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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Um padre entre duas ditaduras sulamericanas


A matéria é do IHU:

'A Missão' do jesuíta Luis Caravias entre o Paraguai de Stroessner e a Argentina de Videla


Durante a visita pastoral do Papa Francisco ao Paraguai, no meio da multidão que se reuniu para ouvi-lo estava um jesuíta especial. Alguém que viu cumprir-se nas palavras de Francisco o sonho de toda uma vida. Embora em uma determinada época aqueles sonhos lhe estavam custando muito caro, e quem o ajudou nesse momento foi precisamente o jovem Jorge Mario Bergoglio. O padre José Luis Caravias seria o missionário perfeito para um filme: um herói romântico com uma ideia radical de missão, somada a uma pitada de inconsciência que o converte em candidato ideal ao martírio. O padre Caravias tinha também um defeito próprio dos romances, uma dessas características que não agradam os militares. Fundava cooperativas, organizava sindicatos, reivindicava salários dignos para as classes exploradas, apontava o dedo contra os latifundiários e os homens da lei, supondo que naquele tempo houvesse diferença entre uns e outros. 

A reportagem é de Nello Scavo e publicada por Tierras de América, 16-08-2015. A tradução é de André Langer.


Nascido na Espanha em 1935, quando terminou os estudos de jesuíta foi enviado ao Paraguai, onde começou a organizar os camponeses em cooperativas. Até o dia 05 de maio de 1972. “Um dia me fizeram entrar numa camioneta da polícia e me abandonaram em uma estrada de Clorinda (Argentina)”. Da boca do padre Caravias saíam palavras estranhas. “Democracia” era uma delas. No Paraguai, o general Alfredo Stroessner tomou o poder abolindo a Constituição. Foi o mais longevo dos ditadores latino-americanos, que permaneceu no poder de 15 de agosto de 1954 até o dia 03 de fevereiro de 1989, quando foi destronado pelo general Andrés Rodríguez. Duas gerações de cidadãos cresceram sem saber sequer o que significava liberdade de opinião.

Contou sua história em um dos dois blogs que escreve na Paróquia Cristo Rei, em Assunção. A igreja recorda vagamente as reduções, as missões jesuítas onde os filhos de Santo Inácio de Loyola restituíam direitos e dignidade aos índios ameaçados pelos conquistadores. “Conheço bem o Bergoglio. Encontrei-me com ele repetidas vezes em 1975. Foi o meu superior provincial. Ouviu-me e atendeu-me sempre com carinho. Mas eu era um problema para ele”.

Tudo começou três anos antes, em Assunção. “Foi sequestrado por um comando policial e expulso do país sem papéis na fronteira com a Argentina. A ditadura de Stroessner não poupou calúnias para sujar o meu compromisso com as Ligas Agrárias Cristãs, das quais eu era o assessor nacional”. Durante dois anos permaneceu no Chaco argentino, no extremo norte do país. Ali recomeçou do zero. “Consegui formar um sindicato dos lenhadores, cruelmente explorados pelos contratadores de mão de obra da região”.

Também desta vez não lhe perdoaram. Certa manhã, a polícia, que cumpria ordens da Junta encabeçada por Videla, apresentou-se na paróquia onde Caravias morava. Acusaram-no de repassar armas aos lenhadores. Reviraram toda a igreja, mas não encontraram nada. Então, antes de deixar o local, quebraram tudo. “O superior da Companhia de Jesus ordenou que deixássemos imediatamente a região. Pois na próxima vez a própria polícia poderia deixar uma arma plantada por eles mesmos...”. A única alternativa foi ir para Buenos Aires. “Fui para Buenos Aires, ao Teologado de San Miguel, onde passei seis meses estudando Cristologia”. “Lá comecei a incursionar nas “Villas Miseria” atendendo os paraguaios”.

Era previsível que também ali não pudesse trabalhar tranquilo. “Poucos meses depois, Bergoglio me comunicou que tinha informações de que a Tríplice A (paramilitares que preparavam o caminho para a ditadura) tinha decretado a minha morte”.

Antes de deixar a Argentina, Caravias decidiu despedir-se de seus amigos do Chaco. Não foi uma boa ideia. Foi preso junto com a religiosa que o levava no carro. “A verdade é que estavam muito bem informados sobre as minhas atividades”. Parecia “bem fichado”. Sabiam inclusive a hora e com quem tomou um sorvete nessa mesma tarde. Meteram-no num calabouço. “Quão duro me soou o barulho seco da tranca da porta! Não sabia o que seria de mim. É terrível essa insegurança!”

O cheio da cela, o travesseiro imundo, a sujeira. “Quantas pessoas teriam apoiado sua cabeça nesse travesseiro para estar tão sujo!” Foi uma noite insone, não só pelo calor e pela umidade. Antes de amanhecer, tiraram-no arrastado. Explicaram-lhe que ali tudo acabava. No meio da escuridão chegou a ver as armas que apontavam na sua direção. “Fogo”, gritou um, que devia ser o chefe. Era o rito macabro das simulações de fuzilamento. O primeiro passo para quebrar as defesas psicológica dos detidos.

Na manhã seguinte, tiraram-no novamente do calabouço. Pensou que seguramente iria “desaparecer”. Mas, na realidade, alguém interveio para que o libertassem. O jesuíta espanhol foi entregue a um monsenhor alertado por Bergoglio. Três dias depois estava em um avião rumo a Madri. “Pessimista, desanimado, com um terrível complexo de herege em meu coração, comecei o meu segundo desterro”. Mas quando chegou de volta a Espanha, ardia em desejos de voltar a ser missionário na América do Sul.

Bergoglio deu-lhe indicações precisas sobre a maneira de agir durante as conversas telefônicas e na correspondência. Escolheram a metáfora da meteorologia. Caravias perguntava como estava o clima. Bergoglio lhe respondia que a umidade do ar ainda era muito elevada, ou então que “não lhe convém vir porque faria mal à sua saúde”. Anos depois, quando finalmente houve a redemocratização do país, o padre José Luis pôde voltar. “Aqueles que pensavam como eu eram considerados comunistas. Mas Bergoglio foi um padre de coração nobre e me ajudou a fugir de uma morte certa. E por isso sempre lhe serei grato”.



segunda-feira, 13 de julho de 2015

Papa exalta a virtude da hospitalidade na vida do cristão

Mais um discurso contundente do papa durante a visita ao Paraguai, segundo a Rádio Vaticano:

Papa na Missa: cristão é quem aprendeu a hospedar, a alojar

Depois da visita ao Bañado Norte, zona muito pobre e pantanosa da cidade de Asunción, o Papa Francisco dirigiu-se ao Campo Grande de Ñu Guazú (santuário onde S. João Paulo II canonizou S. Roque Gonzalez de Santa Cruz e Companheiros, durante a sua Viagem Apostólica em 1988), onde presidiu à celebração eucarística. Na sua homilia o Papa começou por citar as palavras do salmo 84 "O Senhor nos dará a chuva e a nossa terra dará o seu fruto" para dizer que a confiança nasce da fé, uma comunhão que sempre dá frutos, sempre dá a vida, uma confiança que se torna testemunho nos rostos de muitos que nos encorajam a seguir Jesus.

E, comentando o Evangelho do XV domingo do Tempo Comum, Francisco nos diz que os discípulos são aqueles que aprendem a viver na confiança da amizade, pois o Evangelho nos fala deste discipulado, nos apresenta a cédula de identidade do cristão, a sua carta de apresentação, a sua credencial:
"Jesus chama os seus discípulos e envia-os, dando-lhes regras claras e precisas. Desafia-os a um conjunto de atitudes, comportamentos que devem ter. Sucede, e não raras vezes, que nos poderão parecer atitudes exageradas ou absurdas … mas Jesus é muito preciso, muito claro. Não lhes diz: fazei de conta, ou fazei o que puderdes. Recordemo-las juntos: «Não leveis nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem alforje, nem dinheiro (…), permanecei na casa onde vos derem alojamento»”
Mas há uma palavra muitas vezes esquecida, prossegue o Papa, mas central na espiritualidade cristã, na experiência do discipulado, é a palavra hospitalidade. O cristão é aquele que aprendeu a hospedar, acolher. Jesus não os envia como poderosos, como proprietários, chefes, carregados de leis, normas. Ao contrário, mostra-lhes que o caminho do cristão é transformar o coração:
“Aprender a viver de forma diferente, com outra lei, sob outra norma. É passar da lógica do egoísmo, do fechamento, da luta, da divisão, da superioridade para a lógica da vida, da gratuidade, do amor. Passar da lógica do dominar, esmagar, manipular para a lógica do acolher, receber, cuidar: são duas as lógicas que estão em jogo, duas maneiras de enfrentar a vida, a missão”.
E muitas vezes, continuou o Papa, concebemos a missão com base em projectos ou programas, idealizamos a evangelização, pondo de pé milhares de estratégias, tácticas, manobras, truques, procurando que as pessoas se convertam com base nos nossos argumentos, quando na verdade o Senhor nos diz hoje muito claramente que não se convence com os argumentos, as estratégias e as tácticas, mas aprendendo a alojar.

E O Papa reiterou que a Igreja é uma mãe de coração aberto que sabe acolher, receber, especialmente a quem precisa de maior cuidado, que está em maior dificuldade, a Igreja é a casa da hospitalidade:
“Praticar hospitalidade com o faminto, o sedento, o forasteiro, o nu, o enfermo, o encarcerado, com o leproso, o paralítico; hospitalidade com aquele que não pensa como nós, com a pessoa que não têm fé ou a perdeu; hospitalidade com o perseguido, o desempregado; hospitalidade com as culturas diferentes, de que esta terra é tão rica; hospitalidade com o pecador, porque cada um de nós também o é”.
Mas existe um mal, adverte Francisco, que pouco a pouco constrói o seu ninho no nosso coração e "come" a nossa vitalidade: é a solidão, a solidão que pode ter muitas causas, muitos motivos, e nos separa dos outros, de Deus, da comunidade, vai nos encerrando em nós mesmos. Mas Jesus abre-nos a uma lógica nova:
“Jesus abre-nos a uma lógica nova; a um horizonte cheio de vida, beleza, verdade, plenitude. Deus nunca fecha os horizontes, Deus nunca é passivo face à vida e ao sofrimento dos seus filhos. Deus nunca Se deixa vencer em generosidade. Foi para isto que nos enviou seu Filho, no-Lo oferece, entrega, compartilha: para aprendermos o caminho da fraternidade, do dom”.
E para Francisco trata-se de um novo horizonte, uma nova Palavra para tantas situações de exclusão, desagregação, confinamento, isolamento, é uma Palavra que quebra o silêncio da solidão.

E assim, quando estivermos cansados ou se tornar pesada a evangelização, diz o Papa, é bom recordar que a vida proposta por Jesus corresponde às necessidades mais profundas das pessoas, porque todos fomos criados para a amizade com Jesus e o amor fraterno. E adverte:
“Uma coisa é certa! Não podemos obrigar ninguém a receber-nos, a hospedar-nos; isto é certo e faz parte da nossa pobreza e da nossa liberdade. Mas é certo também que ninguém nos pode obrigar a não sermos acolhedores, hospedeiros da vida do nosso Povo. Ninguém nos pode pedir que não recebamos e abracemos a vida dos nossos irmãos, especialmente dos que perderam a esperança e o gosto pela vida. Como é belo imaginar as nossas paróquias, comunidades, capelas, lugares onde estão os cristãos como verdadeiros centros de encontro tanto entre nós como com Deus”.
E o Papa terminou apresentando Maria como modelo da Igreja: alojar como Maria – disse - que não dominou nem Se apoderou da Palavra de Deus; pelo contrário, hospedou-A, gerou-A e entregou-A; alojar como a terra que não domina a semente, mas que a recebe, nutre e faz germinar, alojar a vida de Deus nos nossos irmãos com a confiança, com a certeza de que «o Senhor nos dará chuva e dará fruto a nossa terra».



sábado, 11 de julho de 2015

Papa relembra sofrimento paraguaio durante visita ao país


A matéria é da Rádio Vaticano:

Papa às autoridades do Paraguai: prioridade aos pobres

Foi debaixo de uma chuva intensa que o Papa Francisco chegou à cidade de Assuncion, capital do Paraguai nesta sexta-feira dia 10 de julho. O mau tempo não desencorajou os paraguaios que vieram em massa pelas estradas para saudar o Santo Padre.

No aeroporto de Assuncion, a cerimónia de boas-vindas decorreu ao sabor de uma sugestiva coreografia com danças e cânticos guarani. A acolher o Papa estava o Presidente Horácio Cartes.

O primeiro discurso do Papa Francisco foi no encontro com as autoridades no Palácio Presidencial. O Santo Padre agradeceu a hospitalidade e recordou a dolorosa história do Paraguai que entre os séculos XIX e XX sofreu conflitos fratricidas, falta de liberdade e violações dos direitos humanos:
“Quanta dor e quanta morte! Mas é admirável a tenacidade e o espírito de superação do povo paraguaio para se refazer perante tanta adversidade e prosseguir nos seus esforços para construir uma nação próspera e em paz.”
No seu discurso o Santo Padre prestou homenagem aos milhares de paraguaios simples, cujos nomes não aparecerão escritos nos livros de história “mas que foram e continuam a ser verdadeiros protagonistas da vida do seu povo”. Em particular, o Papa reconheceu com emoção e admiração o papel desempenhado pela mulher paraguaia nestes momentos dramáticos da história do país.

Reconhecendo que já há alguns anos que o Paraguai está empenhado na construção de um projeto democrático sólido e estável e empenhado também em combater a corrupção, o Papa Francisco exortou os paraguaios a potenciarem o diálogo como meio privilegiado para favorecer o bem comum.

Salientando a cultura do encontro e o respeito das legítimas diferenças de opinião como base para a superação dos conflitos e das divisões ideológicas, o Santo Padre declarou que os pobres devem ser a prioridade:
“Os pobres e necessitados deverão ocupar um lugar prioritário. Estão-se a cumprir muitos esforços para que o Paraguai progrida no caminho do crescimento económico. Houve passos importantes nos campos da educação e da saúde. Não pare o esforço de todos os atores sociais, enquanto existirem crianças sem acesso à instrução, famílias sem casa, trabalhadores sem um trabalho digno, agricultores sem uma terra para cultivar e tantas pessoas obrigadas a emigrar para um futuro incerto.”
“…que não haja mais vítimas da violência, da corrupção ou do narcotráfico. Um desenvolvimento económico que não tem em conta os mais fracos e infelizes, não é um verdadeiro desenvolvimento.”
Na conclusão do seu discurso o Papa Francisco assegurou a colaboração da Igreja Católica para “uma sociedade inclusiva” e que indica “o caminho da misericórdia” aberto por Cristo que “ilumina a caridade” para que ninguém se sinta marginalizado.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

As vitoriosas vítimas de Abdelmassih


Se há alguma coisa a ser comemorada na prisão de Roger Abdelmassih, além da sua prisão em si, é a maneira como dezenas (talvez centenas) de mulheres estão tendo a oportunidade de lidar com a situação e superar os traumas que lhes foram causados pelo ex-médico.

Abdelmassih, hoje com 70 anos de idade, foi condenado a 270 anos de reclusão, por crimes de estupro e atentado violento ao pudor que - desavergonhada e canalhamente - cometia contra dezenas de mulheres que o procuravam, na sua luxuosa clínica de inseminação artificial da exclusiva Avenida Brasil de São Paulo, para engravidar.

Os crimes invariavelmente ocorriam enquanto as vítimas estavam um tanto quanto grogues pelo efeito da anestesia, o que lhes dava pouco ou nenhum poder de defesa contra as investidas do maníaco.

Animadas - talvez - pela superexposição do ex-médico nos programas de celebridades, em que arrotava seus "casos de sucesso", mulheres que tinham dificuldade em ter filhos o procuravam sem saber que a partir do momento em que entrassem na clínica de horrores estariam sujeitas a uma espiral crescente de dramas: o gasto e a esperança que se despendia ali, o abuso sexual, a vergonha, a frustração, o nojo, além da perda da autoestima e do próprio casamento (em muitos casos).

Isso sem contar com uma suposta manipulação genética, ou com a suspeita de que o ex-médico teria utilizado o próprio sêmen em algumas "fertilizações".

Se tal não bastasse, essas sobreviventes tiveram que aguentar os sempre férteis meandros do aparato judiciário brasileiro, com seu prende-e-solta e sua lasciva indiferença para com a dor das vítimas, resultando num habeas corpus concedido a Abdelmassih pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, na véspera do Natal de 2009, para horror não só das 56 vítimas listadas no processo penal que o condenou, como de toda a sociedade brasileira.

A fuga, a seguir, foi só mais um capítulo na vida do ex-médico, ainda que ele pensasse que o manto da impunidade o cobriria eternamente.

Sua prisão em Assunção, capital do Paraguai, na última terça-feira, dia 19 de agosto de 2014, reacendeu a esperança e o desejo de viver de dezenas de vítimas do estuprador da Avenida Brasil. Uma delas expressou a O Globo que se tratava do "início de uma cura".

Cura esta que, cá entre nós, já havia começado muitos anos atrás, quando elas tiveram a coragem de enfrentar a vergonha e o preconceito que a sociedade lhes impunha, e a ousadia de denunciar abertamente um (então) médico rico e poderoso.

Nos últimos dias, a imprensa tem repercutido as declarações dolorosas, mas vitoriosas, de muitas dessas guerreiras, a quem devemos nosso respeito e nossa homenagem.

Seus rostos trazem as marcas das feridas causadas por pessoas e instituições em quem elas acreditavam, mas hoje expressam a beleza de quem não teve medo de se expor e lutar pelos seus direitos e - no fundo - pelas suas próprias vidas.

Elas - sim! - nos fazem ter orgulho de sermos brasileiros.

A essas heroínas brasileiras enviamos o nosso reconhecimento e os melhores votos de que sigam adiante de cabeça erguida, honradas, respeitadas e com o sentimento do dever cumprido. Vocês são um grande exemplo para todos nós!



quinta-feira, 2 de maio de 2013

"Maníaco da cruz" quer fim dos cristãos


Trata-se de mais um triste caso psiquiátrico que deixou em pânico a região centro-sudoeste do Brasil, mas não deixa de ser morbidamente interessante ver o que se passa no interior de uma mente perturbada.


A notícia é do CGN:


‘Maníaco da Cruz’ deixa escritos na pensão do Paraguai

Textos dão a entender que ele estava mais perto de cometer outro crime...

Em uma entrevista concedida para rádio Amabay do Paraguai no momento em que foi preso pela polícia daquele país, Dionathan Celestrino, 21 anos, conhecido como “Maníaco da Cruz” deixou algumas páginas escritas na pensão em que estava hospedado.

O site de notícias da rádio Amambay mostra alguns dos objetos deixados por Dionathan, como por exemplo, textos que dão a entender que ele estava mais perto de cometer outro crime e que desejava o fim dos cristãos. Nas folhas de papel, ele havia escrito algumas novas supostas mensagens e ordens que deveria cumprir.

Na entrevista, o jovem chegou a afirmar que imitou em parte o "Maníaco do Parque", um assassino em série que matou nove mulheres no Parque Estadual de São Paulo.

Dona da pensão

A proprietária da pensão no Paraguai onde Dionathan ficou, disse em entrevista que jamais poderia imaginar que o jovem seria perigoso, segundo ela, ele era um bom rapaz, que andava sempre calado e quase não saia do seu quarto e que também estava tentando aprender a língua.

Ainda segundo ela, o pagamento por sua estadia foi feita de forma antecipada e ele recebia a visita de duas mulheres, supostamente sua mãe e sua tia. Em algumas ocasiões, ele teria ligado para a mãe e a tia de um celular que emprestava de uma vizinha. De acordo com a mulher, Dionathan teria cerca de dois milhões de Guarani em sua posse, quando ele foi preso.

Sem definição

Já em Ponta Porã, a reunião que definiria o destino de Dionathan Celestrino, 21 anos, conhecido como “Maníaco da Cruz” não trouxe resultados e o jovem passará este feriado sozinho, em uma das celas do 2º Distrito Policial da cidade. Das 23 clínicas em São Paulo e Minas Gerais que foram consultadas para a transferência, nenhuma aceitou a internação de Dionathan.

Crimes

Dionathan residia em 2008 com a família no município de Rio Brilhante, distante 160 quilômetros de Campo Grande. Ele assassinou três pessoas por estrangulamento e ainda utilizava uma faca na qual ele escreveu INRI (Jesus Nazareno Rei dos Judeus).

Durante o ritual, o ‘Maníaco da Cruz’ ainda deixava as vítimas em forma de uma cruz e por isto foi dado a ele este apelido. Além disso, ele realizava uma espécie de julgamento, para escolher quais as pessoas eram impuras e a partir daí cometia os crimes.



Abaixo, um trecho dos escritos do "maníaco da cruz", transcrito com os erros gramáticos do autor, que diz algo como:

Nova Ordem (século XXI os cristãos na fogueira)
Os cristãos sempre tentam nos cegar com uma bença inesistente. Nos controlam de todas as formas, mais os tempos de abaixarmos as cabeças para esta escória chamada: cristianismo, sejam cristãos católicos ou protestantes, uma voz que ecoava frágil em nossas mentes se tornou algo que não conseguimos parar de vociferar: morte a igreja, a religião e uma das maiores maldições da história da humanidade, a cristandade. A revolta já está mais que preparada. E nós prontos para a guerra - morte aos cristãos.







sábado, 2 de março de 2013

Paraguai quer canhão Cristão de volta

OK, este é um pleito antigo e legítimo (mais que do governo) do povo paraguaio, exercitado mais uma vez em plena campanha presidencial com fins eleitoreiros, mas, cá entre nós, que ideia exótica foi essa de dar o nome de Cristão a um canhão, ainda que o cruel "batismo" da arma tenha acontecido no século XIX?

A justificativa para o inusitado nome vem do fato de que o enorme canhão foi fundido com os sinos de muitas igrejas paraguaias da época da sangrenta guerra que devastou o país, mas mesmo assim não deixa de ser estranho sapecar o nome "cristão" ao poderoso artefato.

A notícia é da Folha de S. Paulo:

Presidente paraguaio pede que Brasil devolva troféus de guerra

O presidente paraguaio, Federico Franco, voltou a pedir nesta sexta-feira que o Brasil devolva os troféus da Guerra do Paraguai (1864-70), travada entre o país e a Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai). O pedido foi feito durante um evento para marcar o 143º aniversário do confronto.

"Venho hoje ao altar da pátria para reivindicar e exigir a devolução do canhão Cristão e do arquivo secreto da Tríplice Aliança que estão na República do Brasil", disse Franco, em discurso. "O canhão Cristão é propriedade do Paraguai. Os arquivos militares que estão no Rio de Janeiro também são propriedade do Estado paraguaio."

Franco disse que pedia "com respeito, mas com firmeza" à colega Dilma Rousseff "que restitua os troféus da guerra para que, de alguma maneira, traga paz à sociedade por aquele holocausto que significou a Tríplice Aliança para o país".

O Paraguai celebra no dia 1º de março de cada ano o Dia dos Heróis, como lembrança pela morte em 1870 do marechal Francisco Solano López, em Cerro Corá, pelas mãos das tropas brasileiras. A ocupação de Assunção se manteve até 1876.

A eliminação do condutor paraguaio do conflito colocou fim à guerra que devastou o país e reduziu em 10% a sua população masculina.

Brasil, Argentina e Uruguai retiraram seus embaixadores de Assunção há oito meses, depois de classificarem de golpe a destituição do esquerdista Fernando Lugo e a substituição dele por Franco, que detinha o cargo de vice-presidente. O Congresso destituiu Lugo via julgamento político "por mau desempenho das funções".



sábado, 8 de setembro de 2012

Presidente do Paraguai interrompe missa de bispo para defender transgênicos

Alguns dias atrás, a Igreja Católica do Paraguai pediu desculpas por ter - desastradamente - interferido no processo democrático do país ao pedir que o ex-presidente (também ex-bispo) Fernando Lugo deixasse o poder sem se contrapor ao impeachment-relâmpago que sofreu.

Parece que o novo tipo de golpe de Estado patrocinado pelo Congresso paraguaio significou mais que um revés na ingenuidade católica de fazer política por aqueles lados, e ameaça se imiscuir inclusive na liturgia romana.

Foi o que aconteceu esta semana, no último dia 6 de setembro, quando o atual presidente Federico Franco interrompeu a eucaristia celebrada pelo bispo de Misiones, Monsenhor Melanio Medina, durante missa realizada na paróquia de Villa Florida, no departamento de Misiones, a cerca de 250 km a sudeste da capital Asunción.

Durante a homilia, Monsenhor Medina criticou a medida governamental que autorizou a importação de sementes transgênicas de milho e algodão, dizendo que elas "são prejudiciais à vida e ao meio ambiente" e "podem causar a morte".

A investida do bispo contra a engenharia genética que recheia os cofres das multinacionais do setor não passou despercebida pelo presidente paraguaio, que participava da missa.

A exemplo de todo "bom" golpista latinoamericano que se preze, Federico Franco se levantou de sopetão, soltando um sonoro "Me permite, voy a explicar Monseñor", subiu ao altar e tomou de assalto o microfone da mão do bispo, ante a massiva surpresa de todos que acompanhavam o rito religioso.

Enquanto a hóstia esperava o momento de ser repartida, o mandatário paraguaio, microfone em punho, se dirigiu ao bispo dizendo: "se o senhor me apresentar um documento científico ou de um pesquisador que demonstrem que os transgênicos causam dano, reverei minha posição".

Federico Franco ainda passou alguns minutos defendendo os transgênicos - assim, gratuitamente, sem que ninguém lhe houvesse pedido ou dado procuração para tanto - e, para sorte do bispo, candidamente devolveu a este o microfone, o que não costuma acontecer quando eles tomam as cadeiras dos presidentes democraticamente eleitos da região.

Vendo que a missa desandava, ao Monsenhor Medina não restou outra alternativa senão por panos quentes no constrangimento causado, contemporizando na base do "vamos deixar este tema por aqui, mas há que revisar a utilização de sementes transgênicas".

Terminada a cerimônia, o bispo de Misiones esclareceu aos jornalistas presentes que não se havia incomodado com a inoportuna intervenção presidencial e disse ainda que "é normal aqui em Villa Florida que as missas sejam dialogadas e que as pessoas participem, isso é algo totalmente válido e a mim não me perturba", acrescentando que "costumamos inclusive incentivar as pessoas a falarem".

Monsenhor Medina não titubeou, entretanto, ao afirmar que é a primeira vez que um presidente o interrompe, reconhecendo que "eu estou acostumado a que falem, mas é a primeira vez que um presidente da República faz isso, já que também é a primeira vez que um deles assiste a uma missa que eu presido", deixando transparecer um suspiro de lamento pelo fato de que nem Fernando Lugo o havia brindado com essa honra quando ocupou o mais alto cargo do país.

Parece, contudo, que multinacionais do agronegócio têm muito mais poder no Paraguai do que a nossa vã filosofia, política ou teologia conseguem alcançar.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo (mas não o juiz a seu favor)...

A fonte das informações acima é a ACIPrensa.



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Igreja Católica do Paraguai pede perdão por ter apoiado golpe de Estado

A julgar pelo pedido oficial de desculpas, a Igreja Católica paraguaia foi (de novo) só mais uma massa de manobra num golpe de Estado na América Latina.

Será que não dá para evitar este tipo de quartelada - pagando de "inocente útil" chorando sobre o leite (ou sangue) derramado - pelo menos uma vez na vida?

A notícia vem pelo Opera Mundi:

Igreja Católica do Paraguai se desculpa por ter pedido renúncia de Lugo

Na véspera do impeachment, líderes da instituição se reuniram com ex-presidente e pediram sua saída do cargo

A Igreja Católica do Paraguai pediu nesta sexta-feira (31/08) "compreensão e perdão" por ter requisitado a renúncia do ex-presidente Fernando Lugo durante o desenvolvimento do julgamento político no país que terminou com seu impeachment.

Na noite de 21 de junho, na véspera da destituição, o presidente da CEP (Conferência Episcopal Paraguaia), monsenhor Claudio Giménez, e outros dois prelados visitaram Lugo para pedir que ele apresentasse sua renúncia para evitar um suposto cenário de violência que se configurava.

"Julgamos que foram cometidos erros, pedimos a compreensão e o perdão", apontou uma mensagem enviada nesta sexta pela Conferência dos Bispos, acrescentando que "nossas limitações foram reconhecidas".

A mensagem acrescentou que a atuação de alguns bispos da CEP "deveu-se à notícia de um iminente derramamento de sangue" e que, diante disso, a Igreja "quis evitar que houvesse outro ato criminosos entre irmãos".

O "outro ato" se refere ao então recente enfrentamento entre camponeses e policiais que deixou um total de 17 mortos e que foi o principal argumento para o impeachment contra Lugo.

Sacerdotes, bispos e fiéis questionaram na ocasião o pedido de renúncia realizado em um momento político tão crítico.



terça-feira, 31 de julho de 2012

Final olímpica de esconde-esconde


Pra quê ficar se preocupando com futebol, vôlei, basquete, atletismo, natação, etc. etc., em Londres 2012?

A melhor coisa a fazer é acompanhar a emocionante final olímpica de esconde-esconde entre o nosso vizinho Paraguai e a dona da casa, a Grã-Bretanha, na criação genial do Monty Python:





quarta-feira, 27 de junho de 2012

Quando o Vaticano se comporta como seita paraguaia

Artigo de Mauro Santayana no JBOnline:

O golpe em Assunção e a Tríplice Fronteira

A moderação dos Estados Unidos, que dizem estranhar a rapidez do processo de impeachment do presidente Lugo, não deve alimentar o otimismo continental. Em plena campanha eleitoral, a equipe de Obama (mesmo a senhora Clinton) caminha com cautela, e não lhe convém tomar atitudes drásticas nestas semanas. Esta razão os leva a deixar o assunto, neste momento, nas mãos da OEA. Na verdade, se as autoridades de Washington não ordenaram a operação relâmpago contra Lugo, não há dúvida de que o Parlamento paraguaio vem sendo, e há muito, movido pelo controle remoto do Norte.

E é quase certo que, ao agir como agiram, os inimigos de Lugo contavam com o aval norte-americano. E ainda contam. Conforme o Wikileaks revelou, a embaixada norte-americana informava a Washington, em março de 2009, que a direita preparava um “golpe democrático” contra Lugo, mediante o Parlamento. Infelizmente, não sabemos o que a embaixada dos Estados Unidos em Assunção comunicou ao seu governo depois e durante toda a maturação do golpe: Assange e Meaning estão fora de ação.

Não é segredo que os falcões ianques sonham com o controle da Tríplice Fronteira. Não há, no sul do Hemisfério, ponto mais estratégico do que o que une o Brasil ao Paraguai e à Argentina. É o ponto central da região mais populosa e mais industrializada da América do Sul, a pouco mais de duas horas de voo de Buenos Aires, de São Paulo e de Brasília. Isso sem falar nas cataratas do Iguaçu, no Aquífero Guarani e na Usina de Itaipu. Por isso mesmo, qualquer coisa que ocorra em Assunção e em Buenos Aires nos interessa, e de muito perto.

Não procede a afirmação de Julio Sanguinetti, o ex-presidente uruguaio, de que estamos intervindo em assuntos internos do Paraguai. É provável que o ex-presidente — que teve um desempenho neoliberal durante seu mandato — esteja, além de ao Brasil e à Argentina, dirigindo suas críticas também a José Mujica, lutador contra a ditadura militar, que o manteve durante 14 anos prisioneiro, e que vem exercendo um governo exemplar de esquerda no Uruguai.

Não houve intervenção nos assuntos internos do Paraguai, mas a reação normal de dois organismos internacionais que se regem por tratados de defesa do estado de direito no continente, o Mercosul e a Unasul — isso sem se falar na OEA, cujo presidente condenou, ad referendum da assembleia, o golpe parlamentar de Assunção.

É da norma das relações internacionais a manifestação de desagrado contra decisões de outros países, mediante medidas diplomáticas. Essas medidas podem evoluir, conforme a situação, até a ruptura de relações, sem que haja intervenção nos assuntos internos, nem violação aos princípios da autodeterminação dos povos.

A prudência — mesmo quando os atos internos não ameacem os países vizinhos — manda não reconhecer, de afogadilho, um governo que surge ex-abrupto, em manobra parlamentar de poucas horas. E se trata de sadia providência expressar, de imediato, o desconforto pelo processo de deposição, sem que tenha havido investigação minuciosa dos fatos alegados, e amplo direito de defesa do presidente.

Registre-se o açodamento nada cristão do núncio apostólico em hipotecar solidariedade ao sucessor de Lugo, a ponto de celebrar missa de regozijo no dia de sua posse. O Vaticano, ao ser o primeiro a reconhecer o novo governo, não agiu como Estado, mas, sim, como sede de uma seita religiosa como outra qualquer.

O bispo é um pecador, é verdade, mas menos pecador do que muitos outros prelados da Igreja. Ele, ao gerar filhos, agiu como um homem comum. Outros foram muito mais adiante nos pecados da carne — sem falar em outros deslizes, da mesma gravidade — e têm sido “compreendidos” e protegidos pela alta hierarquia da Igreja. O maior pecado de Lugo é o de defender os pobres, de retornar aos postulados da Teologia da Libertação.

Lugo parece decidido a recuperar o seu mandato — que duraria, constitucionalmente, até agosto do próximo ano. Não parece que isso seja fácil, embora não seja improvável. Na realidade, Lugo não conta com a maior parcela da classe média paraguaia, e possivelmente enfrente a hostilidade das forças militares. Os chamados poderes de fato — a começar pela Igreja Católica, que tem um estatuto de privilégios no Paraguai — não assimilaram o bispo e as suas ideias. Em política, no entanto, não convém subestimar os imprevistos.

Os fazendeiros brasileiros que se aproveitaram dos preços relativamente baixos das terras paraguaias, e lá se fixaram, não podem colocar os seus interesses econômicos acima dos interesses permanentes da nação. É natural que aspirem a boas relações entre os dois países e que, até mesmo, peçam a Dilma que reconheça o governo. Mas o governo brasileiro não parece disposto a curvar-se diante dessa demanda corporativa dos “brasiguaios”.

No Paraguai se repete uma endemia política continental, sob o regime presidencialista. O povo vota em quem se dispõe a lutar contra as desigualdades e em assegurar a todos a educação, a saúde e a segurança, mediante a força do Estado. Os parlamentos são eleitos por feudos eleitorais dominados por oligarcas, que pretendem, isso sim, manter seus privilégios de fortuna, de classe, de relações familiares.

Nós sofremos isso com a rebelião parlamentar, empresarial e militar (com apoio estrangeiro) contra Getulio, em 1954, que o levou ao suicídio; contra Juscelino, mesmo antes de sua posse, e, em duas ocasiões, durante seu mandato. Todas foram debeladas. A conspiração se repetiu com Jânio, e com Jango — deposto pela aliança golpista civil e militar, patrocinada por Washington, em 1964.

A decisão dos países do Mercosul de suspender o Paraguai de sua filiação ao tratado, e a da Unasul de só reconhecer o governo paraguaio que nasça das novas eleições marcadas para abril, não ferem a soberania do Paraguai, mas expressam um direito de evitar que as duas alianças continentais sejam cúmplices de um golpe contra o estado democrático de direito no país vizinho.



sábado, 23 de junho de 2012

Crônica de um golpe anunciado

Implicações religiosas também atuaram no "golpe branco" contra o presidente paraguaio, o ex-bispo católico Fernando Lugo, segundo artigo do Brasil 247:

Como elite, mídia e Igreja católica jantaram Lugo

Leonardo Attuch _247Ainda que a constituição paraguaia permita o juízo político de seus governantes, um processo de impeachment que se desenrola em apenas dois dias só pode ser definido com uma única palavra: golpe. Foi isso o que aconteceu no Paraguai, por mais que vozes conservadoras, daqui e de lá, defendam a legalidade do processo. Ponto.

Até aí, não há muita surpresa, uma vez que a história paraguaia é marcada por golpes, ditaduras e quarteladas. A diferença, desta vez, foi a sutileza de um “golpe parlamentar”, um “golpe democrático”. Em resumo, um golpe branco, imposto pela elite oligárquica do país.

Surpresa em si foi a reação do presidente Fernando Lugo, que não opôs resistência alguma e se ofereceu passivamente ao martírio. A que se deve essa atitude? Talvez seja fruto da sua formação católica. Ex-padre, e achincalhado por muitos pelas dezenas de filhos que fez, Lugo tem alma cristã. Ao deixar o poder, ele ofereceu a outra face. “Saio pela porta maior, a do coração”, disse o ex-presidente. Lugo ainda tentará – em vão – recuperar seus direitos políticos, mas essa é uma batalha perdida.

No Paraguai, tudo parece estar dominado: Congresso, meios de comunicação e a própria Igreja Católica. Nos jornais paraguaios de hoje, não se encontrará uma única referência ao golpe. Periódicos como "ABC Color" e "Cronica" tratam a deposição de um presidente eleito como um fato corriqueiro, tal qual uma partida de futebol do Cerro Porteño. O ABC, por sinal, trouxe a seguinte manchete no dia de ontem, que já antecipava a decisão do Congresso: "Se não renunciar, Lugo será cassado".

Assim como os meios de comunicação, a Igreja Católica paraguaia também se uniu à elite conservadora na trama do golpe de Estado. Horas antes do “juízo político”, Lugo recebeu, na residência oficial do país, um grupo de bispos da Conferência Episcopal, que equivale à CNBB no Brasil. Um deles, Claudio Giménez saiu afirmando à imprensa que os padres pediram a Lugo que renunciasse para “evitar enfrentamentos”.

Passivo, Lugo assim resumiu sua queda: “Não é Lugo o destituído, é a história paraguaia”. Errado. A história paraguaia não foi destituída. Ela foi restituída.




Corrobora a versão acima noticiada a informação do Ultima Hora de que o núncio apostólico (embaixador do Vaticano) em Asunción, D. Eliseo Ariotti, foi a primeira autoridade diplomática a reconhecer o novo governo paraguaio.

Alegando que "me agrada muito que o povo simples e todas as autoridades tenham pensado no bem do país", o núncio apostólico se apressou em ter uma reunião com Federico Franco, o novo presidente do país.

Como não bastasse o apoio eufórico do Vaticano ao golpe parlamentar, D. Ariotti ainda convocou uma missa para as 4 da tarde de hoje, a pretexto de "rezar pela paz no Paraguai".



domingo, 27 de março de 2011

Elite paulistana agora contrata babás paraguaias

Cuidado, bandeirantes! Os séculos passaram e agora - quem diria! - são os guaranis que vão criar as vossas crianças, ainda que vosmecês pensem que vão escravizá-los de novo. Parodiando um conhecido político paulista de nome e sotaque árabe que os senhores até elegeram prefeito da vossa cidade, "escraviza, mas não mata!". Uma das senhoras patroas diz que "as nacionais são caras e pouco comprometidas com o serviço", justo elas que a-do-ram pagar os pedágios mais caros do mundo. O que as nobres senhoras se recusam a admitir, mesmo em sonhos, é que, com o desenvolvimento do Nordeste, a elite paulistana teve que se dar ao trabalho de "importar" babás do Paraguai, além de criar um "comando anti-terrorismo" contra as babás "malvadas" que querem que elas respeitem seus direitos trabalhistas, segundo informa o Estadão de hoje em duas notícas:

Notícia 1:

Famílias paulistanas contratam babás paraguaias

PAULO SAMPAIO - Agência Estado

Há cerca de duas semanas, quando recebeu do filho Mateus, de 5 anos, uma lembrança trazida da escola, a advogada Renata, de 34, ouviu espantada ele dizer: "Un recuerdo para mamá". Mateus se tornou "bilíngue" pela convivência com uma babá paraguaia. Renata, três filhos, empregou a estrangeira depois de uma experiência razoavelmente longa e traumática com brasileiras.

"As nacionais são caras e pouco comprometidas com o serviço", diz a administradora de empresas Monica, de 36, precursora de um grupo de mais de dez amigas endinheiradas que usam os serviços de babás paraguaias. A dela foi indicada por uma conhecida que morou alguns anos naquele país.

Mônica e Renata têm duas "importadas" em casa. As amigas preferem dar a entrevista no anonimato (os nomes estão trocados), porque as funcionárias nem sempre estão legalizadas.

Um estrangeiro tem 90 dias para ficar no Brasil como turista e, a partir daí, caso pretenda empregar-se, deve sair, tirar o visto de trabalho na Embaixada do Brasil em seu país e voltar. Mas nem sempre isso acontece.

"Esse cenário (da ilegalidade) é comum até entre executivos de multinacionais. Eles saem a cada três meses para renovar o visto de turista. Os empregados domésticos em geral permanecem na ilegalidade", diz o professor de Direito Internacional da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Dallari.

As empregadoras das babás afirmam que querem tudo legalizado. Dizem que a primeira providência é encaminhar a doméstica ao consulado paraguaio para tirar atestados de antecedentes. De acordo com a consulesa paraguaia em São Paulo, Maria Amélia Barbosa, a quantidade de imigrantes que procuram o consulado para o serviço só aumenta. "Há dois anos, não tinha notícia de paraguaias que pretendiam ser babás no Brasil. Hoje há um número razoável delas."

Como ocorre com domésticas que vêm das regiões mais pobres do Brasil, a babá paraguaia costuma indicar para as amigas de sua patroa a irmã, a prima, a tia. "O salário compensa bastante", diz Noeli, de 21 anos, uma das duas paraguaias que trabalham na casa de Renata. Ela conta que em seu país ganharia no máximo o equivalente a R$ 400. Aqui, é possível tirar R$ 1.000 - sem contar o câmbio favorável da moeda: R$ 1 vale dois guaranis e meio.

Por sua vez, o salário de uma babá brasileira, de acordo com números do Sindicato dos Empregados e Trabalhadores Domésticos da Grande São Paulo (Sindoméstico), subiu mais, proporcionalmente, do que o de qualquer outro da categoria. "Em média, em São Paulo, ela ganha R$ 1.500. O piso vai para R$ 600 em abril, mas ninguém mais ganha isso. Se não tem experiência, já começa com R$ 800", afirma Eliana Menezes, presidente do sindicato.



Notícia 2:


Mães criam grupo ''antiterrorismo'' contra empregadas

Elas trocam e-mails com observações sobre sua relação com funcionárias ''ingratas'', que as deixam até ''meio tontas''

Paulo Sampaio - O Estado de S.Paulo

Indignadas, cerca de 20 mães com sobrenomes tão colunáveis como Gasparian, Vidigal, Pignatari, Souza Aranha e Flecha de Lima se juntaram há cinco anos para fundar o GATB: Grupo Anti-Terrorismo de Babás.

A ideia era se proteger da "petulância" das funcionárias, dar dicas sobre o que fazer em caso de "abuso de direitos" e ainda trocar ideias sobre cabeleireiros, temporadas de esqui em Aspen e veraneios em condomínios do litoral norte.

Hoje, o grupo antiterrorista agrega por volta de cem mulheres que disparam e-mails diariamente. No campo "assunto", leem-se frases como: "É necessário pagar feriado??", com várias interrogações ou exclamações, inclusive em inglês, dependendo do tema. "Help!!"

Decisões em relação às empregadas são contadas como bravatas: "Girls, mandei a copeira e a cozinheira embora numa tacada só. Além de diversos furtos ao longo do ano, Rolex, roupas, etc, comprovamos um furto numa sexta à noite que só pode ter sido uma das duas", diz a integrante.

Dadas a rasgos de generosidade, elas passam adiante babás que não quiseram: "Oi, queridas amigas, é o seguinte: minha babá quebrou o braço e a irmã da minha folguista veio cobrir. Eu tinha até falado que se eu gostasse ia ficar com ela, mas o D. não quer duas irmãs juntas. O bom é que é daquelas que topam tudo: lava louça, passeia com os cachorros e até cozinha. Não é casada, mas tem um filho de 15 anos que se vira sozinho. Bom, quem tiver interessada o telefone é..."

Em autorreferências, as "girls" se ufanam: "Chique é ser GATB, onde meninas ajudam às outras sem pedir nada em troca!!"

TRECHO

"Meninas", diz uma das mensagens. "Minha babá veio com uma história sem pé nem cabeça, de que eu estou devendo todos os feriados em dinheiro, porque existe uma lei agora, onde ela tem esse direito. Estou meio tonta com a atitude, decepcionada com a falta de educação e gratidão por tudo que já fiz por ela, mas gostaria de saber se sou obrigada a pagar. Quando achamos que estamos com uma babá ótima, lá vêm as bombas!"





Aproveitando o nonsense e o mau gosto da notícia acima, me lembrei dos Inimigos do Rei cantando "Adelaide, a anã paraguaia", que dedico às senhoras paulistanas:


terça-feira, 17 de junho de 2008

Grandes canções - 2

Não... a razão de lembrar-me desta velha e boa guarânia não é a derrota da seleção do Dunga para o Paraguai, mas apenas para lembrar que nunca houve uma voz como a da Inhana na música brasileira. A combinação improvável da perfeição vocal de Inhana com a voz áspera do Cascatinha é mais uma prova de que beleza e simplicidade costumam andar juntos:


ÍNDIA

Cascatinha e Inhana
Composição: María Ortiz Guerrero - José Asunción Flores
(primeira letra por Rigoberto Fontao Meza)
Versão portuguesa: José Fortuna

Índia seus cabelos nos ombros caídos
Negros como a noite que não tem luar
Seus lábios de rosa para mim sorrindo
E a doce meiguice desse seu olhar
Índia da pele morena
Sua boca pequena eu quero beijar
Índia sangue tupi
Tens o cheiro da flor
Vem que eu quero lhe dar
Todo meu grande amor
Quando eu for embora para bem distante
E chegar a hora de dizer-lhe adeus
Fica nos meus braços só mais um instante
Deixa os meus lábios se unirem aos seus
Índia levarei saudade
Da felicidade que você me deu
Índia a sua imagem
Sempre comigo vai
Dentro do meu coração
Flor do meu Paraguai.

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