancara é a grande aposta do governo alemão, e apesar de não haver consenso sobre ela, foi decidido que se realizará uma cimeira UE/Turquia no início de Março, antes da cimeira europeia de dia 6 desse mês.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, ficou “exasperado” com a decisão austríaca, diz a Reuters. O chefe da pasta europeia das migrações, Dimitris Avramopoulos, disse que a Áustria está a violar a legislação europeia e internacional sobre asilo. Mas os austríacos mostraram-se inamovíveis. “Estou muito contente com a nossa decisão e vamos mantê-la”, disse a ministra do Interior, Johanna Mikl-Leitner, lembrando que o sue país recebeu onze mil pedidos de asilo desde 1 de Janeiro e que só aceitará 37.500 até ao fim do ano. “Por isso, teremos que introduzir novos limites”, afirmou a ministra dizendo não perceber o “espanto” da Alemanha uma vez que foi este país que “inventou este sistema”.

As decisões unilaterais de controlo de fronteiras prosseguem. Alguns países optaram pelo encerramento de fronteiras, o que na prática significa a criação de uma linha de fronteira interna na UE e que põe em causa a aplicação do acordo de Schengen, que determina a livre circulação de pessoas e bens no espaço comunitário e a que aderiram alguns países não membros. Hungria, República Checa, Eslováquia e Polónia defenderam — e estão a aplicar — um plano de encerramento das suas fronteiras e da dos países que rodeiam a Grécia.

De quinta para sexta-feira, Macedónia, Croácia e Eslovénia decidiram introduzir um sistema conjunto de registo dos que chegam da Grécia e de transporte directo destes para a Áustria. O plano pretende identificar os que são originários de países considerados, como a Síria, o Iraque e o Afeganistão, deixando-os seguir em viagens organizadas (e não os outros), mas não lhes garantindo automaticamente direito a pedido de asilo — pretendem que essa triagem seja feita na Áustria. O chefe da polícia croata, Vlado Dominic, disse que a Bulgária e a Albânia vão ser convidados a juntar-se a esta estratégia uma vez que, perante esta nova realidade, podem tornar-se rapidamente novos países na rota que os refugiados e imigrantes usam para chegar à UE.



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Charlie Hebdo satiriza menino muçulmano morto por afogamento


A revista satírica francesa Charlie Hebdo ficou tristemente conhecida no mundo pelo atentado terrorista que sofreu em janeiro deste ano, onde doze pessoas foram mortas por extremistas islâmicos, além de onze feridos.

Marca característica do semanário, a irreverência sem limites que leva ao extremo o ataque a pessoas, instituições e - sobretudo - religiões tem gerado muita polêmica ao longo dos anos.

O ataque terrorista de janeiro de 2015 foi repudiado globalmente em nome da liberdade de expressão, garantia fundamental dos povos civilizados que a revista continua fazendo questão de testar os limites, como se pode ver na charge acima, publicada na sua última edição.

Charlie Hebdo não se fez de rogada e satirizou a morte do garoto Aylan Kurdi, afogado quando tentava chegar à Europa por mar, juntamente com sua família em busca de refúgio da guerra civil que assola a Síria.

A foto que registrou o menino morto na praia gerou comoção mundial e, a partir daí, fronteiras foram abertas na Europa para asilar os sírios que arriscam a vida para atravessar o Mar Mediterrâneo.

São dois cartuns na verdade, do lado direito aparece uma figura que remete a Jesus caminhando sobre as águas enquanto uma criança se afoga, com os dizeres "os cristãos andam sobre as águas" e "as crianças muçulmanas afundam", tudo embaixo do título "a prova de que a Europa é cristã".

Do lado esquerdo está uma reprodução da tristemente célebre foto de Aylan Kurdi morto na praia, com os dizeres "tão perto do alvo", tendo ao lado um outdoor do McDonald's anunciando "Promoção... dois McLanche Feliz pelo preço de um", sob a portada "Boas vindas aos imigrantes!".

Desta vez, a revista francesa foi severamente criticada pelo - no mínimo - mau gosto da caricatura, mas ao que tudo indica eles não vão desistir de sua iconoclastia na base do "choque de civilizações" ou do "quanto pior, melhor!".

Não será desta vez, entretanto, que essa pergunta será respondida: "o humor pode tudo?"



segunda-feira, 6 de julho de 2015

E a Grécia disse não...

No último sábado, comentamos aqui a decisão do patriarca da Igreja Ortodoxa Grega em apoiar o voto no "sim" para que o governo grego aceitasse as condições impostas pelo FMI, pelo Banco Central Europeu e pelos bancos credores do país.

Realizado o plebiscito ontem, 5 de julho de 2015, mais de 60% dos gregos seguiram a direção contrária, preferindo o "não", apesar da intensa campanha midiática que insistia em que o país se sujeitasse às condições da troica financeira que quer ver a dívida paga.

Algumas observações merecem ser feitas de imediato.

Em primeiro lugar, todo mundo sabe que a dívida grega é impagável. O país já sofre as consequências de um alto custo social das medidas econômicas visando satisfazer os credores.

Todos também sabiam que, ganhando o "sim" ou o "não", o cenário continuaria sendo o de uma catástrofe, uma terra arrasada sem fim.

Ao que parece, a população grega preferiu o caos de uma economia em frangalhos na qual ela ainda tivesse algum poder de decisão sobre a própria desgraça, embora ninguém saiba dizer como isso acontecerá.

A democracia grega, mãe eterna de todas as formas de participação popular que o mundo conhece, foi mais uma vez pioneira ao dizer "não" à elite financeira que comanda o mundo.

Os gregos preferiram o exemplo de Leônidas e seus 300 de Esparta para resistir ao avassalador exército persa de Xerxes, que hoje fala alemão.

Tudo muito helenicamente romântico e trágico ao mesmo tempo, mas tudo indica que a dialética ateniense prevalecerá já no curto prazo.

É muito provável que a insurreição grega venha a ser sufocada o quanto antes. O "mau exemplo" que eles deram ao mundo, ao resistir à ocupação financeira, tem que ser derrotado sem demora.

Não se surpreenda, portanto, se as (antes) rigorosíssimas autoridades financeiras europeias tratarem de - rapidamente - conseguirem um acordo com o governo grego.

Quem conhece os intestinos do sistema econômico-financeiro mundial, algo que este que vos escreve já teve o desprazer de conhecer, sabe que os governos - de qualquer orientação ideológica - existem para satisfazer os desejos vorazes de uma ínfima elite biliardária que manipula a política e a imprensa a seu bel prazer.

Suspeitamos, portanto, que - apesar da grandeza do gesto de Esparta - nada mudará no establishment econômico europeu e mundial. 

Para essa gente, a crise grega foi, e continuará sendo, apenas um acidente de percurso que precisa ser esquecido o mais rápido possível. 

Não se iludam, Termópilas cairá!



sábado, 4 de julho de 2015

Igreja ortodoxa grega pede que fiéis votem "sim" à União Europeia


A crise econômica grega ameaça a integridade da União Europeia, depois que o país deixou de pagar a parcela devida ao FMI (Fundo Monetário Internacional) no último dia 30 de junho.

Analistas entendem que uma eventual falência do país implicaria na exclusão da Grécia da comunidade europeia, com um imprevisível efeito dominó em outras economias cambaleantes do continente.

Depois de meses de intensa e infrutífera negociação, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, convocou um referendo para o próximo dia 5 de julho (amanhã, domingo), em que a população grega decidirá se aceita o acordo imposto pelo FMI, pela Comissão Europeia e pelos bancos credores, ou não.

O voto "sim" representa, portanto, que a população concorda em fazer mais sacrifícios (além daqueles que já fez) para garantir o socorro financeiro proposto pelos credores do país, avalizado pelas autoridades comunitárias.

Não há decisão fácil no referendo, entretanto...

O premier Tsipras faz campanha pelo "não", o que implicaria na saída da zona do euro e em um futuro de caos econômico até que o país se reerga das cinzas do tsunami financeiro que se avizinha.

Já o patriarca Jerônimo II, da Igreja Ortodoxa Grega, faz campanha abertamente pelo "sim", alegando que a Grécia "deve continuar no coração da Europa", mas não especifica as consequências econômicas e - sobretudo - sociais do seu voto.

Tsipras rebate a crítica dos que veem a Grécia fora da União Europeia se o "não" vencer, dizendo que isto não significará a saída grega da comunidade europeia, mas lhe dará uma posição de força para seguir negociando com as autoridades monetárias mundiais e os seus credores.

A atitude de Jerônimo II chamou a atenção porque os patriarcas ortodoxos gregos geralmente não se manifestam sobre assuntos políticos e econômicos que envolvem o país.

Talvez o cinto do patriarca tenha ficado apertado demais desde que o governo grego deixou de subsidiar a Igreja Ortodoxa do país por ocasião da crise econômica de 2012.

E olha que não faltam crises políticas, sociais e financeiras por lá ao longo da história. Uma atrás da outra, e o caos atual - infelizmente - não será o último, ao que tudo indica.

Enquanto isso, a população grega vive horas complicadas sem saber o que acontecerá com o berço da democracia quando seus cidadãos exercerem o sagrado direito de votar.

A informação é do portal Religión Digital.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O Islã contra a modernidade pagã

Artigo interessante publicado no IHU:

''A maioria dos muçulmanos são moderados, mas não se atrevem a criticar''


Os ataques islamistas de Paris repropõem fortemente a questão da relação entre cultura ocidental e mundo muçulmano, que parece estar cada vez mais dividida entre moderados e fundamentalistas. Cecilia Sepia falou com o padre Samir Khalil Samir, professor de história da cultura árabe e islamologia da Universidade Saint Joseph, de Beirute.

A reportagem foi publicada no sítio da Rádio Vaticano, 10-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

A maioria dos muçulmanos são moderados.


Certamente existem os muçulmanos moderados e são a maioria. E a maioria dos muçulmanos gostaria de viver em paz com todos. Mas há um problema, porque o Islã em si mesmo está dividido em grupos opostos, e muitas vezes, em toda a história islâmica, e ainda hoje, os muçulmanos, quando não concordam, reagem com a guerra. De fato, o Isis usa a violência contra os xiitas, contra outros grupos muçulmanos sem distinção, sem piedade. Então, dizer que aquilo que aconteceu na França não tem nada a ver com o Islã não é verdade. Mas dizer que esses são extremistas é verdade. E grande parte, a maioria – acho eu – dos muçulmanos não é favorável, mas não se atreve a criticar.


Diz-se frequentemente: a violência não faz parte do Islã, e, portanto, esses muçulmanos violentos não são autênticos muçulmanos. Devo dizer: infelizmente, não é a realidade, porque, no próprio Alcorão, temos versículos que dizem: "Matem-nos onde quer que os encontrem, tratando-se de infiéis", isto é, daqueles que não aceitaram se tornar muçulmanos. Quando os muçulmanos dizem e repetem – e sempre o fazem, todas as vezes em que há um ataque – "isso não tem nada a ver com o Islã", é um jogo de palavras inaceitável. Por quê? Porque quem o faz não o faz como um indivíduo qualquer, mas o faz em nome do Islã.



O Ocidente é um objetivo do fundamentalismo islâmico, mas há também aqueles que argumentam que não é nada mais do que um ataque à civilização: em particular, com o atentado ao Charlie Hebdo, vimos violada a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa, de pensamento. Por que isso?



Até um ou dois séculos atrás, o Ocidente era visto de forma positiva, porque trazia a tecnologia, a modernidade etc., e era crente, considerado pelos muçulmanos como cristão. Hoje em dia, é óbvio que o Ocidente não se considera, ao contrário, se recusa a se considerar cristão – a União Europeia também rejeitou pôr na sua premissa até mesmo que é de origem cristã. Então, nos fatos, os muçulmanos – com razão – dizem: o Ocidente é um neopaganismo e não tem as regras do crente. E assim identificaram cada vez mais o Ocidente com o inimigo: inimigo de Deus, inimigo da religião... E isso é muito difundido entre os grupos fundamentalistas. Portanto, a luta contra o Ocidente é uma luta contra o novo paganismo, enquanto a maioria dos muçulmanos dizem: "Não, façamos a distinção. Certos aspectos da vida moderna, como a igualdade entre homem e mulher, a distinção entre a religião e a política, são coisas boas. Em vez disso, o uso das armas é uma coisa moderna, mas ruim". Mas os fundamentalistas colocam tudo no mesmo saco: Ocidente = ex-cristãos = pagãos = modernidade. "Portanto, a modernidade é pagã, devemos lutar contra os inimigos de Deus."



Como se vence o terrorismo? Qual pode ser a solução?



Há um problema de educação, de reflexão que falta hoje em dia no mundo muçulmano. É preciso o diálogo! O outro aspecto é o de ajudar os muçulmanos a fazer autocrítica, a rever o seu modo de agir e de pensar. Finalmente, no fundo, se trata de repensar o texto do Alcorão. O texto não pode ser tocado, como para a Bíblia. Mas a interpretação do texto é uma necessidade, isto é, situar esse texto no seu contexto histórico.




terça-feira, 29 de julho de 2014

Como a Primeira Guerra moldou o mundo que conhecemos

Na esteira do centenário do começo da Primeira Guerra Mundial, tristemente relembrado ontem aqui, reproduzimos excelente artigo de Diego Viena, bem detalhado e abrangente, publicado no Valor Econômico de 24/01/14:

Rastros da guerra

Uma guerra iniciada há cem anos na Europa trouxe consequências até hoje expostas nas divisões que afetam o continente, apesar de décadas de esforços de integração e unificação. Mais do que sugerir paralelos com as dificuldades atuais da Europa, a "Grande Guerra" está sendo lembrada em analogias com um mundo em que o equilíbrio entre potências é frágil, a relação entre governos e suas populações está em xeque e pequenas disputas locais adquirem rapidamente um significado global.

É consenso, entre historiadores, que a Primeira Guerra Mundial marcou o verdadeiro início do século XX: o tempo da guerra total, da industrialização dos conflitos, das mortes contadas aos milhões, do ocaso da Europa e do triunfo dos Estados Unidos. Há divergências, porém. Enquanto cada país avança em suas iniciativas particulares de lembrar os próprios mortos entre 1914 e 1918, com poucas exceções, os esforços para fazer da efeméride um evento global, ou ao menos europeu, não frutificaram. Nem a Comissão Europeia, instituição que representa diretamente o longo e difícil processo de integração do continente, programou eventos que levem sua assinatura.

"A dificuldade de integração é real", diz o historiador Gerd Krumeich, da Universidade de Dusseldorf e do Instituto para a História do Tempo Presente, na França. "A Europa não tem como ficar unida e pacífica se não conseguir passar além dos acordos meramente econômicos e políticos. Também é indispensável que se dissemine o hábito de conhecer melhor a história comum e a mentalidade uns dos outros." Para Krumeich, não se deveria exigir dos alemães que tenham comemorações da Primeira Guerra só porque outras nações comemoram o armistício, em 11 de novembro. "Mas podemos pedir que os alemães entendam por que as outras nações celebram seus mortos: esses mortos têm a ver com a Alemanha, mesmo que os alemães tenham esquecido disso."

Segundo Krumeich, a Primeira Guerra foi tão apagada da memória coletiva alemã que os monumentos aos mortos estão "completamente mofados". Mas, pergunta o historiador, "seria muito pedir aos franceses para colocar uma placa no ossuário de Douaumont, onde 150 mil soldados desconhecidos estão enterrados, lembrando que pelo menos 70 mil deles são alemães?"

A chanceler alemã, Angela Merkel, mencionou brevemente a efeméride em seu discurso de ano-novo, lembrando que também se celebram em 2014 os 75 anos do início da Segunda Guerra Mundial e os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Ela chamou atenção para o contraste entre esses três eventos e as eleições para o parlamento europeu, que ocorrerão em maio. A queda do muro, na definição da chanceler, marcou "o começo do fim da separação entre a Alemanha e a Europa". Mas ela também afirmou que, para a prosperidade de seu país, é indispensável um papel de liderança na União Europeia, mais especificamente, na superação da crise da zona do euro.

Tanto a moeda comum quanto a liderança alemã são fonte de desconfiança no continente. A crise tem causas econômicas, que aprofundam as divisões internas na Europa, mas a falta de coordenação na celebração do centenário mostra que ainda não existe uma identidade europeia em termos de história e perspectivas comuns. "Isso quer dizer que não existe um público europeu", afirma o historiador Oliver Janz, da Universidade Livre de Berlim e autor de um livro recém-lançado que, apesar de chamar-se "1914", trata da guerra inteira. "A história é essencialmente sobre identidades. Então, é preciso ampliar o esforço para organizar a história, a memória e as identidades em escala europeia, e não nacional. As rememorações do centenário da guerra deveriam fazer isso."

A memória da Primeira Guerra fomenta outros tipos de paralelos. A historiadora Margaret McMillan, da Universidade Oxford, autora de "Paz em Paris", argumenta que vários sinais apontam para semelhanças entre o mundo anterior a 1914 e o início do século XXI. A instabilidade na Síria, por exemplo, envolve interesses de três dos principais blocos de poder - Estados Unidos, Rússia e União Europeia. No ano passado, o uso de armas químicas naquele país - surgidas, como assinala Margaret, durante a Primeira Guerra Mundial - quase resultou em bombardeios americanos, contra a vontade dos russos. Na Ásia, uma China em rápida expansão econômica começa a testar seus músculos geopolíticos, entrando em rota de colisão com o Japão, aliado dos Estados Unidos.

Assim como na "belle époque" o antissemitismo era uma válvula de escape para qualquer problema doméstico importante, do ponto de vista da opinião pública, diz Margaret, a atualidade tem seu escapismo na forma da xenofobia de partidos de extrema-direita, como a Frente Nacional na França e o British National Party (BNP) no Reino Unido, ambos em expansão paulatina nas últimas décadas.

Em termos internacionais, a ideia de que o comércio produz uma interdependência que afasta o risco de uma guerra de larga escala já não era novidade em 1914. Margaret McMillan cita o livro "A Grande Ilusão", escrito em 1909 pelo jornalista Norman Angell, como argumento da época para a impossibilidade de um conflito entre as grandes potências: o Reino Unido e a Alemanha eram os principais parceiros comerciais um do outro naquele tempo, assim como, hoje, os destinos das duas maiores economias, Estados Unidos e China, estão intimamente interligados.

O casal imperial a minutos de morrerem: flores e sorrisos antes da catástrofe.
"Um paralelo é digno de nota: o caráter explosivo do terrorismo internacional", afirma o historiador americano Jay Winter, da Universidade Yale e autor dos livros "1914-1918: The Great War and the Shaping of the 20th Century" (A grande guerra e a formação do século XX) e "Remembering War: The Great War Between History and Memory in the 20th Century" (Relembrando a guerra: a Grande Guerra entre história e memória no século XX). O conflito, que deixou mais de dez milhões de mortos e redesenhou o cenário político internacional, começou após o assassinato do herdeiro do trono austríaco, Francisco Ferdinando e sua mulher, Sofia Chotek, por um estudante sérvio ligado ao grupo terrorista Mão Negra, contrário à presença do arquiduque na capital da Bósnia-Herzegóvina, em 1914. Em resposta, o império austro-húngaro declarou guerra à Sérvia. "A guerra foi iniciada pelas respostas austro-alemã e russa ao ataque terrorista na Bósnia. O caminho para a paz no Oriente Médio foi irreversivelmente alterado pelo assassinato de Yitzhak Rabin [primeiro-ministro de Israel, de 1992 a 1995] por um terrorista judeu. Os ecos são evidentes", afirma Winter.

A voz dissonante é a de Krumeich. "Essas comparações não me convencem, porque hoje conhecemos a capacidade de destruição das máquinas militares. Em 1914, isso não acontecia. Também sabemos quais são as forças e os limites de uma economia globalizada: não somos mais obcecados por abrir novos mercados como um imperativo que envolve a vida e a morte das nações. É muito diferente." Krumeich lançou no fim do ano passado o livro "Juli 1914: Eine Bilanz" (Julho de 1914: um balanço).

Imprensa americana anuncia guerra contra a Alemanha,
acrescentando que Cuba e Brasil podiam se aliar a eles.
As analogias não dão o tom das celebrações que se preparam. Os principais projetos europeus de rememoração do conflito iniciado em 28 de julho de 1914 têm foco semelhante. Buscam trazer à tona as memórias dos combatentes e das populações envolvidas, mais do que celebrar temas nacionais ou militares. No Reino Unido, os Arquivos Nacionais prometem colocar em livre acesso na internet 1,5 milhão de páginas de diários de guerra escritos por soldados. Na França, uma Comissão do Centenário foi criada para receber projetos de eventos de cultivo da memória da guerra, com consultoria de especialistas de vários países. Foram selecionados mais de 2000 projetos. Na Alemanha, a Associação Popular Alemã de Manutenção de Sepulturas de Guerra colocou no ar uma página que agrega todos os eventos e exposições que relembram os mortos do conflito.

Segundo Winter, que é consultor da comissão francesa, os eventos relacionados ao centenário devem caracterizar-se por uma linha pacifista, "honrando os mortos sem glorificar a guerra", o que seria "como comemorar a peste bubônica do século XIV". "Se há uma mensagem política, é a de que, para entender a importância da integração europeia, é preciso voltar a esse momento espetacular de desintegração da Europa, em 1914."

O mais ambicioso projeto de rememoração do conflito é conduzido pela Biblioteca Europeana, instituição continental de documentação digital, que desde o ano passado recolhe e digitaliza as lembranças e documentos de particulares relacionados ao dia a dia das trincheiras. A França, onde ocorreu grande parte dos combates na frente ocidental, é o país onde essa coleta mais avançou, encabeçada pelos Arquivos Nacionais. Há duas semanas, uma das organizadoras do projeto na França, Catherine Dhérent, comemorou a descoberta de um diário mantido por um soldado desconhecido, com anotações sobre a localização e atividades de sua unidade em cada etapa da guerra. Chamou a atenção da equipe de digitalização o fato de que o próprio soldado censurou passagens que não eram factuais: riscou, rasgou ou cortou todas as partes em que deixava sua opinião.

Cena insólita da Primeira Guerra:
cavalaria contra força aérea.
Na Universidade Livre de Berlim, Oliver Janz coordena um projeto de memória da Primeira Guerra com maior abrangência. A Enciclopédia Internacional 1914-1918 on-line" tem como objetivo realçar o caráter mundial de uma guerra que começou como um conflito localizado nos Bálcãs, entre uma Sérvia que ambicionava se tornar uma potência local e um império austro-húngaro em franca decadência, mas rapidamente se transformou em guerra total na Europa e, ao terminar, tinha envolvido os cinco continentes. Com a participação de 86 editores e cerca de 900 pesquisadores, a enciclopédia pretende resgatar o sentido do conflito em todas as frentes de batalha.

"É uma perspectiva muito eurocêntrica considerar que a guerra aconteceu entre agosto de 1914 e novembro de 1918", diz Janz. "No Leste Europeu, por exemplo, a guerra continuou por vários anos, com a guerra civil na Rússia e na Turquia, o confronto entre a Grécia e a Turquia, a expulsão dos gregos da Anatólia e assim por diante."

A Enciclopédia será lançada em 8 de outubro, na sede do Conselho das Regiões da Europa, em Bruxelas. Segundo Janz, a escolha do local visa realçar o objetivo de superar as perspectivas excessivamente nacionais com que a Primeira Guerra é encarada no continente europeu. Janz lembra também que, do ponto de vista de vários países, a Primeira Guerra foi a amplificação de disputas armadas que já vinham acontecendo. Em 1912 e 1913, houve guerras nos Bálcãs, envolvendo a Sérvia, a Bulgária, a Romênia e o império otomano. A Itália, em 1911, aproveitou-se da derrocada dos otomanos para conquistar a Líbia, em ataque não provocado, graças ao qual sérvios, russos, alemães, ingleses e franceses enxergaram suas próprias possibilidades de acesso aos territórios dominados pelo antigo império muçulmano. Entre esses territórios estão Iraque, Síria e Palestina, que até hoje sofrem de instabilidade geopolítica.

O Japão, que se beneficiou da desintegração do pequeno império colonial alemão em 1919, vinha exercitando sua musculatura militar desde 1895, quando venceu a China, e principalmente 1905, quando derrotou a Rússia. Foi a primeira vez, desde que os otomanos deixaram de expandir seu território, que uma potência europeia foi derrotada por um país não europeu em uma guerra de larga escala. A guerra russo-japonesa de 1905 foi crucial para que os russos concentrassem suas energias em perseguir interesses no lado europeu, contra os otomanos e, principalmente, os austríacos.

Mesmo quando olhada apenas nas duas frentes europeias e no período agosto de 1914-novembro de 1918, vê-se que o conflito provocou uma transformação profunda na maneira como se faziam as guerras, no seu sentido econômico e no impacto sobre populações civis. Por isso, vários historiadores consideram 1914 o verdadeiro início do século XX. Estendida até a exaustão financeira das partes envolvidas, a guerra foi em grande parte decidida com a entrada, no lado aliado, de uma potência com recursos quase ilimitados e uma economia que até então só tinha lucrado com o conflito na Europa: os EUA.

Kaiser Guilherme II e Tzar Nicolau II,
os primos antes da guerra. O primeiro
perderia o trono, o segundo, a vida.
"A derrota da Rússia no inverno de 1917 deu à Alemanha uma grande oportunidade de transferir suas forças para a frente ocidental, mas, a essa altura, a guerra de submarinos conduzida pelos alemães tinha levado os Estados Unidos para a guerra", diz o economista Mark Harrison, da Universidade de Warwick e um dos autores de "The Economics of World War One" (A economia da Primeira Guerra Mundial), livro que examina detidamente a condição econômica de cada país beligerante. "Com a Rússia, os aliados tinham perdido a mais fraca das grandes potências. Com os Estados Unidos, receberam o reforço do mais rico de todos."

O ano de 1914 marca o encerramento de uma era de liberalismo na economia e expansão do comércio e das finanças internacionais, migração em massa com liberdade e integração dos mercados de capitais. "Foram necessárias décadas para reverter o impacto negativo da Primeira Guerra na globalização", diz Harrison. Contrariando a célebre tese de Lênin em "Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo", de que a guerra era consequência de disputas econômicas entre grandes blocos de capital, Harrison afirma que, para "a maior parte dos interesses comerciais e econômicos, era pouquíssima a expectativa de lucro com a guerra, mesmo na Alemanha".

Segundo o economista, em quase todos os países envolvidos, o interesse em entrar em guerra estava restrito a uma pequena elite militar e política. As sociedades civis e as elites econômicas preferiam a prosperidade dos tempos de paz. Na Alemanha, o Partido Social-Democrata, o mais representado no parlamento e que aprovaria a emissão de bônus de guerra, manifestou-se contra a escalada armamentista diversas vezes. "O que há de interessante, e um tanto deprimente, é ver como essas pequenas elites conseguiram influenciar o curso dos acontecimentos."

Entre os lançamentos que se anteciparam às celebrações do centenário, tentando explicar precisamente a questão levantada por Harrison, um dos mais traduzidos e discutidos é "The Sleepwalkers" (Os sonâmbulos), do historiador australiano Christopher Clark, da Universidade Cambridge. O livro se concentra na "crise de julho", que se seguiu ao assassinato do herdeiro austro-húngaro Francisco Ferdinand e sua mulher em Sarajevo, em 28 de junho de 1914. Em mais de 600 páginas, Clark descreve os meandros confusos das relações entre as potências do continente no fim da "belle époque", mas também as divisões internas de cada país e o modo de pensamento tradicional e belicoso que motivou os principais artífices da guerra.

No fim do relato, a conhecida tese da responsabilidade alemã pelo conflito aparece bastante mitigada, a não ser pelos blefes e ultimatos lançados ao longo da crise de julho. O expansionismo da Sérvia, o orgulho ferido austro-húngaro, a estratégia russa de assegurar sua predominância na área do decadente império turco, o interesse de autoafirmação da Itália, a perseverança francesa em dar o troco pela guerra perdida contra a Alemanha em 1870 e a arrogância do regime britânico, são aspectos que ganham realce na narrativa de Clark, em paralelo ao pânico de que eram tomados os estrategistas de Berlim, à medida que a aliança de vizinhos hostis ao cáiser crescia em poderio e importância.

O historiador inglês Max Hastings, autor de "Catastrophe: Europe Goes to War, 1914" (Catástrofe: a Europa entra em guerra, 1914), chama atenção para o fato de que a política interna alemã pode ter influenciado as lideranças do país a subir o tom do militarismo. A maioria social-democrata no parlamento alemão, além de hostil ao militarismo, também se empenhava em reduzir os poderes da monarquia. Enquanto isso, afirma Hastings, a Alemanha exibia vantagens em relação aos vizinhos em todos os indicadores econômicos, mas a mentalidade imperial não conseguia reconhecer outra forma de poder que não o número de soldados.

Para Harrison, a difícil relação entre o pensamento político do século XIX e a racionalidade econômica explica em grande medida o interesse equivocado da Alemanha por entrar em guerra. "Naquele tempo, ninguém estava calculando o PIB e os líderes alemães não tinham a menor ideia do que pensariam os historiadores econômicos cem anos mais tarde. Eles raciocinavam em termos de equilíbrio militar e, nesse campo, o que podiam ver era uma aliança anti-alemã crescente." O que a história econômica mostra, e Harrison destaca, "é que a Alemanha poderia perfeitamente ter prosperado sem guerra. Mas não seria a Alemanha que existia na cabeça da elite prussiana: conservadora, aristocrática e militarista". O historiador pergunta o que Otto von Bismarck, chanceler do império alemão, ou o cáiser teriam pensado da Alemanha atual, próspera, liberal, democrática, vivendo em harmonia com seus vizinhos, apesar da perda da Alsácia e da Prússia Oriental. "Provavelmente, não gostariam muito", conclui.

Krumeich elogia o livro de Clark, mas manifesta desconforto com o que lhe parece uma diminuição excessiva da responsabilidade alemã. Foi o regime do cáiser, afinal, que deu o "cheque em branco" à Áustria para atacar a Sérvia - depois que o império dos Habsburgos impôs exigências deliberadamente inviáveis ao governo de Belgrado, na sequência de eventos que começou com o assassinato de Francisco Ferdinando em Sarajevo. Também foi a Alemanha que deu um ultimato à Rússia e, mais tarde, à França, para não se envolverem no conflito que se iniciava. Por fim, foram os alemães que violaram a neutralidade da Bélgica e a invadiram no caminho para a França, provocando a entrada do Reino Unido na guerra.

Ainda assim, Krumeich coloca a questão da responsabilidade pela guerra em outros termos. Tanto os alemães quanto os outros países que, nos anos anteriores, expandiam e equipavam seus exércitos em ritmo acelerado têm responsabilidade por atirar a Europa e o mundo no conflito. Mas os diplomatas e líderes políticos que trabalhavam pela eclosão do conflito não imaginavam que a guerra se tornasse tão prolongada e assumisse dimensões de verdadeira catástrofe. Pensavam que o conflito, ganhasse quem ganhasse, seria curto. Uma guerra de tamanhas proporções era algo que sequer podiam conceber. "A guerra poderia ter sido evitada, se os líderes das grandes potências pudessem imaginar o que seriam as batalhas de Verdun e do Somme" [que, em 1916, mataram, juntas, cerca de 1,4 milhão de soldados], conclui Krumeich.

Janz observa que outros temas importantes são deixados de lado, enquanto a questão da responsabilidade pelo início da guerra continua sendo citada em primeiro lugar até hoje, quando o público começa a se interessar pelo tema. O primeiro fato negligenciado é que um conflito localizado se tornou global e afetou até mesmo países que permaneceram neutros. "Além disso, precisamos encarar essa tragédia como um alerta de que não se pode nunca considerar que a paz está garantida", afirma o historiador. "Um conflito localizado em alguma região instável pode levar à ruína todo o sistema de equilíbrio global. Seria uma ilusão pensar que isso deixou de ser verdade."

Os nomes pelos quais a Primeira Guerra é chamada, cem anos mais tarde, nos países envolvidos revelam a marca que deixou na consciência dos povos. A "Urkatastrophe", catástrofe originária dos alemães, é também a "Great War" dos britânicos ou "Grande Guerre" dos franceses. É a origem da identidade nacional para australianos, neozelandeses e outros povos que emergiram do colonialismo graças à participação no conflito. A resposta rápida e extensa à convocação por contribuições pessoais, na França e na Inglaterra, sobretudo, é uma demonstração, segundo Winter, de que "a Primeira Guerra foi o momento em que a história global e a história pessoal se tornaram uma coisa só, e nunca mais se separaram".

O foco das celebrações em relatos de soldados e histórias de particulares reflete também uma novidade nefasta introduzida pela Primeira Guerra Mundial, que se tornaria um espectro recorrente no século XX: os massacres e deslocamentos forçados de civis. Já nos primeiros dias da guerra, na futura Iugoslávia, ocorreram expurgos de sérvios. Na Bélgica, moradores suspeitos de sabotar as linhas de comunicação alemãs foram executados. Na Rússia, populações de origem alemã foram deslocadas e houve pogroms em comunidades judaicas. O episódio mais sangrento ocorreu no império turco-otomano. O governo acusou a população armênia de colaborar com as tropas russas e passou a considerar cada armênio um inimigo. O resultado foi o genocídio armênio, que vitimou um número estimado em até 1,5 milhão de civis. Até hoje, o governo turco nega a ocorrência do episódio - negação que é um dos entraves à entrada da Turquia na União Europeia.

Quando foi assinado o Tratado de Versalhes, em 1919, considerado o documento que encerrou a guerra, o mundo estava profundamente transformado: seu centro cultural e econômico, a Europa, sede dos grandes impérios coloniais que dominaram o século anterior, estava moralmente humilhado: deixara de ser o exemplo quase único de modernização possível. Regiões até então periféricas, como o Japão e a América Latina, puderam passar a procurar seus modelos de modernização. "Foi o começo de uma era de nacionalismo profundo, tanto em política quanto nas artes", afirma Janz. Movimentos modernistas, como o brasileiro de 1922, têm entre suas raízes, segundo o historiador, um esforço de repensar a condição nacional depois do trauma da Primeira Guerra.

Quatro dinastias centrais para a história dos séculos anteriores haviam sido removidas. Os Hohenzollers alemães e os Habsburgos austro-húngaros haviam sido expulsos e viviam no exílio. No lugar do antigo império turco-otomano, que em 1453 havia derrotado o império bizantino, a jovem república turca era reformada sob o comando de Mustafa Kemal Atatürk. Nicolau II, na Rússia, mais do que removido, havia sido morto, com toda sua família. O novo poder bolchevique ainda deveria enfrentar uma longa e sangrenta guerra civil antes de tornar-se a União Soviética e controlar um enorme território, até a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Na Alemanha, as revoluções de 1918, que forçaram o fim da guerra, também quase resultaram em socialismo. Mas o resultado mais palpável foi o ressentimento disseminado pelo país como resultado dos termos draconianos do tratado que encerrou o conflito: estava instalado o ovo da serpente do qual sairia o nazismo.



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