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domingo, 24 de julho de 2016

Quando as redes sociais prejudicam o diálogo


A entrevista com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman foi publicada na versão brasileira do El País em 09/01/16:

Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”

Ele é a voz dos menos favorecidos. O sociólogo denuncia a desigualdade e a queda da classe média. E avisa aos indignados que seu experimento pode ter vida curta

Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.

R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.

P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.

R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.

P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.

R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.

P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?

R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.

P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?

R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.



sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Viva o progresso!

Recentemente, lendo o jornal, me deparei na seção de cartas dos leitores, com o comentário de um leitor que comemorava a recente aprovação do estudo de células-tronco no Brasil. A comemoração de fato, foi apenas um pretexto para uma crítica à religião como um todo, já que a oposição à este estudo partiu de religiosos. Eu sinceramente desconheço toda a argumentação usada neste debate. Me parece que o que está envolvido é a decisão de se usar células que formariam um novo ser humano, para o tratamento de doenças em pessoas que já nasceram. Seria então um caso de se escolher qual vida sobreviveria. Minha intenção aqui não é discutir o tema e todos os argumentos envolvidos. O que me chamou a atenção em tudo isto foi a crítica deste leitor à religião, como algo que atrapalha o progresso. Isto me chamou a atenção, e pelo visto esta é uma opinião aceita por muitas pessoas hoje em dia.

Por isto, resolvi também comemorar o progresso, relembrando os grandes feitos em seu nome.


O progresso é sempre citado como um mantra, que encanta as multidões, e faz a cabeça de milhares. É tão eficaz neste papel que seria natural que entre as magias conjuradas pelo conhecido bruxo infantil Harry Potter haja uma magia chamada progressum mentalis para controle de mentes. Mas toda boa mágica, principalmente em livros infantis, precisa de um elemento extraordinário. Precisa fugir da realidade. O progresso já é muito bem usado pelos nossos magos da política. Os mais antigos destes magos já inseriram em 19 de novembro de 1889 o mantra em nossa bandeira, e desde aquele dia esperamos tanto a ordem como o progresso prometido. Alguns hoje acham que este progresso seria encher nossas estradas de pedágios ou vender tudo que o país conseguiu construir em toda sua história, e o governo é ruim justamente por que não promove este progresso.


Este poder de encantar se deve em parte por que o progresso é quase um padrão moral universal, e poderia muito bem ser adotado pelo sistema internacional de medidas. Quando uma coisa é ruim, ela atrasa o progresso, quando é boa ela faz o mundo progredir. E por isto religião é ruim, pois atrasa o progresso, pelo menos nossa noção atual de progresso, fique isto bem claro. Pois a religião na idade Média também supunha estar fazendo o mundo progredir, queimando seus hereges e fazendo um mundo espiritualmente mais uniforme (e mais obediente também). O tempo passa, o tempo voa, e o conceito de progresso não continua "numa boa". Esta indefinição sobre o que é o progresso, que ajuda os magos do progresso a progredirem a nível pessoal. Não é à toa que quem dita as regras dita também o conceito de progresso. O catolicismo da Inquisição ditava o que era o progresso, hoje governos ditam o que é o progresso. Progresso é a encarnação das vontades dos poderosos, independente de seu nível de poder. Veremos isto adiante.


O progresso que temos que comemorar hoje é o progresso tecnológico. A ciência impulsiona o progresso. Devemos agradecer à ciência por nos dar o computador, telefone, televisão, internet, por melhorar a nossa qualidade de vida no geral. Muitas doenças possuem hoje um tratamento eficaz graças a este progresso científico. Hoje eu sei que tudo que eu sinto, de amor a ódio, na verdade é simplesmente resultado de reações em meu organismo, mediadas por enzimas ou hormônios. Tenho que agradecer pelo fato de não sentir mais medo, agora o que tenho é muita adrenalina no sangue. Medo é uma ilusão. Com todo este progresso, até minha vontade está correndo risco de se tornar uma mera ilusão. Pobre Platão, que achava que a realidade era o mundo das idéias. A ciência, ou melhor, o positivismo lógico conseguiu inverter os papéis do mundo das idéias e o mundo dos sentidos de Platão. O mundo dos sentidos é a realidade que existe por trás do mundo das idéias, este sim o que vivemos. Claro, isto tudo se colocarmos a ciência como única capaz de explicar nosso mundo, como o positivismo lógico afirma e como parece ser o rumo que a coisidade está tomando.


E como estamos cada dia progredindo mais para que deixemos de ser humanos para ser alguma coisa, poderíamos até nos perguntar se nossa vida está realmente melhorando. Será que somos vivos mesmo, ou esta é apenas mais uma convenção de nosso ilusório mundo? É por isto que devemos sempre comemorar as novas conquistas da ciência, que nos dá a vida através das pesquisas com células tronco, enquanto a tira sorrateiramente de nós através dos conceitos que adotam. Atualmente vivemos uma total desconstrução do homem, comemoraremos muito quando conseguirem completar esta árdua tarefa. Será um grande progresso, e muitos leitores felizes irão mandar cartas para seus jornais prediletos, comemorando este novo progresso e criticando os tempos onde os sentimentos barravam o mesmo progresso. Provavelmente pessoas de alto gabarito como Josef Mengele serão reabilitados à ciência, quem sabe até "canonizados" por terem buscado empiricamente as respostas para suas dúvidas, e não se deixar levar apenas por seus "sentimentos". Finalmente todos seremos iguais, criminosos ou não. Vamos comemorar nossa igualdade, pois seremos igualmente nada.


Eu já sabia que eu não tinha vida nenhuma, o positivismo lógico só me confirmou isto. Pois quem chamaria de vida, o que eu levo? Eu não tenho a melhor televisão do mercado, não consigo comprar um notebook, tenho carro 1.0 parcelado em 60 vezes, meu celular tem tela monocromática e não tira foto, minha câmera digital tem apenas 3 Megapixels... Isto definitivamente não é vida. Pelo menos em nosso sistema capitalista. Pessoalmente não sou partidário do capitalismo, nem do socialismo. Porém, não posso deixar de observar o que foi deixado para nós através destes, o chamado progresso. O capitalismo em si é um grande progresso comparado com o feudalismo que o precedeu. Antigamente tínhamos os senhores feudais e os servos, agora aquele que explora se chama patrão e o que leva a pior é o empregado. As formas de exploração também ficaram bem mais sutis, uma grande revolução. Podemos perceber como as relações trabalhistas progrediram quando vemos o grau técnico dos trabalhadores. Antigamente, os servos já nasciam servos, e já começavam aquilo que consideravam ser sua vida trabalhando para seus senhores. Ninguém era obrigado a se especializar em nada, mesmo por quê não tinha como ser demitido por não saber o que fazia. Hoje não, somos bem mais modernos. Hoje além de sermos obrigados a ficar um terço de nossas vidas estudando para conseguir os menores salários oferecidos, muitos ainda fazem cursos para serem bons funcionários, fazem dinâmica de grupo, frequentam palestras sobre liderança, motivação... Tudo para que nos moldemos àquilo que definiram como o "empregado perfeito" (progresso como definido pelos que estão no comando). Curiosamente, nunca vi cursos para pessoas se tornarem "empregadores perfeitos". Aliás, o empregador nem precisa ser formado para ser empregador. Ele pode ser a pessoa mais arrogante que você conheceu, ou a pessoa mais dócil. Tanto faz. Ninguém vai condená-lo por ele ser o que é, e muitos dos grande empregados são aqueles que sabem ignorar a personalidade de seus superiores. Você nunca verá uma dinâmica de grupo com empregadores.


Um bom exemplo desta situação é o programa que tem passado todo ano chamado O Aprendiz, onde vários candidatos a "O usuário mais perfeito" se confrontam. Ali, são feitos vários testes para ver se todo mundo aprendeu tudo direitinho. Por exemplo, já vi alguns sendo demitidos, por que colocaram sua família em primeiro lugar. Os candidatos são isolados de todos os conhecidos enquanto estão participando do programa. Houve um caso onde um futuro pai estava dividido entre a vontade de acompanhar a esposa durante os últimos meses de gestação de seu filho, e a participação no programa. Em outro caso, a mãe queria voltar a ver seu filho pequeno. Mas eles tinham que colocar a empresa (no caso o programa) em primeiro lugar. A pessoa tem que viver para a empresa, e não para sua família. Geralmente, procuramos um emprego motivados por nossas famílias, para que possamos ajudá-las a se manter. Mas assim que entramos, deixamos a família de lado. A empresa deve vir em primeiro lugar. É o progresso definido pelos patrões, que se aproveita da desconstrução humana, para pregar que não devemos ter sentimentos, muito menos vida familiar. Por isto passamos quase um quarto de nossas vidas trabalhando, quando o funcionário não é obrigado a fazer horas extras ou trabalhar no fim de semana. O processo de desconstrução da sociedade é um passo inevitável, já que coisas não podem viver em sociedade. Voltarei a falar sobre isto adiante.


Outra pessoa foi demitida por que acreditava que estava aprendendo muito ali, e que ainda não sabia de tudo. Um bom funcionário então, deve saber de tudo. Ninguém deve aprender nada desempenhando suas funções. Imagino como seria uma reunião de funcionários que sabem tudo, e que porventura alguém entre em discordância com os demais. Imagino como seria muito complicado para estes funcionários que sabem tudo explicar como uma eventual falha possa acontecer. Pois as falhas acontecem, geralmente por que não sabemos de tudo. Não sabemos das n variáveis que podem influenciar nosso trabalho.


Tive que assistir com toda a revolta que pude reunir, como um grupo foi julgado por seu mau desempenho. Na verdade, não ficaram muito atrás de seus concorrentes. Mas isto não importava, tinha que se encontrar os culpados. Então o grupo foi obrigado a encontrar as falhas de cada um, coisa que ninguém conseguia fazer, pois ninguém conseguiu ver falha. Eles tinham feito tudo da melhor forma possível. Eles eram um grupo, eram uma equipe, e naquele momento, estavam sendo obrigados a ser "cada um por si". Eles não tiveram coragem de apontar tais erros, e foram repreendidos ainda. Mais uma vez, vemos a desconstrução da sociedade aqui também.


E o mundo de hoje incentiva este "cada um por si". Eu tenho que ser melhor que todo mundo. Você tem que ser melhor do que eu. Mesmo quando você está trabalhando em equipe, você tem que ser o melhor na equipe, mesmo que isto signifique às vezes prejudicar os outros. Em nome de ser o melhor possível, grandes empresas esmagam pequenas empresas que sustentam famílias honestas e trabalhadoras, apenas para conseguir menos do 1% atual a mais nos lucros. Em nome de ser o melhor possível, empregados que tem problemas de saúde e dependem de seu salário para pagar seus tratamentos são mandados embora por que sua produtividade está caindo. Em nome do melhor possível, pais de família com 5 filhos para criar devem aceitar míseros salários, pois senão serão substituídos por pessoas que não possuem nem um periquito para cuidar. Podemos dizer adeus ao trabalho ideal, aquele onde trabalhávamos não para sermos os melhores, mas para fazermos o melhor para todos, e não para alguns. Aquele que trabalhamos para o bem de todos, e não para o bem próprio, ou o bem dos patrões. Aquele que trabalhamos para mudar o mundo para melhor, o real progresso, e não para mudar o destino das próximas férias de nossos empregadores, ou as cifras de suas contas bancárias.


Isto não se limita infelizmente, ao mundo secular. Até as igrejas hoje parecem estar concorrendo para ser as melhores igrejas. A igreja melhor é a que possui grandes aparelhos de som, e que podem fazer um culto para todo o bairro escutar. Ou então a melhor igreja é aquela que resgata melhor as tradições de Israel, assim demonstrando que apesar de todo aquele show teatral, elas possuem alguma ligação com os judeus, talvez até com o cristianismo. A melhor igreja possui os melhores castiçais, a melhor iluminação, o melhor equipamento de som, os melhores músicos, o melhor logotipo...


Esta concorrência para ser o melhor nos faz cada vez mais consumistas. Deixamos de procurar aquilo que precisamos para precisar daquilo que outros definiram como necessário. E geralmente esta necessidade é alimentada por uma busca por status. Então, depois de algum tempo agindo assim, o consumismo se tornou normal. Hoje, pessoas desejam trocar de carro todos os anos só por trocar, só por que é bom ter carro novo. É certo que muitas vezes os carros mais velhos vão para a oficina mais vezes, porém nem sempre este é o caso, diria até que esta não chega a um quarto dos casos. Deixamos de ver o carro como um meio de transporte para encará-lo como um item de luxo necessário. Pagamos mais só por que ele corre mais, mesmo que não possamos correr tanto em nossas estradas, pagamos mais só por uma marca, pagamos para rebaixar o carro e deixá-lo muito diferente do que os projetistas o fizeram. Não critico as pessoas que modificam seus carros por hobby, uma vez que elas fazem isto por um prazer próprio, elas fazem isto por elas mesmas. Critico aqueles que o fazem para os outros. Critico isto naquelas pessoas que fazem isto para serem melhores que os outros.


Tudo isto de alguma forma contribui para nos afastarmos uns dos outros. Esta competição acaba com nossas relações sociais, na medida que transforma todos, mesmos inconscientemente, em concorrentes. É isto que chamo de desconstrução social, e ela prescede a desconstrução humana que já comentei. Pois precisaria primeiro deixarmos de ser uma sociedade humana, para depois deixarmos de ser humanos. Assim é mais fácil. Como consequência disto, agora temos até vergonha de pedir licença para uma pessoa nos deixar passar. Temos vergonha do diálogo. Evitamos todos, evitamos também as idéias dos outros. Hoje presencia-se o absurdo de se manter uma opinião por que simplesmente ela é sua opinião, deixando de lado os argumentos. Aliás, argumentos são fabricados, e por mais absurdos que eles sejam, são preferíveis do que a argumentação alheia. Nos isolamos dos outros, nos tornamos autônomos. E esta autonomia está agora se voltando contra nós mesmos. A solidão é a doença deste século, e não é à toa. Era até previsível isto. Nós estamos deixando de ser uma sociedade preocupada com seus membros. A preocupação com nossos membros só surge quando ela se torna um argumento para mantermos aquelas opiniões já ditas, ou quando ela se torna uma fonte de renda. Um bom exemplo disto é a carta do leitor que citei acima, onde ele comemora o progresso. Ele está tão preocupado com as pessoas doentes que esperam pelas pesquisas com células tronco, que deixou de comentar sobre elas em 95% de sua carta, para falar contra a religião.


Viva ao progresso, que desconstruiu o homem e sua sociedade. Viva ao progresso, que nos deu o poder de dizimar duas cidades com suas bombas atômicas, coisa que gastaríamos mais tempo para fazer, e atingiríamos somente os habitantes que viviam nas cidades durante os ataques. Viva o progresso que ajudou a acabar com a camada de ozônio. Viva o progresso que ajudou a construir Chernobyl. Viva o progresso que nos ajudou a construir armas mais violentas. Viva tudo isto. Não são coisas que costumamos nos lembrar quando comemoramos o progresso, por isto faço questão de lembrar a todos, que este progresso que muitas vezes comemoramos, teve um preço, e muitas vezes alto.


Espero que algum dia as pessoas ponham a mão na consciência, e reflitam sobre o que estão passando. Espero que algo possa ser feito para parar esta desconstrução pela qual passamos, e possamos mais uma vez ter a dignidade de nos considerarmos seres humanos, seres vivos. Espero que as pessoas voltem a se escutar, a se relacionar como pessoas, a se respeitar. Não será fácil isto. Um dos primeiros passos seria observar aquilo que já foi dito há muito tempo:

Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo? (Mateus 5:44-47)

Infelizmente, como o texto é religioso, terá grandes chances de não ser valorizado. Afinal de contas, a religião atrasa o tal progresso. E não é verdade?

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