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domingo, 28 de junho de 2015

Adolf Eichmann, Hannah Arendt e a banalidade do mal


Quem nos acompanha há bastante tempo já sabe que a filósofa preferida do blog é Hannah Arendt, sobre quem já publicamos vários artigos (clique aqui para lê-los).

Também já tivemos a oportunidade de resenhar seu livro "Eichmann em Jerusalém", um dos textos mais acessados por aqui.

Por isso, recomendamos para sua leitura de domingo mais uma resenha sobre este mesmo livro, que - em essência - não difere muito da que fizemos, mas ambas se complementam nos detalhes. Quem a publicou desta vez foi o IHU:

A problematização do mal no julgamento de Eichmann, segundo Hannah Arendt


“A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes”, escreve Cristiane Arendt Santos Alves, da equipe do CJCIAS/CEPAT, em síntese elaborada sobre a obra Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, apresentada na noite do dia 17 de junho, pelo Projeto Abrindo o Livro, nas dependências do Sindicato dos Engenheiros do Paraná, na cidade de Curitiba. 


Eis a síntese.


“Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa”. (Hannah Arendt)

No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), que envolveu setenta e duas nações divididas entre os Aliados e o Eixo, muitos fatos relevantes transformaram a história da humanidade. Tratou-se de uma guerra marcada por fortes ataques aos civis como forma de demonstração de poder, como os ataques com bombas de fósforo, napalm, a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, e o holocausto que atingiu o povo judeu. Muitos destes ataques aos civis tinham o objetivo de destruir as forças dos países inimigos. Porém, o genocídio que acometeu o povo judeu não tinha nenhuma destas intenções. Ele não anexaria novas terras a nenhum país, não neutralizaria o poderio de fogo de nenhum dos inimigos e mesmo assim foi executado pelos países ligados ao Eixo, coordenados pelo governo alemão com extrema dedicação.

O livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, oferece um relato sobre as condições em que se deu a prisão e os julgamentos de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS (organização paramilitar ligada ao Partido Nazista), que foi responsável pela logística de transportes para a implementação da Solução Final, e as possíveis análises dos resultados deste julgamento.

O livro é uma edição revisada e ampliada a partir da cobertura do processo de Eichmann em Jerusalém, para a revista New Yorker, na qual o relato foi publicado nos meses de fevereiro e março de 1963. Nele Arendt inicia seus relatos a partir do cenário montado em Israel para a realização do julgamento de Adolf Otto Eichmann, desde sua captura em um subúrbio de Buenos Aires, na Argentina, e os métodos nada convencionais utilizados pelo Mossad, o serviço secreto do governo de Israel, que o raptou em 11 de maio de 1960. O julgamento teve início em 11 de abril de 1961, na Corte Distrital, e foi encerrado no dia 29 de maio de 1962, com a leitura da sentença da Corte de Apelação.

A obra é um extenso relato, que descreve o tribunal, com Eichmann em uma cela de vidro, gripado, e os atores envolvidos (juízes, promotores, o advogado de defesa, etc.). Sobre o acusado, faz um denso relato de suas características pessoais, seu comportamento, suas tentativas de ascensão profissional dentro e fora do Partido Nacional Socialista e da SS, demonstrando a forma como ele chegou ao seu cargo no departamento de emigração e transportes, suas tentativas de resolver a questão judaica, através da expulsão deles da Alemanha, e a busca de terras para fundação de um país judeu, onde sonhava em ter um bom cargo.

Em setembro de 1939, com a eclosão da guerra, o governo nazista revela suas reais intenções em relação ao povo judeu. Assim, inicia-se a descrição do envolvimento de Eichmann em cada etapa deste processo.

Fato sobressaliente ocorre em janeiro de 1942, quando a cúpula do partido e os mais altos funcionários públicos alemães se reúnem na Conferência de Wannsee e são acertados os detalhes para viabilizar a Solução Final, que buscava tornar a Europa livre de judeus – judenrein – através dos assassinatos em massa. Os líderes nazistas esperavam receber muitas críticas e acreditavam que precisariam convencer os ministros e funcionários públicos de alto escalão para contribuírem com o plano, mas ocorreu o contrário. Eles aceitaram com muito entusiasmo a ideia, chegando inclusive a disputar entre si as responsabilidades para a execução da Solução Final.

Outro ponto destacado pela autora foi o envolvimento dos Conselhos Judaicos na execução da Solução Final, o capítulo mais sombrio de toda a história. Como os líderes judeus participaram ativamente da destruição de seu povo? Como eles foram levados a tomar atitudes que levaram ao assassinato de 1,1 milhão de judeus? Segundo R. Pendorf (professor da Universidade de Al-Aqsa), citado no livro, “sem a cooperação das vítimas dificilmente uns poucos milhares de burocratas teriam conseguido liquidar centenas de milhares de pessoas”.

Durante o interrogatório da polícia, apresentado no tribunal, Eichamnn declarou que tinha vivido toda a sua vida segundo os princípios morais de Kant, o princípio de que minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais. Sua defesa alegou que ele simplesmente seguiu ordens de seus superiores, que advinham de Atos de Estado, pelos quais Eichmann não poderia ser responsabilizado. Mas a sequência do julgamento buscou provar o seu envolvimento em cada um dos passos dados para a execução da Solução Final, em cada um dos países envolvidos, com provas documentais e testemunhais. Apontou para o seu conhecimento a respeito da logística de funcionamento dos Centros de Extermínio no Leste, as visitas que realizou a estes locais e suas reações.

Certamente, houve muitos exageros por parte da acusação, ao ponto de colocar Eichmann acima de Heinrich Himmler (comandante militar da SS) e como inspirador de Adolf Hitler, sendo que os documentos mostravam que ele não tinha quase nada a ver com o que acontecia no leste. Sua responsabilidade era providenciar o transporte dos judeus para os campos de trabalhos forçados ou extermínio. Mesmo assim ele não escapou da pena capital.

A defesa de Eichmann teve muitas dificuldades. As provas documentais eram escassas e as testemunhas de defesa não podiam vir a Israel, uma vez que seriam presas, não contavam com auxiliares de defesa como os de acusação. Eichmann foi o auxiliar de seu advogado. Foi acusado de 12 crimes, que demonstravam claramente que sua maior culpa era a de ter sido obediente aos seus superiores, obediência esta louvada como virtude. Segundo a defesa, só os verdadeiros líderes mereciam punição, coisa que Eichmann não era com sua “obediência cadavérica”. Apesar disso, em 15 de dezembro de 1961, a Corte Distrital pronunciou sua sentença de morte. Em março de 1962, iniciam-se os trabalhos na Corte de Apelação, ainda mais visceral que a Corte Distrital, aceitando todas as alegações de que Eichmann nunca recebera ordens superiores. Todas as ordens tomadas provinham de seu julgamento pessoal quanto às questões judaicas. E, em 29 de maio, a Corte de Apelação também pronuncia sua sentença: a pena capital. No mesmo dia o presidente de Israel, Itzak Ben-Zvi, recebe seu pedido de clemência, que é negado. Então, pouco antes da meia-noite, do dia 31 de maio, foi enforcado, cremado e suas cinzas jogadas no Mediterrâneo, fora das águas israelenses.

O livro nos traz uma série de questionamentos em relação à legalidade do julgamento de Jerusalém, as irregularidades e anormalidades que nele ocorreram e acabaram por tornar pequenos os problemas morais, políticos e legais que o julgamento tinha como meta inicial, apresentando o questionamento fundamental: será que o julgamento atingiu o objetivo de fazer justiça? Será que podemos julgar um indivíduo com base em leis retroativas no tribunal dos vitoriosos? Será que o resultado seria diferente se os países do Eixo tivessem vencido a guerra? O rapto foi justificado? Será que uma lei que versa exclusivamente sobre crimes de guerra seria adequada para este caso? As perguntas ainda hoje não foram todas respondidas, ou ainda, as respostas não estão todas certas e nem erradas. Porém, o que diferenciou o julgamento de Jerusalém foi a oportunidade do povo judeu em se defender. Sob certo ponto de vista a justiça foi feita, Eichmann foi acusado, defendido, julgado e punido. Mesmo assim, a humanidade se viu diante de vários novos problemas: o julgamento de Eichmann foi legal? Que castigo seria suficiente para impedir a perpetração de crimes como o genocídio?

A definição de crimes contra a humanidade elaborada em Nuremberg, como atos desprovidos de humanidade, revelou a realidade de que a Solução Final foi um crime sem precedentes, realizada sem nenhum propósito de ganhos de qualquer espécie. Foi uma tentativa de dizimar uma população inteira, realizada por pessoas assustadoramente normais, com uma intenção absolutamente indefinida, em uma conjuntura em que era praticamente impossível distinguir entre o certo e o errado. Nesse contexto, qualquer um poderia estar no lugar de Eichmann, um aluno mediano, em um cargo mediano, querendo se destacar e ser promovido, desempenhando muito bem o seu papel segundo o que era esperado dele e de acordo com a lei vigente, o que de forma alguma o isentaria da sua parcela de culpa. Muito pelo contrário, em se tratando de assuntos políticos, o apoio e a obediência se equivalem.

Mas em todo o caso, o mais inesperado desfecho foi a reação à questão levantada pelo promotor israelense – se o povo judeu podia ou deveria ter se defendido –, uma questão tola e cruel, que acarretou as mais diversas e incríveis reações. Uma delas foram as teorias de “desejo de morte”, das quais a autora foi acusada de deduzir com a elaboração desta obra, na qual, segundo críticos, Arendt conclui que os judeus mataram a si mesmos. Tal interpretação distorce e deturpa a real intenção da obra, que era a de ser um tratado teórico sobre a natureza do mal, de como um homem que não era nenhum gênio, mas um homem comum, focado em obter progressos pessoais, nunca percebeu o que estava fazendo. “Ele não era burro”, simplesmente não refletiu sobre seus atos, e isto é banal, esse distanciamento da realidade, esse desapego moral, isso foi o que se aprendeu em Jerusalém, e isto foi uma lição, não uma explicação, nem uma teoria. A principal característica do totalitarismo é a de desumanizar, transformar homens em números, em meras engrenagens substituíveis se não renderem o que se espera deles, sejam vítimas ou algozes.

O genocídio não era sem precedentes. A história está cheia de exemplos, mas aceitá-lo como algo banal, que simplesmente acontece, abriria precedentes para outros tipos de “limpezas étnico-raciais”. Pois, se na Alemanha da Segunda Guerra se escolheu dizimar uma população por se se tratar de doentes mentais, inválidos, deficientes, homossexuais, ciganos ou judeus, qual seria a próxima motivação? E com relação à desculpa do acusado ter agido como um simples funcionário, isto também não se aplica, pois equivaleria ao criminoso que justifica seus atos nas estatísticas sobre crimes – se eu não o fizesse outro o faria. A justificativa de Ato de Estado também não se aplica, pois um Estado soberano não pode julgar atos de outro Estado soberano, e segundo esta alegação nem mesmo Hitler poderia ter sido acusado, pois esta soberania pressupõe que o Estado está acima das regras às quais os cidadãos estão sujeitos, uma vez que para manter a ordem e o poder, o Estado pode tomar medidas de emergência.

Eichmann agiu dentro dos limites do discernimento dele, sempre guiado por ordens superiores e incapaz de diferenciar o certo do errado, no contexto em que estava inserido. Porém, o que se espera em termos de humanidade é justamente esta característica, de conseguir diferenciar o certo do errado mesmo quando tudo à sua volta lhe diz o contrário.

Com base em tudo o que o livro apresenta, o que fica mais evidente foi a questão levantada pelo promotor Gideon Hausner no questionamento realizado por ele durante o interrogatório das testemunhas: o povo judeu pôde se defender? Por que não se defendeu? E o mesmo aconteceu no julgamento de Eichmann: ele pôde se defender? O povo judeu pela primeira vez pôde levar a julgamento o seu algoz, mas de que forma? As críticas ao governo israelense em relação ao andamento e à conclusão do julgamento foram muitas, assim como as críticas à obra de Arendt. O julgamento estava sendo usado pelas autoridades israelenses para unir a população judia do mundo e consolidar a criação de Israel. Muitas testemunhas puderam, finalmente, falar abertamente dos horrores sofridos nos campos de concentração.

Mas o mal que se esperava encontrar em Eichmann, um mal absoluto, de um conspirador da destruição de um povo, de um facínora nazista, esse mal não foi encontrado. Ele era um burocrata por excelência, preso às suas pequenas atividades, que não refletiu sobre os seus atos, que não teve a capacidade de avaliar as leis e ordens que lhe eram dadas dentro de um contexto humanitário. Aí está a banalidade do mal, na realização de ordens sem se pesar as conseqüências de seus atos, em se tornar mera engrenagem, só mais um, seguindo um curso que nos distancia da nossa humanidade, da nossa capacidade de pensar, valorizando apenas a nossa obediência cega. E quantas vezes essa obediência é tão valorizada como virtude? Para Eichmann, ela foi a razão da pena capital.



domingo, 16 de novembro de 2014

Quando a PM encontra Dostoievski

Dostoievski e Tolstoi com suas obras-primas. Nada mais atual...

A matéria d'O Dia foi reproduzida no IHU:

"Polícia morre e mata muito. Temos que mudar", diz comandante interino da PM


Se não fossem o distintivo e o uniforme, ninguém diria que Ibis Silva é policial há 31 anos, ainda mais comandante da Polícia Militar. Com os seus poucos mais de 1,60 metro de altura e corpo franzino, o coronel com pose de intelectual cita Guimarães Rosa, o escritor russo Dostoiévski e a filósofa alemã Hannah Arendt quando fala sobre como vai comandar a tropa até a posse do coronel Alberto Pinheiro Neto, no dia 2 de janeiro, que se recupera de uma cirurgia. Mesmo com pouco tempo de gestão, Ibis tem planos grandes, como aumentar a punição de policiais corruptos. 


A entrevista é de Constança Rezende, publicada pelo jornal O Dia, 10-11-2014.


Entre os casos que o novo comandante promete observar está o caso da Máfia da Saúde, em que O DIA denunciou fraudes em compras do Hospital Central da Polícia Militar. Esta entrevista exclusiva foi feita depois de uma inspeção na unidade, no sábado, dia em que Ibis trocou o comando de 11 unidades, inclusive na corregedoria na PM. Segundo o comandante, outras mudanças estratégicas serão feitas esta semana.

Eis a entrevista.

Quais as condições do hospital da PM?

Estão bem precárias. Estão faltando investimento, higiene, manutenção, principalmente nos elevadores e nos aparelhos de ar-condicionado. Vamos corrigir isso. Mas me impressionou muito a dedicação dos profissionais da saúde. Se não fosse isso, a situação estaria pior, já teria entrado em colapso.

E em relação às denúncias de corrupção em hospitais da Polícia Militar?

Temos inquéritos instaurados. Não conheço todo o teor dos processos, o que está sendo apurado, apenas sei das denúncias de um modo geral. A gente chama isso de corrupção porque não encontra um termo mais terrível sobre desviar da saúde, que é colocar em risco a vida de policiais. Esse hospital é mantido pelo dinheiro deles próprios. É um ato repugnante. Não tenho dúvidas de que as pessoas responsáveis serão identificadas e presas. Com o Ministério Público à frente, isso não vai acabar em pizza.

Como avalia a corrupção policial?

Corrupção gera descrédito. Quando a polícia se envolve em corrupção, sua imagem fica diretamente comprometida e, consequentemente, o seu trabalho também. As pessoas passam a não confiar mais na polícia e não a procuram mais para denunciar os crimes dos quais são vítimas. Quando isso acontece, não temos capacidade de planejar. A corrupção é lesiva.

O que pode ser feito para combatê-la?

Uma reforma estrutural. As pessoas se corrompem por conta dos valores e da oportunidade. Veem facilidade nas coisas e acham que podem aproveitar. A primeira coisa a se fazer é sinalizar que não se tolera isso e que quem insistir em se envolver com corrupção será responsabilizado criminalmente. As pessoas têm que entender que não existe brecha para roubar, e que há uma estrutura para investigar.

"Prender um policial porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é anacronismo"

Como fazer isso?

Revendo a legislação. Os regulamentos que estruturam a polícia, e sem os quais não se pode prender ninguém, são anteriores à Constituição Federal, que é voltada para o Estado de Direito Democrático. A nossa, que é da época da ditadura militar, tem que estar adaptada a isso. Como é hoje uma grande colcha de retalhos, cheia de emendas, é uma legislação onde é possível provocar lentidão nos processos. Um bom dispositivo tem que ser rápido. Uma pessoa não pode levar sete anos para ser excluída de uma corporação, e depois a sua história é de abandono. Só se resgata isso com diálogo. Não se faz polícia de cima para baixo. A gente tem que dizer que corrupção não vale a pena. Colocar um policial na prisão porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é um anacronismo.

Quando a legislação poderá ser mudada?

Isso não é uma coisa que vamos conseguir de um dia para o outro. Temos que apresentar o projeto ao Poder Executivo e discutir na Assembleia Legislativa. Mas já estamos costurando isso. Não quero chegar para o secretário de Segurança e dizer: olha, isso aqui é uma legislação que eu e meia dúzia de coronéis pensamos. Quero dizer que a gente discutiu com as associações, soldados, sargentos e que o projeto é um consenso. Meu desafio como comandante interino e futuro chefe de gabinete de coronel Pinheiro Neto é conseguir resolver o que só depende de mim.

As UPPs estão incluídas nisso?

A Secretaria de Segurança está empenhada em mapear todas as unidades de polícia pacificadora para conhecer as especificidades de cada uma. A gente precisa conversar com as pessoas, ouvir as críticas que elas têm sobre o programa. A lógica desse policiamento exige a construção de um diálogo com as comunidades e o resultado disso passa pelo que a sociedade quer. O nosso maior desafio é a Maré. São 16 comunidades, tem milícia. Mas é uma comunidade politizada, e isso é o melhor da Maré, o nosso maior trunfo. Quando as pessoas são conscientes de seus direitos e obrigações, cobram e sabem de quem cobrar. Está mobilizada e isso já facilita o diálogo. Temos interlocutores lá. Sem críticas, nós não evoluímos.

Muitas das queixas dos moradores envolvem o tratamento de alguns policiais e a corrupção. O que pode ser feito?

Uma mudança na estrutura da nossa corregedoria. Ela tem que estar na rua, investigando e fiscalizando a conduta dos policiais, indo aos batalhões, às unidades. Hoje ela trabalha muito dentro da lógica do papel, solucionando processos, sindicâncias. Podemos fazer isso sem mexer no efetivo, pela tecnologia, interligarmos as corregedorias, apesar de termos dificuldade com a nossa internet, por incrível que pareça. Como podemos falar de inteligência com internet ruim em pleno 2014?

O governador reeleito Luiz Fernando Pezão costuma dizer que hoje temos uma polícia formada para a guerra. O senhor concorda?

Sim, e por isso a palavra de ordem é humanização. O que acontece quando a lógica é a guerra? Se desumaniza, os marcos morais sofrem abalo, e já não se sabe o que é certo e errado. Quem despreza a vida não está preocupado com a corrupção. Enfrentamos as drogas invadindo favela, tentando prender traficante, trocando tiros. Imagina o que passa na cabeça de um garoto de 25 anos que deve entrar num caveirão de madrugada? Vai se transformar num bruto, numa máquina de matar e morrer e, quando isso acontece, está a um passo da corrupção. Se ele não respeita a vida, não respeita mais nada. O grande mérito das UPPs é que ela opera com outra lógica.

Isso passa por diminuir os elevados índices de auto de resistência dos policiais?

Sim. A polícia tem que garantir a dignidade humana e isso não combina com auto de resistência elevado. Hoje a polícia mata cinco pessoas por dia no país. Ela morre e mata muito. É um ciclo perverso de brutalidade. Temos que mudar isso. A violência está comprometendo o futuro. Cerca de 70% dos homicídios são de jovens negros, pobres e moradores de periferia. Isso é barbárie.

Como mudar?

Podemos começar cuidando do nosso efetivo, tornando as academias mais humanas, melhorando as escalas. Trabalho policial é afetivo, com a redução do medo da sociedade. Por isso que a arte e a poesia amenizam isso.

O senhor usa a literatura para lidar com policiais?

Sim. Meu escritor favorito é Guimarães Rosa. Em ‘Grande Sertão: Veredas’, o personagem Riobaldo diz que comandante é para aliviar os aflitos. A gente precisa aliviar a alma dos nossos comandados, filosofia também de Dostoiévski.

Qual será seu principal desafio?

Conseguir mapear todas as medidas que a gente precisa tomar imediatamente. Já identifiquei os problemas, agora tenho que fazer o panorama operacional. É o que São João Batista fez com Jesus, pacificar o caminho para o Salvador. O meu papel é ser uma espécie de João Batista para o Pinheiro.



domingo, 23 de março de 2014

Hannah Arendt e a banalidade do mal

Como o nosso leitor mais assíduo já deve ter percebido, Hannah Arendt (1906-1975) é figurinha carimbada do nosso blog. Vira-e-mexe, a filósofa alemã de origem judaica tem algum artigo sobre a sua vida e obra publicado aqui.

Já tivemos oportunidade, por exemplo, de resenhar seu livro "Eichmann em Jerusalém" bem como o filme que o inspirou, "Hannah Arendt" (2012).

A opinião da vez vem de Saul Kirschbaum, pesquisador brasileiro com Doutorado em Letras, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo (entre outros títulos igualmente brilhantes), em entrevista ao IHU:

A banalidade das engrenagens da máquina nazista. Entrevista especial com Saul Kirschbaum

“Eu não diria que ‘o nazismo legitimou a irracionalidade e a barbárie’, mas sim que mostrou que, nestas circunstâncias, os homens parecem propensos a abrir mão de sua condição de indivíduos, a afastar-se da realidade, a deixar de pensar”, avalia o pesquisador.

A Maldade foi um dos grandes temas sobre os quais a filósofa Hannah Arendt se debruçou. Se anteriormente o Mal era encarado, do ponto de vista religioso, como algo demoníaco, capaz de corromper os homens e explorar suas fraquezas morais, a partir do julgamento de Adolf Eichmann, no entanto, a pensadora passa a refletir sobre o tipo de maldade que se estabeleceu durante o regime nazista. Os atos eram monstruosos, mas para Arendt, aquele agente pequeno, adoentado e, acima de tudo, superficial não transparecia o mal diabólico tão alardeado.

“Se é assim, a barbárie não é um atributo exclusivo de ‘bárbaros’. Pode perfeitamente irromper entre povos muito civilizados”, esclarece Saul Kirschbaum, pesquisador da cultura hebraica. “Basta que ‘a raça eleita’ ou ‘a religião verdadeira’, ou qualquer outra construção fundamentalista se sinta ameaçada”. É o que ocorreu com o desmoronamento da Iugoslávia e, segundo Kirschbaum, o que parece estar acontecendo na esteira da Primavera Árabe, “com as tentativas de grupos fundamentalistas de obter o poder no Egito e na Síria, para instalar estados de estrita e excludente observância religiosa”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador destaca a evolução do pensamento de Hannah Arendt que perpassa todas as suas obras. Chama atenção também para o fato de que, mesmo hoje, 50 anos depois, a filósofa ainda não foi totalmente compreendida. E destaca: “Não é dizer, claro, que não houvesse, entre os nazistas, o mal demoníaco, monstruoso; mas o que preocupa é que, para o funcionamento da máquina nazista, para a irrupção da barbárie, bastam agentes comuns, simples funcionários de carreira”.

Saul Kirschbaum possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, mestrado e doutorado em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo – USP e pós-doutorado pela Unicamp. É autor de Viagens de um caminhante solitário: Ética e estética na obra de Samuel Rawet (São Paulo: Humanitas, 2011), Transliteração do Hebraico para Leitores Brasileiros (São Paulo: Ateliê Editorial, 2009) e A presença judaica na Idade Média Ibérica: a poesia laica e o idioma hebraico (São Paulo: Edições Targumim, 2008). Foi também organizador de Dez Ensaios para Samuel Rawet (Brasília: LGE Editora, 2007) e de Ensaios sobre literatura israelense contemporânea (São Paulo: Humanitas, 2011).

A Programação de Páscoa do IHU deste ano terá como fio condutor a problemática do mal na contemporaneidade. A programação propõe uma abordagem transdisciplinar do tema, que toma em consideração a manifestação e o engendramento do mal em contextos sociopolíticos e culturais impulsionados pela racionalidade moderna e seus impactos na organização política da sociedade desde o último século. A inscrição para o evento pode ser feita aqui.

Nesta semana, nos dias 19 e 20, ou seja, quarta e quinta-feira, será exibido o filme Hannah Arendt de Margarethe von Trotta. O filme será comentado e debatido pelo Prof. Dr. Adriano Correia Silva - UFG. Por sua vez, Abrão Slavutzky, psicanalista, proferirá duas conferências, respectivamente às17h30min e às 19h30min, sob o título Humor e crueldade no século XX e Crueldade e condição humana. Nos dias seguintes será exibido e comentado o documentário Shoah de Claude Lanzmann.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que a obra "Eichmann em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal", de Hannah Arendt, foi tão criticada pela comunidade judaica? Quais foram os principais pontos que causaram essa repercussão negativa?

Saul Kirschbaum - Como a autora explicou no “Pós-escrito”, o livro se tornou foco de controvérsia antes mesmo de sua publicação, dela vindo a participar “gente que se gabava de não ter lido o livro e prometia não o ler nunca”. Foram levantadas questões que, segundo Arendt, nada tinham a ver com o livro, ou que distorciam seriamente seu pensamento.

Foram-lhe imputadas opiniões que nunca expressara. Martin Buber [1], por exemplo, até então muito seu amigo, a acusou de não ter ahavat Israel, amor pelo povo de Israel.

A primeira delas dizia respeito à conduta do povo judeu durante os anos da Solução Final, ou seja, se os judeus podiam ou deviam ter se defendido, e envolvia conceitos como “mentalidade de gueto” e um “desejo de morte”, inconsciente, de todo o povo judeu. A autora lembra que tinha “descartado essa questão como tola e cruel, porque atestava uma fatal ignorância das condições da época”. Na verdade, ela se limitara a discutir o papel da liderança judaica, dos Conselhos Judaicos, insistindo na “diferença entre ajudar judeus a emigrar e ajudar os nazistas a deportá-los”. Em 1972, Isaiah Trunk [2] publicou Judenrat - The Jewish Councils in Eastern Europe under Nazi Occupation (Lincoln: University of Nebraska Press, 1996) [3], leitura indispensável para quem quer entender melhor esse assunto.

Outra questão importante tinha a ver com o subtítulo do livro, o conceito novo de “banalidade do mal”. Isto foi entendido pelos críticos como uma tentativa de inocentar Eichmann, ou substancialmente reduzir sua culpabilidade. Tenho a impressão de que, passadas cinco décadas, o que Arendt quis expressar com “banalidade do mal” ainda não foi plenamente entendido. A seu ver, Eichmann não tinha a mentalidade de um criminoso, nunca teve a intenção de fazer o mal. Seu esforço para obter progressos pessoais, típico de funcionários de carreira, “não era de forma alguma criminoso; ele certamente nunca teria matado seu superior para ficar com seu posto”. Ela atribuiu a predisposição de Eichmann “a se tornar um dos grandes criminosos desta época” a “pura irreflexão”, não a “qualquer profundidade diabólica ou demoníaca”.

Por fim, acho que importa pôr em evidência a crítica ao interesse da autora em investigar o tipo de pessoa que era Eichmann, que envolve a questão, ainda atual, de se “alguém que não estava presente tem o direito de ‘julgar’ o passado”. Ou seja, que falar sobre o Holocausto seria privilégio dos sobreviventes. Para alguns desses críticos, “não deviam ter deixado que ele [Eichmann] falasse nada — ou seja, que o julgamento fosse conduzido sem defesa”.

IHU On-Line - Qual foi o impacto da afirmação de Arendt de que Eichmann era um homem comum, um sujeito qualquer, um burocrata que se autoproclamava cumpridor de ordens, e não um monstro, um psicopata que se comprazia com sua tarefa de organizar a logística dos judeus para os campos de extermínio?

Saul Kirschbaum - Esta afirmação, a meu ver, vai de encontro a uma corrente de opinião amplamente difundida, segundo a qual o nazismo foi o resultado da tomada do poder na Alemanha por um bando de loucos assassinos, monstros psicopatas. Se o nazismo foi operado por homens comuns, burocratas cumpridores de ordens, então pode se pensar que não se tratou de um evento singular, uma interrupção anômala do fluxo histórico — que no geral vai na direção do progresso —, mas de uma possibilidade inerente à civilização ocidental, ou talvez à própria espécie humana. A extensão dos crimes nazistas, então, seria resultado da maior disponibilidade de meios técnicos de destruição em massa.

IHU On-Line - Em que medida o conceito de banalidade do mal arendtiano ajuda na reflexão sobre a relação entre os totalitarismos, a burocracia e a impessoalidade num mundo marcado pela técnica?

Saul Kirschbaum - A meu ver, esta é a grande contribuição de Hannah Arendt. Segundo ela, os totalitarismos implementam “o governo de Ninguém”. Em suas palavras, “a essência do governo totalitário, e talvez a natureza de toda burocracia, seja transformar homens em funcionários e meras engrenagens, assim os desumanizando”. Então, qualquer forma de totalitarismo, seja qual for a ideologia que o alimenta, qualquer forma de fundamentalismo, de “posse da verdade”, deve ser vista como potencialmente desumanizadora, tendente a transformar homens em funcionários, meras engrenagens. Estas seriam as condições necessárias e suficientes para a autoanulação do indivíduo e para a irrupção do mal “banal”.

IHU On-Line - Em que aspectos a obra dessa filósofa nos alerta para a irrupção da barbárie, que pode acontecer em qualquer lugar e entre quaisquer povos?

Saul Kirschbaum - Em 1971, ao escrever O pensar, primeira parte de A Vida do Espírito (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009), Hannah Arendt lembrava que, assistindo ao julgamento de Eichmann, não tinha confirmado “nossa tradição de pensamento — literário, teológico ou filosófico — sobre o fenômeno do mal”. Ou seja, que o mal “é algo demoníaco”, que “os homens maus agem por inveja”, ou “por fraqueza”, ou “pelo ódio poderoso que a maldade sente pela pura bondade”, ou “pela cobiça”. Ao contrário, observou que a “superficialidade do agente tornava impossível retraçar o mal incontestável de seus atos, em suas raízes ou motivos, em quaisquer níveis mais profundos. Os atos eram monstruosos, mas o agente — ao menos aquele que estava agora em julgamento — era bastante comum, banal, e não demoníaco ou monstruoso”. Se é assim, a barbárie não é um atributo exclusivo de “bárbaros”. Pode perfeitamente irromper entre povos muito civilizados, basta que “a raça eleita” ou “a religião verdadeira”, ou qualquer outra construção fundamentalista se sinta ameaçada. O esclarecimento, o progresso da razão, não é suficiente para impedir a irrupção do ódio interétnico ou interconfessional.

Não é dizer, claro, que não houvesse, entre os nazistas, o mal demoníaco, monstruoso; mas o que preocupa é que, para o funcionamento da máquina nazista, para a irrupção da barbárie, bastam agentes comuns, simples funcionários de carreira.

IHU On-Line - Que nexos podem ser estabelecidos entre a irrupção do mal na Shoá e a importância da categoria cristã da memória? Isto é, da importância em se lembrar o que houve para que uma segunda injustiça não seja imputada às vítimas?

Saul Kirschbaum - A importância dessa questão não passou despercebida para Hannah Arendt. No “pós-escrito”, buscando analisar o sentido do julgamento de Eichmann, ela manifesta sua opinião de que o julgamento devia acontecer no interesse da justiça e nada mais. E lembra que ficou “contente ao ver que a sentença citava Grotius [4], que explica [...] que a punição é necessária ‘para defender a honra ou a autoridade daquele que foi afetado pelo crime, de forma a impedir que a falta de punição possa causar sua desonra’”. A indiferença, que acompanha a desumanização dos indivíduos, sua transformação em funcionários, em meras engrenagens, conduz à impunidade dos agressores, a qual imputa às vítimas uma segunda injustiça — a presunção de sua culpabilidade.

Essa postura se manifesta claramente no comentário de Jean Améry [5] em Além do crime e castigo - tentativas de superação (Rio de Janeiro: Contraponto, 2013): “Nem o grito de ‘rebenta!’, nem as suspeitas que se comentavam pela rua, ou seja, que os judeus deviam ter cometido algo grave, pois em caso contrário não seriam tratados tão severamente, eram alucinações histéricas. ‘Se estão sendo detidos é porque algo devem ter tramado’, conjecturou em Viena uma operária social-democrata.”

IHU On-Line - Em que sentido a Shoá e a peculiaridade que o mal assumiu nesse episódio são emblemáticas para compreendermos a política do nosso tempo?

Saul Kirschbaum - Voltando ao julgamento de Eichmann, a autora sugeriu que a peculiaridade do episódio nazista não é o genocídio, “pela simples razão de que os massacres de povos inteiros não são sem precedentes”. O tipo de crime de que se tratava poderia ser melhor descrito pela expressão “massacre administrativo”, que “tem a virtude de dissipar a suposição de que tais atos só podem ser cometidos contra nações estrangeiras ou de raça diferente”. Assim, “esse tipo de morte pode ser dirigido contra qualquer grupo determinado, isto é, que o princípio de seleção é dependente apenas de fatores circunstanciais”. E alerta para uma potencialidade que já vem sendo explorada em obras de ficção científica: “na economia automatizada de um futuro não muito distante, os homens podem tentar exterminar todos aqueles cujo quociente de inteligência esteja abaixo de determinado nível”.

Uma das características, portanto, da política moderna é a permanente possibilidade de que um grupo, motivado por alguma ideologia racial ou religiosa ou social, possa tomar conta do aparelho do Estado e mobilizar a população para o imperativo de promover a “limpeza” étnica ou religiosa ou social.

IHU On-Line - A partir dessa constatação, em que aspectos o nazismo legitimou a irracionalidade e a barbárie?

Saul Kirschbaum - Para os nazistas, os judeus impediam a “legítima” e necessária ascensão do povo alemão, e por isso mereciam ser exterminados. Eu não diria que “o nazismo legitimou a irracionalidade e a barbárie”, mas sim que mostrou que, nestas circunstâncias, os homens parecem propensos a abrir mão de sua condição de indivíduos, a afastar-se da realidade, a deixar de pensar. Há um líder, ou partido, ou centro religioso, que pensa por eles. E assim nem percebem que estão participando ativamente na irrupção da irracionalidade e da barbárie. É o que aconteceu no desmoronamento da Iugoslávia e o que parece estar acontecendo na esteira da “primavera árabe”, com as tentativas de grupos fundamentalistas de obter o poder no Egito e na Síria, para instalar estados de estrita e excludente observância religiosa.

IHU On-Line - Em outra entrevista à IHU On-Line, o senhor menciona que persiste na Europa o ódio ao Outro, ao Estrangeiro, àqueles que tiram as vagas de trabalho dos cidadãos “autênticos”. Qual é o limite para que esse ódio se converta numa expressão objetiva do mal?

Saul Kirschbaum - A presença do estrangeiro, do imigrante — especialmente se for “ilegal” — sempre pode ser mobilizada, na forma de ódio ao Outro, como fator de consolidação da unidade da nação, ou como argumento para justificar dificuldades econômicas. Isto aconteceu na Espanha do século XV e na Alemanha da primeira metade do século XX, para citar apenas dois exemplos em que os judeus estiveram na posição de “outro”.

Manifestações de xenofobia continuam a ocorrer nos principais estados europeus. Se as circunstâncias econômicas forem favoráveis (ou seja, negativas), o ódio ao Outro pode converter-se em expressão objetiva do mal, seja na forma de “massacres administrativos”, seja na forma de rejeição de refugiados que tentam entrar ilegalmente no país, o que frequentemente tem dado origem a desastres com imensas perdas de vidas.

IHU On-Line - Nessa lógica, como analisa a questão dos refugiados e do conflito persistente entre Israel e Palestina?

Saul Kirschbaum - Aparentemente, o conflito persistente entre Israel e Palestina não pode ser resolvido, a curto prazo, de forma satisfatória para os dois lados. Questões como o destino dos refugiados palestinos e a sobrevivência de Israel como estado seguro, dentro de fronteiras reconhecidas, indicam que ambos terão de fazer concessões dolorosas para que a paz possa ser construída, e eu não me sinto capaz de oferecer qualquer sugestão de solução que já não tenha sido exaustivamente considerada. Mas devemos ter presente que os fundamentalistas de parte a parte ocupam-se em dificultar ainda mais esse difícil processo. Enquanto uns se opõem à criação de um estado palestino por conta do “direito histórico dos judeus a todo o território da Grande Israel”, e argumentos similares, outros afirmam que a paz no Oriente Médio só poderá ser construída com a extirpação do Estado de Israel e a expulsão de todos os judeus.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Saul Kirschbaum - Sim, gostaria de aproveitar a oportunidade para encerrar esta entrevista com um comentário de Zygmunt Bauman [6] em Modernidade e Holocausto (Rio de Janeiro: Zahar, 1998), escrito em 1989.

Não é o Holocausto que achamos difícil de entender em toda a sua monstruosidade. É a nossa Civilização Ocidental que o Holocausto tornou quase incompreensível [grifo no original] [...] Se Hilberg tem razão ao afirmar que nossas instituições sociais mais decisivas nos escapam ao controle prático e ao alcance mental, então não são apenas os acadêmicos profissionais que devem se preocupar. Verdade, o Holocausto aconteceu há quase meio século. Verdade, seus resultados imediatos estão ficando rapidamente para trás. A geração que viveu essa experiência direta praticamente já desapareceu. Mas — e este é um terrível e sinistro “mas” — aqueles aspectos de nossa civilização outrora familiares e que o Holocausto tornou de novo misteriosos ainda fazem bem parte de nossa vida. Não foram eliminados. Também não o foi, portanto, a possibilidade do Holocausto. (BAUMAN, 1989, p. 107).


Por Márcia Junges e Andriolli Costa




Notas

[1] Martin Buber (1878-1965): filósofo vienense de origem judaica, foi o primeiro professor de uma cátedra de Judaísmo na Universidade de Frankfurt. Com a ascensão do nazismo, abandonou a cátedra e mudou-se para Jerusalém, onde passou a lecionar como professor da Universidade Hebraica. A obra de Buber centra-se na afirmação das relações interpessoais e comunitárias da condição humana. (Nota da IHU On-Line)

[2] Isaiah Trunk (1905-1981): historiador polonês, reconhecido como um dos maiores pesquisadores do extermínio judeu durante o regime nazista. Após fugir para a União Soviética, Israel e Canadá, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde se tornou chefe arquivista do Institute for Jewish Research - YIVO, em Nova York. (Nota da IHU On-Line)

[3] Judenrat ou Judenräte: Conselho Judeu, em alemão. (Nota da IHU On-Line)

[4] Hugo Grotius (1583-1645): jurista a serviço da República dos Países Baixos. É considerado o precursor, junto com Francisco de Vitória, do Direito internacional, baseando-se no Direito natural. Foi também filósofo, dramaturgo, poeta e um grande nome da apologética cristã. (Nota da IHU On-Line)

[5] Jean Améry (1912-1978): escritor e filósofo austríaco, pseudônimo de Hans Mayer, trocado após o final da II Guerra Mundial. Recusou-se a escrever em alemão por muitos anos. Mudou-se para a Bélgica para fugir dos nazistas, e quando estes invadiram a cidade participou ativamente da resistência. Foi capturado e mantido prisioneiro nos campos de concentração de Auschwitz, Buchenwald e Bergen-Belsen, e liberado em 1945. De suas obras, citamos Más allá de la culpa y la expiación. Tentativas de superación de una víctima de la violencia (Valencia: Pre-Textos, 2004), At the Mind’s Limits: Contemplations by a Survivor On Auschwitz and its Realities (Bloomington: Indiana University Press, 1998) e a emblemática On Suicide - A Discourse on Voluntary Death (Bloomington: Indiana University Press, 1999). Améry cometeu suicídio em 1978. (Nota da IHU On-Line)

[6] Zygmunt Bauman (1925): sociólogo polonês, professor emérito nas Universidades de Varsóvia, na Polônia e de Leeds, na Inglaterra. Publicamos uma resenha do seu livro Amor Líquido (São Paulo: Jorge Zahar Editores, 2004), na 113ª edição do IHU On-Line, de 30-08-2004, disponível em http://bit.ly/ihuon113. Publicamos uma entrevista exclusiva com Bauman na revista IHU On-Line edição 181, de 22-05-2006, disponível para download em http://bit.ly/ihuon181. (Nota da IHU On-Line)



quinta-feira, 6 de março de 2014

Hannah Arendt, um filme para pensar

Hannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa judia de origem alemã que analisou a questão do mal como poucos outros pensadores fizeram na história da humanidade.

Perseguida pelo nazismo, abandonou a Alemanha em 1933, antes da guerra portanto, e se refugiou em Paris até que as tropas de Hitler invadiram a França em 1940, quando ela foi enviada ao campo de concentração de Gurs.

Conseguiu fugir para os Estados Unidos em 1941, onde viveu como apátrida por 18 anos, e ali lecionou Filosofia, sempre se concentrando nos temas da maldade humana e do totalitarismo como sistema político opressor.

Por ocasião do julgamento de Adolfo Eichmann, sequestrado em Buenos Aires em 1960, processado em Israel e ali executado em 1962, Hannah Arendt esteve presente a várias sessões do tribunal especialmente montado em Jerusalém para sentenciar o criminoso nazista.

Fruto dessa experiência, foi publicada uma série de artigos na conceituada revista americana The New Yorker, que depois se transformariam no livro "Eichmann em Jerusalém", que já tivemos oportunidade de resenhar aqui no blog, e recomendamos a sua leitura por se tratar de uma das mais grandiosas obras sobre a maldade que o gênio humano foi capaz de produzir.

Hannah Arendt conseguiu se distanciar o suficiente do objeto analisado, a triste figura de Eichmann e o regime opressor que ele representava, para traçar um perfil demolidor de uma era em que a maldade atingiu níveis estratosféricos, e não se eximiu de criticar as lideranças judaicas locais que, de alguma forma, colaboraram com os nazistas no genocídio de seus próprios irmãos.

Este foi apenas um lado da profunda análise de Arendt que, por exemplo, teve insights brilhantes como aquele em que diz que, para o militante nazista de qualquer estirpe, a tentação era ser bom.

Afinal, apesar da monstruosidade de Hitler e seus asseclas, a maldade que eles perpetraram foi executada - em sua imensa maioria e nas mais infames formas - por gente absolutamente comum, e nenhuma sociedade presente ou futura está imune a que essa barbárie volte a acontecer.

Entretanto, tanto a crítica ao que ela chamou de "banalidade do mal" como a exposição dos líderes judeus que ajudaram, de alguma forma, a azeitar a máquina nazista de matar, trouxeram a Arendt a repulsa exarcebada de setores da mídia mundial à época, o ódio da comunidade judaica, bem como a perda de algumas amizades que lhe eram muito preciosas.

As feridas da Segunda Guerra Mundial ainda estavam abertas e Hannah, de certa forma, estava muito adiante do seu tempo no papel de observadora daquele fenômeno social pantagruélico. 

É precisamente sobre este período que trata o filme "Hannah Arendt" (2012), dirigido por Margarethe von Trotta, com Barbara Sukowa no papel-título.

É preciso alertar que não estamos falando de um filme, digamos, comercial, já que ele vai fundo no pensamento e nas citações de Hannah Arendt e de outros filósofos, e sua preocupação é instigar o espectador a pensar.

Trata-se, portanto, de um filme muito mais "pensado" e "falado" do que propriamente "visto".

Demorou algum tempo para que se entendesse o que a filósofa percebeu com Eichmann em Jerusalém. 

O fato de ser judia fez com que a frieza de sua análise e o seu distanciamento crítico circunstancial fossem muito mal recebidos à época, mas os ânimos serenaram a tempo de que o seu trabalho fosse reconhecido e respeitado.

Nunca é demais lembrar, também, que o Estado de Israel era muito recente quando esses fatos se desenrolaram, e havia uma política deliberada em renegar a passividade das vítimas do holocausto e acentuar a capacidade de reação do povo judeu às constantes perseguições que sofreu ao longo de sua história.

Foi nesse contexto que Hannah Arendt viveu e pensou, e o filme em questão, entre um cigarro e outro fumado pela filósofa (devem ser dezenas em 1 hora e 40 minutos em cena), o espectador mais paciente e atento ganha uma preciosa lição sobre o que significa (e como é bom) simplesmente pensar, mesmo nos momentos mais difíceis.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Hannah Arendt comenta sobre papa João XXIII

Um artigo interessante publicado no IHU sobre a opinião que a filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt tinha do papa João XXIII:

A verdadeira força de João XXIII. Artigo de Hannah Arendt

Em 1965, nas páginas da revista New York Review of Books, Hannah Arendt traça um retrato de João XXIII, sem temores reverenciais. Não são os dotes intelectuais do pontífice que atraem a sua atenção, mas sim a autenticidade da sua religiosidade e, ainda mais, as suas implicações profundamente humanas.

Publicamos aqui um trecho do livro Il papa cristiano. Umanità e fede in Giovanni XXIII, de Hannah Arendt. O texto foi publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 14-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Diário da alma, os diários espirituais de Angelo Giuseppe Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII quando se tornou papa, é um livro estranhamente decepcionante e estranhamente fascinante. Escrito em grande parte em períodos de retiro, ele consiste em expressões de devoção e de autoexortações infinitamente repetitivas, "exames de consciência" e anotações de "progresso espiritual", apenas com raríssimas referências a acontecimentos reais, de modo que, por páginas e páginas, ele parece um livro da escolar elementar sobre como ser bom e evitar o mal.

No entanto, no seu modo estranho e incomum, ele consegue oferecer uma resposta clara a duas questões que estavam nas mentes de muitas pessoas, quando, entre o fim de maio e o início de junho de 1963, "Angelo Giuseppe Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII", jazia no leito de morte no Vaticano.

Quem me chamou a atenção para tais perguntas de modo simples e inequívoco foi uma camareira romana que, um dia, me disse: "Senhora, esse papa era um verdadeiro cristão. Como foi possível? E como pôde acontecer que um verdadeiro cristão se sentasse no trono de São Pedro? Ele não teve que ser primeiro nomeado bispo, arcebispo e cardeal, antes de ser, finalmente, eleito papa? Ninguém se deu conta de quem ele realmente era?".

Bem, a resposta à última das suas três perguntas parece ser "não". Ele não estava entre os papáveis quando entrou no conclave; e os alfaiates vaticanos não tinham preparado nenhum hábito do seu tamanho. Ele foi eleito porque os cardeais não conseguiram entrar em acordo e estavam convencidos de que, como ele mesmo escreveu, "eu seria um papa de provisória transição", sem muitas consequências. "No entanto", continuava, "aqui estou eu, já às vésperas do quarto ano do meu pontificado, com um imenso programa de trabalho na minha frente para ser realizado perante os olhos do mundo inteiro, que olha e espera".

O que surpreende não é tanto o fato de ele não ser contado entre os papáveis, mas que alguém possa ter pensado que ele era uma figura sem consequências. No entanto, tudo isso é desconcertante apenas retrospectivamente. Na verdade, a Igreja pregava a imitatio Christi há quase 2 mil anos, e ninguém pode dizer quantos párocos e monges podem ter existido que, vivendo na obscuridade ao longo dos séculos, afirmaram como o jovem Roncalli: "Eis, portanto, o meu modelo: Jesus Cristo", sabendo perfeitamente bem, mesmo aos 18 anos, que ser "semelhante ao bom Jesus" significava ser "tratado como um louco": "Eles dizem e acreditam que eu sou um tolo. Talvez eu seja, mas o meu amor próprio não permitiria que eu pensasse assim. Esse é o lado engraçado de tudo isso".

Mas a Igreja é uma instituição e, especialmente a partir da Contrarreforma, esteve mais interessada em manter as crenças dogmáticas do que a simplicidade da fé. Ela não favoreceu a carreira eclesiástica de homens que tinham tomado ao pé da letra o convite: "Segue-me!". Não que eles temessem conscientemente os elementos claramente anarquistas presentes em um modelo de vida pura e autenticamente cristã; eles simplesmente consideravam que "sofrer e ser desprezado por Cristo e em Cristo" era a política equivocada.

E era justamente isso que Roncalli desejava ardente e entusiasticamente quando citava, em seguida, essas palavras de São João da Cruz. E o desejava oo ponto de "trazer mais viva a marca [...] da semelhança com Cristo crucificado", já desde a cerimônia da sua consagração episcopal, deplorando o fato de "ter sofrido pouco demais até agora" e esperando e desejando que "o Senhor me visite com tribulações particularmente aflitivas", "alguns grandes sofrimentos e aflições do corpo e o espírito".

Ele acolheu a sua morte dolorosa e prematura como confirmação da sua vocação: o "sacrifício" necessário para a grande obra que ele devia deixar incompleta. A relutância da Igreja em nomear aos cargos mais altos aqueles poucos cuja única ambição era imitar Jesus de Nazaré não é difícil de compreender.

Também pode ter havido uma época em que os membros da hierarquia eclesiásticas raciocinaram que o Grande Inquisidor dostoievskiano, temerosos de que, nas palavras de Lutero, "o destino mais duradouro da palavra de Deus é de desordenar o mundo com a sua mensagem, porque o sermão de Deus vem para mudar e renovar a terra inteira até conduzi-la a ela". Mas esses tempos já estão longe. Eles tinham esquecido que "ser gentil e humilde [...] não equivale a ser fraco e acomodado", como Roncalli anotou em uma ocasião.

E é precisamente isso que eles estavam destinados a descobrir: que a humildade diante de Deus e a submissão diante dos homens são duas coisas bem diferentes, e, por mais que fosse grande em certos ambientes eclesiásticos a hostilidade contra esse papa absolutamente atípico, é mérito da Igreja e da sua hierarquia que ela não se excedeu e que muitos alto dignitários, os príncipes da Igreja, acabaram sendo conquistados por Roncalli.



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A gênese do mal

Alguns dias atrás republicamos aqui a entrevista de Philip Zimbardo sobre o mal como condição inerente ao ser humano.

Aproveitamos agora para reproduzir, também, interessante artigo comparativo de teorias sobre o mal, publicado na Veja em 24/11/12:

Como nasce o mal

Contrariando estudos clássicos, pesquisa mostra que pessoas que cometem atos cruéis a mando de autoridades não o fazem por obediência cega, mas por acreditarem estar fazendo a coisa certa

Grande parte da compreensão sobre como pessoas normais se comportam em ditaduras vem de estudos realizados nos anos 1960 e 1970. A Segunda Guerra Mundial ainda estava viva na lembrança e cientistas de todo o mundo tentavam explicar os horrores vistos na Alemanha nazista, onde cidadãos comuns — até mesmo exemplares — cometeram atos de extrema crueldade a mando do governo. Pesquisas clássicas lideradas pelos psicólogos americanos Stanley Milgram e Philip Zimbardo mostraram que o mais pacato dos seres humanos poderia cometer atos terríveis se assim lhe fosse ordenado pelas autoridades, pois teríamos uma tendência inata à obediência e à submissão.

Um novo artigo publicado na edição desta semana da revista PLOS Biology revisita as conclusões desses estudos e afirma que as pessoas que agiram daquela maneira não eram apenas motivadas pela obediência cega, mas também demonstravam entusiasmo ao realizar atrocidades. Pessoas capazes de cometer atos cruéis não são penas receptoras passivas de ordens; elas também se identificam com autoridades abusivas, e acreditam estar fazendo a coisa certa mesmo quando são violentas.

Essa discussão começou no início da década de 1960, logo após o julgamento de Adolf Eichmann, um burocrata nazista que ajudou a elaborar os planos de extermínio de judeus. Eichmann, que conseguiu se esconder durante dez anos na Argentina, estava sendo julgado por ter ajudado a transportar milhões de pessoas para os campos de concentração. No entanto, o que espantou os pesquisadores da época é que ele parecia ser um sujeito normal, que apenas cumpria ordens de autoridades — mesmo que essas ordens implicassem no genocídio. No livro Eichmann em Jerusalém, a filósofa alemã Hannah Arendt cunhou a expressão "banalidade do mal" para explicar por que grandes crimes da humanidade não foram cometidos por monstros, mas por gente comum que aceita ordens superiores. Nos anos seguintes, a tese de origem a um grande número de pesquisas sobre o assunto.

Autoritarismo de laboratório — Em 1963, Stanley Milgram conduziu um experimento para comprovar a ideia de que pessoas comuns obedeciam de modo cego às ordens das autoridades. Pesquisador da Universidade Yale, ele convocou 40 voluntários para participar do estudo, mas avisou apenas que iriam fazer parte de um teste de memória. Todos foram designados para a posição de "professor" e instados a ajudar um segundo voluntário, que seria o "aluno", a memorizar uma série de palavras. A cada palavra errada, deveriam aplicar um choque elétrico no aluno. Os choques começavam leves, com apenas 15 volts, mas cresciam a cada resposta errada até atingir o valor de 450 volts, que pode ser mortal para um ser humano.

O que os voluntários não sabiam é que o homem respondendo às perguntas era um ator, e os choques não eram reais. Milgram não estava interessado na memória, mas em quão longe os voluntários iriam ao aplicar os choques elétricos. E eles foram longe: todos os participantes deram choques de até 300 V. Desses, 65% não pararam de aplicar os choques até atingir os 450 volts – mesmo com os atores fingindo extremo sofrimento. Segundo o psicólogo, o experimento mostra que pessoas normais estariam dispostas até a matar um completo estranho simplesmente por terem recebido a ordem de uma autoridade.

Já o estudo realizado por Philip Zimbardo na Universidade de Stanford, em 1971, buscou analisar como as pessoas estão dispostas a assumir papéis abusivos se esses lhes forem designados por autoridades. Zimbardo escolheu 24 voluntários, e os separou de modo aleatório em dois grupos: guardas ou prisioneiros. Eles foram colocados dentro de uma falsa prisão construída no Departamento de Psicologia da universidade, e os guardas instruídos a agir do modo que fosse necessário para manter o controle.

Seu objetivo era observar a interação entre os dois grupos, e ver como se comportariam sem uma autoridade por perto. Os resultados foram chocantes. Os guardas começaram a agir de modo tão abusivo e violento que o estudo precisou ser interrompido depois de apenas seis dias. Zimbardo concluiu que os voluntários assumiram um comportamento autoritário porque se adequaram de modo automático ao papel que lhes foi designado, mesmo sem receber ordens específicas para isso. Segundo o psiquiatra, a brutalidade era apenas uma consequência da representação do papel de guarda e da pressão do resto do grupo.

Tanto o estudo de Milgram quanto o de Zimbardo se tornaram referências na área. Falavam sobre a natureza humana e a submisso do homem à autoridade — e ambos deram origem a filmes, documentários e livros diversos.

Soldados nazistas conseguiam
se divertir durante a guerra.
Fé na autoridade — No entanto, o novo artigo escrito por Alex Haslam, psicólogo da Universidade de Queensland, na Austrália, publicado na PLOS Biology, questiona o resultado de ambos os trabalhos e nega o fato de a obediência à tirania resultar da submissão cega às regras e aos papéis estipulados. Haslam afirma que esses seguidores não são passivos, mas criativos, e suas ações brotam do fato de eles se identificarem com as autoridades e acreditarem em suas premissas. "Pessoas decentes participam de atos horríveis não porque se tornam funcionários negligentes que não sabem o que estão fazendo, mas porque eles começam a acreditar — normalmente sob a influência de uma autoridade — que estão fazendo a coisa certa", diz o pesquisador.

A tese de Haslam foi formulada a partir de um experimento que ele conduziu em parceria com a rede de televisão inglesa BBC em 2002. Ele replicou o experimento da prisão feito por Zimbardo, mas garantiu que não houvesse nenhuma interferência por parte dos pesquisadores e os guardas não soubessem, a princípio, como deviam agir.

Dessa vez, os voluntários demoraram muito mais tempo para assumir seus papéis. Os prisioneiros foram os primeiros a se identificar como um grupo, e encontraram um modo de resistir à autoridade dos guardas, criando um sistema mais igualitário na prisão. Segundo Haslam, isso mostra que as pessoas não se submetem automaticamente aos papéis que lhes são incumbidos, e que elas podem resistir a esses papéis quando não gostam das consequências.

Com o passar do tempo, no entanto, uma parte dos guardas e dos prisioneiros passou a acreditar que a situação estava fugindo do controle e conspirou para criar uma nova hierarquia na prisão. No final, o experimento desencadeou o mesmo tipo de abusos que o realizado nos anos 1970 por Zimbardo. Mas, segundo Haslam, isso não aconteceu porque os voluntários aceitavam cegamente o papel de guarda. Ao contrário, foi só quando os indivíduos passaram a acreditar no novo papel, e a se entusiasmar com as ações, que a nova ordem autoritária se impôs.

Para o psicólogo, o estudo de 2002 demonstrou que aqueles que obedecem à autoridade não o fazem de modo cego, mas de modo ativo. O fazem por escolha e não necessidade e, por isso deveriam ser vistos como seguidores engajados, e não conformistas cegos. Ao analisar o estudo de Stanley Milgram, Haslam diz que os voluntários só aceitaram aplicar os choques porque acreditavam e se identificavam com os objetivos científicos do pesquisador.

Adolf Eichmann no
julgamento de Jerusalém,
imortalizado por Hannah Arendt
Sob esse ponto de vista, Adolf Eichmann, o burocrata nazista, tinha total conhecimento das consequências de seus atos. "Esses burocratas sabiam muito bem o que faziam, mas acreditavam que isso era a coisa certa. Matar pessoas inocentes é difícil, e requer um grande nível de convencimento. Era a fé no regime nazista que lhes permitia fazer isso", diz Haslam em entrevista ao site de VEJA. Para o psicólogo, o alemão não era apenas um funcionário obediente e passivo, mas um participante ativo no massacre de judeus. A corte que julgava Eichmann concordou com essa visão: ele foi considerado culpado de uma série de crimes, incluindo crimes contra a humanidade, e enforcado em 1962 em Israel.


Seu artigo questiona o resultado dos experimentos de Stanley Milgram e Philip Zimbardo. Quais seriam os erros na pesquisa de Milgram? Eu discordo da ideia de que as pessoas aplicando os choques estão simplesmente seguindo ordens. Na verdade, elas estão trabalhando duro, confrontando uma situação muito desconfortável, para tentar fazer a coisa certa e ajudar no avanço da ciência. Eles acreditam nisso. Não são zumbis ou autômatos, mas pessoas que acreditam estar participando de uma tarefa significativa. Quando alguns pensadores falam sobre o mal, eles se referem a uma espécie de ladeira escorregadia, pela qual as pessoas deslizam por inércia, sem pensar no que estão fazendo. Não é esse o caso. Os participantes estavam lutando duro – aplicar choques em seres humanos não é uma atividade facilmente digerível – para ir até o fim da experiência.

Essa conclusão pode ser usada para analisar o comportamento de pessoas que vivem sob tiranias? É claro. Muitos historiadores vêm tentando entender o comportamento dos burocratas no regime nazista. Não é o caso de dizer que eles só obedeciam a ordens. Esses burocratas sabiam muito bem o que faziam, e acreditavam que era o certo. Matar pessoas inocentes é difícil, e requer um grande nível de convencimento. Era a fé no regime nazista que lhes permitia fazer isso.

Em 2002, o senhor realizou um experimento muito semelhante ao de Zimbardo, mas chegou a conclusões diferentes. Por que isso aconteceu? Na verdade, nossos experimentos atingiram resultados muito semelhantes. No entanto, ficou muito claro para mim que esse resultado não foi atingido simplesmente porque os guardas se conformaram ao seu papel. Em nossa prisão, o sistema original falhou porque uma parte dos guardas não se identificou com o papel. A cadeia viveu uma espécie de hiato, no qual nada funcionava. Foi aí que um grupo de prisioneiros e guardas se juntou e decidiu que precisavam de um regime mais autoritário. Foi só quando eles passaram a acreditar que essa era a solução para seus problemas que estabeleceram o novo regime. As pessoas não entram naturalmente nesse tipo de situação e começam a brutalizar os outros. Elas só fazem isso quando acreditam que essa é a coisa certa para se atingir um objetivo. Isso pode ser visto em grande parte das tiranias.

Em que tipo de situação isso acontece? As pessoas não são tirânicas porque isso lhes é ordenado. Elas têm de se identificar com a causa. Por exemplo, ninguém estava ouvindo o que Hitler tinha a dizer no começo dos anos 1930. Foi só anos depois, quando os alemães começaram a acreditar que o nazismo tiraria a Alemanha de uma situação difícil, que alguns deles – os mais comprometidos com a ideologia – se tornaram capazes de agir como agiram.

Então os indivíduos que seguem as ordens são ideologicamente comprometidos como a tirania? É isso. Quando procuramos o que dá energia e dinamismo para a tirania, não vamos encontrar pessoas que seguem ordens cegamente. As organizações autoritárias só se sustentam porque alguns indivíduos se identificam com elas, acreditam em seus pressupostos e trabalham duro para atingir seus objetivos. Se as pessoas apenas seguissem ordens, esses regimes não chegariam a lugar nenhum.



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