Mostrando postagens com marcador Ucrânia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ucrânia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Implicações diplomáticas do encontro do papa com o patriarca ortodoxo russo


A matéria é do IHU:

Santa teimosia. A diplomacia do encontro entre o Papa e Kyrill


"Que este encontro ocorra em Cuba – ilha um tempo símbolo da guerra fria que estava para transformar-se em conflito nuclear, se não tivesse sido pela audaz e profética intervenção do Papa Francisco, caiu outro muro simbólico, é um daqueles sinais dos tempos que é preciso captar: como teria sido possível prosseguir na denegação de um abraço entre irmãos na mesma fé, quando até aguerridos inimigos históricos decidem voltar a se falar? Ali, no aeroporto daquela ilha, se manifestará a eficácia da convicção do Papa Francisco, que possamos definir santamente teimosa: entre irmãos cristãos não se pode não encontrar-se", observa Enzo Bianchi, prior do Mosteiro de Bose, teólogo leigo, em artigo publicado por Repubblica, 07-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger. 


Eis o artigo.


Não o acaso, não as coincidências, mas o paciente trabalho de tantas pessoas, as preces de muitos fiéis, a resoluta vontade dos dois primazes e as circunstâncias históricas fizeram, sim, que este abraço ocorresse não na Europa, ante as multidões ortodoxas ou católicas movidas pelo extraordinário evento, mas na ilha do Caribe, num aeroporto, lugar laico por excelência, ágora da era contemporânea, espelho evocativo de viagens, de chegadas e partidas, onde as pessoas se cruzam, mas não se conhecem, mas também lugar simbólico de decolagens para novos horizontes e perspectivas.

Aquela disponibilidade patenteada pela presença de observadores do patriarcado de Moscou no Concílio Vaticano II, aquele auspício levado a Roma pelo metropolita Nikodim falecido entre os braços de João Paulo I, aquele elo cultivado de uma parte e da outra pela ex-cortina de ferro de modo particularmente intenso após a queda do regime soviético, aquele desejo alimentado pelos esforços de João Paulo II e pela sabedoria de Bento XVI é hoje uma realidade, ao mesmo tempo fruto de anos laboriosos e germe de messes ainda mais abundantes.

João Paulo II havia sonhado com a viagem a Moscou e foram feitas tentativas significativas, mas sempre se confrontara com a recusa da igreja ortodoxa russa que repetia: “os tempos não estão maduros”. De fato, a memória dos conflitos patriótico-religiosos entre a Polônia católica e a Rússia ortodoxa e a defesa dos uniatas greco-católicos na Ucrânia da parte de um Papa polaco não dissipava a desconfiança. Fora projetado um encontro no mosteiro beneditino de Pannonhalma na Hungria, depois na Áustria, alguns haviam ventilado o encontro em torno ao Sudário em Turim... mas, de fato nenhuma hipótese resultara praticável.

O que, então, acelerou este encontro, preparado com discrição há meses, mas anunciado no último momento? Quem segue desde o início o intensificar-se das relações entre Roma e Moscou, quem conhece o que anima simples trocas de cortesias ou mensagens aparentemente rituais de vizinhança e fraternidade, pode pesar o alcance deste encontro além de todo cálculo geo-religioso ou de realpolitik.

É um encontro que é fruto de sapiente tessitura diplomática, mas antes e mais ainda de uma consciência compartilhada: os cristãos devem prestar contas de suas divisões e dos esforços para superá-las não por uma instância internacional, mas pela precisa vontade de seu único Senhor. As recaídas concretas também fora do espaço eclesial existirão, certamente, e serão extremamente significativas, mas mais decisivas ainda serão as consequências no plano do diálogo ecumênico e da busca da unidade dos cristãos.

Não se falará de problemas teológicos – por isso faz anos que a comissão mista católico-ortodoxa, e nenhuma igreja ortodoxa particular é habilitada a diálogos teológicos bilaterais – mas, sobretudo dos problemas onerados de sofrimento dos católicos e dos ortodoxos na Ucrânia e dos cristãos perseguidos no Oriente Médio, os quais pedem solidariedade e ajuda.

É significativo, em todo caso, que a Igreja greco-católica na Ucrânia tenha adotado somente agora, após vinte e dois anos, o que tinha sido firmado entre católicos e ortodoxos em Balamand, em 1993: “a recusa do unitarismo como método de busca da unidade de pesquisa da unidade porque oposto à tradição comum das nossas igrejas”.

Também o metropolita Hilarion, ao apresentar o evento, recordou que motivos de tensão permanecem, sobretudo na intricada questão ucraniana, bem como impulsos à solidariedade se fazem urgentes nos Países onde os cristãos, independentemente de sua confissão, são vítimas de arbitrariedades, violências e perseguições.

Mas, na ótica cristã, o principal fator de aproximação não são as adversidades que surgem dentro ou fora do espaço eclesial, nem as oportunidades estratégicas de hipotéticas santas alianças, e sim a vontade de restabelecer aquela comunhão fraterna que é grande sinal que caracteriza os discípulos de Cristo.

Uma concórdia não “contra”, não em oposição a inimigos externos, mas fruto de uma comum conversão ao Senhor da paz e da unidade. Os cristãos não procuram a unidade porque assim lhes convém a ser muito mais numerosos, mais fortes de modo a contar mais plenamente entre os poderosos deste mundo: a procuram porque é a precisa vontade do próprio Jesus, e, segundo os Evangelhos, é o último preceito por Ele confiado aos seus discípulos.

É fácil imaginar que este encontro terá um peso considerável também sobre os trabalhos do próximo sínodo pan-ortodoxo: não porque expressão de alguma ingerência do bispo de Roma nas questões internas ao cristianismo do Oriente, mas porque capaz de favorecer um clima de diálogo e de recíproca compreensão também no interior da própria ortodoxia.

Não por nada, o primeiro a alegrar-se por este anúncio foi precisamente o patriarca ecumênico Bartholomeos. A nítida cordialidade de relações subitamente instaurada entre Francisco e Bartholomeos – o primus inter pares da ortodoxia – poderá agora caracterizar também as relações com o primaz da Igreja ortodoxa com o maior número de fiéis. Uma vez que dois guardiões se cruzam e dois corações se falam, de fato, é difícil que o gelo e a distância voltem a fazer sentir seu desconforto.

Que, enfim, este encontro ocorra em Cuba – ilha um tempo símbolo da guerra fria que estava para transformar-se em conflito nuclear, se não tivesse sido pela audaz e profética intervenção do Papa Francisco, caiu outro muro simbólico, é um daqueles sinais dos tempos que é preciso captar: como teria sido possível prosseguir na denegação de um abraço entre irmãos na mesma fé, quando até aguerridos inimigos históricos decidem voltar a se falar? Ali, no aeroporto daquela ilha, se manifestará a eficácia da convicção do Papa Francisco, que possamos definir santamente teimosa: entre irmãos cristãos não se pode não encontrar-se.

Lembrando-se das palavras de Jesus “Se alguém te pede andar uma milha, anda com ele duas” (MT 5, 41) – Francisco não solicitou que o patriarca se movesse para ele indo a Roma – como já fizeram todos os outros patriarcas – não solicitou ir à Rússia, suscitando talvez a sensação de triunfo sobre o antigo inimigo soviético desaparecido, mas disse: onde o patriarca quiser, quando quiser, como quiser. Uma autêntica obediência ao Evangelho e nada mais.



quarta-feira, 10 de junho de 2015

Pútin se encontra hoje com o papa em Roma


A notícia é da Gazeta Russa:

Em viagem à Itália, Pútin se reunirá com o papa Francisco

Paulo Paladino

O presidente russo Vladímir Pútin viajou nesta terça-feira (9) para a Itália, onde vai se encontrar com os líderes do país e visitar a Expo 2015. Nesta quarta-feira (10) Pútin se reunirá também com o papa Francisco no Vaticano.

A crise ucraniana e a situação dos cristãos no Oriente Médio são algumas das questões que serão debatidas na reunião entre Pútin e o papa Francisco, segundo o conselheiro do Kremlin para política exterior, Iúri Uchakov.

“As relações bilaterais, a crise ucraniana, a situação dos cristãos no Oriente Médio e a necessidade de proteger os interesses dos fiéis serão discutidas [no encontro desta quarta-feira]”, disse Uchakov, em entrevista coletiva.

O conselheiro não quis comentar sobre a possibilidade de o presidente russo e o líder cristão agendarem uma visita papal à Rússia.

“Eles não discutirão qualquer visita do papa à Rússia, porque essa é uma questão que diz respeito não só ao Estado, mas também à hierarquia da Igreja Ortodoxa”, disse Uchakov, que não descartou uma possível reunião em Roma entre o presidente russo e ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.

Pútin já se reuniu com o líder da Igreja Católica em novembro de 2013, quando discutiram uma solução negociada para o conflito na Síria.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ortodoxos russos sob fogo cerrado

O intrincado dilema ortodoxo russo é analisado pelo IHU:

Todas as batalhas de Kirill

É uma época complicada para o patriarca ortodoxo de Moscou: um momento que não pode não ter repercussões no longo prazo nas relações entre as Igrejas do mundo ortodoxo e, naturalmente, com Roma. Recentemente uma notícia da AsiaNews, até hoje não confirmada oficialmente, assegurava que o Papa Francisco teria enviado uma mensagem pessoal ao patriarca Kirill. Uma mensagem que não foi enviada através de canais diplomáticos, na qual o Papa teria dito a Kirill: “Estou preparado para uma reunião neste momento”.

A reportagem é de Marco Tosatti e publicada no sítio Vatican Insider, 05-06-2014. A tradução é de André Langer.

E isto é um problema. Por um lado, por questões de equilíbrio interno no Santo Sínodo, onde a ala anticatólica foi, desde sempre, muito forte. Já o Papa Wojtyla buscou estabelecer um contato pessoal (com a doação do ícone de Kazan) sem sucesso. João Paulo II era eslavo, polonês, e talvez Moscou temesse seu carisma. Mais tarde falou-se de um possível encontro com Bento XVI; mas a ideia encontrou vários obstáculos, sempre pelo lado oriental. Agora o problema volta a aparecer com Francisco: tudo parece simpático e positivo, neste sucessor de Pedro, que garante estar disposto (assim como seus antecessores) a discutir seu papel na Igreja. Mas como se faz isso?

O problema se aprofundou a partir da presença cada vez mais constante e apreciada do grande adversário de Moscou ao lado do Papa. O patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, primus inter pares entre os ortodoxos, foi um dos protagonistas da viagem do Papa à Terra Santa e estará ao seu lado no próximo domingo, dia 08, na oração pela paz na Terra Santa. São eventos que relançam seu papel, e em consequência, fragilizam ainda mais as aspirações do Patriarcado de Moscou a uma posição de liderança na Igreja ortodoxa, à custa de Constantinopla. Não se exclui o fato de que a disponibilidade do Papa Bergoglio para encontrar Kirill se reafirme justamente para temperar os aparentes favoritismos de Roma por Bartolomeu; mas é evidente que na silenciosa batalha entre a Segunda e a Terceira Roma, a Segunda, Constantinopla, está ganhando pontos.

E depois está a crise na Ucrânia. O Patriarcado de Moscou, sólida base religiosa da política interna de Putin, assumiu uma posição basicamente prudente na crise ucraniana. A Crimeia converteu-se – por enquanto – em território russo. E Moscou tem não poucos problemas com os tártaros, muçulmanos, a cujo líder foi negado o visto de entrar novamente na península, e que se negam a se dobrar ao estado de fato. Uma Crimeia russa teria tido, como consequência natural, a passagem da Igreja Ortodoxa de obediência moscovita, sob o controle direto do Patriarcado. E, no entanto, o Patriarcado decidiu, como gesto “para os irmãos ortodoxos ucranianos”, que as três dioceses que cobrem o território da Crimeia continuem a responder à Igreja ortodoxa ucraniana de obediência moscovita. (Existem, além disso, outras duas Igrejas ortodoxas ucranianas.) Todos os bispos e sacerdotes da Crimeia – e trata-se de não menos de 150 paróquias – mantiveram seu posto.

Boa vontade, um pouco de vergonha, e talvez também o desejo de evitar grandes problemas no Concílio da Igreja ortodoxa russa, onde 76 dos 318 bispos são ucranianos frente a 180 russos. Está claro que numa situação de conflito aberto no leste deste país, a tentação da Igreja ortodoxa da Ucrânia de se emancipar da tutela moscovita é forte; como ocorreu em 1992 com a criação de uma Igreja autônoma. Não é por acaso que o Patriarcado de Moscou tenha divulgado nos últimos meses apelos à paz do metropolita Onofrio de Kiev; um movimento do qual provavelmente Putin não gostou.

E esta obrigada moderação fez com que o Patriarcado de Moscou tenha perdido a posição contra o inimigo favorito dos ortodoxos russos, ou seja, a Igreja greco-católica ucraniana. Falando na Bielorússia, o metropolita Hilarión, o ‘Ministério do Exterior’ do Patriarcado, acusou os greco-católicos de “ter desempenhado um papel destrutivo” na crise. “Ao contrário da Igreja ortodoxa canônica ucraniana – disse –, que foi capaz de, durante estes meses difíceis, unir pessoas de diferentes pontos de vista políticos, inclusive aquelas que participaram das barricadas, os ‘uniatas’ (termo negativo usado pelos ortodoxos para identificar os greco-católicos, N.D.R.), se posicionaram de maneira aberta a favor de uma das partes do conflito”.

Hilarión recordou o Concílio de Brest, de 1595, no qual se decidiu pelo retorno à comunhão com Roma das dioceses ortodoxas ucranianas e bielorussas. E acusou os greco-católicos atuais de trabalhar contra o diálogo entre católicos e ortodoxos, e de trazer de volta “os tempos em que os ortodoxos e os católicos se olhavam mutuamente não como amigos, mas como rivais”.



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails