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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Estaria a Turquia ressuscitando o Império Otomano?


Não é necessário ser historiador para já ter lido ou ouvido, pelo menos uma vez, a frase "a história se repete".

Assim foi o destino fracassado da invasão de Napoleão à Rússia em 1812 e a de Hitler ao mesmo país em 1941, só para citar o exemplo mais conhecido.

A Turquia é um lindo país, sucessor do Império Otomano (por sua vez sucessor do Império Bizantino), com um povo maravilhoso e uma história riquíssima que culminou com seu grande líder Ataturk na esteira do fim da Primeira Grande Guerra, quando tratou de "ocidentalizar" sua terra.

Na direção contrária e no poder desde 2003, Recep Tayyip Erdoğan é o atual líder turco que tem feito profundas mudanças institucionais no país, o que o deixa com um futuro incerto e - talvez - assustador.

Tente entender o complicado xadrez turco nessa matéria publicada no Estadão:

‘Referendo na Turquia é retorno à era otomana’

Para analista, crise econômica fez Erdogan apelar para misto de populismo e religião para concentrar poder

Fernanda Simas

O referendo que determinou a mudança de sistema parlamentarista para presidencialista na Turquia na semana passada é “um ponto de virada” para o país e deve deixá-lo sob um regime autoritário, alertam especialistas. Mas a votação apertada reflete que quase metade da população, mesmo antigos eleitores do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, não acredita mais no projeto de seu partido. “Acredito que a estratégia de Erdogan de governar por meio da tensão e da polarização tem um alto custo não só para a Turquia, que mergulha cada vez mais em problemas econômicos e sociopolíticos, mas também para o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP)”, afirma o professor de estudos da Turquia Moderna na Universidade de Graz, na Áustria, Karabekir Akkoyunlu. A seguir, principais trechos da entrevista

Por que o referendo pode ser considerado a principal mudança na Turquia desde a 1.ª Guerra?

O referendo simboliza um grande ponto de virada para a Turquia. As mudanças constitucionais vão mudar o sistema de democracia parlamentar do país, que voltará à época do Império Otomano do meio do século 19, com um forte presidencialismo. Crucialmente, as mudanças trazem uma presidência com poder muito concentrado com sistemas de controle muito fracos, um sistema populista de uma só figura em vez de um sistema presidencialista dentro de um contexto liberal-democrata. Por isso mesmo que o voto (no referendo) não foi apenas sobre uma mudança de sistema, mas sobre se a Turquia permaneceria sendo uma democracia com falhas ou deixaria de ser uma democracia completamente. Alguns observadores chamaram a votação de “democidio”, o homicídio da democracia por meio de eleição.

O presidente Erdogan ficará mais forte mesmo considerando que quase 50% da população votou ‘não’?

Apesar da extensão dos poderes, o referendo também mostrou que ao menos 49% da população foi contra a mudança, incluindo alguns redutos governistas e a maioria dos eleitores nacionalistas da extrema direita do Partido do Movimento Nacionalista (MHP), que rejeitou apoiar a liderança do partido na campanha pelo ‘sim’. Essa rejeição, reforço, ocorreu mesmo diante de um cenário de campanha desigual e injusta. Me parece que a estratégia de Erdogan de governar por meio da tensão e da polarização tem um alto custo não só para a Turquia, que mergulha cada vez mais em problemas econômicos e sociopolíticos, mas também para o governista AKP.

Partidários de Erdogan alegam que a história turca de golpes, convulsões civis e coalizões políticas falhas pedia um Executivo mais forte.

A campanha do ‘sim’ argumentava que um Executivo forte é preciso para se ter um governo eficiente e livre dos bloqueios não democráticos e a demora da burocracia, mas o argumento tem falhas. É verdade que a Turquia sofreu com as medidas autoritárias dos militares e há mais de uma década existe um consenso na sociedade de que isso precisa mudar. De fato, no governo do AKP, o sistema de tutela militar foi desmontado. Agora, o que a mudança fará em nome da política eficiente é acabar com a separação dos poderes e sistemas de controle essenciais para o funcionamento da democracia. É um recibo para o autoritarismo, que aumentará as tensões políticas e sociais no país. E não podemos esquecer que o AKP governa a Turquia sem uma coalizão formal desde pelo menos 2011 e isso não preveniu as crises políticas ou até tentativas de golpes, pelo contrário. O que a Turquia precisa é de uma Constituição com base no pluralismo político, que garanta as liberdades civis. A mudança aprovada pelo referendo não apenas não remedia os problemas da Turquia, como ameaça torná-los piores.

O que muda na maneira do governo de lidar com o problema do terror, como o Estado Islâmico e a questão curda?

Na questão do EI não muda muito. O problema do EI está apenas começando e deve piorar se e quando os jihadistas forem expulsos da Síria e do Iraque em direção à Turquia, onde já estabeleceram células adormecidas e até conquistaram certo apoio. A questão do conflito curdo também depende da dinâmica na Síria porque a oposição turca às forças curdas (YPG) naquele país também está em tensão com Ancara. Mesmo que o apoio ao AKP pareça ter aumentado com o referendo, isso parece em parte resultado de uma grande presença de segurança, da inabilitação de centenas de eleitores e até uma possível fraude. Ainda assim, sempre há a possibilidade de uma surpresa de Erdogan na questão curda e ele pode iniciar uma nova ‘abertura curda’, embora no momento o apoio a isso seja muito pequeno.

Qual é o significado da vitória do ‘não’ em grandes cidades, como Istambul, onde Erdogan já foi prefeito?

O ‘não’ venceu em quase todos os centros industriais e de turismo do país. Essa é uma importante indicação de mudança demográfica e sociopolítica. O AKP começou como um movimento predominantemente urbano, com apelo entre eleitores da classe média baixa. E manteve o apoio desse grupo ao entregar melhores serviços públicos e crescimento econômico por quase uma década. Mas a situação econômica mudou e o AKP passou a ser visto mais como uma fonte do que uma solução para os problemas, o que já ficou claro nas eleições de junho de 2015, quando o partido perdeu cerca de 10% do apoio. Desde então, Erdogan e o partido tentam consolidar sua base apelando ao nacionalismo, religião e o populismo. Essa é uma estratégia muito perigosa e parece que parte desse eleitorado não ficou convencida de que o referendo traria as mudanças desejadas.

O resultado da votação mostra uma possibilidade de oposição unida?

Não há unidade na oposição e esse é o problema crônico da política turca. Os mais de 49% que votaram ‘não’ no referendo são formados por grupos que dificilmente vão se unir, representados por três partidos opositores, o Partido Popular Republicano (CHP), o de extrema direita Partido de Ação Nacionalista (MHP) e o Partido Democrático Popular (HDP). A inabilidade desses grupos de se unir e trabalhar como uma coalizão se tornou evidente ao falharem nessa tentativa em 2015. No entanto, a dinâmica eleitoral será diferente a partir de 2019. No momento, o MHP parece dividido e a oposição tem a chance de desafiar Erdogan se conseguir unir forças em torno de um líder carismático que possa agradar a rebeldes nacionalistas do MHP, secularistas do CHP e curdos do HDP, além de alguns partidários do AKP desiludidos com o governo. Mas ainda não há um nome para isso.

A incorporação da Turquia à União Europeia ainda é possível?

Mesmo antes do referendo, a relação entre a Turquia e a UE já estava em declínio. Durante a campanha, a tensão entre o governo turco e países do bloco europeu aumentou. Isso tem muita relação com o discurso extremista dos dois lados: o nacionalismo anti-Ocidente na Turquia e o nacionalismo islamofóbico em países como Holanda e Áustria. O crescimento desse discurso populista só afasta ainda mais a Turquia da UE. A única coisa que ainda mantém essa união é o acordo migratório do ano passado e Ancara usa isso como uma carta na manga, ameaçando ocasionalmente abrir suas fronteiras.

A pena de morte pode de fato voltar a valer na Turquia?

Desde a tentativa de golpe no ano passado, Erdogan diz que aprovaria uma lei que traga de volta a pena de morte. E, claro, seria um desastre para a Turquia. Erdogan parece não se importar. Ele acredita que a era da democracia liberal chegou ao fim e o futuro pertence a homens fortes como Vladimir Putin e Donald Trump.



domingo, 17 de julho de 2016

Presidente turco quer que EUA extraditem clérigo muçulmano

Gülen à esquerda e Erdogan à direita: a Turquia entre a lua crescente e a espadinha...
A informação é da Agência Brasil:


Presidente turco pede que EUA extraditem acusado de liderar tentativa de golpe


O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, pediu neste sábado (16) a extradição do clérigo muçulmano Fethullah Gülen, acusado de estar por trás da tentativa de golpe militar de ontem (15). O imã vive em exílio voluntário na Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Fethullah Gülen lidera o movimento que leva seu nome Gülen (ou Hizmet) e que se diz laico, mas prega uma versão moderada do islamismo. Segundo Erdogan, membros do Hizmet estão infiltrados em todos os aparatos do Estado.

O clérigo apoiou o presidente até 2013, mas a aliança foi rompida após o governo ter fechado diversas escolas gülenistas na Turquia. Gülen, que vive em exílio voluntário nos Estados Unidos, nega "categoricamente" qualquer participação no golpe.

Prisões

O comandante do Exército turco Adem Huduti foi detido por suspeita de envolvimento na tentativa de golpe militar, informou a imprensa local neste sábado. Mais cedo, autoridades turcas prenderam o suposto líder do golpe, general Akin Ozturk, ex-comandante da Força Aérea turca, informou o jornal Sabah.

Por cerca de um ano, Ozturk, que pode estar ligado a Fethullah Gülen, vem sendo considerado suspeito de tentar organizar um golpe militar. Ele foi comandante da Força Aérea turca entre 2013 e 2015.

O juiz da Corte Constitucional da Turquia Alparslan Altan também foi preso sob a acusação de apoiar o imã Fethullah Gülen.

Algumas horas depois da tentativa de golpe de Estado na Turquia, o órgão de controle de magistrados e procuradores removeu do cargo 2.745 juízes de todo o país.

Segundo a agência estatal de notícias Anadolu, a decisão tem como objetivo adotar medidas disciplinares contra os suspeitos de ligação com o clérigo muçulmano Fethullah Gülen.



sábado, 16 de julho de 2016

Turquia vive noite de caos e povo resiste a golpe militar


A matéria é da BBC Brasil:

Governo declara ter impedido tentativa de golpe militar na Turquia

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse na manhã deste sábado que seu governo resistiu à tentativa de golpe militar que na noite de sexta-feira causou caos no país. Segundo informações da mídia local e da agências de notícias internacionais, mais de 2.300 militares foram presos e centenas dos soldados que tinham ocupado pontos estratégicos de Istambul e Ancara, as duas principais turcas, renderam-se.

Erdogan estava de férias em um resort no balneário de Marmaris e retornou a Istambul ainda na noite de sexta para combater a ação dos militares. Em uma entrevista por telefone ao serviço turco da rede CNN Ele afirmou que o ato foi uma "traição" e que fará uma "limpeza" no Exército. O governo anunciou ainda que estuda reinstaurar a pena de morte para punir os participantes da tentativa de golpe.

Por meio de sua conta no Twitter, o presidente pediu que "o povo continue nas ruas para defender a democracia". O uso da rede social não deixou ser der irônico, já que o presidente anteriormente tentou censurar comentários críticos a seu governo na internet.

Em um pronunciamento pela TV, o comandante interino das Forças Armadas, o generla Umit Dundar, disse que 104 pessoas, descritas como "conspiradoras", tinham sido mortas em confrontos. Informações extra-oficiais são de que 190 pessoas, incluindo civis, morreram em enfrentamentos nas ruas. Há relatos de que soldados atiraram contra um multidão de pessoas que protestavam na sexta-feira contra o golpe na Praça Taksim, em Istambul.

Tensão

O número de feridos passa de mil.

"O povo foi para as ruas e declarou seu apoio à democracia. A nação jamais esquecerá essa traição. A Turquia irreversivelmente encerrou o capítulo dos golpes militares", afirmou Dundar, que assumiu o cargo depois de o titular, o general Hulusi Akar, ter sido feito prisioneiro durante a tentativa de golpe.

Foi uma alusão aos quatro golpes militares ocorridos na Turquia entre as décadas de 60 e 90, em que as forças armadas exerceram o que chama de "defesa do secularismo". Dessa vez, porém, o exército turco não pareceu estar unido em torno da bandeira do golpe.

E tampouco pareceu esperar a reação dos adeptos de Edogan e de seu partido, o AKP, de linha conservadora e religiosa, e que desde 2004 domina a política turca - de maneira controversa, sob acusações de censura da mídia e de cerceamento da liberdade de expressão. Manifestantes foram às ruas, desafiando o toque de recolher imposto pelos golpistas.

E o governo turco acusou os militares revoltosos de estarem alinhados com o Hizmet, um movimento político-religioso liderado pelo clérigo Fethullah Gülen, radicado nos EUA, e crítico ferrenho do regime de Erdogan.

Mas porta-vozes do recluso Gülen afirmaram seu repúdio ao golpe, que classificaram como uma "irresponsabilidade" dos setores militares envolvidos.

Na sexta-feira, pontes foram fechadas em Istambul e aviões militares sobrevoaram a capital, Ancara, no momento em que o grupo iniciou a tentativa de golpe.

De acordo com a agência de notícias estatal Anadolu Agency, tiros vindos de helicópteros militares foram ouvidos próximos ao Complexo Presidencial, em Ancara.

O helicóptero do Exército - que pertenceria ao grupo que tenta tomar o poder na Turquia - acabou derrubado por um avião de combate turco, segundo informações da emisssora estatal NTV.

A agência Anadolu relatou que 17 policiais foram mortos em um ataque aéreo no departamento de operações especiais Golbasi em Ancara.

A mesma agência afirmou ainda que jatos do Exército sobrevoavam a capital para "neutralizar" os helicópteros usados pelo grupo militar.

'Regime democrático corroído'

Logo nas primeiras horas da tentativa de golpe, o grupo de militares declarou lei marcial e impôs um toque de recolher, segundo informações da emissora estatal de TV TRT.

Uma nota oficial do grupo armado foi lida ao vivo na emissora. "O regime democrático e secular da Turquia foi corroído pelo atual governo. O país agora é administrado por um 'conselho de paz' que irá garantir a segurança da população", afirma a nota. "Uma nova Constituição será preparada o mais rápido possível."

O trânsito foi bloqueado para cruzar a ponte do Bósforo e a ponte Fatih Sultão Mehmet, duas das principais vias de Istambul.

A agência de notícias AFP relatou que houve uma explosão violenta em Ancara. Além disso, tiros foram ouvidos próximos ao quartel general militar na capital, segundo a Reuters.

Mais tarde, a emissora estatal TRT foi tomada pelo grupo armado, que invadiu os estúdios e tirou o canal do ar. Imagens do caos foram transmitidas na televisão, com homens armados no centro do estúdio, enquanto centenas de funcionários do canal estavam em volta pedindo calma.

A CNN turca também chegou a ser tirada do ar pelo grupo militar, que tomou os estúdios locais. A repórter da BBC Katy Watson, que está no país, compartilhou uma foto do canal de TV 'vazio'.

Tiros e explosões

Houve registros de tiros e explosões na capital Ancara e também em Istambul. Um dos locais mais violentos de conflito foi a ponte Bósforo, onde diversas pessoas ficaram feridas após confrontos com militares.

No aeroporto de Istambul, todos os voos foram cancelados e só começaram a ser retomandos na manhã deste sábado. Nas ruas, a tensão era visível pelos tanques militares que ocupavam as vias.

A mídia estatal na Turquia também noticiou que uma das explosões aconteceu no prédio do Parlamento, na capital turca.

'Golpe'

Segudo a agência de notícias Reuters, uma fonte da União Europeia disse que a ação na Turquia parece um "golpe muito bem orquestrado".

"Parece realmente um golpe relativamente bem orquestrado por partes importantes dos militares, não apenas alguns coronéis", afirmou.

O primeiro-ministro Binali Yildirim disse à NTV pelo telefone que o governo "não iria permitir nenhuma atividade que pudesse prejudicar a democracia".

"Houve um ato ilegal liderado por um grupo de militares que agiu de maneira independente do comando central do Exército. Nosso povo deve saber que não vamos permitir isso", afirmou.

Enquanto isso, a população passou a lotar lojas e supermercados para abastecer suas casas. Um repórter da BBC em Antália compartilhou imagens de filas imensas em postos de gasolina ou caixas eletrônicos e até lojas de conveniência - segundo relatos, sensação no país é de "golpe", e a população estáaria tentando se preparar para dias difíceis que estariam por vir.

Reação internacional

O presidente americano, Barack Obama, se manifestou por meio de nota sobre a situação e fez um apelo para todos os partidos da Turquia apoiarem "o governo democraticamente eleito e evitar qualquer violência ou derramamento de sangue".

No Brasil, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também soltou uma nota pedindo "respeito às instuições e à ordem constitucional".

"Em relação aos acontecimentos em curso na Turquia, o governo brasileiro insta todas as partes a se absterem do recurso à violência e recorda a necessidade de pleno respeito às instituições e à ordem constitucional."

O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, disse que é importante "evitar um banho de sangue".



domingo, 26 de junho de 2016

Papa desafia Turquia e lembra genocídio na Armênia

Papa Francisco e o presidente turco Recep Tayyp Erdogan, uma relação pra lá de delicada.

A mera menção à expressão "genocídio armênio" continua sendo fonte de dores de cabeça para o papa em sua relação com a Turquia.

A matéria é da Agência Brasil:

Papa usa a palavra genocídio em discurso no Palácio Presidencial da Armênia

Em seu primeiro dia de viagem à Armênia, o papa Francisco não se intimidou em usar a palavra "genocídio" para se referir ao extermínio de 1,5 milhão de armênios pelo Império Otomano há um século, mesmo sabendo que o vocábulo poderia desencadear um mal-estar diplomático com a Turquia, como já ocorreu no ano passado.

A Santa Sé não previa o termo "genocídio" nos discursos de Francisco, porém o líder católico não quis renunciar à palavra e a disse, em alto e bom som, na capital Erevan, dentro do Palácio Presidencial e diante das autoridades armênias, inclusive do presidente armênio Serzh Sargsyan.

Relembrando um encontro que teve com Sargsyan no dia 12 de abril de 2015, na Basílica Vaticana, o papa disse hoje (24) que, "naquela ocasião, se fez a memória do centenário de Metz Yeghern, o 'Grande Mal' que atingiu este povo e causou a morte de milhares de pessoas". "Aquela tragédia, aquele genocídio, abriu um triste elenco de imagens catastróficas do século passado, tornadas possíveis por motivações racionais, ideológicas ou religiosas aberrantes", disse Francisco, fazendo uma pausa e acrescentando a palavra "genocídio" à fala. O discurso foi proferido no Palácio Presidencial, em uma cerimônia com as autoridades locais e o corpo diplomático, seu primeiro compromisso da viagem de três dias que faz à Armênia.

A declaração do líder católico deve provocar novas críticas do governo turno, que recentemente convocou o embaixador na Alemanha após Berlim aprovar uma resolução sobre o genocídio armênio.

"Tendo diante dos nossos olhos os nefastos episódios conduzidos no século passado pelo ódio, preconceito e desenfreado desejo de domínio, espero vivamente que a humanidade saiba tirar destas trágicas experiências o ensinamento para agir com responsabilidade e sabedoria para prevenir os perigos de cair novamente em tais horrores", disse o papa. "É preciso multiplicar os esforços para que sempre prevaleça o diálogo nas desavenças internacionais e a constante e genuína busca pela paz, assim como a colaboração entre os Estados e o assíduo empenho dos organismos internacionais para que seja construído um clima de confiança propício a alcançar acordos duradouros".

Em suas primeiras horas na Armênia, Francisco também condenou as divisões e guerras atuais. "O mundo está muito marcado por divisões e conflitos, assim como por graves formas de pobreza material e espiritual, entre eles a exploração de pessoas, de crianças, de idosos".

Serzh Sargsyan, por sua vez, ressaltou que, em breve, a Armênia completará 25 anos de independência da União Soviética e que "muitas coisas importantes aconteceram nesse período, entre eles a visita de João Paulo II", ocorrida em 2001.

Primeiro país cristão

Francisco visita a Armênia a convite do patriarca Karekin II e autoridades políticas do país. A Armênia é considerada “o primeiro país cristão”, pois o rei Tiridates III proclamou o Cristianismo como religião de Estado em 301, ainda antes do Império Romano, sob o impulso de São Gregório, o Iluminador. O rito armênio é um dos mais antigos do cristianismo do Oriente, com origens que remontam à época apostólica com Tadeus e Bartolomeu – considerados os Apóstolos do país.

Esta é a segunda visita de um papa ao país. João Paulo II esteve na Armênia em 2001.



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Apesar das ameaças de ausência, começou o Concílio Pan-Ortodoxo


A matéria é do IHU:

O Concílio ortodoxo “que cambaleia” e os sinais dos tempos


O Santo e Grande Concílio ortodoxo, meio cambaleando, começa hoje [domingo, 19 de junho] na ilha de Creta. (1) E, independentemente do jeito que terminar, já pertence à categoria dos eminentes sinais dos tempos. Visto na perspectiva da fé dos Apóstolos, o cabo de guerra que surgiu “in extremis” no âmbito do encontro de comunhão que estava sendo preparado há décadas pelas Igrejas que compartilham o mesmo tesouro apostólico e sacramental mostra, pelo menos por um momento, o vertiginoso caminho pelo qual procede sempre na história a promessa da salvação cristã, encomendada aos sucessores desses mesmos apóstolos. 

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 19-06-2016. A tradução é de André Langer.


As últimas notícias sobre as decisões e os pronunciamentos dos líderes das Igrejas ortodoxas são muito sugestivas. O Santo e Grande Concílio começa com a presença dos líderes de 10 das 14 Igrejas autocéfalas ortodoxas, sob a presidência do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

Do ponto de vista dos grupos e dos equilíbrios de força, tem um peso relevante a participação da Igreja ortodoxa da Sérvia (que no começo tinha se negado a participar), a qual, em seu último comunicado oficial, se reserva o direito de abandonar o encontro caso este se negar a “considerar todas as questões, problemas e diferenças” expressadas durante as últimas semanas pelos quatro patriarcas ortodoxos (de Antioquia, Bulgária, Geórgia e Rússia) que decidiram não participar.

Com a decisão manifestada na segunda-feira passada, o Patriarcado de Moscou de alguma maneira deixou cair a máscara e mostrou-se com o verdadeiro artífice das iniciativas que, coagulando diversos mal-estares e reservas, apostavam na suspensão ou em dar outra direção, “in extremis”, à máquina conciliar que já estava em andamento.

O Patriarca de Moscou, Kirill, em sua última mensagem oficial dirigiu-se intencionalmente aos “Primados e representantes das Igrejas ortodoxas locais que se reúnem em Creta”, sem utilizar a expressão “Concílio”, para dar a entender que esta reunião era “um encontro que pode servir para a preparação do Santo e Grande Concílio”, negando ao encontro de Creta a categoria de Assembleia Conciliar.

Além disso, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, homem chave na política eclesiástica do aparelho ortodoxo russo, em uma entrevista, fez algumas advertências pessoalmente ao Patriarca Bartolomeu, indicando que o “Primus inter pares” entre os primados ortodoxos “dará prova de prudência” e destacando que “se se convoca o Concílio apesar da ausência de ao menos quatro das Igrejas locais, constituirá uma brutal transgressão do regulamento do próprio Concílio, que estabelece que deve ser convocado pelo patriarca ecumênico com o consenso de todas as Igrejas”.

Enquanto isso, a partir de Kiev, os círculos nacionalistas ucranianos tratam de aproveitar a confusão e o Parlamento pede oficialmente ao Patriarca Bartolomeu para que reconheça a autocefalia da Igreja ortodoxa ucraniana (atualmente sujeita com um estatuto de autocefalia à jurisdição do Patriarcado de Moscou), patrocinando um “Concílio de unificação pan-ucraniana” com o qual possam unir-se “todas as Igrejas ucranianas ortodoxas”.

No entanto, em Creta, a máquina midiática do Concílio, nas mãos de órgãos da imprensa estadunidenses, começa a inundar a rede de comunicados e informes feitos de acordo com padrões já acordados em nível global para encontros e “quermesses” religioso-espirituais para todos os gostos.

Nas últimas notícias, a questão do Concílio ortodoxo e seu semi-naufrágio ou seu desejado “êxito midiático”, seguem sendo apresentados principalmente como uma questão político-eclesiástica. Os comentários e narrações da mídia, com poucas exceções, ressaltam as estratégias, alianças, provas de força, pressões, sintonias mais ou menos claras entre os aparelhos político-clericais.

Nos tribunais da rede que infestam a blogosfera católica, as manipulações mais descaradas e interesseiras usam como pretexto os problemas ortodoxos para confeccionar condenações baratas sobre as dinâmicas da sinodalidade eclesial, tão citadas pelo Papa Francisco. Mas estes informes “déjà vu” que elucubram sobre as mutáveis alquimias do poder eclesiástico ou sobre os erros táticos (verdadeiros ou não) dos diferentes aparelhos clericais raramente intuem a raiz profunda das tribulações ortodoxas.

Podem ajudar muito mais as intuições manifestadas por Bartolomeu em uma antiga entrevista de 2004 à revista italiana 30Giorni, na qual o patriarca ecumênico, ao falar sobre o cisma entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, disse que a origem distante dessa divisão está nas “primeiras manifestações do pensamento mundano na Igreja”. Se os ortodoxos sempre reconheceram em tal infiltração a matriz da pulsão “hegemônica” do Papado ocidental, agora parece muito mais claro que tal pulsão não só não foi neutralizada por um ou outro modelo abstrato de eclesiologia “institucional” e pode facilmente servir-se das dinâmicas e dos instrumentos sinodais.

Em relação ao caso das Igrejas ortodoxas, a referência à penetração do pensamento mundano nas dinâmicas eclesiais tem muito pouco a ver com a tradicional e dócil sintonia com os poderes civis nacionais que os polemistas católicos sempre reprovaram na Ortodoxia. Os problemas do Santo e Grande Concílio não dependem de Putin, que paradoxalmente, justamente perseguindo seus interesses, poderia ter sido capaz de favorecer um resultado mais fecundo para o caminho e para a missão apostólica das Igrejas ortodoxas.

Pelo contrário, o que criou muitos obstáculos foi o peso morto do orgulho clerical enquanto tal, a “hybris” que contamina os aparelhos eclesiásticos cada vez que as Igrejas, em qualquer nível, constroem e perseguem um modelo de auto-suficiência e de auto-afirmação no cenário do mundo. Nenhuma das instâncias eclesiais é imune a esta tentação de uma desnaturalização semelhante, como repetiu em várias ocasiões o Papa Francisco ao fazer alusão à gangrena do “mundanismo espiritual”.

Neste momento, devemos admitir que esta atitude ameaça particularmente a Igreja russa. Considerando apenas as últimas duas semanas (e inclusive o que aconteceu antes do início das convulsões sobre o Concílio ortodoxo), o Patriarca Kirill disse que a Igreja russa tem agora, nada mais e nada menos, a tarefa de “mudar a atitude em relação à fé e ao cristianismo em muitos países da Europa e da América”, para voltar a dar uma relevância global ao cristianismo (19 de maio).

O Metropolita Hilarion, por sua vez, apresentou, em 19 de abril passado, a Rússia atual como a única nação de destaque na qual se “expandem a fé e a Igreja”, descrevendo um Ocidente completamente aniquilado pelo ateísmo e o secularismo, com uma inversão total de papéis com relação aos tempos da União Soviética. Em um ataque de triunfalismo identitário, o próprio Hilarion, no final de maio, disse que o Patriarcado de Moscou ocupa “o segundo lugar no mundo” em número de fiéis, atrás apenas da Igreja católica, separando conceitualmente os fiéis russos de todos os outros cristãos ortodoxos.

Apenas aqueles que amam com sincera gratidão a grande aventura cristã que começou com o batismo do Grande Príncipe Vladimir sentem a urgência de informar aos irmãos russos a deriva de retrocesso a que parecem tão expostos neste momento. Mas o escorregão pelo Concílio ortodoxo antes de mesmo de começar deve fazer pensar que não apenas entre os líderes da Ortodoxia russa se rarefez a percepção do tempo escatológico vivido pela Igreja de Cristo.

“Os Primados das Igrejas que colocam em primeiro lugar questões mundanas como o primado de honra”, disse em meio às convulsões pré-conciliares Theodoros II, Patriarca ortodoxo de Alexandria, “deveriam descer de seus tronos suntuosamente decorados e visitar a África, para ver o que quer dizer ser pobres e humildes filhos de Cristo”.

Como já aconteceu em outros momentos da história, o tropeço inicial do encontro conciliar ortodoxo, seu “fracasso” em termos de estratégia humana, vivido à luz da cruz, da descida aos infernos, da Ressurreição e do Pentecostes, poderia sugerir novas vias de fuga para abandonar a soberba clerical e andar mais rapidamente para Cristo.

Como disse Matta el Meskin – o pai da renovação dos monges coptas durante um rico congresso organizado pela comunidade monástica de Bose –, a unidade entre os cristãos, embora pertençam à mesma confissão, nunca nasce como espírito de “coalizão” para sentir-se mais fortes, para unir forças contra inimigos verdadeiros ou imaginários e dar maior relevância e poder à Igreja e aos homens da Igreja. Sempre nasce acompanhada da perda do instinto de conversação e da pretensão de caminhar na história por força própria, como uma realidade autossuficiente.

A unidade em Cristo dos cristãos, escreveu Matta el Meskin, “é um estado de fragilidade divina perante o mundo, seguindo o exemplo de seu Mestre, que renunciou ao seu poder infinito para ser crucificado por qualquer pessoas que ele amava e na maneira como a amava. E todos os problemas que dividem a Igreja – acrescentou Matta – demonstram exatamente que o Senhor não está presente no meio da assembleia. E sua ausência nos obriga a voltar a colocar em questão a finalidade da reunião, o método da busca e as intenções dos membros reunidos [...] O problema da unidade encontra-se clara e decisivamente no problema da presença do Senhor”, porque “só o Senhor ‘pode fazer de dois povos um só, tendo derrubado os muros que os separam (cf. Ef 2, 14)’”.



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Atentado terrorista deixa muitos mortos e feridos em Istambul


A informação é do Estadão:

Explosão em área turística de Istambul deixa dezenas de mortos e feridos

Fontes oficiais acreditam que ação foi um ataque; explosão ocorreu perto da Mesquita Azul em uma importante praça para o turismo

ISTAMBUL - Uma forte explosão na região central de Istambul nesta terça-feira, 12, deixou várias pessoas mortas e feridas. A explosão, que fontes oficiais acreditam se tratar de um ataque, ocorreu perto da Mesquita Azul de Istambul, na região turística de Sultanahmet.

Segundo autoridades, pelo menos 10 pessoas morreram e 15 ficaram feridas. Uma testemunha disse à Reuters que havia partes de corpos no local da explosão, relato confirmado por um policial.

"As causas da explosão seguem sendo investigadas, além do tipo de explosivo e a pessoa ou pessoas responsáveis", disse o escritório do Governador de Istambul em comunicado no qual confirmou o número de mortos contabilizados até agora.

Segundo explicaram várias testemunhas à emissora CNNTÜRK, a explosão ocorreu perto do obelisco egípcio na esplanada onde fica a Mesquita Azul, aparentemente entre um grupo de turistas que algumas testemunhas descreveram como de aspecto asiático. A pista principal, apesar de ainda não ter confirmação, é que se trata de um atentado suicida, acrescenta a emissora.

A mesquita e os monumentos próximos, como Santa Sofia e o palácio de Topkapi, formam o principal complexo turístico de Istambul, cidade que recebe por ano quase 10 milhões de visitantes.

O presidente da Associação de Turismo de Sultanahmet afirmou ao jornal Hürriyet que o provável ataque "é um grande golpe ao turismo de toda a região". "Há 7 mil hotéis nessa zona. Os turistas agora querem ir embora. Já estão buscando passagens (para retornar a seus países). Com essa explosão, o ano 2016 terminou para nós".



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Os curdos pagam o pato na guerra da Turquia contra o Estado Islâmico

Militantes curdos aprendem a dura lição: nem sempre o inimigo do seu inimigo é seu  amigo!

E são todos muçulmanos... a informação é da BBC Brasil:

Por que a Turquia também bombardeia os inimigos do 'Estado Islâmico'?

A Turquia deixou de ser, na semana passada, uma observadora dos ataques contra o grupo autodenominado "Estado Islâmico" (EI) para se tornar um agente militar ativo no combate aos extremistas.

No entanto, os bombardeios turcos não têm como alvo apenas o EI: também caíram sobre bases do separatista Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no Iraque.

E milicianos curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG) na Síria - uma das forças que mais fizeram para conter os avanços do "Estado Islâmico" - também disseram ter sido alvejados pelos ataques turcos.

Mesmo derrotando o Estado Islâmico, a guerra não acabou para as bravas mulheres guerreiras curdas do YFG na Síria.

"Em vez de atacar os terroristas do EI, as tropas turcas atacaram posições dos nossos defensores. Essa não é uma atitude correta", disse um porta-voz do YPG, referindo-se ao bombardeio de seus postos perto de Zormikhar, na Província síria de Aleppo.

Muitos veem a ação turca como uma "traição" e como uma tentativa de usar a ofensiva contra o EI como uma desculpa para avançar contra quem considera seus principais inimigos, os separatistas curdos.

Muitos curdos acusam os Estados Unidos de fazer vista grossa a essa estratégia de Ancara, em troca do apoio logístico turco no combate aos extremistas islâmicos.

As autoridades em Ancara afirmam, em resposta, que os nacionalistas curdos na Síria "não estão contemplados dentro do atual esforço militar" e prometeram investigar os bombardeios. Mas também alegam que os ataques do PKK contra a Turquia impossibilitam negociações de paz.

Política local

30 milhões de curdos compõem a maior etnia
sem um Estado que os represente no mundo.
Os curdos formam a minoria étnica sem Estado próprio mais numerosa do Oriente Médio: são mais de 30 milhões de pessoas - segundo os cálculos mais conservadores - ocupando um território que engloba partes da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irã.

E os bombardeios contra o PKK - que lidera a luta pela independência curda na Turquia - poderiam ser um elemento-chave para conquistar os votos nacionalistas que o atual governo de Ancara precisa para recuperar a maioria perdida nas recentes eleições de junho.

EUA e Turquia têm trabalhado para criar uma "zona segura", no norte da Síria, para libertar a região do EI. A área, de cerca de 90 km de extensão, seria usada para treinar forças moderadas de oposição, informa o correspondente da BBC na Turquia, Mark Lowen.

O objetivo de Ancara é também permitir que refugiados sírios na Turquia possam retornar ao seu país por essa "zona segura".

Mas o líder do partido pró-curdos Partido Democrático do Povo (HDP, um dos principais partidos vencedores da última eleição turca), Selahattin Demirtas, disse à BBC na quarta-feira que a operação de Ancara contra o EI além das fronteiras turcas é um "disfarce" para alvejar rebeldes curdos e impedi-los de avançar na luta por um Estado próprio.

Ele alega que a verdadeira intenção da "zona segura" é fazer uma incursão a áreas de predominância curda na Síria para impedir que os curdos sírios controlem um território contínuo.

Estratégia arriscada

Se for essa mesmo a estratégia turca, ela é arriscada, explica o correspondente Mark Lowen.

"Ao atacar as duas frentes, a Turquia pode se ver exposta a mais ataques por parte do EI e fomentar mais violência entre a minoria curda", diz.

Os bombardeios colocam em perigo o frágil processo de paz entre o governo turco e os separatistas curdos, iniciado em 2012.

Ao mesmo tempo, analistas explicam que dificilmente Ancara poderia ficar de braços cruzados ante o atentado suicida de Suruc, na semana passada - fato apontado como determinante para a entrada da Turquia na ofensiva militar atual.

O atentado, que a Turquia atribui ao "Estado Islâmico", deixou 32 mortos no vilarejo do sul turco, no dia 20 de julho. Em seguida, forças do EI atacaram guardas de fronteira turcos.

Mais tarde, o PKK reivindicou a morte de dois policiais turcos em represália pelo ocorrido em Suruc - os separatistas curdos sempre acusaram o governo em Ancara de colaborar com os fundamentalistas islâmicos.

E, oficialmente, foi por isso que a resposta das autoridades turcas não incluíram apenas ataques contra o EI, mas também a detenção de centenas de simpatizantes do PKK e o bombardeio de seus postos no Iraque.

Assim, o cessar-fogo determinado pelo PKK em 2013 está oficialmente terminado, trazendo à tona memórias de uma guerra civil que matou mais de 40 mil pessoas em três décadas.

A situação fica ainda mais complexa considerando-se que os curdos fazem parte da coalizão que combate o "Estado Islâmico".



quinta-feira, 30 de julho de 2015

Os enigmáticos cristãos ortodoxos do Oriente


Artigo interessante de Gustavo Chacra no Estadão:

Os cristãos ortodoxos são inimigos do Ocidente?

Por que, quando falamos de Israel, associamos ao judaísmo, quando falamos do Irã ou Arábia Saudita, associamos ao islamismo, e quando falamos do Ocidente, associamos ao cristianismo, mas, quando falamos de Rússia, Grécia ou Síria, não falamos dos cristãos ortodoxos? E por que esta insistência em achar que a Cristandade se resuma a católicos, protestantes e evangélicos?

Quem conhece Jerusalém sabe da importância dos cristãos ortodoxos, principal grupo cristão da cidade. E o cristianismo ortodoxo tem um papel ultra relevante na geopolítica internacional. Basta lembrar que a segunda maior potência militar do mundo é a Rússia, cristã ortodoxa. A Grécia, no coração da maior crise europeia deste século, também é cristã ortodoxa. Parte do apoio ao regime de Bashar al Assad vem de cristãos ortodoxos. Aliás, há milícias cristãs ortodoxas lutando contra o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Cristãos ortodoxos também sempre estiveram em movimentos de independência palestinos.

Há até quem diga que, se não houvesse o islamismo, os cristãos ortodoxos ainda seriam os maiores inimigos do Ocidente. Os países árabes mediterrâneos possivelmente seriam majoritariamente cristãos ortodoxos. Os palestinos, idem, e os cristãos ortodoxos seriam os adversários de Israel. Aliás, a Turquia também seria cristã ortodoxa e sua capital seria Constantinopla.

Os cristãos ortodoxos se dividem em oito patriarcados – Alexandria, Antióquia (hoje removido para Damasco), Jerusalém, Moscou, Geórgia, Sérvia, Romênia e Bulgária. Além destes, temos o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla (Istambul). O Patriarca ecumênico se chama Bartolomeu I e ele exerce enorme influência no Leste Europeu e em regiões do Oriente Médio.

Um dos motivos de a Rússia apoiar o regime de Assad, embora longe de ser o mais importante, é a população cristã ortodoxa síria. Na visão de Moscou, se o regime de Assad cair, os cristãos ortodoxos sírios tendem a ser perseguidos e massacrados. O Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa abertamente condena os que apoiam intervenção ocidental para derrubar Assad na Síria. Ele chegou a se encontrar com o líder sírio já durante a Guerra Civil e o parabenizou pela reeleição em 2014.

Aliás, curiosamente, muitos cristãos ortodoxos não simpatizam em nada com posições políticas de evangélicos no Ocidente, como o senador Ted Cruz, um ultra-conservador pré-candidato a Presidência dos EUA pelo Partido Republicano, descobriu depois de ser vaiado por criticar Assad e os palestinos para uma plateia de cristãos ortodoxos de origem sírio-libanesa. O senador republicano não sabia que os cristãos ortodoxos costumam ser pró-Assad e pró-palestinos (aliás, muitos são palestinos).

Quando vemos a Rússia se aproximando do Chipre e da Grécia, não podemos esquecer que estes países também são cristãos ortodoxos. Mesmo com o comunismo sendo contra a religião, culturalmente os países do Leste Europeu ortodoxos, como a Bulgária, possuíam uma relação melhor com Moscou do que católicos, como a Polônia.

Há algumas semanas, completou-se 20 anos do massacre de Srebrenica, cometido por sérvios, que são cristãos ortodoxos, e foram apoiados pelos russos, também cristãos ortodoxos. Curiosamente, tanto na Guerra da Bósnia quanto na de Kosovo, o Ocidente defendeu os muçulmanos contra os cristãos ortodoxos.

Os cristãos ortodoxos do Oriente Médio, historicamente, sempre estiveram na vanguarda dos movimentos arabistas. Também costumam ser urbanos, de cidades como Beirute, Damasco, Trípoli (a do Líbano), Jerusalém e Aleppo. No passado, eram ingrediente importante do caldo cosmopolita do Mediterrâneo, junto com os judeus e os muçulmanos.

No Líbano, os cristãos ortodoxos são minoria entre os cristãos, embora sejam a maioria dos cristãos de Beirute (Ashrafyeh, o sofisticado bairro cristão de Beirute, é cristão ortodoxo). A maior parte dos cristãos libaneses é cristã maronita, uma vertente catolicismo no Oriente, com ritos distintos dos católicos-romanos e com Patriarca próprio – por lei, o presidente libanês e o chefe das Forças Armadas precisam ser cristãos maronitas. Mas muitos dos imigrantes libaneses para o Brasil possuem origem cristã ortodoxa, incluindo o meu avô paterno. No Clube Monte Líbano de São Paulo, muitos sócios são cristãos ortodoxos. Há ainda a grande catedral do Paraíso.

Enfim, para entender o mundo, ajuda entender um pouco do cristianismo ortodoxo. Aliás, antes que me esqueça, diferentemente do judaísmo, “ortodoxo” para os cristãos não significa ser mais religioso.

E vale, neste caso, contar a história de dois conhecidos meus. Ele era cristão ortodoxo, do Monte Líbano. Ela, judia ortodoxa, da Hebraica. Mas, curiosamente, a mãe dele, também cristã ortodoxa, dava aulas de matemática em um colégio judaico e foi a um Bar Mitzva. O filho foi buscá-la e, na porta, viu a moça judia bonita. Deu uma paquerada. Ela perguntou a religião dele, por curiosidade. Orgulhoso, respondeu “ortodoxo” (na realidade, cristão ortodoxo). Ela, que era judia, achou meio estranho, pois ele não parecia ortodoxo. Mas a química já os havia atraído, independentemente das origens. Os dois se apaixonaram e casaram. Hoje são sócios do Monte Líbano e da Hebraica, mas frequentam o Paulistano. O filho foi batizado na Catedral Ortodoxa, mas também fez Bar Mitzva.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Gregos e turcos tentam encontrar paz para o Chipre

A ilha de Chipre é rota de passagem das civilizações do Mediterrâneo desde tempos imemoriais.

A sua primeira referência na Bíblia se encontra no capítulo 23 de Isaías, e é citada 6 vezes no livro de Atos dos Apóstolos.

A história da ilha é bastante conturbada, alternando períodos de dominação por fenícios, egípcios, romanos, gregos, venezianos, e - mais "recentemente" - pelos Impérios Otomano e Britânico.

Independente do Reino Unido desde 1960, Chipre se viu dividida entre as comunidades de origem turca e grega, situação que gerou vários conflitos e perdura até hoje, com a ilha - e sua capital Nicósia - dividida entre os ortodoxos gregos e os muçulmanos turcos.

Parece, entretanto, que há esperança e espaço para a paz e a reconciliação, segundo noticia a Voz da Turquia:

Líderes cipriotas passeiam pela cidade dividida depois das negociações

Os líderes das comunidades, turca e grega, passearam por ambos os lados de Nicósia.

O presidente turco-cipriota, Mustafa Akinci, e o presidente greco-cipriota, Nicos Anastasiades, num intervalo das negociações de paz, acompanhados dos presidentes da câmara de ambos os lados, passearam-se por ambos os lados de Nicósia, atraindo muita atenção pública.

Anastasiades disse que irão trabalhar para achar uma solução, o mais rápido possível e que é necessária uma solução para o futuro de ambas as sociedades.

Akinci acrescentou que gostava de transmitir uma mensagem de esperança ao Chipre, porque é o que mais precisa depois de todas as desilusões do passado.

Os dois líderes encontrar-se-ão novamente a 28 de maio.



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