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domingo, 16 de novembro de 2014

Quando a PM encontra Dostoievski

Dostoievski e Tolstoi com suas obras-primas. Nada mais atual...

A matéria d'O Dia foi reproduzida no IHU:

"Polícia morre e mata muito. Temos que mudar", diz comandante interino da PM


Se não fossem o distintivo e o uniforme, ninguém diria que Ibis Silva é policial há 31 anos, ainda mais comandante da Polícia Militar. Com os seus poucos mais de 1,60 metro de altura e corpo franzino, o coronel com pose de intelectual cita Guimarães Rosa, o escritor russo Dostoiévski e a filósofa alemã Hannah Arendt quando fala sobre como vai comandar a tropa até a posse do coronel Alberto Pinheiro Neto, no dia 2 de janeiro, que se recupera de uma cirurgia. Mesmo com pouco tempo de gestão, Ibis tem planos grandes, como aumentar a punição de policiais corruptos. 


A entrevista é de Constança Rezende, publicada pelo jornal O Dia, 10-11-2014.


Entre os casos que o novo comandante promete observar está o caso da Máfia da Saúde, em que O DIA denunciou fraudes em compras do Hospital Central da Polícia Militar. Esta entrevista exclusiva foi feita depois de uma inspeção na unidade, no sábado, dia em que Ibis trocou o comando de 11 unidades, inclusive na corregedoria na PM. Segundo o comandante, outras mudanças estratégicas serão feitas esta semana.

Eis a entrevista.

Quais as condições do hospital da PM?

Estão bem precárias. Estão faltando investimento, higiene, manutenção, principalmente nos elevadores e nos aparelhos de ar-condicionado. Vamos corrigir isso. Mas me impressionou muito a dedicação dos profissionais da saúde. Se não fosse isso, a situação estaria pior, já teria entrado em colapso.

E em relação às denúncias de corrupção em hospitais da Polícia Militar?

Temos inquéritos instaurados. Não conheço todo o teor dos processos, o que está sendo apurado, apenas sei das denúncias de um modo geral. A gente chama isso de corrupção porque não encontra um termo mais terrível sobre desviar da saúde, que é colocar em risco a vida de policiais. Esse hospital é mantido pelo dinheiro deles próprios. É um ato repugnante. Não tenho dúvidas de que as pessoas responsáveis serão identificadas e presas. Com o Ministério Público à frente, isso não vai acabar em pizza.

Como avalia a corrupção policial?

Corrupção gera descrédito. Quando a polícia se envolve em corrupção, sua imagem fica diretamente comprometida e, consequentemente, o seu trabalho também. As pessoas passam a não confiar mais na polícia e não a procuram mais para denunciar os crimes dos quais são vítimas. Quando isso acontece, não temos capacidade de planejar. A corrupção é lesiva.

O que pode ser feito para combatê-la?

Uma reforma estrutural. As pessoas se corrompem por conta dos valores e da oportunidade. Veem facilidade nas coisas e acham que podem aproveitar. A primeira coisa a se fazer é sinalizar que não se tolera isso e que quem insistir em se envolver com corrupção será responsabilizado criminalmente. As pessoas têm que entender que não existe brecha para roubar, e que há uma estrutura para investigar.

"Prender um policial porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é anacronismo"

Como fazer isso?

Revendo a legislação. Os regulamentos que estruturam a polícia, e sem os quais não se pode prender ninguém, são anteriores à Constituição Federal, que é voltada para o Estado de Direito Democrático. A nossa, que é da época da ditadura militar, tem que estar adaptada a isso. Como é hoje uma grande colcha de retalhos, cheia de emendas, é uma legislação onde é possível provocar lentidão nos processos. Um bom dispositivo tem que ser rápido. Uma pessoa não pode levar sete anos para ser excluída de uma corporação, e depois a sua história é de abandono. Só se resgata isso com diálogo. Não se faz polícia de cima para baixo. A gente tem que dizer que corrupção não vale a pena. Colocar um policial na prisão porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é um anacronismo.

Quando a legislação poderá ser mudada?

Isso não é uma coisa que vamos conseguir de um dia para o outro. Temos que apresentar o projeto ao Poder Executivo e discutir na Assembleia Legislativa. Mas já estamos costurando isso. Não quero chegar para o secretário de Segurança e dizer: olha, isso aqui é uma legislação que eu e meia dúzia de coronéis pensamos. Quero dizer que a gente discutiu com as associações, soldados, sargentos e que o projeto é um consenso. Meu desafio como comandante interino e futuro chefe de gabinete de coronel Pinheiro Neto é conseguir resolver o que só depende de mim.

As UPPs estão incluídas nisso?

A Secretaria de Segurança está empenhada em mapear todas as unidades de polícia pacificadora para conhecer as especificidades de cada uma. A gente precisa conversar com as pessoas, ouvir as críticas que elas têm sobre o programa. A lógica desse policiamento exige a construção de um diálogo com as comunidades e o resultado disso passa pelo que a sociedade quer. O nosso maior desafio é a Maré. São 16 comunidades, tem milícia. Mas é uma comunidade politizada, e isso é o melhor da Maré, o nosso maior trunfo. Quando as pessoas são conscientes de seus direitos e obrigações, cobram e sabem de quem cobrar. Está mobilizada e isso já facilita o diálogo. Temos interlocutores lá. Sem críticas, nós não evoluímos.

Muitas das queixas dos moradores envolvem o tratamento de alguns policiais e a corrupção. O que pode ser feito?

Uma mudança na estrutura da nossa corregedoria. Ela tem que estar na rua, investigando e fiscalizando a conduta dos policiais, indo aos batalhões, às unidades. Hoje ela trabalha muito dentro da lógica do papel, solucionando processos, sindicâncias. Podemos fazer isso sem mexer no efetivo, pela tecnologia, interligarmos as corregedorias, apesar de termos dificuldade com a nossa internet, por incrível que pareça. Como podemos falar de inteligência com internet ruim em pleno 2014?

O governador reeleito Luiz Fernando Pezão costuma dizer que hoje temos uma polícia formada para a guerra. O senhor concorda?

Sim, e por isso a palavra de ordem é humanização. O que acontece quando a lógica é a guerra? Se desumaniza, os marcos morais sofrem abalo, e já não se sabe o que é certo e errado. Quem despreza a vida não está preocupado com a corrupção. Enfrentamos as drogas invadindo favela, tentando prender traficante, trocando tiros. Imagina o que passa na cabeça de um garoto de 25 anos que deve entrar num caveirão de madrugada? Vai se transformar num bruto, numa máquina de matar e morrer e, quando isso acontece, está a um passo da corrupção. Se ele não respeita a vida, não respeita mais nada. O grande mérito das UPPs é que ela opera com outra lógica.

Isso passa por diminuir os elevados índices de auto de resistência dos policiais?

Sim. A polícia tem que garantir a dignidade humana e isso não combina com auto de resistência elevado. Hoje a polícia mata cinco pessoas por dia no país. Ela morre e mata muito. É um ciclo perverso de brutalidade. Temos que mudar isso. A violência está comprometendo o futuro. Cerca de 70% dos homicídios são de jovens negros, pobres e moradores de periferia. Isso é barbárie.

Como mudar?

Podemos começar cuidando do nosso efetivo, tornando as academias mais humanas, melhorando as escalas. Trabalho policial é afetivo, com a redução do medo da sociedade. Por isso que a arte e a poesia amenizam isso.

O senhor usa a literatura para lidar com policiais?

Sim. Meu escritor favorito é Guimarães Rosa. Em ‘Grande Sertão: Veredas’, o personagem Riobaldo diz que comandante é para aliviar os aflitos. A gente precisa aliviar a alma dos nossos comandados, filosofia também de Dostoiévski.

Qual será seu principal desafio?

Conseguir mapear todas as medidas que a gente precisa tomar imediatamente. Já identifiquei os problemas, agora tenho que fazer o panorama operacional. É o que São João Batista fez com Jesus, pacificar o caminho para o Salvador. O meu papel é ser uma espécie de João Batista para o Pinheiro.



domingo, 30 de setembro de 2012

Riobaldo e o ateísmo


"Mire veja: um casal, no Rio do Borá, daqui longe, só porque marido e mulher eram primos carnais, os quatro meninos deles vieram nascendo com a pior transformação que há: sem braços e sem pernas, só os tocos... Arre, nem posso figurar minha idéia nisso!Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Araçuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencama, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, senão tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor..."

(Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, 19ª ed., Nova Fronteira, 2001, p. 76)



domingo, 19 de agosto de 2012

Riobaldo e a procissão da prosperidade

"Olhe: muito em além, vi lugares de terra queimada e chão que dá som – um estranho. Mundo esquisito! Brejo do Jatobazinho: de medo de nós, um homem se enforcou. Por aí, extremando, se chegava até no Jalapão – quem conhece aquilo? – tabuleiro chapadoso, proporema. Pois lá um geralista me pediu para ser padrinho de filho. O menino recebeu nome de Diadorim, também. Ah, quem oficiou foi o padre dos baianos, saiba o senhor: população de um arraial baiano, inteira, que marchava de mudada - homens, mulheres, as crias, os velhos, o padre com seus petrechos e cruz e a imagem da igreja – tendo até bandinha-de-música, como vieram com todos, parecendo nação de maracatu! Iam para os diamantes, tão longe, eles mesmo dizendo: “... nos rios...” Uns tocavam jumentos de almocreve, outros carregavam suas coisas – sacos de mantimentos, trouxas de roupa, rede de caroá a tiracol. O padre, com chapéu-de-couro prà-trasado. Só era uma procissão sensata enchendo estrada, às poeiras, com o plequeio das alpercatas, as velhas tiravam ladainha, gente cantável. Rezavam, indo da miséria para a riqueza. E, pelo prazer de tomar parte no conforto de religião, acompanhamos esses até à Vila da Pedra-de-Amolar. Lá venta é da banda do poente, no tempo-das-águas; na seca, o vento vem deste rumo daqui. O cortejo dos baianos dava parecença com uma festa. No sertão, até enterro simples é festa. Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” – ciente me respondeu."

(João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, 19ª ed., Nova Fronteira, 2001, pp. 73-74)



sábado, 7 de maio de 2011

Riobaldo não vende a alma ao capeta

Agora, bem: não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso; chega. Mas tem um porém: pergunto: o senhor acredita, acha fio de verdade nessa parlanda, de como o demônio se poder tratar pacto? Não, não é não? Sei que não há. Falava das favas. Mas gosto de toda boa confirmação. Vender sua própria alma... Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. Posso vender essas boas terras, daí de dentre as Veredas-Quatro – que são dum senhor Almirante, que reside na capital federal? Posso algum!? Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar... E a gente, isso sei, às vezes é só feito menino. Mal que em minha vida aprontei, foi numa certa meninice em sonhos – tudo corre e chega tão ligeiro -; será que se há lume de responsabilidades? Se sonha; já se fez... Dei rapadura ao jumento! Ahã. Pois. Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível. O senhor não acha? Me declare, franco, peço. Ah, lhe agradeço. Se vê que o senhor sabe muito, em ideia firme, além de ter carta de doutor. Lhe agradeço, por tanto. Sua companhia me dá altos prazeres.

(Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, Ed. Nova Fronteira, 19ª ed., 2001, pp. 40-41)

em compensação, o que tem de gente negociando 1 milhão de almas por aí...

sábado, 5 de julho de 2008

Riobaldo e a religião


No último dia 27, o Brasil celebrou os 100 anos do nascimento de Guimarães Rosa. Ocasião perfeita para colocar aqui a opinião de Riobaldo sobre religião, conforme a obra-prima da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas.

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma… Muita religião, seu moço! Eu cá não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. (...) Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada - erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom.

(Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, Ed. Nova Fronteira, 2001, p. 32)


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