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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Justiça da Índia barra o "divórcio instantâneo" da tradição islâmica


A notícia curiosa saiu na BBC Brasil:

O que é o 'divórcio instantâneo via WhatsApp' na Índia, que poderá ser punido com cadeia

A indiana Afreen Rehman tinha um emprego com um excelente salário e um MBA quando decidiu se casar. A cerimônia luxuosa foi na cidade de Jaipur, a 260 km da capital do país, Nova Délhi. Pouco depois, Rehman parou de trabalhar, a pedido do agora ex-marido.

"Queria que o casamento funcionasse, então concordei", disse ela. "Mas não funcionou. Ele fazia pedidos constantes de dotes, e tinha surtos de violência. Entrei em depressão", conta Rehman.

Em menos de um ano, ela recebeu um pedido para a deixar a casa do marido, e foi morar com a mãe.

Para piorar, Rehman se feriu gravemente em um acidente de carro, meses depois. Enquanto se recuperava, recebeu um bilhete do esposo com as palavras "talaq, talaq, talaq".

O bilhete recebido por Rehman é parte de uma tradição do Islã que, hoje em dia, só existe praticamente na Índia.

O "triplo talaq" permite aos homens muçulmanos se divorciar de suas esposas em minutos, simplesmente repetindo as palavras "talaq, talaq, talaq".

A decisão é unilateral, sem consulta à mulher. E pode ser feita tanto oralmente quanto por e-mail e até mesmo mensagens de texto, em aplicativos como o WhatsApp.

Uma prima de Rehman, ativista dos direitos das mulheres, a convenceu a entrar com um pedido na Justiça indiana para anular o "divórcio instantâneo", além de apresentar queixas sobre o assédio e a violência doméstica a que era submetida.

O marido e a sogra negam as acusações. Em meados deste ano, eles foram presos e liberados quatro dias depois, após pagar fiança.

"Vou carregar o estigma por toda a minha vida, pois, na Índia, a mulher é sempre considerada culpada pelo divórcio", diz Rehman.

"Não quero voltar para o meu marido; não é por isso que estou travando esta luta judicial. Luto por justiça e para garantir que outras mulheres não sejam tratadas dessa forma", disse ela à BBC, em agosto.

A Suprema Corte da Índia considerou a petição de Rehman e de outras quatro mulheres em uma decisão de agosto, que considerou o "divórcio instantâneo" inconstitucional.

A prática do "triplo Talaq" só permanece hoje na Índia, e não tem respaldo no Corão e nem na sharia, a lei islâmica.

Segundo estudiosos do Islã, o Corão inclusive determina que o divórcio dure pelo menos três meses, para que o casal possa refletir e, eventualmente, se reconciliar. Outros países muçulmanos, como o Paquistão, já baniram a prática.

Proibição e cadeia

Apesar da decisão de agosto da Suprema Corte, a prática continuou ocorrendo na comunidade islâmica indiana, segundo as autoridades locais.

Por isso, o "triplo talaq" agora é alvo de um projeto de lei que está sendo estudado em Nova Délhi.

Pela nova lei, a prática poderá ser punida com até três anos de prisão.

Segundo a mídia indiana, a legislação pode ser votada pelo Parlamento já em meados de dezembro.

O projeto de lei em estudo também propõe multas e medidas de amparo para as mulheres atingidas. O projeto, que está sendo chamado de "Lei de Proteção aos Direitos das Mulheres Muçulmanas no Casamento", foi enviado aos governos regionais da Índia para consultas.

Assim como a decisão da Suprema Corte, o projeto proíbe de forma explícita o "triplo talaq", além de criar uma "bolsa de subsistência" para as mulheres atingidas, segundo a principal agência de notícias da Índia, a Press Trust.

O objetivo é "garantir a proteção legal caso o marido determine à mulher que deixe a casa", teria dito um alto oficial do governo indiano, segundo a Press Trust.

Na versão atual do projeto, os homens suspeitos de cometer o crime não poderiam pagar fiança para deixar a cadeia. E a versão eletrônica do "talaq", inclusive via WhatsApp, também seria proibida.

O que é o Triplo Talaq?



Análise por Geeta Pandey, da BBC


Os muçulmanos são a maior minoria religiosa da índia, com uma população estimada em 155 milhões. Seus casamentos são regidos por uma versão particular da lei islâmica, presumivelmente baseada na sharia.

Apesar de ser praticado há décadas, o "triplo talaq" unilateral é claramente uma aberração - não é mencionado nem no Corão nem na sharia.

Estudiosos do Islã dizem que o Corão estabelece claramente como deve ser um divórcio. Deve ser consumado ao longo de três meses, o que permitiria ao casal refletir e eventualmente se reconciliar.

A maioria dos países islâmicos, inclusive o Paquistão e Bangladesh, já baniu o "triplo talaq", mas a prática continua vigorando na Índia até hoje.

E a tecnologia moderna tornou ainda mais fácil para homens inescrupulosos se livrarem de suas esposas: seja por telefone, e-mail ou texto. Há, inclusive, casos de homens que usaram Skype, WhatsApp ou Facebook para esse propósito.



terça-feira, 26 de setembro de 2017

Data venia, vem aí o robô-advogado

E tem gente que fica falando que advogado (humano) não tem coração...

Vocês ainda vão pagar sua língua (risos).

A matéria é da revista Exame:

Funções típicas de advogados já são feitas por softwares e robôs

Robôs estão assumindo cada vez mais funções em grandes escritórios - que vivem as mesmas pressões por eficiência de qualquer negócio

Por Naiara Bertão

São Paulo — Um em cada quatro empregos conhecidos hoje deverá ser substituído por softwares e robôs até 2025 — e há quem aposte numa proporção ainda maior. O fato é que a tecnologia ameaça não apenas trabalhos braçais, mecânicos e técnicos mas também profissionais de carreiras tradicionais, como medicina, jornalismo, engenharia e, agora, direito. Os robôs estão assumindo cada vez mais funções nos grandes escritórios de advocacia — que, não é de hoje, são tocados como empresas e vivem as mesmas pressões por eficiência de qualquer negócio. “Nos próximos três anos, vamos ver outro mundo jurídico”, diz Guilherme Horn, diretor executivo da consultoria Accenture.

Os softwares de última geração não só compreendem significados como também fazem correlações. Além de analisar milhões de documentos em segundos, eles sugerem decisões a ser tomadas e alertam para qualquer mudança que possa afetar o caso. É o que o “robô” Ross faz, por exemplo. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, com base na tecnologia de computação cognitiva Watson, da IBM, o Ross já está “trabalhando” em alguns escritórios de advocacia dos Estados Unidos. Outro exemplo é o Luminance, criado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que promete acelerar o processo de auditoria em fusões e aquisições — quando um time completo de advogados analisa centenas de documentos complexos sobre uma empresa a ser comprada para determinar a viabilidade do negócio. Outras iniciativas, que vão de softwares de gestão de processos a plataformas virtuais de documentos e serviços ao consumidor, também estão ganhando espaço.

A possibilidade de redução de custo, obviamente, é um dos principais atrativos — no Brasil, as empresas gastam, em média, 2% de seu faturamento com litígios. Foi nesse ambiente que, em 2013, foi criada a Finch Soluções, como braço de um dos maiores escritórios do país, o JBM e Mandaliti, do interior paulista. A necessidade de automatizar procedimentos e reduzir despesas fez com que as áreas de suporte e tecnologia se unissem para desenvolver softwares que fazem em segundos o trabalho que dezenas de advogados demorariam meses — e analisa até mesmo o histórico de decisões de determinado juiz e a chance de sucesso de cada causa. O negócio deu tão certo que, em 2014, a Finch se mudou para São Paulo e começou a atuar de forma independente. “Não queremos substituir o advogado, mas dar ferramentas a ele para não perder tempo e ter o máximo de dados qualificados para tomar decisões”, diz Renato Mandaliti, um dos fundadores da Finch, que faturou cerca de 50 milhões de reais em 2016.

Assim como a Finch, outras companhias se apropriaram da tecnologia para atacar ineficiências na área jurídica. A paulista Looplex, por exemplo, padroniza e consegue diminuir para 5 mi-nu–tos a criação de uma peça jurídica de dezenas de páginas que levaria de 2 a 3 horas. A também paulista Justto faz a intermediação de impasses — casos de defesa do consumidor, por exemplo — sem que tenham de passar pela Justiça. A baiana JusBrasil, primeira startup brasileira a receber investimento de fundos, conta com um banco de dados de processos na Justiça e seu site recebe mais de 20 milhões de visitas por mês. Os aportes, que somam 10 milhões de reais de fundos como o brasileiro Monashees e o americano Founders Fund, do Vale do Silício, ajudarão a expandir o serviço de informação e busca por advogados. “Ajudamos as pessoas a encontrar um advogado, e isso chamou a atenção dos investidores”, diz Luiz Paulo Pinho, um dos fundadores da startup.

A eficiência dos robôs também tem seu preço. A contratação de assistentes virtuais mais sofisticados ultrapassa a casa do 1 milhão de reais por ano. Mas, como em outros setores, a expectativa dos empresários é que a inteligência artificial fique cada vez mais barata; e os serviços, mais acessíveis. Um mundo em que ninguém precisará se deslocar para participar de uma audiência ou para assinar documentos no cartório está mais próximo? Certamente vai levar muito tempo até que nossos abarrotados e caretas tribunais sejam transformados pela tecnologia. Mas a pressão por mais eficiência é real. O Instituto de Direito Público de São Paulo acaba de lançar o curso de extensão em ciência de dados aplicada ao direito para ensinar noções básicas de análise de dados aos advogados. “A carreira de analista e estrategista de dados deve ganhar muita relevância no meio jurídico”, diz Alexandre Zavaglia Coelho, coordenador do curso. Assim como os médicos estão se valendo de tecnologia para melhorar a qualidade de seu trabalho, os advogados também podem usar os novos serviços a seu favor — o robô, afinal, está vindo para ficar.



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Luteranos lançam pastor-robô para celebrar 500 anos da Reforma Protestante


A informação é d'O Globo:

Pastor robô’ cita trechos bíblicos 
e abençoa em cinco línguas

O BlessU-2 lança debate sobre o potencial da inteligência artificial para a fé

RIO — Cinco séculos após Martinho Lutero publicar as 95 Teses que deram início à Reforma Protestante, a cidade alemã de Wittenberg presencia um novo desafio à tradição religiosa. Trata-se do BlessU-2, um “pastor robô” capaz de dar a benção em cinco línguas diferentes. O experimento foi realizado pela Igreja Protestante de Hesse-Nassau como forma de debater o futuro da Igreja e o potencial da inteligência artificial para a fé.

— Nós queríamos que as pessoas considerassem a possibilidade de serem abençoadas por uma máquina, ou se o ser humano é necessário — disse Stephan Krebs, criador do BlessU-2, em entrevista ao “Guardian”.

O robô está sendo apresentado num evento em Wittenberg para celebrar o aniversário de 500 anos do início da Reforma, movimento religioso, político e cultural que se espalhou pela Europa após Lutero divulgar as 95 Teses.

O BlessU-2 tem no peito uma tela sensível ao toque, dois braços e uma cabeça. Os fiéis podem escolher ouvir a pregação em alemão, inglês, francês, espanhol e polonês, tanto por uma voz masculina como feminina. O robô levanta os braços, suas mãos brilham e recita versos bíblicos encerrados com a frase: “Deus lhe abençoe e proteja”. O texto dito pela máquina pode ser impresso, caso o fiel queira levar como recordação.

— A ideia é provocar o debate — disse Krebs. — As pessoas estão demonstrando curiosidade, espanto e interesse. Elas estão realmente participando, e são muito positivas. Mas dentro da Igreja, algumas pessoas pensam que nós queremos substituir os pastores pelas máquina.

Krebs e seus colegas estão coletando a resposta do público para análises futuras, mas ele não acredita que os robôs possam ser a solução para a falta de padres e pastores nos países europeus. Um robô “nunca poderia substituir o cuidado pastoral”, destacou Krebs.

— Nós não queremos robotizar o trabalho da nossa Igreja, mas ver se podemos levar uma perspectiva teológica para uma máquina — disse Krebs.




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Morre Zygmunt Bauman, o pai da "modernidade líquida"

Parece que 2017 já começou disposto a atropelar 2016 no quesito obituário...

Abaixo, matéria da revista Galileu que resume o legado de Zygmunt Bauman:

3 reflexões para entender o pensamento de Zygmunt Bauman

Sociólogo explora os efeitos do individualismo e da sociedade de consumo nas relações humanas modernas

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faleceu em janeiro de 2017, aos 91 anos. Suas mais de 50 obras e diversos artigos se dedicam a temas como o consumismo, a globalização e as transformações nas relações humanas.

Após ter servido durante a Segunda Guerra Mundial, Bauman fez parte do Partido Comunista Polaco e anos mais tarde se formou em sociologia. Como professor na Universidade de Varsóvia, teve alguns de seus livros e artigos censurados e acabou afastado em 1968.

Após sofrer perseguições antissemitas na Polônia, partiu para a Grã-Bretanha e trabalhou como professor titular da Universidade de Leeds. De todas as suas contribuições, a obra Modernidade e Holocausto talvez tenha sido a mais emblemática e lhe rendeu, em 1989, o Prêmio Europeu Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais. Conheça as principais conclusões de um dos pensadores mais influentes da atualidade:

A SOCIEDADE PÓS-MODERNA SOFRE MUDANÇAS EM RITMO INTENSO

Para definir as condições da pós-modernidade e discutir as transformações do mundo moderno nos últimos tempos, o sociólogo sempre preferiu usar o termo “modernidade líquida”, por considerar “pós-modernidade” um conceito ideológico.

Bauman escolhe o “líquido” como metáfora para ilustrar o estado dessas mudanças: facilmente adaptáveis, fáceis de serem moldadas e capazes de manter suas propriedades originais. As formas de vida moderna, segundo ele, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça esse estado temporário das relações sociais.

Há 100 anos, ser moderno significava buscar um ponto de perfeição e hoje representa o progresso constante, sem um resultado final único prestes a ser conquistado.

A ESTRUTURA FAMILIAR MUDOU DRASTICAMENTE

Em entrevista ao canal Quem Somos Nós?, o professor Luís Mauro Sá Martino explica as transformações do conceito de “família” segundo Bauman: “A partir do século 19 ou 20, o afeto e amor surgem como elementos fundadores da família, mas nem sempre foi assim e não é por acaso que nosso imaginário sempre gostou de idealizar as histórias de amor”, observa.

“No passado, as pessoas casavam com quem os pais mandavam, mas os laços de uma família ainda eram algo sagrado. Hoje, por outro lado, constituímos várias “famílias”, assumindo as diferenças disso em relação ao mundo pré-moderno, com a independência e também as dificuldades que essa pluralidade de relacionamentos pode trazer.”

AS CONEXÕES NO MUNDO MODERNO FORAM INDIVIDUALIZADAS

Bauman observa que o século 20 sofreu uma passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Com isso, também passamos pelo processo de fragmentação da vida humana e deixamos de pensar em termos de comunidade — a qual nação, grupos ou movimento político pertencemos. A identidade pessoal, após essa transformação, restringiu o significado e propósito da vida e da felicidade a tudo aquilo que acontece com cada pessoa individualmente.

“A ideia de progresso foi transferida da ideia de melhoria partilhada para a de sobrevivência do indivíduo”, resumiu o sociólogo em entrevista para a Revista Cult. “O progresso é pensado não mais a partir do contexto de um desejo de corrida para a frente, mas em conexão com o esforço desesperado para se manter na corrida.”



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Se hoje você tem o que comer, agradeça a quem viveu no México mais de 5 mil anos atrás


Artigo interessantíssimo do biólogo Fernando Reinach, publicado no Estadão de 10/12/16:

Foi no México, faz 5 mil anos

E você, provavelmente, nunca passou perto do local onde se domesticou o milho

Não se iluda, as bases tecnológicas de nossa civilização não surgiram em renomadas universidades ou em empresas do Vale do Silício. Elas surgiram muito antes, quando o homem desenvolveu a tecnologia que o liberou da busca contínua por alimento, atividade que toma o dia todo das comunidades caçadoras e coletoras. Nesse aspecto, não éramos muito diferentes de uma vaca, que passa o dia todo pastando, e não tem tempo para escrever um romance. Foi no tempo liberado pela agricultura que o cérebro humano pode dedicar-se ao desenvolvimento das artes e da ciência.

A domesticação de espécies de vegetais é uma dessas tecnologias. Ela foi tão importante que hoje, das 50 mil espécies de plantas comestíveis que existem no planeta, somente 15 respondem por 90% de nosso alimento. Pior, três delas, o milho, o arroz e o trigo, respondem por 66% de todo o alimento que consumimos. O milho é talvez o mais importante, pois não só é consumido diretamente, mas é comida de frango. Frango é milho com penas. O mundo produz hoje 900 bilhões de quilos de milho por ano, o equivalente a 10 quilos por habitante por mês.

E você, tão viajado, provavelmente nunca passou perto do local onde o ser humano domesticou o milho. Foi no Vale do Tehuacán, um local perdido no centro do México. Esse desenvolvimento tecnológico começou por volta de 9 mil anos atrás e tomou o esforço de nossos antepassados durante milhares de anos. Nesse período, eles transformaram o teosinto no milho, duas subespécies da mesma planta tão diferentes entre si quanto um chihuahua de um dog alemão.

Na década de 1960, um cientista chamado Richard MacNeish escavou o solo de uma caverna chamada San Marcos, no vale do Tehuacán. Essa caverna era habitada pelos domesticadores do milho. Em diversas camadas dos detritos, depositados por gerações desses cientistas intuitivos, ele descobriu sementes de vegetais que já não eram teosinto, mas ainda não eram milho. Passos intermediários do processo de domesticação.

Nos últimos anos, com o sequenciamento do genoma do teosinto e do milho, os cientistas descobriram os genes que foram alterados durante o processo de domesticação no vale do Tehuacán. Agora foi sequenciado o genoma das sementes que foram encontradas na caverna de San Marcos, que datam de aproximadamente 5.200 anos atrás, quando o processo de domesticação ainda estava em andamento.

Nesses exemplares foi encontrado o gene que deixa a planta ereta, permite o plantio em linhas e facilita a colheita. Também foram encontradas as versões modernas do gene que aumenta o tamanho dos grãos e deixa o milho mais doce. Mas ainda estavam ausentes o gene que deixa a casca do grão mais fina, o que facilita a digestão, e um outro gene que inibe a queda dos grãos maduros da espiga, que é essencial para que possamos colher os grãos ainda na espiga. Essa planta, de 5 mil anos atrás, já não era um teosinto, onde os galhos se espalham e ramificam, os grãos são poucos, pequenos, duros e caem fácil da espiga. Mas também não era o milho moderno com centenas de grãos por espiga, todos grandes, com casca fina, doces e que não se soltam facilmente.

Se você for ao México, não deixe de visitar Tehuacán, e passeando por lá imagine esses geneticistas intuitivos selecionando variedades de milho, que 5 mil anos depois, iriam alimentar a humanidade. O impacto desse desenvolvimento tecnológico deixa no pó a eletricidade, os celulares e as redes sociais.

MAIS INFORMAÇÕES: THE EARLIEST MAIZE FROM SAN MARCOS TEHUACÁN IS A PARTIL DOMESTICATE WITH GENOMIC EVIDENCE OF INBREEDING. PROC. NAT. ACAD. SCI. USA, VOL. 113 PÁG. 14151 (2016)



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Conclusões olímpicas


Sim, meus queridos amigos, é triste ter que admitir isso mas a Olimpíada brasileira, mais especificamente carioca, acabou...

A grande notícia é que ela transcorreu sem maiores problemas, sobretudo quanto a violência e terrorismo, embora ainda tenhamos que passar pelas Paralimpíadas para podermos comemorar dois eventos pacíficos em seguida.

Quanto aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, foram duas semanas bastante divertidas, em que o brasileiro mostrou ao mundo o seu jeito estabanado de ser, meio confuso, espalhafatoso e contraditório, mas espontâneo e bem-humorado tanto quanto possível.

As cerimônias de abertura e de encerramento agradaram por sua simplicidade e baixo custo, mostrando ao mundo a cultura e a criatividade brasileiras em seu estado de pura arte, sem querer concorrer com festas e sedes antigas, até porque, cá entre nós, ainda que os mais jovens não entendam o que isso significa, nada vai superar o painel humano do ursinho Misha derramando uma lágrima na despedida de Moscou 1980.

Só quem viu esta cena pela televisão 36 anos atrás pode tentar descrever a emoção que sentiu naquele contexto histórico em que a tecnologia ainda perdia de 10 x 0 para a ideologia.

Depois disso, tudo virou mais do mesmo, inclusive a grandiosidade de Pequim 2008, que mostrou ao globo o despropósito de uma China faraônica, logo uma cultura milenar que tem tantas coisas lindas e simples para compartilhar.

Portanto, o Rio de Janeiro acertou em cheio ao fazer cerimônias relativamente simples, muito mais ligadas à emoção do que à ostentação, mostrando o que o Brasil tem de melhor, sua música, sua gente, sua malemolência, seu bom humor.

Claro que este rumo foi ditado, em larga parte, pelas limitações orçamentárias, mas que bom que foi assim, pois serviu de antítese ao negócio bilionário que são os jogos patrocinados pelo Comitê Olímpico Internacional.

Sim, no fim tudo se limita a isso, um negócio. Vivemos num mundo onde a economia impera, e o espírito olímpico é só uma desculpa para que grandes contratos sejam assinados à sombra dos seus arcos.

Tenebrosa é a coincidência a que permitiu que o Brasil encerrasse sua Olimpíada na mesma semana em que vai decidir o impeachment de sua primeira mulher que chegou à Presidência.

De novo, engana-se quem acha que é a lei ou os políticos que vão decidir o destino de Dilma Rousseff. Não, caros amigos, quem parece que já decidiu pela sua defenestração é a economia, mediante aqueles famosos tentáculos invisíveis do mercado, que são afinal quem decide o destino de cidades olímpicas e presidentes.

Era este o cenário em 2009, quando o Rio de Janeiro foi escolhido como sede olímpica para 2016, e o Brasil era muito mais interessante do ponto de vista econômico do que político ou esportivo.

Cabalísticos sete anos depois, tudo mudou.

Parece que o Brasil se despediu não só dos seus Jogos mas também de uma era, e - seja no esporte ou na política - não há boas perspectivas no horizonte.

Tentemos, então, perpetuar (enquanto pudermos) este sentimento gostoso e anestésico de duas semanas em que o mundo nos visitou e interagimos com o diferente.

Foi bom enquanto durou...



domingo, 24 de julho de 2016

Quando as redes sociais prejudicam o diálogo


A entrevista com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman foi publicada na versão brasileira do El País em 09/01/16:

Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”

Ele é a voz dos menos favorecidos. O sociólogo denuncia a desigualdade e a queda da classe média. E avisa aos indignados que seu experimento pode ter vida curta

Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.

R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.

P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.

R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.

P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.

R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.

P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?

R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.

P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?

R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.



sexta-feira, 22 de julho de 2016

Clérigos sauditas proíbem Pokemon (de novo)

A informação é d'O Globo:

Religiosos árabes dizem que 'Pokémon' promove blasfêmia

Justiça na Arábia Saudita reeditou lei islâmica contra franquia da Nintendo

DUBAI, Emirados Árabes - A alta corte religiosa da Arábia Saudita reeditou uma fatwa (decreto islâmico) de 2001 segundo a qual a franquia "Pokémon" é anti-islâmica, segundo informou a mídia estatal do país nesta quarta-feira.

O decreto, porém, não citou o jogo de realidade aumentada "Pokémon Go", que se tornou uma febre mundial desde seu lançamento, no último dia 6, nos EUA. Desde então, o jogo chegou a dezenas de outros países e deve estar acessível para brasileiros nos próximos dias.

O Secretariado Geral do Conselho de Acadêmicos Religiosos comunicou que reeditou o decreto de 2001, criado na época para responder a questionamentos de muçulmanos. Segundo os clérigos, as mutações dos personagens no jogo, que recebem poderes especiais, representam uma blasfêmia por promover a teoria da evolução natural.

"É escandaloso que a palavra 'evolução' esteja tão presente nas línguas de crianças", afirma a fatwa reeditada.

O decreto também diz que o game tem outros elementos proibidos pela Lei Islâmica, incluindo "politeísmo contra Deus por multiplicar o número de divindades, e jogatina, que Deus proíbe no Corão". A fatwa acrescenta que os símbolos usados no passatempo da Nintendo promove xintoísmo, cristiandade, maçonaria e outras crenças.

Na conservadora Arábia Saudita, país onde estão situadas as cidades sagradas de Meca e Medina, cinemas são proibidos e esportes femininos são criticados como algo que promove o pecado. O governo considera a era antes do Islã como uma idade da ignorância (a religião surgiu no século VII).



domingo, 3 de julho de 2016

100 anos da batalha que matou 1 milhão na 1ª Guerra Mundial

Saltando as trincheiras sangrentas na Batalha do Somme:
1 milhão de mortos para conquistar apenas 9 km de território inimigo.

Além de denunciar a estupidez e a inutilidade de qualquer guerra, a Batalha do Somme foi determinante na sequência da barbárie que dominou o mundo no século XX, e sua influência nefasta perdura até hoje.

Somente no primeiro dia de confrontos, o infame dia 01/07/1916, foram mortos 19.240 soldados britânicos, sem contar as demais nacionalidades envolvidas (franceses e alemães, sobretudo).

A matéria é da BBC Brasil:

O centenário da batalha que matou mais de 1 milhão e traumatizou a Europa

"Cavamos por alguns metros
E lá os deixamos para descansar
Mas o sangue à noite ainda é vermelho
Sim, mesmo à noite
E a face de um homem morto é branca"

O poema de Leslie Coulson, de 1916, é apenas mais um registro dos horrores da Batalha do Somme, uma das mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial e, de acordo com historidadores, uma das maiores chacinas da história da humanidade.

Esta sexta-feita marca o início de um combate em que, durante cinco meses, forças britânicas e francesas enfrentaram tropas alemãs ao longo do rio Somme, na França, em uma frente de apenas 24 km, mas em uma horrenda guerra de atrito que resultou em mais de 1 milhão de mortes.

Apenas no primeiro dia de enfrentamentos, pelo menos 30 mil soldados teriam morrido. A Batalha do Somme se tornou um dos símbolos do trauma provocado pela Primeira Guerra no imaginário europeu e seu impacto teve influência em aspectos não muito óbvios - o escritor J.R.R. Tolkien, por exemplo, lutou nas trincheiras do Somme e muitos acadêmicos dizem que a experiência inspirou a trilogia O Senhor dos Anéis.

E há especialistas que veem a carnificina como desnecessária - cujo resultado final, na prática, foi um avanço de apenas 9 km por território controlado pelo inimigo.

A batalha

A Ofensiva do Somme teve como objetivo reforçar as tropas francesas que lutavam na região de Verdun e enfraquecer as tropas alemãs. Ao contrário dos dois países, porém, o Reino Unido na época da Primeira Guerra não tinha um Exército forte e enviou para o front um imenso número de voluntários, que, em um primeiro momento, não conseguiam penetrar as linhas alemãs.

Apenas no primeiro dia de combates, pelo menos 19 mil soldados britânicos morreram, um número altíssimo de baixas que não convenceu o comandante Douglas Haig a diminuir a intensidade do ataque. Mas aos poucos a superioridade numérica dos aliados começou a falar mais alto - os britânicos, por exemplo trouxeram pelotões de então colônias como Austrália e África do Sul.

Em agosto, os alemães já contabilizavam mais de 250 mil mortos e feridos e ainda tinham de lidar com outros problemas. O maior poder naval britânico e francês resultou em bloqueios no Mar do Norte e no Adriático, causando severa escassez de alimentos na Alemanha.

O quadro apocalíptico fez com que o comandante das forças alemães, Erich von Falkenhayn, renunciasse. Em setembro, mesmo a resistência frenética alemã e os rigores do inverno não pareciam capazes de frear o avanço aliado. Mas foi apenas em novembro que a a última escaramuça da Batalha do Somme teve lugar, nas proximidades do rio Ancre.

Nos 141 dias de batalha, as forças aliadas ganharam apenas 9 km de território inimigo. Mas mesmo esse pequeno avanço teve sua importância: historiadores dizem que levou à maturação da tropas britânicas e à vantagem psicológica obtida sobre os alemães quando o inimigo recuou.

Tecnologia no front

A Batalha do Somme marcou a entrada no teatro militar de importantes inovações tecnológicas. Em 15 de setembro, na Batalha de Flers Courcelette (que fez parte de Somme), os britânicos usaram uma arma secreta: o tanque de guerra. 48 tanques Mark I participaram dos combates, embora apenas 21 tivessem conseguido chegar à linha de frente - 17 quebraram no caminho.

Aviões jã faziam parte do teatro de operações da Primeira Guerra desde o início, em 1914, especialmente para operações de reconhecimento. No Somme, o poder aéreo foi muito mais importante neste sentido, embora pilotos já estivessem equipados com armamento para ataques e pequenos bombardeios.

Batalhões de camaradas

O recrutamento de voluntários para o Exército britânico teve sucesso devido à estratégia de usar o espírito cívico e comunitário como principal isca: milhares de "batalhões de camaradas", recrutados localmente em vez de nacionalmente, sob o raciocínio de que homens se sentiriam mais estimulados a servir com pessoas conhecidas.

Infelizmente, isso também tornou o trauma da guerra mais intenso - com a gradual dizimação de pelotões e mais pelotões. Cidades inteiras choraram a perda de vidas. Um exemplo: o 11º Regimento de East Lancashire enviou para a frente do Somme 784 "camaradas" em 1º de julho - apenas no primeiro dia, quase 600 estavam mortos ou feridos, e rumores de que apenas sete tinha sobrevivido causaram violentos protestos nas ruas da cidade de Accrington, de onde vinham os voluntários.

Guerra nas telas

Pela primeira vez na história, uma guerra foi filmada. E 20 milhões de pessoas no Reino Unido - quase metade da população em 1916 - correu para os cinemas para assistir ao documentário A Batalha do Somme, que usou cenas reais do front.

O filme teve imenso impacto e até hoje é um dos mais vistos na história do cinema britânico - teve mais espectadores que o episódio original de Star Wars. Pessoas conhecidas no front

Tolkien não foi a única pessoa conhecida que participou dos combates no Somme. O compositor Ralph Vaughan Williams já tinha composto The Lark Ascending (uma das peças de música erudita preferidas do público britânico até hoje) quande se alistou como soldado do corpo médico britânico e foi enviado ao front.

Do lado alemão, havia Otto Frank, nascido em Frankfurt, cuja filha Anne ficou famosa ao escrever um diário sobre os anos em que sua família, judia, viveu escondida da perseguição nazista na Holanda. Ele viria a ser o único da família a sobreviver ao Holocausto.

Também estava nas trincheiras um jovem austríaco, de 25 anos, que havia se voluntariado para a guerra. Seu nome? Adolf Hitler.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Por que a maioria dos terroristas islâmicos vem da área de Ciências Exatas?


Esta é a questão que levanta a revista Galileu:

Por que o terrorismo atrai tantos profissionais da área de exatas?

O número de extremistas violentos com diplomas em áreas ligadas a matemática e tecnologia é “desproporcional”, segundo análise britânica

No dia 26 de junho de 2015 um homem abriu fogo em uma praia da Tunísia e matou 38 pessoas. O ataque, reivindicado pelo Estado Islâmico, chocou a todos, mas um detalhe aparentemente inofensivo do atentado mostra uma tendência no mínimo improvável: Seifeddine Rezgui, o terrorista responsável pelo massacre, era um engenheiro elétrico. Pesquisas mostram que existem muitos terroristas com ensino superior e que a maior parte se formou em ciências exatas.

A grande maioria dos terroristas jihadistas com ensino superior se formaram em cursos de engenharia, ciência ou medicina – quase não há registros de pessoas graduadas em Humanas ou em áreas mais ligadas às artes.

De acordo com uma pesquisa de 2007 feita pelo British Council, “um grande número de extremistas violentos é graduado. Um número desproporcional deles possui diploma em engenharia e outras áreas técnicas”. Cerca de 48,5% dos terroristas jihadistas do norte da África e Oriente Médio tinham algum tipo de ensino superior na época. Desse total, 44% eram engenheiros formados, número que sobe para 59% quando o recorte são os ocidentais recrutados. De 18 britânicos envolvidos em ataques terroristas, um havia estudado ciências humanas e os outros 17 se dividiam entre tecnologia da informação, farmácia e matemática.

Especialistas garantem que há uma explicação bem objetiva pra isso: falando em termos gerais, o raciocínio puramente matemático tende a seguir uma padrão estabelecido entre certo e errado. Estudantes dessa área podem ser muito inteligentes, mas não cultivam um pensamento crítico e nem questionam a autoridade: o perfil ideal para quem está recrutando jovens para a guerra.

Essa tendência revela algo que vai além das possíveis motivações que movem o terrorismo. Ela mostra uma falha no sistema educacional de todo o planeta, que muitas vezes ignora o poder da interpretação e da discussão nas aulas. Se cerca de 70% dos estudantes do Oriente Médio estão matriculados em cursos de ciências sociais, uma das primeiras medidas tomadas pelo Estado Islâmico ao dominar um território é eliminar os cursos de arqueologia, artes, direito filosofia e ciência política.

Via The Guardian



domingo, 8 de novembro de 2015

"É melhor fechar um McDonald's do que uma escola"


Excelente entrevista do filósofo espanhol Fernando Savater, concedida a Vitor Hugo Brandalise e publicada no Estadão de 31/10/15, da qual destacamos as seguintes frases:

"Sempre que ouvi falar de doutrinação na educação foi de pessoas relacionadas à intolerância religiosa, cujo único fim no ensino é, sempre, doutrinar. E, porque são intolerantes, doutrinam para pior"

"O fundamental no ensino é formar cidadãos, pois na democracia somos todos governantes. E, como somos governantes, é preciso educar para não sermos malgovernados"

"As escolas devem ser sempre abertas à liberdade de escolha. Com método, com disciplina. Paradoxalmente, na educação, liberdade e autonomia são frutos da disciplina"

"Uma boa escola ajuda a tirar o medo. Os pais devem auxiliar, aconselhar sem pressionar, porque serão pouco ouvidos, de toda forma. Já os professores devem ser capazes de despertar a vocação do aluno, de educá-lo para que deseje educar-se mais. Fascinar, sem hipnotizar"


"É verdade que a boa educação é muito cara. Mas a má educação custa muito mais"

Eis a matéria:

Mente aberta


Numa semana de Enem e de acusações de doutrinação, o filósofo espanhol Fernando Savater vai no bê-á-bá. ‘Educar é ensinar a conviver, é formar cidadãos e não empregados, é despertar a vocação. É, enfim, fascinar sem hipnotizar’

Cruzaram-se por acaso essa semana, em São Paulo, os filósofos Simone de Beauvoir, francesa, ícone do feminismo, e Fernando Savater, espanhol, reconhecido pensador da filosofia da educação, com livros traduzidos em 20 países. Savater esteve no Brasil para o evento Fronteiras do Pensamento, na quarta-feira. Beauvoir, que morreu em 1986, esteve por aí, em rodas de conversa e redes sociais, estrela de questão da prova do Enem, o que levou dois deputados reacionários a qualificarem o teste como “doutrinação” feminista, e seus seguidores a chamarem a filósofa de “nazista” e “pedófila”.

Defensor de “educar para a tolerância”, Savater sorriu quando Beauvoir apareceu a ele, em forma de pergunta. Respondeu assim: “Sempre que ouvi falar de doutrinação na educação foi de pessoas relacionadas à intolerância religiosa, cujo único fim no ensino é, sempre, doutrinar. E, porque são intolerantes, doutrinam para pior. Na Espanha franquista, os padres o faziam. Temo que seja assim em todo lugar.”

Savater soube também que, por aqui, pedir a alunos que escrevam sobre violência contra a mulher, tema da redação do Enem, ainda causa polêmica. “Se houve controvérsia, é preciso mesmo falar disso em aula”, disse o filósofo, que defende, em O Valor de Ensinar (Planeta), “escolas plurais, que ensinem a respeitar, inclusive, aquilo de que não gostamos”.

Autor de mais de 80 livros sobre ética, política educação, Savater cultiva a clareza e a linguagem simples em seus textos. Certa vez, foi acusado de “trivial”. Rebateu: “trivialidade é o que fica na cabeça de um imbecil quando escuta alguém falar com clareza”. E é porque ainda não estão lá tão claras as razões do governo paulista para fechar 94 escolas (30 delas com notas acima da média e, entre as que ficam na capital, a maioria está na periferia), que Savater quis falar sobre isso apenas “por princípio”. “Sempre vou preferir que se feche um McDonald's do que se feche uma escola”, como disse ao Aliás.

As escolas devem educar especialmente para uma profissão ou para a vida?

Para mim, educação é transmissão do que consideramos essencial de nossa cultura, de nossa vida às outras gerações. Há essa faceta, de ensinar destrezas que sirvam para o trabalho, mas também há a formação cívica e ética. Comparo a educação com uma pessoa em sua casa, onde estão todos os seus bens preciosos, quadros, livros, discos. De repente, há um incêndio, e é preciso salvar aquilo de que gostamos. É isso, o que há de valioso, o que queremos passar adiante, a razão de ser da educação. Mas o que acontece é que hoje a educação se considera simplesmente laboral. Queremos formar empregados, pessoas rentáveis, que ganhem e façam ganhar dinheiro, rapidamente. Essa pode ser uma opção, mas não é a base da educação. O fundamental no ensino é formar cidadãos, pois na democracia somos todos governantes. E, como somos governantes, é preciso educar para não sermos malgovernados. Se caímos nas mãos de ignorantes, fanáticos, cínicos, a democracia será prejudicada, ou impossibilitada, como aconteceu em alguns lugares.

O que se perde a partir dessa ênfase laboral?

Se torna só adestramento, pobre do ponto de vista existencial. Os gregos rechaçavam isso. Viam o Império Persa, que não educava os filhos, só ensinava um ofício. Ao filho de um artesão, o artesanato. Mas não havia formação cidadã. Já os gregos desprezavam isso. Queriam formar um cidadão capaz de encontrar seu próprio destino, e não alguém que nasce para ocupar um lugar determinado. As escolas devem ser sempre abertas à liberdade de escolha. Com método, com disciplina. Paradoxalmente, na educação, liberdade e autonomia são frutos da disciplina.

Como a escola auxilia na busca por vocação?

A escola é um lugar onde a pessoa se civiliza. A família é um mundo de afetos, importantes para o desenvolvimento, mas todo centrado no que é nosso. Nossa casa, os filhos mais bonitos, a melhor mãe. Aí surge a sociedade, que começamos a entender na escola, onde encontramos pessoas com quem não temos laços, mas que precisamos respeitar. É o que acontecerá ao longo da vida, que em grande parte se dá em um mundo não afetuoso, do trabalho, da política. A escola é um lugar para aprender que não é só brincando que se demonstra o amor à vida, mas também cumprindo atividades socialmente necessárias e desenvolvendo uma vocação. Pois cada vocação é uma forma de amar a vida e uma arma para lutar contra o medo de viver. Vale a pena enfrentar tudo isso? Uma boa escola ajuda a tirar o medo. Os pais devem auxiliar, aconselhar sem pressionar, porque serão pouco ouvidos, de toda forma. Já os professores devem ser capazes de despertar a vocação do aluno, de educá-lo para que deseje educar-se mais. Fascinar, sem hipnotizar.

Um exame nacional, o Enem, citou Simone de Beauvoir e foi qualificado de “doutrinação”. Tratar de temas como esse em exames é doutrinar?

Na escola há uma doutrinação permanente, não? E nem todas as doutrinas são ruins. Às crianças se ensina a não bater nos menores, a respeitar os adultos... São doutrinas, e nos parece normal. O problema não é doutrinar ou não. Ao estudar filosofia na escola, é preciso saber o que disse Simone de Beauvoir. O que o professor não pode fazer é dizer que essa é a verdade e que não há outra. Há que ensinar pensamento crítico, e é preciso aplicá-lo. Sempre que ouvi falar mal de doutrinação na educação foi de pessoas relacionadas a algum tipo de intolerância religiosa, cujo único fim no ensino é doutrinar. E, porque são intolerantes, doutrinam para pior. Na Espanha, os que se opuseram sempre a tudo o que parecia uma ética cívica foram os padres, que passaram o franquismo todo doutrinando, para pior, os espanhóis. Temo que seja assim em todo lugar.

Por que defende que assuntos como intolerância, violência, drogas sejam tratados na escola?

Há quem acredite que se educam as crianças para que continuem crianças, mas as educamos para que sejam adultos. E melhores do que nós. Então é preciso tratar do que nos preocupa. Uma criança de 3 anos não tem de ouvir sobre o aborto, mas há um momento em que esse assunto, e outros, relacionados à sexualidade, ou à morte, terão de ser tratados. Para isso estão na escola. É onde se revela o outro, os vínculos capazes de unir a criança aos demais, a outros países, onde não há os mesmos costumes, os mesmos gostos, a mesma ideologia.

Nesse mesmo exame o tema da redação, violência contra a mulher, causou controvérsia.

Às vezes acontece na Espanha. Parece um acordo dos que, desgraçadamente, propagam a tradição machista de que o varão é dono da mulher. Mas isso já é senso comum. Não é preciso ser feminista para saber que o marido não pode bater na mulher. Se houve controvérsia aqui sobre esse assunto, é porque é preciso mesmo falar dele nas escolas.

Outro assunto debatido é a inclusão de termos como gênero nos planos de ensino. Qual sua opinião a respeito?

São temas delicados, é preciso cuidado. Mas deve-se tratar de gênero, orientação e diversidade sexual, porque as crianças vão se deparar com isso. Há crianças que desde novas têm dúvidas. A escola existe para explicar situações humanas e resolver problemas humanos. E essas são situações humanas, não algo que o demônio introduziu. Falar disso é uma questão de tolerância, um dos princípios das sociedades pluralistas. E passa pela escola, que precisa ensinar a conviver inclusive com aquilo de que não gostamos.

Escolas no Brasil usam exames como o Enem para fazer propaganda. O que isso indica?

Avaliações são importantes como controles, para ver se os alunos estão aprendendo e se o professor está se fazendo entender. Mas não podem se tornar a finalidade da escola. Quando se tornam, está relacionado aos males do ensino privado, que causa essas distorções. O fundamento do ensino é que seja público. Esse deve ser sempre um dos pilares de um bom Estado, pois as pessoas que mais precisam de escola são as que não podem pagar. Por isso o orçamento da educação deve ser o maior. O Exército não pode ter mais dinheiro do que as escolas. É verdade que a boa educação é muito cara. Mas a má educação custa muito mais. Nada sai mais caro a um país do que ter seus cidadãos mal informados e ignorantes.

Muitos alunos já não tomam nota, mas sim tiram foto da lousa. Isso é uma perda?

Para mim, o ensino tem certa dimensão de artesania. As crianças têm de aprender que o que conta é o professor, e sua própria relação com ele, e não com a máquina. Sou partidário de que a certas idades não se entre com celular na classe. Porque, se o aluno não escreve, só tira fotos do que os outros escrevem, corre o risco de nunca conseguir escrever algo direito. Acho que há um período em que o melhor é minimizar a tecnologia. Que se use lápis, caderno, lousa. Dispositivos eletrônicos, no fundo, distraem. Hoje, um dos problemas das crianças é a dificuldade de se concentrar. Naturalmente, elas já se distraem com o que veem na janela, um pássaro, uma mosca. Mas nós, professores, sempre tentamos que se mantenha a atenção. Sem atenção não se faz nada de importante, não há arte, nem ciência. E, se a criança pensa mais no aparelho divertido que têm, é difícil que preste atenção no professor. Voltando às notas, creio que elas ajudam a fixar, a refletir sobre o que se aprende. Eu mesmo, após décadas dando aulas, comecei a refletir sobre educação depois de convidado a escrever sobre ela.

Uma mudança no ensino em São Paulo priorizou manter numa mesma escola alunos de mesma faixa etária. Qual sua opinião sobre isso?

Considero benéfico alunos de diferentes idades numa mesma escola. Os maiores e os pequenos ficam juntos no recreio, se veem, falam. Para mim, parece bom tudo o que faça com que as crianças vejam aspectos diversos da realidade, ou seja, que há pessoas mais velhas com diferentes gostos e ambições.

O governo fechou 94 escolas no Estado. Fecham-se escolas, em qualquer lugar do mundo?

Não sei dos pormenores do plano. Mas, por princípio, vou sempre preferir que se feche um McDonald’s do que se feche uma escola.



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