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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sobrinho autista cobrava pensão alimentícia de tio, mas TJSP negou


A informação é do próprio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:

TJSP nega pedido de pensão alimentícia 
proposto por sobrinho

Obrigação não abrange tios.


A 10ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo negou pedido de um rapaz que pleiteava pagamento de pensão alimentícia por parte de seu tio. O autor, que é portador do Transtorno do Espectro Autista, ajuizou ação sob o argumento de que a responsabilidade por seu sustento recai apenas sobre a mãe, uma vez que o pai não arca com a obrigação e a avó paterna não dispõe de condição financeira para ajudá-lo. Na petição inicial, ele afirmou que o tio paterno possui excelente padrão de vida e não tem filhos.

Em primeira instância, o pedido foi julgado procedente para condenar o tio ao pagamento de pensão no valor equivalente a 10% de seus rendimentos líquidos. A decisão, no entanto, foi modificada na segunda instância.

Para a turma julgadora a doutrina majoritária e o entendimento pacificado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) afirmam que a obrigação alimentar decorre da lei, que indica de forma taxativa os parentes obrigados: pais, filhos, ascendentes, descendentes e colaterais até o segundo grau – o que não abrangeria tios e sobrinhos.

O julgamento ocorreu no início de dezembro com a participação dos desembargadores Carlos Alberto Garbi, João Batista de Mello Paula Lima e João Carlos Saletti.

Comunicação Social TJSP – AM (texto) / internet (foto)



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

TJSP garante posse de funcionária pública com síndrome de Asperger



Justiça garante posse de candidata com Síndrome de Asperger

Autora foi reprovada na perícia.

A 12ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo garantiu o direito a nomeação e posse de uma pessoa com deficiência em cargo da Secretaria de Administração do Município de Osasco. A candidata, que possui síndrome de Asperger, foi aprovada em concurso para o cargo de fiscal tributário, dentre as vagas reservadas a pessoas com deficiência, mas reprovada na perícia médica. Segundo os médicos da Prefeitura, a aspirante à vaga não apresentava deficiência alguma. A candidata entrou com mandado de segurança contra a avaliação médica que a impediu de ser nomeada.

Em primeiro grau, o juiz José Tadeu Picolo Zanoni, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Osasco, garantiu a nomeação e a posse, diante da documentação nos autos que comprova a deficiência da candidata e, também, com base na legislação que considera como deficiente a pessoa com “transtorno do espectro autista”, no qual a síndrome de Asperger se inclui.

Em reexame necessário do mandado de segurança, foi confirmada a decisão judicial, pelos mesmos fundamentos. Em seu voto, o relator do caso, desembargador José Manoel Ribeiro de Paula, afirmou que “existe farta documentação nos autos que atesta a deficiência da impetrante, ou seja, relatórios médicos desde 2013 assinados por médicos que compravam a existência da doença”.

Participaram do julgamento os desembargadores Edson Ferreira da Silva e José Roberto de Souza Meirelles. A votação foi unânime.

Reexame Necessário nº 1009260-43.2017.8.26.0405

Comunicação Social TJSP – DM (texto)



domingo, 28 de maio de 2017

Crianças não vacinadas preocupam saúde pública no Brasil



Enquanto não se resolver a intrincada poção mágica que inclui liberdades individuais, saúde pública, prerrogativas e direitos das crianças, terapias alternativas, fanatismo religioso e poder do Estado, estamos correndo sérios riscos.

A matéria é do Estadão:

Grupos contrários à vacinação avançam no País e preocupam Ministério da Saúde

Movimento, disseminado principalmente nas redes, é apontado como causa de surto de sarampo na Europa

Fabiana Cambricoli e Isabela Palhares

Embora o Brasil tenha um dos mais reconhecidos programas públicos de vacinação do mundo, com os principais imunizantes disponíveis a todos gratuitamente, vêm ganhando força no País grupos que se recusam a vacinar os filhos ou a si próprios. Esses movimentos estão sendo apontados como um dos principais fatores responsáveis por um recente surto de sarampo na Europa, onde mais de 7 mil pessoas já foram contaminadas. No Brasil, os grupos são impulsionados por meio de páginas temáticas no Facebook que divulgam, sem base científica, supostos efeitos colaterais das vacinas.

O avanço desses movimentos já preocupa o Ministério da Saúde, que observa queda no índice de cobertura de alguns imunizantes oferecidos no Sistema Único de Saúde (SUS). No ano passado, por exemplo, a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, teve adesão de apenas 76,7% do público-alvo.

“Isso preocupa e causa um alerta para nós porque são doenças imunopreveníveis, que podem voltar a circular se a cobertura vacinal cair, principalmente em um contexto em que temos muitos deslocamentos entre diferentes países”, diz João Paulo Toledo, diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, que ressalta que todas as vacinas oferecidas no País são seguras.

A disseminação de informações contra as vacinas ocorre principalmente em grupos de pais nas redes sociais. O Estado encontrou no Facebook cinco deles, reunindo mais de 13,2 mil pessoas. Nesses espaços, os pais compartilham notícias publicadas em blogs, a maioria de outros países e em inglês, sobre as supostas reações às vacinas – por exemplo, relacionando-as ao autismo.

Os pais também trocam informações para não serem denunciados, como não informar aos pediatras sobre a decisão de não vacinar os filhos, e estratégias que eles acreditam que garantiram imunização das crianças de forma alternativa, com óleos, homeopatia e alimentos.

Exemplos. A doula Gerusa Werner Monzo, de 33 anos, participa de um desses grupos. Ela afirma que há anos começou a ler sobre as vacinas e, por isso, sempre foi contrária a imunizar os filhos, hoje com 6 e 9 anos. “Tomaram as que são dadas nos primeiros meses de vida porque fui obrigada, mas não foram todas. O caçula, por exemplo, não tomou reforços da tríplice viral e a da poliomielite”, disse. Gerusa diz ser contra vacinar seus filhos por achar a imunização desnecessária em crianças saudáveis e por medo de possíveis reações.

“Meus meninos nunca tomaram vacinas como a da gripe ou febre amarela, mas são mais saudáveis que muitas crianças porque têm boa alimentação, fazem tratamento com homeopatia. As vacinas atrapalham essa imunização natural que desenvolveram.”

Ela conta, no entanto, que os dois já tiveram catapora – doença que pode ser evitada com a vacina tetra viral.

A designer Fátima (nome fictício), de 39 anos, é mãe de um menino de 3 anos que só foi vacinado, pelo calendário oficial, até os 15 meses. Ela pediu para não ser identificada, por medo de ser denunciada e porque o pai do menino não sabe que o filho não tomou todas as vacinas.

“Quando ele tinha quatro meses, tomou as vacinas tetravalente e rotavírus e dias depois seu comportamento mudou, ficou agitado, não conseguia comer, teve alergia por todo o corpo. Na época, eu não entendia o que tinha acontecido, mas, depois de conhecer os grupos que falam sobre as verdadeiras reações das vacinas, tenho certeza de que foi uma consequência delas.”

Foi depois de entrar nos grupos que ela decidiu não dar as vacinas seguintes no menino, mesmo sem ter o apoio de familiares e do pediatra. “Não comento com ninguém sobre isso, nem com o meu marido, só a minha mãe sabe que eu parei de dar as vacinas. Não vou dizer nada para o médico nem na escola para evitar qualquer problema. Essa é uma decisão minha e sei que estou cuidando bem do meu filho de outra forma, com uma alimentação saudável e tratamento homeopático”, disse.

Risco. Especialistas ressaltam que a decisão de Fátima, Gerusa e de outros pais contrários à vacinação não traz consequências apenas individuais: a queda na cobertura vacinal pode causar problemas de saúde pública. “Imagine se 5% da população deixar de tomar a vacina a cada ano. Isso forma um nicho de pessoas suscetíveis a doenças que, caso contaminadas, podem infectar mais gente”, alerta Guido Carlos Levi, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).



sábado, 1 de outubro de 2016

O que é autismo, afinal?


Conheça. Acolha. Compreenda. Respeite. Divulgue. 

A matéria é do HuffPost Brasil:

O que pessoas com autismo e suas famílias querem que você saiba

Jessica Samacow

Pedimos às pessoas no espectro autista e às suas famílias para explicarem o que é e o que não é autismo.


No vídeo acima, essas pessoas nos dão uma rápida ideia do que é a vida com autismo, uma síndrome que afeta 1 em cada 68 crianças nos EUA — no Brasil, estima-se que 2 milhões de pessoas sejam autistas —, e também derrubam mitos envolvendo o transtorno. “O autismo não é contagioso”, diz uma mãe.

“O autismo é incrível!”, diz um jovem no espectro.

Conte o que o autismo representa para você nos comentários abaixo.

Este vídeo foi editado por Ethan Kirby e produzido por Will Tooke, Felicia Kelley e Choyce Miller para o HuffPost Rise.



sábado, 17 de setembro de 2016

Justiça paulista quer assegurar educação a crianças autistas


A informação é do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo:

EM BUSCA DO PLENO ATENDIMENTO DOS DIREITOS DA CRIANÇA AUTISTA

Decisão da 6ª Vara da Fazenda Pública da Capital adota procedimento para resolver processos de execução de forma rápida e especializada

Decisão proferida pela juíza Alexandra Fuchs de Araujo, da 6ª Vara da Fazenda Pública da Capital, estabeleceu diretrizes para que as execuções contra a Fazenda do Estado de São Paulo (FESP) que pleiteiem matrícula de crianças autistas em escolas especiais tramitem de forma mais eficiente, levem em conta as peculiaridades de cada caso e sigam os parâmetros da legislação atual, que prevê a intersetorialidade no desenvolvimento das políticas voltadas para o atendimento da pessoa com transtorno do espectro autista e o estímulo à inserção no mercado de trabalho.

A decisão é oriunda da ação civil pública nº 0027139-65.2000.8.26.0053, que trata do atendimento de saúde, educacional e assistencial aos autistas, em 2001 proferida pelo juiz Fernando Figueiredo Bartoletti, da 6ª Vara da Fazenda Pública da Capital. “As adaptações realizadas na execução também têm como objetivo agilizar o atendimento aos autistas. A ideia é fazer uso de novos recursos previstos no novo Código de Processo Civil, como a possiblidade de autocomposição, e os Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejuscs)”, afirma a magistrada.

De acordo com a juíza, muitos exequentes, mesmo com o objetivo de proteger o autista, protocolam pedidos que podem estar em desacordo com as melhores práticas e a legislação moderna, seja para obter uma internação por prazo indeterminado, em violação ao disposto na Lei nº 10.216/01, ou para buscar uma escola especial, não inclusiva, quando ainda não foram esgotadas todas as possibilidades de inclusão, em violação ao disposto na Lei Federal nº 12.764/13.

Confira as diretrizes estabelecidas na decisão:

1) Uma vez formulado o pedido de execução, a Administração será intimada para, extrajudicialmente, e em prazo não superior a 60 dias, realizar laudo do autista por uma equipe interdisciplinar, suspendendo-se a execução;

2) Após, no prazo de 10 dias, a Administração irá propor um perfil de atendimento ao autista, de acordo com o seu caso específico; se o laudo indicar a necessidade de prestação do serviço municipal, o ente público municipal será intimado, também, para se manifestar e compor a oferta de atendimento junto com o Estado, de acordo com os recursos disponíveis na rede; caso haja aceitação, a oferta será homologada, extinguindo-se a execução.

3) Em caso de rejeição da oferta de atendimento, o autista ou seu responsável se manifestará, no prazo de 10 dias. Após, a FESP será intimada para impugnação da obrigação de fazer, prosseguindo-se judicialmente com a execução.

Alexandra Fuchs explica em sua decisão que, “para se garantir a celeridade processual, preservando-se as possibilidades de autocomposição, com o atendimento do cidadão diretamente pelo Poder Público, o ideal é que, antes de se intimar a Fazenda do Estado para que ofereça uma vaga, o Estado tenha a oportunidade de conhecer o autista, avaliá-lo e verificar qual o melhor estabelecimento para acolhê-lo, próximo à sua residência”.

De acordo com a promotora de Justiça Sandra Lucia Garcia Massud, assessora do Centro de Apoio de Direitos Humanos e Sociais do Ministério Público do Estado de São Paulo, a decisão ajuda na triagem dos casos em que realmente é necessária a matrícula em uma escola especial. “A inclusão da criança com deficiência em escola regular é fundamental para o desenvolvimento não só da própria criança em questão, mas também de todas as outras com quem ela conviver. A escola é um espaço não somente de aprendizagem formal, mas também de convivência e trocas de experiências ricas e importantes para um crescimento saudável.”

O TJSP tem atuado juntamente com os demais poderes na fiscalização e orientação das políticas públicas voltadas para os jovens autistas. Já foram realizadas audiências públicas e reuniões – a mais recente reunião para debater o assunto aconteceu no início de setembro e contou com a presença da juíza Alexandra; da promotora Sandra; dos juízes assessores da Corregedoria Geral da Justiça Ana Rita de Figueiredo Nery e Gabriel Pires de Campos Sormani; do procurador do Estado coordenador judicial da Saúde Pública, Luiz Duarte de Oliveira; e de representantes das Secretarias de Estado da Saúde, Educação e Desenvolvimento Social. Foram debatidos os rumos, dificuldades e perspectivas do tema. “A rede estadual conta com equipes especializadas para a inclusão e muitos agentes trabalham muito bem a esse favor”, afirma Sandra Massud.

O objetivo final é garantir que o autista tenha todos seus direitos respeitados, inclusive o de integrar a sociedade como cidadão. “O coração da decisão é a determinação de atendimento adequado ao autista”, explica Alexandra Fuchs de Araujo.

N.R.: texto originalmente publicado no DJE em 14/9/16.

Comunicação Social TJSP – GA (texto)



domingo, 4 de setembro de 2016

Jogador de futebol americano dá atenção a garoto autista e comove as redes sociais


A matéria é da BBC Brasil:

Atleta causa comoção nos EUA ao não deixar menino autista almoçar sozinho

Uma cena comovente envolvendo um menino autista e um jogador de futebol dos Estados Unidos viralizou nas redes sociais.

Travis Rudolph, que joga como recebedor pela equipe da Universidade do Estado da Flórida, estava visitando uma escola na capital do Estado, Tallahassee, quando avistou Bo Paske comendo sozinho no refeitório na última terça-feira.

Rudolph decidiu sentar-se junto com ele. Uma amiga da mãe de Bo, Leah, registrou o momento e ela postou a foto nas redes sociais, onde foi compartilhada milhares de vezes.

"Naquele dia não tive de me preocupar se meu menino estava almoçando sozinho", disse ela.

"Ele (Bo) estava sentado em frente a alguém considerado um herói por muita gente. Muito obrigada, Travis Rudolph, você me deixou extremamente feliz, e nos tornou seus fãs pela vida inteira!", escreveu ela no Facebook.



Leah também se lembrou de seu passado difícil na escola e como ela se preocupa com Bo.

"Algumas vezes, sou grata pelo autismo dele. Isso pode soar como algo terrível de se dizer, mas de certa forma penso, espero eu, que o autismo o protege", afirmou ela.

"Bo não parece perceber quando as pessoas olham fixamente para ele quando ele bate as mãos. Ele não parece perceber quando não é mais convidado para festas de aniversário. E não parece se importar se almoça sozinho".

Segundo Leah, a foto e o depoimento tiveram um "impacto imenso".

O pequeno gesto de gentileza foi noticiado por jornais locais e nacionais dos Estados Unidos. Rudolph, um dos vários jogadores a terem visitado a escola naquele dia, disse que não esperava tamanha reação.

"Tivemos uma ótima conversa. Ele puxou assunto, dizendo que seu nome era Bo, falou o quanto ele gosta do meu time (Florida State)", recordou Rudolph.

"Eu só queria dizer oi a ele, porque o vi comendo sozinho. Tudo correu bem. Ele tinha um belo sorriso em seu rosto. É uma pessoa bem acolhedora. Nem sabia que alguém tiraria uma foto disso", acrescentou. "Fico feliz que isso possa ter ajudado outras pessoas, tornando-as mais conscientes sobre o autismo".

Bo também ficou entusiasmado com a atenção que recebeu. "Tem sido incrível. Todo mundo ficou orgulhoso de mim", disse ele.

Travis Rudolph, o cara!




segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O presente que o filho autista de Marcos Mion pediu no Natal

A surpreendente lição de vida no belo depoimento que Marcos Mion publicou em sua página no facebook:

LIÇÕES QUE APRENDI 
COM MEU FILHO AUTISTA

Este texto é uma reflexão natalina. Um aprendizado.

Quanto mais leio para meus filhos sobre o “menino” Jesus e toda sua sabedoria, mais a identifico dentro da minha própria casa.

Não apenas os discípulos, mas todos que o conheciam, chamavam o menino Jesus de mestre.

Mestre não é um titulo que alguém pode atribuir a si mesmo. O mestre nasce da capacidade do interlocutor de reconhecer a sabedoria quando entra em contato com ela.

O mestre, para existir, por mais sábio que seja, depende da humildade daqueles ao seu redor de se reconhecerem numa posição de inferioridade, de aprendiz.

(E é assim que me sinto. Humilde e extremamente feliz de dividir meu dia a dia com uma criança que ilumina e engrandece todos ao seu redor)

Todos ja me viram falar publicamente que me sinto abençoado e extremamente feliz por ter sido escolhido por Deus para ser pai de uma criança autista, ou como eu prefiro dizer, o guardião de um anjo. O meu Romeo.

Sempre que faço algum post, aparecem centenas de pais comentando e dividindo o mesmo sentimento de gratidão. Como se fosse um clube que, quem não faz parte, secretamente agradece e não consegue nem começar a entender pq aquelas pessoas são tão gratas por fazerem parte dele.

Afinal, como que, na pratica, meu filho me faz tanto bem? Como uma criança que, aparentemente, tem dificuldades consegue me ensinar?

Como falei acima, parte da minha capacidade de identificar a sabedoria e transforma-la num aprendizado.

Vou contar o que aconteceu este Natal e qual foi a lição que ele nos deu.

Como de costume, pelo fim de Novembro, minha esposa, Suzana, e eu juntamos os tres para fazer a carta do Papai Noel.

- “Eu quero infinitos Legos!”, disse o Stefano.

- “Calma que ja tenho minha lista separada em imagens no ipad”, disse Doninha, lembrando da quantidade razoavelmente grande de presentes que ja tinha separado entre borrachas da Hello Kitty e um tenis da Nike, alem de varias coisas de menina de marcas que ela gosta.

Resumindo? Duas listas extensas e extremamente comuns para crianças que convivem num mundo tecnológico, repleto de marcas, com demandas que eu considero ridículas de consumismo. Propagandas em todo lugar, aquela maldita sensacão, que eu odeio, causada na escola que é necessário ter pra existir. Sensação que lutamos muito contra em casa enchendo as crianças de auto confiança, dando “centro” pra elas saberem que o que interessa na vida não são as coisas que o dinheiro compra, mas que, por motivos óbvios, sempre cerca qualquer criança hoje em dia. Ainda mais na época do Natal!!

Até que chegamos no Romeo e indagamos o que ele gostaria de ganhar do Papai Noel.

“Uma escova de dentes azul”.

E agora chegamos no ponto crucial desse texto.

Se você da risada com essa resposta e pensa que o menino autista realmente esta fechado no seu mundo e não conecta com a realidade, que é filho de um artista de tv, que poderia pedir qualquer coisa no mundo que ganharia e, burro, pediu só uma escova de dentes azul, esse texto não vai fazer sentido algum pra você. Pode parar por aqui. Você não consegue identificar um ensinamento quando se depara com um.

Suzana e eu, instantaneamente ficamos emocionados com aquela resposta. Ao meio de tanto consumismo, numa época que virou símbolo de consumismo, nosso mestre, sem saber, sem ter a consciência externa do que estava fazendo, afinal sua sabedoria é nata, é orgânica e instintiva, colocou nossos pés no chão, nos remontando com os verdadeiros valores do Natal.

O que realmente vale nessa vida? Essas coisas materiais vão com o tempo, quebram, ficam velhas e obsoletas tornado-se um lembrete vivo e constante de dinheiro que jogamos pela janela adquirindo valores que não interessam.

Não serei hipócrita e dizer que não é saudável comprar brinquedos e presentes. Não é isso. Sou totalmente a favor de usar o ato da compra material como recompensa e até como educação, inclusive de valores morais, mas fato é que existe um grande exagero nas proporções que o consumismo tomou hoje em dia, como mencionei explicando os pedidos dos meus outros filhos.

Ainda perguntamos pra ele se não queria mais nada, um bichinho de pelucia que ele adora, um ipad novo que, para quem não sabe, é uma das ferramentas mais poderosas de comunicação dos autistas com o mundo exterior, mas ele foi categórico: “uma escova de dentes azul. É isso que eu quero ganhar do Papai Noel”.

Até que finalmente chegou o dia do Natal. Fizemos a comemoração da véspera, deixamos os cookies feitos em família na varanda para o bom velhinho e todos foram dormir muito ansiosos com a visita do Papai Noel na madrugada.

Não preciso dizer que 5:00 am ja ouvi Tefo rasgando papel de presente! rs.

Levantamos para acompanhar e viver com eles todo esse momento magico que tem data de validade, pois a crença real no Papai Noel não é eterna e, hoje em dia, acaba cada vez mais cedo. E enquanto Tefo e Doninha pareciam dois demônios da tasmânia envoltos em presentes e embrulhos, abrindo mais um e mais um e mais um, Romeo assistia de longe com um certo grau de tensão no ar.

“O Papai Noel trouxe minha escova de dentes azul?” ele perguntava sentindo o que eu identifiquei como medo de frustração! Uma real incerteza se ganharia aquele único e tão valioso presente. Lembrem que isso foi na manhã do dia 25, quase 2 meses depois do dia que escreveram as cartas e essa ainda era sua única vontade, seu único desejo de Natal.

Conduzi Romeo até arvore e o deixei identificar o presente com seu nome!

Fico emocionado ao lembrar, mas ele abriu o embrulho com uma expectativa tão grande, uma ingenuidade e um doutorado em desapego que, quando o ultimo pedaço de papel revelou sua escova de dentes azul, ele foi tomado de emocão!! Abaixou a cabeça num alivio e se atrapalhou de tão forte que essa emoção veio.

Sim, ele chorou.

Chorou de alegria, inundado pela mais pura e bela emoção! Eu e Suzana choramos juntos.

Tão pouco…um presente tão simples…e ai me deu o estalo. Mestre!

Entendi que era algo muito maior do que uma simples escova de dentes. Ali, naquela emoção, naquela pureza, naquela humildade e, acima de tudo, naquele desapego, tive a maior lição de Natal da minha vida.

Obrigado Mestre, por mais uma. Te amo.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Pesquisa polêmica associa autismo a circuncisão na infância


Matéria publicada no IHU:

Estudo controverso liga circuncisão na infância a autismo


David Freeman

Um novo estudo polêmico realizado na Dinamarca mostra uma ligação entre circuncisão e autismo, embora os especialistas tenham grandes divergências sobre como interpretá-lo.

No estudo, publicado online em 8 de janeiro no Journal of the Royal Society of Medicine, um par de pesquisadores observou casos de transtorno do espectro do autismo (TEA) em mais de 340 000 meninos nascidos na Dinamarca entre 1994 e 2003. Os pesquisadores descobriram que o risco de desenvolvimento de autismo antes dos 10 anos era quase 50% maior nos meninos circuncidados.

O que explica a ligação?


“Tudo o que podemos dizer a esta altura é que existe uma associação estatística entre circuncisão e autismo”, diz Morten Frisch, co-autor do estudo, consultor do Statens Serum Institute (instituto estatal do soro) e professor-adjunto de epidemiologia da saúde sexual da Universidade Aalborg, em Copenhague.

“Não podemos dizer se é uma associação causal ou alguma ligação não-causal falsa para a qual ainda não temos uma explicação”, afirmou ele por email ao The Huffington Post.

Mas Frisch -- conhecido na Dinamarca por ser crítico feroz da circuncisão – levantou a possibilidade de uma ligação causal, com distúrbios psicológicos que teriam a dor da circuncisão como potencial culpada. Como escreveram ele e seu colaborador na introdução do estudo:

“... em estudos com animais e humanos, experiências dolorosas em neonatos foram associadas a alterações de longo prazo na percepção da dor, uma caracterísica muitas vezes encontrada entre crianças com TEA... O estudo presente foi realizado com o objetivo de investigar a hipótese de que a TEA possa ser uma rara consequência adversa em meninos submetidos à circuncisão ritual durante um período vulnerável da vida.”

Mas outros especialistas ridicularizaram a hipótese.

“É preciso ter muito cuidado antes de tirar conclusões com base em estudos como esse”, diz ao The Huffington Post Douglas S. Diekema, pediatra da Universidade de Washington, em Seattle, e um dos autores de uma declaração de política da Academia Americana de Pediatria amplamente favorável à circuncisão. “Eles levantam questões para mais estudos, mas não oferecem respostas... Correlação não sugere nem prova causação.”

Se a circuncisão realmente fosse causa de autismo, diz Diekema, era de se esperar uma queda nas taxas de autismo correspondente à queda do número de circuncisões. “Na verdade”, diz ele, por email, “estamos observando justamente o contrário”.

Quase 80% dos meninos nascidos nos Estados Unidos nos anos 1970 e 1980 foram circuncidados, relatou a Live Science em 2012. Essa porcentagem caiu para 62,5% em 1999 e para 54,7% em 2010.

Já os dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças mostram que o autismo tem se tornado cada vez mais prevalecente. Das crianças nascidas nos Estados Unidos em 1992, cerca de 1 em 150 desenvolveram autismo. Entre as crianças nascidas em 2002, a média foi de cerca de 1 em 68.

Diekema diz que a ligação entre circuncisão e autismo provavelmente é falsa, mas mesmo assim recomenda que pais que desejem circuncidar seus filhos insistam em controle de dor adequado durante e depois do procedimento.

Frisch também pediu mais pesquisas, mas oferece um conselho diferente.

“Para os pais, e particularmente para aqueles cujas decisões não são ditadas pela religião, meu conselho é considerar a questão da circuncisão da perspectiva da criança”, disse ele por email. “Afinal de contas, é a genitália dela – quem tem o direito de alterá-la permanentemente?”

A política da academia sobre circuncisão foi publicada em 2012. Ela afirma que os benefícios da circuncisão são maiores que os riscos, incluindo menores riscos de contração de doenças sexualmente transmissíveis.

As diretrizes de circuncisão publicadas recentemente pelo CDC espelham as da academia.



sábado, 12 de julho de 2014

Pesquisa americana sugere associação entre autismo e agrotóxico

Os dados não são conclusivos, mas o preocupante estudo publicado no IHU em 25/06/14 merece ser aprofundado:

Estudo americano aponta relação entre autismo e pesticidas

Uma mulher grávida que vive perto de uma fazenda onde são utilizados pesticidas tem 66% mais chances de ter uma criança autista, revelam pesquisadores da Universidade da Califórnia Davis em um estudo [Neurodevelopmental Disorders and Prenatal Residential Proximity to Agricultural Pesticides: The CHARGE Study] publicado nesta segunda-feira.

A reportagem foi publicada no portal da AFP e reproduzida por EcoDebate, 23-06-2014.

Esta pesquisa publicada na revista Environmental Health Perspectives analisa a associação entre viver perto de um lugar onde são usados pesticidas e os nascimentos de crianças autistas, apesar de não deduzir uma relação de causa e efeito.

O autismo é um transtorno de desenvolvimento que atinge uma em cada 68 crianças nos Estados Unidos. Um número crescente em relação a 2000, quando a desordem afetava uma em cada 150 crianças americanas.

Os pesquisadores compararam dados sobre a utilização de pesticidas na Califórnia na residência de 1.000 pessoas que participaram de um estudo de famílias com crianças autistas.

“Observamos onde viviam os participantes do estudo durante a gravidez e no momento do nascimento”, explicou um dos autores do estudo, Irva Hertz-Picciotto, vice-presidente do departamento de Ciências e Saúde Pública da Universidade Davis da Califórnia.

“Constatamos que foram utilizados vários tipos de pesticidas, em sua maioria perto das casas onde as crianças desenvolveram autismo ou distúrbios cognitivos.”

Cerca de um terço dos participantes do estudo vivia a entre 1,25 e 1,75 quilômetros de onde foram usados pesticidas.

Os pesquisadores também descobriram que os riscos foram maiores quando o contato com o pesticida se deu entre o segundo e o terceiro mês de gravidez.

O desenvolvimento do cérebro do feto poderia ser particularmente sensível a pesticidas, de acordo com os autores do estudo.

“Este estudo confirma os resultados de pesquisas anteriores que constataram ligações na Califórnia entre o fato de uma criança ter autismo e estar exposto a produtos químicos agrícolas durante a gravidez”, indicou Janie Shelton, co-autora do estudo.

“Apesar de ainda termos que ver se alguns subgrupos são mais sensíveis do que outros a exposição a pesticidas, a mensagem é clara: as mulheres grávidas devem prestar atenção e evitar qualquer contato com produtos químicos agrícolas.”



quarta-feira, 19 de março de 2014

Sarampo avança e levanta questões éticas e religiosas nos EUA e Canadá


O sarampo, essa velha e infecciosa doença, quem já não teve?

Bem, a geração mais jovem no Brasil nem sabe o que é isso porque foi devidamente vacinada, assim como as crianças de hoje em dia, mas aqueles que, como eu, tinham menos de 10 anos de idade no início dos anos 1970, em sua maioria, tiveram sarampo (tristemente com algumas vítimas fatais) porque a vacinação ainda era incipiente ou inexistente em muitas regiões do país.

Lembro-me, por exemplo, que meu irmão - 3 anos mais velho que eu - esteve à beira da morte quando tinha 10 anos de idade, e jamais me saíram da mente as imagens dele indo e voltando do hospital prostrado na parte traseira do jipe do meu pai, ou do quarto escuro em que ele ficava o dia inteiro convalescendo.

Essas imagens estão indelevelmente gravadas na minha memória, muito provavelmente, porque foi o primeiro contato que eu tive com a possibilidade da morte de uma pessoa tão próxima. Os médicos praticamente o haviam "desenganado" (como se dizia naquela época para os casos terminais), mas Deus foi gracioso e - com o devido louvor à medicina da época - o trouxe de volta à família e à vida.

O sarampo em mim foi, digamos, mais light, e serviu apenas para entrar na minha vasta coleção de doenças contagiosas infantis: caxumba, coqueluche, catapora e rubéola, entre outras. Nada de que me orgulhe, mas sobrevivi, assim como meu irmão, graças ao bom Deus.

Escapamos por pouco da poliomielite, por exemplo, já que um amigo de infância do meu irmão não teve a mesma sorte de resistir ao vírus da paralisia infantil a tempo de ser vacinado já no fim dos anos 1960, e até hoje sofre as sequelas da pólio.

Minha irmã 9 anos mais nova não soube o que é isso, pois teve a felicidade de nascer numa era (1972) em que já era obrigatória e amplamente disponível a vacinação em massa contra os males que acometiam as crianças.

Tomo a liberdade de registrar aqui essas reminiscências de saúde pública da minha infância porque chegam notícias assustadoras dos Estados Unidos e do Canadá, que dão conta do avanço de uma epidemia de sarampo lá pelos lados do primeiro mundo, cuja principal causa é exatamente a falta de vacinação das crianças norteamericanas.

No Brasil, as últimas duas mortes por sarampo aconteceram em 1999, segundo informa o Hospital Albert Einstein. A Folha de S. Paulo registrava em fevereiro de 2014 que há um rebrote da doença no país e só o Estado do Ceará tinha registrado 81 casos até então.

A mesma matéria da Folha informa que o Brasil já havia tentado, em 2010, receber da Organização Pan-Americana de Saúde o certificado de país livre de sarampo, o que foi rejeitado porque a OPAS extinguiu essa classificação e passou a considerar o continente americano como um todo, o que a levará a emitir um certificado geral se e quando o mal for totalmente erradicado do Alaska à Terra do Fogo.

Tudo indica, portanto, que o grande foco de sarampo no continente é a sua porção Norte, onde estão exatamente os dois países mais desenvolvidos, Canadá e Estados Unidos, e é muito provável que o vírus que circula no Brasil tenha sido "importado" de lá pelos turistas que visitam a região.

O fato alarmante é que muitos pais americanos e canadenses vêm se recusando, desde longa data, a vacinar seus filhos contra o sarampo.

Isto tem feito com que um número crescente de médicos dos Estados Unidos também se recuse a tratar crianças que não foram vacinadas, segundo informa o The Daily Beast.

Obviamente, essa recusa médica em cuidar de crianças levanta questões éticas de altíssima prioridade, pois o interesse primordial que está em jogo é o dos pequeninos que não podem emitir a sua própria opinião, seja por incapacidade natural de se entender a questão em tão tenra idade, seja pela ignorância daqueles que deveriam tomar as decisões corretas em nome deles.

Entre as razões variadas que os pais alegam para não vacinar os seus filhos estão questões de preferência por medicina alternativa, o medo de que a vacina contra sarampo e rubéola cause autismo, e também objeções de cunho religioso.

Neste último caso, chama a atenção um pastor de Chilliwack (Colúmbia Britânica, Canadá), Rev. Adriaan Geuze da Congregação Reformada da América do Norte, que prega que a vacinação contra doenças infantis é uma interferência humana no cuidado de Deus para com suas criaturas, segundo informa The Vancouver Sun.

O Rev. Geuze afirma que "nós deixamos nas mãos de Deus. Se é da vontade dEle que nós peguemos uma doença contagiosa, como neste caso do sarampo, há outras maneiras, naturalmente, de se evitar isso. Se ficarmos doentes, Ele também pode nos curar".

Este descaso para com a saúde infantil já causou o registro de 100 crianças infectadas com sarampo em uma escola confessional de Chilliwack, o que alarmou as autoridades sanitárias locais.

Indagado sobre sua influência na recusa da população local em vacinar seus filhos, o Rev. Geuze se justifica dizendo: "Naturalmente, eu expresso abertamente o meu ponto de vista de acordo com a Bíblia, mas não é que eu os forço. É através da consciência deles que eles têm que agir. Eles esperam de mim que eu emita a minha opinião de maneira clara".

Portanto, nuvens negras (e medievais) assombram as terras mais ao Norte do continente americano. Esperamos que as crianças de lá, se e quando infectadas pelo sarampo, tenham a mesma sorte do meu irmão. E que dramas - hoje desnecessários e perfeitamente evitáveis -  como o que vivemos não sejam experimentados por milhões de famílias ao redor do mundo.



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Como seria o mundo se você fosse autista

O autismo é esse estranho mistério da natureza humana que afeta tanto a vida de pessoas e famílias ao redor do mundo, indiscriminadamente.

Talvez o maior problema para se entender o autismo seja exatamente a dificuldade de comunicação daqueles que enfrentam o problema.

Parece, entretanto, que Carly Fleischmann, uma garota de 17 anos que é autista não-verbal, com a ajuda do pai, encontrou uma maneira de mostrar ao mundo o que ela vê e sente, e o resultado é emocionante, conforme você pode ver no vídeo abaixo.

Carly tem um site, o Carly's Café, onde você pode se informar um pouco mais e ter uma "experiência autista" que vai te ajudar a compreendê-los um pouco melhor. Apenas tenha paciência para esperar o download que demora um pouco, e use fones de ouvido de preferência para realçar a sensação sonora.



Dica do Update or Die


domingo, 15 de maio de 2011

Cientistas agora querem definir (e banir) o mal



A notícia foi dada pela agência Reuters no último dia 5 de maio, e passou despercebida salvo em alguns círculos muito restritos, mas não deixa de ser interessante o fato de que Simon Baron-Cohen, cientista britânico britânico de alta reputação acadêmica sobretudo no campo das pesquisas sobre teoria da mente, psicopatologias e autismo, diz que não está mais satisfeito com o termo "mal", justo ele que tem como objeto de estudo desde agressões de rua até casos de serial killers e genocídios. 

O cientista de origem judia diz que "nós herdamos esta palavra e a usamos para expressar nossa repugnância quando pessoas fazem coisas horrendas, geralmente atos de crueldade, mas eu não acho que isto seja algo mais do que outra palavra para expressar algo ruim. 

E para um cientista como eu isto não me parece que explique muita coisa. 

Então, eu tenho procurado uma alternativa - nós precisamos de uma nova teoria sobre a crueldade humana". 

Simon Baron-Cohen (não confunda com o humorista Sacha Baron-Cohen de "Borat" e "Brüno") é diretor do Centro de Pesquisas sobre Autismo da Universidade de Cambridge, e acaba de lançar um livro no qual ele conclama a comunidade científica a uma, digamos, "retitulação", "renomeação" ou um "reposicionamento" (rebranding) do mal para se chegar a uma explicação mais científica da razão pela qual as pessoas matam e torturam, ou têm enorme dificuldade em comprender os sentimentos dos outros, ou seja, em ter empatia

A tese de Baron-Cohen é que o mal deve ser entendido como uma falta de empatia - uma condição que, a seu ver, pode ser medida e monitorada, além de ser suscetível a educação e tratamento. 

O cientista britânico define, então, empatia em duas partes, primeiro como o impulso (no sentido de "intenção dirigida") de identificar os pensamentos e as emoções de outra pessoa, e, em segundo lugar, como o impulso a responder adequadamente a esses mesmos pensamentos e emoções, pelo que considera a empatia como um dos recursos mais valiosos que estão à nossa disposição no mundo, e que são lamentavelmente pouco utilizados.

Acrescenta ainda: "Nós todos temos graus de empatia... mas talvez não os estejamos usando no seu completo potencial", potencial este que ele aplica não só ao indivíduo e aos pequenos grupos sociais e familiares, mas também à comunidade das nações, citando como exemplo o encontro de Nelson Mandela com o então presidente sul-africano F. W. de Klerk, no começo dos anos 90, que pôs fim ao apartheid na África do Sul: "Empatia tem a ver com duas pessoas - duas pessoas que se encontram e passam a conhecer uma à outra, ajustando-se ao que a outra pessoa está pensando e sentindo... 

O progresso que veio desse relacionamento específico - bem, talvez tenha sido o último recurso depois que todos os outros métodos tinham falhado -, teve um custo muitíssimo menor em termos de vidas humanas". 

A inspiração para o interesse sistemático de Baron-Cohen em desconstruir o que se pensa hoje sobre a crueldade humana vem de seu passado como filho e neto de judeus que sofreram as consequências da barbárie nazista. 

Seu livro será lançado no próximo mês de julho, e terá o título de "Zero Degrees of Empathy" ("Zero Grau de Empatia") na Grã-Bretanha e "The Science of Evil" ("A Ciência do Mal") nos Estados Unidos, e o pouco que se pode adiantar é que Baron-Cohen tenta dissecar e definir os componentes da empatia, incluindo hormônios, genes, ambiente, alimentação e experiências da infância. 

Com base em décadas de pesquisas científicas, ele diz que existem pelo menos 10 regiões do cérebro que podem ser chamadas, por assim dizer, de "circuito da empatia". Quando alguém fere outra pessoa, de maneira casual ou sistemática, partes daquele circuito não estariam funcionando bem. 

Portanto, a grosso modo, não seria o caso de chamar este acontecimento de "mal", mas de uma pessoa, digamos, "descapacitada para o bem" de acordo com os graus da escala de 0 a 6 que Baron-Cohen propõe para se medir a empatia. 

Não deixa de ser um relato interessante de uma pessoa que tem credenciais científicas para dizer o que diz, mas enquanto o livro não é lançado, talvez seja o caso de investigar se essas evidências todas sobre bem e mal não estavam pululando aqui e ali há vários milênios, desde a história (quer você a considere mito ou não) do primeiro assassinato registrado na Bíblia, como já tivemos oportunidade de escrever aqui sobre "Caim e Abel, um clamor por justiça". 

A resposta de Caim à "pergunta-teste" de Deus sobre onde estava seu irmão (já morto) em Gênesis 4:9 é o exemplo clássico de falta de empatia: "Não sei; por acaso sou eu o guarda do meu irmão?". 

Com o devido respeito ao brilhante cientista britânico, tentar redefinir o mal como "ausência de empatia" também não é nada original. 

Neste sentido eu prefiro a definição proposta por C. S. Lewis, assumida e reconhecidamente insuficiente, da maldade como sendo a "bondade corrompida", no texto Bondade x Maldade que também já foi postado aqui. 

Isto se a gente quiser ficar só nas questões filosóficas, obviamente, porque do ponto de vista teológico tudo se resume a duas palavrinhas só: "pecado original".

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