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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 27


LIVRE-ARBÍTRIO E PRESCIÊNCIA DE DEUS

Na verdade confesso que a questão é difícil, e até impossível, se queres estabelecer ao mesmo tempo ambas as coisas, a presciência de Deus e a liberdade do ser humano. Pois o que é mais difícil, e até mais impossível, do que sustentares que as coisas contrárias ou contraditórias não se opõem, ou que um número qualquer seja simultaneamente dez e nove? A dificuldade não está em nossa questão, mas é buscada e introduzida do mesmo modo que se busca e se introduz violentamente a ambiguidade e a obscuridade nas Escrituras. Por esta razão ele refreia os ímpios, os quais se ofendiam com essas palavras claríssimas, porque percebiam que a vontade divina se cumpre estando nós sob a necessidade e percebiam que está irrevogavelmente definido que nada lhes resta de liberdade ou de livre-arbítrio, mas que tudo depende apenas da vontade de Deus. Refreia-os, porém, ordenando-lhes que se calem e reverenciem a majestade do poder e da vontade divina em relação à qual não temos nenhum direito, mas que, em relação a nós, tem direito pleno de fazer o que quiser. E a nós não se faz qualquer injustiça, pois Deus não nos deve nada, nada recebeu de nós e nada prometeu além do que quis e lhe agradou.

Por conseguinte, este é o lugar e o tempo de adorar não aquelas grutas de Corício [grutas que ficam perto de onde estava o oráculo de Delfos], mas a verdadeira majestade em suas temíveis maravilhas e incompreensíveis juízos, e de dizer: “Faça-se tua vontade, assim como no céu também na terra” [Mt 6.10]. Nós, porém, em nenhum lugar somos mais irreverentes e temerários do que quando penetramos e acusamos esses mesmos mistérios e juízos ininvestigáveis; entrementes, contudo, simulamos uma incrível reverência ao escrutarmos as Santas Escrituras que Deus nos ordenou escrutar. Aqui não escrutamos; lá, porém, onde proibiu que escrutássemos, não fazemos nada exceto escrutar com contínua temeridade, para não dizer blasfêmia. Porventura não é um escrutar temerário envidar esforços para que a presciência libérrima de Deus concorde com nossa liberdade, dispostos com isso a derrogar a presciência de Deus se não nos conceder a liberdade ou se impuser a necessidade de dizer com os murmuradores e blasfemadores: De que ele se queixa ainda? Quem resiste à sua vontade? Onde está o Deus clementíssimo por natureza? Onde está o que não quer a morte do pecador? Acaso nos criou para deleitar-se com os tormentos dos seres humanos? Estas perguntas e outras semelhantes serão eternamente uivadas nos infernos e entre os condenados.

Mas a própria razão natural é forçada a confessar que o Deus vivo e verdadeiro precisa ser tal que nos imponha a necessidade por meio de sua liberdade, pois certamente seria um Deus ridículo – ou melhor, um ídolo – aquele que previsse de modo incerto o que há de acontecer ou que fosse enganado pelos eventos, já que até os gentios concederam aos seus deuses um “destino inelutável”. Ele seria igualmente ridículo se não pudesse e não fizesse todas as coisas, ou se algo acontecesse sem ele. Porém, admitidas a presciência e a onipotência, segue-se naturalmente, por meio de uma consequência lógica irresistível, que nós não fomos feitos por nós mesmos, e não vivemos nem fazemos coisa alguma que não [ocorra] através de sua onipotência. Mas já que ele pré-soube anteriormente que haveríamos de ser tais como somos, e agora nos faz, move e governa como tais, eu te pergunto: o que se pode imaginar em nós que seja livre, que seja diferente e que aconteça de modo diferente do que ele pré-soube e agora faz? Por isso, a presciência e a onipotência de Deus opõem-se diametralmente ao nosso livre-arbítrio. Pois ou Deus se enganará em sua presciência e errará também ao agir (o que é impossível), ou nós agiremos e seremos conduzidos segundo a sua presciência e ação. Todavia, não chamo de onipotência de Deus aquela onipotência pela qual ele não faz muitas coisas de que é capaz, mas, sim, aquela [onipotência] ativa, pela qual faz poderosamente tudo em tudo, da maneira como a Escritura o chama onipotente. Digo que esta onipotência e presciência de Deus abolem completamente o dogma do livre-arbítrio. E aqui não se pode pretextar a obscuridade da Escritura ou a dificuldade do assunto. As palavras são claríssimas, conhecidas até por meninos. O assunto é evidente e fácil, examinado até mesmo pelo juízo natural do senso comum, de modo que nada importa, por maior que seja a série de séculos, tempos e pessoas que escrevem ou ensinam de outra maneira.

Naturalmente, ofende no mais alto grau aquele senso comum ou razão natural de que Deus, por sua mera vontade, abandone, endureça e condene os seres humanos, como se encontrasse deleite nos pecados e nos tão grandes e eternos tormentos dos míseros, [logo] ele, de quem ser prega que possui tamanha misericórdia e bondade, etc. Ter tal opinião acerca de Deus pareceu iníquo, cruel e intolerável; por isso também se ofenderam tantos e tão grandes homens por tantos séculos. E quem não se ofenderia? Eu mesmo me ofendi mais que uma vez até a profundeza e o abismo do desespero, de sorte que desejei jamais ter sido criado como ser humano antes que soubesse quão salutar aquele desespero seria, e quão próximo da graça. Foi por isso que se suou e trabalhou tanto a fim de escusar a bondade de Deus e acusar a vontade do ser humano; aí foram inventadas as distinções entre vontade ordenada e vontade absoluta de Deus, entre necessidade da consequência e necessidade do consequente, e muitas outras semelhantes. Contudo, com essas coisas nada se obteve exceto lograr os incultos com a inânia [vazio de conteúdo] das palavras e a oposição daquilo que é falsamente chamado de ciência. Entretanto, quer para os incultos quer para os eruditos, permaneceu sempre cravado no fundo do coração – quando porventura se chegava a tratar seriamente do assunto – aquele acúleo [espinho, desgosto] quando percebiam nossa necessidade ao se crer na presciência e na onipotência de Deus.

E a própria razão natural, que se sente chocada por essa necessidade e tanto se esforça por suprimi-la, é forçada a admiti-la, convencida por seu próprio juízo, ainda que não houvesse Escritura alguma. Pois todos os seres humanos encontram este pensamento escrito em seus corações, e o reconhecem e aprovam (mesmo que contra sua vontade) quando ouvem falar dele: primeiro, que Deus é onipotente não só segundo o poder, mas também segundo a ação (como eu já disse); de outra maneira seria um Deus ridículo. Segundo, que ele conhece e tem presciência de todas as coisas, e que não pode errar nem enganar-se. Uma vez admitidos estes dois pontos no coração e no entendimento de todos, são forçados a admitir imediatamente, mediante uma conclusão inevitável, que nós não fomos feitos por nossa vontade, mas por necessidade; e assim, conforme a presciência de Deus e conforme conduz de acordo com [seu] conselho e poder infalível e imutável. Por isso, acha-se simultaneamente escrito nos corações de todos que o livre-arbítrio nada é, ainda que isso seja obscurecido por tantos debates contrários e pela tão grande autoridade de tantos homens que por tantos séculos ensinaram de maneira diferente. O mesmo também ocorre (conforme o testemunho de Paulo) com toda a outra lei em nossos corações: é reconhecida quando tratada de modo correto, e obscurecida quando maltratada por mestres ímpios ou tomada por outras opiniões.

Volto a Paulo. Se ele não explica a questão em Rm 9 e nem define a necessidade a que estamos ligados a partir da presciência e da vontade de Deus, por que lhe seria necessário introduzir a analogia do oleiro, que de um e o mesmo barro faz um vaso para a honra e o outro para a desonra? E não obstante, a obra não diz ao que a faz: por que me fazes assim? Isso porque ele fala sobre os seres humanos, comparando-os ao barro e Deus ao oleiro. A analogia é sem dúvida tímida, e até absurda e aduzida em vão, se ele não compartilha a opinião de que nossa liberdade é nula. E o que é mais: todo o debate de Paulo, com o qual defende a graça, é inútil. Pois toda a epístola tem por alvo mostrar que não somos capazes de nada, nem mesmo quando parecemos obrar bem; é como ela diz, na mesma passagem, a respeito de Israel, que, ao perseguir a justiça, não a alcançou, ao passo que os gentios a alcançaram sem a perseguir. Tratarei disso mais extensamente quando fizer avançar nossas tropas.

Mas a Diatribe [“Diatribe sobre o livre arbítrio”, de Erasmo de Roterdã] finge não ver todo o corpo do debate paulino e a direção para a qual Paulo tende, consolando-se entrementes com palavras tiradas [do contexto] e distorcidas. Tampouco em nada auxilia a Diatribe o fato de que posteriormente, em Rm 11.20, Paulo de novo exorte dizendo: “Estás de pé pela fé, vê que não te ensoberbeças”; e, semelhantemente: “Também aqueles, se tiverem crido, serão enxertados” [11.23], etc. Pois ali ele nada diz acerca das forças dos seres humanos, e, sim, pronuncia palavras imperativas e subjuntivas; e o que é feito por estas foi suficientemente dito acima. E o próprio Paulo se adianta, nesta mesma passagem, aos que gabam o livre-arbítrio: não diz que aqueles podem crer, mas diz que Deus é poderoso para enxertá-los. Resumindo: ao tratar estas passagens de Paulo, a Diatribe procede de forma tão tímida e hesitante que em sua consciência parece divergir de suas próprias palavras. Pois quando ela deveria ter prosseguido acima de tudo e aduzido provas, quase sempre interrompe o discurso dizendo: “Aqueles diriam assim”. E diz muitas outras coisas similares, deixando a questão em dúvida, de modo que não sabes se ela quis dar a impressão de falar em favor do livre-arbítrio ou apenas de eludir Paulo com palavras inanes, seguindo nisso sua lei e costume pelo fato de que para ela inexiste um problema sério neste pleito. A nós, porém, não nos convém ser frios desta maneira, andar sobre ovos ou ser agitados pelos ventos como uma cana, mas, sim, fazer asserções com certeza, constância e ardor, e então demonstrar de maneira sólida, destra e copiosa aquilo que ensinamos.

Mas quão belamente ela conserva agora a liberdade ao mesmo tempo que a necessidade quando diz: “Nem toda necessidade exclui a vontade livre, assim como Deus Pai gera o Filho necessariamente e, não obstante, o gera porque quer e livremente, pois não foi coagido”. Peço-te: porventura debatemos agora acerca da coação e da força? Acaso não testemunhamos em tantos livros que estamos a falar sobre a necessidade da imutabilidade? Sabemos que o Pai gera o Filho porque quer, que Judas entregou a Cristo porque quis; mas dizemos que, se Deus teve presciência, este querer teve de existir no próprio Judas de maneira certa e infalível. Ou, se ainda não se compreende o que digo, queremos referir uma necessidade obrigatória à obra e uma outra necessidade infalível ao tempo. Que aquele que nos ouve compreenda que estamos falando acerca da última, e não da primeira; ou seja: não debatemos se Judas tornou-se traidor contra a própria vontade ou por querer, mas se, após Deus ter predefinido o tempo, foi necessário acontecer infalivelmente que Judas entregasse a Cristo por querer. Vê, porém, o que a Diatribe diz a respeito: “se olhas para a presciência infalível de Deus, Judas havia necessariamente de ser traidor; e, não obstante, Judas podia ter mudado sua vontade”. Compreendes também o que falas, cara Diatribe? Deixando de lado o fato de que a vontade não pode senão querer o mal, como se provou acima: como pôde Judas mudar sua vontade ficando de pé a infalível presciência de Deus? Acaso pôde mudar a presciência de Deus e torná-la falível? Aqui a Diatribe sucumbe; e, depois de ter abandonado os estandartes e deposto as armas, retira-se do campo de batalha remetendo o debate para as sutilezas escolásticas concernentes à necessidade da consequência e do consequente, como quem não quer seguir essas argúcias até o fim. Certamente ages com prudência quando, após teres levado a causa para um debate tumultuado e no momento em que mais é necessário um debatedor, volta as costas e deixas a outros a tarefa de responder e definir.

Esse conselho deveria ter sido seguido desde o início, abstendo-se totalmente de escrever, conforme o dito: “Quem não sabe lutar, abstenha-se dos jogos marciais”. Pois não se esperava que Erasmo fosse provocar essa dificuldade relativa ao modo com que Deus poderia ter presciência com certeza, e, não obstante, nossas ações poderiam produzir-se de maneira contingente. Esta dificuldade estava no mundo muito antes da Diatribe. Contudo, esperava-se que a respondesse e definisse. Mas ele, tendo usado uma transição retórica, arrasta consigo a nós que somos ignorantes na retórica como se aqui não estivesse em jogo coisa alguma sobre a questão, e como se meramente houvesse certas argúcias; retira-se corajosamente do meio do tumulto da luta, coroado de hera e louro.

Assim não dá, irmão! Nenhuma retórica basta para enganar uma consciência verdadeira; o acúleo da consciência é mais forte que todas as forças e figuras da eloquência. Não toleraremos aqui que o retórico passe de largo [por essa questão] e dissimule; neste momento não há lugar para tal atitude. Aqui se ataca o ponto principal dos assuntos e o essencial da questão. E aqui ou se extingue o livre-arbítrio ou ele triunfará de todo. Tu, porém, percebendo o perigo e até a vitória certa contra o livre-arbítrio, simulas não perceber nada exceto argúcias. Acaso isso significa agir como teólogo confiável? A questão não te afeta seriamente? A ti, que desta maneira deixas os ouvintes em suspenso e o debate confuso e inflamado, querendo, entretanto, causar a impressão de que deste satisfação honestamente e levaste a palma? Em questões profanas, esta manha e astúcia pode ser tolerada; em um assunto teológico, porém, onde se busca a simples e aberta verdade em favor da salvação das almas, ela é extremamente odiosa e intolerável.

Também os sofistas perceberam a força invencível e irresistível deste argumento; por isso inventaram a necessidade da consequência e do consequente. Contudo, ensinamos acima como esta invenção nada efetua. Pois tampouco eles observam o que dizem e o quanto admitem contra si próprios. Pois se admitires a necessidade da consequência, está vencido e prostrado o livre-arbítrio, e de nada ajuda a necessidade nem a contingência do consequente. Que me importa se o livre-arbítrio não é coagido, mas faz o que faz de acordo com a vontade? Para mim é suficiente que admitas isto: há de acontecer necessariamente que ele faça o que faz de acordo com a vontade, e não pode ser diferente se Deus teve presciência disso. Se Deus tem presciência de que Judas cometerá traição ou que mudará sua vontade de trair, acontecerá necessariamente aquilo de que ele teve presciência; ou Deus se enganará em sua presciência e predizer, o que é impossível. Pois é isso que realiza a necessidade da consequência; arbítrio nada é. Esta necessidade da consequência não é obscura nem ambígua, de modo que, ainda que os doutores de todos os séculos sejam cegos, são todavia forçados a admiti-la, pois ela é de tal modo evidente e certa que se pode apalpá-la. Mas a necessidade do consequente, com a qual se consolam, é um mero fantasma, e opõe-se diametralmente à necessidade da consequência. Haverá por exemplo uma necessidade da consequência se eu tiver dito: Deus teve presciência de que Judas cometeria traição, portanto acontecerá segura e infalivelmente que Judas será traidor. Diante desta necessidade e consequência, tu te consolas assim: visto que Judas pode mudar sua vontade de trair, não há necessidade do consequente. Como, eu te pergunto, se coadunam essas duas afirmações: Judas pode não querer trair e: é necessário que Judas queira trair? Dizes que ele não será coagido a trair contra sua vontade. Que tem a ver isso com o problema? Tu falaste acerca da necessidade do consequente, a saber, que aquela não é introduzida pela necessidade da consequência; não disseste nada sobre a coação do consequente. A resposta relacionava-se com a necessidade do consequente e tu apresentas um exemplo sobre a coação do consequente. Pergunto uma coisa e tu respondes outra. O motivo disso é aquela oscilação por causa da qual deixa-se de observar como essa ficção da necessidade do consequente nada efetua.

(LUTERO, Martinho. Da Vontade Cativa. 1525. Tradução de Luís Marcos Sander, Luís Henrique Dreher e Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 1993. Vol. 4, págs. 136-142)



sábado, 15 de novembro de 2014

A estranha relação entre livre-arbítrio e vontade de fazer xixi

A matéria esquisita foi publicada no Brasil Post:

Estudo indica relação entre vontade de urinar e descrença no livre arbítrio

Ione Aguiar

Spinoza, Hobbes, Lutero, Santo Agostinho, Schopenhauer: todos eles já perderam noites de sono pensando no livre arbítrio.

Para este último, por exemplo, o ser humano tem apenas a ilusão de liberdade, mas é escravo de suas vontades e necessidades.

Um estudo publicado na revista Consciousness and Cognition coloca mais uma pitada de sal na discussão. De acordo com a pesquisa, quanto mais as pessoas sentem vontade de fazer xixi, menos elas acreditam no livre-arbítrio.

Parece que não faz sentido, mas o raciocínio é o seguinte: como observou este artigo da Scientific American, quando passamos por experiências físicas que nos lembram das leis da natureza, deixamos de acreditar que controlamos nosso destino.

A pesquisa faz parte de uma controversa corrente de estudos cognitivos que investiga como nossos estados corporais afetam nossa mente. É a chamada teoria da cognição corporificada, que sugere, por exemplo, que sorrir nos faz mais felizes, ou que nosso senso de julgamento é afetado pela temperatura ambiente.

Como funcionou a pesquisa?

Os pesquisadores submeteram os 193 participantes a um questionário amplo, envolvendo seus desejos, suas crenças e inclusive as vontades que sentiam enquanto respondiam às perguntas.

Os pesquisadores observaram uma tendência clara: pessoas que declaravam estar com vontade de dormir, comer, urinar, fazer sexo e outros desejos corporais acreditavam menos na liberdade de escolha.

A única exceção foram os participantes que estavam de dieta. Nesse caso, a sensação de fome foi associada à sensação de liberdade de escolha.

Conclusão: está cheio de caraminholas na cabeça? Faça xixi...



terça-feira, 1 de julho de 2014

Novas pesquisas reforçam ideia de que o livre-arbítrio não existe

Livre-arbítrio? Como diria o padre Quevedo, "isso non ecziste"...

Ainda não se sabe se os pesquisadores são calvinistas (risos), mas a matéria pra lá de interessante foi originalmente publicada no The Independent e reforça as conclusões de outras pesquisas de 2008 que já foram divulgadas no Brasil pela Superinteressante:

O jornal britânico The Independent, por sua vez, publicou no último sábado, 21 de junho de 2014, a informação de que cientistas da Universidade da California, em Davis, concluíram que as decisões que as pessoas tomam corriqueiramente podem ser preditas com base em certos padrões de atividade cerebral.

Desta maneira, o conceito de livre-arbítrio deveria deixar a esfera filosófica (e teológica) e se reduzir a uma espécie de "barulho de fundo" do cérebro.

Não é nova a ideia de que o livre-arbítrio é uma ilusão, conforme você poderá ver pela matéria da Superinteressante (de 2008) mais abaixo, mas o Centro de Mente e Cérebro da Universidade da California decidiu aprofundar o trabalho nessa área.

O resultado da pesquisa foi publicado no Journal of Cognitive Neuroscience ("Jornal de Neurociência Cognitiva") e o experimento consistiu em fazer com que voluntários se sentassem na frente de uma tela de computador, com sensores eletroencelafográficos devidamente acoplados, para observar um sinal gráfico que - aleatoriamente - os impelia a decidir entre a direita ou esquerda, conforme você pode ver no vídeo abaixo:


A conclusão da pesquisa é que o cérebro tem uma espécie de ruído neural de fundo, com base no qual seria possível prever as decisões que os voluntários tomariam antes que eles tivessem consciência disso.

Os cientistas alertam, entretanto, que a, digamos, "batucada de retaguarda" do cérebro não deve ser considerada isoladamente, mas em conjunto com os mecanismos de metas, desejos e causalidade que compõem o método até agora tido como "natural" de tomada de decisões por parte dos seres humanos.

A matéria da Superinteressante de 2008, relatando experiência feita por outra equipe e com método diferente, é a seguinte:




O livre-arbítrio não existe

A ciência comprova: você é escravo do seu cérebro

Você se interessou pelo tema desta reportagem e, por isso, resolveu dar uma lida. Certo? Errado! Muito antes de você tomar essa decisão, a sua mente já havia resolvido tudo sozinha – e sem lhe avisar. Uma experiência feita no Centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim, colocou em xeque o que costumamos chamar de livre-arbítrio: a capacidade que o homem tem de tomar decisões por conta própria.

As escolhas que fazemos na vida são mesmo nossas. Mas não são conscientes. Voluntários foram colocados em frente a uma tela na qual era exibida uma seqüência aleatória de letras. Eles deveriam escolher uma letra e apertar um botão quando ela aparecesse.

Simples, não? Acontece que, monitorando o cérebro dos voluntários via ressonância magnética, os cientistas chegaram a uma descoberta impressionante. Dez segundos antes de os voluntários resolverem apertar o botão, sinais elétricos correspondentes a essa decisão apareciam nos córtices frontopolar e medial, as regiões do cérebro que controlam a tomada de decisões.

“Nos casos em que as pessoas podem tomar decisões em seu próprio ritmo e tempo, o cérebro parece decidir antes da consciência”, afirma o cientista John Dylan-Haynes. Isso porque a consciência é apenas uma “parte” do cérebro – e, como a experiência provou, outros processos cerebrais que tomam decisões antes dela.

Agora os cientistas querem aumentar a complexidade do teste, para saber se, em situações mais complexas, o cérebro também manda nas pessoas. “Não se sabe em que grau isso se mantém para todos os tipos de escolha e de ação”, diz Haynes. “Ainda temos muito mais pesquisas para fazer.” Se o cérebro deles deixar, é claro.

A pessoa decide

O voluntário precisa tomar uma decisão bem simples: escolher uma letra. Enquanto ele faz isso, seu cérebro é monitorado pelos cientistas
1. Observa a tela...
O voluntário olha para uma seqüência de letras, que vai passando em ordem aleatória numa tela e muda a cada meio segundo.
2. Escolhe uma letra...
Na mesa, existem dois botões: um do lado esquerdo e outro do lado direito. O voluntário deve escolher uma letra – e, quando ela passar na tela, apertar um desses dois botões.
3. E aperta o botão.
Pronto. A experiência terminou. O voluntário diz aos pesquisadores qual foi a letra que escolheu e em que momento tomou a decisão.

Mas o cérebro já resolveu

Bem antes de a pessoa apertar o botão, ele toma as decisões sozinho
10 segundos antes
Os córtices medial e frontopolar, que controlam a tomada de decisões, já estão acesos – isso indica que o cérebro está escolhendo a letra.
5 segundos antes
Os córtices motores, que controlam os movimentos do corpo, estão ativos. Olhando a atividade deles, é possível prever se a pessoa vai apertar o botão direito ou o esquerdo.

E já é possível prever pensamentos

Além de provar que o livre-arbítrio não existe, a neurociência acaba de fazer outro enorme avanço: pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, construíram um computador capaz de ler pensamentos. Ou quase isso.

Cada voluntário recebeu uma lista de palavras sobre as quais deveria pensar. Enquanto ele fazia isso, um computador analisava sua atividade cerebral (por meio de um aparelho de ressonância magnética). O software aprendeu a associar os termos aos padrões de atividade cerebral – e, depois de algum tempo, conseguia adivinhar em quais palavras as pessoas estavam pensando.

O sistema ainda tem uma grande limitação – ele só consegue ler a mente de uma pessoa se ela estiver totalmente concentrada. O que nem sempre é fácil. “Às vezes, no meio da experiência, o estômago de um voluntário roncava, ele pensava ‘estou com fome’”, e isso embaralhava o computador, conta o cientista americano Tom Mitchell, responsável pelo estudo.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 9


Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 8

O capítulo 9 de Eclesiastes começa ainda com o eco do último versículo do capítulo 8, ou seja, "o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol". 

O discurso do Pregador está perto do fim, e ele começa a preparar o leitor/ouvinte para a conclusão, não sem antes repetir alguns temas que já havia dito, e enfatizar a questão da morte, do tempo e do acaso, principalmente. 

No primeiro versículo, há um jogo interessante entre as palavras "amor" e "ódio", que provoca uma certa controvérsia, sobre se ambos se referem a Deus ou ao homem. 

Ambas as traduções são possíveis, como se percebe das diferentes versões em português:


"os seus feitos estão nas mãos de Deus; e, se é amor ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem" (Revista e Atualizada)

"O homem não conhece nem o amor nem o ódio; tudo isto lhe está pela frente" (Tradução Ecumênica)

"O que os espera, seja amor ou ódio, ninguém sabe" (NVI)

"o homem não sabe se Deus o ama ou odeia" (Bíblia do Peregrino)

"O homem não conhece o amor nem o ódio de tudo o que espera" (Bíblia de Jerusalém)

"Deus controla o que as pessoas sábias e honestas fazem e até o amor e o ódio delas" (NTLH)

O versículo, a meu ver, deve ser entendido dentro do seu contexto, que inclui o último versículo do capítulo 8, ou seja, realmente o homem não sabe o que lhe está reservado nesta vida, já que ele não é dono de si mesmo, nem do seu destino, e mesmo as situações sobre as quais ele imagina ter controle geralmente são as que mais lhes escapam das mãos. 

As palavras "amor" e "ódio" podem também significar, respectivamente, "aceitação" ou "rejeição" da parte de Deus, o que, de alguma maneira, se relaciona com o v. 7, em que o Pregador diz que o homem deve viver gostosamente, "pois Deus já de antemão se agrada das suas obras". 

Mais do que propriamente a predestinação, Salomão fala aqui da providência divina, de uma forma que a graça de Deus está em destaque. 

É interessante perceber que o próprio Calvino usa esses versículos para refutar o dogma escolástico de que a fé é uma conjectura moral, ou seja, a pessoa teria certeza de que tem fé em Deus se se sente em paz com Deus pelas obras que realiza:

38. IMPROCEDÊNCIA DO DOGMA ESCOLÁSTICO DE QUE A CERTEZA DE FÉ É UMA CONJETURA MORAL.

Daqui se pode ajuizar quão pernicioso seja esse dogma escolástico de que não podemos estabelecer de outro modo quanto à graça de Deus para conosco do que por uma conjetura moral, segundo cada um não se reputa indigno dela. Certamente, se houvéssemos de julgar por nossas obras que afeto Deus nos tem, confesso que não o podemos compreender nem pela menor conjetura do mundo. Como, porém, deve a fé responder à simples e graciosa promessa, não se deixa nenhuma possibilidade de dúvidas. Ora, pergunto, de que confiança seremos armados, se raciocinarmos que Deus nos é propício com esta condição: desde que a pureza de nossa vida assim o mereça? Entretanto, uma vez que, para tratar destas coisas destinamos seu devido lugar, por ora não iremos mais longe, sobretudo vendo que nada pode haver mais contrário à fé do que a conjetura ou qualquer outro sentimento que tenha algo parecido com a dúvida ou incerteza.E para isso torcem mui abusivamente o testemunho de Eclesiastes, que por vezes, têm nos lábios: "Ninguém sabe se, porventura, seja digno de ódio ou de amor" [Ec 9:1]. Ora, deixando de parte que esta passagem foi incorretamente traduzida na versão corrente, contudo, não pode ser desconhecido até mesmo ás próprias crianças o que Salomão tem em mente com palavras desta natureza, isto é, se alguém queira julgar do presente estado das coisas, as quais delas Deus persegue com ódio, as quais delas abraça em amor, em vão labora ele e se atormenta com nenhum proveito, uma vez que "tudo sobrevém igualmente ao justo e ao ímpio, ao que oferece sacrifícios e ao que não os oferece" [Ec 9.2]. Do quê se segue que Deus não atesta perpetuamente seu amor para com aqueles a quem tudo faz suceder prosperamente, nem manifesta sempre seu ódio para com aqueles a quem aflige.E Salomão faz isso para comprovar a fatuidade do engenho humano, quando em coisas sumamente necessárias de se conhecer ele se vê dominado de tão grande obtusidade. Como havia escrito pouco antes [Ec 3.19], não se pode discernir em que a alma do homem difira da alma do animal, visto que parece morrer da mesma forma. Se alguém daí queira inferir que a convicção que temos acerca da imortalidade das almas se apóia em mera conjetura, porventura com razão não será tido por insano? Portanto, porventura são dotados de são juízo esses que, porque não se pode alcançar nenhuma conclusão da percepção sensória das coisas presentes, concluem que nenhuma certeza existe da graça de Deus?
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, cap. II, p. 63)

Assim, os primeiros versículos do capítulo 9 de Eclesiastes ressaltam que "tudo sucede igualmente a todos" (v. 2), a crentes e incrédulos, a justos e injustos, o destino é o mesmo, o que dá a idéia de que somos todos, digamos, "descartáveis" no final. 

Nem "reciclados" somos, já que tudo jaz no esquecimento (v. 5). De nada adiantou amar, odiar, invejar, pois a vida se foi e tudo foi em vão (v. 6). 

Palavras duras, sem dúvida, se o Pregador tivesse parado por aí. Entretanto, ele realmente crê que vale a pena viver (v. 7), que a vida é melhor do que o nada (v. 9). 

Ele não está pregando uma alienação total, um desânimo generalizado, um distanciamento da vida, um nihilismo desenfreado. 

Tudo o que vier às nossas mãos, façamos conforme as nossas forças (v. 10), até porque, no nosso destino final, nada disso existirá. Pode-se perceber ecos desta lição nas palavras de Jesus:
João 12:35 Disse-lhes então Jesus: Ainda por um pouco de tempo a luz está entre vós. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai.
E nas de Paulo:
Gálatas 6:10 Então, enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.
Já Derek Kidner, no seu livro "A Mensagem de Eclesiastes" (Ed. ABU, 2ª ed., 1998, pp. 69-70), vê ecos de culturas passadas, como o Gilgamesh, neste trecho de Eclesiastes:
Há notáveis semelhanças entre esta passagem (9:7-10) e algumas linhas da Epopéia de Gilgamesh [placa X], um poema acadiano que data do tempo de Abraão ou antes e que era muito conhecido no mundo antigo. Neste ponto da história o herói, impelido pela morte de seu grande amigo a ir em busca da imortalidade, chega ao jardim dos deuses. Ali a jovem Siduri, a fabricante de vinhos, lhe fala:
"Gilgamesh, por onde você está vagueando?
A vida que está procurando, você nunca encontrará,
Pois os deuses, quando criaram o homem, deram-lhe
A morte como quinhão, e a vida
Ficou retida nas mãos deles.
Gilgamesh, encha o estômago!
Alegre-se dia e noite,
Encha os seus dias de alegria,
Dance e faça música de dia e de noite.
Use roupas limpas,
Tome banho e lave a cabeça.
Olhe para o filho que lhe segura a mão,
E que sua esposa se deleite com o seu abraço.
Apenas essas coisas dizem respeito ao homem.
"Este não é o único lugar onde se encontram sentimentos deste tipo. A canção de um banquete fúnebre egípcio, talvez mais ou menos contemporâneo de Gilgamesh, contém o seguinte conselho, após advertir os vivos acerca do que terão de enfrentar:
"Realiza os teus desejos enquanto estiveres vivo. Unge a tua cabeça com mirra, veste-te de linho fino, e unge-te...., e não aborreças o teu coração, até que chegue o dia da lamentação."

Após destacar a questão da morte, o Pregador segue dizendo que "tudo depende do tempo e do acaso" (v. 11), o que não deixa de ser uma recordação do que já havia dito em Eclesiastes 3, no célebre texto do "há tempo para tudo". 

Afinal, não sabemos a nossa hora de chegar nem de partir (v. 12). A maneira como decidimos sair do portão de casa pode definir a nossa vida (ou a nossa morte) de maneira totalmente inesperada. 

A nossa vida pode depender do simples fato de decidirmos sair pela direita ou pela esquerda, pelo portão de casa, numa linda manhã. 

A morte nos ronda todos os dias, conforme percebemos por uma simples passada de olhos nas manchetes dos jornais, com tantas vítimas do acaso, das balas perdidas, dos diques que se rompem, das pontes e dos meteoritos que caem. 

Já repararam como, às vezes, tudo dá errado? Muitas vezes, eu tive que sair mais tarde de casa, ou pegar a estrada atrasado, porque simplesmente algo (ou uma sucessão de "acasos") deu errado. 

Com o tempo, eu percebi que aquilo muito bem podia ser Deus simplesmente me protegendo de um acaso pior, e eu passei a relaxar depois desta percepção das coisas. 

Mais do que a Lei de Murphy, existe uma providência divina agindo nas nossas vidas, de todos nós, e esta providência às vezes se parece mais com um agente secreto que espreita os acontecimentos mais banais e corriqueiros do nosso dia-a-dia, mas está sempre ali presente, batendo o ponto, influindo nos mínimos detalhes para o nosso bem, mesmo que o aparente mal nos aconteça.

No final do capítulo 9, o Pregador conta uma pequena parábola, para exaltar a sabedoria (v. 13). Ele conta a história de uma pequena cidade, cercada por um grande rei (v. 14), em que um homem pobre, mas sábio, a livrou (v. 15), mas logo caiu no esquecimento do povo que havia salvo (v. 16). 

Esta é uma parábola com vários significados, mas o que mais salta aos olhos, a meu ver, é a questão da gratidão e da ingratidão. 

No v. 7, já vimos que havia uma espécie de gratidão de Deus para com os seus servos, sem nenhuma razão específica, apenas pela graça dEle mesmo. 

Aqui vemos que o povo daquela cidade deveria ser eternamente grato ao homem pobre, mas eles logo se esqueceram do benefício que este lhes havia feito. 

De fato, não devemos esperar gratidão dos homens, porque a regra é a ingratidão. 

Da mesma maneira, é esta regra que vigora no relacionamento dos homens para com Deus, como o próprio Jesus teve ocasião de vivenciar e delatar quando curou 10 leprosos (Lucas 17:11-19), e apenas um (ainda mais samaritano, ou seja, um pária para a época e contexto social em que vivia) retornou para lhe agradecer. 

Isto depois do Mestre ter dito que o senhor não precisava agradecer ao servo por este ter feito o que lhe havia sido ordenado (Lucas 17:9).

Este é um claro contraste com Eclesiastes 9:7, que é muito mais existencialista, no sentido de nos mostrar a importância de viver uma vida bem vivida, com todos os seus bens e males, e nos lembrarmos sempre de agradecer a Deus pelo dom da vida que Ele graciosamente nos deu.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 10




terça-feira, 1 de janeiro de 2013

As escolhas da vida


“Eis que ponho diante de vocês o caminho da vida
e o caminho da morte.”
(Jeremias 21:8)


Imagine que todos carregamos embutida em nossa personalidade uma daquelas velhas pistolas de dois canos e dois gatilhos. Frente à variedade de experiências a que somos expostos no dia-a-dia, surge a oportunidade de acionar um ou outro dos gatilhos...

Quando entramos em contato com as carências das pessoas que nos rodeiam, vivemos o desafio de puxar o gatilho da solidariedade, com suas implicações, ou a indiferença, para escaparmos à responsabilidade.

Cada vez que surge uma oportunidade de demonstrar quem somos por baixo da trabalhada aparência, optamos por detonar a humildade com coragem ou escapar disparando a arrogância.

Quando atingidos de modo incômodo por palavras ou atos de alguém, escolhemos acionar o perdão, para preservar a relação, ou engatilhar a vingança.

Quando a vida nos convoca a enfrentar desafios, podemos projetar a esperança ou deixar explodir o desânimo.

Quando sabemos da queda de alguém, decidimos pelo gatilho da misericórdia ou pelo da condenação.

Quando erramos, escolhemos promover a confissão em busca do perdão ou, movidos pelo orgulho, preferimos a simulação.

No curso da existência, nossas palavras e atos tendem a demonstrar o egoísmo ou a escolha consciente do amor.

A vida é o produto de muitas escolhas. Os gatilhos acionados com maior freqüência determinam a qualidade de uma existência. Esta é uma questão central, pois estão em jogo conseqüências definitivas: realização ou alienação, bênção ou maldição, vida ou morte.

Que tal buscar acerto nas escolhas deste dia? [ou deste ano?]

(“Devocionais para todas as Estações”, Ed. Ultimato, meditação de 15 de janeiro, adaptado)





quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Filósofo ganha bolsa de US$ 5 milhões para estudar a imortalidade

O filósofo John Martin Fischer - da University of California, Riverside - é um homem de sorte (ou com falta dela, dependendo do ponto de vista), já que ganhou uma bolsa de estudos de 5 milhões de dólares para investigar a questão da imortalidade do ponto de vista metafísico.

A Fundação John Templeton, uma organização filantrópica localizada nas cercanias de Philadelphia (EUA), tem um programa chamado The Immortality Project, em que procura investigar do ponto de vista científico uma ampla variedade de temas ligados à imortalidade, como as experiências de quase-morte, viagens astrais, lembranças de vidas passadas e o impacto - no ser humano - da crença na vida após à morte e suas variações nas diferentes culturas ao redor do mundo.

Dentre os muitos campos de pesquisa financiados pela John Templeton Foundation estão, por exemplo, questões envolvidas com a complexidade, evolução, infinitude, criatividade, o amor e o livre arbítrio. Ou seja, de tudo um pouco, e sempre com o fim de promover o diálogo entre diferentes correntes do pensamento.

John Martin Fischer, principal investigador do novo projeto, diz que "as pessoas têm pensado sobre imortalidade ao longo da história. Nós temos uma profunda necessidade humana de imaginar o que acontece conosco depois da morte".

O filósofo prossegue afirmando que "muito da discussão tem sido feita na literatura, especialmente na área de fantasia e ficção científica, e na teologia no contexto da vida após a morte, céu, inferno, purgatório e karma. Ninguém até agora trouxe um olhar abrangente e sustentável que reúna a ciência, a teologia e a filosofia" (se é que isto é possível, cá entre nós).

Engana-se quem pensa, entretanto, que Fischer nadará em dinheiro sozinho. Metade dos 5 milhões de dólares serão destinados a vários grupos e projetos de pesquisas. Outro tanto financiará duas conferências, ainda a serem realizadas, e também a tradução de obras (sobre o tema) de filósofos ingleses e americanos para o alemão, esperando contar com a ajuda de sua contraparte germânica, conhecida pela histórica genialidade filosófica.

Fischer defende o caráter estritamente científico do projeto ao dizer, por exemplo, que casos de abduções por alienígenas não serão levados em consideração, mas diálogos interdisciplinares com filósofos e teólogos das mais variadas tendências serão bem-vindos, já que essas áreas do conhecimento humano trabalham há milênios com essas questões transcendentais que só muito recentemente vêm recebendo atenção dos cientistas de outras searas que muitos imaginavam como conflitantes.

Especificamente quanto aos fenômenos de quase-morte, será investigado até que ponto eles são influenciados pelas variáveis culturais de cada região. Por exemplo, por que os norteamericanos tendem a ver túneis de luz nesses momentos enquanto os japoneses veem jardins floridos?

Seriam, portanto, essas experiências vislumbres plausíveis da vida após a morte, ou seriam, de alguma maneira, uma espécie de ilusões biologicamente induzidas?

Do ponto de vista da imortalidade, outras questões abundam. É ela potencialmente significativa ou não? Seria a vida pós-morte repetitiva ou entediante? A morte dá algum sentido à vida? Teríamos virtudes como a coragem se fôssemos imortais?

Sobre o livre-arbítrio, Fischer acrescenta que "nós pensamos que o livre-arbítrio é muito importante para nós tanto do ponto de vista teológico como filosófico. E se supõe que o paraíso na tradição judaico-cristã seja o melhor lugar. Mesmo assim, é provável que nós não tenhamos livre-arbítrio no céu. Como conseguimos combinar essas ideias discrepantes?"

Os resultados dessa ampla variedade de temas palpitantes serão reunidos em um livro que será publicado pela Oxford University Press no final do projeto, com o título "Immortality and the Meaning of Death" ("Imortalidade e o Significado da Morte").

As informações aqui repassadas vieram da própria University of California, Riverside.



terça-feira, 5 de junho de 2012

Transplante de cérebros e livre-arbítrio

Um artigo um tanto quanto delirante e interessante sobre corpo-alma-espírito, causalidade e livre-arbítrio, publicado no IHU:

''Os cristãos não precisam de alma''.

Artigo de Franca D'Agostini

Basta reconhecer que a realidade sobre a qual a ciência nos fala é estratificada e complexa, e que das micropartículas às sociedades humanas existem diversos tipos de causalidades e agentes causais para entender que intencionalidade e livre-arbítrio não são, de fato, incompatíveis com o nosso ser físico.

A opinião é da filósofa italiana Franca D'Agostini, professora do Politécnico de Turim e da Università del Piemonte Orientale. É autora, em português, de Analíticos e Continentais (Ed. Unisinos, 2002) e Lógica do Niilismo: Dialética, Diferença e Recursividade (Ed. Unisinos, 2002). O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 18-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um dos muitos paradoxos sobre a identidade pessoal que têm circulado nos últimos anos é o caso do idoso e muito douto professor que propõe a um estudante seu, jovem e bonito, mas de pouca inteligência, que se troquem os cérebros: o estudante receberá um cérebro repleto de sabedoria e de doutrina, o professor terá um corpo novo e atraente. Sim, mas quem fica com o cérebro vazio e o corpo decadente? A resposta depende de como você concebe a identidade pessoal: se, para você, somos o nosso corpo, quem fica é o aluno; se, para você, somos o nosso cérebro, quem fica é o professor.

Felizmente, os transplantes de cérebro ainda são eventualidades distantes. Mas o problema de fundo permanece em aberto: quem somos, em definitivo, se realmente somos alguma coisa? E, dado que o que somos é diferente do nosso corpo, como quer o "dualismo cartesiano", onde se coloca, exatamente, a mente, ou a alma, ou a consciência? A questão interessa primeiramente à religião e particularmente à religião cristã, desde sempre às presas com uma antropologia complicada e discutida, que prevê estranhas misturas de corpo e espírito, e almas que adormecem para despertar na ressurreição.

Nesse quadro, é realmente surpreendente a posição de Nancey Murphy, teóloga cristã, professora do Fuller Theological Seminary, de Pasadena, hoje em Turim para o importante congresso sobre "Matéria, vida, espírito", organizado pelo Centro Luigi Pareyson e pelo Centro de Cultura Evangélica Arturo Pascal.

Murphy defende categoricamente: "Os cristãos não têm nenhuma necessidade da alma". Ou, melhor, o cristianismo é-pode ser uma religião decisivamente fisicalista: pode admitir que somos corpos, sobretudo. Em Bodies and Souls, or Spirited Bodies? (2006), Murphy escreve: "Não há necessidade de postular nenhum elemento metafísico adicional, como uma alma, ou um espírito, ou uma mente", e acrescenta: "Isso não nega que sejamos seres inteligentes, morais e espirituais. Somos complexos organismos físicos, além do mais formados por milhares de anos de cultura. Somos, muito simplesmente, corpos espiritados (spirited bodies)". Daí tem início o particular "fisicalismo não reducionista" de Murphy, uma perspectiva em que a religião não "dialoga" com a ciência, mas, ao invés, se fundamenta na ciência.

Em um ambiente como o italiano, ainda afligido por inúteis guerras culturais entre ciência e humanities, ciência e religião, o pensamento de Nancey Murphy é uma lufada de ar fresco, não porque a sua posição seja cauta e ecumênica, mas ao contrário: porque é extrema e radical, na sua originalidade iluminadora.

Naturalmente, Murphy é consciente das complexas implicações histórico-doutrinais que a sua posição implica. E todo o seu trabalho consiste na paciente elaboração das razões que possam levar o cristão a pensar a si mesmo e o mundo de modo coerente com a ciência e a filosofia contemporâneas, e com o bom senso comum. Em Did My Neurons Make Me Do It? (2007, com W. S. Brown), Murphy aborda a questão do livre arbítrio na perspectiva da neurobiologia. Sempre há elementos neuronais na base das nossas ações, mas isso não significa que eles sejam a causa das nossas ações. Embora muitas vezes as razões dos gestos mais extremos dos seres humanos sejam descuidos neuronais, explica Murphy, "quase nunca é apropriado dizer 'a culpa é dos meus neurônios'".

Mas, então, se tudo é tão simples, por que temos tanta dificuldade para entender como surgem responsabilidades e intencionalidades do nosso ser físico? O problema, diz Murphy, é que, "apesar das mudanças na física e na neurobiologia, uma grande parte da nossa cultura ainda está funcionando com base em concepções arcaicas (newtonianas, cartesianas) da causalidade e da consciência".

Mas basta reconhecer que a realidade sobre a qual a ciência nos fala é estratificada e complexa, e que das micropartículas às sociedades humanas existem diversos tipos de causalidades e agentes causais para entender que intencionalidade e livre-arbítrio não são, de fato, incompatíveis com o nosso ser físico.

Em outras palavras, seria preciso "fechar o teatro quando o ator [o eu] foi embora". Muitas discussões filosóficas hoje, de fato, parecem isto: estranhos teatros em que o público debate, acaloradamente, sobre um espetáculo inexistente, diante de um palco vazio.



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Os animais têm livre-arbítrio?

Artigo de Jason Palmer na BBC News Science & Enviroment, com resenha de Natasha Romanzoti do site HypeScience. Para quem quiser ser aprofundar no tema, do ponto de vista científico, o artigo da BBC cita ainda os seguintes trabalhos disponíveis na internet (em inglês):


Towards a scientific concept of free will as a biological trait: spontaneous actions and decision-making in invertebrates

Order in spontaneous behavior

Abaixo a resenha de Natasha Romanzoti:

Os animais também possuem livre arbítrio

O homem, apesar das regras sociais e dos outros tipos de restrições, goza de livre arbítrio. Segundo pesquisadores, os animais também, desde as moscas até os mais evoluídos.

Claro que a ideia de “livre arbítrio” precisa ser redefinida. Entre os animais, o processo é semelhante, não idêntico.

Os animais têm sempre uma variedade de opções disponíveis para eles. Essas “escolhas” se encaixam numa probabilidade complexa. Entre os seres humanos, as escolhas são vistas como decisões conscientes. E nos animais?

Foi estabelecido há muito tempo que o “comportamento determinístico” – a ideia de que um animal provocado de tal forma vai reagir com a mesma resposta toda vez – não é uma descrição completa do comportamento animal.

Segundo os pesquisadores, mesmo os animais mais simples não são previsíveis. No entanto, a ausência de determinismo não sugere um comportamento completamente aleatório também – é por isso que a pesquisa mostra que o comportamento animal não é nem totalmente restrito, nem totalmente livre.

Experimentos com moscas revelaram que, embora o comportamento animal possa ser imprevisível, as respostas parecem vir de uma lista fixa de opções. Os cientistas acreditam que o livre arbítrio seja uma propriedade biológica, um traço de personalidade: o cérebro possui a liberdade de gerar comportamentos e opções.

O mecanismo exato pelo qual os cérebros de todos os animais produzem essa liberdade continua a ser uma questão sem resposta convincente.

Os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos para simular a atividade do cérebro em um computador, descobrindo que o que funcionou melhor foi uma combinação de comportamento determinístico e um outro comportamento conhecido como estocástico (que parece aleatório, mas na verdade, segue um conjunto definido de probabilidades).

Essa “estocasticidade” mostra-se, por exemplo, em terremotos. Eles não podem ser previstos com precisão, mas ao longo do tempo se pode perceber que eles se encaixam perfeitamente em uma curva.

Tal como acontece com o comportamento animal, há uma ordem subjacente e a probabilidade de um processo que pode aparecer ao acaso. Segundo os pesquisadores, a probabilidade é a melhor descrição para a “livre escolha animal”, já que lidamos com a situação de que animais não pensam.

Ao pensar, os seres humanos têm todas as opções e, teoricamente, todas as opções têm a mesma probabilidade. Mas na vida real não é bem assim. Existem opções com probabilidades extremamente raras. Os pesquisadores também afirmam que os cérebros podem criar mecanismos que transtornem o elemento probabilístico do comportamento, dependendo da situação em mãos.

Os cientistas acreditam que o livro arbítrio animal seja resultado de uma evolução. A variabilidade que é inerente ao comportamento é um pré-requisito para a sobrevivência em um ambiente competitivo.

Ou seja, um predador não deve ser sempre capaz de adivinhar as ações de sua vítima, mas as ações não devem ser tão aleatórias que incluam opções ainda mais perigosas do que o predador.

No mundo da neurobiologia, a ideia tem certo apoio. Porém, são necessários mais resultados experimentais que correspondam aos modelos matemáticos.

Ainda assim, o debate sobre livro arbítrio é muito mais complexo, e a discussão atual não aborda temas como a consciência, as suas origens, ou se os animais a compartilham.

O livre-arbítrio, como descrito neste estudo, vem com um significado geral, um pré-requisito necessário, mas não está nem perto de ser suficiente para lidar com coisas como moralidade e responsabilidade. Ainda assim, lembram os cientistas, sem essa capacidade muito básica de escolher entre as opções, nós não teríamos que pensar em todas as outras coisas que vêm antes: consciência, educação, etc.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O cristão imperfeito

por Calvino:

5. A VIDA CRISTÃ NÃO IMPLICA PERFEIÇÃO, INATINGÍVEL NA PRESENTE CONDIÇÃO HUMANA, PORÉM RECLAMA ESFORÇO, DILIGENTE E CONTÍNUO, DE BUSCÁ-LA, DIA APÓS DIA, SEM DESFALECIMENTO


Não exijo que o viver do homem cristão nada exale senão o evangelho absoluto, o qual, no entanto, não se deve exatamente só almejar, mas também necessário se faz intentar. Contudo, não exijo perfeição evangélica em moldes tão estritos que não se possa reconhecer como cristão aquele que não a haja ainda atingido plenamente. Se esse fosse o caso, seriam todos excluídos da Igreja, uma vez que ninguém se acha que não esteja tão afastado dela por mais que haja adiantado, e contudo não há razão para que sejam rejeitados.

Então, o que fazer? Esteja fixado diante dos olhos este alvo, rumo ao qual se dirijam todas as nossas ações e rumo a ele lutemos e nos esforcemos até chegarmos. Pois não é lícito tentar partilhar com Deus dessas coisas que estão prescritas em sua Palavra, acatando parte delas, e de teu arbítrio desconsiderando outra parte. Ora, por toda parte ele recomenda, em primeiro lugar, a integridade como a parte capital de sua adoração [Gn 17.1; Sl 41.12], termo que significa a sincera candidez de espírito que careça de dolo e fingimento, à qual se contrapõe o coração dobre, como se estivesse dizendo que o princípio do bem viver é espiritual, quando o afeto interior do espírito se devota a Deus, sem fingimento, para cultivar-se a santidade e a justiça. Mas, uma vez que não sobeja a ninguém tanta força, neste cárcere terreno do corpo, que se possa avançar com a justa celeridade da corrida, ao contrário tão grande fraqueza oprime a grande maioria que, vacilando e claudicando, até mesmo rastejando no solo à frente se movem com dificuldade, avancemos, cada um segundo a medida de sua reduzida capacidade, e prossigamos a jornada iniciada. Ninguém vagueará tão desafortunadamente que não avance cada dia ao menos um pouco de caminho.

Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com sincera candidez, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos lisonjeando com adulação, nem condescendendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne, sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 159-160)

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