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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Em 1777, padre espanhol escondeu mensagem ao futuro em lugar bastante inusitado


A informação esquisitona é da revista Galileu:

Padre usou bunda de estátua de Jesus como "cápsula do tempo"

Esta pode ter sido a primeira vez que um local tão peculiar foi escolhido como esconderijo

Um padre na Espanha do século 18 encontrou um local inesperado para esconder uma mensagem secreta para o futuro: o traseiro de uma estátua oca de Cristo crucificado, chamado Cristo del Miserere. A carta foi encontrada durante a restauração da peça quando especialistas tiraram uma parte do objeto de madeira — mais precisamente o pano que cobre as nádegas de Jesus.

Aparentemente o intuito da estátua realmente era servir como "cápsula do tempo". "Embora seja habitual que muitas esculturas estejam vazias, não é tão difícil encontrar documentos manuscritos dentro", explicou o historiador Efrén Arroyo, membro da Fraternidade da Semana Santa de Sotillo de la Ribera, à Agencia EFE.

O documento foi escrito em 1777 por Joaquín Mínguez, capelão da Catedral do Burgo de Osma, e seu conteúdo conta com a descrição da vida da época, assim como considerações sobre o rei Carlos III, vários regentes e eventos da época.

A carta também detalha as culturas cultivadas na região (trigo, centeio, cevada e aveia e uvas para vinho); as doenças mais comuns (como malária e febre tifóide); e as atividades mais populares da população (como cartas, jogos de bola e jogos de bar).

Ele ainda fornece informações mais gerais, como: "O Tribunal está em Madri, há um Correio e uma Gazeta para as notícias, [e] há uma Inquisição, para a qual não existem erros contra a Igreja de Deus". De acordo com Arroyo, esses detalhes indicam fortemente que Mínguez queria deliberadamente deixar uma mensagem para ser lida no futuro. Resta saber se o padre não ficou com a consciência pesada de guardar esse recado em um local tão peculiar...

(Com informações de Science Alert.)



terça-feira, 20 de outubro de 2015

Italiana executada por bruxaria será julgada 300 anos depois

A informação é d'O Globo:

Italiana decapitada por bruxaria será julgada 300 anos depois

Tribunal de Brentônico irá analisar o caso de Maria Toldini

O tribunal da cidade de Brentônico, na Itália, resolveu colocar em prática o ditado popular “a justiça tarda, mas não falha” e decidiu julgar o caso de uma mulher condenada à morte há 300 anos sob acusação de bruxaria. Segundo o ministro de cultura local, Quinto Canali — que liderou a iniciativa de reviver a história — , a análise tardia do caso de Maria Bertoletti Toldini, que foi decapitada aos 60 anos, é uma tentativa de retomar um período sombrio da história e retirar “seu romantismo folclórico”.

Maria foi presa em 1715 acusada de assassinar crianças, tornar a terra estéril e danificar um vinhedo local, além de blasfêmia e heresia. No entanto, um historiador afirma que a mulher pode ter sido alvo falsas acusações por parte de seus próprios familiares devido a uma disputa por herança. O julgamento será feito na corte, com juízes familiarizados com as leis da época.

“Se vemos em nossa história algo injusto contra a humanidade, temos que saber e dizer que essa história estava errada. É importante agora, assim como era há cem anos e como será daqui 100 anos. Houve um assassinato que não se justificava, que não deveria ter acontecido. Mataram uma pessoa com motivações que não existiam. Ela era inocente”, afirmou Canali, que teve a ideia de lutar por um novo julgamento após ver uma encenação cômica da morte de Maria na cidade.

“Quem teria a ideia de fazer um show folclórico de comédia em Auschwitz?”, questionou.

Na época de sua morte, Maria era viúva e havia se casado novamente. A mulher chegou a ser defendida no tribunal da época por um advogado que argumentou que os crimes dos quais sua cliente havia sido acusada tinham causas naturais. Mas a defesa não foi suficiente e Maria acabou decapitada e seu corpo foi queimado.

O prefeito da cidade, que é favorável ao julgamento tardio, afirmou que o custo da sessão será ínfimo e argumentou que, apesar das críticas por parte da população, é importante reavaliar o caso como uma maneira de corrigir injustiças históricas cometidas contra mulheres.

“Acho que existe um valor simbólico em fazer isso, também em relação às mulheres. Esta foi uma injustiça histórica contra as mulheres— também na tragédia grega vemos que elas sempre se deparam com injustiças, assim como hoje em dia, de diferentes maneiras”, afirmou Christian Perenzoni.

Cerca de 50 a 60 mil pessoas morreram na Europa acusadas de bruxaria entre os séculos XV e XVIII, a maioria delas mulheres.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Os profetas mineiros que a Inquisição matou

Eita terrinha que tem profetas como Minas Gerais, viu.... a tradição vem de longe, segundo informa o blog História Viva:

De Minas para a morte

Dois profetas saídos das Gerais não conseguiram se livrar da execução, mesmo com previsões otimistas para Portugal

Adriana Romeiro

Lugar de riquezas minerais, Minas Gerais foi também um solo especialmente fértil para as profecias. Lá surgiram dois profetas que pagariam com a própria vida o preço de suas convicções religiosas nada comuns. O primeiro deles foi o padre Manuel Lopes de Carvalho, que nasceu na Bahia em 1682, mas acabou se transferindo para Minas em 1717, quando virou pároco da pequena Vila do Ouro Branco. O outro foi o português Pedro de Rates Henequim, que chegou às Gerais por volta de 1702 e lá permaneceu por quase vinte anos, vivendo em Sabará, Vila Rica e Itacambira.

Lopes de Carvalho percorreria um longo caminho até se transformar no profeta furioso que assombraria Lisboa. Durante anos ele frequentou o Colégio da Companhia de Jesus em Salvador, entrando em contato com os debates que agitavam os discípulos e adversários do padre Antônio Vieira. Enquanto muitos compartilhavam apaixonadamente das teses proféticas do célebre pregador, divulgando-as em obras manuscritas, outros contestavam a validade delas, acusando-o de interpretar livremente o sentido das Escrituras. E não faltaram mesmo aqueles que se determinaram a escrever a própria obra profética, propondo novas interpretações. Mas um episódio em particular o marcaria para o resto da vida: a aparição nos céus da Bahia, em fevereiro de 1698, de um “fatal cometa.” Seu professor, o jesuíta e astrônomo morávio Valentim Estancel (1621-1705), deu ao cometa a forma de uma baleia.

O evento levou Lopes de Carvalho a estudar Astronomia e a computação dos tempos, que o estimularam a realizar “várias experiências pelos mares, e pelas luas, consultando, no mesmo tempo, homens práticos marítimos”. Seus estudos levaram-no à conclusão de que a conta dos tempos estava errada, e que era preciso retornar à Igreja Primitiva. O retorno à Igreja Primitiva esteve durante séculos no centro dos movimentos religiosos que se opuseram à Igreja romana, considerada por seus seguidores uma distorção dos verdadeiros valores pregados por Cristo, que antecedera o Concílio Niceno, ocorrido no ano 325, cuja revogação permitiu a integração da Igreja oriental, do judaísmo e do cristianismo numa única religião.

Mas foi nas Minas Gerais, em 1717, que suas tendências místico-proféticas ganharam força, estimuladas pelo contato com os círculos milenaristas locais. Ao que tudo indica, ali viviam letrados especialmente interessados em profecias e vaticínios, entre os quais estavam judeus familiarizados com a cabala e com as correntes messiânicas em voga na Europa. Uma obra em especial teve um impacto profundo sobre ele: o pequeno tratado De Regno Christi in terris consummato, do jesuíta Mateus Faletti, sobre as ideias desenvolvidas por Vieira na Clavis Prophetarum. Convencido de que o final dos tempos se aproximava, o padre baiano foi para o Rio de Janeiro e embarcou para Lisboa, disposto a anunciar a todos a boa-nova sobre o advento do Quinto Império. Antes, porém, era preciso denunciar os erros da Igreja Católica, preparando o mundo para a chegada do Messias. Ele pretendia falar com o rei D. João V (1689-1750) e se encontrar com o papa.

A chegada à Corte de um padre determinado a emendar a conta dos tempos causou assombro. As profecias de Lopes de Carvalho atraíam um círculo de admiradores e letrados que incluía o cosmógrafo-mor Manuel Serrão Pimentel – o maior estudioso da geografia e da navegação da época. A Inquisição de Lisboa, que até então ignorara as denúncias, começou a se preocupar com a repercussão das ideias do visionário.

Para não ter que prender um padre nos cárceres do Santo Ofício, o que causaria escândalo e comoção, a Inquisição fez de tudo para obter a retratação de Lopes de Carvalho, apostando que ele abandonaria suas heresias em respeito à Igreja e ao rei. Teólogos e juízes foram chamados para convencê-lo dos seus erros, mas os dias iam se passando e nada parecia surtir efeito. De profeta ele passou a se apresentar como o Messias anunciado no Antigo Testamento, defendendo o judaísmo como a única e verdadeira religião. Sua missão era libertar o povo de Israel e destruir a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, afirmava ser o filho de Nossa Senhora, e prometia a D. João V a realização de todas as promessas de Vieira, segundo as quais Portugal viveria glórias superiores às de Salomão, rei de Israel. Vencidos, os inquisidores o jogaram nos cárceres secretos do Santo Ofício.

O processo contra Lopes começou a se arrastar, mas diante da inabalável obstinação do réu, a Inquisição decidiu condená-lo à morte pelo fogo. Finalmente, em 1726, Lisboa se preparou para assistir ao auto de fé mais concorrido de todos os tempos, protagonizado por um padre judaizante. No último instante, quando já saía em procissão, o rei em pessoa dignou-se a visitá-lo, numa tentativa desesperada de evitar o escândalo. Ofereceu proteção e uma pensão em troca de sua abjuração. Convicto, o padre recusou tudo. Mas o pior ainda estava por vir. De passagem por Lisboa, o naturalista francês Charles de Merveilleux assistiu àquele fatídico auto de fé.

De acordo com seu relato, o réu foi torturado antes de morrer, tendo a pele dos dedos arrancada, em castigo por tocar com eles a Bíblia. Do alto da fogueira, cheio de ódio, amaldiçoou Portugal, exclamando: “É uma grande infâmia e uma enorme vergonha tratar deste modo a um homem que morre por afirmar que há um Deus verdadeiro. Deus vos castigará, desgraçados, por de tal maneira o ofenderdes.” 

Não tardaria para que outro profeta saído das Minas percorresse uma trajetória muito parecida com a do profeta baiano. Homem de origens modestas, mas alfabetizado, Pedro de Rates Henequim se dedicou totalmente à mineração e ao estudo das Sagradas Escrituras. Os longos anos de estudo e o contato, nas Minas, com a erudição da cultura hebraica transformariam Henequim num visionário e cabalista sofisticado, absorvido por um projeto ambicioso: a redação de um tratado, que versaria sobre a iminência do Quinto Império, a localização do Paraíso Terrestre e as teses milenaristas do padre Antônio Vieira.

Em 1722, depois de concluir o tratado intitulado Paraíso Restaurado, Lenho da vida descoberto, ele regressou a Portugal para divulgar suas profecias sobre o final dos tempos. Durante anos perambulou pelas ruas de Lisboa, espalhando suas ideias entre homens analfabetos e letrados, todos fascinados com a eloquência com que expunha sua visão de mundo. Com o crescimento do número de curiosos que o seguiam por todos os lugares, a Inquisição farejou em suas profecias a marca da heresia e da apostasia, isto é, a renúncia à fé católica. Acabou ficando quase quatro anos preso nos cárceres do Santo Ofício, submetido a interrogatórios constantes. No fim, recebeu a sentença de morte na fogueira, acusado de ser um novo criador de heresias. Na última hora, porém, retratou-se de parte de suas crenças, e a pena foi “atenuada”. Em 21 de junho de 1744, Henequim foi estrangulado em praça pública, teve o corpo queimado e os restos jogados no Rio Tejo.

Mais perturbadora do que o seu destino trágico é a visão de mundo que Henequim elaborou a partir de múltiplas referências eruditas e populares. Influenciado pela obra do padre Vieira, profetizou que o Quinto Império teria como palco não Portugal, mas o interior do Brasil, onde, junto a umas serranias, estaria localizado o Paraíso Terrestre. Retomando os antigos mitos edênicos, dizia que Adão havia sido criado no Brasil, e que os índios americanos, vermelhos como ele, eram seus descendentes. Afirmava ainda que a árvore da vida e a árvore da ciência – mencionadas no livro do Gênesis – eram, na verdade, bananeiras, em cujas folhas Adão havia escrito mensagens aos homens. Quanto aos rios do Paraíso, ele os identificava como os rios São Francisco e Amazonas.

As profecias de Henequim também anunciavam um longo período de prosperidade para os lusitanos que viviam na América. O ano de 1734 inauguraria os novos tempos, quando, segundo ele, as tribos perdidas de Israel, que andavam espalhadas por toda a América, se reencontrariam. Para ocupar o trono do último Império de Cristo, Henequim escolheu o infante D. Manuel (1697-1766), irmão mais novo de D. João V, a quem tentou convencer a vir para o Brasil, onde seria aclamado imperador da América Meridional.

A trajetória desses dois homens teve um final trágico, mas põe em evidência o deslocamento, para Minas Gerais, do vasto acervo de articulações milenaristas que prometiam a Portugal um Quinto Império de glória e sucesso, quando se realizariam os velhos vaticínios que impregnavam a cultura ibérica. Para muitos, a descoberta do ouro, no final do século XVII, assinalava o início de um novo tempo para os portugueses. Nas Minas, esse acervo de tradições profético-milenaristas conheceria uma releitura radicalmente nova, transformando homens comuns como Manuel Lopes de Carvalho e Pedro de Rates Henequim em verdadeiros profetas.

Adriana Romeiro é professora da Universidade Federal de Minas Gerais e autora de Um visionário na corte de D. João V – revolta e milenarismo nas Minas Gerais (UFMG, 2001).

Saiba Mais - Bibliografia

CANTEL, Raymond. Prophétisme et messianisme dans l’oeuvre d’Antônio Vieira. Paris: Hispano-Americanas, 1960.
GOMES, Plínio Freire. Um herege vai ao paraíso – cosmologia de um ex-colono condenado pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Cada um no seu quadrado


Artigo de Claudio Lembo no Terra Magazine:

Cada um na sua religião

Uma campanha eleitoral é momento de se conhecer a personalidade dos políticos por inteiro. Os candidatos podem tentar dissimular seus verdadeiros sentimentos. As suas formas de pensar e agir.

No decorrer da campanha, no entanto, aos poucos as personalidades vão se desnudando. Todas as eventuais qualidades e os defeitos surgem em toda a sua autenticidade.

Aí é que começam os ataques virulentos e desarrazoados. Explodem todas as formas de ver o mundo e sua complexidade. Esquecem os sofrimentos coletivos do passado. Avançam para os ataques à intimidade. Ofendem as maneiras de encarar o divino. Rompem com os valores dos múltiplos segmentos que formam à sociedade.

Retornam, nestes episódios, ao pior de tempos passados. Muitos sofreram e morreram para que houvesse liberdade religiosa e de consciência política. Milhares de pessoas foram trucidadas nos ofícios da Inquisição.

Muitas outras foram expulsas de seus lares em virtude da intolerância. Os países da península Ibérica, aos quais os brasileiros se entrelaçam, expulsaram judeus e muçulmanos, em razão de suas crenças.

Conheceram, após os atos de violência contra muçulmanos e judeus, um longo ciclo histórico de indigência moral e intelectual. Trouxeram, como colonizadores, seus maus hábitos para esta América Latina.

Em muitos espaços – Peru e México – foram instalados Tribunais Inquisitoriais e, aqui no Brasil, foram conhecidos os visitadores da Inquisição.

Estes visitadores levaram à morte, entre outros, o teatrólogo Antonio José, nas fogueiras de Lisboa. São tempos a serem registrados, mas esquecidos pelo que de brutal contêm.

Mais tarde, no Império brasileiro, apesar dos esforços dos constituintes de 1823, na busca da liberdade de culto, a religião oficial proibia a propagação de outros credos.

As narrativas dos antigos pregadores reformados contam a virulência com que eram recebidos os “bíblias” no interior do País. A intolerância encontrava-se presente, na busca da preservação do monopólio religioso.

Com a República, apesar de sua violência contra a antiga religião do Estado, as várias denominações religiosas paulatinamente passaram a ser aceitas.

A sociedade brasileira, tolerante por formação, passou a compreender as várias maneiras e ritos de se atingir a Deus – ou mesmo não aceitá-lo. Assim, com o passar dos anos ocorreu uma atomização do espectro religioso.

As mesquitas se erguem nas cidades ao lado das sinagogas. Não distantes de igrejas católicas e templos evangélicos. Os budistas desenvolveram seus espaços de meditação. Os adeptos do candomblé mantêm seus terreiros. Os espíritas preservam seus centros.

Tudo isto ocorre em campo sereno e de sadia convivência. Talvez, esta tolerância se mostre como uma das grandes conquistas da civilização brasileira.

Entender o outro com todos os seus atributos de ordem espiritual é relevante para a harmonia social. Violar esta verdade é ferir valores inatos dos brasileiros.

Lamenta-se, pois, que candidatos ou seus apoiadores utilizem temas religiosos no interior de campanhas eleitorais. Estas são passageiras e a harmonia social deve ser permanente.

O importante – em matéria religiosa – é que cada um seja respeitado na integridade de seus valores e princípios. Só os maus agem em contrário.



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Judeus espanhóis querem banir palavra "judiada" do dicionário

Uma iniciativa dos judeus espanhóis quanto à língua castelhana pode ter reflexos interessantes na sua correspondente ibérica, essa última flor do Lácio chamada de "português".

É que a Federação das Comunidades Judaicas da Espanha peticionou junto à Real Academia Española (RAE) requerendo a retirada da palavra "judiada" do dicionário oficial da língua castelhana.

Uma rápida consulta ao dicionário online da RAE mostra a seguinte descrição para o significado da palavra:
1. f. Acción mala, que tendenciosamente se consideraba propia de judíos.
2. f. p. us. Muchedumbre o conjunto de judíos.
Segundo noticia o jornal israelense Ha'aretz, os judeus da Espanha consideram a palavra "ofensiva" e "pejorativa", e conforme se queixa o presidente da organização judaica subscritora do pedido à RAE, Isaac Querub, "esta declaração negativa quanto aos judeus vai contra as normas de bom comportamento. Não deve pertencer a um dicionário publicado no século XXI".

A divulgação da carta de Querub vem à tona logo após um pedido idêntico, da professora universitária Raquel Amselem, ter sido rejeitado pela RAE no último mês de junho, sob a alegação de que "o dicionário é meramente um reflexo da linguagem e a palavra está documentada numa quantidade suficiente de textos".

O Ha'aretz (citando o jornal espanhol El Mundo em matéria que não foi possível localizar) alega ainda que o dicionário oficial patrocinado pela RAE teria recentemente mudado a definição de "casamento" para incluir no seu significado as uniões entre pessoas do mesmo sexo, o que teria servido de pretexto para a presente iniciativa da comunidade judaica do país.

Entretanto, ressalvada alguma orientação ainda não oficial para a próxima edição do Dicionário - a ser lançada em 2014 -, a definição online do dicionário da RAE mantém o conceito de "casamento" como sendo a união entre homem e mulher:
casamiento.
1. m. Acción y efecto de casar (‖ contraer matrimonio).
2. m. Ceremonia nupcial.
3. m. Der. Contrato por el que un hombre y una mujer se comprometen a vivir en matrimonio.
4. m. ant. dote (‖ caudal que la mujer aporta al matrimonio o adquiere con él).
~ en casa.
1. m. Ar. casamiento autorizado por el cónyuge que antes muere al sobreviviente, sea por manifestación directa, sea mediante fideicomisarios, para que, contraído el nuevo matrimonio, la casa y bienes del premuerto queden en poder del que sobrevive, y en ellos tengan iguales derechos los hijos de ambos enlaces.
no perderás por eso ~.
1. expr. coloq. U. para dar a entender que alguien no desmerece por hacer algo que juzga impropio.
Não deixa de ser curioso notar, por outro lado, que, ao contrário do que ocorre na língua espanhola, o idioma português mantém no seu léxico não só a palavra "judiada" como também todas as variações e flexões do verbo "judiar", além do substantivo "judiação", como uma rápida consulta ao Dicionário Houaiss ensina:
Judiar
Datação
sXV cf. FichIVPM
Acepções
■ verbo
intransitivo
1 m.q. judaizar ('adotar práticas judaicas')
transitivo indireto
2 (1789)
tratar com escárnio; zombar
Ex.: j. com a infelicidade alheia
transitivo indireto
3 (1881)
tratar mal, física ou moralmente; atormentar, maltratar
Etimologia

judeu + -ar; f.hist. sXV ajudyar, 1713 judiar, sXVIII judear



Judiação
Datação
1913 cf. CF2
Acepções
■ substantivo feminino
Regionalismo: Brasil.
ato de judiar, de fazer de alguém alvo de escárnio ou de maus-tratos; judiaria
Etimologia
judiar + -ção; ver judeu
Como essas palavras são usadas corriqueiramente, especialmente no Brasil, com um sentido que não remete mais à origem histórica da palavra, que muito provavelmente remonta à época da Inquisição na Península Ibérica, resta saber se um movimento "de-léxico-semântico" parecido deveria ser iniciado pelos lados de cá.

Afinal, por muito menos (do ponto de vista quantitativo), a RAE está sendo provocada a retirar do vernáculo um termo (mal) consagrado pelos séculos de uso. Com a palavra, a sua equivalente brasileira guardiã do idioma, a Academia Brasileira de Letras (ABL).

E você, o que acha?

domingo, 15 de julho de 2012

O Muro das Lamentações do Recife



A notícia vem do Estadão:

Recife também tem Muro das Lamentações

A exemplo do que ocorre em Jerusalém, na mais antiga sinagoga das Américas visitantes costumam deixar bilhetinhos com pedidos e orações

A Kahal Zur Israel funcionou de 1636 a 1654 na antiga Rua dos Judeus - hoje Rua do Bom Jesus - no bairro do Recife Antigo, durante o período de ocupação holandesa. Foi construída por judeus portugueses que, perseguidos pela Santa Inquisição, refugiaram-se depois na Holanda e em outros países, como os Estados Unidos. Em Pernambuco, formaram a Kahal Kadosh Zur Israel, ou Santa Congregação Rochedo de Israel. Na época, esta parte do Brasil era quase extensão da Holanda, com liberdade de culto religioso.

“Fiz meu pedido por algo coletivo, pela paz mundial”, contou a farmacêutica cearense Lia Queiroz, que mudou para o Recife há três anos e conheceu a sinagoga, visitada por uma média de 1,5 mil pessoas por mês. Para ela, qualquer lugar é bom para se pedir pelo bem da humanidade.

A turismóloga pernambucana Rosimar Holanda, que já havia conhecido a sinagoga em uma atividade do curso, reconhece o espaço como um local sagrado e pediu pela família. Os bilhetinhos são respeitados pelos funcionários da sinagoga, que só os recolhem quando eles caem naturalmente. “Mesmo assim, ninguém os abre”, afirma a gestora do museu, que abriga o Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, Tânia Kaufman.

Muralha. O Muro das Lamentações é resquício da antiga muralha que cercava o Templo de Jerusalém, destruída pelos romanos nos anos 70 d.C., após vitória sobre os judeus.

Na mais antiga sinagoga das Américas, suas paredes foram mantidas intocadas e sobreviveram às reformas e alterações feitas no local nos últimos 362 anos, desde o fechamento da sinagoga, depois da expulsão dos holandeses. O fato, segundo Kaufman, aliado à atmosfera de espiritualidade e história, pode ajudar a explicar os pedidos e orações, a exemplo do que ocorre no Muro das Lamentações.



domingo, 22 de abril de 2012

Vaticano tenta enquadrar freiras americanas (de novo)

Não é fácil a vida de quem se senta no trono da Praça de São Pedro quando vê uma freira americana pela frente. Parece que os pedidos de ordenação feminina representam o nervo exposto do Vaticano, e os Estados Unidos, neste particular, são o seu calcanhar de Aquiles, que quer se mostrar invulnerável, mas não há reprimenda que faça as religiosas norteamericanas se calarem.

O papa João Paulo II já havia sentido isso na pele durante sua primeira visita aos Estados Unidos, em 1979, quando - numa reunião com cerca de 5.000 religiosas no Santuário Nacional de Washington - teve que ouvir, visivelmente constrangido e contrariado, o pedido de uma delas (vídeo abaixo).

A freira Theresa Kane, então presidente da Leadership Conference of Women Religious (LCWR - "Conferência de Liderança das Religiosas"), foi corajosa o suficiente para pedir ao papa, no seu discurso de saudação tête-à-tête, que "incluísse as mulheres em todos os ministérios da Igreja" a fim de que elas se tornassem "membros completamente participantes" dela.

Apesar de toda a reação contrária que veio a seguir e que culminou no "não" supostamente definitivo à ordenação feminina, mediante a carta "Ordinatio Sacerdotali" de 1995, o movimento nunca arrefeceu, mesmo à revelia da autoridade papal.

A "Ordinatio Sacerdotali" de João Paulo II teve como pretexto a então recente abertura do sacerdócio anglicano às mulheres, ocorrida em 1992, mas o alvo - na verdade - era outro: matar no ninho os movimentos internos católicos que reforçavam o mesmo pleito.

Bento XVI assumiu o papado em 2005, mantendo a linha conservadora do antecessor, mas também não conseguiu calar as freiras norteamericanas. Não lhe restou outra saída, senão, tentar "enquadrar" de novo a LCWR, que reúne nada mais, nada menos que 80% das religiosas dos Estados Unidos.

Para tanto, entrou em cena a Congregação para a Doutrina da Fé, nome atual aparentemente inofensivo do antigo "Santo Ofício", responsável pela inquisição medieval, atualmente dirigida pelo cardeal norteamericano William Joseph Levada.

Em 2008, o Cardeal Levada tratou de dar um corretivo nas levadas freiras do seu país (com o perdão do péssimo - mas inevitável - trocadilho), indicando o arcebispo de Seattle, Peter Sartain, para investigar e reorganizar a LCWR.

Apontando uma série de divergências com o ensino tradicional católico quanto ao sacerdócio feminino, aborto, sexualidade e temáticas feministas, o relatório do bispo Leonardo Blaire, de Toledo (Ohio), responsável pela "visita apostólica", deu margem à intervenção do Vaticano na LCWR.

Na prática, isto significa que o grupo de freiras norteamericanas estará, a partir de agora, debaixo de estrita vigilância e supervisão das autoridades vaticanas. Resta saber se isto conseguirá calá-las.

Já a Irmã Theresa Kane continua firme, falante e dentro da igreja. A julgar pelo histórico passado, é melhor apostar - sem dinheiro e informalmente - que não conseguirão emudecê-las.




sábado, 5 de novembro de 2011

Inquisição e liberdade de imprensa no Brasil Colônia

Uma série de artigos que vêm sendo publicados quinzenalmente pelo jornal Valor Econômico, sobre a história da imprensa no Brasil, despertou um debate interessante sobre os papéis da Corte portuguesa e da Inquisição (através do "Santo Ofício") na repressão à imprensa propriamente dita (a "tipografia") durante o período colonial. Em especial o artigo "Um atraso de três séculos", escrito por Matías M. Molina e publicado pelo Valor no último dia 28 de outubro, que foi ironicamente refutado pelo jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, em outro artigo intitulado "A Inquisição não existiu, é invenção dos leigos". Trata-se de material pra lá de polêmico para quem se interessa pela história da liberdade de expressão, de imprensa e de circulação de ideias no Brasil, e quer ter uma boa leitura de fim de semana. Como os dois artigos são muito extensos, reproduzimos abaixo apenas pequenos trechos deles, indicando os respectivos links para quem quiser lê-los na íntegra:




CENSURA DA COROA

Um atraso de três séculos


Por Matías M. Molina

Durante três séculos, a coroa portuguesa foi rigorosa e persistente em seu esforço para impedir que a palavra impressa perturbasse sua colônia da América. O primeiro livro em língua portuguesa publicado no Novo Mundo, o D.O.M Luzeiro Evangélico, não foi escrito no Brasil, mas em “S. Thomé cidade da Índia Oriental no ano de 1708”, pelo franciscano João Bauptista Morelli de Castelnovo, como se lê na capa. Também não foi estampado no Brasil; foi “impresso em México, cidade da Índia Ocidental no ano de 1710”.

O livro não poderia ter sido impresso no Brasil porque a corte de Lisboa proibira a instalação de prelos na colônia. Tinha medo das consequências. Controlava também a entrada de obras impressas, numa tentativa, nem sempre bem-sucedida, de manter o país à margem das novas ideias e das correntes culturais que circulavam na Europa. A metrópole também dificultava a divulgação de informações sobre o Brasil no exterior, para não excitar a voracidade das outras potências.

Depois que Johann Gensfleich zum Gutenberg fundiu letras e caracteres avulsos num molde metálico e imprimiu a Bíblia, em 1456, a imprensa se espalhou rapidamente pela Europa. Em 1466, foi impresso o primeiro livro na Basileia, em 1467 em Roma, em 1468 em Paris, onde enfrentou a resistência dos seis mil copistas da cidade, em 1469 em Veneza e em 1473 em Westminster, na atual cidade de Londres. A tipografia chegou à Espanha em 1472, quando o alemão Johan Parix de Heidelberg imprimiu em Segóvia o Sinodal de Aguilafuente, e em 1487 a Portugal, onde Samuel Gacon estampou o Pentateuco, em hebraico, na cidade de Faro. Em 1500, quando o Brasil foi descoberto, mais de 250 cidades da Europa tinham instalado prelos de impressão; nesse ano, Paris já contava com 181 tipografias.

Anchieta e Vieira tiveram que ser impressos em Portugal

Mas foram necessários três séculos e meio, já no começo do 19, para que as artes gráficas pudessem ser exercidas, sob rigoroso controle do Estado, no Brasil, um dos últimos países do mundo a permitir a instalação de uma tipografia.

Como disse Alfredo de Carvalho: “Em todo o transcurso do período colonial, não houve no Brasil, talvez, manifestação alguma de progresso a que a metrópole deixasse de corresponder com medidas proibitivas, ou providências vexatórias, ditadas por uma política suspicaz que antevia na prosperidade da vasta possessão americana a certeza da sua independência.”

Para mostrar o atraso cultural na época colonial, Isabel Lustosa escreveu que o Brasil era um dos poucos países do mundo, excetuados os da África e da Ásia, que não produziam palavra impressa. Mas, na verdade, até as colônias portuguesas na África e na Ásia contavam com tipografias, já no século 16 e começo do 17, instaladas pelos padres jesuítas. A exceção foi o Brasil.

Os livros escritos no Brasil por autores como Gabriel Soares de Sousa e Antonil ou os padres José de Anchieta e Antonio Vieira tiveram que ser impressos em Portugal e receberam escassa divulgação. Numerosas obras da época da colônia esperaram vários séculos para ser estampadas, depois que foram encontradas nos arquivos portugueses por historiadores brasileiros.

continue lendo o artigo na íntegra no Observatório da Imprensa




HISTÓRIA TRUNCADA

A Inquisição não existiu, é invenção dos leigos

Por Alberto Dines

Incrível, aterrador: o 16º capítulo da serie histórica “Jornais em Pauta”, publicada quinzenalmente pelo Valor Econômico (ver "Um atraso de três séculos"), parece ter sido montado segundo os paradigmas do Dr. Joseph Goebbels, zelosamente imitados pela Academia de Ciências da ex-URSS e inspirados no patriarca do conservadorismo e do fascismo, Joseph de Maistre (1753-1821).

A surpreendente tese: quem impediu o estabelecimento de tipografias e jornais no Brasil antes de 1808 foi a Coroa, o Estado português. Não houve censura episcopal, não houve censura inquisitorial, não houve nenhum “Rol de Livros Proibidos”, não houve Inquisição. O sanguinário aparelho repressor chamado Santo Ofício estabelecido em 1536 e mantido até 1821 em Portugal e territórios ultramarinos é pura ficção. Os cardeais-inquisidores não existiram, os comissários não tinham poder para examinar os livros que chegavam nos navios, a monarquia absolutista portuguesa era a única responsável pelo que poderia ser ensinado e difundido.

A fabricação da mentira torna-se cada vez mais sofisticada não por causa das novas tecnologias per se, mas porque estas tornam as pessoas cada vez menos interessadas em absorver conhecimentos.

Vocação censória

O autor da proeza revisionista e negacionista publicada num dos mais sofisticados suplementos culturais da imprensa brasileira (“Eu&Fim de Semana”, 28/10) valeu-se de um engenhoso e perverso artifício retórico: como na América espanhola as tipografias foram instaladas a partir do século 16 (a primeira, no México, em 1583), o déficit de liberdade na América portuguesa só pode ser atribuído à Corte.

Grande parte do texto, cerca de dois terços, está maliciosamente montado em cima de citações de eminentes historiadores patrícios, genialmente manipuladas para reforçar a ideia de que a Coroa portuguesa é a única vilã do nosso atraso intelectual e jornalístico.

Difícil acreditar que na vasta bibliografia de Sérgio Buarque de Holanda e de Nelson Werneck Sodré não conste qualquer referência ao protagonismo do Santo Ofício (portanto, da igreja católica) no controle dos corações e mentes dos brasileiros e brazilienses. Pinçar na Sociologia da Imprensa Brasileira, de José Marques de Melo, a frase de que no Brasil colonial não havia tipografias “porque não eram necessárias” é, na melhor das hipóteses, um recurso capcioso.

Isabel Lustosa é, hoje, a mais diligente e esmerada historiadora da imprensa brasileira, coeditora dos 31 volumes com a reprodução integral do Correio Braziliense e valiosos estudos sobre Hipólito da Costa. Dela, os editores de Valor só encontraram um conceito digno de ser incluído no seu seriado quinzenal: “O Brasil era um dos poucos países do mundo, excetuados os da África e Ásia, que não produziam palavra impressa”.

Onde está dito que a culpa do atraso foi exclusivamente da Coroa? Onde exime ela o Santo Ofício de ser a matriz da nossa vocação censória? Este tipo de trambique argumentativo ficaria muito bem num boletim do Opus Dei, mas discrepa num veículo destinado à formação da elite empresarial brasileira.

“Despotismo esclarecido”

O autor (ou autores) ignora(m) que a Inquisição espanhola, diferentemente da portuguesa, era menos centralizada e menos burocratizada. O Santo Ofício lusitano manteve apenas um tribunal fora do território continental (em Goa, Índia); o espanhol permitiu a instalação de três filiais no Novo Mundo (México, Cartagena, Lima) e, graças à fiscalização descentralizada, podia se dar ao luxo de autorizar a instalação de tipografias para a impressão de obras evangelizadoras, criação de universidades e circulação de periódicos a partir do século 17.

As doutrinas que inspiravam as duas entidades inquisitoriais eram as mesmas, colaboravam ativamente entre si (como atesta o caso da loucura e morte do santista Bartolomeu de Gusmão, o Padre Voador), mas as mentalidades eram diferentes. A Espanha era uma potência europeia e o seu império global deveria contar com uma flexibilidade administrativa que o mirrado reino português só adotou quando a família real fugiu para o Brasil.

Quem encarcerou o padre Antonio Vieira não foi a Coroa portuguesa, mas a Inquisição portuguesa. Quem mandou prender e depois executar o comediógrafo – nascido no Rio de Janeiro – Antonio José da Silva, “O Judeu”, não foi D. João V (satirizado na ópera O Anfitrião, montada em 1736), mas o cardeal inquisidor D. Nuno da Cunha, por meio de uma ordem verbal (como está em seu processo). Quem decidiu que fosse executado num auto da fé não foi a justiça secular, mas os inquisidores que lhe ofereceram o direito de escolher entre o garrote e a fogueira.

Aqui, na colônia portuguesa, bispos e comissários do Santo Ofício mandavam e desmandavam, os governadores obedeciam: cuidavam de defender o território, proteger riquezas e cobrar impostos. O resto ficava por conta dos Familiares do Santo Ofício e, sobretudo, do sistema de delações oriundo dos confessionários.

O quadro modificou-se quando esse despotismo clerical foi substituído pelo “despotismo esclarecido” do Marquês de Pombal (1750). Tarde demais, o país estava atrasado 250 anos.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

As vítimas brasileiras da Inquisição

Uma resenha muito interessante do livro "Inquisição. Prisioneiros do Brasil (Séculos XVI a XIX)" de Anita Novinsky, publicada na revista Liberdade e Cidadania, e reproduzida no blog História Viva.

Um dado interessante para o qual o resenhista Antonio Paim chama a atenção é a atuação da Contra-Reforma na luta contra a busca do lucro e da riqueza, que os católicos identificavam como característica da Reforma Protestante (com ênfase no calvinismo); e como isto, de certa forma, definiu a opção brasileira pela pobreza.

Polêmico, mas este é um ponto que certamente merece mais atenção:

Inquisição - Prisioneiros do Brasil (Séculos XVI a XIX)

Antonio Paim *

A Editora Perspectiva vem de promover uma segunda edição, magnificamente ilustrada e muito bem cuidada, da obra capital representada pelo texto clássico de Anita Novinsky, que intitulou de Inquisição: Prisioneiros do Brasil.

Ainda em 1973, na Revista de História (editada pela USP, nº 94) deu notícia de haver localizado, na Torre do Tombo (denominação do Arquivo Nacional hoje sob a responsabilidade da Universidade de Lisboa) o que indicava ser “uma fonte inédita para a história do Brasil”. Tratava-se de uma relação de “culpados” (processados pela Inquisição de Lisboa, que se ocupava, simultaneamente, da sede do Império e do Brasil) com algumas indicações preciosas. Além da proveniência, atividade que exercia e natureza do processo. A partir dessa documentação fundamental, nas três décadas subseqüentes valeu-se de diversas outras fontes.

Em conformidade com o levantamento concluído em 1994 (e presumivelmente mais completo), efetivado pelo prof. Francisco Bethencourt (Universidade Nova de Lisboa), o número total de processados pela Inquisição ascendeu a 44.817, sendo 9.726 a cargo da Inquisição de Lisboa (os outros tribunais situavam-se em Évora, Coimbra e Goa), dentre os quais os prisioneiros do Brasil corresponderiam à metade, cerca de cinco mil, portanto.

Em minucioso e paciente trabalho de anos, Anita Novinsky conseguiu identificar como provenientes do Brasil 1.076 prisioneiros, com variada gama de detalhes (local do nascimento; moradia; origens étnicas; ocupações; crimes e sentenças). O conjunto é da maior relevância. Assim, embora não consista numa (impossível) pesquisa exaustiva, trata-se, sem sombra de dúvida, de amostra definitiva.

Não sendo esta uma oportunidade para situar a relevância de cada uma das partes integrantes desse conjunto, não poderia deixar de destacar duas contribuições que me pareceram básicas. A primeira deu lugar a uma cronologia absolutamente consistente. Embora haja durado cerca de três séculos, metade dos processos identificados teve lugar na primeira metade do século dezoito. Assim, os efeitos da ação do Tribunal do Santo Ofício variaram no tempo.

A segunda reside na demonstração de que pessoas pertencentes às classes abastadas da sociedade correspondem a cerca de 70% do total nas mencionadas décadas do século XVIII. E, mais, contingente expressivo destas ligadas ao empreendimento açucareiro, incluindo numerosos senhores de engenho.

A primeira metade do século XVIII registra, paralelamente, o auge da Contra Reforma no país. Estão identificados os principais autores da pregação contra o lucro e a riqueza. A conclusão se impõe: a Inquisição coroa o processo de opção pela pobreza instaurada entre nós.

O empreendimento açucareiro representa uma espécie de ante-sala da Revolução Industrial. Na consideração desse processo tem-se perdido de vista, no país, que é precisamente nessa fase (colonial) que se estabelecem as distinções básicas entre o Brasil e os Estados Unidos, ambos incorporados à civilização ocidental em consequência dos Descobrimentos. Com este agravante: no século XVI, segundo a reconstituição da renda per-capita, efetivada por Mircea Buescu, o Brasil podia ser considerado um país rico. Enquanto os Estados Unidos sequer existiam porquanto ainda fragmentado nas colônias, cujo território somente seria ocupado, com maior intensidade, depois da década de sessenta daquela centúria.

Do que precede, deve-se considerar a obra de Anita Novinsky como de permanente atualidade.

Anita Novinsky, licenciada em filosofia em 1956 e livre-docente em história, em 1992, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, teve sua carreira universitária ligada não apenas à USP mas a diversas instituições estrangeiras como a École dés Hautes Études em Sciences Sociales de Paris e centros universitários dos Estados Unidos. Publicou diversos livros que muito têm contribuído para uma visão renovada da Inquisição no Brasil e em Portugal, notadamente a partir de Cristãos novos na Bahia (1992).

Antonio Paim
Concluiu sua formação acadêmica na antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, iniciando carreira acadêmica na década de sessenta, na então denominada Faculdade Nacional de Filosofia, tendo pertencido igualmente a outras universidades. Aposentou-se em 1989, como professor titular e livre docente. Desde então, integra a assessoria do Instituto Tancredo Neves, que passou a denominar-se Fundação Liberdade e Cidadania. É autor de diversas obras relacionadas à filosofia geral, à filosofia brasileira e à filosofia política.



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