Mostrando postagens com marcador Espírito Santo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Espírito Santo. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 22


ENCARNAÇÃO E TRINDADE

E eu rogarei ao Pai. [João 14.16a]

“Portanto, se guardarem meus mandamentos, viverem juntos em harmonia e fraternidade, mostrando assim que me amam, então, devem resignar-se com o fato de o diabo os importunar. O mundo mostrará sua hostilidade e os afligirá e atormentará sem fim. Ademais, os falsos cristãos e as facções retribuirão o amor de vocês com todo tipo de maldade. Não permitam que isso os intimide, mas perseverem e permaneçam em meu amor. Vocês não passarão necessidade e não serão abandonados, pois não ficarei sentado, ocioso, lá em cima, no céu, e esquecerei vocês. Nada farei além de ser seu amado sacerdote e mediador; orarei e suplicarei por vocês ao Pai para que ele lhes dê o Espírito Santo, que os consolará, fortalecerá e preservará em todas as necessidades, para que vocês permaneçam em meu amor e possam suportar alegremente tudo que lhes acontecer por minha causa”.

Mas, como é possível reconciliar as palavras “Eu rogarei ao Pai” com aquelas ditas acima, de que “o que pedirdes em meu nome isso Eu farei”? Ali, Cristo mostra que é verdadeiro Deus e que ele mesmo quer conceder o que lhe pedirem. Aqui, porém, ele diz que rogará ao Pai para que este lhes mande um Consolador. Como se pode afirmar do verdadeiro Deus que ele pedirá algo de alguém outro? Pois, certamente, não é próprio de Deus estar sujeito a alguém outro e ser obrigado a receber algo dele. Não, Deus, mesmo é capaz de dar e fazer todas as coisas.

Por isso, quando a esperta razão e as mentes sagazes escutam tais palavras de Cristo, imediatamente exclamam: “Oh, essas não são palavras de Deus, mas de um simples ser humano. Pois se ele fosse Deus, teria de dizer: ‘Eu lhes mandarei o Consolador’”. Dessa maneira, querem mandar o Espírito Santo para a escola; bancam os espertos com sua gramática e sua lógica e nos ensinam que a palavra “rogar” não é própria de Deus e que, por conseguinte, Cristo não pode ser Deus. Então, ampliam e enfatizam isso com sua retórica, fazendo com que o Espírito Santo pareça uma criança, sim, um imbecil, que não sabe como falar. Independentemente do que o Espírito Santo faz e diz, deve estar errado. Portanto, criticam e sabem tudo melhor. Mas não são suficientemente piedosos para juntar os dois versículos, arrancando uma parte do contexto aqui e outra ali, e onde encontram uma palavra ou duas, lançam-se sobre elas e enganam as pessoas para que não vejam o que mais a Escritura tem a dizer sobre isso. Sim, se é válido tomar uma palavra ou duas de um contexto todo e ignorar o que vem antes e depois ou o que a Escritura afirma alhures, então, eu também poderia interpretar e torcer toda a Escritura e qualquer discurso da maneira como me aprouvesse.

Mas a regra é esta: olha o texto todo, inclusive as palavras que o precedem e as que o seguem. Então constatarás que Cristo fala tanto como Deus quanto como ser humano; com isso, evidenciar-se-á, poderosamente, como ensinamos e cremos, que Cristo é verdadeiro homem e, também, verdadeiro Deus. Pois, como se pode expressar em quaisquer palavras que ele fala como Deus e como homem ao mesmo tempo, visto que tem duas naturezas distintas? Se ele sempre falasse como Deus, não se poderia provar que ele [também] é verdadeiro homem. E se ele falasse sempre como homem, não se perceberia que ele também é verdadeiro Deus.

Por isso, Cristo precisa alternar, usando, às vezes, palavras que refletem sua natureza divina e, outras vezes, empregando aquelas que são próprias à sua natureza humana. Contudo, é a mesma pessoa que fala, às vezes, como se fosse tão-somente Deus e, outras vezes, como se fosse apenas ser humano. Pois, se Cristo é tanto Deus quanto ser humano em uma só pessoa, por que não deveria dizer também isso e aquilo de si mesmo sem fazer uma distinção? Mas, aqui, ele emprega ambas as maneiras de falar em rápida sucessão em um único sermão. Porque a mesma pessoa que disse há pouco “o que pedirdes em meu nome isso eu farei”, também declara aqui: “E eu rogarei ao Pai”. Isso acontece visando a tornar certo e claro este artigo: que, nessa pessoa, Cristo, não há somente divindade nem somente humanidade, mas que ambas, tanto a natureza divina quanto a humana, encontram-se indivisas em uma só pessoa.

Pois dissemos suficientemente que, na essência divina de Cristo e do Pai, há duas pessoas distintas. Por isso, quando falamos de Cristo, aqui, também é preciso ensinar claramente que ele é uma pessoa, mas que há duas naturezas distintas, a divina e a humana. De novo, exatamente como lá, a natureza ou a essência divina permanece não-misturada no Pai e em Cristo, assim, aqui, a pessoa de Cristo permanece indivisa. Por isso, os atributos de cada natureza, a humana e a divina, são atribuídos a toda a pessoa, e dissemos de Cristo: “O homem Cristo, nascido da virgem Maria, é onipotente e faz tudo que pedimos – não, contudo, de acordo com a natureza humana, mas de acordo com a natureza divina, não por causa de seu nascimento de sua mãe, mas, porque ele é o Filho de Deus”. E, mais, “Cristo, o Filho de Deus, roga ao Pai, não de acordo com sua natureza ou essência divina, segundo a qual ele é igual ao Pai, mas porque ele é verdadeiro homem e filho de Maria”. Portanto, é necessário juntar as palavras e compará-las de acordo com a unidade da pessoa. As naturezas sempre devem ser diferenciadas, mas a pessoa deve permanecer indivisa.

Assim como se crê nele como sendo uma pessoa, Deus e homem, também nos convém falar dele como o requer cada natureza. Algumas palavras indicam sua natureza humana; outras, sua natureza divina. Por isso, deve-se considerar o que Cristo diz de acordo com sua natureza humana e o que ele diz de acordo com sua natureza divina. Pois, onde isso não é observado e apropriadamente diferenciado, segue-se necessariamente todo tipo de heresia, como aconteceu em tempos passados, quando algumas pessoas afirmaram que Cristo não era verdadeiro Deus, e outras asseveraram que ele não era verdadeiro homem. Pois elas não foram capazes de seguir o princípio de diferenciar entre os dois tipos de discurso com base nas duas naturezas.

Pois Cristo falou, muitas vezes, como o homem mais humilde da terra quase não deveria falar. Por exemplo, quando ele diz: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” [Mt 20.28]. Com essas palavras, ele se torna completamente servo entre todos os seres humanos, embora seja verdadeiro Deus e Senhor sobre todas as criaturas, ao qual todos devem servir e adorar. Igualmente, Salmo 41[.4], ele faz de si um pecador e afirma que está sendo punido por causa do pecado. Isso, naturalmente, está fora de cogitação segundo a natureza divina. Por outro lado, ele, frequentemente, emprega o discurso da majestade enaltecida, que nenhum anjo ou criatura deveria usar, embora estivesse na forma e figura mais humilde enquanto vivia neste mundo, como, por exemplo, Jo 6[.62]: “Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?”

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 139-142)

(este comentário de Lutero sobre João 14:16a 
continua no excerto ao qual se chega clicando aqui)



quinta-feira, 17 de julho de 2008

Espírito Santo e salvação, por Karl Barth

Comentando sobre Romanos 8:1, Karl Barth dedica um longo texto do seu livro "Carta aos Romanos", do qual destacamos o seguinte trecho:


Assim relativizados, absorvidos, vistos e reconhecidos, não nos atinge a sentença de morte que pesa sobre toda carne e, mui especialmente, sobre o homem religioso pois é assim relativizados, vistos, absorvidos e reconhecidos que percebemos o "som que vem dos céus e, qual impetuoso vento, invade toda casa"(Atos 2,2). É o som que vem da Cidade Santa, - a Nova Jerusalém, descendo do céu, da parte de Deus (Apoc. 21,2). Estamos "em Cristo Jesus"!

Estar em Cristo Jesus significa ser co-participante da supressão do "homem velho", operada por Jesus como o Cristo, pela qual esta velha criatura foi estabelecida como "homem novo".

Este "homem novo" veio da morte para a vida. Ora, se formos co-participantes da fundamentação, do estabelecimento do "homem novo", então a sentença de morte que pesa sobre o homem velho já não nos alcança mais, pois ela já foi cumprida.

"Pois a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te libertou da lei do pecado e da morte".

Existe uma possibilidade que está acima de todas as outras e que, por isto, não é uma possibilidade ao lado das demais porém está ligada a todas elas qual denominador comum, de certa forma (e mal comparando), de maneira análoga à presença do pecado do qual, todavia, é a negação e cujo lugar proeminente passa a ocupar. Existe também a dádiva que foi feita uma única vez e que, por sua singularidade, parece jamais ter sido dada aos homens. Existe, ainda, a lei suprema mediante cuja constituição subsistem e são anuladas todas as demais leis.

Essa possibilidade superior, essa dádiva singular, essa lei suprema é o ESPÍRITO.

Referimo-nos ao Espírito porém, podemos falar a respeito dele? Verdadeiramente, não; não podemos porque, embora possuamos vocabulário abundante para descrever as muitas possibilidades humanas, não temos uma palavra sequer para esta "impossível possibilidade" de nossa vida.

Então por que não nos calamos, por que não silenciamos a respeito dele? Isto é o que [aparentemente] deveríamos fazer; todavia, é necessário que nos lembremos que tanto o comprometemos com o nosso falar pouco, silenciando, quanto falando sobre ele, pois o Espírito é a PALAVRA, e portanto será anunciado de uma ou de outra forma.

Quer não podendo falar sem poder calar ou, tendo de falar quando pensamos dever silenciar – qualquer que seja nossa atitude, estamos sempre em extremo aperto perante o Espírito e desse aperto não há saída. Cuidemos pois, para que o nosso falar e o nosso calar sejam em tempo certo e não olvidemos que, se acaso nos conduzimos acertadamente, não fomos nós que soubemos quando devêramos falar ou calar (nem mesmo nós, como pessoas religiosas) mas foi o Espírito que falou ou calou conforme foi oportuno.

Temos o Espírito. Quem se houver encontrado com a existencialidade do Espírito encontrou a sua própria existencialidade em Deus. Não podemos, nem queremos negar ou esconder e obscurecer que ouvimos o som dos céus "qual vento impetuoso" [de que fala Atos 2,2] ou negar que vimos a Nova Jerusalém, que tomamos a eterna decisão e que estamos "em Cristo Jesus".

Porém o que significa "ouvir", "ver", "estar" ?

Se começarmos a acentuar as nossas vantagens e os nossos méritos raciocinando e discorrendo em termos de "nós" mesmos, ou daquilo que "temos" ou "possuímos" [dizendo que ouvimos a manifestação do Espírito e que o 'temos' em nossa vida"], então ingressamos e nos assentamos nos arraiais [do ensino e da prática] da religião. Nem podemos pretender estar falando do Espírito [ou dele tratando] quando o colocamos em conotação, ou o relacionamos com as nossas próprias pessoas – [nós o ouvimos, e o recebemos...] – ou quando [quisermos mostrar a nossa riqueza espiritual dizendo que] o temos em nossa vida. Contudo, precisamos contar o que temos e é certo que se não anunciamos que o recebemos, todavia pensamos e, se não pensamos, pelo menos sentimos pois, de fato, RECEBEMOS O ESPÍRITO!

Ainda que nos seja defeso proclamar que recebemos o Espírito, na verdade o anunciamos de uma ou de outra forma. Todavia, precisamos saber que isto não nos é lícito [pois esta posse não depende de nós, não é conquista nossa, não o recebemos como prêmio ou recompensa]. Por isso, ao pensarmos "nós" [ou "eu"] precisamos lembrar sempre que não somos nós [que o recebemos segundo o que somos no mundo; semelhantemente], precisamos manter permanentemente presente em nossa mente que se temos o Espírito (não o recebemos como posse que enriqueça o nosso cabedal de conhecimentos ou o nosso rol de virtudes, antes) é como não o tendo recebido [pois a sua própria existência em nós evidencia que nada temos. De certa forma, mitologicamente falando, esta nossa anulação absoluta é semelhante ao "buraco negro estelar" que tudo absorve a anula, e que o físico Jean Emile Charon considera como a possível sede do Espírito...].

Quem sabe, se, ao falarmos assim de "nós" como não sendo "nós mesmos" e ao discorrermos sobre o que "temos", como "não tendo", a verdade se imponha pelo que é defeso e então esse "nós" e esse "ter" sejam devidamente qualificados [por Deus] e, virtualmente, encerram em si todo o "nós" – [toda a individualidade] – e todo o "ter" – (toda a posse) humana, sem todavia deixarmos de submeter ambas essas formas à crítica e de as pormos em dúvida.

Pode então acontecer que nós (não como nós mesmos), já não sejamos mais uns quaisquer, porém os representantes e as primícias da comunidade dos espíritos na unidade do Espírito; [pode acontecer] que o nosso "ter" [então] não seja apenas certeza psico-histórica porém (na forma de nosso "não ter"!) seja a eterna destinação do ser humano, seja o nosso ser em Jesus Cristo e não apenas a existência de uma comunidade.

Talvez então aconteça que os outros, os muitos, ao redor de nós, (em função daquilo que "não somos" e "não temos"), cessem de ser "os outros", os que nada têm, e nos ouçam falar em suas próprias línguas dos grandes feitos de Deus (Atos 2,11).

Contudo [nesta graça de assim testemunhar do Espírito],m o nosso receio de o renegar é incomparavelmente maior do que o temor de nos envolvermos na dubiedade de uma posição religiosa.

Contaremos com o Espírito. Sim, contamos com ele como se fora um fator, um motivo, um agente eficaz, uma causa [uma influência material em nossa vida]. No entanto, sabemos que não é assim pois [temos ciência de que o Espírito] é ACTUS PURUS; que é genuína realidade [mas não é materialidade]; é evento incontestável que não tem começo nem fim; não tem limitações nem condicionalidade; não está sujeito à temporalidade nem ocupa lugar no espaço; sabemos que o Espírito não é comparável a qualquer outra coisa; não é efeito nem causa.

Todavia, dá-se o paradoxo: o Espírito passa a ser [segundo nossa compreensão] alguma coisa a par de outras coisas; o intangível torna-se tangível; o impossível passa a ser possível; o invisível fica visível e o desconhecido vem a ser conhecido.

O que há de paradoxal no [procedimento nosso com relação ao] Espírito é que, embora ele somente possa ser descrito em termos negativos ["não tem início nem fim", "não é visível", "não ocupa lugar no espaço"...] somos declaradamente obrigados a considerá-lo como se fosse alguma coisa; como se fosse origem ou causa; pedimos que ele nos seja concedido e consideramos que determinadas obras são peculiar e caracteristicamente suas; calamo-nos ante seus feitos e nos esforçamos por não entristecê-lo [Efe. 4,30]; e o adoramos como a terceira pessoa da Trindade.

Ainda que essa nossa atitude [que assumimos em nossa religiosidade] nos anule constantemente querendo ser efetivamente espiritual [quando, na prática, é material apenas], não podemos e nem devemos deixar de nos apropriar, a cada momento e de alguma forma, de uma das mais sublimes realidades existenciais do Espírito, [qual seja a religião].

Sabemos que nenhuma atitude humana pode, de fato, corresponder ao Espírito; todavia, quem sabe, (e até por isto mesmo) o Espírito venha a condescender conosco e interceda por nós, justificando-nos, embora sejamos injustificáveis [em nossa forma de culto e nosso posicionamento ante o dom do Espírito].

Portanto, repetindo ainda uma vez, entre o pecado contra o Espírito Santo e a prática de uma religiosidade (em si mesma) indigna da justificação divina, optamos por esta.

O Espírito fala, opera e age. Não sabes o que isto significa? [Não entendes?]; Eu também não sei [e não entendo] o que afirmo. Todavia, ele é o "Totalmente Outro", que tem falado, operado e agido e isto é tão absolutamente certo quanto a radicalidade com que ele contradiz tudo o que digo e tu ouves – (e Oxalá contradiga sempre a interrogação que tu e eu fazemos!).

Estás comigo perante os fatos consumados. A nossa perquirição pode indagar do significado desses fatos mas não de sua realidade.

O Espírito "te libertou da lei do pecado, e da morte". Isto aconteceu, existencialmente, a ti! A conversão, a volta, o retorno que aconteceu em Jesus Cristo, é teu. A possibilidade que nele foi dada, é tua. A vida que surgiu nele, te pertence. O âmbito do teu falar, das tuas obras e de tua ação está rodeado deste OUTRO incontrolável e incomparável. O próprio mandamento de Deus, que vês como lei que define teu pecado e [te condena] à morte, passa a ter significação apenas relativa quando comparado com a lei das leis (Marcos 12,28-31).

Tu pecas – com relação à retidão deste OUTRO; tu morres – em relação à sua vida; o teu NÃO , apenas é "não" mediante o seu SIM.

Onde, pois, fica o teu pecado, a tua morte, o teu não, se em Cristo Jesus tu descobres a relatividade [das coisas terrenas] quando confrontadas com este OUTRO, que é o Deus "totalmente diferente"? Já não resta nada relativo que não tenha a sua correlação; nada de concreto que não aponte para [algo transcendental], além de si mesmo; nenhuma realidade que não seja uma parábola.

Ao reconheceres a tua escravidão, te libertas; ao reconheceres o teu pecado, recebes a justificação; ao reconheceres a tua morte, revives. É o Espírito que te liberta, te justifica e te vivifica, pois o Espírito é o "conhecimento".

O Espírito é o achado eterno sem o qual nós, que estamos postos sob a lei do pecado e da morte, sequer faríamos a perquirição. Ele escreve a lei de Deus em nosso coração com "fogo vivo" e, por isso, "não é ensino mas vida; não é palavras mas existência; não é sinal mas o próprio cumprimento" (Lutero).


(BARTH, Karl. Carta aos Romanos, Ed. Novo Século, 2003, págs. 428/432)


quarta-feira, 16 de julho de 2008

Espírito Santo e teologia, por Karl Barth

Tudo isto acontece na esfera do ar que livremente se move e põe em movimento, do vento suave ou impetuoso, da spiratio e da inspiratio que, conforme a Bíblia, é o poder atuante de Deus, poder de revelar-se livremente aos seres humanos, penetrar em sua vida e, assim, libertá-los para Ele.

Ruah, pneuma, é o nome bíblico desse poder de atuação soberana. E ambos os termos significam: ar movimentado e ar que põe em movimento, sopro, vento, tempestade e, neste sentido (que no spiritus do latim e no "espírito" do português ainda transparece claramente; mas não em inglês, em que o termo ghost está em proximidade horripilante com "fantasma"): Espírito – cujo equivalente alemão, Geist, lamentavelmente não deixa transparecer o significado dinâmico do termo bíblico. Nós usamos o termo neste seu significado autêntico: "Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" (2 Co 3:17) – aquela liberdade de Deus de revelar-se aos seres humanos, de penetrar na sua vida, de libertá-los para Si. O Senhor Deus, que é o Espírito, realiza isso. É evidente que há outros espíritos: espíritos criados por Deus, como o espírito natural ao ser humano, mas também espíritos demoníacos, errantes e desnorteadores, espíritos da nulidade e do vazio, que não têm outra finalidade do que a de serem expulsos. Todos eles não são aquele poder soberano. Acerca de nenhum deles, nem mesmo dos melhores, poder-se-á dizer que, onde estão, aí há aquela liberdade. Todos eles devem ser examinados: com referência à direção do vento, à sua procedência de cima ou de baixo; antes de mais nada, porém, devem ser constantemente distinguidos do Espírito que, atuando em liberdade divina, gera a liberdade humana. Ele é definido pelo Símbolo Niceno como "Santo, Senhor e vivificador", e mais: "o qual procede do Pai e do Filho; que junto com o Pai e o Filho é adorado e glorificado". Isto quer dizer: ele mesmo é Deus – o mesmo Deus uno que é também o Pai e o Filho, que age como Criador, mas também como Reconciliador, como Senhor da aliança, mas que agora, como este Deus, no poder iluminador de sua ação não só está entre os seres humanos, mas habita, habitou e habitará neles – o mesmo Espírito como aquele ar movente e aquela atmosfera movida em que os seres humanos podem (quanto ao mais, totalmente isentos de premissas) viver, pensar e falar como seres que são conhecidos por ele e o conhecem, como seres por ele chamados e a ele obedientes, como filhos gerados por sua palavra. Assim, de acordo com o segundo relato bíblico da criação, Deus insuflou ao ser humano "o fôlego de vida", isto é, o espírito humano. Assim, para citarmos mais uma vez o Credo Niceno, "ele falou pelos profetas". Desta forma, João Batista o viu descender no Jordão sobre aquele que, neste lugar, solidário com todos os pecadores, tomou sobre si o batismo do arrependimento. Assim ele foi – conceptus de Spiritu Sancto ["concebido a partir do Espírito Santo"] – a origem da existência desse seu Filho no mundo dos seres humanos, assim foi a origem do apostolado que prega aquele um e, assim, foi origem também de sua comunidade. Como relatam os Atos dos Apóstolos, "de repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados", e a conseqüência foi que os discípulos foram capacitados a falar sem mediação e de modo compreensível a todos os estrangeiros, vindos de um sem-número de países, falaram dos grandes feitos de Deus, dando a impressão de estarem embriagados – e assim, em conseqüência desse spirare e inspirare, aconteceu que a palavra foi aceita por três mil pessoas. E foi então o Espírito – Deus o Espírito, o Senhor que é o Espírito -, seu irromper, seu impulsionar, seu testemunho daquilo "que há em Deus" e "daquilo que nos foi dado por Deus", seu poder que origina a confissão: Jesus é o Senhor! – que veio a ser o fator cuja existência e cuja ação tornaram possível e real – e continuam a fazê-lo até o dia de hoje – a existência da cristandade no mundo, mas também a de cada cristão individualmente como testemunha da palavra, testemunha que crê, ama e espera. Esse poder age com certeza e de modo irresistível. Querer resistir-lhe, onde ele se põe a agir, seria o único pecado imperdoável. E ele é o único a agir: "Quem não tem o Espírito de Cristo, não é dele".

É evidente que também a teologia evangélica, sendo ciência modesta, livre, crítica e alegre, só poderá ser possível e real dentro do campo de força do Espírito, só como teologia pneumática. Só poderá existir se tiver a coragem de confiar que o Espírito é a verdade, que ele levanta a pergunta pela verdade e simultaneamente a responde. Como é que a teologia se arroga a ser "teologia", lógica humana do logos divino? Resposta: ela não se arroga coisa nenhuma. Mas poderá suceder-lhe que esse Espírito venha sobre ela e que ela não passe a lhe resistir, mas que, por igual, não tente se apoderar dele, e sim que se alegre com ele, limitando-se a segui-lo. Uma teologia não-espiritual (venha ela a manifestar-se em púlpitos ou cátedras, em produções literárias ou em discussões entre teólogos velhos ou jovens) seria um dos fenômenos mais horríveis que pode existir nesta terra: comparadas com tal teologia, as produções dos piores autores políticos, os piores romances e filmes, e até a pior bagunça noturna dos garotos seriam fenômenos menos graves. A teologia deixa de ser espiritual onde se deixa afastar do ar fresco e movimentado do Espírito do Senhor, que é o único ambiente em que poderá vingar, e se deixa atrair e impelir para dentro de recintos em cujo ar viciado está automática e radicalmente impedida de ser e de realizar o que poderia e deveria.

Isto poderá suceder-lhe de duas maneiras: ela poderá ser feita (seja como teologia primitiva ou altamente sofisticada, seja como teologia fora de moda ou como teologia que se identifica com as últimas novidades) de forma mais ou menos zelosa, inteligente ou até piedosa e oportunamente também ser lembrada do problema do Espírito Santo, mas não criar nem coragem nem confiança de entregar-se, sem receios nem ressalvas, à sua iluminação, admoestação e consolação, negar-se a ser conduzida pelo espírito a toda a verdade, negar-se a, em sua pesquisa, seu raciocínio e seu ensino, dar ao Espírito do Pai e do Filho (que também foi derramado sobre toda a carne em seu favor) a honra que lhe cabe. Então, por conseguinte, ela passa até a temê-lo! Então finge ignorá-lo; então comporta-se como sabe-tudo; então, confrontada com ele, imobiliza-se. Então fareja o perigo do "entusiasmo" tão logo o Espírito tenta agir também em seu âmbito. Então ela passa a girar em torno de si mesma historizando, ou psicologizando, ou racionalizando, ou moralizando, ou romantizando, ou dogmatizando e dando asas à fantasia; e tudo siso considera seus "belos pastos verdejantes". Então acontece que, com a sua maneira de levantar e de responder a pergunta pela verdade, ela não poderá servir nem ajudar à comunidade que, assim como ela própria, necessita desesperadamente do Espírito Santo. Pelo contrário: se achar-se em condição semelhante à daqueles discípulos de João Batista em Éfeso, dos quais nos é dito que nem tinham conhecimento da existência do Espírito Santo, então não deixará de acontecer – conseqüência maligna inevitável – que ela abrirá suas portas a quaisquer espíritos estranhos, que perturbarão e destruirão a comunidade. Por certo, nem críticas, nem ironias, nem acusações humanas lhe poderão prestar ajuda em tal situação: só o próprio Espírito é que poderá fazê-lo: ele, o Santo, o Senhor, o Criador da vida, que espera por ser recebido de novo tanto pela comunidade quanto pela teologia, por receber, através de uma reorientação da atividade da teologia, também da parte dela a adoração e o louvor que lhe cabem para então vivificar e fazer luzir também suas teses, que, por mais corretas que sejam, certamente são mortas quando não sustentadas pelo Espírito.

Mas poderá também acontecer que a teologia saiba com demasiada segurança (e portanto absolutamente não saiba) do poder vital do Espírito, que é indispensável para a cristandade, como um todo e para o cristão individualmente e, portanto, indispensável também para ela, já que parece ter-se esquecido de que esse vento sopra onde ele quer, que sua presença e sua ação representam a graça de Deus, do Deus sempre livre, sempre superior, que sempre se dará a si mesmo de forma imerecida e incalculável. Então, tal teologia julgará poder lidar com ele como se o tivesse arrendado ou até dele se tivesse apoderado, como se fosse uma força da natureza, igual à água, ao fogo, à eletricidade, à energia atômica, etc., descoberta, dominada e ativada pelo ser humano. Assim como uma Igreja estulta pressupõe a presença e a ação do Espírito em sua própria existência, em seus ministérios, seus sacramentos, suas ordenações, consagrações e absolvições, da mesma maneira uma teologia estulta o pressupõe como premissa conhecida e disponível de suas próprias teses. Mas um espírito pressuposto certamente não será o Espírito Santo, assim como uma teologia que o pressupõe será teologia não-espiritual. O Espírito Santo é o poder vital que se compadece em liberdade tanto da comunidade quanto da teologia, a qual necessita e continua necessitando dele sob todas as circunstâncias. Também a tal teologia não-espiritual só o próprio Espírito poderá valer, conscientizando-a, de caso em caso, de sua mísera arbitrariedade, usada na colocação das próprias premissas, para então tornar-se presente e atuante aí – e justamente só aí – onde se geme, clama e ora por ele: Veni, Creator Spiritus! "Vem, ó vem, Espírito da vida!". Mesmo a melhor das teologias não poderá ser mais nem coisa melhor do que tal prece, transformada em labor vigoroso. Em última instância, só poderá ocupar o lugar de um daqueles filhos que não possuem pão nem peixe, mas que têm um Pai que possui tanto um quanto o outro e que lhos dará enquanto o solicitarem. A teologia evangélica é rica nesta sua pobreza total, firmemente sustentada e segurada nessa sua completa falta de pressuposições: rica, sustentada e segurada ao aceitar a promissão, agarrando-se a ela sem ceticismo, mas também sem arrogância, agarrando-se à promissão segundo a qual é o Espírito, e não a teologia, que "tudo escruta, até mesmo as profundezas de Deus".


(BARTH, Karl. Introdução à Teologia Evangélica. Ed. Sinodal, 7ª ed., 2002, pp. 37/40)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails