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sábado, 30 de dezembro de 2017

É muito provável que a sua percepção de mundo esteja equivocada. Saiba por quê.


Talvez você ache que 2016 foi melhor que 2017, e que não tem jeito de 2018 não ser pior.

Melhor rever esta percepção, de acordo com matéria que foi publicada na BBC Brasil:

Por que achamos que o mundo está pior do que realmente é

No Brasil, a taxa de homicídios hoje é bem mais alta do que no ano 2000, quase metade das meninas e mulheres de 15 a 19 anos engravidaram e quase metade dos adultos sofrem de diabetes.

Essas afirmações acima não correspondem à realidade do país, mas refletem o que pensa a maioria dos brasileiros, segundo a uma pesquisa recém-divulgada pela Ipsos-Mori chamada Perigos da Percepção.

A partir de quase 30 mil entrevistas conduzidas entre setembro e outubro passado em 38 países, a enquete testou a percepção das pessoas sobre 14 temas que causam precupação ou são de grande importância na mídia. Em resumo, a ideia era saber se o que as pessoas achavam sobre esses assuntos estava perto da realidade - "realidade" essa baseada em informações retiradas "de uma variedade de fontes verificadas", segundo a Ipsos-Mori.

A conclusão da pesquisa é de que pessoas no mundo inteiro estão bem equivocadas sobre questões-chave e características da população de seus próprios países.

E no ranking dos países cujas populações mais "erraram" - onde a média percentual obtida pelas respostas esteve mais distante do número "real" - o Brasil aparece em segundo lugar, atrás apenas da África do Sul.

Percepção x Realidade

Mas por que existe essa lacuna entre percepção e realidade? Por que muitos enxergam as coisas piores do que são?

"Nós sabemos de estudos anteriores que isso ocorre, em parte, porque superestimamos o que nos causa preocupação", diz Bobby Duffy, diretor gerente da Ipsos Public Affairs, em texto para apresentar os resultados da pesquisa.

Os pesquisadores afirmam que somos geneticamente programados para acreditar mais nas más do que nas boas notícias.

O estudo mostra, por exemplo, que a taxa de homicídios caiu na maioria dos países analisados, nos últimos 15 anos, mas que a maior parte das pessoas acredita que o quadro piorou.

No Brasil, 76% têm essa percepção, embora o índice tenha permanecido estável em relação ao ano 2000, usado como base de comparação.

A porcentagem de mulheres entre 15 e 19 anos que têm filhos também é superestimada. No Brasil, a média estimada pelos entrevistados foi de 47% - quase a metade das mulheres adolescentes do país. Mas o dado registrado no Brasil corresponde a apenas 6,7%. v O índice de mortes por ataques terroristas ao redor do mundo, que nos últimos anos diminuiu em relação aos 15 anos anteriores, também é percebido de forma equivocada. Apenas um quinto das pessoas entre todas as entrevistadas nos 38 países acredita que houve queda.

Reação é mais forte a imagens negativas

Nossos cérebros, segundo os pesquisadores, processam informações negativas de um jeito diferente e as armazenam de forma a estarem mais acessíveis que as positivas.

Um neurocientista comprovou isso mostrando a pessoas imagens de coisas conhecidas, como pizzas e Ferraris, para estimular sensações positivas, e outras, como um rosto mutilado e um gato morto, por exemplo, para despertar outro tipo de reação.

A partir desse experimento, ele mediu a atividade elétrica no cérebro e constatou que respondemos mais fortemente a imagens negativas.

Temer para sobreviver

A mídia, geralmente, leva a culpa por mergulhar as pessoas em um mar de desânimo e pessimismo.

Eles questionam: se somos alimentados com uma dieta tão implacavelmente negativa, é de admirar que acabemos pensando que o mundo é um lugar terrível?

Na prática, essa hipersensibilidade que temos a informações negativas - ou a más notícias - aparentemente desempenha uma função importante na evolução.

Um cérebro mais sensível a más notícias reage mais intensamente a informações sobre possíveis perigos - o que acaba pesando no instinto de sobrevivência.



domingo, 14 de maio de 2017

Atualizando as definições de maternidade


Artigo de Bianca Spessirits para o HuffPost Brasil, com o qual homenageamos todas as nossas amadas mamães. Vocês são sensacionais!

As definições de maternidade foram atualizadas

Há quem conceba a maternidade como sinônimo de privação.

Mãe não dorme.

Não toma banho sossegada.

Não come comida quentinha.

Não tem vida social.

Não usa lingerie.

Não namora.

Não pode adoecer.

Não trabalha fora.

Em determinados períodos, é assim mesmo.

A natureza nos proporciona um intensivão de maternidade quando temos um recém-nascido em casa, por exemplo.

De fato, a gente mal dorme; toma banho na hora que dá; escova os dentes perto de meio dia; lembra de beber água para o leite não secar; segura o xixi; come pra não desmaiar.

Enquanto a gente aprende a ser mãe e o bebê aprende a ser filho, é assim mesmo. A jornada de ambos é de 24h por dia, em regime de dedicação exclusiva.

Mas não é só isso.

O bebê cresce. Ele aprende a dormir sozinho, a falar, a andar e, um dia, que demora muito menos do que a gente imagina, ele entente que ele e mamãe não são a mesma pessoa. O ex-bebê vira criança e rompe o cordão umbilical imaginário. A gente não rompe, até porque o tal cordão, a nosso ver, vai e volta. Volta quando o filho adoece, na adaptação escolar, em saltos do desenvolvimento... Volta quando chega a hora de escolher a profissão, o vestido de noiva (ou o costume), a cor do esmalte (ou que cerveja tomar). Volta loucamente quando bate aquela saudade imensa da criança que cresceu e se tornou um igual.

Posso chamar o cordão umbilical imaginário de algo mais concreto, palpável?

Chamo de colo. Esse aí consubstancia direito fundamental de terceira geração. Não importa a idade: quando o bicho pega, o cidadão quer o colo da mãe dele.

Uma vez assegurado o colo ao indivíduo, entendo que a mãe/mulher é livre. Pode dormir, comer, trabalhar, ler... EXISTIR!

Sendo mais explícita: atenda seu filho em tudo que for essencial, estruturante, e se atenda nas mesmas circunstâncias. Seja a melhor mãe do mundo, mas seja você. Seja a mulher pela qual seu marido se apaixonou, a filha que sua mãe criou, a profissional preparada que você sonhou.

Seja o melhor modelo de si.

Se fores mãe de menina, então...

Deixe claro pra sua filha que ela pode ser o que ela quiser, assim como você.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Ganhadora culpa loteria britânica por sua "infelicidade"


E você aí achando que ganhar na Mega-sena vai resolver todos os seus problemas, né...

A notícia é do Estadão:

Britânica que ganhou prêmio aos 17 anos quer processar loteria por 'arruinar sua vida'

Jane Park recebeu 1 milhão de euros na Euromillions; aos 21 anos, ela afirma que a empresa não deveria ter repassado o valor

A jovem Jane Park conseguiu algo improvável: aos 17 anos, ganhou 1 milhão de euros no primeiro bilhete adquirido na Euromillions, a loteria britânica. No entanto, hoje, aos 21 anos, ela afirma que o prêmio "arruinou a sua vida" e pretende processar a empresa por conceder o valor a menores de 18 anos - atualmente, a idade mínima é 16 anos.

Em entrevista ao The Mirror, Jane afirmou que o valor, em vez de deixar sua vida 10 vezes melhor, "deixou 10 vezes pior". Ela revelou que está "cansada de comprar produtos de designers famosos", "lutando para encontrar um namorado que não a queira apenas pelo dinheiro" e que vive "sobrecarregada pelo estresse de ser milionária".

A jovem afirmou que preferiria não ter ganhado o dinheiro e que, apesar dos bens materiais, sua vida está vazia. "Minha vida seria muito mais fácil se eu não tivesse ganhado. As pessoas olham para mim e pensam: 'eu gostaria de ter a vida e o dinheiro dela'. Mas elas não percebem o tamanho do meu estresse", declarou.

Antes de tornar-se milionária, Jane trabalhava meio turno em um restaurante e faturava 8 euros por hora. Quatro anos depois, após fazer um implante de silicone, adquirir um Range Rover e duas propriedades e comprar várias roupas e acessórios de marca, ela diz que o dinheiro não mudou sua vida.

A jovem teve um relacionamento de 18 meses que não terminou bem, apesar de "ter comprado um Rolex e um carro para ele". "Eu achei que isso deixaria ele feliz", declarou.

Hoje, ela voltou a morar com a mãe, que lava suas roupas. "Não há ninguém no mesmo barco que eu, ninguém me entende. Sinto-me como uma mulher de 40 anos". Apesar dos incômodos e das reclamações, quando perguntada pelo The Mirror se enão prefere doar todos os seus bens para livrar-se do peso, Jane nem hesita: "O quê? Não!".

A empresa responsável pelo prêmio afirmou ao The Mirror que quem define a idade mínima de 18 anos para receber o valor é o Parlamento britânico.



domingo, 13 de novembro de 2016

Quando jovens em situação de risco encontram um juiz para conversar


Artigo interessante publicado no portal Justificando:

Falar sobre Direito e Justiça com jovens é ação transformadora

João Marcos Buch*

Fui a uma escola ensinar o que é justiça. Isso foi o que eu aprendi

Aquela quarta-feira estava sendo bastante difícil. As audiências tinham sido dramáticas, como sempre eram, com detentos trazidos para justificarem-se sobre faltas graves cometidas na execução da pena, em sua maioria relativas à evasão. Todos muito jovens, com seus vinte e poucos anos, com relatos que iam de problemas de saúde dos pais até necessidades de trabalhar para sustentar os filhos.

Além disso, situações graves envolvendo saúde de detentos e carência de recursos humanos para encaminhamentos hospitalares, implicando em risco de morte, precisaram ser tratadas em tempo real com o gestor do Presídio. Isso tudo complementado por uma carga relevante de processos para decidir, com a assessoria fazendo as pesquisas intermináveis.

As vezes a maré contra a qual o juiz nadava parecia mais forte, mais violenta e a sensação era de que o round estava sendo perdido, que o nocaute estava próximo. Mas eis que sentado em sua cadeira, em frente às telas do computador, verificou um email recebido. Era de saudações por palestra feita em uma escola dias antes. Ela fazia parte de um programa desenvolvido durante o ano.

Dentre as inúmeras atividades envolvendo as universidades e seminários sobre sistema de justiça criminal e direitos humanos, o juiz havia se comprometido com a gerência regional da educação a comparecer nos colégios para falar com os estudantes, tratando de questões variadas do direito. Tinham sido muitas. Delas sempre saia gratificado, porque percebia a importância de levar as instituições a todos, isso fortalecia a harmonia e a sensação de pertencimento do indivíduo, em especial daquele que está em fase de crescimento.

O juiz lembrou então especificamente de uma palestra ocorrida meses antes, em uma escola localizada num bairro onde adolescentes tinham sido vítimas de crimes violentos. Logo depois de sua exposição e da bateria de perguntas feitas por alunos muito educados, alguns jovens se aproximaram e confidenciaram vivências.

“Meu pai estava preso e eu fiquei com minha mãe. Daí ela morreu e foi uma confusão para ver com quem eu moraria. Até que o senhor soltou meu pai e eu estou com ele faz três anos”, disse o primeiro. “Como o senhor falou, se não der condições lá dentro, os presos saem mais revoltados. Meu irmão foi preso por tráfico. Ele morreu faz dois anos. Ficou preso e quando saiu tinha mais ódio das coisas do que quando entrou”, desabafou o segundo.

“Gosto muito do senhor. O senhor uma vez falou para o meu pai que ele devia pensar nos filhos e procurar fazer tudo certo. Eu estava na audiência com minha mãe. Depois disso ele pediu que eu fosse lá fazer visita. Isso faz uns dois anos. Agora eu faço a visita na prisão. Ele vai sair logo e está com um monte de planos para nós”, agradeceu o terceiro.

Finalmente um quarto aluno, sabedor das leis penais, passou a entabular conversa a que a diretora, ao lado, nada entendeu. “157 é 3/5 ou 2/5?, perguntou. “157 é 1/6”. Respondeu o juiz. “Mas como, se o 33 foi 3/5? insistiu. “Ah, então foi porque primeiro teve o 157 e depois teve o 33. Daí é reincidência e fica 3/5. Mas o 157 continua 1/6”, complementou o juiz. “Hum, entendi”, concluiu o aluno, balançando a cabeça. O juiz traduziu o diálogo à diretora. Explicou que o aluno queria saber o tempo para progressão do regime prisional do fechado para o semiaberto para quem é condenado por tráfico (art.33 da Lei Antidrogas), sendo reincidente em roubo (art.157 do Código Penal), se era 2/5 ou 3/5 do total da pena.

Essa a realidade desses jovens que, não obstante os desafios e tristezas que a vida lhes impunha tão precocemente, ainda mantinham uma simpatia, uma leveza, uma tão saudável curiosidade que suplanta a dureza cotidiana. Por isso, lembrou o juiz em seu gabinete naquele difícil dia, a importância de conversar e mostrar o que é a Justiça, a importância de entender o outro, de conhecer a si mesmo, de estudar e de se transformar. Por isso a importância de mostrar um caminho possível, sempre adiante, um caminho por onde as coisas funcionem e todos possam buscar de forma digna a felicidade. Por isso, sorrindo, o juiz voltou ao seu expediente, porque a esperança persistia.

*João Marcos Buch é Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais e Corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville/SC



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Pesquisa do IBGE mostra que 4% dos adolescentes sofreram abuso sexual

Foto: Fábio Motta / Estadão

Os dados assustadores foram publicados no Estadão:

4% dos adolescentes entre 13 e 15 anos sofreram abuso sexual, diz IBGE

Entre os jovens forçados a ter relações, 11% disseram que o agressor foi pai, mãe, padrasto ou madrasta; 26,6% afirmaram que foi namorado, namorada ou amigo

Luciana Nunes Leal

RIO - Pela primeira vez, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), coordenada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), investigou casos de jovens que tiveram relação sexual forçada, violência que atingiu 4%, ou 105,2 mil alunos.

A pesquisa foi realizada em todo País entre abril e setembro de 2015, com 102.301 alunos do 9º ano do ensino fundamental, de um universo de 2,630 milhões de estudantes desta série. Entre os entrevistados, 88% tinham de 13 a 15 anos - 51% tinham 14 anos, idade adequada para este nível de ensino.

RIO - Pela primeira vez, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), coordenada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), investigou casos de jovens que tiveram relação sexual forçada, violência que atingiu 4%, ou 105,2 mil alunos.

A pesquisa foi realizada em todo País entre abril e setembro de 2015, com 102.301 alunos do 9º ano do ensino fundamental, de um universo de 2,630 milhões de estudantes desta série. Entre os entrevistados, 88% tinham de 13 a 15 anos - 51% tinham 14 anos, idade adequada para este nível de ensino.

Entre os meninos, 3,7% relataram ter sofrido abuso e entre as meninas, 4,3%. Os casos são mais frequentes nas escolas públicas (4,4%) do que particulares (2%).

Entre os forçados a ter relações sexuais, 11% disseram que o agressor foi pai, mãe, padrasto ou madrasta e 19% responderam ter sido outros parentes. A maior parte dos alunos (26,6%) disse ter sido obrigada a transar com namorados ou namoradas e com amigos (21,8%).

Entre os jovens, 14,5% (381,3 mil) disseram ter sido agredidos fisicamente por algum parente nos trinta dias anteriores à pesquisa. Houve pequena diferença entre escolas públicas (14,8%) e privadas (13%).



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

TJSC pede laudo psicológico para atiradora desportista de 10 anos de idade

(foto meramente ilustrativa)

Promessa olímpica deve passar por laudo psicológico antes de treinar tiro esportivo

Em Santa Catarina o sonho olímpico também começa cedo. A 1ª Câmara de Direito Civil do TJ determinou que, antes de receber autorização para participar de campeonatos de tiro esportivo no Vale do Itajaí, uma menina de dez anos deve passar por laudo psicológico e estudo social como forma de avaliação de sua maturidade para manusear a carabina - arma de fogo usada nos jogos Rio 2016.

Representada pelos genitores, a garota afirmou que é necessário começar cedo a prática desportiva para chegar às Olimpíadas. O pai, instrutor de tiro credenciado pela Polícia Federal e pelo Exército, já a acompanha em competições de tiro prático e diz que ela permanecerá sob supervisão. O Ministério Público, por sua vez, alegou que a capacidade física e mental da infante para o esporte deve ser analisada antes que se expeça o alvará judicial. O procurador de justiça, ainda, trouxe à memória o caso da morte acidental de instrutor nos EUA em 2014, quando menina de nove anos atirou nele sem querer ao manusear submetralhadora.

Para o desembargador Saul Steil, relator da matéria, a análise do caso merece cautela pela tenra idade da menina, com necessidade de orientação de profissionais da área da psicologia para o prosseguimento da ação em 1º grau. "Assiste razão ao Ministério Público sobre a necessidade de dilação probatória, com a realização de estudo social e laudo psicológico, já que se trata de criança, frise-se, de apenas dez anos de idade, que está lidando com armas e munição, mesmo que seja como esporte", consignou o magistrado. A decisão foi unânime.

Responsável: Ângelo Medeiros - Reg. Prof.: SC00445(JP)
Textos: Américo Wisbeck, Ângelo Medeiros, Daniela Pacheco Costa e Sandra de Araujo



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

TJSP destaca trabalho dos desbravadores adventistas


"Clube de Desbravadores" é a versão adventista dos escoteiros-mirins, e o trabalho deles foi destaque no portal de notícias do Tribunal de Justiça de São Paulo:

DESBRAVADORES ATUAM PARA CONSOLIDAR TRÊS PILARES DA CONSTRUÇÃO DO CARÁTER DE UMA CRIANÇA

Em época de crise hídrica e destruição da natureza, contribuir para formar cidadãos de bem, éticos e morais e amantes da natureza é tarefa de suma importância para a continuidade de sobrevivência de seres humanos e animais, além da garantia de qualidade de vida às próximas gerações. O funcionário Ricardo Martins Takaki (Ricardinho), lotado no Cerimonial do Tribunal de Justiça de São Paulo, é um formador que se preocupa com o futuro da meninada e do mundo. Ele dedica horas da sua folga para coordenar a Regional de Desbravadores da Associação Paulista Leste (1ª Região), composto por 27 clubes com aproximadamente 900 crianças e adolescentes, meninos e meninas dos 10 aos 15 anos. Ricardo é o entrevistado deste mês do Projeto Jus_Social.

Os desbravadores têm como objetivo trabalhar em equipe e ser úteis para a comunidade. Eles prestam socorros em desastres naturais, participam ativamente de campanhas comunitárias e de ajuda aos carentes. Visitam hospitais, abrigos, orfanatos e asilos. Os integrantes do grupo se reúnem aos domingos para desenvolver atividades que contribuem para prepará-los a enfrentar a vida, servir à comunidade e preservar a natureza. Para isso, são executadas ações ao ar livre como acampamentos, caminhadas e escaladas. Aprende-se a cozinhar em meio à natureza e fazer fogo sem fósforo ou isqueiro. As atividades são compostas, ainda, de esportes, competições, construção de cadeiras e mesas com amarração e o aprendizado de vários tipos de nós. Há mais de 400 especialidades para serem desenvolvidas com os integrantes.

Em 1990, Ricardo iniciou sua vida forense como menor colaborador no Departamento Pessoal do TJSP. Filho de Dirce Martins Takaki (também funcionária do TJSP) e Roberto Takaki, Ricardo é casado com Vergínia Mariano Takaki e pai de três filhos: Rafael Takaki (16), Renata Takaki (14) e Vitor Takaki (4). A família inteira participa de acampamentos e expedições, mas é o caçulinha que se esbalda nas aventuras em sua cadeirinha-mochila em que o pai o carrega orgulhoso. Nas veias do garoto já corre o sangue de desbravador, pois ele veda os olhos do pai e diz que o guiará, mandando-o ir para esquerda ou direita, pular pedras e seguir o caminho que acredita esteja correto.

Desbravadores – Seguidor de uma religião evangélica, foi na escola que Ricardo conheceu um grupo que fazia as atividades semelhantes a dos escoteiros e achou tudo muito estranho. Não gostava do uniforme e dizia que jamais entraria naquela turma. Entretanto, seu caminho estava traçado e aos 17 anos, convidado por um amigo sergipano, participou, com toda a família, de um Campori (encontro dos desbravadores). O encontro aconteceu em Aracaju na missão Sergipe-Alagoas com cerca de quatro mil pessoas. Ricardo observou a alegria contagiante da galera, todos felizes, cantando e marchando ou competindo. “Fui contaminado pelo vírus desbravadorino!", brinca. Desde então iniciou seu trabalho com os desbravadores e começou a ajudar o Clube de Desbravadores, passou a conselheiro de unidades e prosseguiu como diretor associado, diretor do clube por de três anos. Acabou se afastando para cuidar dos filhos e anos depois, ao retornar, assumiu o cargo de distrital de desbravadores da Associação Paulistana e também da Associação Paulistana Leste, onde atualmente exerce o cargo. Para ter conhecimentos que contribuíssem com a criançada, Takaki buscou aperfeiçoamento para se tornar mais útil nas atividades. Fez cursos de técnico em enfermagem, bombeiro civil e é mestre em resgate. Chegou a ser professor de mergulho recreativo nos fins de semana. "A capacitação serve para ajudar a resolver os problemas. A segurança dos desbravadores tem que ser perfeita."

Depois que se contaminou pelo "vírus desbravadorino", passou a amar o uniforme e o lenço amarelo que diferencia o clube dos desbravadores dos demais grupos existentes. "A roupa pode mudar de acordo com faixa etária, mas o lenço não." Os desbravadores estão espalhados em mais de 140 países, com aproximadamente 90 mil clubes e quase dois milhões de participantes. No Estado de São Paulo são cerca de 30 mil desbravadores e cada igreja da congregação tem um clube, cada clube é composto por algumas unidades e cada unidade é formada por, no máximo, oito desbravadores (homens e mulheres) e dois conselheiros (um maior de idade), ambos ajudam nas funções dentro do clube e cuidam da meninada.

São inúmeros encontros realizados, há dois anos promoveram o Campori Sulamericano em Barretos, no Parque dos Peões. Vieram pessoas da América Latina totalizando 30 mil acampados, cada um com sua cozinha e barracas, mas com efetiva interação entre todos. De acordo com Takaki, há a preocupação de trabalhar com os desbravadores nos três pilares da construção do caráter de uma criança: desenvolvimento físico, mental e espiritual. No físico, a prática de esportes, competições, acampamentos e outras atividades. No mental, busca-se lidar com o raciocínio lógico, habilidades matemáticas, noções de conhecimentos de todas as áreas, um pouco de tudo, como por exemplo, na área da saúde, em que um profissional na área de enfermagem, médica ou por bombeiros ensina noções básicas de primeiro socorros, resgate básico, reanimação cardiorrespiratória, dentre outras. "No tripé espiritual, não é dado doutrina, falam sobre o amor de Deus de um modo geral e passam mensagens bíblicas, sem muito aprofundamento tendo em vista que o grupo é formado não somente por seguidores da congregação, mas por toda a comunidade de diferentes classes sociais, raça e crença", observa Takaki.

Mensagem – Ricardo Takaki elenca palavras bíblicas relacionadas à atividade exercida: “Em tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens” (Colossenses 3:23). "Precisamos dar atenção as nossas crianças, se quisermos um futuro melhor precisamos fazer a diferença nas vidas destes adolescentes e jovens."

Comunicação Social TJSP – LV (texto)



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Quando um garoto surdo africano aprende a língua de sinais


Prepare-se para se emocionar com o vídeo abaixo, que mostra a transformação na vida de Patrick, um adolescente ugandense de 15 anos, que nunca tinha conseguido se comunicar até aprender a linguagem dos sinais.

A mudança no brilho de seus olhos e na expressão facial é surpreendente, e seu exemplo é uma demonstração prática da importância da educação na vida de uma pessoa:




quinta-feira, 23 de julho de 2015

Jovem estuprador do PI pediu perdão à mãe antes de ser morto


A informação é da Folha de S. Paulo:

Em carta, jovem pediu perdão à mãe antes de ser morto em cela no Piauí

Antes de morrer, o adolescente Gleison Vieira da Silva, 17, escreveu uma carta para a mãe pedindo perdão. Gleison foi espancado até a morte na última quinta-feira (16) dentro de alojamento do CEM (Centro Educacional Masculino), em Teresina, no Piauí.

Condenado por estupro coletivo de quatro garotas em Castelo do Piauí (a 190 km de Teresina), em maio, Gleison foi espancado com socos e pontapés.

Ele dividia a cela com três adolescentes que delatou como participantes dos estupros e agressões às meninas –uma delas morreu.

Na carta entregue para a mãe Elisabete Vieira da Silva, no dia 11 de julho, sete dias antes de sua morte, o adolescente pede perdão pelo que fez e por não ter sido o filho que ela sempre quis.

A mensagem é escrita à mão com caneta tinta preta e tem vários erros gramaticais. No envelope, na parte externa, o jovem pede para que a mãe guarde a carta –disse que queria lê-la novamente quando estivesse em liberdade.

"Mãe, sinto muita sua falta, eu quero que você me perdoe pelo que eu fiz, eu sei que Deus me perdoou", escreveu Gleison. Ele só estudou o quinto ano do ensino fundamental e foi expulso de várias escolas.

"Desculpa, mãe, eu não ter sido o filho que você sempre quis, mas eu quero que você saiba que você nunca vai sair da minha mente, nem do meu coração. Mãe eu só peço que você lembre que tem um filho que te ama muito, eu sei que nunca recompensei tudo o que fez por mim, e que continua fazendo. Obrigado por ser uma mãe tão boa, eu agradeço a Deus por ter você comigo. Eu nunca vou esquecer de você nem da minha vovó, nem do meu padrasto. Fica com Deus que aqui eu vou ficar com Ele".

O promotor de Castelo do Piauí, Cezário Cavalcante, que acompanha o caso, disse que a mãe de Gleison lhe mostrou a carta.

Ela recebeu a carta na última visita que fez Gleison no Ceip (Centro Educacional de Internação Provisória), em Teresina.

"Eu tirei xerox da carta e anexei ao processo. Ela me disse que tinha perdoado o filho e que ele se mostrava arrependido pelo crime e pedia perdão por não ter ouvido ela. É uma carta bem carinhosa", disse o promotor.

A carta foi divulgada pelo radialista, Ronaldo Mota, amigo da família. A mãe não quis falar com imprensa.

"A mãe, toda vez que lê a carta, chora de saudade e lembra do filho", disse Ronaldo.

CRONOLOGIA

27.mai
Quatro jovens são estupradas e atiradas do Morro do Garrote, em Castelo do Piauí. Um maior e quatro menores de idade são presos nos dias 28 e 29

1º.jun
Os quatro adolescentes apontados de cometerem o crime são transferidos do centro socioeducativo, em Teresina, para o Ceip

7.jun
Danielly Rodrigues Feitosa, 17, uma das vítimas, morre após dez dias internada. No dia 13, sua missa de sétimo dia reúne mais de 500 pessoas

11.jun
Começa o julgamento dos quatro jovens, dias após Gleison Vieira da Silva, 17, delatar que cometeu o crime com os colegas

15.jun
Ministério Público do Piauí entrega denúncia contra Adão José de Souza, 40, citado como líder do crime. Pena pode ser de mais de 150 anos

10.jul
Decisão jurídica de 24 anos de internação para os jovens. No Ceip, Gleison da Silva fica em cela separada dos outros três

15.jul
Às 17h, os menores culpados do crime são transferidos para o CEM, após permanecerem prazo máximo no Ceip. Lá, os quatro ficam na mesma cela

16.jul
Gleison Vieira da Silva, 17, é morto. A suspeita é que seus colegas de cela –que cometeram o crime junto com ele– o tenham matado por volta das 23h



domingo, 14 de junho de 2015

Depressão pode estar relacionada a bullying na adolescência


Matéria publicada no Brasil Post:

Bullying na adolescência pode estar relacionado à depressão quando adulto

Uma pesquisa publicada nesta semana no The BMJ, um dos mais influentes jornais de medicina do mundo, sugere que bullying na adolescência está fortemente associado com depressão no início da idade adulta. De acordo com o estudo, jovens frequentemente assediados moral e fisicamente têm duas vezes mais chances de ter a doença, em comparação com aqueles que nunca foram intimidados.

A equipe de cientistas, liderada por Lucy Bowes, professora do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, realizou um dos maiores estudos sobre a associação entre intimidação na adolescência e depressão na idade adulta. A pesquisa examinou a relação entre o bullying aos 13 anos e a depressão a partir dos 18.

Os pesquisadores estudaram dados de bullying e depressão em 3 898 participantes do Estudo Longitudinal Avon de Pais e Filhos (ALSPAC), análise de um grupo de nascidos em 1991 e 1992, no ex-condado de Avon, na Inglaterra. Aos 13 anos, os participantes preencheram um questionário de autorrelato sobre bullying e, aos 18, completaram a avaliação que identificou os indivíduos com sintomas da depressão.

Dos 683 adolescentes que, aos 13 anos, relataram bullying frequente mais de uma vez por semana, 14,8% estavam deprimidos aos 18 anos. Já dos 1 446 adolescentes que, na mesma faixa etária, sofreram algum assédio físico ou moral, de uma a três vezes ao longo de seis meses, 7,1% estavam depressivos no início da fase adulta.

No geral, 2 668 participantes compartilharam informações sobre assédio moral e sintomas depressivos, bem como outros fatores que podem ter causado a depressão, tais como problemas mentais e de comportamento, conflitos familiares e eventos traumatizantes.

Além disso, para efeitos de comparação, apenas 5,5% dos adolescentes que não sofreram bullying estavam depressivos aos 18 anos.

O tipo mais comum de assédio moral foi o por xingamentos: 36% dos participantes eram agredidos verbalmente com frequência. Enquanto 23% tinham pertences furtados.

A maioria dos adolescentes nunca contou a um professor - de 41% a 74% dos entrevistados - ou para os pais - de 24% a 51% dos participantes. Mas 75% dos jovens disseram a um adulto ter sofrido bullying físico, como ser atropelado ou agredido.

Em um editorial que acompanhou o estudo, Maria Tofi, professora de psicologia criminal da Universidade de Cambridge, escreve que este artigo tem mensagens claras que devem ser endossadas pelos pais, escolas e profissionais.

Ela também pede maior investigação para estabelecer as relações causais entre assédio moral e depressão e ressalta a importância de intervenções antibullying nas instituições de ensino.



sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Justiça gaúcha incentiva famílias transitórias para menores em situação de risco

Uma boa iniciativa que precisa ser mais divulgada e adotada Brasil afora, conforme noticia o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

Famílias acolhedoras:
De portas e coração abertos
para crianças que aguardam um lar

Acolher uma criança ou um adolescente que sofreu maus tratos, abuso sexual ou que foi abandonada pode não ser tarefa fácil. A carga emocional que envolve cada caso é pesada. Num abrigo, por mais que os esforços sejam no sentido de receber bem esses jovens, as dificuldades são muitas: desde falta de estrutura física, financeira até a atenção limitada para cada uma daquelas vidas que ali estão temporariamente. A ideia de utilizar as famílias transitórias vem ganhando força. A medida representa a possibilidade da convivência familiar, pode minimizar sofrimentos e ser uma experiência enriquecedora para quem empresta um pouco da sua vida a esses jovens.

Na Comarca de Santo Ângelo, atualmente há 14 jovens (cinco adolescentes e nove crianças) em acolhimento familiar. O acompanhamento diário é feito pela equipe técnica do programa, coordenado pelo Município, e pelo Juizado da Infância e Juventude (JIJ). O acolhimento familiar está previsto como medida protetiva no art. 101 do Estatuto da Criança e do Adolescente - juntamente com o acolhimento institucional - nas hipóteses em que as crianças ou adolescentes estejam em situação de vulnerabilidade, sem condições de permanecer com a família de origem.

Mesmo que o acolhimento familiar tenha preferência sobre o institucional, como determina o ECA, essa medida só ganhou força em 2009, com a vigência da Lei Nacional de Adoção. "Diferentemente do acolhimento institucional - antigo abrigo - com seu atendimento massificado, com todos os problemas que são amplamente conhecidos por quem milita na área da Infância e Juventude, o acolhimento familiar propicia um atendimento individualizado, solidário, humanizado para crianças e adolescentes que temporariamente estão afastados do convívio com a família de origem, ou mesmo na pendência de um processo de destituição do poder familiar", afirma o Juiz de Direito Luís Carlos Rosa.

Os benefícios de estar numa casa, cita o Juiz, são muitos. "Não tenho a menor dúvida de que o acolhimento institucional precisa, urgentemente, passar por uma reformulação, existem dificuldades de toda ordem - financeira, estrutural, técnica - sem contar o sentimento de institucionalização dos acolhidos, que não veem a hora de ser desacolhidos, havendo uma nítida falta de sintonia entre a burocracia do processo e o tempo dessas crianças e adolescentes, que acabam vendo os dias, meses e por vezes anos passarem sem que seja dada uma solução".

Longo caminho

O desafio é conseguir mais famílias que se disponham a receber esses jovens. Hoje, na Comarca, são 12 famílias cadastradas, sendo que nove estão acolhendo. "Boa parte das pessoas sequer se cadastram, sequer passam pela seleção, quando são esclarecidas dos objetivos do acolhimento, quando tomam conhecimento que o acolhimento é temporário, o que é perfeitamente compreensível, na medida em que não há como imaginar que quem acolha uma criança ou adolescente, não venha a se apegar, a criar laços a amá-la. O desafio está em encontrar pessoas que, mesmo sabendo disso, exerçam a solidariedade e o amor de forma incondicional, sabendo que serão extremamente importantes na vida daquela criança, ou adolescente, auxiliando na formação da personalidade, mesmo que de forma transitória", considera o Juiz.

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o número de crianças e adolescentes acolhidos por famílias ainda é baixo se comparado ao universo de acolhidos no Brasil. São cerca de 730 crianças e adolescentes para 45,7 mil meninas e meninos abrigados, de acordo com dados do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Acolhidos (CNCA), em maio deste ano. Ainda conforme o CNJ, são 381 famílias acolhedoras no país.

Decisão em família

"Muitas vezes me perguntei: Se eu fosse uma dessas crianças, onde eu preferiria estar? No abrigo ou acolhido em uma família?". Foi buscando essa resposta que a Pediatra Adriana Pizzutti dos Santos, de 48 anos, resolveu que iria participar do programa de famílias acolhedoras de Santo Ângelo. Ela soube da iniciativa através de uma amiga advogada e, após conversar com os dois filhos - Lucas, de 19 anos, e Natália, 16 - resolveu fazer parte da iniciativa. "Meses antes eu havia visitado, juntamente com um grupo de jovens, um abrigo para crianças, que estavam afastadas de suas famílias, por situações várias que colocavam em risco a sua segurança, e senti grande compaixão pela situação de todas elas. A partir daí comecei a pensar na possibilidade do acolhimento", conta a médica.

Tomada a decisão, ela procurou o programa, encaminhou a documentação e deu início ao processo de habilitação. A equipe - formada por pedagoga, assistente social e psicóloga - esteve várias vezes na casa dela para analisar a possibilidade de acolhimento. "Recebi informações valiosas e pude tirar dúvidas, em conversas agradáveis e muito produtivas", ressalta.

Adriana ficou quase sete meses com um menino de 8 meses, até que ele foi adotado por uma família que estava há sete anos na fila. A experiência, ela garante, foi transformadora (leia abaixo o depoimento da médica). Tanto que ela e a família estão de portas e corações abertos para um novo acolhimento.

"Aprendi e ensinei" - Depoimento de Adriana Pizzutti dos Santos, Pediatra

Em outubro de 2012 eu conheci o Mateus (nome fictício) quando uma amiga pediu orientações acerca do leite que deveria ser oferecido a um bebê que havia chegado ao Lar do menino. Ele tinha apenas oito dias de vida, era o primeiro bebê a ser recebido no Lar. Como moro perto de lá, resolvi ir pessoalmente ver como ele estava. Um bebezinho em meio a tantas crianças grandes. Frágil, desprotegido... Passei a acompanhá-lo profissionalmente e, quando conheci melhor o programa, comecei a dizer prá ele: 'Vou te levar pra minha casa!'

Foram muitos preparativos, adaptações na casa, seleção e contratação de babá. Lembrava o tempo todo como seria divertido chegar em casa e encontrar ele, poder brincar, dar comidinha, abraçar, fazer dormir. É claro que teríamos doencinhas, chorinhos, manhas, noites mal dormidas, mas com isso eu não me preocupava!

No dia 10 de junho de 2013 quando ele completou oito meses, depois da audiência, que definiu o acolhimento, eu passei no Lar, peguei ele e disse: 'Chegou o dia! Vou te levar pra casa'. Começava aí minha experiência de acolhimento. Foram quase sete meses de indefinível alegria por poder fazer parte da história do Mateus. Acompanhando, protegendo, cuidando. Aprendi e ensinei.

Os pais esperavam há mais de sete anos na fila de adoção. Imaginem! Eles ficaram encantados com o Mateus, que logo foi brincar no tapete com o pai. Foi muito comovente. Durante todo o período de adaptação à família, pude observar a grande ternura, carinho pelo filho que respondia com abraços e beijos estalados. Até a definitiva partida para a nova casa. Nós continuamos nos visitando e trocando ideias, sempre que possível.

Tenho absoluta convicção que o melhor, para qualquer criança, é estar inserida em uma família, com condições adequadas de cuidados, alimentação, segurança. Se a família original não possui essas características, nada melhor do que outra família fazê-lo em ambiente que proporcione à criança um bom desenvolvimento físico e emocional, bem como o desabrochar das suas habilidades e capacidades em todos os setores.



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Menino-passarinho volta pra casa


Já fez o seu voo de volta pra casa o menino-passarinho de Higienópolis, a quem nos referimos ontem aqui no blog.

O desfecho da inusitada e emocionante história é contado por Vivian Codogno no Estadão:

Menino-passarinho é resgatado pela mãe em Higienópolis

SÃO PAULO - O menino-passarinho voou de volta para seu ninho em Cachoeiras de Macacu, na região serrana do Rio de Janeiro, no último domingo. Há oito dias ele vivia entre a copa de uma árvore e a calçada do número 105 da Rua Veiga Filho, no Higienópolis. Desde que chegou, Pedro (nome fictício) contava aos vizinhos que veio da cidade próxima a Nova Friburgo. Uma das moradoras da rua, a fonoaudióloga Maria Rosália Martins Silva, é também dona de uma propriedade na cidade fluminense, e fez uma série de contatos e, enfim, descobriu que lá havia uma criança desaparecida.

“Conseguimos localizar a mãe de Pedro, que havia movimentado uma campanha para encontrá-lo”, relata Maria Rosália. Durante dois dias, elas trocaram mensagens via redes sociais e telefone e, ao receber uma foto do filho, Dulciléa Klein teve uma crise hipertensiva e precisou ser internada. Apenas na madrugada de domingo recebeu alta e pode se deslocar até São Paulo para rever o filho.

Neste momento da história, começa uma nova epopeia. Sem dinheiro para custear a viagem de 536 quilômetros, Dulciléa convenceu o motorista do Conselho Tutelar de Nova Friburgo a fazer o transporte com o carro do órgão. Arrecadou o dinheiro que pôde com amigos e partiu para a jornada de cerca de 7 horas até São Paulo, acompanhada do atual marido e de um profissional do Conselho Tutelar. Com receio da reação de Pedro, tudo foi planejado sem que ele soubesse.

Quando chegou à Veiga Filho na tarde de domingo, Dulciléa encontrou uma vigília com cerca de 20 pessoas que desde a noite anterior protegiam Pedro de eventuais violências que pudesse sofrer. Seu filho estava no shopping do bairro, onde pode entrar acompanhado de Maria Rosália, destoando dos frequentadores locais, com sua bermuda surrada, seu chinelo de dedo, e seu moletom da universidade Anhembi-Morumbi doado por algum transeunte. Desde que uma matéria contando sua história foi publicada pelo Estado, Pedro ganhou dezenas de simpatizantes, que foram até seu ninho provisório e o presentearam com roupas, doces e dinheiro. Conseguiu arrecadar o suficiente para comprar um boneco do personagem Woody, do filme Toy Story, seu preferido.

Ao sair do shopping com o brinquedo nas mãos, Pedro avista a mãe, acaricia seus cabelos, a abraça e logo diz: “vamo embora, mãe?”. Dulciléa conta que não abandonou o filho como ele havia contado. De acordo com ela, o garoto faz tratamento psiquiátrico, o que o deixa inquieto. “No dia 6 de julho, ele estava assistindo televisão com um primo, quando o avisou que voltava em um minuto. E desapareceu. Não houve briga ou conflito”, se emociona.

Na mochila, a mãe carregava fotos, uma mensagem que imprimiu em cartazes para procurá-lo, o teste do pezinho do garoto, e laudos psiquiátricos atestando que Pedro toma remédios controlados. Médicos do Conselho Tutelar não conseguem identificar a sua doença e quando fica agressivo, o garoto se torna um problema e é encaminhado para atendimento em órgãos de assistência a “crianças especiais”. Por isso, desenvolveu um receio de kombis oficiais, como a do próprio Conselho Tutelar.

Na despedida de seus novos amigos, Pedro chora. Procura por dona Dulce, a senhora que elegeu como sua mãe adotiva. Abraça forte a psicóloga Luciana Sodré Cardoso, responsável pela segurança do menino durante sua estadia na árvore. A chef de cozinha Gabriela Nunes, que fez parte da vigília, sorri e se emociona: “Levo uma lição gigante para a vida”. Com lágrimas nos olhos, o jornalista Eduardo Lemos garante que foi “impossível não se conectar com essa história. Quando entendi o Pedro, ficou muito fácil protege-lo”. Sem o menor esforço para conter as lágrimas, o produtor cultural Nick Ayer brinca: “Agora já podemos montar o bloco ‘Unidos da Veiga Filho’”.

Pedro entra no banco de trás do carro. A sua sacola, antes apenas com um par de calças jeans, uma blusa de frio, um edredon e a “Enciclopédia prática da mágica e do ilusionismo”, volta para Cachoeiras de Macacu muito maior. Acena com o boneco Woody pela janela. Quando o carro começa a andar, sua mãe grita: “Que Deus abençoe a todos vocês!”.



domingo, 3 de agosto de 2014

O menino-passarinho de Higienópolis

Artigo maravilhosamente escrito por Vivian Codogno, desses que fazem a gente acreditar que o bom jornalismo não morreu e trazem múltiplas reflexões sobre a condição humana em seus mais variados (e controversos) matizes, publicado no Estadão de 01/08/14:

'Menino-passarinho' intriga moradores de Higienópolis

Há uma semana, adolescente vive sobre uma árvore no bairro da região central de SP; abordagem da PM fez garoto desmontar abrigo

SÃO PAULO - A Rua Veiga Filho, em Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo, recebeu nesta semana um morador inusitado. Há seis dias, Pedro (nome fictício) se abrigou em cima de uma árvore na altura do número 105 e passou a fazer parte da paisagem de quem transita por aquela rua. Com 16 anos, negro, sem documentos e sem família, o garoto relata a epopeia de como saiu de Cachoeiras de Macacu, município próximo a Nova Friburgo (RJ), e chegou até seu novo ninho depois da morte do pai e do sumiço da mãe. Ele conta que se escondeu entre a carga de um caminhão-cegonha e aportou em São Paulo.

Na bagagem, Pedro carrega uma almofada, um edredon e uma sacola com uma blusa e uma calça jeans. Também leva a "Enciclopédia prática da mágica e do ilusionismo", que diz não se lembrar onde encontrou. Seu sonho é ser mágico, "daqueles de baralho", mas como não sabe ler, espera alguém que possa lhe ensinar alguns truques.

A casa não era mais que alguns tapumes apoiados nos galhos, que serviam como base para que ele pudesse se deitar na hora de dormir. Esse abrigo precisou ser desmontado depois de uma abordagem da Polícia Militar, acionada pela terceira vez por alguns moradores do Edifício Santa Emília, prédio logo à frente da árvore. Os policiais aconselharam o garoto a retirar suas coisas e sair daquela rua. Como se recusou, foi agredido por moradores do bairro que assistiam a cena. Fugiu e só retornou no dia seguinte, bastante assustado.

O aposentado Luis Inácio Pio de Almeida, condômino do Edifício Santa Emília, incomoda-se com a presença de Pedro nos arredores. Para ele, além de correr risco ao viver sobre uma árvore, o garoto pode ser uma ameaça aos moradores. "Ele ainda não teve uma atitude violenta, mas não o conhecemos. Já sugeri até que derrubem a árvore para ver se ele vai embora, pois ele se instalou aqui e não sai mais", esbraveja de dentro da grade do prédio.

A síndica do condomínio, Maria Nilza Dupas, tenta outras maneiras para conseguir com órgãos públicos um local adequado para Pedro. Ao notar o movimento causado pela reportagem, Maria Nilza se aproxima. "Não é apenas a nós que esse caso está atingindo.Tem muito movimento aqui por causa do shopping. Não existe preconceito em relação a ele, o problema é a atitude que ele tem. A rua é uma sedução para estas pessoas", diz a síndica. Para ela, o garoto não é "caso de Febem (atual Fundação Casa)", mas é preciso encontrar uma solução em abrigos para moradores em situação de rua.

Adoção. A fama de Pedro se espalhou tão rápido pelos arredores que as especulações sobre a sua história não demoraram a aparecer. Alguns dizem que já o ouviram falar em francês e em espanhol, outros acreditavam, no início, tratar-se de um haitiano desabrigado. E com as histórias que conta, o menino passarinho colabora com sua existência lendária. "De onde eu venho todo mundo vive em árvores, moça. E eu já morei em outra dessas no fim da rua. Escolhi esta aqui porque testei e nela foi mais fácil colocar minha coisas. Mas depois do que aconteceu ontem não subo mais aí não", conta Pedro com a sobrancelha franzida, esbanjando desconfiança.

"Eu quero ser adotado, moça. Quero ser filho da dona Dulce", conta o garoto logo após acordar, ainda coberto pelo edredon rasgado, escondendo o rosto da claridade do sol. Pedro se refere a outra moradora do Santa Emília, a aposentada Dulce Santucci, que logo chega oferecendo uma maçã para ele. "Se eu não estivesse com 80 anos, adotaria mesmo. Como meu filho morreu, até pensei em dar os documentos dele para o Pedro, já que ele não tem, mas não daria certo, né? Uma pena, meu sobrenome é tão bonito".

Outra 'mãe postiça' que Pedro conquistou desde que chegou à Rua Veiga Filho é a psicóloga e terapeuta Luciana Sodré Cardoso. Também moradora do número 105 da rua, ela se sensibilizou com a história do garoto e tem tentado, a cada dia, estabelecer um vínculo de confiança com Pedro, para que ele possa ser encaminhado para um órgão de proteção.

"Ele é uma criança, e sempre se apresentou muito honesto, muito amoroso. As violências que ele tem sofrido nos últimos dias podem o ter deixado um pouco arredio, mas ele é sempre muito alegre. Se continuar sendo maltratado, pode virar um delinquente", defende Luciana. "Ele não quer sair daqui porque se sente protegido. Eu tenho sido um apoio para ele. Eu olho nos olhos, toco, o trato como uma pessoa."

Para a terapeuta, é importante que a autonomia de Pedro seja preservada e que ele seja convencido a sair da árvore, não removido à força. Por isso, Luciana tem chamado amigos com algum envolvimento em movimentos sociais para se aproximar do menino, além de acionar diariamente ONGs de apoio a crianças em situação de rua. Porém, a forma legal de tirar Pedro da rua é acionando o Conselho Tutelar e, de acordo com Luciana, suas solicitações em relação ao órgão não foram atendidas.

Enquanto isso, o garoto afirma que gostou daquela rua e vai ficar por ali. "Essa rua é bonita, gostei daqui. Mas quero uma família, e uma casa, não importa como seja." Durante a conversa, Pedro ganhou diversas coisas de pessoas que passavam na região: metade de um sanduíche, suco de frutas, algumas esfirras e duas garrafas de refrigerante pela metade. Ao se despedir, ele estica o braço, entrega uma das garrafas e diz: "pode levar essa, moça, uma só já dá pra mim".

Trâmites. Consultada, a Polícia Militar não quis dar esclarecimentos sobre a abordagem da noite de quinta-feira, que levou Pedro a abandonar sua casa na árvore. O Conselho Tutelar não soube informar sobre o andamento das solicitações de Luciana e informou que a forma mais eficiente de chegar a um menor em situação de rua é acionando o Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População em Situação de Rua (Creas-Pop). Indagado, o órgão afirma que procurou por Pedro durante a tarde mas não o encontrou no endereço indicado.



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