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sábado, 5 de agosto de 2017

TJPE solta por liminar líder batista acusado por "estupro corretivo" de lésbica


A informação é da Agência Brasil:

Líder religioso de Olinda acusado de "estupro corretivo" é solto; MP contesta

Sumaia Villela

A 22 dias do julgamento final, um líder religioso de Olinda (PE) acusado de estupro “corretivo” foi solto por meio de uma liminar. A decisão é questionada pela promotora da 3ª Vara Criminal do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Henriqueta de Belli, autora da denúncia. O acusado respondia à ação em liberdade até que a vítima, uma jovem de 20 anos, relatou que ela e seus familiares estavam recebendo ameaças, fato que levou à prisão preventiva do réu no dia 17 de julho. No entanto, ele foi solto na quarta-feira (2).

A liminar que concedeu a liberdade ao líder religioso foi concedida pelo desembargador Fábio Eugênio Oliveira Lima. A promotora questiona o motivo de Oliveira não ter levado em conta as ameaças sofridas pela vítima, o que prejudicaria o bom andamento do processo e a colocaria em risco.

“O desembargador, mesmo sem pedir informações à juíza que decretou a preventiva dele, o liberou. E agora ele respondeu ao feito em liberdade”, diz Henriqueta. “Enquanto ele estiver solto, o Ministério Público acredita que ele não vai deixar de direcionar ameaças [à vítima], e não é possível nem justo que a vítima de um crime sexual dessa ordem continue sendo submetida ao sofrimento porque o acusado não se conforma com o fato de estar sendo processado”, aponta a promotora.

O desembargador Fábio Eugênio Oliveira Lima informou, por meio da assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), que não vai se pronunciar a respeito da decisão porque o processo está em segredo de Justiça.

Entenda o caso

O acusado tem 31 anos e era membro da Igreja Batista da Primeira Etapa do bairro de Rio Doce. Ele era responsável por ações relacionadas ao público jovem. A vítima e sua família – que não falaram com a imprensa - frequentavam a igreja e também cresceram na mesma vizinhança, em Jardim Atlântico, cidade de Olinda.

A garota deixou de frequentar o templo religioso e, motivado por rumores de que ela estaria em um relacionamento homoafetivo, o homem foi até o apartamento da família. Aproveitando que ela estava sozinha, cometeu o abuso. A promotora relatou que, durante o ato, ele afirmava que cometia o crime para que “ela passasse a gostar de homem e deixasse de ficar com meninas”.

O crime ocorreu no dia 28 de dezembro de 2015, e foi denunciado pela vítima em março do ano seguinte. Inicialmente, segundo a promotora, a jovem teve vergonha de falar sobre o ocorrido, mas ao saber que uma outra garota havia sido abusada pela mesma pessoa, resolveu formalizar a denúncia. “É importante ressaltar que a versão dela é bastante coerente e consistente”, diz Henriqueta.

A promotora relata que, neste ano, foi procurada pela família da vítima e pela própria para relatar que o acusado, ao saber que a denúncia havia resultado em ação penal, começou a constrangê-la, tanto diretamente como mandando recado por outras pessoas, “Ela já estava com dificuldade de ir à padaria, à escola. Ele começou a criar situações em prejuízo da vítima, inclusive houve uma situação específica em que ele estava conduzindo um veículo, avistou ela e colocou o carro para cima dela, que conseguiu desviar”, relata a promotora.

Henriqueta de Belli espera que a soltura seja revertida no julgamento do mérito do habeas corpus pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), ainda sem data definida. “Esse tipo de demanda, que envolve a violação de vários direitos, uma possível homofobia, machismo, misoginia, são crimes que precisam de fato ser coibidos pela Justiça de forma muito objetiva, para justamente incentivar que outras vítimas também denunciem”.

O acusado foi expulso da Igreja Batista. Oa pastor responsável pela igreja foi procurado para comentar as acusações, mas disse que não falaria a respeito. Entidades de defesa da população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) também acompanham o caso e ofereceram assistência à vítima.

Edição: Amanda Cieglinski



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Tiroteio em centro espírita mata 4 em Jaboatão dos Guararapes (PE)


A informação é do G1 Pernambuco:

Quatro pessoas são mortas e outras ficam feridas durante tiroteio em centro espírita no Grande Recife

Segundo a polícia, bandidos tentaram assaltar frequentadores do Geap, em Jaboatão dos Guararapes. Entre os mortos, estão PM, mulher e dois suspeitos.

Quatro pessoas foram mortas e outras ficaram feridas em uma tentativa de assalto ocorrida na noite de quarta-feira (5), em um centro espírita localizado em Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. De acordo com a Polícia Civil de Pernambuco, entre os mortos estão um policial militar, uma mulher e dois suspeitos de participar da investida ocorrida na sede do Grupo Espírita Amor ao Próximo (Geap). Um homem apontado como integrante da quadrilha acabou preso. (Veja vídeo na página indicada acima, do G1)

Apesar da informação inicial de oito feridos, a Polícia Civil de Pernambuco informou, no fim da tarde desta quinta (6), que a investida deixou duas pessoas feridas à bala. Uma delas é o suspeito que está custodiado. Ainda não se sabe se a outra pessoa baleada foi vítima da investida ou se participou da tentativa de assalto.

Testemunhas afirmaram que houve outras pessoas socorridas para hospitais não informados e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) confirmou que atendeu quatro pessoas. Entre os frequentadores do Geap que ficaram feridos, um teve alta e outro, de 30 anos, encontra-se no Hospital da Restauração. Ele está estável na unidade de trauma, em observação. O G1 tentou entrar em contato com o Geap para saber se houve outros feridos, mas não obteve retorno às ligações.

O Geap sediava uma palestra, por volta das 21h30. Segundo a delegada Gleide Angelo, responsável pelo início das investigações, pelo menos seis homens participaram da ação. Dois deles fingiram participar do evento.

No momento do assalto, cerca de 150 pessoas estavam no Geap. No final da apresentação, um deles se levantou e anunciou o assalto. Eles começaram a recolher objetos das pessoas que participavam do encontro.

A princípio, a Polícia Civil havia informado que um policial militar de 40 anos que assistia à palestra estava armado e reagiu ao assalto quando foi morto pelos assaltantes. Na tarde desta quinta (6), as investigações avançaram e a polícia confirmou que os dois assaltantes foram mortos por um segundo PM que estava na parte de cima da casa e reagiu à investida dos assaltantes.

O PM que estava no térreo, próximo aos assaltantes, ficou ferido e foi levado ao Hospital da Restauração (HR), no Derby, na área central do Recife, e morreu por volta da 1h desta quinta-feira (6). A mulher que morreu no local, de 57 anos, era uma das frequentadoras do centro espírita. O marido dela, irmão do deputado federal Silvio Costa (PT do B), se encontrava do lado de fora do centro e foi rendido pelos bandidos, que apontaram uma arma para a cabeça dele.

Mais cedo, familiares das vítimas estiveram no Instituto de Medicina Legal (IML) para a liberação dos corpos. Eles preferiram não comentar o assunto.

Com os suspeitos que morreram no local, a polícia encontrou uma bolsa com celulares e objetos roubados. Eram cerca de 30 telefones. Eles também estavam com armas usadas na investida. “Três ou quatro integrantes do grupo fugiram em um carro preto em direção a uma comunidade na Zona Sul”, acrescentou a delegada.

Um dos integrantes da quadrilha, segundo Gleide Angelo, está no Hospital Getúlio Vargas (HGV), no Cordeiro, na Zona Oeste do Recife, sob custódia policial após tentar fugir, mesmo ferido. Ele levou tiros nas costas e na barriga e foi levado ao bloco cirúrgico. Mesmo ferido, o suspeito chamou um táxi e foi até uma Unidade de Pronto Atendimento da (UPA), de onde foi transferido para o HGV. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, o suspeito está na emergência do hospital. Seu estado de saúde é estável.

Entre os frequentadores do Geap que ficaram feridos, um teve alta e outro, de 30 anos, encontra-se no Hospital da Restauração. Ele está estável na unidade de trauma, em observação.

Testemunha

O empresário Gilberto Oliveira mora em frente ao Grupo Espírita Amor ao Próximo (Geap), localizado em Piedade, Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. Ao chegar em casa após um dia de trabalho, ele presenciou a tentativa de assalto no centro. "Ouvi várias pessoas atirando e crianças gritando", declarou.

Oliveira contou com detalhes como ocorreu a ação dos bandidos. “No momento que abri o portão [de casa] comecei a escutar os tiros repetitivos. Eram várias pessoas atirando ao mesmo tempo. Foi um desespero. Vi um idoso baleado na perna e pais e mães conduzindo seus filhos de 2 e 3 anos. Foi uma coisa horrível. Foi muito triste”, recorda.

Gilberto estava guardando o carro da mulher na garagem. No começo, conta que não sabia ao certo se o barulho era de tiros ou de fogos de artifício. Quando percebeu o que estava acontecendo, trancou o portão da residência e orientou uma mulher, que estava no veículo, a se abaixar.

“Tudo isso não durou mais de dois, três minutos. Um bandido correu para o lado da minha casa, lado Oeste. Vi dois deles sendo perseguidos. Um ficou baleado na porta da minha casa e o outro estava mais à frente, caído no chão”.

Policiamento

Em nota, a Polícia Militar informou que segue em busca dos outros suspeitos de participar do crime. A corporação também lamenta a morte do policial e afirma que policiamento em Piedade é realizado com Patrulhas do Bairro, motopatrulhamento, guarnição tática e com Grupo de Apoio Tático Itinerante.

"O Comandante do 6º Batalhão informa que vêm intensificando o policiamento na área e que vêm realizando prisões de traficantes e assaltantes em Jaboatão dos Guararapes, complementou que no mês de Junho não houve nenhum homicídio em Piedade. A PMPE afirma que dará atenção as denúncias feitas pela comunidade com relação a esta localidade", diz a nota.



sábado, 25 de março de 2017

Papa argentino fará 30 brasileiros se tornarem santos católicos


Sim, é isso mesmo o que você leu, numa só penada papal 30 brasileiros serão canonizados, ou seja, elevados aos altares para veneração católica, segundo informa o Estadão.

Depois dessa, pelo menos os católicos brasileiros (sobretudo os pernambucanos e potiguares) nunca mais permitirão que alguém fale mal de argentinos perto deles.

Para não perder a paródia futebolística, que envolve o bispo de Roma, os vilões da história são um punhado de holandeses e um alemão, protestantes e calvinistas, como (não) pedia a ocasião.

No fundo, a gente faz essas pequenas brincadeiras apenas para tentar atenuar um pouco (o que é impossível) o horror dos fatos ocorridos no século XVII, em nome da religião, durante as invasões holandesas do território (então português) hoje conhecido como Brasil.

Eis a matéria:

Brasil terá mais 30 santos católicos

Papa Francisco aprova canonização de beatos assassinados em 1645 em duas igrejas do Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa

José Maria Mayrink

O papa Francisco aprovou nesta quinta-feira, 23, a canonização de 30 beatos brasileiros que foram massacrados em 1645 nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa do Nordeste, por se negarem a abjurar da fé católica e aderir ao calvinismo, religião dos invasores. Os futuros santos serão André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos, Mateus Moreira e outros 27 companheiros leigos.

“Ficamos muito felizes, pois esta canonização é uma grande bênção para a Igreja e com certeza vai reavivar a fé e a devoção dos fiéis”, disse o arcebispo de Natal, d. Jaime Vieira Rocha, após receber a notícia da aprovação do papa. Os 30 brasileiros foram beatificados em março de 2000 por João Paulo II. O cardeal d. Cláudio Hummes, que foi arcebispo de Fortaleza, ajudou a levar adiante a causa dos mártires e, no ano passado, confidenciou a d. Jaime que Francisco estava interessado na canonização.

Foram dois massacres coletivos: o primeiro em 15 de julho, em Cunhaú, atualmente município de Canguretama, e o segundo em 3 de outubro, em Uruaçu, hoje município de São Gonçalo do Amarante. Segundo relatos da época, mais de 70 pessoas foram assassinadas, mas a Congregação para as Causas dos Santos reconhece apenas o martírio daqueles cujos nomes são conhecidos. Na cerimônia de beatificação, João Paulo II chamou os novos beatos de protomártires e disse que eles eram exemplos e defensores da fé cristã.

Os massacres foram executados por índios tapuias e soldados holandeses, sob comando de Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas. As vítimas foram mortas em um domingo, durante a missa celebrada pelo padre Ambrósio Ferro. Após a consagração da hóstia e do vinho, a tropa holandesa trancou as portas da igreja e, após um sinal de Rabbi, os índios chacinaram os fiéis.

Com a notícia das atrocidades em Cunhaú, o medo se espalhou pelo Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. Com razão. Outra vez sob as ordens de Jacob Rabbi, um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais o padre André de Soveral, foi massacrado. Além dos padres André de Sandoval e Ambrósio Ferro, foram mortos os leigos Mateus Moreira e seus 27 companheiros que serão transformados em santos. O camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Emissários do governo holandês enviados para investigar os massacres constataram a prática de violência, atrocidade e crueldade. Cronistas da época relatam que em Uruçu a crueldade foi maior. Os índios e a tropa holandesa fecharam as portas da igreja e mataram os católicos ferozmente. Arrancaram línguas, deceparam braços e pernas, cortaram crianças ao meio e degolaram corpos. A história dos massacres foi pesquisada na Torre do Tombo, em Portugal, e no Museu de Ajax, na Holanda. Segundo documentos levantados, os holandeses ofereceram aos católicos a opção de salvar a vida, se eles se convertessem ao calvinismo.

Data. D. Jaime pensou na hipótese de a canonização ser em outubro deste ano, se Francisco viesse ao Brasil por ocasião da comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como não virá, a cerimônia deverá ser celebrada no Vaticano, em data a ser marcada. Milhares de devotos celebram a memória dos mártires nos meses de julho e de outubro. Há celebrações frequentes também nas quatro paróquias dedicadas aos beatos no Rio Grande do Norte.



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aqueles calvinistas beberrões do Recife

Artigo publicado na Revista de História:

Bebem, sim, e vão conquistando

Na tomada de Pernambuco, holandeses se embriagaram o quanto puderam, para espanto e reprovação dos luso-brasileiros

João Azevedo Fernandes

O Recife dos holandeses era “um burgo de beberrões. Pessoas da melhor posição social eram encontradas bêbadas pelas ruas. Os próprios observadores holandeses da época se espantavam do contraste entre sua gente e a luso-brasileira”, como relatou o escritor Gilberto Freyre. E essa característica própria dos invasores poderia ser vista desde o início da conquista de Pernambuco.

Ao subirem as íngremes ladeiras da vila de Olinda, os soldados da poderosa Companhia das Índias Ocidentais (Westindische Compagnie, ou WIC) estavam bem cansados. Além da longa travessia do oceano, eles haviam marchado mais de seis quilômetros pela praia, sob um sol escaldante e travando combates com uma resistência que se esvaía conforme se aproximavam da orgulhosa capital de Pernambuco.

Apesar das dificuldades, o ataque foi um total sucesso. Os poucos portugueses e habitantes da terra que não haviam fugido foram dominados, e às 4 horas da tarde de 16 de fevereiro de 1630, a bandeira holandesa estava erguida na parte mais alta da vila. Imediatamente, os soldados livraram-se da disciplina militar e trataram de saquear o que pudessem. As igrejas foram despojadas de suas riquezas e as casas dos grandes senhores olindenses invadidas. Dos vários produtos encontrados nas casas e armazéns, um em especial agradou em cheio ao gosto dos recém-chegados: o vinho, disponível em grande quantidade.

Durante três dias, soldados e oficiais se embriagaram à farta, afogando as agruras da viagem e dos combates. Protestantes em sua maioria, usavam os cálices sagrados como copos e os panos das igrejas como “capas” — com as quais imitavam e zombavam de portugueses e espanhóis, caindo de bêbados pelas ruas, dando rebates falsos de ataque, “como brutos irracionais”, no dizer de um relato da época. Posteriormente, tanto holandeses quanto portugueses afirmaram que, se os alcoolizados invasores tivessem sofrido um contra-ataque, acabariam expulsos da vila por sua absoluta falta de condições para reagir.

O que aconteceu naqueles dias não foi um fato isolado. Durante todo o período holandês no Brasil (1630-1654), os luso-brasileiros e os invasores travaram uma verdadeira batalha de culturas, para além das ações militares. O estranhamento entre conquistadores e conquistados começava pela religião e estendia-se para a própria definição do viver em sociedade, refletida nas práticas cotidianas — que incluíam os costumes etílicos dos holandeses, totalmente inusitados para os homens da terra.

Essa distância entre as práticas etílicas tinha origens milenares, separando duas áreas culturais desde os tempos de gregos e romanos. De um lado, os povos mediterrâneos, bebedores de vinho, que associavam a bebida aos alimentos e tendiam a valorizar a temperança e a moderação no beber. De outro lado, os povos do norte da Europa, herdeiros das culturas célticas e germânicas, bebedores de cerveja, que valorizavam a embriaguez como um ato nobre e próprio dos grandes heróis, como Beowulf, e deuses, como Thor e Odin. Não é por acaso que esses povos foram os primeiros a popularizar o uso de novas bebidas destiladas, como o conhaque e o gim, a partir de fins da Idade Média.

Os holandeses eram vistos como grandes concorrentes ao título de maiores bebedores da Europa. William Temple, embaixador inglês em Haia na segunda metade do século XVII, dizia que a bebida era indispensável àquele povo, para que o espírito pudesse ser despertado sob um “clima tão pesado”, e que as condições climáticas impediam que os efeitos da bebida fossem mais “calamitosos”. Para Temple, não existia holandês que não houvesse se embebedado pelo menos uma vez na vida, pois sua existência austera só conhecia uma alegria e um luxo: o álcool.

O ato de se reunir em banquetes, onde se bebia muito e bem, era parte integrante da identidade holandesa, construída em sua luta de independência: a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648) contra os espanhóis, inimigos mortais do calvinismo e do modo de vida dos holandeses. Pintores como Jan Steen e Pieter de Hooch exibiam ricos mercadores e gente do povo divertindo-se em suntuosas salas de jantar e tabernas, misturando homens e mulheres que bebiam e se embriagavam. As bebedeiras eram tão típicas do “ser holandês” que o hábito comum de “animar” (com álcool) os soldados antes dos combates era chamado de dutch courage, “coragem holandesa”.

Ao conquistarem Pernambuco, a região açucareira mais rica do mundo, os holandeses trouxeram seu modo de vida para o Recife, urbanizado pelo conde Maurício de Nassau (1604-1679). Por mais que os naturais da terra devotassem simpatia a esse notável estadista, eles jamais deixaram de considerar os conquistadores como um povo herege, sem rei, governado por comerciantes sovinas, que dava excessiva liberdade às mulheres e que, para completar, se entregava de forma entusiasmada e descontrolada à bebida.

Os holandeses, por sua vez, afirmavam que, na raiz desta apartação cultural, estava a moderação e mesmo a abstinência de muitos luso-brasileiros. Relatórios holandeses observavam que “a bebida dos portugueses é principalmente água da fonte, que é muito boa e agradável”, ressaltando especialmente a abstinência feminina: “poucas são as que bebem vinho, e há muitas que em sua vida nunca provaram dele”.

Alguns funcionários da Companhia procuraram apresentar os costumes portugueses como um ideal a ser seguido por aqueles que desejassem prosperar no Brasil. Enquanto os luso-brasileiros viviam “de água, farinha, um pouco de bacalhau ou qualquer comida vulgar, de modo que em alguns engenhos não há vinho por muito tempo”, os neerlandeses não se contentavam “com tomar à mesa um trago de cerveja ou de vinho”, mas também se reuniam com os amigos, fazendo muitas despesas.

Entre os holandeses que tentavam coibir os costumes etílicos estavam os pregadores calvinistas. Dedicados à missão catequizadora, eles lamentavam o pendor dos índios para a embriaguez: quando bebiam, dizia um pregador, “passavam os dias e as noites pulando e cantarolando”, vício do qual nasciam “brigas e outros maus costumes”. Os religiosos chegaram a pedir para o Conselho dos XIX — responsável pela WIC em Amsterdã — que enviasse ao Brasil apenas “pessoas honradas para servir de mestres-escolas, não sendo pessoas inclinadas a bebidas já que os índios são muito chegados a este vício”. Mas essa preocupação estava longe de ser majoritária: o próprio Supremo Conselho do Recife costumava enviar “presentes de aguardente” aos índios. Em 1644, os holandeses desistiram oficialmente de seu ensaio de catequização.

Recepções, banquetes e jogos etílicos permaneceram no cotidiano dos conquistadores, tal como faziam na Holanda. O frade português Manuel Calado (1584-1654) — formalmente prisioneiro, mas íntimo de Nassau a ponto de frequentar sua casa e seus banquetes — dizia que a bebedeira era o “ordinário costume” dos holandeses. O que mais lhe chocava era a facilidade com que os homens, e ainda mais as mulheres, esvaziavam garrafas e copos.

O papel das mulheres nos “beberetes” era um dos principais motivos da repulsa luso-brasileira àqueles estranhos costumes, o que revela uma diferença marcante no papel social exercido por elas nas duas sociedades. Enquanto que nos Países Baixos as mulheres tinham ativa presença no mundo extra-doméstico, participando de festas de rua, indo às tavernas e recebendo convidados em casa, as portuguesas eram bastante segregadas e colocadas à parte dos assuntos públicos.

Quando o conde Maurício de Nassau convidou algumas mulheres luso-brasileiras para banquetear com ele, recebeu, segundo o frade Calado, a pronta resposta de que “não era uso, nem costume entre os portugueses comerem as mulheres, senão com seus maridos, e ainda com estes era quando não havia hóspedes em casa (...) porque nestes casos não se vinham assentar à mesa”. Essa postura era totalmente contrária à das estrangeiras do Recife. Nos banquetes que o conde ofereceu em homenagem à aclamação de D. João IV, em 1640, “as mais lindas damas que em Pernambuco havia”, holandesas, inglesas e francesas, bebiam alegremente, tanto ou mais do que os homens, dizendo que esse era “o costume de suas terras”.

Outra cerimônia presenciada pelo frade português, que também revela o abismo cultural entre conquistadores e conquistados, foi o funeral do irmão de Maurício de Nassau, conde João Ernesto, que morreu no mar e foi enterrado no Recife. Calado ficou impressionado com a gravidade da “diabólica cerimônia”, na qual “não havia música, nem preces, nem lágrimas”, mas o que o estarreceu de fato foi a enorme quantidade de alimentos e bebidas disponíveis aos convidados, algo típico nos funerais holandeses na Europa. Entre inúmeros brindes e discursos, foram esvaziados muitos frascos de vinho espanhol e francês, cerveja e aguardente, com as consequências previsíveis — “e estes eram os Pater Noster [Pai Nosso], e responsos, que rezavam pelo defunto”.

“Era o costume de suas terras”. Essas palavras, repetidas muitas vezes por Manuel Calado, eram um verdadeiro emblema da segregação auto-imposta pelos luso-brasileiros com relação aos invasores. Vivia-se uma luta entre dois mundos irremediavelmente separados, pela religião certamente, mas também pelas diferenças sobre o que fazer ao redor de uma mesa. E sobre o que fazer com uma garrafa.

João Azevedo Fernandesé professor da Universidade Federal da Paraíba e autor de “A contenção e o excesso: Bebida, embriaguez e identidades étnicas no Brasil Holandês (1630-1654)”, em Actas do Congresso Internacional Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades (Lisboa, 2005, disponível em bit.ly/QFtL2M).

Saiba mais - Bibliografia

CALADO, Frei Manoel. O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade. Recife: CEPE, 2004.
MELLO, Evaldo Cabral de (org.). O Brasil Holandês.São Paulo: Penguin Classics, 2010.
SCHAMA, Simon. O desconforto da riqueza: a cultura holandesa na Época de Ouro, uma interpretação. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.



domingo, 15 de julho de 2012

O Muro das Lamentações do Recife



A notícia vem do Estadão:

Recife também tem Muro das Lamentações

A exemplo do que ocorre em Jerusalém, na mais antiga sinagoga das Américas visitantes costumam deixar bilhetinhos com pedidos e orações

A Kahal Zur Israel funcionou de 1636 a 1654 na antiga Rua dos Judeus - hoje Rua do Bom Jesus - no bairro do Recife Antigo, durante o período de ocupação holandesa. Foi construída por judeus portugueses que, perseguidos pela Santa Inquisição, refugiaram-se depois na Holanda e em outros países, como os Estados Unidos. Em Pernambuco, formaram a Kahal Kadosh Zur Israel, ou Santa Congregação Rochedo de Israel. Na época, esta parte do Brasil era quase extensão da Holanda, com liberdade de culto religioso.

“Fiz meu pedido por algo coletivo, pela paz mundial”, contou a farmacêutica cearense Lia Queiroz, que mudou para o Recife há três anos e conheceu a sinagoga, visitada por uma média de 1,5 mil pessoas por mês. Para ela, qualquer lugar é bom para se pedir pelo bem da humanidade.

A turismóloga pernambucana Rosimar Holanda, que já havia conhecido a sinagoga em uma atividade do curso, reconhece o espaço como um local sagrado e pediu pela família. Os bilhetinhos são respeitados pelos funcionários da sinagoga, que só os recolhem quando eles caem naturalmente. “Mesmo assim, ninguém os abre”, afirma a gestora do museu, que abriga o Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, Tânia Kaufman.

Muralha. O Muro das Lamentações é resquício da antiga muralha que cercava o Templo de Jerusalém, destruída pelos romanos nos anos 70 d.C., após vitória sobre os judeus.

Na mais antiga sinagoga das Américas, suas paredes foram mantidas intocadas e sobreviveram às reformas e alterações feitas no local nos últimos 362 anos, desde o fechamento da sinagoga, depois da expulsão dos holandeses. O fato, segundo Kaufman, aliado à atmosfera de espiritualidade e história, pode ajudar a explicar os pedidos e orações, a exemplo do que ocorre no Muro das Lamentações.



segunda-feira, 4 de julho de 2011

80% das igrejas estão irregulares em Recife (PE)

A notícia é do Jornal do Commercio:

SEM ALVARÁ

Maioria das igrejas é irregular

Segundo a PCR, 80% dos templos estão funcionando de forma ilegal. Grande parte pertence a denominações evangélicas

A Prefeitura do Recife estima que cerca de 80% dos templos e igrejas construídos na capital estejam funcionando de forma irregular, sem alvará de funcionamento. A maior parte dessas edificações pertence a denominações de igrejas evangélicas. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, existem no Recife cerca de 700 templos só da Assembleia de Deus. Desses, cerca de 80% estão irregulares. O alto índice de ilegalidade forçou o poder público a discutir uma reformulação das leis que regulamentam o funcionamento desses estabelecimentos. Na quinta-feira (30/06), durante audiência pública sobre o assunto, o plenário da Câmara de Vereadores ficou lotado de pastores de igrejas evangélicas que apresentaram sugestões de modificação da legislação.

As reivindicações de revisão das normas atualmente em vigor giram em torno de cinco pontos principais. Os evangélicos cobram mudanças nas exigências para número de vagas de estacionamento, acessibilidade, logomarca, barulho e obrigatoriedade do Registro Geral de Imóvel (RGI). A audiência teve a participação do secretário de Assuntos Jurídicos da PCR, Claúdio Ferreira. Diante da dificuldade de cumprimento da legislação atual, ele também defendeu a revisão e adequação das normas atuais.

Em relação às regras para estacionamento, os evangélicos pedem que seja retirada a obrigatoriedade de oferta de vagas de estacionamento para os imóveis já construídos. "Isto porque a maioria dos templos está em área onde não há mais disponibilidade de espaços para estacionamento", afirmou o pastor José Luiz da Silva, que representava os templos da Assembleia de Deus. Para os novos imóveis, os religiosos solicitam que seja modificado o coeficiente que hoje é de uma vaga de estacionamento para cada 30 metros quadrados. Eles sugerem que seja ampliado para 50 metros quadrados da nave (local onde ocorre o culto).

No quesito acessibilidade, a solicitação é a de que os templos antigos e construídos em áreas de difícil acesso, como ladeiras, morros e escadarias, sejam enquadrados em uma legislação mais flexível. "Onde as condições topográficas permitirem, nós faremos os ajustamentos necessários. Onde isso não for viável, as regras seriam modificadas", explica o pastor. A flexibilização valeria também para os imóveis novos construídos nessas áreas. No caso da construção de templos em avenidas com corredor de transporte coletivo, a solicitação é de que seja dada prioridade para a construção de rampas e flexibilizada as exigências para o espaço mínimo destinado à área verde.

Os religiosos pedem que a apresentação do nome da igreja no imóvel deixe de ser considerada uma peça publicitária e seja considerada apenas um artigo de identificação. Quanto à produção de barulho, os evangélicos solicitam que seja revista a potência dos decibéis mínimos permitidos para o lado de fora do templo. Em vez do limite atual de 50 decibéis, a lei passaria a exigir 75 decibéis. A outra modificação é em relação à obrigatoriedade do Registro Geral de Imóvel (RGI). A solicitação é que haja uma mudança nos critérios de exigência feitos pela prefeitura. Em vez de solicitar o RGI, a prefeitura passaria a exigir a certidão negativa de propriedade.

O vereador Luiz Eustáquio, que solicitou a audiência pública, disse que é preciso adequar a legislação das igrejas e da própria cidade. "Os técnicos fazem leis que terminam não sendo cumpridas. Queremos discutir as reais condições de aplicação dessas normas para reduzir a ilegalidade nesse setor", afirmou. O secretário de Assuntos Jurídicos da PCR, Cláudio Ferreira, disse que, em 30 dias, a prefeitura apresentará uma minuta propondo modificações e adequações da atual legislação.

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