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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Sumô luta para sobreviver após 15 séculos de tradição no Japão


A matéria foi publicada na BBC Brasil:

'Chorava todos os dias': o lado obscuro da vida dos lutadores de sumô no Japão

Rebecca Seales

De pé em meio ao frenesi dos flashes disparados em sua direção, o lutador anuncia com os olhos marejados sua aposentadoria imediata. "Desculpem-me do fundo do meu coração", ele diz após se curvar e permanecer nessa posição por um longo tempo.

Harumafuji é um grande campeão do sumô, conhecido em japonês como yokozuna. Em 25 de outubro, ele agrediu um lutador mais jovem em um bar, fraturando seu crânio, um caso que foi alvo de um inquérito policial e permaneceu nas manchetes por semanas.

O atleta, de 33 anos, chegou a pedir desculpas pelo ocorrido e decidiu se aposentar do esporte, mas foi acusado formalmente de agressão na última quinta-feira. Ele deve pagar uma multa, em vez de ser julgado em um tribunal.

De acordo com relatos, Harumafuji teria ficado furioso quando tentou dar conselhos ao rapaz e este continuou olhando o próprio celular.

O incidente reacendeu uma discussão sobre o esporte nacional do Japão, e não é a primeira vez que algo assim acontece. Há uma década, a reputação do sumô entrou em crise quando um rapaz de 17 anos que treinava para ser lutador morreu após levar uma surra com uma garrafa e um taco de baseball.

Os agressores eram seus toshiyoris, ou anciãos, como são chamados os ex-lutadores que assumem posições de autoridade, podendo ser treinadores e gerentes de um ginásio de sumô.

Em 2010, o esporte levou um novo golpe com a descoberta do envolvimento de um atleta e de um treinador em um esquema ilegal de apostas em partidas de baseball que teria ligações com a máfia japonesa, a yakusa.

No mesmo ano, o mentor de Harumafuji, o grande campeão mongol Asashoryu, deixou o sumô após se envolver, embriagado, em uma briga do lado de fora de uma boate na capital do país, Tóquio. Depois, vieram à tona provas da combinação prévia de resultados na segunda divisão do esporte.


Seriam sinais de que o sumô está em declínio e que a disciplina que um dia o definiu está em decadência? Ou será simplesmente que, após 15 séculos, o lado obscuro do esporte está finalmente vindo à tona? 


'Os mongóis estão chegando'


Uma forma de responder essas questões é olhar para a origem do esporte e para o duro regime de treinos ao qual os lutadores são submetidos.

Ainda que o sumô tenha surgido a partir de rituais de templos japoneses entre 1,5 mil e 2 mil anos atrás, o país não domina mais o circuito internacional da luta. Até a aposentadoria de Harumafuji, havia quatro grandes campeões. Três deles, inclusive o do agora aposentado Harumafuji, eram da Mongólia.

Rússia, Havaí, Samoa e países do leste europeu costumam enviar lutadores promissores para os ginásios de sumô do Japão, locais em que mestres treinam adolescentes na arte que um dia foi a grande atração das cortes imperiais da nação asiática.

O sumô não é apenas um esporte no país. É uma cerimônia que abre uma janela para o passado, calcada na tradição e na essência do que é ser japonês. Rituais rígidos estabelecem um código de conduta, e ser nascido no exterior não é desculpa para não receber um tratamento tão duro quanto o conferido aos nativos.

Todos os lutadores devem usar trajes tradicionais em público, inclusive um coque como o de samurais. Nas competições, o triunfo e o fracasso devem gerar a mesma reação impassível. Em conversas, o lutador deve ser um modelo de humildade e falar suavemente, comportando-se com hinkaku, ou dignidade. O status é tal que estranhos se curvam quando cruzam com eles na rua.

Cada um dos 45 centros de sumô no país aceita treinar apenas um estrangeiro, ou gaikokujin, de cada vez, por ordem da conservadora Associação de Sumô do Japão. E, quando conseguem chegar lá, normalmente aos 15 anos e com no máximo 23, devem comer, falar, vestir e respirar como japoneses.

Cozinhando, limpando – sem nada para o café da manhã

"(Os lutadores) São como soldados recebendo treinamento básico", explica Mark Buckton, um ex-comentarista e colunista de sumô do jornal Japan Times. "São eles que cozinham, limpam, descascam batatas... E todos aprendem japonês."

O ginásio de sumô é regido por uma hierarquia rigorosa, com um mestre – um ex-lutador – no comando. "Não é como no futebol, em que você pode se transferir de um time para outro", diz Buckton à BBC.

"Você faz parte de um ginásio para o resto da vida. A única forma de sair dele é abandonando o sumô."

Os lutadores deixam o cabelo crescer, normalmente até o meio das costas, para que o cabeleireiro do ginásio possa fazer um penteado tradicional. Só lavam o cabelo a cada uma ou duas semanas, e passam nele bintsuke, um tipo de cera feita a partir de soja com um cheiro adocicado que acompanha o lutador aonde ele vá.

As refeições, geralmente compostas de um caldo quente rico em proteína com vegetais, são tão controladas quanto o regime de treinos, em que os jovens passam horas tentando empurrar seus enormes colegas em um círculo coberto por areia. "Eles comem muito. Mas o crucial é ir dormir logo após de comer", diz Buckton.

"Eles não tomam café da manhã. Todo o treinamento ocorre pela manhã. Eles almoçam quase o mesmo que uma pessoa normal, talvez um pouco mais. Mas comem isso com uma grande quantidade de arroz. Depois, vão para a cama e só acordam no meio da tarde. Comem de novo à noite e vão dormir cedo, porque se levantam às 5h, 6h da manhã para treinar."

Ginásios mais rigorosos costumam gerar lutadores melhores? "Com certeza, com certeza", afirma o especialista.

Sem salário, namoradas ou telefones

Há seis competições profissionais de sumô por ano, todas no Japão. Um lutador ganha ao forçar seu oponente a sair do círculo ou ao fazê-lo tocar o chão com alguma parte do corpo que não os pés. Conforme acumula vitórias, o lutador sobe no ranking.

Há cerca de 650 lutadores nas seis divisões, mas apenas cerca de 60 disputam a primeira. Eles não recebem salários nas quatro divisões inferiores. Um lutador talentoso pode levar de dois a três anos para começar a receber um salário.

Quando há pagamento, ele é bom: cerca de US$ 12 mil (R$ 39,6 mil) por mês na segunda divisão, um valor que pode chegar a US$ 60 mil (R$ 198 mil) na elite do esporte, incluindo contratos de patrocínio.

Os lutadores mais jovens devem usar um traje de tecido de algodão fino, o yukata, e geta, ou sandálias de madeira, mesmo no auge do inverno. Dirigir não é permitido, mas os melhores lutadores têm motoristas, algo que é tanto um símbolo de status quanto uma necessidade, já que seu tamanho dificulta a vida ao volante.

Celulares e namoradas são tecnicamente proibidos abaixo das duas primeiras divisões, ainda que haja uma tolerância crescente com isso. Mulheres não podem morar nos ginásios, e lutadores não podem se casar ou morar em outro local com sua namorada até atingir ao menos a segunda divisão.

Caso se machuque e caia para a terceira divisão, o lutador deve deixar sua mulher e filhos para trás e voltar a morar no ginásio.

O que acontece se os jovens não atenderem os padrões dos mestres ou criticarem o regime quase monástico do ginásio? "Ah, eles são terríveis", diz Buckton. "Antes do rapaz ser morto em 2007, havia espancamentos frequentes. Você via os caras com marcas nas costas e na parte de trás das pernas por não se esforçarem o suficiente."

No ano passado, segundo relatos, um lutador recebeu quase 32,4 milhões de ienes (R$ 946,3 mil) de indenização após de ter sido maltratado diariamente e ficar cego de um olho.

Depois que Takashi Saito, de 17 anos, foi espancado até a morte por ter ameaçado deixar seu ginásio, o grande campeão mongol Hakuho relatou experiências chocantes de surras que chegam a durar 45 minutos.

"Você pode olhar para mim agora e ver um semblante feliz, mas, na época, eu chorava todos os dias", disse. "Os primeiros 20 minutos são muito dolorosos, mas, depois, fica mais fácil, porque mesmo que você esteja apanhando, começa a sentir menos dor. Claro que chorei e, quando meu ancião disse que isso era para meu próprio bem, chorei de novo."

Quebrando o silêncio

Mas por que - em um esporte que submete seus maiores talentos a anos de punição corporal - Harumafuji foi forçado a se aposentar após agredir um lutador mais jovem? "Bem, ele bateu no rapaz em um bar...", afirma Buckton.

O escritor Chris Gould, que acompanha o universo do sumô há três décadas, diz que o "pacto de silêncio" no esporte é bem poderoso.

"Há uma consistência impressionante em como o treinamento e as punições são aplicados em diferentes ginásios e ao longo do tempo. Isso significa que, quando ocorrem incidentes como o de Harumafuji, não se fala sobre o assunto para preservar o grupo", diz Gould.

No episódio mais recente, o técnico do lutador agredido foi quem fez a denúncia e defendeu mudanças no esporte. "É interessante ver um técnico ser criticado por quebrar o código de silêncio. Na maioria dos esportes, ele seria celebrado como um herói."

Com esse tipo de atitude, é possível esperar que jovens continuem se interessando pelo esporte?

Os dias em que a promessa de duas boas refeições diárias atraía jovens de famílias pobres do Japão rural para o sumô ficaram no passado, e esportes como o futebol e o baseball oferecem salários melhores sem o risco de sofrer violência.

Mas, apesar de tudo isso, a popularidade do sumô vem crescendo. Em janeiro, foi consagrado o primeiro campeão japonês em quase duas décadas, para a alegria dos fãs. A Associação de Sumô do Japão também tem feito campanhas publicitárias para voltar a tornar o esporte atraente.

Na visão de Chris Gould, a previsões sobre a ruína do sumô foram prematuras. "Ainda não é hora de entrar em pânico quanto ao futuro. Mas a associação precisa divulgar o que o sumô defende ou não, seus valores fundamentais. A não ser que isso aconteça, o número de grandes lutadores em potencial que nem chegam a entrar para o esporte só vai continuar a crescer."



domingo, 20 de setembro de 2015

Desacelere a sua mente, elimine o excesso de informação e viva melhor!


É o que aconselha o neurocientista Daniel Levitin em entrevista concedida a Lúcia Guimarães e publicada no Estadão:

Contemplar o capim

Em livro, neurocientista desmonta o mito das multitarefas e mostra que descansar a mente libera espaço para as grandes ideias

Folgo e convido minha alma,
deito-me e folgo à vontade vendo
uma lança de capim no estio.
(CANÇÃO DE MIM MESMO, POEMA DE FOLHAS DE RELVA, DE WALT WHITMAN)

Quem tem tempo de se espalhar na grama e admirar a lança de capim em vez de conferir a tela do smartphone? Em 1855, o poeta Walt Whitman não sabia nem precisava saber o que era ser multitarefas, mas já ensinava, em seu poema clássico, que a mente precisa vadiar. Vivemos uma era de aceleração de fontes de informação como nenhuma outra na história da humanidade. Mas o nosso cérebro tem a mesma capacidade fisiológica de enfrentar esse ataque de dados que tinha o cérebro do poeta. Em um livro best-seller escrito para você e para mim, não para cientistas, o celebrado autor Daniel Levitin oferece recursos para impedir que o leitor seja soterrado pela avalanche diária de informação. A Mente Organizada combina a apresentação das descobertas recentes em estudos sobre o cérebro e sugere rotinas para assumir o controle do ecossistema de informação, e não ser controlado por ele. Levitin é um neurocientista, especialista em psicologia cognitiva e músico, autor de outro best-seller, A Música no Seu Cérebro.

Ele dirige um laboratório de percepção musical na McGill University, em Montreal, e é cofundador e diretor do programa de Ciências Sociais do Projeto Minerva, universidade fundada em 2012 em San Francisco. O Minerva é um programa de graduação com 120 alunos que visa a reformar a educação superior do século 21 para enfrentar as rápidas mudanças em vários campos de conhecimento. “Não achamos honesto cobrar altas anuidades de estudantes que, ao se formar em certos campos profissionais, não podem mais usar o que aprenderam porque seu conhecimento já está superado”, diz Levitin, em entrevista exclusiva ao Aliás. “Temos foco em pensamento crítico, solução de problemas e 25% do currículo é concentrado em promover a comunicação efetiva.” Engraçado: na era dos nerds esquisitões da tecnologia, uma escola de vanguarda privilegia o diálogo.

Em A Mente Organizada, Levitin observa o que têm em comum as pessoas bem-sucedidas e produtivas. Sugere estratégias de organizar a memória – esvaziá-la com exercício e instrumentos que chama de extensões do cérebro, como calendários eletrônicos, smartphones e cadernos de anotação. Curiosamente, ele notou, entre seus mais ocupados interlocutores, um apego físico a objetos analógicos, pequenos cadernos de anotação, fichas, canetas e lápis. E especula sobre as vantagens de manter esse hábito.

O cérebro precisa de resets neurais. São esses resets que nos tiram de situações como a de um carro atolado na lama. É frequente, depois de uma pausa de repouso, encontrar a solução para um problema que parecia fora de alcance. A neurociência, conta Levitin, comprova que contemplar a natureza oferece um poderoso reset – até mesmo olhar imagens da natureza.

A eficiência em organizar a informação nos torna mais do que produtivos. É um instrumento de libertação para o ócio, para os momentos em que podemos contemplar a grama e ter grandes ideias. Como ter inspiração para escrever o maior clássico da poesia norte-americana.

Por que falamos em sobrecarga de informações?

Para os cientistas, a sobrecarga é a diferença entre a quantidade de informação com que somos bombardeados e a capacidade do nosso cérebro de lidar com ela.

O que é a obsolescência evolucionária, que o senhor aponta como parte do obstáculo para lidar com o excesso de informação?

Todos os organismos vivos estão constantemente se adaptando ao meio ambiente. A seleção natural exerce influência sobre essa adaptação. Por exemplo, nós nos adaptamos à erosão da camada de ozônio e pessoas que adquirirem maior resistência aos raios ultravioleta transmitirão aos descendentes o gene de sobrevivência a eles. Mas é um longo e lento processo. Nosso cérebro evoluiu para lidar com um ambiente que existia há 10, 20 mil anos. O genoma humano precisa de tempo para se adaptar. Para você ter uma ideia, em 30 anos quintuplicou a quantidade de informação que recebemos a cada dia. Pense nisso como o equivalente a ler 175 jornais de ponta a ponta diariamente. Outro número extraordinário: em 1976, nos Estados Unidos, havia cerca de 9 mil produtos únicos à venda num supermercado. Hoje, há cerca de 40 mil. O consumidor americano, que compra uma média de 150 produtos, tem que navegar entre uma quantidade muito maior de escolhas.

Embora a evolução do cérebro esteja “atrasada”, há duas gerações essa obsolescência era muito menos sentida, certo?

Vamos considerar um aprendizado que foi necessário para nossos avós. Eles tiveram que aprender a usar o telefone uma ou duas vezes – tiveram que fazer chamadas com ajuda de telefonistas e depois aprenderam a discar. Hoje, os smartphones não param de mudar. Você troca de modelo e tem que aprender inúmeras funções, que daqui a poucos anos serão trocadas.

Há um site chamado “Deixe eu googlar isto pra você” inspirado na exasperação que muitos sentem quando alguém faz uma pergunta que pode ser respondida online. Qual a importância de ter tanta informação disponível em poucos segundos?

Quando eu cursava a Universidade Stanford, na Califórnia, gostava de estudar dentro da enorme biblioteca principal. Havia ali respostas para tudo o que eu queria saber. Mesmo se eu me distraísse e quisesse conferir algo que não tinha ligação direta com o trabalho em questão, era preciso levantar, localizar um livro ou publicação num sistema de classificação. Hoje, a nossa atenção é desviada o tempo todo para novas fontes e isso afeta a possibilidade de recuperar o foco inicial. Há enorme variação na nossa capacidade de virar a chave da atenção. Mulheres e jovens tendem a ser mais rápidos do que homens e idosos. Mas varia muito. Se me distraio de algo, demoro uns cinco minutos para retomar a concentração.

A palavra multitarefas, executar várias tarefas ao mesmo tempo, é indissociável da rotina do século 21. Mas o senhor diz que multitarefas não passam de ficção.

Não existem multitarefas, é um mito. O cérebro simplesmente não comporta isso. A pessoa pensa que está lidando com várias coisas ao mesmo tempo quando, de fato, o cérebro está experimentando rápidas mudanças de foco que mal percebemos, o que resulta numa atenção fragmentada a várias coisas e nenhuma atenção sólida a uma que seja. Recentemente ficou provado que conseguimos prestar atenção a, no máximo, três ou quatro coisas de uma vez. O cérebro é eficaz em provocar autoilusão. Achamos que estamos no controle das coisas. Mas executar várias tarefas ao mesmo tempo libera um hormônio de estresse, o cortisol. O cortisol tem um papel evolucionário, mas também provoca ansiedade, nervosismo e afeta a clareza de pensamento. Comparo o ato de fazer várias tarefas ao mesmo tempo com uma espécie de embriaguez. Há trabalhos que exigem essa capacidade, como tradutor simultâneo ou controlador de tráfego aéreo. E não é à toa que, nessas funções, as pessoas são obrigadas a fazer várias pausas de descanso para recuperar a capacidade de se concentrar.

No entanto, há uma noção de que as pessoas bem-sucedidas, e o senhor entrevistou mais de 100 para escrever o livro, são as que têm o poder de acumular mais tarefas do que os outros.

Exato, mas a história e a ciência de laboratório nos provam o contrário. Estudos mostram que o trabalho de quem mantém o foco numa tarefa é mais criativo. Isso vale tanto para grandes empresários, atletas e inovadores como para artistas. Valia para Da Vinci e Michelangelo. Olhe para o alto na Capela Sistina, considere grandes conquistas como o cubismo, a 5ª Sinfonia de Beethoven, a obra de William Shakespeare – tudo é resultado de atenção sustentada ao longo do tempo.

Por que o senhor diz que as crianças devem aprender na escola, já aos 10 anos, a enfrentar a sobrecarga de informação?

Qualquer criança alfabetizada sabe que pode encontrar uma informação em segundos. Mas a maior parte do que está online é desinformação. Ficções mascaradas de fatos. Até estudantes universitários se deixam confundir. Recolhem informações sem perguntar quem está por trás. Como saber que a fonte é confiável? Na escola, os professores devem ensinar, para começo de conversa, que websites não são iguais. Devem incutir um questionamento crítico na pesquisa. À medida que os alunos crescem, vão adquirindo mais nuances para se informar. Por exemplo, se a criança quer um brinquedo, pode-se ensinar a ela que o website do fabricante não é a fonte mais confiável sobre a segurança do brinquedo. Antes, no ecossistema analógico, tínhamos curadores de informação, era mais fácil distinguir a credibilidade de fontes.

O senhor diz que as pessoas mais produtivas são as que melhor estabelecem prioridades.

A maioria de nós chega ao trabalho hoje em dia e é bombardeada com o “por fazer”. É como entrar cambaleando num ambiente em que há muitas exigências e começamos a atacar o que passa pela frente. Não fazemos um esforço consciente e deliberado de evitar que o ambiente em volta nos domine. Isso aumenta o cansaço e diminui a produtividade. Todas as pessoas altamente bem-sucedidas com quem converso têm em comum o fato de que elas anotam o que há por fazer e já começam a trabalhar cientes de prioridades.

O senhor diz que uma ferramenta útil para priorizar são os chamados exercícios de limpeza da mente.

Sim. O David Allen, um guru da produtividade e autor de A Arte de Fazer Acontecer, aponta para a importância de externalizar a informação. Recomenda anotar tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que têm a ver com a tarefa em questão e preocupações que podem distrair a pessoa. É um processo neurológico, porque o cérebro teme esquecer o que é importante. Quando o cérebro sabe que a informação foi arquivada externamente, nas anotações, e o efeito é de nos acalmar, é libertador. Retira o entulho mental que prejudica a atenção.

A sobrecarga de informação se estende ao excesso de objetos. Por que o senhor defende uma gaveta de bagunça?

Um profissional precisa saber exatamente onde estão seus instrumentos. Pode ser um cirurgião, um dentista, um bombeiro. Este tipo de organização nos libera para pensar e tomar decisões. Mas excesso de organização é contraprodutivo, uma perda de tempo. O importante é deixar visíveis os objetos que utilizamos regularmente. Quantas vezes você encontra um parafuso, uma peça e não se lembra de onde vem? Jogue na gaveta de bagunça, a que tem objetos de utilidades diferentes. Isso é uma forma de fazer economia cognitiva, porque não é preciso classificar tudo.

O senhor aponta a correlação entre eliminar o excesso de informação e de pertences e a felicidade.

Se quiser destilar tudo o que se conhece sobre pessoas que se consideram felizes, a frase é a seguinte: elas se satisfazem com o que têm. E são as que querem conquistar algo, não receber prêmios e elogios. O que é diferente de não ter ambição pessoal ou criativa. O empresário Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna de mais de US$ 70 bilhões, mora na mesma casa há mais de cinco décadas. Ele inventou o neologismo “satisficing”, sobre as coisas que bastam. Não perde tempo com o que não lhe interessa e tem uma agenda diária de trabalho quase vazia, de poucas reuniões, que o deixa livre para ser produtivo.



domingo, 19 de abril de 2015

A sabedoria de Einstein, 60 anos depois de sua morte


Artigo interessante publicado no Brasil Post:

60 anos da morte de Albert Einstein: 6 frases inspiradoras do maior cientista da história

Ione Aguiar

"Amável", "nobre" e "são". Estas são algumas das palavras usadas para descrever Albert Einstein no obituário que estampou as páginas do New York Times em 19 de abril de 1955.

Neste sábado (19), faz 60 anos que Einstein morreu aos 76 anos, deixando para trás um mundo muito, mas muito diferente de quando nasceu.

O sentido do espaço e do tempo foi completamente demolido com sua Teoria da Relatividade. E duas bomba atômicas, consequências infelizes de sua genialidade, comprovaram até onde pode ir irracionalidade humana.

É consenso em suas várias biografias que Einstein foi um pacifista, dotado de agudo senso de justiça e de tolerância.

O Brasil Post reuniu algumas de suas frases, que provam que Einstein era muito mais do que um grande cientista. Era um homem fascinante.

1. Sobre o maravilhamento

"A mais linda experiência que podemos ter é o misterioso. É a emoção fundamental, berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência. Quem quer que não a conheça e já não possa imaginar ou se maravilhar, está morto."

2. Sobre o senso comum

"Senso comum não é nada mais do que um depósito de preconceitos colocados na mente antes de fazermos dezoito anos"

3. Sobre o sucesso

"Se A é sucesso na vida, então A é igual a X mais Y mais Z. X é trabalho. Y é diversão, e Z é manter sua boca fechada!"

4. Sobre a paixão

"Nada realmente valioso nasce da ambição ou do mero senso de dever. Só surge do amor e da devoção pelos homens"

5. Sobre o nacionalismo

"Nacionalismo é uma doença infantil. É o sarampo da raça humana."

6. Sobre a solidão

"Meu apaixonado senso de responsabilidade social sempre contrastou com minha pronunciada ausência de necessidade de contato direto com outros humanos. Eu sou realmente um 'viajante solitário' e nunca pertenci a meu país, meu lar, meus amigos ou mesmo à minha família com todo meu coração. Mesmo com todos estes laços, nunca perdi a necessidade de estar sozinho".



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hitler e a espiritualidade contemporânea

Hitler comanda ataque nazista em caricatura soviética de 1942

Artigo de Mateus Prates Mori, a quem agradecemos por ter gentilmente autorizado sua reprodução aqui:

ESPIRITUALIDADE CONTEMPORÂNEA:
O que Hitler tem a ver com isso?

Muitos hoje baseiam qualquer tipo de espiritualidade com algo absorvido ou criado por eles mesmos. Como diz o ditado, no Mundo há tantas pessoas como religiões. Mas, o que Hitler tem a ver com tudo isso?

A grosso modo, pode-se dizer que hoje a religião imperante é uma espécie de Unismo. Como explica o Dr. Peter Jones, no Unismo acredita-se que se há um deus, ele está em todas as coisas e é todas as coisas. Em uma analogia, deus seria o conjunto dos números reais, ou seja, todos os números. Nesse bem bolado, você necessita ter olhos para ver o todo. Você faz parte do Cosmos sendo uma parte muito importante do Universo. Você deve exercitar olhar para dentro de si e achar o seu deus interior. Não é um exercício fácil e você pode e deve fazer o uso de várias técnicas, como meditação transcendental, questionamento da moralidade vigente, esvaziamento e libertação da mente em direção a um estado de harmonia com o universo, algo semelhante a um Nirvana. Seja como for, o que se deve buscar é toda a capacidade dentro de si para ser feliz e ser uma pessoa realizada, amando a si mesmo primeiro, para enfim entrar em harmonia consigo e com o universo. Só assim você entenderá o seu papel. Somente dessa forma você pode oferecer ao próximo o seu melhor. Você deve ser satisfeito sozinho e buscar a completude sem haver a necessidade de encontrar a felicidade em alguém. Você pode ser tudo o que você desejar, sendo capaz de realizar seus sonhos sempre tendo em mente que isso faz parte de um plano geral.

Tudo isso é muito bonito, muito belo e com certeza fala ao coração da humanidade. Não acredito que haja um ser humano que em sua essência natural deseja ser um fracassado. Esse discurso se assemelha bastante com a filosofia de Nietzsche destacando que "A sociedade nunca considerou a virtude outra coisa senão um meio para a força, o poder e a ordem". Em 'A vontade de poder', Nietzsche profetizou a vinda de uma raça de dominadores, "uma espécie humana particularmente forte, altamente dotada de inteligência e vontade". Quase todo tipo de ideologia mama, de alguma forma, nesse fundamento. A teologia da prosperidade que cresce no meio evangélico não é diferente. Afinal, se o Todo-Poderoso o salvou, Ele o salvou para ser um vencedor. Você é um campeão de Deus e como tal deve determinar a sua vitória sobre todas as coisas, pois se Ele prometeu nos dar todas as coisas, assim Ele fará.

De modo muito interessante esse tipo de pensamento rondava a mente de Adolf Hitler. Ouve-se, por vezes, que Hitler era cristão católico. Não era, sabemos, mas não também era abertamente anticristão. Sempre usou a Igreja como massa de manobra para impor sua ideologia e quando necessário distorcia as Escrituras. O Führer apoiou a ala da Igreja denominada de Cristãos Alemães que criaram o 'Cristianismo Positivo'. Uma similaridade que se nota com a espiritualidade atual e a doutrina propagada pelos Cristãos Alemães era o DESPREZO AO ENSINO DO PECADO E DA GRAÇA. O próprio Hitler considerava a pregação cristã de "mansidão" inútil à ideologia nacional-socialista da época, dizendo: "Temos a desgraça de que a nossa religião não nos convém.

Por que não temos a religião dos japoneses, cuja aspiração máxima é o sacrifício pela pátria? Para nós a religião maometana teria sido melhor que o cristianismo, uma religião frouxa e paciente". Em seu livro 'A cruz distorcida: o movimento cristão alemão do Terceiro Reich', a historiadora Doris Bergen escreveu que "os Cristãos Alemães pregavam um cristianismo como o polo oposto do judaísmo, Jesus como líder antissemita, e a cruz como símbolo de guerra contra os judeus". O Evangelho da cruz de Cristo era aquém e negativo demais para recuperar o orgulho e a força do povo alemão após a humilhação no Tratado de Versalhes. Admitir a derrota não é uma opção.

Se você leu até aqui, espero que você possa trazer à memória o que traz esperança. Sim, Jesus Cristo venceu todas as coisas e nos deu a salvação eterna oferecendo-se a si mesmo, de uma vez por todas, como sacrifício vicário (substitutivo) pelos nossos pecados (Hb 7.27). Porém, Cristo jamais pregou e viveu como se dele emanasse poder autogerado. Todo poder por ele exercido emanava do Pai das Luzes (Tg 1.17) e vinha como resultado da perfeita submissão do Filho ao Pai (Mt 11.27; Jo 8.28; Jo 12.49). O Evangelho de Jesus veio revelar que o homem é pecador e que não há esperança de salvação para ninguém abaixo dos céus senão por uma ação ativa de amor do Pai revelando esse favor imerecido por intermédio de Jesus (Mt 19.16-26). O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16). Mas apesar de sermos filhos de Deus, nós não somos deuses. "A igreja possui um único altar, o altar do Todo-Poderoso [...] perante o qual toda criatura deve se ajoelhar. Aquele que procura coisa diferente disso deve se afastar; não pode se juntar à casa de Deus [...]. A igreja possui um único púlpito, e, do púlpito, a fé em Deus (que está em Cristo Jesus) será pregada, e nenhuma outra fé, e nenhuma outra vontade que não a vontade de Deus, por mais bem-intencionada. [...] não podemos simplesmente não estar atento com o fato de que a causa de Deus nem sempre é o sucesso; nós realmente podemos ser 'malsucedidos': e, ainda assim, estar no caminho certo" (Dietrich Bonhoeffer).

Na verdadeira espiritualidade, para Deus sucesso é:

  • Humildade para o reconhecimento de sua natureza pecaminosa.
  • Arrependimento do que te leva a se distanciar de Deus (inclusive, eventualmente fazer tudo "certinho" e não dar glória a Deus pelo privilégio de ser participante de Sua Obra)
  • Submissão à vontade de Deus (que é naturalmente contrária a sua, o que inclui negar-se a si mesmo).
  • Fidelidade à promessa da Palavra de Deus de que Ele irá cumprir a transformação que começou em cada um dos crentes até o dia que encontraremos com o nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo diante dos fracassos e derrotas que tivermos aqui nesse mundo.


Disse Jesus: "Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo" (Jo 16.33).

"Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Rm 8.36 e 37).



domingo, 4 de maio de 2008

Eclesiastes - capítulo 2

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 1

Depois de passar o capítulo 1 "desconstruindo" algumas verdades que as pessoas têm por inquestionáveis na vida, no início do capítulo 2 de Eclesiastes, o Pregador passa à construção de alguns pilares do seu ensino. 

Primeiro, ele começa a experimentar algumas hipóteses para ver se alguma delas se encaixa no bem supremo da vida, que deve ser buscado e alcançado pelos mortais. 

A primeira hipótese que ele, digamos, "testa", é a do hedonismo, antes mesmo que o hedonismo viesse a ser especulado pelos filósofos pós-socráticos na Grécia na transição do século V para o IV antes de Cristo. 

O hedonismo, muito simplificadamente, é uma corrente filosófica que defende a busca do prazer imediato, aqui e agora, o prazer pelo prazer, como a suprema felicidade. 

Logo no v. 1, o Pregador testa esta hipótese, mas também considera o hedonismo como vaidade, pois, para ele, o riso é loucura (ou tolice) e a alegria de nada serve (v. 2). 

O Pregador cogita, então, de se entregar ao vinho e à loucura, mas preservando a sabedoria (v. 3). 

Isto não significa propriamente embriagar-se, mas permitir algum tipo de privação mínima dos sentidos, como aquele que toma algumas taças de vinho, e começa a rir e falar imoderadamente, mas também nisso o Pregador não encontrou resposta aos seus anseios. 

Desde já, entretanto, apresenta a sabedoria como uma espécie de moderadora, controladora, desta busca. 

E, a seguir, testa as riquezas, a ostentação, o consumismo, o "ter" em vez de "ser", como uma possível razão para a felicidade (vv. 4-11), mas tudo era também "vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol" (v. 11). 

O estranho é que muitos pregadores atuais encontram somente no "ter" sinais distintivos de um verdadeiro cristão. Certamente, não leem ou não pregam Eclesiastes.

Todas essas coisas eram vistas àquela época, e continuam sendo vistas assim até hoje, como aquilo que uma palavra só consegue definir: o "sucesso". 

O sucesso sempre foi um critério mundano para se definir, à primeira vista, se uma pessoa é ou não é feliz. 

O sucesso desperta a inveja, mas este é um tema que guardaremos para outra oportunidade. 

Por ora basta constatar que, como a própria experiência atual nos mostra, o sucesso não é duradouro, e muitas vezes faz mal. 

O exemplo de artistas que não conseguiram lidar com o sucesso, e muitas vezes sucumbiram a ele, está estampado todos os dias nos jornais e na televisão. 

Quando ninguém os conhece, eles querem atingir o sucesso a todo custo, a qualquer preço, e quando finalmente o conseguem, vêem que não lhes basta, há algo mais do que o sucesso a ser buscado, este sucesso que não consegue preencher o vazio que eles têm. 

O mesmo acontece com aquele que busca o prazer pelo prazer. Os hedonistas sabem que o prazer nunca é suficiente, e é sempre necessário algo mais, daí a razão de muitos se entregarem à luxúria, às drogas, à violência, e se perderem pelo caminho. 

O paradoxo hedonista é que, quanto mais se busca o prazer, menos ele é encontrado (ou, pelo menos, mais ele foge). 

Tudo isto é, como o Pregador diz, "correr atrás do vento", e como Jesus também disse, "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai" (João 3:8).

A partir do v. 12, o Pregador passa a considerar a sabedoria, que já lhe havia servido como moderadora da embriaguez e da loucura (v. 3). 

Aqui, o Pregador já vê na sabedoria algo melhor do que a estultícia, já que "a luz traz mais proveito do que as trevas" (v. 13). Entretanto, tanto o sábio como o estulto terminam do mesmo jeito (vv. 14-15). Logo, por que buscar a sabedoria? Não seria isto também vaidade? 

Dentro da sua dialética toda peculiar, o Pregador primeiro vê alguma vantagem na sabedoria, mas depois volta atrás e se pergunta se ela é realmente tão vantajosa assim e, tanto a memória do sábio como a do estulto não durará para sempre, pois passado algum tempo, "tudo cai no esquecimento". 

Pela primeira vez, o Pregador fala da morte no seu discurso (v. 16). Aqui, a meu ver, ele passa a delinear uma resposta às suas questões, e começa a erguer dois pilares para sustentar seu pensamento e suas conclusões que só apresentará no final do livro. 

Um desses pilares, bastante claro, é a sabedoria. O outro é a eternidade

Ele vem falando da inutilidade do sucesso, e no v. 16 mostra que a tendência natural do mundo é que tudo e todos sejam esquecidos. A morte nos nivela a todos, indistintamente. 

É necessário, então, ligar este versículo com outro do capítulo 3, aquele que diz que Deus "pôs a eternidade no coração do homem" (3:11). 

Por um certo tempo da minha vida, por uma série de razões profissionais e sociais, eu convivi com muitas pessoas famosas, daquelas que integram o glamoroso mundo das celebridades. 

Naquela época, eu comecei a pensar sobre o que significava a fama, afinal. O que é esta tal de fama, que tanta gente busca, mas nunca se sacia? Foi aí que eu percebi que todos aqueles que buscam a fama, no fundo, buscam uma maneira de se eternizar. 

Diante da mortalidade que nos limita a todos (e cuja constatação a tantos sufoca), e diante também deste desejo de eternidade que Deus colocou no coração do homem, a fama é um recurso que muitos buscam para tentar driblar a mortalidade e inscrever-se na eternidade. 

É verdade que muitos conseguem ser recordados e cultuados por algum tempo, mas a sua lembrança vai gradualmente se desfazendo e desaparecendo da memória coletiva. 

Quantas vezes ouvimos que "o brasileiro tem memória curta", mas será só o brasileiro que se esquece fácil e rapidamente? 

Penso que a verdade está com Davi, que teve coragem de dizer: "Sou esquecido como um morto de quem não há memória; sou como um vaso quebrado" (Salmo 31:12). 

O Pregador retornará a este tema em Eclesiastes 9:5, quando dirá que a memória dos mortos "jaz no esquecimento".

A partir do v. 18, o Pregador começa a finalizar o capítulo 2 de Eclesiastes falando sobre o trabalho e a herança. De que vale, afinal, trabalhar tanto? Quem se dedica ao trabalho a ponto de se tornar um "workaholic" é sábio ou estulto? 

De que adianta trabalhar tanto, morrer de repente e deixar tudo para quem não derramou uma gota de suor para merecer a herança? (vv. 18-21). 

Como Jesus disse numa de suas parábolas, sobre o homem rico que queria construir mais celeiros: "Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (Lucas 12:20). 

De que adianta levar trabalho do escritório à noite para casa (v. 23)? Ou seja, o "debaixo do sol" de que tanto fala o Pregador, corre o risco de se tornar "debaixo da lua" (v. 22). 

Deve o homem, então, simplesmente parar de trabalhar e esperar o tempo passar? "Não", é a resposta do Pregador. 

O homem deve trabalhar e conseguir o suficiente para "comer, beber e fazer com que a sua alma goze o bem do seu trabalho", sempre reconhecendo que é a mão de Deus que lhe proporciona estas alegrias simples da vida (v. 24). 

Aqui, o Pregador constrói um terceiro pilar para sustentar suas conclusões: a providência divina

É Deus, afinal, quem "dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada", ressalvando que "ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus" (v. 26). 

O trabalho não é nenhum mal em si, mas é o seu uso deturpado, ou a sua valorização excessiva, que o torna uma pedra de tropeço (e muitas vezes, de morte) para o ser humano.



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 3


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