Mostrando postagens com marcador Irlanda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Irlanda. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ex-padre irlandês magoado com homenagem a Vanderlei Cordeiro de Lima na Rio 2016


A informação é do The New York Times, e repercutiu na Folha de S. Paulo:

Padre que atacou Vanderlei de Lima diz ter sentido raiva ao vê-lo acender pira

Neil 'Cornelius' Horan atacou Vanderlei Cordeiro de Lima durante a prova de maratona da Olimpíada de Atenas-2004. Doze anos depois, surpreendeu-se ao ver o corredor acender a pira olímpica na abertura da Rio-2016 –e mais do que surpreender-se, ficou com raiva. A informação é do "The New York Times", que conversou com Horan, um padre irlandês que foi afastado do sacerdócio.

"Eu olhei para Vanderlei e pensei: 'você não seria a estrela que é hoje se não fosse por mim'", disse ele ao "The New York Times".

De acordo com o jornal, a raiva vem de uma tentativa fracassada de reconciliação.

Horan diz ter enviado duas cartas, escritas em português, para Vanderlei, que nunca as respondeu. "Eu realmente gostaria de conhecer ele e sua família. Ele falhou miseravelmente no básico da decência humana e da cortesia", afirmou.

O padre afastado também disse que sentiu-se atacado por declarações de Vanderlei, que teria o chamado de religioso fanático. "Vejo isso como um ataque pessoal a mim, a minha missão cristã e ao próprio Cristo".

A agressão de Horan na maratona de Atenas-2004 não foi sua primeira intervenção em um evento esportivo. Ele acredita que o fim do mundo e o retorno de Jesus Cristo vão acontecer em breve e, para promover suas crenças, costuma interromper competições.

Em 2003, Horan já havia invadido a pista no GP de Fórmula 1 de Silverstone, na Inglaterra, em prova que foi vencida pelo brasileiro Rubens Barrichelo. O padre segurava um cartaz com os dizeres "leia a Bíblia".

Ele afirmou que o ataque à Vanderlei foi uma obra do destino. "Não sei dizer porque ataquei aquele jovem", disse. "Acredito que existe destino e que algumas coisas são predestinadas."

Vanderlei Cordeiro de Lima vencendo a dura subida ao sucesso e ao reconhecimento
de Atenas 2004 ao Rio 2016




sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Começa hoje na Inglaterra a Copa do Mundo de Rugby 2015


O mundo do rugby está hoje em festa, pela volta do esporte ao seu lar, a Inglaterra, só que desta vez para a realização da Copa do Mundo 2015.

Treze estádios serão utilizados para o evento, sendo doze na Inglaterra (três em Londres) e um em Cardiff, capital do País de Gales, um dos integrantes do Reino Unido (juntamente com Escócia e Irlanda do Norte).

A Irlanda tem uma particularidade interessante no que diz respeito ao rugby. Sua seleção é representada por jogadores da República da Irlanda (capital Dublin) e da Irlanda do Norte (capital Belfast), numa união que não é vista em nenhum outro esporte de massas e muito menos na política.

Tal fato se explica, talvez, pela importância que se dá à confraternização com o time adversário no rugby.

Apesar das partidas serem disputadas, aos olhos do leigo, com algo que ele chamaria de "truculência", o respeito e a lealdade entre os jogadores são fatores sempre incentivados e vividos na prática. Rivalidade só dentro de campo.

Assim como do futebol, a Inglaterra é o berço do esporte que nasceu na cidade de Rugby, de onde tomou seu nome.

Naquela época, se praticava um esporte parecido com o futebol moderno, onde não havia, por exemplo, limite no número de jogadores por equipe.

Por sinal, essa estranha forma de futebol primitivo havia sido proibida pelo rei Eduardo III (1312-1377), por considerá-lo um esporte "não cristão".

No começo do século XIX, o futebol estava de volta à Inglaterra, sendo disputado principalmente nos colégios.

Diz a lenda que, em 1823, um jovem estudante do colégio de Rugby, chamado William Webb Ellis, revoltado com o excessivo número de jogadores em campo e a dificuldade de praticar o jogo com os pés, pegou a bola com as mãos e saiu correndo até a linha de fundo adversária.

Teria surgido aí o esporte que hoje conhecemos como rugby, cujas regras, a exemplo do que ocorreu com o futebol, foram sendo atualizadas e fixadas com o passar do tempo. No rugby, a bola terminou oval.

Embora haja controvérsias sobre a "lenda" contada acima, não há dúvidas de que o esporte realmente nasceu em Rugby, e o troféu que é dado à seleção campeã da Copa do Mundo, não por acaso, tem o nome de William Webb Ellis.

Esta será a oitava edição da Copa do Mundo de Rugby. Nova Zelândia (os "All Blacks"), Austrália (os "Wallabies") e África do Sul (os "Springboks"), com 2 títulos cada, e Inglaterra, com 1, integram a restrita galeria de quem já levou o troféu para casa. São também as grandes favoritas para o título de 2015.

Ao seu lado, com chances de vitória, poderíamos escalar França, País de Gales e Irlanda, que correm por fora como azarões.

Ainda incipiente no Brasil, os fãs sul-americanos do esporte vão ter que torcer para a Argentina (os "Pumas"), que tem uma seleção tradicional nas competições mundiais, com alguma chance de pelo menos surpreender algum dos favoritos na edição de 2015.

A imperdível final será disputada no mítico estádio de Twickenham, em Londres, no dia 31 de outubro de 2015.

Os jogos poderão ser acompanhados, no Brasil, pela transmissão dos canais por assinatura da ESPN. A abertura do campeonato ocorre hoje às 15:45h de Brasília, com a partida Inglaterra x Fiji.

Apesar de todo o carinho que sente pela Argentina, este que vos escreve, como sempre, vestirá sua camiseta dos All Blacks e torcerá pela Nova Zelândia, a atual campeã e, a exemplo do Brasil no futebol, a seleção "queridinha" do rugby no mundo.

Se você ainda não conhece o rugby, aproveite a Copa do Mundo que começa hoje para começar a entendê-lo e apreciá-lo. 

Há grandes chances de você, no mínimo, se divertir bastante.

Hoje o troféu William Webb Ellis começa a ser assediado pelas principais seleções do mundo.




segunda-feira, 25 de maio de 2015

Irlanda - de forte tradição católica - aprova casamento gay

A informação é da Agência Brasil:

Irlanda aprova o casamento entre pessoas do mesmo sexo

A população da Irlanda aprovou o casamento homossexual em um referendo promovido nessa sexta-feira (22), segundo a rede pública de televisão do país. Com base na totalização dos votos de 40 das 42 circunscrições, o sim deverá ter 62,3% dos votos, garantindo a aprovação da nova reforma constitucional que autoriza o casamento entre duas pessoas, sem distinção de sexo. A Irlanda torna-se assim o 19º país – o 14º na Europa – a legalizar o casamento gay. No entanto, foi o único a organizar um referendo, transferindo para o eleitor a decisão sobre o tema. Os demais países autorizaram pelo voto parlamentar.

O resultado do referendo, 22 anos após a despenalização da homossexualidade, constitui derrota para a Igreja Católica irlandesa, que promoveu campanha ativa pelo não. Durante a campanha, a Igreja, apoiada por grupos conservadores, movimentos antiaborto, além de senadores e deputados, defendeu que o casamento homossexual atenta contra os valores da família tradicional e vai modificar radicalmente os processos de adoção, incidindo negativamente nos direitos dos menores.

A República da Irlanda promulgou em 2010 uma lei de relações civis que, pela primeira vez, reconhecia legalmente os casais de pessoas do mesmo sexo, mas não os classificava como casados, nem lhes conferia proteção constitucional, como passa a ocorrer com a vitória do sim. Mais de 3,2 milhões de irlandeses foram chamados na sexta-feira às urnas para se pronunciar contra ou a favor do casamento homossexual em país onde é forte a influência da Igreja Católica. A Irlanda, país de 4,6 milhões de habitantes, votou em 1995 pela legalização do divórcio, apesar de a Igreja também ter sido contrária. O aborto continua proibido, exceto nos casos de risco de morte da mãe.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Salmodiando nos tempos da discothèque


Ah... os anos 1970, que época incrível e polêmica. O mundo acabava de sair da revolução dos costumes dos anos 1960 e a sociedade ainda tentava encontrar o seu rumo.

As roupas esquisitas daquela geração, com calças de veludo bordô e boca de sino, sapatos de salto alto e cacharrel amarela (isso para homens), se tornariam anedotas nas décadas seguintes, mas só quem viveu os anos 70 tem ideia de como foram felizes mesmo assim.

Em meio à febre disco, que invadiu as telas e os salões com "Os Embalos de Sábado à Noite" de John Travolta, estava o Boney M., um grupo musical europeu que foi responsável por vários dos maiores sucessos daqueles conturbados e dançantes anos.

O Boney M. foi formado pelo produtor alemão Frank Farian, que reuniu cantores oriundos das possessões holandesas no Caribe e que moravam na Inglaterra, na Holanda e na Alemanha.

Pouca gente se lembra que um de seus maiores sucessos foi "Rivers of Babylon" (1978), que junta na sua letra os versículos 1 a 4 do Salmo 137 com o verso 14 do Salmo 19, conforme você pode ver no vídeo abaixo, com legendas em inglês e português:


Outra canção do Boney M. que fez muito sucesso foi "Ma Baker", uma espécie de "homenagem" à conhecida criminosa Kate Baker (1873-1935), que ficou famosa pelo apelido de "Ma Baker", e sua história foi exaustivamente explorada pela mídia norteamericana da época, a exemplo de outros criminosos como Bonnie & Clyde, que também se tornaram lendários.


Ma Baker: procurada!

Criada numa família cristã conservadora, Ma Baker se casou com George Baker em 1892, com quem teve quatro filhos: Herman, Lloyd, Arthur e Fred.

Após o nascimento deste último, George a abandonou e Ma Baker trabalhou duro para sustentar a família, mas seus filhos preferiram o caminho do crime.

Há muita controvérsia sobre a versão de que Ma Baker teria auxiliado o banditismo dos filhos, mas a lenda já havia sido criada em torno de seu nome.

Alguns pesquisadores sugerem que o próprio FBI criou essa lenda sobre Ma Baker para justificar a morte dela num confronto com a polícia em janeiro de 1935.

De qualquer maneira, vale a pena entrar no túnel do tempo e conferir o vídeo abaixo do Boney M. cantando uma versão glamorizada de "Ma Baker" (com tradução sofrível mas compreensível em português):


A incursão do Boney M. no terreno religioso não parou, entretanto, em "Rivers of Babylon". 

Um ano antes, eles foram mais fundo e emplacaram em 1977 o sucesso "Belfast", alusão à capital da Irlanda do Norte que enfrentava então o auge da guerra civil entre católicos e protestantes, o que os levou a apelar para a paz entre os simpatizantes do Reino Unido (protestantes) e da República da Irlanda (católicos).

Afinal, como acontece em muitas regiões do globo até hoje, a denominação religiosa era apenas uma fachada para encobrir os interesses políticos de cada lado.


As aventuras religiosas de Boney M. não pararam por aí, acreditem!

Confirmando o seu, digamos, ecletismo, chegaram a flertar com ritmos russos, isso na época em que o mundo vivia uma plena guerra fria entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS), eles gravaram "Rasputin", uma suposta "homenagem" ao monge ortodoxo russo que, segundo a letra da canção, teria sido "amante da rainha (czarina)" Alexandra:




E aí, não conseguiu chegar ainda a um veredito sobre os anos 70 e Boney M?

Se ainda tiver fôlego, tente então com "Daddy Cool" e "Hooray! Hooray!"



Em 2010, o vocalista Bobby Farrell ainda fazia turnês um tanto quanto decadentes e constrangedoras tentando reviver o Boney M, como você percebe pelo medley abaixo, gravado num programa da TV France 2 naquele ano, mas ele viria a falecer dois dias antes que pudesse ver a chegada de 2011, aos 61 anos de idade.



Queira Deus que, semanas após a performance acima, ele tenha conseguido atravessar os rios da Babilônia em paz...



domingo, 11 de agosto de 2013

Clássicos do mundo antigo tinham suas próprias redes sociais


É o que afirma interessante artigo publicado na Folha de S. Paulo de 04/08/13:

Os gregos já curtiam uma comunidade

De Homero a Zuckerberg, pouco mudaram os relacionamentos

NELSON DE SÁ

RESUMO Estudos que combinam ciências exatas e literatura apontam para o fato de que relacionamentos nas redes sociais se assemelham aos observados em mitos e obras clássicas. Analisados por brasileiros na Escócia, elos entre personagens da "Odisseia" se aproximam muito do padrão registrado entre pessoas na vida real.

HÁ dois anos, Franco Moretti, professor da Universidade Stanford, saudou o fato de que os métodos quantitativos estavam novamente em ascensão nos estudos literários. Dessa vez, devido às grandes bases de dados digitais, "big data", vinham para ficar. Foi o que escreveu em artigo para a "New Left Review", em que relatava os levantamentos feitos no Stanford Literary Lab sobre a rede de conexões em "Hamlet".

O acadêmico, que é irmão do cineasta italiano Nanni Moretti, defendeu então que linguagem e estilo são apenas parte da questão literária: seu trabalho sobre a tragédia shakespeariana se apresentou como "o início de uma resposta" à pergunta sobre o enredo --se este poderia ou não, diferentemente do estilo, ser quantificado.

Desenhou um primeiro mapa, incipiente, dos "hubs" (entroncamentos, que são os protagonistas com os quais os outros integrantes de uma rede se relacionam mais) de "Hamlet". Uma de suas revelações sobre o enredo da peça foi que Horácio, um personagem menor, é um ponto de confluência quase tão frequente quanto o rei Cláudio ou mesmo o príncipe Hamlet.

No artigo, intitulado "Teoria de Redes, Análise de Enredo", Moretti tomou como ponto de partida as redes "small world", identificadas pelo psicólogo americano Stanley Milgram em 1967. O "pequeno mundo" de Milgram se traduziu, popularmente, nos "Seis Graus de Separação" da peça de John Guare (1990)--a ideia de que apenas seis laços separam quaisquer duas pessoas no mundo.

Mesmo que o professor italiano de literatura comparada tenha admitido não ter a "inteligência matemática necessária" para lidar com a teoria de redes, ele estava certo ao identificar a ascensão dos métodos quantitativos, e das redes em especial, nos estudos literários mais recentes.

Passados dois anos, um grupo de físicos brasileiros veio se somar à atenção crescente de outras disciplinas --mais afeitas à matemática-- pela abordagem quantitativa de textos literários e/ou míticos. No caso, trata-se do estudo "Análise de Comunidades numa Rede Social Mitológica", mais precisamente, na "Odisseia", de Homero, publicado há um mês na Escócia.

Milgram e Moretti são lembrados como referências distantes por Sandro Ely de Souza Pinto, professor da Universidade de Ponta Grossa, no Paraná, no momento fazendo pós-doutorado na universidade escocesa de Aberdeen. Ele encabeça o estudo, feito em colaboração com Murilo da Silva Baptista, do Instituto de Sistemas Complexos de Aberdeen, e com o mestrando Pedro Jeferson Miranda.

No trabalho sobre a "Odisseia", diz Souza Pinto, "o que a gente mostra é que a rede parece ser real, tem indícios de que aquilo que Homero relatou é real". O que o grupo fez foi analisar as relações sociais dos personagens e transformá-las numa rede, graficamente, que se revelou "muito parecida com as redes sociais reais, inclusive com as redes de Facebook".

COMUNIDADES Entre as características que aproximam a "Odisseia" do mundo real estão ser "pequeno mundo", como na constatação de Milgram, e "altamente repartida em comunidades". Também ser "altamente hierarquizada", fenômeno identificado nas redes por teóricos como o húngaro Albert-László Barabási, hoje professor de física na Universidade Northeastern, nos EUA, e referência central do estudo.

A exemplo do que aconteceu com Milgram e os seis graus de separação, Barabási vem se popularizando para além da teoria das redes pela expressão "os mais ricos ficam mais ricos, os mais pobres ficam mais pobres", adaptada do Evangelho de Mateus. Em outras palavras, numa rede, os "hubs" com mais conexões sociais atraem novas conexões com mais facilidade, acentuando a hierarquização.

"Estudamos a Odisseia' profundamente e acabamos chegando à conclusão de que Homero talvez tenha sido o primeiro a entender o que é uma rede social", diz Souza Pinto. "Para construir uma rede, você precisaria saber um pouco como é a distribuição das comunidades, dos círculos de amizade, que seguem certas leis matemáticas. E Homero observa tudo isso na construção de sua obra."

Em números, o grupo identificou na "Odisseia" 342 personagens, ligados por 1.747 relações e formando 32 comunidades, sendo dez mais influentes, entre elas aquelas que se formam em torno de Odisseu e Menelau.

O estudo de Souza Pinto, Baptista e Miranda repercutiu no "Technology Review", do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA, que elogiou o "novo e interessante teste, que dá um importante insight' para a história de textos antigos". E ao menos duas empresas de tecnologia, a americana Torux e a francesa Linkfluence, procuraram os brasileiros em busca de "parceria".

Nem todos, no entanto, se mostram tão entusiasmados com as descobertas. O editor de tecnologia da revista britânica "The Economist", Tom Standage, que lança em outubro um livro com a trajetória das redes sociais desde Roma até hoje, "Writing on the Wall", afirmou à Folha já ter lido o estudo e diz preferir aguardar outros levantamentos, de outras obras.

"Eu gostaria de ver a análise repetida para outros trabalhos ficcionais, para ver se também parecem reais', antes de concluir se essa análise apoia a ideia de que os personagens na Odisseia' realmente existiram", disse Standage. "Imagino se qualquer história plausível precisa de redes sociais que pareçam plausíveis. [A série de televisão] Game of Thrones', por exemplo."

SONETOS Os brasileiros não são os primeiros físicos a atuar em estudos literários quantitativos. No ano passado, Pádraig Mac Carron e Ralph Kenna, da Universidade de Coventry, na Inglaterra, publicaram trabalho concentrado no épico "Táin bo Cuailnge", da Irlanda, também concluindo que ele tem relação com redes reais --e não seria tão "artificial" quanto a crítica literária costuma descrever.

O estudo de Mac Carron e Kenna, intitulado "Propriedades Universais de Redes Mitológicas", foi outra referência para o trabalho de Souza Pinto, Baptista e Miranda, que citam ainda o livro "O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbell.

Além do épico irlandês, os dois pesquisadores da Universidade de Coventry estudaram paralelamente textos como a saga "Beowulf", a peça de Shakespeare "Ricardo 3º" e o best-seller "Harry Potter e a Pedra Filosofal", avaliando que o primeiro seria mais realista, e os outros dois, não. Kenna chegou a observar que, nas telenovelas, "todo mundo tende a conhecer todo mundo", algo "muito diferente de redes reais e sinal muito forte de artificialidade".

Souza Pinto concorda com a noção, que ele vê validada, inclusive, pelas telenovelas brasileiras. "O que a gente observa é que, quanto mais erudito o autor, se você levanta a rede social da obra, mais perto da realidade ela está", diz, acrescentando que prepara, com Baptista e Miranda, outros levantamentos, mas nada de analisar criações "literariamente pobres".

O grupo estuda no momento as redes de conexões sociais de "O Fio da Navalha", de Somerset Maugham, e "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien. A primeira foi escolhida por ter "um personagem que viaja pelo mundo e conhece muitas pessoas e cada uma é diferente". A segunda, por ser de "um erudito que criou várias realidades para poder escrever sua obra".

Simultaneamente, o grupo iniciou um levantamento quantitativo, "mas não com rede social", sobre os sonetos de Shakespeare, Camões e Bocage. "O que a gente quer fazer é o reconhecimento da autoria, dizer o que é ou não de Shakespeare, de Camões, através das características matemáticas das sílabas métricas." E um terceiro estudo avalia seis traduções da "Divina Comédia".

Sandro Ely de Souza Pinto diz que, a exemplo de Franco Moretti, ouve regularmente questionamentos a seus trabalhos. Ele acredita que a recepção no Brasil seja diferente do que na Europa e nos EUA devido à crescente interdisciplinaridade. "As pessoas cada vez mais aliam matemática com biologia, matemática com literatura, matemática com redes sociais."

"Aqui no Reino Unido não ouço tanto, mas no Brasil as pessoas perguntam: Para que serve? Por que você está fazendo isso?'. É mais uma ferramenta da literatura, uma extensão da ferramenta que já existe na matemática e na física. Como sou matemático e físico, estou usando o que sei".

Colaborou MARCELO SOARES, de São Paulo



segunda-feira, 2 de abril de 2012

Padre irlandês exibe pornografia gay por engano em reunião com pais

O estranho fato aconteceu numa reunião de pais e mestres de uma escola católica da Irlanda do Norte. Pelo jeito, o padre se esqueceu de levar o cartão de memória "limpo", mas mesmo assim ainda teve a cara-de-pau de voltar à reunião e pedir dinheiro para a paróquia. A notícia é do Terra:

Sacerdote mostra pornografia por engano durante reunião com pais

A Igreja Católica da Irlanda confirmou nesta segunda-feira que investiga um sacerdote que, por engano, mostrou imagens pornográficas quando conversava com um grupo de pais em um colégio primário de Pomeroy (Irlanda do Norte).

Em comunicado, o primaz irlandês, cardeal Séan Brady, informou que o sacerdote Martin Mcveigh "mostrou, sem se dar conta, imagens inapropriadas" no início de uma "apresentação de Power Point, o que causou inquietação entre os presentes".

"O sacerdote declarou que não tem conhecimento das ofensivas imagens. A arquidiocese entrou em contato imediatamente com a PSNI (Polícia da Irlanda do Norte) que de acordo com as provas disponíveis disse que não havia delito algum", afirmou Brady.

A máxima autoridade católica na Irlanda acrescentou que Mcveigh "coopera com uma investigação sobre este assunto, realizada pela arquidiocese". Segundo um comunicado redigido pelos pais dos alunos, o fato aconteceu no dia 26 de março na Saint Mary's School durante uma reunião na qual o religioso conversaria sobre a Primeira Comunhão, e pelo menos um menor estava presente.

A nota explica que imagens de homens apareceram na tela depois que Mcveigh introduziu um cartão de memória em seu computador portátil.

"Agitado e nervoso", continua o texto, o sacerdote extraiu o cartão rapidamente e abandonou a sala sem oferecer "explicação alguma ou desculpas".

A reunião com "um coordenador e professores" continuou em sua ausência, mas os "pais que viram as imagens estavam horrorizados e distraídos".

Mcveigh retornou "20 minutos depois" e retomou sua apresentação, que concluiu com a advertência aos pais de que "as crianças recebem dinheiro demais por sua Primeira Comunhão e deveriam considerar dar uma parte à Igreja".



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Brasil deporta padre irlandês acusado de pedofilia

E deportou o tarado rapidinho (o que é ótimo), segundo noticia o Estadão:

Acusado de abusos, padre de 72 anos é deportado do Brasil

Preso pela PF em São Paulo na segunda- feira, o irlandês foi levado sumariamente para a Irlanda

FAUSTO MACEDO - O Estado de S.Paulo

A Polícia Federal prendeu em São Paulo um padre irlandês de 72 anos acusado perante a Justiça de Dublin em 55 processos penais por supostos abusos sexuais contra menores. Ele foi deportado sumariamente para a Irlanda na noite de segunda-feira.

P. J. Kennedy foi localizado na manhã de segunda por agentes da PF que atuam no escritório da Interpol em São Paulo - a Interpol é a Polícia Internacional que reúne corporações de 190 países.

A ação foi discreta. Os policiais abordaram o acusado, que confirmou sua identidade e ouviu os motivos de sua detenção, expostos em mandado de prisão expedido pela Justiça irlandesa.

Kennedy, nascido em 2 de março de 1939, foi imediatamente conduzido ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica. Às 23h30 de segunda, sob escolta, ele partiu para Londres, onde autoridades irlandesas o aguardavam no aeroporto.

A Interpol informou que desde 2003 o alvo estava no Brasil. Ele fixou residência em Osasco, na Grande São Paulo, e depois mudou-se para a capital. Para se manter, dava aulas de inglês.

No início de 2004, a Interpol solicitou formalmente a localização do religioso ao lançar seu nome na difusão azul - lista de cidadãos contra os quais não há mandados de prisão nos países onde eles se ocultam.

Em janeiro de 2004, Kennedy foi citado em dossiê da Procuradoria de Dublin. O documento informa que, em agosto de 2003, o acusado se comprometeu a desembolsar "a mais alta compensação financeira em juízo" para indenização de uma vítima. Os crimes atribuídos a Kennedy ocorreram nos anos 80.

Depois do acordo judicial, Kennedy migrou para o Brasil com passaporte inglês.

A PF vigiava os movimentos do religioso havia quatro meses, mas aguardava a formalização de documentação para detê-lo.

O plano era embarcar Kennedy às 18h46 de segunda-feira em voo da British Airways. A operação foi adiada e o embarque ocorreu por outra companhia aérea.

Deportação sumária. O Brasil e a Irlanda não mantêm tratado de extradição. A Polícia Federal agiu com cautela e sigilo para evitar eventual recurso judicial de Kennedy que impedisse ou retardasse sua deportação.

A deportação é a devolução compulsória ao Estado de origem de estrangeiros que ingressam irregularmente em outro território. Ela pode ter amparo em casos de uso de documento falso, como visto de entrada, ou no exercício de atividade profissional não autorizada.

Quando pleiteou a transformação de provisório em definitivo do protocolo de permanência no Brasil, Kennedy assinou uma declaração alegando que não respondia a nenhuma acusação judicial em seu país. A PF cancelou a emissão do documento.

A falsa declaração do padre abriu caminho para a deportação sumária.



sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal!



Desejamos a todos os nossos amigos, irmãos, parceiros e seguidores, um ótimo Natal. Aos crentes, que se deliciem na lembrança do nascimento dAquele a quem os cristãos chamam de Salvador. Aos não-crentes, que não permitam que sua descrença os impeça de celebrar o amor, a amizade e a solidariedade que - mesmo ameaçado pelo consumismo - emana da época do Natal. Dedicamos a todos e homenageamos o aniversariante com duas canções gravadas por Enya: primeiro, o hino cristão medieval "O Come, O Come, Emmanuel", de autoria incerta do século XII, que ganhou letra original em latim no século seguinte por - supostamente - um francês, e foi traduzido ao inglês por John Mason Neale em 1851; e segundo, a tradicional "Noite Feliz" em irlandês (gaélico):







sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Irlanda fecha embaixada no Vaticano

A chapa esquentou de vez, azedando as relações - tradicionalmente fortes - entre a República da Irlanda e o Vaticano, depois que aquele país decidiu fechar sua embaixada na Santa Sé, utilizando a desculpa oficial de reduzir custos com suas representações diplomáticas no exterior. No pacote, anunciado ontem, 03/11/11, está incluído o fechamento das embaixadas no Irã e no Timor Leste. O Vaticano foi pego de surpresa pela decisão, já que faz questão de cultivar o seu status um tanto quanto sui generis de pessoa jurídica de direito público internacional, o que lhe garante, por exemplo, um assento na ONU e direito de voz e de voto em várias organizações multinacionais. Além disso, a República da Irlanda é um dos países católicos mais tradicionais do mundo, em que a religião romana é um traço fundamental da identidade do povo irlandês, tendo sido inclusive pretexto para a guerra civil entre "católicos" e "protestantes" (anglicanos) na Irlanda do Norte, porção da ilha irlandesa que ainda pertence ao Reino Unido em razão da maioria de sua população ser de origem inglesa e, portanto, anglicana.

Ao que parece, entretanto, este não é o maior problema causado pelo fechamento da embaixada irlandesa no Vaticano. Já são públicos e notórios os escândalos de pedofilia que mancharam o nome da Igreja Católica na Irlanda, conforme já noticiamos aqui no blog (ver "Vaticano teria ordenado abafamento de escândalos de pedofilia na Irlanda", bem como a crise diplomática que se seguiu à suspeita de que Roma não só teria feito pouco ou nada para combater e reprimir os pedófilos no clero irlandês, como também teria se esforçado para abafar a repercussão do escândalo. Basta dizer que, em pronunciamento oficial no Parlamento do país, no último mês de julho, o primeiro-ministro irlandês Enda Kenny fez duras críticas às autoridades do Vaticano, prenunciando o rompimento que estava por vir e, agora, é fato consumado, embora as nuvens negras que pairam sobre Roma estejam fazendo todo mundo se mover para tentar apagar o incêndio e evitar desgaste maior, se é que ele ainda existe.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fazendeiro religioso manda Rihanna colocar a roupa

Depois de sua passagem pelo Rock in Rio, a cantora Rihanna foi gravar um videoclip na Irlanda do Norte, só que os planos iniciais tiveram que ser mudados quando o dono das terras - que serviriam de set para a filmagem - percebeu do que se tratava. É, Rihanna, isto às vezes acontece, e não adianta uma "umbrella" pra se proteger da ira de um fazendeiro temente a Deus que nunca tinha ouvido falar da diva de Barbados (Barbados é a ilha do Caribe onde ela nasceu, gente!). A notícia é do TopTVZ do Multishow:

Fazendeiro obriga Rihanna a se vestir

Cantora gravava videoclipe para 'We Found Love' bastante confortável na propriedade do fazendeiro, na Irlanda do Norte


Nem só de glamour vivem as estrelas. Pouco depois de se apresentar no Rock in Rio, Rihanna passou por uma situação nada agradável durante as gravações do seu novo clipe, “We Found Love”. O proprietário da fazenda usada como locação para as filmagens obrigou a cantora a se cobrir, chocado com a nudez da cantora.

"Achei muito inapropriado”, contou o fazendeiro Alan Graham à BBC News. “Pedi para que parassem de filmar e eles obedeceram. Ela me escutou e no final das contas demos até um aperto de mão", disse. O agricultor explicou que as poses e falta de roupa da cantora vão contra as suas crenças religiosas e admitiu que não sabia quem era Rihanna quando lhe pediram autorização para gravar nas suas terras em Bangor, na Irlanda do Norte.

"Do meu ponto de vista, a terra é minha, eu tenho as minhas crenças e senti que aquilo não era apropriado”, contou ainda. “Não desejo mal nenhum a Rihanna, nem aos seus amigos, mas talvez eles pudessem descobrir um Deus maior".

Depois do incidente, a equipe de produção da cantora precisou encontrar outro local para gravar o video, que será a base para o lançamento do primeiro single no novo álbum da cantora (ainda sem título). O lançamento está previsto para dia 21 de novembro.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Bispo católico irlandês quer o fim do celibato

A notícia é da Folha:

"Deixe os padres se casarem", diz influente bispo irlandês

Um dos membros mais proeminentes da Igreja Católica irlandesa pediu o fim do celibato compulsório para os padres, dizendo que isso está afastando os novos seminaristas.

O bispo aposentado de Derry Edward Daly, que ficou famoso durante as décadas de conflito sectário na Irlanda do Norte, disse que a igreja deveria agir rapidamente para se contrapor à falta de jovens clérigos.

"Sinto agora que o celibato é prejudicial à igreja e realmente acho que devemos olhar esta questão muito profundamente nesse momento, e de maneira urgente", disse Daly em declarações feitas à rádio estatal irlandesa RTE nesta terça-feira.

Daly disse que se entristecia porque bons homens rejeitavam o sacerdócio por causa do celibato obrigatório, e está abatido pela faixa etária crescente dos padres.

O número de pessoas entrando para o sacerdócio na Irlanda caiu muito nas últimas décadas, depois que uma série de escândalos de abusos sexuais minou a reputação da igreja e pôs fim ao seu domínio em um país que já foi devoto.

"Eu apenas pensei comigo mesmo: o que vai acontecer, de onde virão os jovens padres?", disse ele. "Tenho certeza que muitas pessoas na Igreja sentem a mesma coisa."

Daly tornou-se um símbolo da paz na Irlanda no "Domingo Sangrento", de 1972, quando câmeras de televisão mostraram-no segurando um lenço branco enquanto ministrava os sacramentos aos feridos depois que soldados britânicos abriram fogo durante uma marcha por direitos civis.

Daly disse que mesmo se o celibato compulsório terminasse, muitos clérigos se absteriam voluntariamente.

"Deve haver celibatos no sacerdócio sempre", disse ele. "Mas há outras pessoas que se sentiriam mais completas ao exercer o sacerdócio se forem casadas."

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Vaticano teria ordenado "abafamento" de casos de pedofilia na Irlanda

A se confirmarem as notícias que chegam da Irlanda, cairiam por terra as alegações do Vaticano de que nunca determinou ou patrocinou o acobertamento dos casos de pedofilia cometidos por sacerdotes católicos ao redor do mundo. Segundo informa o site norteamericano The Huffington Post, existe uma carta enviada em 1997 do Vaticano aos bispos irlandeses determinando que NÃO se colaborasse com a polícia daquele país na investigação de casos que envolvessem padres pedófilos. Esta carta teria sido entregue por um bispo irlandês à rede de televisão RTE da Irlanda, que por sua vez a forneceu também à Associated Press (em cujo site existe uma cópia minúscula e ilegível da carta), e seria a primeira comprovação documental de que - de fato - houve uma política sistemática de acobertamento de sacerdotes pedófilos da Igreja Católica, oficialmente protegidos pelo Vaticano, o que pode, eventualmente, ter grave repercussão em processos que tramitam nos tribunais de todo o mundo, em especial nos Estados Unidos, onde as indenizações costumam ser arbitradas em valores astronômicos. Outro detalhe que chama a atenção é que o papa, à época dos fatos, era João Paulo II, recentemente beatificado por Bento XVI. A carta está assinada pelo arcebispo Luciano Storero, que era o núncio apostólico nomeado pelo próprio papa João Paulo II para a Irlanda, e determinava que os casos que chegassem ao conhecimento do clero irlandês deveriam ser tratados sigilosa e exclusivamente de acordo com o Código Canônico, e qualquer descumprimento dessa norma submeteria o bispo a um "altamente constrangedor" julgamento em Roma. Se bem que "constrangedor" é o mais leve dos adjetivos que se pode atribuir a essa iniciativa papal, se vier a ser confirmada.


terça-feira, 23 de março de 2010

Celibato e pedofilia na Igreja Católica



Artigo do teólogo católico Hans Küng, na Folha de S. Paulo do último domingo:

A última tentação de Cristo

Celibato contradiz os Evangelhos e é a principal causa de abusos sexuais no interior da igreja, diz teólogo

HANS KÜNG

Casos graves de abusos sexuais contra crianças e adolescentes por sacerdotes católicos foram reportados em grande número nos EUA, na Irlanda e agora na Alemanha.

Isso representa um imenso problema de imagem para a Igreja Católica e coloca em destaque a profunda crise que ela enfrenta. Falando pela Conferência dos Bispos da Alemanha, o presidente da organização, arcebispo Robert Zollitsch, de Freiburg (Alemanha), apresentou uma declaração pública inicial.

Que Zollitsch tenha classificado os casos de abuso como "crimes ultrajantes" e que o plenário da conferência, em comunicado de 25 de fevereiro, tenha pedido perdão a todas as vítimas deles serve como primeiro passo para corrigir esse erro imperdoável.

Mas novos passos precisam ser dados. Além disso, a declaração de Zollistch continha três erros atrozes que não podem passar sem refutação.

1. Asserção errônea: o abuso sexual praticado pelos sacerdotes não tem qualquer relação com o celibato.

Objeção! Não se pode negar que abusos como esses também podem ser encontrados em famílias, escolas, associações e igrejas que não adotam regras de celibato.

Atitude repressiva

Mas por que eles são tão especialmente recorrentes na Igreja Católica, sob liderança celibatária?

Naturalmente, o celibato não é a única causa de delitos de conduta como esses. Mas é a mais importante e serve estruturalmente como a maior expressão da atitude repressiva da igreja com relação à sexualidade em geral, uma atitude que também é revelada na questão do controle da natalidade e outros assuntos correlatos.

A leitura do "Novo Testamento" basta como esclarecimento: Jesus e Paulo praticavam o celibato como forma de estabelecer um exemplo para seu ministério, mas permitiam plena liberdade sobre o assunto a cada indivíduo.

Livre escolha

No que tange aos Evangelhos, o celibato só pode ser afirmado como uma vocação adotada por livre escolha, e não como lei de aplicação geral. Paulo contradisse enfaticamente aqueles que, em sua era, assumiram a posição de que "é correto que um homem não toque uma mulher", replicando que, "devido a casos de imoralidade sexual, cada homem deveria ter sua mulher, e cada mulher deveria ter seu marido" (1 Coríntios, 7:1-2).

De acordo com a "Primeira Epístola a Timóteo", "um bispo deve ser irreprochável, marido de uma só mulher" (1 Timóteo 3:2): O texto não afirma "marido de mulher nenhuma". 

Pedro e os demais apóstolos eram homens casados, e seus ministérios não sofreram por isso. Durante muitos séculos, essa continuou a ser a regra prática para bispos e sacerdotes, e nas igrejas do rito oriental, tanto a Ortodoxa quanto nas que se mantiveram unidas a Roma, continua a ser a regra, ao menos para os sacerdotes, até hoje.

A lei romana do celibato contradiz os Evangelhos e veneráveis tradições católicas. Deveria ser abolida! 2. Asserção errônea: é "completamente errado" atribuir os casos de abuso a um defeito sistêmico na Igreja Católica.

Objeção! A regra do celibato praticamente não existiu durante o primeiro milênio da igreja.

Ela foi introduzida no Ocidente no século 11, por monges (que optaram livremente pelo celibato), especialmente o papa Gregório 7º, e implementada contra a vigorosa oposição do clero na Itália e na Alemanha -onde a oposição era tão feroz que apenas três bispos ousaram promulgar o decreto romano. Milhares de padres protestaram contra a nova lei.

Em petição, o clero alemão objetou: "Será que o papa não reconhece a palavra do Senhor "que isso seja aceito por aqueles que o desejem'"?

Nessa declaração -a única quanto ao celibato que existe nos Evangelhos-, Jesus fala claramente em favor da livre escolha de um estilo de vida.

A regra do celibato, assim como o absolutismo papal e o clericalismo restrito, se tornou um dos pilares centrais do "sistema romano".

Em contraste com as igrejas do rito oriental, o clero do Ocidente, especialmente devido ao celibato, veio a se distinguir total e completamente do restante do povo cristão; uma classe social única e dominante, radicalmente superior à classe laica, mas completamente subordinada ao papa romano.

Qual seria a melhor solução para o problema de recrutamento de futuros padres? Bem simples: abolir a regra do celibato, que é a raiz de todos esses males, e permitir a ordenação de mulheres. Os bispos sabem disso, mas não têm a coragem de admiti-lo em público.

Comissão independente

3. Asserção errônea: os bispos aceitaram suficientemente a sua responsabilidade.

É claro que é bom ouvir sobre as medidas rigorosas que estão sendo tomadas agora para revelar casos de abuso e prevenir sua repetição futura.

Ainda assim, é preciso perguntar se os próprios bispos não são responsáveis pelas décadas de acobertamento de casos de abuso, por muitas vezes não terem tomado medidas sérias, limitando-se a transferir sigilosamente os predadores.

Será que não deveriam ser criadas comissões independentes para enfrentar esses casos?

Por motivos de discrição, a sigilosa Congregação para a Fé, do Vaticano, no passado assumiu jurisdição exclusiva sobre todos os casos de delitos sexuais praticados por padres e, com isso, entre 1981 e 2005, todos esses casos foram encaminhados ao seu prefeito, o cardeal Ratzinger [o atual papa Bento 16].

Em 18 de maio de 2001, por exemplo, o cardeal Ratzinger enviou aos bispos de todo o mundo uma "Epistula de Delictis Gravioribus", uma epístola solene quanto a crimes sérios, a qual dispunha que os casos de abuso seriam colocados sob "secretum Pontificium", ou "segredo papal", cuja violação acarreta sérias penalidades eclesiásticas.

Será que a igreja não tem direito a um "mea culpa", vindo do papa bem como do colégio de seus bispos?

E esse ato de contrição não deveria estar vinculado a um ato de reparação, o qual admitisse por fim que a regra do celibato, cuja discussão não foi permitida no Concílio Vaticano 2º [1962-65], deveria ser submetida ao julgamento livre e aberto de toda a igreja?

É hora de usar a mesma abertura com que a igreja está por fim enfrentando os casos de abusos para atacar uma de suas causas estruturais: a regra do celibato.


A íntegra deste texto saiu nos jornais "New York Times" e "Le Monde".
Tradução de Paulo Migliacci.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails