Mostrando postagens com marcador estratégia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador estratégia. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de dezembro de 2013

Como Fidel ajudou Mandela a acabar com o apartheid

Conforme comentamos ontem, 06/12/13, em nosso adeus a Nelson Mandela, existe toda uma tendência (que não vem de hoje) em adocicar a figura de Mandela, que já beirava a canonização em vida, tornando-o mais palatável aos interesses políticos e midiáticos em transformá-lo num herói manso e domável, portanto manipulável.

Entretanto, a história verdadeira da vida de Mandela não foi exatamente assim, personagem que ele foi de uma luta renhida contra o apartheid, o sistema racista opressor da minoria branca afrikâner da África do Sul.

"Madiba" esteve por longo tempo associado às lutas comunistas em plena Guerra Fria, aquela triste época em que o mundo se dividia entre os satélites de Estados Unidos e União Soviética, algo que as novas gerações não viveram e os mais velhos já veem pelo espelho retrovisor da História.



Por isso mesmo, Mandela foi visto por longo tempo como um terrorista, alguém que desafiava o status quo do racismo como política de Estado na África do Sul, e que, portanto, devia ser combatido e - se possível - eliminado.

"Enforquem Mandela e todos os terroristas
do Congresso Nacional Africano. Eles são
açougueiros", pedia a juventude conservadora
britânica no início dos anos 1980, com o
apoio entusiasmado de sua primeira-ministra.
O jornalista e escritor Mário Magalhães lembrava em junho deste ano, em seu blog, que a juventude conservadora do Reino Unido, no início dos anos 1980, pedia a cabeça de Madiba, querendo enforcá-lo, e a própria primeira-ministra britânica da época, Margaret Thatcher, ícone do neoliberalismo mundial, o chamava de "terrorista".

Sim, é isto mesmo o que você leu. No começo dos anos 1980, havia muitos políticos importantes no comando do globo que, a depender deles, manteriam Mandela na cadeia até o fim de seus dias, da mesma maneira que - contraditória e ridiculamente - há muita gente hoje em dia que diz celebrar Mandela mas é contra as cotas raciais e ações afirmativas pelas quais ele tanto lutou.

É provável que alguns daqueles jovens conservadores britânicos, já no fim da década de 1980, mais precisamente no dia 11 de junho de 1988, tenham ido ao estádio de Wembley, em Londres, para tomar parte do gigantesco show que homenageou o 70º aniversário de Mandela, ainda encarcerado no Sul do planeta. 

Curiosamente, também num mês de junho, agora em 2013, quando a saúde de Mandela parecia estar por um microfio, a colunista do The Huffington Post, Hirania Luzardo, chamava a atenção para a relação especial que sempre houve entre Madiba e Fidel Castro, e como Cuba foi importante para abalar as estruturas militares do apartheid, conforme você pode ver no vídeo abaixo, introduzido pelo ator norteamericano Harry Belafonte, que também foi o orador inicial do histórico concerto de Wembley de 1988:


Com o passar do tempo, houve uma tentativa do conservadorismo mundial em se apropriar e domesticar o mito Mandela, ao qual ele reagiu, diga-se de passagem, com o seu habitual pacifismo.

Entretanto, agora na hora de sua morte, não se deve esquecer que mesmo uma figura controversa como Fidel Castro, pense-se o que quiser dele (mas não seja hipócrita), foi sempre vista e reconhecida por Mandela como decisiva para o seu sucesso.

Como você percebe, o jogo político-ideológico mundial é muito mais intrincado do que parece à primeira vista. Isto quando você tem acesso à informação.



Mandela já passou à história como "santo". Quando chegar a sua vez, Fidel será vendido pelo grosso da imprensa mundial como o "diabo". Depende das tintas que alguém escolher para pintá-los. E elas nem sempre são tão definitivas assim.

Um dos episódios mais abafados da história da imprensa mundial foi a batalha de Cuito Cuanavale, quando a guerra civil de Angola ameaçou se alastrar pela Namíbia, então ocupada pelo regime racista sul-africano.

A Namíbia é hoje um país independente muito em função dessa operação cubana, que foi extremamente hábil em estratégia militar e técnicas de negociação diplomática.

Mandela viu no desgaste militar dos afrikâners nesse episódio o empurrão final para que o castelo de cartas do apartheid viesse abaixo.

Por isso mesmo, para que essa história real nunca seja esquecida, reproduzimos abaixo o relato do portal Pátria Latina, publicado em 27/03/13:



CUITO CUANAVALE: A batalha que deu cabo do apartheid

Neste ano, comemora-se o 25º aniversário (*) do início da batalha de Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, onde as forças armadas da África do Sul do apartheid se enfrentaram com o exército cubano e com as forças angolanas. O ataque sul-africano "foi parado abrupta e definitivamente" pelas forças revolucionárias.

O general Magnus Malan escreveu em suas memórias que a campanha foi uma grande vitória para as forças de defesa sul-africanas (SADF), mas Nelson Mandela não podia discrepar mais: "Cuito Cuanavale — afirmou — foi a viragem para a luta de libertação do meu continente e de meu povo do flagelo do apartheid".

O debate sobre o que significou Cuito Cuanavale tem sido intenso, numa parte porque os documentos sul-africanos relevantes continuam sem serem revelados. Contudo, eu tenho estudado os documentos nos arquivos fechados cubanos e também muitos documentos norte-americanos. Apesar da fenda ideológica que separa Havana de Washington, estes documentos relatam uma história que impacta pelo parecido que têm.

Eis os fatos. Em julho de 1987, o exército angolano (Fapla) iniciou uma ofensiva de maior envergadura no sudeste de Angola, contra as forças de Jonás Savimbi. Mas ao ver que a ofensiva estava tendo sucesso, as SADF, que controlavam os territórios mais meridionais do sudeste de Angola, intervieram. No início de novembro, as SADF tinham cercado as melhores unidades angolanas no povoado de Cuito Cuanavale e estavam preparando-se para eliminá-las.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas exigiu que as SADF se retirassem incondicionalmente de Angola, mas a administração Reagan se assegurou de que esta exigência fosse mais uma resolução, sem maior transcendência.

O secretário adjunto dos Estados Unidos para a África, Chester Crocker, disse ao embaixador da África do Sul nos Estados Unidos: "A Resolução não exige sanções e não estabelece nenhuma ajuda para Angola. Isto não é por acaso, mas sim o resultado dos nossos esforços para manter a resolução dentro de determinados limites". (1) Entretanto, as SADF aniquilariam as unidades elites das Fapla.

No início de 1988, fontes militares sul-africanas e diplomatas ocidentais asseguravam que a derrota de Cuito era iminente. Isto significaria um golpe devastador para o governo angolano.

Em 15 de novembro de 1987, o presidente cubano Fidel Castro decidiu enviar mais tropas e armas a Angola: seus melhores aviões com seus melhores pilotos, suas armas antiaéreas mais sofisticadas e seus tanques mais modernos. A intenção de Castro não só era defender Cuito, mas sim tirar definitivamente as SADF de Angola. Posteriormente, ele descreveu sua estratégia ao líder do Partido Comunista Sul-Africano Joe Slovo: Cuba ia parar o ataque sul-africano e depois atacaria noutra direção, "como o boxeador que com a mão esquerda mantém o contrário afastado e com a direita o golpeia". (2) Aviões cubanos e 1.500 soldados cubanos reforçaram os angolanos e Cuito Cuanavale venceu. Em 23 de março de 1988, os sul-africanos lançaram o último ataque de maior envergadura contra Cuito. Tal como descreveu o coronel Jan Breytenbach, o ataque sul-africano "foi parado abrupta e definitivamente" pelas forças conjuntas cubano-angolanas".

A mão direita de Havana se preparou para golpear. Poderosas colunas cubanas avançaram no sudoeste de Angola, para a fronteira da Namíbia. Os documentos que nos poderiam dizer aquilo que os líderes sul-africanos pensaram acerca desta ameaça continuam sem serem revelados. Mas sabemos o que as SADF fizeram: ceder terreno. Os serviços de inteligência dos EUA explicaram que os sul-africanos se retiravam porque estavam impressionados pela rapidez e a força do avanço cubano e porque consideravam que um combate de maior envergadura "teria acarretado grandes riscos". (3)

Quando criança, escutei meu pai, na Itália, falar da esperança que ele e seus amigos sentiram, em dezembro de 1941, quando escutaram pela rádio que as tropas alemãs tinham abandonado a cidade de Rostov do Don. Era a primeira vez, em dois anos de guerra, que o "superhomem" alemão era obrigado a retirar-se. Lembrei aquelas palavras quando li a imprensa sul-africana e da Namíbia, em meados de 1988.

Em 26 de maio de 1988, o chefe das SADF anunciava que "forças cubanas e das Swapo, fortemente armadas, integradas por primeira vez, avançam rumo ao sul, a uns 60 quilômetros da fronteira com a Namíbia". Em 26 de junho, o administrador-geral sul-africano da Namíbia reconhecia que caças Mig-23 cubanos voavam sobre a Namíbia, uma mudança dramática daqueles tempos em que o céu era propriedade das SADF. Acrescentava que "a presença dos cubanos provocara uma onda de ansiedade na África do Sul".

Contudo, estes sentimentos de ansiedade não eram compartilhados pelos negros sul-africanos: eles viam a retirada das forças sul-africanas como uma luz de esperança.

Enquanto as tropas de Castro avançavam rumo à Namíbia, cubanos, angolanos, sul-africanos e estadunidenses se enfrentavam na mesa de negociações. Existiam dois pontos chaves: se a África do Sul aceitava a implementação da Resolução nº 435, do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que exigia a independência da Namíbia e se as partes concordavam sobre um cronograma da retirada das tropas cubanas de Angola.

Os sul-africanos pareciam ter muita esperança: o chanceler Pik Botha esperava que a Resolução 435 fosse modificada. O ministro de Defesa Malan e o presidente P.W. Botha afirmavam que a África do Sul se retiraria de Angola, caso "Rússia e seus fantoches fizessem o mesmo". Eles nem sequer mencionavam retirar-se da Namíbia . Em 16 de março de 1988, o Business Day informava que a Pretória estava "oferecendo retirar-se para a Namíbia — não da Namíbia — em troca da retirada das forças cubanas de Angola". Quer dizer, a África do Sul não tem nenhuma intenção de retirar-se do território, em nenhum futuro próximo.

Mas os cubanos reverteram a situação no campo. E quando Pik Botha apresentou as exigências sul-africanas, Jorge Risquet, chefe da delegação cubana, lhe esclareceu: "a época das aventuras militares, das agressões impunes, de seus massacres de refugiados acabou". A África do Sul — disse — estava agindo como se fosse "um exército vencedor, em lugar do que realmente é: um exército agressor golpeado e em discreta retirada. A África do Sul deve entender que não vai obter nesta mesa de negociações o que não pôde conseguir no campo de batalha". (4)

Quando terminaram as conversações no Cairo, Crocker enviou um telex ao secretário de Estado, George Shultz, dizendo que as conversações tinham tido, como "pano de fundo, a tensão militar crescente, por causa do avanço para a fronteira da Namíbia de tropas cubanas fortemente armadas, no sudoeste de Angola. O avanço cubano criou uma dinâmica militar imprevisível" (5).

A pergunta era: será que os cubanos iam parar na fronteira? Para responder esta pergunta, Crocker foi buscar Risquet: "Cuba tem a intenção de deter seu avanço na fronteira entre a Namíbia e Angola?".

Risquet respondeu: "seu eu lhe dissesse que não vão deter-se, estaria proferindo uma ameaça. Se eu lhe dissesse que vão deter-se, lhe estaria dando um calmante, e eu não quero nem ameaçar nem dar calmante, somente os acordos sobre a independência da Namíbia podem dar as garantias" (6)

No dia a seguir, em 27 de junho de 1988, caças Mig cubanos atacaram posições das SADF, perto da barragem de Calueque, 11 quilômetros ao norte da fronteira da Namíbia. A CIA informou que "o sucesso com que Cuba vem utilizando sua força aérea e a aparente fraqueza das defesas antiaéreas da Pretória" sublinhavam o fato de que Havana já tinha conseguido superioridade aérea no sul de Angola e no norte da Namíbia. Horas depois do ataque dos cubanos, as SADF destruíram uma ponte próxima de Calueque sobre o rio Cunene. Fizeram isto — segundo a CIA — "para dificultar às tropas cubanas e angolanas o cruzamento da fronteira com a Namíbia e para reduzir o numero de posições que deviam defender". (7)

O perigo dum avanço cubano sobre a Namíbia nunca antes tinha parecido tão real.

Os últimos soldados sul-africanos saíram de Angola, em 30 de agosto, quando nas negociações nem sequer se tinha começado a discutir o cronograma da retirada cubana de Angola.

Apesar de todos os esforços de Washington para impedi-lo, Cuba mudou o curso da história da África Austral. Até Crocker reconheceu o papel de Cuba, quando disse a Shultz, em 25 de agosto de 1988: "Descobrir o que pensam os cubanos é uma forma de arte. Estão prontos, tanto para a guerra como para a paz. Fomos testemunha dum grande refinamento tático e duma verdadeira criatividade na mesa de negociações. Isto tem como pano de fundo as fulminações de Castro e o desdobramento sem precedentes de seus soldados no terreno" (8).

A façanha dos cubanos no campo de batalha e sua virtuosidade na mesa de negociações foram decisivas para obrigar África do Sul a aceitar a independência da Namíbia. Seu sucesso em Cuito Cuanavale foi o prelúdio duma campanha que obrigou as SADF a saírem de Angola. Esta vitória repercutiu mais para lá da Namíbia.

Muitos autores — Malan é só um exemplo — têm tentado reescrever esta história, mas documentos norte-americanos e cubanos relatam o que verdadeiramente aconteceu. Esta verdade foi expressa, com eloquência, por Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, em dezembro de 2005: "Hoje, a África do Sul tem novos amigos. Ontem, estes amigos se referiam a nossos líderes e a nossos combatentes como terroristas e nos acossavam a partir de seus países, e ao mesmo tempo apoiavam a África do Sul do apartheid. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade em nossa Pátria".

NOTAS

(*) Este artigo foi escrito há cinco anos, por ocasião do 20º aniversário desta batalha.

1) Secretário de Estado, à embaixada dos EUA na Pretória, 5 de dezembro de 1987, Freedom of Information Act (daqui em diante FOIA).

2) Transcrição sobre a reunião do comandante-em-chefe com a delegação de políticos da África do Sul (Comp Slovo), Centro de Informação das Forças Armadas Revolucionárias.

3) Abramowitz (Escritório de Inteligência do Departamento de Estado) ao secretário de Estado. 13 de maio de 1988, FOIA

4) Transcrição não oficial. Conversações RPA-CUBA-EUA-RSA (Reunião Quadripartite) sessão da tarde de 24-

5) Crocker ao secretário de Estado, 26 de junho de 1988. FOIA.

6) Entrevista de Risquet com Chester Crocker, 26-6-88, ACC.

7) CIA, South Africa-Angola-Cuba, 29 de junho de 1988. FOIA; CIA, South Africa-Angola-Cuba, 1 de julho de 1988, FOIA.

8) Crocker ao secretário de Estado, 25 de agosto de 1988, FOIA.

(*) Politicólogo e historiador italiano, professor de política exterior dos Estados Unidos na Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos.



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Melhor não contar a ninguém os seus objetivos até que eles se concretizem


Manja aquela ideia brilhante que você teve, mas não deu certo?

Pode ser que a principal dificuldade dela se concretizar foi o fato de que você tê-la "cacarejado" antes de colocá-la em prática.

Muitas vezes, as pessoas têm planos sensacionais, mas perdem tempo e motivação contando-os aos outros antes de trabalharem com afinco para que eles deem certo.

Resultado: dão com os burros n'água.

Portanto, quando você tiver aquele insight, aquela ideia luminosa sobre o que fazer da sua vida, seja em que área for, não conte com o ovo antes da galinha. Guarde-a para si e, antes de mais nada, mãos à obra para implementá-la.

É o que ensina Derek Silvers em mais uma miniconferência TED, no vídeo de 3 minutos com transcrição abaixo. Aprenda:



Todos vocês, por favor, pensem em seus maiores objetivos pessoais. De verdade. Levem um segundo. Vocês precisam sentir isso para aprender. Levem alguns segundos e pensem de seu maior objetivo pessoal. Pronto? Imaginem que estão decidindo agora mesmo que vocês vão realizar isso. Imaginem que vocês contarão a alguém hoje o que fazerão. Imaginem os elogios deles e a boa impressão que terão de vocês. Não é agradável falar disso em voz alta? Vocês não sentem que estão um passo mais próximos desde já, como se isso já se tornasse parte da identidade de vocês?

Pois bem, uma má notícia: vocês deveriam ter ficado de boca fechada, porque aquele sentimento agradável, o torna menos propício a alcançar seus objetivos. Repetidamente, testes psicológicos provaram que contar a alguém a sua meta faz que a realização dela se torne menos provável. Sempre que vocês têm uma meta, existem alguns passos que precisam ser tomados, alguns trabalhos que precisam ser feitos no sentido de realizá-la. Idealmente, vocês não deveriam sentir-se satisfeitos enquanto não tivessem feito o trabalho. Mas quando vocês contam a alguém a meta de vocês, e eles reconhecem isso, os psicólogos descobriram que isso se chama uma realidade social. É como se a mente fosse iludida a sentir que ela já está feita. E então, como vocês sentiram essa satisfação, vocês ficam menos motivados a fazer o trabalho duro que é realmente necesssário. Assim, isso contradiz a sabedoria convencional de que deveríamos contar nossas metas a nossos amigos, certo? -- então, vamos guardar isso conosco, isso mesmo.

Então, vamos olhar as evidências. 1926, Kurt Lewin, fundador da psicologia social, chamou isso de "substituição." 1922, Vera Mahler descobriu, quando alguma coisa era reconhecida pelos outros, ela parecia real na mente. 1982, Peter Gollwitzer escreveu um livro inteiro sobre isso, e em 2009, ele realizou alguns novos testes que foram publicados.

Foi assim: 163 pessoas através de quatro testes separados -- cada um escreveu sua meta pessoal. Metade deles anunciaram seus compromissos com as metas à sala, e metade não anunciou. Então eles tiveram 45 minutos para fazer um trabalho que os levaria diretamente à realização das metas deles, mas disseram a eles que poderiam parar a qualquer momento. Pois bem, aqueles que ficaram com as bocas fechadas trabalharam todos os 45 minutos, em média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que sentiam que tinham um longo caminho a percorrer até atingirem as metas deles. Mas aqueles que tinham anunciado largaram depois de apenas 33 minutos, na média, e quando perguntaram a eles depois, disseram que se sentiam bem mais próximos de atingirem suas metas.

Então, se isso for verdade, o que podemos fazer? Bem, a gente poderia resistir à tentação de anunciarmos nossas metas. A gente pode retardar a gratificação que o reconhecimento social proporciona. E podemos entender que nossas mentes confundem o falar com o fazer. Mas se a gente precisa mesmo falar sobre alguma coisa, a gente pode falar de modo que não nos proporcione satisfação, algo como, "Eu realmente quero correr essa maratona, portanto preciso treinar cinco vezes por semana, e chutem meu traseiro se eu não fizer isso, certo?"

Portanto, pessoal, na próxima vez que vocês ficarem tentados a contarem suas metas a alguém, o que vocês vão dizer? Exatamente. Muito bem.

(Aplausos)



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O inchaço da igreja evangélica brasileira


São muitas as leituras que podem ser feitas (todas elas muito interessantes) a partir da informação do IBGE – recentemente divulgada pela Folha de S. Paulo (vide matéria abaixo) - que dá conta de um extraordinário crescimento do número de brasileiros que se identificam como evangélicos SEM vínculo com nenhuma denominação em particular, os “desigrejados”, por assim dizer. 

O contingente populacional que se enquadra nesta definição é hoje estimado em cerca de 4 milhões de pessoas. 

A matéria foi publicada no último dia 15 de agosto, e passei alguns dias refletindo sobre o tema, que evoca ideias nas quais venho trabalhando há alguns anos e já foram abordadas em vários tópicos deste blog, e aproveito a deixa para pincelá-las novamente, com as seguintes observações:

1) Lembro-me da experiência de um líder de uma igreja tradicional de uma cidade pequena no interior paulista, que estava desgostoso com os rumos de sua denominação no meio dos anos 1980, e, influenciado por pregadores pentecostais itinerantes, decidiu sair da sua igreja, levando junto cerca de 20 pessoas, para formar uma nova igreja que lhe parecia mais adequada ao seu pensamento. No início daquele trabalho, conversando comigo e outro irmão, ele nos disse que havia decidido ser pentecostal porque só as igrejas pentecostais estavam crescendo, ou seja, o pentecostalismo “funciona”. Depois que ele se afastou, o irmão que estava comigo comentou sarcasticamente: “se o critério é este, a umbanda também cresce, mas nem por isso vamos montar um novo terreiro”. A fala do pastor neopentecostal revelava um fenômeno nascente que ainda levaríamos anos para reconhecer pelo verdadeiro nome: o utilitarismo, que é o grande movimento filosófico que move o mundo desde o fim do século XIX e esteve por trás de todas as divisões de igreja e surgimento de novas denominações nas últimas décadas, inclusive naquela nova igreja do pastor em questão, que também se dividiu várias vezes e hoje – quase 30 anos depois - permanece com um número relativamente pequeno de membros. Será que valeu a pena a divisão? Tanto a primeira como as subsequentes divisões foram causadas, na verdade, pela terrível pergunta que os novos (e insatisfeitos) líderes iam se fazendo: “isto funciona?”. Se – na visão deles – não funcionasse, eles tratavam de sair da igreja e fundar outra, replicando as nocivas experiências anteriores que só levam ao esfacelamento do corpo de Cristo, com muitos feridos abandonados pelo caminho. Isto tem nome, e hoje sabemos que não é cristianismo, mas sim utilitarismo. Nesta macabra visão, pessoas e igrejas só são válidas enquanto são úteis. Se deixam de sê-lo, devem ser descartadas.

2) Longe vai o tempo em que andar com uma Bíblia debaixo do braço num domingo de manhã era se candidatar a ser motivo de chacota daqueles que não eram evangélicos. Para ser crente era necessário se submeter ao constrangimento causado pelos comentários depreciativos de parentes e amigos. Hoje, ao ritmo de chavões (mantras) e músicas gospel, está na moda ser evangélico. Basta colocar um adesivo “Deus é fiel” ou “Propriedade de Jesus” no carro, que as portas dadivosas do céu já se abrem na imaginação de quem os utiliza. Participar de “correntes” de prosperidade, repetir expressões como “tá amarrado” ou “em nome de Jesus”, cantar e ouvir “Como Zaqueu” à exaustão, são atitudes corriqueiras, mas que desaparecem ao menor sinal de problemas. As pessoas se “apaixonam” por uma ideia de religião de fachada, mas perdem completamente o chão quando as tempestades da vida se aproximam. Da mesma maneira que renovam seu guarda-roupa, trocam de crença (e de igreja, às vezes) ao sabor dos ventos da constatação (inconsciente, na maioria das vezes) de que sua fé é só fashion.

3) Alguns anos atrás, conversando com uma pessoa que participava de uma mega-igreja, ela se gabava de que havia 5.000 jovens integrados nos diferentes ministérios da organização, e se surpreendeu quando eu perguntei quantos deles eram convertidos. Para ela, não havia essa distinção, pois o simples fato de participar das atividades de um grupo religioso já era garantia mais que suficiente de que a pessoa satisfazia todos os requisitos bíblicos que identificam um cristão. De fato, para muitos líderes de hoje, o que importa são cifras e cifrões, e não se preocupam nem um pouco em ensinar aos novos convertidos os rudimentos da fé e prepará-los para os muitos desafios da vida cristã, até para que eles saibam em que terreno estão pisando. Quantidade, e não qualidade, é o que os anima, em clamoroso contraste com o desânimo que acomete seus seguidores quando nem tudo sai como eles esperavam. Na parábola das 100 ovelhas (Lucas 15:4), o pastor deixa as 99 no aprisco e sai em busca daquela que se perdeu, mas em muitas igrejas atuais, ninguém vai atrás de uma ovelha desgarrada se três ou quatro entraram no seu lugar.

4) Em decorrência do quesito anterior, as estatísticas são feitas única e exclusivamente para contar (e alardear) o número de pessoas que chegam na igreja, e pouca ou nenhuma importância se dá ao número daqueles que saem. O conceito de crescimento vegetativo populacional (positivo ou negativo) é não só desconhecido como também evitado. A igreja está cheia, mas quantos foram embora? O que se diria, então, das razões que os levaram a abandonar o barco? Quantos dos que saíram ainda se identificam como “evangélicos”? Aliás, as estatísticas do IBGE apontam 4 milhões de “desigrejados” que ainda se dizem evangélicos, mas não há qualquer referência a quem passou pela igreja e não se considera mais “evangélico”. Este é um dado que mereceria uma melhor análise por quem se dispuser a fazer novas pesquisas na área. É muito comum perguntar aos críticos do “oba-oba cóspel” quantas pessoas eles já levaram a Cristo (entendendo-se por “Cristo” aí a “igreja do pastor Fulano”), mas nunca ninguém ouviu alguém perguntando ao pastor ou a algum irmão quantas pessoas foram afastadas de Cristo pelas atitudes ou pela pregação dele. Esta sim é uma pergunta extremamente didática e terapêutica; pena que nunca é formulada. Deixa, portanto, de ser respondida, mas suspeito no meu íntimo que um dia Deus dela pedirá conta de cada um de nós. Enquanto este dia não chega, outra suspeita merece ser investigada. Ao que parece, estamos vendo um “inchaço” da igreja evangélica no Brasil, e não exatamente um crescimento responsável e sustentável, não só numérico mas principalmente espiritual.

5) A palavra “evangélico” é atualmente um termo muito mais ideológico do que teológico, como já tivemos oportunidade de comentar neste blog em outras ocasiões. Basta ver o estranho “milagre” da multiplicação de partidos e políticos “evangélicos”, como se o rebanho de ovelhas alcançadas e remidas por Jesus fosse um patrimônio eleitoral, um verdadeiro curral, que pudesse ser negociado ao sabor dos acordos espúrios feitos por líderes da igreja com candidatos às vésperas das eleições em suas alianças de ocasião. Para muitas pessoas de dentro e fora da igreja, ser “evangélico” no Brasil de hoje significa aderir a uma série de posições ideológicas pré-definidas e impostas de cima para baixo, e não mais participar de uma comunidade de pecadores remidos e lavados pelo sangue de Jesus Cristo. Existe um número considerável de pessoas que se identificam como “evangélicos”, mas na verdade usam mais um jargão ideológico espiritualizado de “direita” (maioria) ou “esquerda” (em extinção), que apresentam à Igreja como o mais refinado e atualizado discurso histérico que deve ser repetido (e votado) por todos, vociferando o fogo do inferno aos que ousarem não comungar de sua posição.

6) Há também aqueles que vivem em função de uma “estratégia mercadológica” da igreja, estabelecendo um determinado “público-alvo” ao qual direcionam a sua pregação, não mais dirigida aos “pecadores” em geral. O próprio abuso reiterado da palavra "estratégia" nos púlpitos revela esta tendência. É a tristemente famosa “igreja ao gosto do freguês”, constituída para agradar ouvidos carentes de uma mensagem positiva de autoajuda nos momentos de dor e de crise financeira. Além das igrejas destinadas a nichos específicos, existe uma espécie de “empreendedorismo gospel” com uma profusão de “reuniões” e “congressos” empresariais realizados sob o patrocínio da denominação. Estranhamente, não há mais pobres no seio da igreja, não porque eles não existam, mas são sumariamente excluídos da vista da congregação, pois não fica bem cuidar de alguém que não se veste bem ou não tem o que dar de comer aos seus filhos. Isto depõe contra a ideologia da prosperidade pregada no púlpito. Quando a pessoa sai do templo, entretanto, ela se depara com uma realidade de dor e de miséria muito diferente, e – ainda que inconscientemente – estranha por não ver este universo representado dentro da igreja. Por isso é importante que apareça nas estatísticas o número de pessoas que são atraídas por este discurso consumista customizado, ficam na igreja por algum tempo e depois somem para nunca mais voltar. A "higienização" do templo e da congregação fez com que valores essenciais do evangelho como amor, caridade, piedade, misericórdia, solidariedade, serviço cristão enfim, foram varridos para a lata de lixo mais distante possível.

7) Apesar de toda essa balbúrdia a respeito de números, ainda há muita gente que incentiva a evangelização com fundamento no “ide!” e nas palavras de Jesus, a saber, “pelos frutos os conhecereis” (Mateus 7:20) e “eu vos designei para que vades e deis frutos” (João 15:16), o que é legítimo e saudável para o crescimento da igreja, mas se esconde - inexplicavelmente - a sequência do versículo de João 15:16, que é: “e o vosso fruto permaneça”. Para Jesus, portanto, não basta dar frutos, no sentido de acrescentar números à membresia da Igreja, o que é relativamente fácil diante da “moda gospel” atual, mas é preciso se certificar de que eles permaneçam. Não por acaso, Jesus emprega 13 diferentes formas do verbo “permanecer” no seu discurso do capítulo 15 de João. Tamanha ênfase na permanência dos frutos, entretanto, tem sido solenemente negligenciada pela Igreja, na sua ânsia em apresentar resultados mensuráveis que agradem o ego de poucos e ensejem a celebração histérica do inchaço da congregação, em vez de gerar cristãos honestos e sinceros que permaneçam não só no templo, mas sobretudo na fé.

Que Deus tenha misericórdia de nós!


Matéria da Folha de S. Paulo de 15/08/11:
Cresce o número de evangélicos sem ligação com igrejas

ANTÔNIO GOIS
DO RIO
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA
Especialistas dizem que processo pode ser análogo ao de quem se identifica como 'católico não praticante'
Pesquisa mostra que, entre 2003 e 2009, fatia de fiéis que dizem não ter vínculo institucional saltou de 4% para 14%

Verônica de Oliveira, 31, foi batizada católica e vai à missa aos domingos. No entanto, moradora do morro Santa Marta, no Rio, é vista com frequência também nos cultos das igrejas evangélicas Deus é Amor e Nova Vida.Quando questionada sobre sua filiação, dispara: "Nem eu sei explicar direito. Acho que Deus é um só".

Em cada igreja, ela gosta de uma característica. Na Católica, são os folhetos distribuídos na missa. Na Deus é Amor, "um pastor que fala uma língua meio doida".

Na Nova Vida, aprecia o fato de lerem bastante a Bíblia. Mais do que trair hesitações teológicas, casos como o de Verônica, de "religiosos genéricos", que não se prendem a uma denominação, crescem nas estatísticas.

Um bom indício do fenômeno surge nos dados sobre religião da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE, que pesquisou o tema em 2003 e 2009. No período, só entre evangélicos, a fatia dos que se disseram sem vínculo institucional foi de 4% para 14% -um salto de mais de 4 milhões de pessoas.

Entram nesse balaio, além de multievangélicos como Verônica, pessoas que não se sentem ligadas a nenhuma igreja específica, mas não deixaram de considerar-se evangélicos, em processo análogo ao dos chamados "católicos não praticantes".

A intensidade exata do fenômeno só será conhecida quando saírem dados de religião do Censo de 2010.

No entanto, para especialistas consultados pela Folha, a pesquisa, feita a partir de amostra de 56 mil entrevistas, é suficiente para dar boas pistas do movimento.

O pesquisador Ricardo Mariano, da PUC-RS, reconhece que vem ocorrendo aumento de protestantes e pentecostais sem vínculos institucionais, ainda que ele tenha dúvidas se o crescimento foi mesmo tão intenso quanto o revelado pelo IBGE.

INDIVIDUALISMO

Para ele, a desinstitucionalização é resultado do individualismo e da busca de autonomia diante de instituições que defendem valores extemporâneos e exigem elevados custos de seus filiados.

De acordo com o professor, parte dos evangélicos adota o "Believing without belonging" (crer sem pertencer), expressão cunhada pela socióloga britânica Grace Davie sobre o esvaziamento das igrejas ao mesmo tempo em que se mantêm as crenças religiosas na Europa Ocidental.

Para a antropóloga Regina Novaes, uma pergunta que a pesquisa levanta é se este "evangélico genérico" tem semelhanças com o católico não praticante. Para ela, "ambos usufruem de rituais e serviços religiosos mas se sentem livres para ir e vir".

Diana Lima, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos, levanta outra hipótese: "Minha suspeita é que as distinções denominacionais talvez não façam para a população o mesmo sentido que fazem para religiosos e cientistas sociais. Tendo um Jesus Cristo ali para iluminar o ambiente, está tudo certo".

Os dados do IBGE também confirmam tendências registradas na década passada, como a queda da proporção de católicos e protestantes históricos e alta dos sem religião e neopentecostais.

No caso dos sem religião, eles foram de 5,1% da população para 6,7%. Embora a categoria seja em geral identificada com ateus e agnósticos, pode incluir quem migra de uma fé para outra ou criou seu próprio "blend" de crenças -o que reforça a tese da desinstitucionalização.

Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, do IBGE, o que está ocorrendo é um processo de democratização religiosa, "com todos os problemas da democracia".

O maior perdedor é a Igreja Católica, que ficou sem seu monopólio. Segundo Alves, ela vai ceder mais terreno, porque os católicos se concentram nas parcelas de menor dinamismo demográfico.

Já os evangélicos ainda vão crescer muito, garante o demógrafo, pois ganham entre as parcelas da população que têm maior fecundidade.

Outro dado interessante da POF é que aumentou o número dos que declararam uma religião não identificada pelos pesquisadores, o que indica que na década passada mais igrejas surgiram e passaram a disputar o "supermercado da fé", na expressão depreciativa utilizada pelo papa Bento 16.

Por ser amplo, o levantamento permite também identificar, denominação por denominação, o tamanho de cada igreja.

A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, registrou queda de 24% no número de fiéis. O recuo pode estar relacionado com a criação de igrejas dissidentes.

Ao analisar os números, porém, os pesquisadores consultados dizem que é preciso esperar o Censo para confirmar esse movimento.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Estratégia ou estratagema?

Um dos jargões modernosos que invadiram muitas igrejas evangélicas é o uso do termo “estratégia”, aplicável a toda e qualquer situação para a qual a pessoa possa dizer “Deus me deu uma estratégia...”. 

Não deixa de ser mais um inapropriado empréstimo do jargão empresarial, acostumado com o uso e abuso desta palavra, originária do grego “stratēgía” (στρατηγία), que por sua vez deriva de “stratēgos” (στρατηγός), que era primitivamente “o cargo do comandante de uma armada, o cargo ou a dignidade de uma espécie de ministro da guerra na antiga Atenas, pretor, em Roma; manobra ou artifício militar”, segundo define etimologicamente o Dicionário Houaiss. 

Há, portanto, uma clara conotação militar no emprego do termo, pelo menos até a segunda metade do século XX, com suas muitas guerras travadas por todo o mundo. 

Com a globalização da economia que sucedeu o fim da guerra fria, a palavra passou a ser muito mais usada num contexto empresarial, em que “estratégias de marketing”, por exemplo, são essenciais para o desenvolvimento de um negócio. 

Daí não chegar a ser surpresa a incorporação – por muitos líderes evangélicos – desses termos afeitos ao mundo secular, já que veem e administram a igreja como uma empresa, reproduzindo nela o seu linguajar.

É claro que a igreja está inserida na sociedade e não há nada de mal que – vez ou outra – utilize termos específicos de outras áreas para transmitir a mensagem do evangelho, afinal a língua é dinâmica e as palavras circulam livremente e se reinventam de tempos em tempos. 

O que chama a atenção é a repetição desses termos numa espécie de “mantra” evangélico, como se eles carregassem algum poder intrínseco misterioso, e servissem para definir a posição da igreja no mundo. 

“Estratégia” é uma palavra que não se encontra na Bíblia. 

De fato, há algumas metáforas militares, como o uso frequente da palavra “exército” no Velho Testamento (228 vezes), que – significativamente - aparece apenas 2 vezes no Novo (originariamente escrito em grego), sendo uma na entrega de Paulo ao exército romano (Atos 28:16) e outra estritamente no sentido espiritual, na batalha final de Apocalipse 19:19. 

Além disso, no Novo Testamento há apenas 3 referências a “armas” no sentido espiritual, e, com o perdão da redundância, nada sugere que a palavra “estratégia” tivesse alguma importância estratégica para os inspirados escritores bíblicos. 

O uso constante do termo parece, portanto, muito mais um modismo inútil, uma espécie de muleta semântica utilizada à exaustão para disfarçar a ignorância de quem a utiliza.

A coisa pode ficar pior, entretanto. 

“Estratagema” (do grego stratēgema - στρατήγεμα), também inexistente na Bíblia, é outra palavra que deriva do mesmo radical grego stratēgos que gerou “estratégia”, mas com uma conotação sutilmente diferente: “manobra de guerra, estratagema, astúcia, artifício de guerra”, segundo o Dicionário Houaiss, que define o significado atual da palavra como “plano, esquema etc. previamente estudado e posto em prática para atingir determinado objetivo” no sentido negativo de um ardil, uma armadilha, no popular uma “manha”, um esforço de dissimulação para enganar alguém. 

Em suma, não é pecado usar a palavra “estratégia” eventualmente, mas o seu emprego reiterado pode revelar algo mais que um vício de linguagem. 

Creio que muitos cristãos usam a palavra “estratégia” apenas por modismo, atribuindo-a a Deus como uma espécie de “reza evangélica” na qual eles pronunciam a palavra sem refletir sobre o que estão dizendo, mas não duvido que haja aqueles que a utilizem com o sentido de “estratagema” para embelezar um discurso ardiloso que camufla os seus projetos de poder neste mundo.

O mandamento “ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” de Jesus (Marcos 16:15) mostra a importância que Ele dava à comunicação, arte na qual foi Mestre enquanto andou por este mundo. 

Por isso, é essencial que seus discípulos atuais se espelhem no seu exemplo e se preocupem em transmitir o evangelho de maneira clara e simples, sem recorrer a modismos e palavras dúbias que nada acrescentam. 

Afinal, palavras existem para comunicar uma mensagem, uma ideia, e temo que quem usa o termo “estratégia” no meio cristão está correndo o risco de invocar uma pretensa inteligência enquanto simula uma espiritualidade inexistente.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails