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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

As mulheres de Stalingrado, 75 anos depois

Lydia Litvyak, a "Rosa Branca de Stalingrado"

Cinco anos atrás, comentamos longamente sobre a importância da batalha de Stalingrado nos destinos da Segunda Guerra Mundial e da humanidade como um todo, e convidamos você a reler esse artigo clicando aqui.

Amanhã, 2 de fevereiro de 2018, o planeta relembra os 75 anos do desfecho daquela batalha, que influenciou decisivamente na derrota alemã, para desespero de Hitler e seu delírio nazista, o que nos reacende a esperança de que o mal nunca tem a palavra final.

Nunca conseguiremos agradecer e valorizar o suficiente esse sacrifício de mais de 1 milhão de soldados e civis que deram sua vida nessa luta, mas - em homenagem a eles - republicamos aqui artigo do El País que celebra especialmente as mulheres que mostraram a sua força em meio a tanta morte e insanidade:

75 anos de Stalingrado: o decisivo papel das mulheres na maior batalha da Segunda Guerra Mundial

Com todos os homens no Exército, trabalhavam nas fábricas, dirigiam tratores e criavam os filhos.
Também tiveram de assumir todas as funções militares conforme o país perdia seus soldados

Lyuba Vinogradova 

Passaram-se 75 anos do final daquela que foi certamente a maior batalha da Segunda Guerra Mundial, 75 anos desde o momento em que os russos, seus aliados e milhões de pessoas de todo o mundo deram um suspiro de alívio coletivo. Todos vinham acompanhando as informações de Stalingrado com angústia e de forma compulsiva, haviam perdido o ânimo quando parecia que o destino da cidade pendia de um fio, e se alegraram quando chegavam boas notícias. O aterrador e imparável avanço dos Exércitos de Hitler por toda a Europa desde 1939 se deteve. O preço foi a destruição de uma bela cidade à beira do rio Volga.

A caminho da cidade sitiada, em agosto de 1942, o escritor Vasili Grossman, que mais tarde elogiaria a heroica luta pela defesa de Stalingrado, notou repetidamente e com grande tristeza o imenso ônus que recaía sobre as mulheres. Com todos os homens incorporados ao Exército, elas tinham que se virar como podiam. Trabalhavam nas fábricas, dirigiam tratores e criavam os filhos sozinhas. Não tinham ninguém em quem se apoiar. Eram cada vez mais convocadas para cobrir os buracos deixados pelas terríveis perdas do primeiro ano de guerra. Começaram a assumir funções outrora masculinas. A espantosa catástrofe lhes endureceu o coração.

“Hurra, hurra, hurra! Os alemães estão totalmente destruídos, os prisioneiros de guerra partem em longas filas. Dá nojo vê-los. Cheios de muco, esfarrapados, congelados. São a escória!”, escreveu uma jovem de Stalingrado em seu diário em 3 de fevereiro de 1943. Referia-se aos soldados e oficiais do Sexto Exército da Wehrmacht, que haviam se rendido na véspera. Cerca de 100.000 prisioneiros, dos quais só metade sobreviveu. Andavam em fila e tentavam se manter perto dos guardas ou no centro da coluna, para estarem mais ou menos a salvo dos civis. Os alemães capturados ofereciam uma imagem patética: mortos de fome, enregelados e doentes, envoltos em mantas para se aquecer. Os guardas, em vingança pelas atrocidades germânicas, davam um tiro nos que não tivessem força suficiente para andar. E as mulheres, os velhos e as crianças do lugar se postavam no acostamento da estrada para tentar arrancar suas mantas, atirar pedras, empurrá-los, chutá-los e cuspir na sua cara. Depois de meio ano de uma batalha que cobrou mais de um milhão de vidas de soldados e civis, não restava qualquer compaixão.

O objetivo da ofensiva alemã em Stalingrado era interromper as comunicações entre as regiões centrais da União Soviética e o Cáucaso e estabelecer uma cabeça de ponte a partir da qual invadir a região e suas jazidas petrolíferas. O ataque durou de meados de julho até meados de novembro de 1942, e sua interrupção ocorreu a um preço terrível para a URSS. Enquanto os soldados defendiam a cidade, os habitantes e centenas de milhares de refugiados vindos de outras regiões ficaram abandonados à própria sorte. Anna Aratskaya, que morava em Stalingrado, escreveu em 27 de setembro: “Nossa casa queimou, assim como a nossa roupa, que tínhamos enterrado no pátio. Não temos roupa nem sapatos, não temos um teto sob o qual nos refugiar. Quando este pesadelo terminará?”.

A cidade havia se tornado um "gigantesco campo de ruínas" pelos bombardeios maciços dos alemães, particularmente o de 23 de agosto. Haviam ficado em pé algumas casas com janelas quebradas, algumas paredes ou uma chaminé. Muitos soldados "que nunca mais se levantariam jaziam nos pátios e nas ruas, centenas deles, mesmo milhares, mas ninguém os contava. As pessoas vagavam entre as ruínas em busca de comida ou qualquer coisa que pudesse ser útil". Vasili Grossman comparou esta cidade espectral com Pompeia, mas com a diferença de que, em meio do caos, restaram almas vivas, centenas de milhares delas. Os civis também lutaram brutalmente em Stalingrado, não pelo seu país, mas pelas suas próprias vidas e pelas de seus filhos.

Sem teto, com as casas destruídas pelas bombas ou pelo fogo, não havia outro remédio a não ser tentar encontrar lugar em um barco para atravessar o rio Volga. Quantos morreram na costa esperando uma oportunidade de cruzá-lo, quantos se afogaram no rio quando suas embarcações foram atingidas por um projétil? Outros preferiram nem tentar. Tornou-se comum viver em buracos escavados na parede de um barranco. Muitos fizeram isso na costa íngreme do Volga, onde testemunharam cenas assustadoras na água. À medida em que avançavam os alemães, até quase chegarem ao rio, as pessoas também tiveram que abandonar esses buracos. Como sobreviveram durante os meses que a batalha durou? Muitos morreram pelas balas de franco-atiradores alemães enquanto tentavam encontrar cereais queimados nos locais destruídos. Outros arriscaram suas vidas para roubá-los do Molino Gerhardt, protegido por soldados soviéticos. "Quando acabou o cereal, comemos lama", lembrou um sobrevivente.

Talvez o próprio Stalin, ou algum de seus colaboradores, ordenou que fosse proibida a evacuação de civis? Realmente existiu essa ordem ou, como em tantos outros lugares, simplesmente não havia recursos suficientes para evacuar a população porque o rápido avanço dos alemães pegou-os de surpresa? Dizem que havia, sim, uma ordem implícita de Stalin para manter os civis na cidade para que os soldados, muitos dos quais eram locais, lutassem com mais paixão para proteger suas famílias.

Mulheres lutando no Exército Vermelho

A verdade é que muitos soldados haviam sido recrutados na cidade e nos seus arredores pouco antes da batalha ou mesmo assim que ela começou. À medida que os combates se desenvolviam, muitos adolescentes passaram a trabalhar nas fábricas militares e se incorporaram de forma oficial ou extraoficial ao Exército. Entre eles, havia muitas garotas. Embora ainda não tivessem idade para se alistarem, queriam contribuir com a batalha e acelerar o fim do pesadelo. Além disso, o Exército oferecia alguma esperança de melhor alimentação para civis mortos de fome.

Durante algumas semanas, Alexandra Mashkova viu como, toda madrugada às quatro da manhã, jovens recrutas subiam a ladeira até o Volga, atravessavam o barranco em que suas famílias haviam escavado suas casas e desapareciam em direção a Mamáyev Kurgán, uma colina que domina Stalingrado. Pareciam-lhe assustados e muito jovens; na verdade, haviam nascido em 1924 e tinham quase a mesma idade que ela. A maioria nunca voltou, mas alguns foram vistos mais tarde, feridos, voltando a pé ou se arrastando. Pouco a pouco, as adolescentes começaram a ajudar esses soldados machucados, tapando suas feridas ou carregando-os em macas improvisadas até o rio. Alexandra, que tinha 17 anos, juntou-se ao departamento médico de uma unidade militar e cruzou para o outro lado do Volga. Aprendeu com rapidez e brevemente estava pronta para ajudar o cirurgião. No começo, tinha muito medo quando precisava segurar um soldado durante a operação "enquanto lhe amputavam a perna ou abriam o seu braço até o osso", mas "você se acostuma a tudo". Muito rapidamente, as jovens enfermeiras comiam, sem se preocupar, na própria sala de operações improvisada. "Tínhamos pedaços de pão no bolso, então limpávamos as mãos de sangue na roupa branca, pegávamos o pão e o colocávamos na boca".

A motorista Angelina Kolobushhenko pensou que havia enganado a morte quando a febre tifoide a afastou do 1077º Regimento Antiaéreo, formado quase exclusivamente por mulheres, a maioria adolescentes. Depois de disparar contra os aviões que bombardeavam Stalingrado, as jovens deviam mirar os canhões contra os carros de combate que haviam conseguido chegar à fábrica de tratores da cidade. Quase todas morreram, inclusive as encarregadas pelos telefones, as cozinheiras e as enfermeiras. Poucas sobreviveram.

Quando se curou, Angelina foi enviada para outro regimento antiaéreo. Tinha aparência frágil depois da doença, feia e esquelética. As outras garotas a desprezavam e se negaram a dormir na mesma vala que ela. Diziam que podia contagiá-las. No entanto, duas semanas depois, estava totalmente recuperada, recebeu um novo uniforme e, como não havia nenhum veículo disponível para ela, começou a treinar para manejar as armas propriamente ditas. Sentiu-se muito orgulhosa quando a sua unidade, a 5ª Bateria, derrubou um avião alemão. As jovens correram para a planície para buscar a tripulação da aeronave, encontraram-nos e os prenderam. Os três alemães eram muito jovens, um alto e de rosto arrogante e outro menor e mais agradável, mas Angelina lembrou especialmente do terceiro, que tinha queimaduras terríveis e dores insuportáveis quando foi encontrado. Nunca esqueceu seus grandes olhos azuis, cheios de sofrimento.

As motoristas do frente, toda hora andando para cima e para baixo, viam e ouviam muitas coisas. Em novembro, começou a parecer que a situação estava mudando. Havia cada vez mais prisioneiros alemães, e Angelina sentia pena tanto deles quanto dos que viu morrer de frio. Ela e suas camaradas tinham botas novas de feltro e casacos de pele de cordeiro. Sentiam pena dos prisioneiros alemães, com seus casacos finos e estranhos sapatos de palha por cima das botas, nem um pouco preparados para o bruto inverno russo. Quando foi anunciado que havia um grande grupo de soldados alemães cercados, Angelina entendeu que não sobreviveriam por muito tempo, com suas roupas de verão, quase sem comida, na cidade destruída ou na estepe, sem lugar para se refugiar, nem madeira para fazer fogo.

Duas contemporâneas de Angelina, as pilotos de combate Lidya Litvyak e Katya Budanova, voavam com seu regimento para impedir que os alemães arremessassem provisões para as tropas sitiadas. As duas haviam pilotado aviões esportivos e haviam sido instrutoras de voo antes da guerra, mas aprenderam mais em seus 10 meses de exército do que em toda a carreira anterior. Outro piloto lembra a reação do comandante do regimento quando chegaram quatro mulheres com suas tripulações. "Me dói ver uma mulher lutando na guerra. Me dói e me dá vergonha. Como é possível que nós, os homens, não tenhamos conseguido evitar que fizessem um trabalho tão pouco feminino?". As jovens tiveram que demonstrar suas habilidades e comprometimento. Klava Nechaeva, de 23 anos, morreu em sua primeira missão, depois de convencer seu chefe a deixá-la participar da batalha. As duas corajosas mulheres desafiaram a morte com várias missões no inferno de Stalingrado e sobreviveram àquele inverno, mas ambas caíram em agosto de 1943.

Quando a batalha de Stalingrado chegou ao fim, centenas de milhares de mulheres haviam se alistado ao Exército. O país havia perdido tantos homens que as autoridades não tiveram outra alternativa que não fosse utilizar mulheres em todas as funções militares. Não existem dados concretos sobre as mulheres que serviram, de modo que os cálculos variam muito, desde meio milhão a quase um milhão. O fronte se transferiu e as jovens que continuavam vivas e com boa saúde foram com ele. Muitas das mulheres que entrevistei continuaram lutando até o final da guerra e estiveram em Berlim para comemorar a vitória (muitos soldados estavam convencidos de que Berlim deveria ficar em ruínas como os alemães haviam deixado Stalingrado). Continuaram presenciando a morte e a dor e perdendo suas camaradas. Mas nunca voltaram a viver uma situação tão desesperadora quanto a de Stalingrado, nunca voltaram a sentir que estavam sendo esfaqueadas tão profundamente que poderiam perder a guerra.

Lyuba Vinogradova é autora de As Bruxas da Noite e Anjos Vingadores (ambos pela editora Passado e Presente). Os testemunhos citados neste artigo são de entrevistas realizadas pela própria autora e do projeto 'Iremember. Lembranças de veteranos da Segunda Guerra Mundial'. (www.iremember.ru).



sábado, 9 de maio de 2015

A vitória russa na Segunda Guerra, 70 anos depois

Bandeira soviética é hasteada no topo do Reichstag em  2 de
maio de 1945, diante de uma Berlim em ruínas.
Artigo publicado no Sputnik Brasil em 04/05/15:

No Dia da Vitória, um lugar para a bandeira russa

Aleksander Medvedovsky

Faltam poucos dias até o 8 de Maio, data da comemoração da Vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, e até o 9 de Maio, o Dia da Vitória da União Soviética na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945.

Não vai fazer mal lembrar nesse momento as cruciais páginas da História recente, não somente para aqueles que não conhecem os fatos, mas também, talvez até mais importante, para outros que desesperadamente tentam reescrevê-la e chegam a iniciar uma discussão sobre as perspectivas de um "mundo russo diferente" e colocam em dúvida a própria existência da Rússia até 2045.

Vamos aos números, porque os números são imutáveis. Alguns meses antes da invasão da URSS, em 1941, Hitler declarou "O mundo vai perder o fôlego", seguramente pensando como o mundo iria reagir à sua esmagadora vitória sobre a URSS. Mas tudo foi muito diferente, como já tinha acontecido no passado.

No dia 22 de junho, quando o exército alemão, apoiado por seus aliados, com 4 milhões de homens, estava pronto para invadir a URSS, metade da Europa já tinha caído perante sua força militar. Inclusive a França. E a Grã-Bretanha estava pronta para ser invadida, o que não aconteceu porque os alemães deram preferência a atacar a União Soviética. Os EUA praticamente não estavam envolvidos em ações militares.

Para o dia 7 de novembro de 1941 estava programado um desfile militar das forças alemãs na Praça Vermelha de Moscou. A parada aconteceu, mas foi um desfile do exército soviético, engajado na defesa de Moscou contra os ataques das forças alemãs.

A Batalha de Moscou foi o primeiro grande acontecimento da Segunda Guerra Mundial a mudar por completo a imagem que o mundo inteiro e os próprios alemães tinham sobre a capacidade de resistência do exército e dos povos da União Soviética.

Os números falam por si sós. A participação de mais de 7 milhões de pessoas de ambos os lados dessa batalha mostra a sua grandiosidade. Durante a luta que durou 6 meses, a Rússia teve 926 mil soldados mortos, mais do que todo o exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial. Esse número, numa única batalha, ultrapassa todas as perdas dos exércitos britânico e americano durante toda a Segunda Guerra Mundial. A bandeira da Alemanha nazista nunca foi hasteada em Moscou.

É curioso, mas no livro "Uma breve história do século XX", de Geofrey Blaney, que virou best-seller internacional, no capítulo destinado à Segunda Guerra Mundial está detalhado o desembarque dos Aliados em 6 de junho de 1944 na região da Normandia, mas não há uma única palavra sobre a Batalha de Moscou, e apenas muito superficialmente cita a de Stalingrado.

A Batalha de Stalingrado, na opinião de praticamente todos os historiadores do mundo, foi um ponto crucial na luta contra o exército alemão durante a guerra. Até o Presidente Ronald Reagan, muitos anos depois, no seu primeiro jantar com o Presidente Mikhail Gorbachev, lembrou Stalingrado como exemplo de extremo heroísmo e momento importantíssimo da vitória sobre o nazismo.

Na Batalha de Stalingrado, que durou de 17 de julho de 1942 a 2 de fevereiro de 1943, lutaram contra o exército soviético Alemanha, Romênia, Itália, Hungria, Croácia e voluntários da Finlândia. No início da operação, participaram dos dois lados 816 mil militares, acima de 5 mil unidades de artilharia, 480 blindados, em torno de 2 mil aviões. No final de novembro de 1942, acima de 1 milhão e 600 mil militares participaram diretamente das ações daquela que se tornou a maior batalha terrestre da História da Humanidade.

Em 1 de maio de 1945 os soldados da Divisão 150 do Exército Vermelho hastearam a bandeira vermelha em Berlim, no prédio do Parlamento alemão, o Reichstag. Na madrugada de 2 de maio, o exército alemão, que defendia Berlim, capitulou.

Pouca gente sabe que o ato de rendição incondicional da Alemanha na Segunda Guerra Mundial foi assinado 2 vezes. Na primeira vez, isso ocorreu na cidade francesa de Reims, em 7 de maio, às 2h40min, pelo horário europeu, e deveria entrar em vigor no dia 8 de maio às 23 horas.

Numa correspondência dirigida a Churchill e Truman, Stalin escreveu o seguinte: "O ato assinado em Reims não pode ser descartado, mas também não pode ser reconhecido. O ato de rendição, como um importante documento histórico, deve ser assinado no lugar onde começou a guerra, em Berlim, com participação do alto comando militar de todos os países da Aliança.” Os EUA e a Grã-Bretanha concordaram com a realização de nova assinatura do ato e consideraram o documento assinado em Reims como preliminar.

A assinatura definitiva aconteceu em Berlim na madrugada de 9 de maio, no horário de Moscou, e por esse motivo a comemoração do Dia da Vitória acontece no 9 de Maio.

Durante a guerra, a URSS perdeu 9 milhões de soldados e mais de 17 milhões de civis. No seu livro "Moscou 1941", Rodric Braithwrite analisa a questão das vítimas de guerra de modo diferente. "Para cada britânico e americano que morreu, os japoneses perderam 7 pessoas, os alemães 20, e os soviéticos 85." Ele continua: "Quatro quintos dos combates na Segunda Guerra Mundial aconteceram no front do Leste. Dois terços do exército alemão estavam no Leste mesmo depois do Dia D. De fato, se não estivessem combatendo os russos, eles se encontrariam na França, e não teria havido nenhum Dia D. Alguns podem contestar os números exatos. Quanto à ordem de grandeza, não restam dúvidas. Não é de surpreender que os russos acreditem que foram eles que venceram a guerra."

No dia 8 de maio, Churchill fez a seguinte declaração em seu programa de rádio: "Hoje nós provavelmente vamos pensar sobre nós mesmos; amanhã, iremos prestar homenagem aos nossos camaradas russos, cujo heroísmo nas batalhas da guerra se tornou uma grandiosa participação na vitória comum.”

Passaram-se 70 anos. O mundo está mudando, mas, independentemente disso, todos os países civilizados festejam, cada um a seu modo, essa grande vitória.

As bandeiras dos Aliados são hasteadas como símbolos da vitória e homenagem a todos aqueles que deram suas vidas para isso.

No Brasil, que teve sua contribuição na vitória das forças aliadas contra o fascismo, esta data também é lembrada. Perante o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, no dia 8 de maio acontece o desfile militar com a participação dos representantes das Forças Armadas.

Hasteadas as bandeiras dos países aliados, não é de estranhar que a bandeira russa tenha seu legítimo lugar ao lado das outras.





domingo, 3 de fevereiro de 2013

Stalingrado, 70 anos depois


Sim, é verdade, a cidade não se chama mais Stalingrado. Depois do processo revisionista liderado por Nikita Krushchev, a partir de 1956, que denunciou os crimes e o culto à personalidade de Stalin, a cidade passou a se chamar Volvogrado, mas ontem, 2 de fevereiro de 2013, por um dia ela voltou a se chamar Stalingrado.

Isto se deu por uma razão mais que especial: exatos 70 anos atrás, os nazistas se rendiam naquela que talvez seja a mais sangrenta batalha da história da humanidade, que deixou cerca de 2 milhões de mortos e outros tantos milhões de feridos e desalojados.

O ataque de Hitler à União Soviética, na Operação Barbarossa, foi um tremendo sucesso até chegar a Stalingrado, último baluarte nas margens do rio Volga (que dá o atual nome à cidade). Ultrapassado esse obstáculo, os nazistas se apoderariam dos campos de óleo do Cáucaso sem maiores problemas e os soviéticos estariam inapelavelmente derrotados.

A Blitzkrieg dos alemães avançou à perfeição durante o verão europeu mas começou a empalidecer diante de Stalingrado. Em mais uma de suas muitas atitudes controversas, Stalin obrigou a população civil a ficar na cidade sitiada, sob a justificativa de que isto daria moral às tropas soviéticas para lutar em socorro de seus compatriotas.

O rio Volga se transformou então numa mistura macabra de água, sangue e óleo. 90% da cidade foi conquistada pelos nazistas, a ponto de Hitler ter anunciado - em setembro de 1943 - a conquista de Stalingrado, não contando que os 10% restantes fossem capazes de lhe oferecer qualquer oposição.

Este episódio foi explorado na produção hollywoodiana "Círculo de Fogo" ("Enemy at the Gates" de 2001), em que Jude Law interpreta o franco-atirador soviético Vasily Zaitsev:


O verdadeiro Vasily Zaitsev

O confronto de egos se deu em Stalingrado, que nem era tão importante assim do ponto de vista estratégico. Era questão de honra para Hitler subjugar a cidade que levava o nome de Stalin, enquanto para este era fundamental que o seu nome fosse preservado da afronta alemã.

Talvez tenha sido exatamente essa concentração de tropas e de egos em Stalingrado que deu à Segunda Guerra Mundial um desfecho diferente do que se anunciava até então.

Enquanto o temível (para os nazistas) General Inverno se aproximava, a União Soviética recebia todo tipo de ajuda (impensável até alguns anos antes) do seu (até então) maior inimigo geopolítico, os Estados Unidos, que, para justificar à população americana o envio de todo suporte possível e impossível à URSS, também recorreram a Hollywood para produzir o filme "Missão em Moscou" ("Mission to Moscow" de 1943).

Perceba a crítica que se faz do isolacionismo e do "individualismo cristão" que imperava à época nos Estados Unidos:


Imaginando que conquistariam Stalingrado antes do inverno, os alemães sequer tinham roupas adequadas para o rigoroso inverno soviético que já havia derrotado as tropas de Napoleão 130 anos antes.

Enquanto o que restava da cidade resistia bravamente, as forças soviéticas comandadas pelo general Vassili Chuikov se reagrupavam, formando o movimento em pinça que começaria, em 19 de novembro de 1942, a estrangular os inimigos nazistas e seus aliados romenos, húngaros e italianos que os acompanhavam na invasão.

Apesar de ter sido promovido a marechal do Reich no dia anterior, o comandante alemão, general Friedrich Paulus, não quis lutar até o último homem nem se suicidar, como Hitler havia deixado implícito na sua promoção, e preferiu se render no dia 2 de fevereiro de 1943, mal cabendo em sua farda, consumido que estava pela diarreia que o cólera lhe causara.


O debilitado general Friedrich von Paulus se rende


Soldado russo faz alemão prisioneiro de guerra
Rendição nazista em Stalingrado. Dos 91.000 prisioneiros de guerra,
só 5.000 retornariam para a Alemanha. Os últimos voltaram em 1955.

Terminava assim um dos episódios mais sangrentos e heroicos que o mundo já viu e começava a grande virada na história da Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira de uma sequência inevitável de derrotas do - até então - aparentemente invencível exército nazista.

É provável que não tenha havido no século XX nenhum outro evento particular em que as suas contradições ficassem mais expostas: entre elas a alegada superioridade de um povo (ou uma "raça") sobre outros e o líder que extermina segmentos da sua própria população, mas vence uma ameaça com um potencial de destruição inigualável na história.

Valeu a pena o sacrifício de Stalingrado? Quem é que se arrisca a responder essa questão de forma cabal? 

Independentemente do que se pense dos líderes que se digladiaram em Stalingrado, sobretudo daquele que então a "batizava", se Hitler foi vencido e o mundo respira hoje um pouco mais livre, boa parte desse crédito deve ser dado aos milhões de civis e militares russos (e de outras repúblicas então soviéticas) que lutaram e morreram na atual Volvogrado.

Por isso mesmo, com todos os méritos, a cidade ontem celebrou os 70 anos da sua glória que afeta - positivamente - a todos nós.


Nada melhor do que encerrar nossa singela homenagem a Stalingrado com Carlos Drummond de Andrade:

"O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam"

Carta a Stalingrado




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