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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Thomas Merton, 100 anos depois

trappist monk catholic
Dedicamos este fim-de-semana a Thomas Merton (1915-1968), pensador, poeta e escritor católico, cujo centenário foi comemorado ontem, 31 de janeiro de 2015.

Hoje reproduzimos o artigo de Christian Albini para o IHU:

Merton, o profeta da fé ardente encarnada na vida


Merton realizou uma jornada interior que o tornou nosso contemporâneo e companheiro nas múltiplas rotas da fé e da dúvida.

A reflexão é do teólogo leigo italiano Christian Albini, coordenador do Centro de Espiritualidade da diocese de Crema, na Itália, e sócio-fundador da Associação Viandanti. O artigo foi publicado na revista Jesus, de janeiro de 2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Os atos ordinários da vida cotidiana – comer, dormir, caminhar etc. – tornam-se atos filosóficos que abrangem os princípios últimos da vida na própria vida e não em abstração." É a descoberta da história humana de Thomas Merton, nascido no dia 31 de janeiro de 1915, em Prades (França), e falecido no dia 10 de dezembro de 1968, em Bangkok, que foi um "viandante de reinos" desconhecidos, nos quais se adentrou antes de outros.

Muitos o conhecem pelo livro A montanha dos sete patamares (1948), o relato autobiográfico da sua juventude e do seu ingresso na abadia trapista de Gethsemani (Louisville, Kentucky, EUA), que vendeu milhões de cópias e é um dos textos de espiritualidade mais conhecidos do século XX. O livro é literatura autêntica, cuja prosa foi comparada com o jazz de Charlie Parker, que expressa a labuta da consciência ocidental e o vórtice da vida urbana entre os dois conflitos mundiais. Como um rio na cheia, a escrita atravessou toda a sua existência, derramando-se em uma produção enorme de ensaios, poemas, meditações, diários, milhares de cartas que influenciaram gerações de leitores.

Merton, verdadeiro "homem ardente", tocou múltiplas dimensões da experiência humana; o centro da sua viagem, porém, sempre foi Cristo, do qual se esforçou para reconhecer os traços do rosto em tudo e em todos. "O coração do sábio vive em Cristo. 'Fora' de Cristo, ao contrário, tudo se torna um abismo, e não há nem mesmo uma corda bamba para atravessá-lo."

Em uma primeira fase da sua experiência cristã, Merton buscou Cristo rejeitando e contestando o mundo moderno pelo materialismo consumista e pela violência que o impregnavam e o levavam na direção da guerra. Nessa fuga na separação, o mosteiro era uma antecipação terrena da cidade celeste, lugar para se encontrar com Deus na anulação de si e para se confiar às prescrições rituais e litúrgicas da vida trapista. Uma atitude desse tipo também se beneficiava das suas vicissitudes pessoais, marcadas pela morte precoce dos pais, ambos pintores, que se encontraram no ambiente artístico de Paris.

A juventude de Merton foi nômade e substancialmente indiferente à religião, com deslocamentos entre França, Inglaterra, Estados Unidos e viagens à Itália e à Alemanha. Sensível e intelectualmente curioso, alimentou-se desordenadamente de pintura, música, política, arquitetura e, especialmente, de literatura, estudada antes em Cambridge e depois na Columbia University de Nova York, com uma voracidade que ia do predileto William Blake a James Joyce e sonhando em se tornar um escritor. Nas suas andanças, não faltaram episódios de transgressão, que lhe deixaram o peso do sentimento de culpa, e aventuras amorosas.

A leitura das obras filosóficas de Etienne Gilson sobre a Idade Média e dos escritos com os quais Jacques Maritain atualizava o tomismo ofereceram a Merton uma chave de leitura da realidade, dando início à sua aproximação ao catolicismo, até receber o batismo em 1938.

Na fé católica, Merton finalmente encontrou uma casa, experimentando uma forte atração pela oração e pela mística alimentada pela leitura de Teresa de Ávila, pelos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola e, em particular, pela via da infância espiritual de Teresa de Lisieux. A intensidade da sua experiência de fé o levou a enfrentar radicalmente, e não sem um certo tormento, a interrogação vocacional no equilíbrio entre o compromisso social em tempo integral em meio aos pobres do Harlem e a vida monástica.

"A fé é o abrir-se de um olho interior, o olho do coração que deve se encher com a luz divina. A fé não é um simples assentimento, é vida. Abrange todos os setores da vida." Entrando no Gethsemani no dia 10 de dezembro de 1941, Merton queria se fazer esquecer, encontrar paz no anonimato e no escondimento. A paixão pela escrita, porém, continuava a habitá-lo, e o abade o encorajou a cultivá-la, pondo-a a serviço da comunidade e da Ordem.

Assim, o sucesso o projetou em um palco planetário, tornando-se, a despeito dele mesmo, uma espécie de testemunha da vida religiosa. Ele sempre foi permeado por uma tensão entre a atividade de escrita, projetada para o mundo externo, e o desejo de aprofundar cada vez mais a experiência contemplativa, sem circunscrevê-la aos momentos rituais e às prescrições da regra, mas estendendo-a à totalidade da existência.

A esse propósito, textos conhecidos e significativos são Sementes de contemplação, de 1949, depois reescrito e que se tornou Novas sementes de contemplação (1961), e Nenhum homem é uma ilha (1955).

"Beleza da luz solar caindo sobre um grande vaso de cravos brancos e vermelho e folhas verdes sobre o altar da capela do noviciado. A luz e a escuridão. (…) Esta flor, esta luz, neste momento, este silêncio. Dominus est. Eternidade. Ele passa. Ele permanece."

Na observação da natureza e das pequenas coisas, Merton intuiu uma via espiritual de encontro com Deus, orientando-se para a direção eremítica que a Ordem trapista, na época, não previa. Ele captava a solidão como possibilidade daquela intensidade da qual sentia a falta, intuindo a necessidade de uma renovação da vida religiosa que a libertasse da rigidez, dos pesos e das estratificações.

"Em Louisville, na esquina entre a Fourth Avenue e Walnut, no centro do distrito de compras, de repente fui tomado pela percepção de que eu amava todas aquelas pessoas, que elas eram minhas e eu era elas, que não poderíamos ser alienados uns aos outros, mesmo que fôssemos totalmente estranhos."

Tendo ido à cidade para uma comissão trivial, no dia 19 de março de 1958, Merton viveu uma espécie de experiência mística que pôs fim ao seu chamado "sonho de separação". Era a percepção clara de uma comunhão interior com o próprio tempo e a humanidade, alcançada dentro da solidão monástica.

Não por acaso, ele se apaixonou pela teologia da Bonhoeffer e pelo seu cristianismo "não religioso" que busca a Deus no centro do mundo de hoje na sua secularidade. O episódio, recontado no Diário de uma testemunha culpada (1966), é um divisor de águas simbólico, marca a passagem para a segunda fase da sua experiência cristã.

O lugar autêntico da espiritualidade, para ele, não é mais um espaço sagrado, mas a vivência humana na sua totalidade, feita de corpo, de afetos, de risadas, de pequenos prazeres, de convivência cotidiana,de a participação nas vicissitudes da história... Como se, entre mundo e mosteiro, não houvesse um muro, mas um canal de comunicação.

Merton intensificou as trocas de cartas com pessoas comuns e com intelectuais como Boris Pasternak, Erich Fromm, Henry Miller, com personalidades eclesiais e religiosas (entre as quais Jean Leclerc, Abraham Heschel, Daisetz T. Suzuki), ultrapassando as fronteiras confessionais do catolicismo e da própria religião cristã, com ativistas no campo social e político.

Ele se tornou o marginal que participava do debate público, a "testemunha culpada", que, assimilando a mensagem do Mahatma Gandhi, denunciava uma cultura de opressão e violência da qual se sentia cúmplice, expondo-se em primeira pessoa pelos direitos civis dos afro-americanos, contra a guerra que brinca com a vida e com a morte (eram os anos do Vietnã) e pelo desarmamento nuclear.

São posições que lhe causaram contrastes e até mesmo censuras dentro da Ordem, tanto que o livro A paz na era pós-cristã permaneceu inédito até 2004. Apesar disso, ele recebeu atestados de estima de João XXIII, que recorreu a ele na redação da encíclica Pacem in terris, e de Paulo VI.

"A verdadeira comunicação no nível mais profundo é mais do que uma simples partilha de ideias, de conhecimentos conceituais ou de verdades formuladas. O tipo de comunicação que é necessário nesse nível profundo também deve ser 'comunhão' além dos limites das palavras."

Na dilatação dos horizontes de Merton, o encontro com outras tradições espirituais antecipou as aberturas do Vaticano II e assumiu cada vez mais espaço, levando-o a se interessar pelo budismo e pela meditação zen, pelo hinduísmo e pela prática do ioga, pelo sufismo e pelo taoísmo, e dando origem a livros como A via simples de Chuang Tzu (1965) e O zen e os pássaros do apetite (1968). Para ele, foram todas ocasiões para explorar aqueles sendeiros de interioridade que podem levar a purificar e enriquecer a espiritualidade cristã.

"Nossa verdadeira jornada é uma jornada interior: é uma questão de crescimento, de aprofundamento e um abandono cada vez maior à ação criadora do amor e da graça nos nossos corações." Merton escreveu isso aos amigos em 1968, às vésperas da partida para a Ásia, onde ele se encontrou também com o Dalai Lama, que ficou positivamente marcado pelas suas palestras.

Infelizmente, a descarga elétrica de um ventilador com defeito o matou, enquanto ele se encontrava na Tailândia para um congresso monástico. O seu Diário asiático foi publicado postumamente em 1972.

Na sua vida, Merton efetivamente realizou essa jornada interior que o tornou nosso contemporâneo e companheiro nas múltiplas rotas da fé e da dúvida. Gregório Magno conta que São Bento teve uma visão em que contemplou todo o mundo reunido "como em um único raio de sol". Thomas Merton continua iluminando ainda hoje, justamente como um raio de luz em que está contido um mundo inteiro.



sábado, 31 de janeiro de 2015

100 anos atrás nascia Thomas Merton

monk zen budism catholic
Thomas Merton, 1915-1968

Há exatos cem anos, no dia 31 de janeiro de 1915, nascia Thomas Merton, monge trapista americano que se notabilizou como pensador e escritor católico, com profundas ligações com a tradição zen budista.

Em homenagem ao seu centenário, reproduzimos o artigo abaixo, publicado no IHU:

Thomas Merton: 

sagrado e demasiado humano


"Na verdade, Merton não é um santo oficial, talvez porque ele mergulhou demais na política e nas religiões orientais, em particular o budismo, causando um desconforto entre alguns católicos conservadores", escreve Margery Eagan, em artigo publicado por Crux, 07-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Bonito, robusto, cheio de virtude, sério, sexy e um pouco perigoso, “como um Spencer Tracy com uma tonsura e batina”. Eis como o cineasta Bem Eisner certa vez descreveu o famoso monge que cresceu órfão, sem nenhuma religião, com um filho fora do casamento e que viveu uma vida devassa, bêbado, mulherengo antes de se tornar um ativista da paz, contrário a guerras e a favor dos direitos civis: um eremita recolhido num monastério em Kentucky. Aos 51 anos, apaixonou-se por uma aluna de enfermagem que tinha a metade de sua idade cujas cartas ele queimou antes de sair em viagem para se encontrar com budistas na Tailândia, onde, dois anos mais tarde, um ventilador estragado o eletrocutou ao sair de uma banheira.

De alguma forma, este mesmo monge – tão claramente presente entre o sagrado e o demasiado humano – transformou-se num dos escritores católicos mais influentes do século XX.

Ele é, evidentemente, Thomas Merton. O seu 100º aniversário seria em 31 de janeiro. Esta data está sendo motivo para a realização de dezenas de seminários e congressos nos EUA e ao redor do mundo e renovou o interesse em seus mais de 70 livros, poemas e artigos sobre fé, silêncio, solitude, contemplação e justiça social. Estas obras incluem “A montanha dos sete patamares”, sua autobiografia surpreendentemente popular de 1948 que fez Merton se tornar um nome familiar e que inspirou inúmeros jovens de volta da guerra a se juntarem a mosteiros.

“Muitas pessoas resistem à ideia de que podemos mudar. Ele mudou ao longo de toda a sua vida. Ele me deu esperanças”, diz Daniel Horan, frade franciscano que recentemente escreveu um livro sobre a influência franciscana no pensamento de Merton, intitulado “The Franciscan Heart of Thomas Merton” [O coração franciscano de Thomas Merton]. “Ele não é alguém mantido artificialmente limpo. E não é um santo posto num pedestal.”

Na verdade, Merton não um santo oficial, talvez porque ele mergulhou demais na política e nas religiões orientais, em particular o budismo, causando um desconforto entre alguns católicos conservadores. Mas está entre aqueles gigantes espirituais que se tornaram mais palpáveis por causa de suas fraquezas, lutas, tentações e dúvidas.

Horan, com apenas 31 anos, é um dos muitos estudiosos que falam da relevância continuada de Merton enquanto o próprio Estados Unidos continua a luta contra a questão da raça, da desigualdade, do consumismo e para manter a fé.

Eis o que escreve Merton em sua obra “Pensamentos em solitude”:

“Senhor meu Deus, eu não tenho ideia para onde estou indo, / Não vejo o caminho adiante / E não tenho certeza onde irá me levar. / (...) Mas acredito que meu desejo de agradá-lo lhe deixa contente. / (...) Portanto sempre confiarei no Senhor / Embora eu possa parecer estar perdido e na escuridão da morte.”

No texto “Conjecturas de um espectador culpado”, Merton escreve sobre os perigos de trabalhar demais numa sociedade apressada:

“Permitir-se ler levado embora por uma multidão de preocupações conflitantes, render-se a demasiadas demandas, comprometer-se a demasiados projetos, querer ajudar a todos em tudo, é sucumbir à violência. O frenesi do nosso ativismo neutraliza o nosso trabalho pela paz. Ele destrói a nossa capacidade interior pela paz. Destrói a fecundidade do nosso próprio trabalho.”

A felicidade, diz ele, “não é uma questão de intensidade, mas de equilíbrio, ordem, ritmo e harmonia”.

Na verdade, Thomas Merton foi uma “máquina de citações”, da qual jorrava uma sabedoria concisa como se ele fosse autor daqueles calendários que contêm um pensamento do dia.

“O amor é deixar que aqueles que amamos sejam perfeitamente eles próprios e não os mudar para que se adaptem à nossa imagem.”

“O orgulho nos faz artificial e a humildade nos faz verdadeiros.”

“Não estamos em paz com nós mesmos nem com os outros porque não estamos em paz com Deus.”

Mas em “Novas sementes de contemplação”, em “Vida e santidade” e em seus muitos ensaios, Merton, convertido ao catolicismo, oferece insights para dentro de sua própria fé, vida de oração e sua crença na total subjugação à vontade de Deus:

“Estamos vivendo num mundo que é absolutamente transparente e em que o divino está brilhando através dele o tempo todo (...) Quer você entenda, quer não, Deus o ama, está presente em você, vive em você, habita em você, chama-o, serve a você e oferece-lhe uma compreensão e uma compaixão diferentes de tudo o que você jamais encontrou em algum livro ou ouviu em algum sermão.”

“Doar-nos a Deus é algo profundamente sério. Não é suficiente meditar sobre um caminho de perfeição que inclua sacrifício, oração e renúncia do mundo. Temos, na verdade, que jejuar, orar, negar a nós mesmos e nos tornar homens interiores caso quisermos ouvir a voz de Deus dentro de nós.”

“O amor busca não só servi-Lo mas a amá-Lo, comungar com Ele em oração, abandoar a si próprio a Ele em contemplação.”

“Orar é a forma mais importante para se buscar a Deus (...) persevere.”
“A fé é a entrega total a Cristo, que coloca toda a nossa esperança em Deus e espera toda força e santidade de seu amor misericordioso.”
“A fé é o dom de todo o nosso ser com a verdade, com a palavra. É o centro e o significado de toda a existência. A fé rejeita tudo o que não é Cristo, para que toda a vida, verdade, esperança seja encontrada nele. A fé apoia-se completamente n’Ele em perfeita confiança (...) deixando-O cuidar de nós sem saber como ele assim o fará.”

“O que é a perfeição final? Plena manifestação de Cristo em nossas vidas. A misericórdia de Deus em nós. Nossa vida mística destina-se aos outros também. Aqueles que recebem mais têm mais para dar. Sem amor e compaixão com os outros, o nosso próprio amor de Cristo é uma ficção. Amemos em ação.”

“Aqueles que alimentaram os famintos e deram abrigo ao estrangeiro e visitaram os doentes e prisioneiros – estão serão levados ao reino porque fizeram todas aquelas coisas para o próprio Cristo.”

Eis uma prova, embora minúscula, do que é a obra de Thomas Merton, 1915-1968.



domingo, 1 de novembro de 2009

O que é a contemplação?

por Thomas Merton:

A contemplação é a mais alta expressão de vida intelectual e espiritual do homem. É a própria vida do intelecto e do espírito, plenamente despertada, plenamente ativa, plenamente consciente de que está viva. É um espanto espiritual, uma admiração. Um temor espontâneo, reverencial, diante do caráter sagrado da vida, do ser. É gratidão pelo Dom da vida, pela consciência despertada, pelo ser. É a consciência viva do fato de que, em nós, a vida e o ser procedem de uma Fonte invisível, transcendente e infinitamente abundante. A contemplação é, acima de tudo, a consciência da realidade dessa Fonte. Ela conhece a Fonte, obscuramente, de modo inexplicável, mas com uma certeza que vai além, tanto da razão como da simples fé. Pois a contemplação é uma espécie de visão espiritual a que, pela sua própria natureza, tanto a razão como a fé aspiram, porque sem ela permanecem forçosamente incompletas. A contemplação, entretanto, não é a visão, pois vê “sem ver” e conhece “sem conhecer”. É fé em maior profundidade, conhecimento demasiadamente penetrante para poder ser aprendido em imagens, palavras ou mesmo conceitos claros. Pode ser sugerida por palavras, por símbolos, mas, no próprio momento em que procura indicar o que conhece, o espírito contemplativo retira o que disse e nega o que afirmou. Pois na contemplação conhecemos “não conhecendo”. Ou, melhor, conhecemos além de todo conhecer ou “não conhecer”.

A poesia, a música e a arte têm algo em comum com a experiência contemplativa. Mas a contemplação vai além da intuição estética, da arte, da poesia. Vai, em realidade, além da filosofia e da teologia especulativa. A contemplação resume, transcende e realiza tudo isso e, contudo, parece, ao mesmo tempo pôr de lado e negar tudo. A contemplação vai sempre além de nosso conhecimento, nossas luzes, nossos sistemas, nossas explicações, nosso discursar; vai além do diálogo e além do nosso próprio ser. Para entrar no mundo da contemplação, em certo sentido, temos de morrer. Mas tal morte é, na verdade, passagem para uma vida mais elevada. É morte por causa da vida; deixa atrás de si tudo o que podemos conhecer ou ter em apreço sob forma de vida, pensamento, experiência, alegria, ser.

A contemplação, pois, parece invalidar e desfazer-se de qualquer outra forma de intuição e experiência – seja na arte, na filosofia, na teologia, na liturgia ou nas áreas comuns do amar e do crer. Essa rejeição é, está claro, apenas aparente. A contemplação é e tem de ser compatível com todas essas coisas, pois é a sua mais alta realização. Todavia, na experiência concreta da contemplação perdemos, momentaneamente, todas as outras experiências. Elas “morrem” para nascerem de novo, num plano de vida mais alto.

Em outras palavras, portanto, a contemplação atinge o conhecimento e mesmo a experiência do Deus transcendente e inexprimível. Conhece a Deus parecendo tocá-lo. Ou melhor, conhece-o como se fora por ele tocado... Tocado por Aquele que não tem mãos, mas é a pura Realidade e a fonte de tudo que é real! Daí ser a contemplação um dom, uma tomada de consciência repentina, um despertar à infinita Realidade que existe dentro de tudo que é real. Uma consciência viva do Ser infinito nas raízes de nosso próprio ser limitado. Uma consciência de nossa realidade contingente como algo de recebido, um presente de Deus, um dom gratuito de amor. Esse é o contato existencial de que falamos, quando empregamos a metáfora: “somos tocados por Deus”.

A contemplação é também a resposta a um chamado. Um chamado daquele que não tem voz e no entanto se faz ouvir em tudo que existe, e que, sobretudo, fala nas profundezas de nosso próprio ser, pois nós somos palavras dele. Mas somos palavras que existem para responder a ele, atendê-lo, fazer-lhe eco e mesmo, de certo modo, para estarem repletas dele, contê-lo e significá-lo. A contemplação é esse eco. É uma profunda ressonância no mais íntimo centro de nosso espírito, onde nossa própria vida perde sua voz específica e ecoa a majestade e a misericórdia daquele que é oculto mas Vivo. Ele responde a si mesmo em nós, e essa resposta é vida divina, criação divina, fazendo novas todas as coisas. Nós próprios nos tornamos eco e resposta dele. É como se, ao criar-nos, Deus fizesse uma pergunta e, ao nos despertar para a contemplação, ele mesmo respondesse a pergunta, de modo que o contemplativo é, ao mesmo tempo, pergunta e resposta.

A vida de contemplação implica dois planos de tomada de consciência: primeiro, estar consciente da pergunta e, segundo, estar consciente da resposta. Conquanto sejam esses dois planos distintos e tremendamente diferentes, são, todavia, uma tomada de consciência da mesma coisa. A pergunta é, ela mesma, a resposta. É nós mesmos somos ambas. Entretanto, ignoramos esse fato enquanto não penetramos na segunda espécie de tomada de consciência. Despertamos, não para encontrar uma resposta absolutamente distinta da pergunta, mas para compreender que a pergunta já é a própria resposta. E tudo se resume numa única tomada de consciência – não uma proposição, mas uma experiência: “EU SOU”.

A contemplação de que falo aqui não é filosófica. Não é a tomada de consciência estática de essências metafísicas apreendidas como objetos espirituais, imutáveis e eternos. Não é a contemplação de idéias abstratas. É o aprender religioso de Deus, através de minha vida em Deus, ou através da “filiação”, como diz o Novo Testamento. “Pois todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus... O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus...” A contemplação de que falo é pois um dom religioso e transcendente. Não é algo a que possamos atingir sozinhos pelo esforço intelectual e o aperfeiçoamento de nossas potências naturais. Não é uma espécie de auto-hipnose, resultando da concentração, sobre o nosso próprio ser íntimo, espiritual. Não é fruto de nosso próprio esforço. É o dom de Deus que, em sua misericórdia, completa o trabalho oculto e misterioso da criação em nós, iluminando nosso espírito e nosso coração, despertando em nós a consciência de que somos palavras proferidas em sua Única Palavra, e que o seu Espírito Criador (Creator Spiritus) habita em nós e nós nele. Que estamos “em Cristo” e que Cristo vive em nós. Que a vida natural foi completada, elevada, transformada e plenamente realizada em nós in Christo, pelo Espírito Santo. A contemplação é a consciência e a compreensão, e mesmo, em certo sentido, a experiência daquilo que cada cristão crê obscuramente: “Agora não sou mais eu que vive; é o Cristo quem vive em mim”.

Por isso, a contemplação é mais do que mero considerar de verdades abstratas sobre Deus; mais, até, do que a meditação afetiva das coisas em que cremos. É um despertar, uma iluminação, e a apreensão intuitiva, espantosa, com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica de Deus em nossa vida cotidiana. A contemplação, portanto, não “encontra” simplesmente uma idéia clara sobre Deus, confinando-o dentro dos limites dessa idéia, retendo-o como um prisioneiro a quem se pode sempre voltar. Pelo contrário, a contemplação é que é por ele arrebatada e transportada ao próprio domínio dele, seu mistério, sua liberdade. É um conhecimento puro e virginal, pobre em conceitos, mais pobre ainda em raciocínios, mas capaz, por sua própria pobreza e pureza, de seguir a Palavra “aonde quer que vá”.

(Thomas Merton, “Novas Sementes de Contemplação”, Fisus Editora, pág. 9-13)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Alegrias do silêncio



"O mundo dos homens vive esquecido das alegrias do silêncio, da paz desfrutada na solidão necessária, até certo ponto, a uma vida humana vivida em plenitude. Nem todos os homens são chamados à vida eremítica, mas todos necessitam de certa dose de silêncio e solidão, para permitir-lhes ouvir, ao menos ocasionalmente, a voz interior profunda do seu verdadeiro "eu". Quando essa voz não é ouvida, quando o homem não consegue atingir a paz espiritual que vem do fato de estarmos em perfeita união com o nosso ser verdadeiro, a vida se torna desgraçada e exaustiva. Pois o homem não pode por muito tempo ser feliz se não se mantiver em contato com as fontes de vida espiritual, ocultas nas profundezas de sua alma. Se vive constantemente alheio ao que em si possui de mais íntimo, exilado da própria morada interior, impossibilitado de se encontrar com a solidão espiritual, deixa de ser uma pessoa. Não vive mais como um ser humano. Nem é mesmo um animal sadio. Torna-se uma espécie de autômato; funciona sem alegria porque perdeu toda espontaneidade. Não é mais movido por dentro, mas apenas do exterior. Não toma as próprias decisões, deixa que os outros o façam. Não age sobre o mundo exterior, consente que este aja sobre ele. É empurrado, atravessando a vida por meio de uma série de choques com forças externas. Sua vida não é mais a de um ser humano, mas a de uma bola de bilhar passiva, de um ser sem finalidade e sem nenhuma correspondência profunda e válida para com a realidade."


(Thomas Merton, 1915-1968, em "A Vida Silenciosa", Ed. Vozes, pág. 153/154)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Compunção

por Thomas Merton:

"Na linguagem do ascetismo medieval, o reconhecimento clarividente e a aceitação madura de nossas próprias limitações chama-se "compunção". A compunção é uma graça espiritual, um conhecimento profundo das profundezas de nossa alma, que, num relance, penetra através das ilusões que temos sobre nós mesmos, põe de lado e varre as dissimulações e sonhos vãos que alimentamos a respeito de nossa pessoa, de maneira a nos vermos tais quais somos. Mas é, ao mesmo tempo, um movimento de amor e liberdade, uma libertação da falsidade, uma aceitação alegre e cheia de gratidão da verdade, com a resolução de viver em contato com a realidade profunda e espiritual que se abre diante de nós: a realidade da vontade de Deus em nossa vida."

(Thomas Merton, 1915-1968, em "A Vida Silenciosa", Ed. Vozes, pág. 108)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Começando a aprender

Meu Deus, é essa brecha, essa distância que me mata.

Eis o único motivo por que desejo solidão – estar perdido para todas as coisas criadas, morrer para elas e para o conhecimento delas, pois elas me lembram a distância que me separa de Ti. Elas me falam algo de Ti: que estás muito longe delas, embora nelas estejas. Tu as fizeste e a Tua presença lhes sustenta o ser, mas elas Te escondem de mim. Como gostaria de viver sozinho, fora delas! O beata solitude. Ó solidão abençoada!

Pois sabia que somente deixando-as eu poderia chegar a Ti; e por isso tenho me sentido tão infeliz quando parecia que Tu me condenavas a permanecer nelas. Agora a minha dor passou e a minha alegria está por começar: a alegria que se alegra na mais profunda dor. Pois estou começando a entender. Ensinaste-me e consolaste-me e recomecei a esperar e a aprender.

(Thomas Merton, “Diálogos com o Silêncio”, Fissus Editora, 2003, pág. 21)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Será isto contemplação?

Meu Deus, é somente a Ti que posso falar porque mais ninguém me compreenderá. Não posso trazer mais ninguém nesta terra para dentro da nuvem onde habito em Tua luz, isto é, em Tua escuridão, onde estou perdido e perplexo. Não posso explicar para ninguém a angústia que é desfrutar de Ti, nem a perda que é Te possuir, nem a distância de todas as coisas provocada pela chegada a Ti, nem a morte que é o nascimento em Ti, pois eu mesmo nada sei sobre isso. Tudo quanto sei é que desejaria que isso tivesse passado – e desejaria que tivesse começado.

Contradisseste tudo. Deixaste-me na terra de ninguém.

Fizeste-me andar de um lado para outro debaixo dessas árvores, repetindo sem parar: “Solidão, solidão”. Volveste e jogaste o mundo todo em meu colo. Disseste-me: “Largue tudo e Me siga”, e então amarraste a metade de Nova York como uma bola acorrentada a meus pés. Fizeste-me ajoelhar atrás deste pilar com a minha mente barulhenta como uma agência bancária. Será isto contemplação?

(Thomas Merton, em “Diálogos com o Silêncio”, Fissus Editora, 2003, pág. 15)

terça-feira, 11 de março de 2008

Budismo x Cristianismo

No Dotgospel, o Raphael trouxe um texto do Caio Fábio em que ele compara budismo com cristianismo no que diz respeito à mortificação da carne, que eu aproveitei e coloquei para discussão também no Forum Atos. Me parece um tema bastante interessante, explorar essas similaridades entre as duas grandes religiões.

Uma das coisas que sempre me chamou a atenção quando li a História da Igreja primitiva, foi exatamente o número de pessoas que entendeu a mensagem do evangelho como um convite à mortificação extrema. Confesso que nunca entendi bem a razão que levou um número enorme de eremitas a se refugiarem no deserto do Egito (principalmente), dando início ao movimento dos anacoretas que viviam isolados nas poucas cavernas da região, nas mínimas condições de sobrevivência. Me espanta que eles tenham radicalizado tanto a mensagem de Jesus a ponto de se negarem não só à convivência com outros como à sobrevivência do próprio corpo. Os chamados "padres do deserto" viveram nas primeiras décadas da expansão do cristianismo, e havia gente de todo tipo que se submetia às provas mais radicais de fé. Dizem que foram milhares, que praticavam coisas hoje impensáveis como os "estilitas" (não... não eram "estiliStas", embora representasse à época um certo movimento "fashion"). Eles subiam numa coluna (stylos, em grego) e ficavam lá em cima por anos a fio, talvez com o intuito de mostrar que haviam conseguido um nível tal de elevação espiritual que já estavam mais próximos do céu. Outros, os "reclusos", se trancavam em lugares estreitos, como árvores ocas. Havia também os "pastadores", que, como o próprio nome diz, só se alimentavam de grama e raízes, como os animais. Para uma visão geral e bem documentada desta época, recomendo a leitura do livro "Padres do Deserto - Homens Embriagados de Deus", de Jacques Lacarrière (Ed. Loyola, 1996).

Obviamente, embora aos milhares, proporcionalmente eles representavam uma pequena parcela dos cristãos da época, e eram movidos pelos mais diferentes ideais, seja o de um afastamento do mundo, a mortificação da carne ou uma elevação espiritual, embora praticamente todos fossem movidos, ao que parece, por um sentido de urgência no seu relacionamento com Deus, já que o fim do mundo era esperado para breve, naqueles dias em que eles viviam. Mesmo que Jesus não tenha retornado no seu tempo, eles lançaram as bases do monaquismo e do ascetismo cristão, de maneira que, à primeira vista, não havia muita diferença entre este estilo de vida e o budismo, tanto que há monges e ascetas em ambas as religiões até hoje. No século XVII, também houve o movimento "quietista", primeiro entre os católicos, mas que teve muita influência entre os protestantes (quem nunca viu livros da Madame Guyon nas livrarias evangélicas?), e que pregava basicamente que o ideal de cada cristão era ter sua alma "absorvida" por Deus em vida e que, portanto, qualquer ação por perturbação do mundo devia ser evitada. Já no século XX, Thomas Merton, monge trapista católico, talvez tenha sido o cristão que mais fez esta ponte entre cristianismo e budismo através do seu zen-cristianismo.

Especificamente quanto ao cristão moderno, aquele que não se enquadra neste tipo de comportamento (e que representa a grande maioria da cristandade), eu acho que o desafio da mortificação é saber renunciar às inclinações da carne, saber resistir ao pecado, e isto, além do desejo de agradar a Deus à sua maneira, envolve também disciplina, que é uma grande barreira a quem quer se dedicar a um tipo de vida mais espiritual ou, digamos, asceta. Acho que muita gente se dedica a jejum e oração, o que não deixa de ser também uma forma de mortificação da carne, assim como há muitos cristãos que se dedicam à meditação e à contemplação, que, embora seja uma prática mais rara, não deixa de ser muito parecida com as práticas budistas e orientais em geral. No pouco que entendo de budismo, me parece que todas essas disciplinas servem, de alguma maneira, para fugir da dor e do sofrimento que, como eles dizem, seria apenas uma ilusão carnal e um afastamento do nosso verdadeiro "eu" espiritual. Nesse aspecto, acho que o cristianismo vai no sentido contrário, já que não nega a dor, mas procura lidar com ela. "Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (João 16:33). Paulo dizia que esmurrava o seu corpo para reduzi-lo à escravidão (1 Coríntios 9:27), e o espinho na carne (2 Coríntios 12:7) era uma forma de mantê-lo constantemente em contato com a sua humanidade, "para que não se exaltasse pela grandeza das revelações". Talvez seja este o grande diferencial entre a mortificação budista e a cristã. Enquanto a primeira busca tornar-se o seu próprio "deus", atingindo neste mundo o nirvana, a segunda é uma forma de humilhar-se perante Deus, de não querer "divinizar-se" em vida, e entrar em contato com a própria dor – e não só a dor física, mas também a emocional e a espiritual -, sem sucumbir a ela.

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