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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O antipetismo batista de Curitiba e a Lava-Jato


Artigo publicado no Diário do Centro do Mundo:


Como o antipetismo fanático das igrejas batistas de Curitiba fez a cabeça de Dallagnol.


Por Kiko Nogueira

Ninguém duvida que o coordenador da força tarefa da Lava Jato, Deltan Martinazzo Dallagnol, é um homem de convicções. Mais do que isso, é um homem de fé.

No ano passado, Dallagnol fez uma peregrinação por igrejas evangélicas em busca de apoio às suas 10 medidas de combate à corrupção.

Num culto, respondeu a uma espectadora que queria saber sobre seus planos, de acordo com o Estadão: “Eu descartaria poucas coisas em relação a meu futuro, cogito talvez até virar pastor. Mas nós focamos no presente”.

Dallagnol é membro da Igreja Batista de Bacacheri, bairro de Curitiba, onde costuma ministrar palestras com seu indefectível powerpoint.

Lança mão de imagens fortes para impactar as plateias. O mesmo sujeito que apontou Lula como “comandante máximo” e “grande general” da “propinocracia” gosta de lembrar que “a corrupção é uma assassina sorrateira, invisível e de massa”, uma “serial killer que se disfarça de buracos de estradas, de falta de medicamentos, de crimes de rua e de pobreza.”

A retórica e as técnicas do show de Dallagnol foram influenciadas pesadamente pelas lideranças religiosas de sua terra. Não só a forma: o moralismo, o maniqueísmo e o antipetismo vieram dali.

“Dentro da minha cosmovisão cristã, eu acredito que existe uma janela de oportunidade que Deus está dando para mudanças”, disse ele no Rio em sua turnê religioso-política.

Repetiu essa sentença numa entrevista ao pastor Paschoal Piragine Júnior, da Primeira Igreja Batista de Curitiba, dono de um programa meia boca de bate papos que ele chama de talk show (assista abaixo).

Piragine é uma referência para esse povo. Ganhou fama em 2010 ao pedir a seus fieis que não votassem em candidatos do PT por causa do posicionamento do partido em relação a temas como aborto, criminalização da homofobia e divórcio.

O mote da pregação era “iniquidade”. Piragine denunciou o Programa Nacional de Direitos Humanos. “Se você olhar, vai ver como a máquina estatal está mobilizada. Se os ministros de Estado que estão ligados a esse governo não trabalharem assim, perdem o seu cargo”, falou. O vídeo da peroração tem, hoje, mais de 3 milhões de visualizações.

Uma das admiradoras mais entusiasmadas de Dallagnol é Marisa Lobo, autodenominada “psicóloga cristã”, campeã de causas como a da cura gay. Marisa faz conferências na mesma igreja do amigo sobre sua nova obsessão, a ideologia de gênero, tema de seu último livro.


Depois da apresentação da denúncia contra Lula num hotel curitibano de luxo, postou uma mensagem de solidariedade ao “irmão”: “Dallagnol congrega na mesma igreja que eu e é nosso orgulho. Deus está usando a Lava Jato para limpar o Brasil”.

A Igreja Batista do Bacacheri foi fundada em 1959. O site da empresa informa que L. Roberto Silvado, que serve ali desde 1988, é o atual coordenador geral do colegiado de pastores.

Silvado tem uma atuação mais discreta que fanáticos desmiolados como Marisa, mas deixa claras suas preferências e intenções no Facebook. Milita intensamente pelas célebres medidas de Dallagnol.

“Nossa Igreja participou ativamente na coleta de assinaturas. Ao todo foram mais de 2 milhões em todo Brasil. (…) Nós fazemos parte disso, vamos continuar manifestando apoio até que sejam aprovadas. Artistas e líderes de todo país precisam se manifestar, como o fez a atriz Maria Fernanda Cândido no vídeo abaixo”, diz numa de suas postagens.

Dallagnol, registre-se, não está sozinho. O procurador Roberson Pozzobon palestrou num templo em 2015 durante o Fórum Batista de Ação Social. Foi anunciado como “nosso irmão em Cristo, Procurador da República e colaborador do Juiz Sergio Moro que coordena a Operação Lava Jato”.

Pozzobon é o autor da seguinte frase: “Não teremos aqui provas cabais de que Lula é o efetivo proprietário, no papel, do apartamento, pois justamente o fato de ele não figurar como proprietário é uma forma de ocultação.”

Há seis anos, André Egg, professor da UNESPAR e da UFPR, escreveu um artigo na revista Amálgama sobre Piragine e os evangélicos do Paraná que ainda soa atual. “Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu?”, perguntava.
“Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando com crianças e jovens (APEC, Palavra da Vida, MPC, JOCUM, Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo) para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.

Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais. (…)

O pastor incita os fiéis a não votarem no PT, por ele ser contra a “fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (…)

Assembleias batistas viraram instâncias de homologação de pastores show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Batistas de igrejas como a Primeira Igreja Batista de Curitiba e a Igreja Batista do Bacacheri não se dão nem ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de doutorado que seus pastores apresentam como credencial. Preferem ser enganados (…).”
É desse caldo que estão saindo os vingadores que vão salvar o Brasil. Deus nos proteja.




quinta-feira, 18 de maio de 2017

O dia em que a Terra parou



A noite do dia 18 de maio de 2017 entrará para a história do Brasil como o dia em que a Terra parou.

De repente, assim do nada, como se todos já não estivessem cansados de saber disso, fomos expostos - mais uma vez - à vergonha nacional da corrupção e da indecência.

Qual um certo apóstolo, percebemos que "não há um justo, nem um sequer" (Romanos 3:10).

Aos mais puristas que se julgavam "éticos" por terem votado neste ou naquele candidato, ou por terem derrubado este ou aquele governo, só lhes restou fingir que foram pegos de surpresa ao verem que ninguém se salva, queira a mídia global dizer quem vai para o céu ou para o inferno a seu bel prazer, ou não.

O escândalo da corrupção e da obstrução da Justiça no governo Michel Temer é algo que ainda está se desdobrando e assustando a todos pela sua extensão e profundidade.

O horror, ah, o horror...

Que triste destino o do Brasil, e de seu povo, só nos resta lamentar ouvindo Raul Seixas cantando "O Dia em que a Terra parou":


Malucos do meu Brasil varonil, não foi um sonho e ainda vai demorar muito para que possamos acordar desse pesadelo.

Preparemo-nos!



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Papa diz que Brasil vive "momento triste"


A informação é do HuffPost Brasil:

Papa Francisco diz que Brasil vive 'momento triste' e não sabe se virá ao país em 2017

Três dias após o impeachment de Dilma Rousseff, o papa Francisco disse neste sábado (3) que o Brasil atravessa um "momento triste" e afirmou que provavelmente não visitará o país em 2017, como havia cogitado.

"Estou contente que a imagem de Nossa Senhora Aparecida esteja nos jardins. Em 2013, eu tinha prometido voltar ao Brasil. Não sei se será possível, mas, pelo menos, agora terei [a santa] mais perto de mim", disse durante a inauguração de uma estátua de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país, nos Jardins Vaticanos, em Roma.

Em seguida, o papa convidou as pessoas a rezarem "para que Nossa Senhora Aparecida siga protegendo todo o Brasil, todo o povo brasileiro, neste momento triste".

No início de agosto, o papa enviou à petista uma carta de apoio. "Não foi uma carta oficial (…) Não foi uma carta do papa em sua condição de representante do Vaticano. Não tem importância [o conteúdo]. Não é uma carta para ser divulgada", disse Dilma à época.

Em maio, Francisco recebeu no Vaticano a atriz Letícia Sabatella, que lhe entregou um documento contra o impeachment redigido pelo advogado Marcello Lavenére.

Dilma e o papa se reuniram pela primeira vez em 2013, quando ele visitou o Brasil para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro, em sua primeira viagem internacional.

Em fevereiro do ano seguinte, a petista esteve em Roma para a cerimônia que oficializou dom Orani Tempesta como cardeal.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Voto religioso influiu pouco no 1º turno das eleições 2014

É a conclusão a que chega o jornal Valor Econômico, em matéria assinada por César Felício, publicada na edição de 08/10/14.

Interessante a análise que ele faz, de que boa parte dos deputados evangélicos eleitos por São Paulo conseguiram suas cadeiras na esteira do tsunami de votos do católico Celso Russomanno, candidato televisivo que chegou ao topo dos mais votados do Brasil por obra e graça de Edir Macedo.

Talvez os coronéis, caciques e pajés evangélicos não sejam tão poderosos como dizem ser ou queiram que você acredite que eles são:

Religião teve influência reduzida no voto

Nas eleições deste ano, marcadas por duas candidaturas presidenciais de evangélicos, o fator religioso pesou menos na hora do voto. Nos 60 municípios com maior contingente proporcional de evangélicos pentecostais no Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT) teve uma votação média acima de seu padrão nacional: 46,58%, cinco pontos percentuais a mais do que obteve nas urnas. A ex-senadora Marina Silva (PSB), integrante da Assembleia de Deus, ficou próxima ao que obteve no país: teve um percentual médio de 21,7%. Já o tucano Aécio Neves ficou com 29,8%, uma média abaixo do que obteve nacionalmente.

Nas eleições locais, embora essa disputa tenha colocado no segundo turno pelo governo do Rio de Janeiro o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), da Igreja Universal do Reino de Deus, os balanços preliminares mostram que a bancada evangélica da Câmara ficou muito aquém dos 100 parlamentares imaginados no início da campanha. As primeiras informações indicam que pode ter havido redução: o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) identificou por enquanto apenas 52 deputados federais evangélicos.

Portais de notícias evangélicas listam 63 nomes, ou sete a menos que a bancada atual. Predominam São Paulo, com 13 evangélicos, favorecidos pela votação alta obtida por Celso Russomanno, um católico abrigado no PRB; e Rio de Janeiro, com dez eleitos, entre eles o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, reeleito. Ainda figuram cinco eleitos pela Bahia, cinco em Minas Gerais e três no Rio Grande do Sul.

Segundo um especialista no tema, o cientista político César Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro, o aumento da presença de programas sociais do governo federal e divisões entre evangélicos podem explicar porque Marina não teve uma votação de destaque neste segmento. "Entre a religião e o bolso, o bolso falou mais alto na hora do voto", comentou.

Nos dois municípios recordistas de pentecostais no Brasil, Guaraíta (GO) e São Pedro dos Crentes (MA), ambos com maioria absoluta de população evangélica, os indicadores sociais são ruins. Na cidade maranhense, 54,5% dos domicílios contam com Bolsa Família. Em Guaraíta, com prefeito do PSB, a proporção é de 30,7%. Da população da cidade goiana, 65,3% dos habitantes têm rendimento médio inferior a um salário mínimo e 36% da população tem ensino fundamental incompleto. Em São Pedro dos Crentes, onde a prefeita é do PSDB, 68% estão na faixa mais baixa de renda. Dilma ganhou em ambas as cidades.

A votação de Marina foi mais expressiva nas cidades mais pentecostais do Norte e Nordeste, onde a Assembleia de Deus predomina, e caiu em São Paulo e no Paraná. Em Doutor Ulysses (PR), por exemplo, na região metropolitana de Curitiba, sua votação não passou de 10%, a quarta parte do contingente populacional pentecostal. "Uma possível explicação é que nessas regiões predomina entre os pentecostais a Congregação Cristã do Brasil, que nada tem a ver com a Assembleia de Deus", disse Jacob.

O cientista político ressalvou a limitação que um estudo com base no censo de 2010 representa para analisar um cenário eleitoral. Além da defasagem de tempo e da possibilidade do eleitorado não reproduzir o retrato da população, o contingente de católicos e pessoas sem religião é grande nestas cidades. O levantamento incluiu cidades onde a população evangélica é de pelo menos 29%. Os pentecostais somam 13,3% da população.

A votação de Marina foi significativamente maior do que a de seu padrão nacional onde tinha aliados locais fortes, como nas pernambucanas Tamandaré, Barreiros, Sirinhaém, Ribeirão, Rio Formoso, Abreu e Lima e São José da Coroa Grande e a alagoana Maragogi. Foram estas as oito cidades da relação em que a candidata do PSB ficou em primeiro lugar. Aécio ganhou em 14 cidades e Dilma, nas 38 restantes.

Em termos estaduais, o voto de Marina também não se destacou nos Estados com maior incidência pentecostal. Em Rondônia, onde 33,8% da população se declarou pentecostal no censo de 2010, Aécio ganhou com 45% dos votos, Dilma teve 42% e Marina não passou de 11%. No Espírito Santo, segundo Estado mais pentecostal, com 33,1% da população adepta desta vertente do protestantismo, Marina conseguiu uma votação alta, cerca de 29%, mas contou com a ajuda do governador Renato Casagrande (PSB) e ainda assim ficou em terceiro lugar, atrás de Dilma (33%) e Aécio (35%). A candidata do PSB ganhou a eleição no terceiro Estado mais pentecostal, mas aí se trata do Acre, sua terra natal, onde 32,6% da população tem esta orientação religiosa.





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

PT peita evangélicos por Comissão de Direitos Humanos da Câmara

Haverá choro e ranger de dentes...
O pau vai comer na Câmara dos Deputados, segundo informa o jornal Valor Econômico em sua edição de hoje, 05/02/14:

PT decide enfrentar evangélicos por comissão

Raphael Di Cunto

A bancada do PT decidiu, na noite de segunda-feira, presidir a Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados, uma das três a que tem direito. A escolha deve aumentar ainda mais a tensão entre petistas e governo com a bancada evangélica, que, sob a liderança do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), comandou o colegiado em 2013 e almejava manter o controle do grupo este ano.

Segundo o deputado Henrique Fontana (PT-RS), o partido entrou em acordo que é importante voltar à presidência da comissão, posto que já ocupou em 2011 e 2012, mas que preteriu no ano passado para comandar a de Seguridade Social e Saúde. "O partido foi muito atacado pelo que aconteceu em 2013 e não queremos repetir isso", disse o petista ao Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor.

O presidente é quem define a pauta das sessões e o relator de cada projeto. Em 2013, com os evangélicos no controle, o grupo votou projetos como o que legalizava a cura gay e o que suspendia a obrigação dos cartórios de aceitarem casamentos de pessoas do mesmo sexo. Depois de enfrentamentos com os evangélicos, os deputados do PT, em minoria, se retiraram da comissão.

Para Fontana, a escolha não vai prejudicar a relação do governo com o PSC, que atualmente atua como independente no Congresso Nacional. "A aliança eleitoral vai se ajeitar por outras questões", afirmou. No embalo da repercussão causada por Feliciano no comando da comissão, o PSC lançou como pré-candidato seu vice-presidente nacional, pastor Everaldo Pereira.

Os evangélicos já têm uma relação conturbada com o governo. A bancada se uniu para impedir a divulgação de um kit anti-homofobia nas escolas, elaborado pelo Ministério da Educação, e de uma campanha do Ministério da Saúde contra a Aids. Na campanha presidencial, parte da bancada fez campanha contra a eleição da então candidata Dilma Rousseff por declarações anteriores a favor do aborto, um dos fatores que levou a disputa ao segundo.

Um dos líderes da bancada evangélica, o deputado João Campos (PSDB-GO) diz que o PT desprezou a comissão e mostrou intolerância em 2013, ao abandonar o colegiado. "O PSC ficou com a comissão porque o PT não quis, e fez um excelente trabalho. Quando o PT tinha o presidente não fazíamos este tipo de protesto", afirmou.

Para o tucano, esse posicionamento tende a agravar as divergências da bancada evangélica com o partido e o governo. "Esses comportamentos nos dão indícios de que agora, tendo a comissão nas mãos, vão querer utilizá-la para fazer prevalecer a concepção de direitos humanos deles, que é míope", disse.

Além da Comissão de Direitos Humanos, o PT já decidiu manter a presidência da de Constituição e Justiça, a mais importante do Legislativo, e ainda discute a terceira. O partido está indefinido sobre Cultura, Educação ou Saúde, escolha vai depender da negociação com outras siglas. O nome dos presidentes também ainda não foi definido pela bancada. O PSC, por sua vez, já assimilou que vai perder a comissão e tenta pressionar a Câmara dos Deputados a desmembrar outro colegiado em dois, para poder ficar com uma das vagas. (colaborou Cristiano Zaia)



sexta-feira, 14 de junho de 2013

São Paulo em pé de guerra


É cedo ainda para fazer uma análise profunda da onda de protestos que vem ocorrendo em São Paulo, que teve seu ápice ontem à noite, mas já é possível refletir um pouco mais sobre o movimento.

São muitas as abordagens que podem ser feitas e que parecem não se restringir ao objetivo inicial, que teria sido protestar contra o aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus.

Limitaremo-nos, portanto, a alguns pontos que merecerão ser melhor avaliados daqui a algum tempo.

Primeiro, toda manifestação é legítima, desde que observados os limites previstos em lei. Mais do que um direito assegurado pela Constituição, todo cidadão brasileiro tem o direito de se posicionar contra ou a favor do que quiser.

Segundo, tudo indica que o tênue e cinzento limite entre o direito ao protesto e a proteção ao patrimônio público e à liberdade de ir e vir dos demais cidadãos foi indubitavelmente desrespeitado, mas não num nível tão gritante que invalidasse todo o movimento.


Terceiro, a polícia paulista – com uma frequência acima dos padrões toleráveis - mostra não ter o preparo adequado para lidar com manifestações populares de qualquer monta, da porta dos estádios de futebol aos protestos de rua.

O festival de horrores perpetrados pela repressão de ontem à noite em São Paulo não ficaria mal nos manuais das piores ditaduras que assolam o mundo.

É impressionante que, quase 30 anos após o final da nossa última ditadura militar, ainda não tenhamos conseguido atingir um nível aceitável de eficiência, cidadania e civilidade no trato da polícia com a população, por mais avanços que tenhamos alcançado nesse processo.

Quarto, a mídia brasileira também parece estar excessivamente partidarizada, para não dizer “míope”, e, ao escolher o caminho de impor a “opinião publicada” sobre a “opinião pública”, abdica de sua condição de veículo indutor do diálogo entre todos os atores políticos do país, sobretudo entre povo e poder, seja qual for o partido que momentaneamente o detiver.

Por sinal, a Folha de S. Paulo, em sua edição de 12/06/13, trazia na capa a confissão pública (e involuntária) dessa contradição, ao chamar os manifestantes paulistas de “vândalos” e os turcos – que buscavam algo parecido – de “ativistas”.



Quinto, o próprio debate político entre as pessoas nas redes sociais aparenta dar sinais de esgotamento quanto ao raciocínio rasteiro dos memes compartilhados à exaustão, dos argumentos fáceis e xingamentos aos outros baseados unicamente no ódio e no preconceito.

O ato cômodo de demonizar o candidato e o partido do outro enquanto canoniza o seu próprio, incensando um pilantra travestido de anjo com o seu voto supostamente "consciente" e "responsável", parece estar com os dias contados. 

Há cada dia mais gente rejeitando a opção obrigatória entre o preto e o branco e procurando mais tons de cinza do que o best seller pode oferecer.

Em sexto e último lugar, o susto da espontaneidade. Parece que o protesto foi organizado de maneira bastante, digamos, “artesanal”, sem respaldo “profissional” de partidos, associações ou sindicatos que tivessem não só relevância como, por assim dizer, “experiência” neste tipo de ato público.

Neste aspecto, ousaríamos dizer que estamos diante de um fenômeno novo da cidadania brasileira. Pessoas de diferentes origens e com interesses distintos (pelo menos inicialmente) se reúnem pelas mídias sociais e provocam uma passeata altamente significativa que consegue romper o cerco das autoridades e da imprensa institucionalizada.

É muito provável que essas pessoas, na sua maioria jovens, não se vejam mais representadas pelo envelhecido sistema político do país, indefinidamente polarizado já há muitos anos entre supostas direita e esquerda, PSDB e PT com PMDB de fiel da balança.

Não é de se estranhar, portanto, que o prefeito Fernando Haddad (PT) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) estejam do outro lado daquele escolhido pelos manifestantes que ocuparam as ruas de São Paulo.

Talvez os políticos de todos os partidos não tenham percebido que o atual modelo partidário brasileiro pode estar apresentando sinais de fadiga, e que a História (com H maiúsculo), implacável e cíclica como só ela é, esteja querendo lhes pregar uma peça.

E é aí que mora o perigo: nunca se sabe o que vem depois.






sábado, 8 de junho de 2013

As muitas dimensões da mentira

Interessante entrevista com o filósofo Newton Bignotto, professor de filosofia política da UFMG, em que ele discorre sobre as distintas dimenções da mentira no nosso cotidiano. A matéria foi publicada no Estadão em 25/05/13:

Pega na mentira

Num mundo onde não é possível ter certezas absolutas, certa dose de ceticismo combina bem com a vida nas democracias, diz filósofo

Presidente do Supremo, Joaquim Barbosa soltou o verbo na universidade dias atrás: “Temos partidos de mentirinha. Diria que o grosso dos brasileiros não vê consistência ideológica e programática em nenhum dos partidos. E tampouco seus partidos e os seus líderes partidários têm interesse em ter consistência programática ou ideológica. Querem o poder pelo poder”. E disse alguma mentira?

No paralelo, o estilo “mentirinha” – fábula, farsa, ficção, lorota, tró-ló-ló e afins – pipocou noutras páginas nessa semana: os ruidosos rumores sobre o fim do Bolsa Família, atribuídos por outrem a intriga da oposição; o grampo na conversa do jornalista venezuelano Mario Silva, amigo do finado Hugo Chávez, sobre um possível golpe no país – no fim, o jornalista não negou que a voz fosse sua, mas culpou Mossad e CIA pela “falsificação” do diálogo; a morte do imigrante checheno Ibragim Todashev, suspeito de envolvimento no atentado em Boston, durante interrogatório no FBI – que diz que o suspeito estava armado no bureau. E por aí vão as tantas labirínticas questões da verdade e da mentira na arena política. Nessas curvas, o ceticismo. Afinal, no que dá para acreditar?

“É inegável que uma certa dose de ceticismo combina bem com a vida nas democracias. De fato, estamos mais céticos. E isso não é uma especificidade brasileira. O fenômeno ocorre em várias democracias atuais”, diz Newton Bignotto, professor de filosofia política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Mas se não pudermos acreditar em nada, isso leva ao desespero ou a uma visão apocalíptica da realidade. Desconfiar de tudo e de todos acaba tornando impossível a vida política”, pondera o autor de As Aventuras da Virtude (2010) e Maquiavel (2003). Pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, é um dos organizadores de Dimensões Políticas da Justiça (2013). A seguir, a entrevista.

No Brasil, a política é realmente um jogo com partidos ‘de mentirinha’?

Todos ficamos incomodados com a maneira como os partidos políticos brasileiros se formam e se comportam. Mesmo partidos que já tiveram um perfil ideológico mais nítido, como o PT e o PSDB, hoje parecem ter perdido o eixo e disputam o poder como se não se importassem com a afirmação de suas diferenças. Outros partidos parecem existir somente para disputar eleições e ocupar espaços nas esferas de poder. Mas é preciso tomar cuidado para não trocar a análise da vida política brasileira concreta por aquilo que deveria ser idealmente. Em primeiro lugar, mesmo que semelhantes, há diferenças entre os partidos, as quais impactam na vida de milhões de brasileiros quando são transformadas em políticas públicas. Nesse sentido, não são exatamente “de mentirinha”. Em segundo lugar, é preciso ver que os partidos existentes refletem a sociedade em muitos de seus aspectos. A existência de partidos sem perfil ideológico definido se deve também ao grau de despolitização de franjas importantes da população. Por outro lado, pequenas formações partidárias defendem ferozmente os interesses de grupos particulares. Veja, por exemplo, a resistência de certas formações políticas a temas como o casamento gay. Assim, não podemos falar de acaso, ou de algo anedótico. Essa é a posição de uma parte da população brasileira e alguns partidos refletem isso de forma muito explícita. Talvez esse não seja o melhor dos mundos, mas se quisermos compreender o Brasil, ou mesmo mudá-lo, teremos de olhar para esse tecido político dividido e corrompido. Essa é a matéria da política brasileira e, em alguma medida, podemos dizer, sua verdade.

Outra ‘mentira’ foi o fim do Bolsa Família. Como uma sociedade pode acreditar em rumores até agora não rastreados?

Boatos fazem parte da vida pública desde a Antiguidade. Na Roma antiga, era comum a pichação de muros com afirmações referentes a personagens importantes da cidade, o que impactava diretamente a vida política. Um rumor é um acontecimento político. Só se espalha porque toca num ponto sensível da sociedade. A questão central não é a veracidade ou a falsidade, mas o impacto que o boato causa na cena pública. E o que ele revela. No fundo, identificar a origem do boato não é tão importante quanto descobrir o que ele esconde. O rumor sobre a suspensão do Bolsa família revela não apenas a importância para grandes parcelas da população, mas as resistências que o programa suscita em alguns atores políticos. O boato provocou um efeito real – o pânico, no caso – e uma disputa em torno de uma prática política e de uma visão da realidade brasileira.

Hannah Arendt diz que a política envolve, essencialmente, a produção e a dispersão de narrativas ‘convincentes’. Mentir está na essência da política?

Arendt não quer dizer que a mentira “define” a política – isto é, sua essência –, e sim que a disputa entre verdadeiro e falso na arena pública não é um problema de lógica. Concerne aos fatos, mas também à percepção desses fatos. Por isso, a política é o terreno onde competem narrativas. A realidade não desaparece pelo simples fato de que construímos discursos sobre ela. Criar um discurso é uma maneira de interferir no real. O uso intensivo da propaganda pelos regimes totalitários mostra isso perfeitamente. Por isso, a defesa de um regime de liberdades não pode ser apenas uma defesa da coerência lógica de seus princípios. É preciso partir desse ponto para propor a um país uma narrativa sobre sua história e seus desafios capaz de sustentar uma escolha pela liberdade. A verdade é matéria para uma luta de natureza política. A mentira não vai desaparecer da cena pública por ser eticamente condenável. Terá de ser combatida. Esse combate se dá com as mesmas armas que nos levam a construir discursos que queremos verdadeiros sobre nosso tempo.

Immanuel Kant também se debruçou sobre a mentira. As ideias do filósofo ainda valem para os dias atuais?

No texto Sobre um Pretenso Direito de Mentir por Amor à Humanidade, Kant investiga se há casos nos quais podemos mentir por razões “humanitárias”. Sem entrar nos detalhes, podemos dizer que o filósofo nega que se possa mentir e continuar fiel a seus princípios e à razão. Dizer a verdade é uma obrigação moral absoluta, que não pode ser quebrada. Essa posição radical contra toda forma de mentira foi muito influente em seu tempo e continua a ser discutida por pensadores atuais.

O sr. é um estudioso de Maquiavel. Que ideias o italiano traz sobre a ‘verdade’?

Maquiavel se preocupa em fundar um saber sobre a política na “verdade efetiva das coisas”. Assim se distancia de toda filosofia política que quer pensar o real a partir de modelos abstratos – que pretendem nos ensinar a viver, mas são incapazes de dizer como vivemos de fato. Essa guinada realista não o conduziu, no entanto, a acreditar que haja uma verdade na política que possa ser expressa de forma absoluta. O problema é que, no cenário da política, não podemos nos guiar por ideais irrealizáveis, por “utopias” diríamos hoje. Isso pode nos conduzir a simplesmente destruir as bases sobre as quais se funda um poder. Ao mesmo tempo, é preciso notar que o real é composto por vários elementos, entre os quais o simbólico e o imaginário ocupam lugares de destaque. Por isso, a política é tão fascinante e tão difícil de entender. Para além da posição realista, Maquiavel nos legou uma compreensão da complexidade da cena pública, que pode ser um bom remédio para os dogmatismos e as ideologias totalitárias.

Os bastidores venezuelanos também marcaram a semana. Teorias da conspiração entram no jogo político?

Essas teorias são parte da realidade política, porque constroem um discurso que se pretende verdadeiro. Assim fazem ao sugerir explicações que parecem mais profundas do que as que muitas vezes podem ser formuladas por cientistas sociais, filósofos ou jornalistas. Operam calcadas na ideia de que toda realidade pode ser explicada por uma lógica que apenas alguns são capazes de conhecer. Teorias da conspiração não são propriamente teorias políticas, mas seu uso no combate político é muito real. O essencial é que, ao veicular a ideia de que há uma causa escondida para tudo, essas teorias negam que ações políticas sejam frutos da liberdade dos homens e que por isso podem ser contingenciais. Como só alguns conhecem as verdadeiras articulações do real, apenas eles podem reivindicar o poder.

Na política americana, o FBI deu ‘frágeis’ justificativas para a morte de um suspeito.

Não tenho como saber o que aconteceu nos Estados Unidos, mas é possível observar que a morte do suspeito desencadeou uma disputa sobre seu significado que só é possível numa sociedade democrática. Se essa disputa caminhar é um sinal de que as instituições ainda garantem os valores essenciais da república. Se forem varridas para debaixo do tapete é um sinal de que não se trata apenas de um problema de credibilidade, mas de garantias constitucionais. E isso pode ser muito grave.

Como diz o filósofo Oswaldo Porchat, ainda é preciso ser cético?

Porchat deu uma grande contribuição para a filosofia, com sua visão renovada do ceticismo. Em sua versão antiga, o ceticismo põe em dúvida a possibilidade de que proposições possam conter toda a verdade sobre uma coisa. Assim, elimina a ideia de que o papel da filosofia é explicitar a verdade em todas suas formas. Muitos céticos insistem não apenas sobre o fato de que o ceticismo introduz um elemento importante para a compreensão das ciências como processo de busca da verdade, mas altera nossa forma de olhar o cotidiano. Uma das consequências pode ser o afastamento da vida pública e o desenvolvimento de uma certa apatia, que seria adequada às sociedades atuais. É possível, no entanto, pensar o ceticismo como uma vacina contra todas as formas de dogmatismo. Nesse caso, continuamos a participar da vida pública sem, no entanto, acreditar deter a verdade sobre elas. Valores como tolerância e respeito às diferenças passam a nos orientar em um mundo no qual não é possível ter certezas absolutas. Talvez não possamos falar propriamente de uma filosofia política cética, mas é inegável que uma certa dose de ceticismo combine bem com a vida nas democracias. De fato, estamos mais céticos. E isso não é uma especificidade brasileira. O fenômeno ocorre em várias democracias atuais.

Com instituições tão abaladas, como uma sociedade resiste e não se desmantela? Quer dizer, em que ou em quem se pode confiar?

Realizamos no Centro de Referência do Interesse Público (Crip-UFMG) pesquisas de opinião sobre a corrupção. Ali constatamos que a população pensa que as instituições políticas são corrompidas, mas é possível confiar em amigos e familiares. Isso mostra que há uma certa consciência da população brasileira de que a corrupção é um fenômeno importante de nossas vidas, mas não é absoluto. De fato, se não pudermos acreditar em nada, isso leva ao desespero ou a uma visão apocalíptica da realidade. Para vivermos em uma república, é preciso algum grau de confiança nas pessoas e mesmo nas instituições. Por isso, a corrupção é tão ameaçadora para um Estado de Direito. Desconfiar de tudo e de todos acaba tornando impossível a vida política, no lugar de propor um entendimento correto do que se passa e de como lutar contra as ameaças muito reais que corroem nossas vidas em comum.

É possível manter relações sociais sem mentiras? Tipo ‘supersinceridade’?

É diferente ao se tratar da vida privada ou da vida pública. Não que a sinceridade não seja um valor nas duas esferas. Mas não pode ser vivida da mesma maneira em uma relação amorosa e em uma relação política. Na dimensão particular, é preciso lembrar que o desejo de ser absolutamente sincero e transparente esbarra no fato de que nem sempre somos transparentes para nós mesmos. Ora, na esfera pública, nem sempre a transparência é o melhor caminho para se preservar outros valores como a liberdade individual ou o direito à privacidade. Transformar a sinceridade em valor absoluto pode acabar comprometendo a sobrevivência das instituições democráticas. Ser totalmente “sincero”, por exemplo, sobre os meios de defesa de um país pode colocá-lo em risco diante de seus inimigos. Se tudo tiver de ser transparente, acaba a separação entre vida privada e vida pública e, como já mostrou Arendt, acaba também a política como expressão da liberdade.

E rompantes de franqueza, como mostrou o ministro Joaquim Barbosa, são levados a sério? No fim, que bem faz a verdade?

As palavras do ministro devem ser levadas a sério não por indicarem uma crise passageira entre os poderes da república brasileira, mas por mostrarem uma dimensão essencial da política contemporânea. Recentemente participei da organização do livro Dimensões Políticas da Justiça. Nele, pesquisadores procuram debater as diversas faces do conturbado relacionamento entre Justiça e política. O eixo desse trabalho é a ideia de que não se pode separar essas duas esferas da vida pública, sob pena de se deixar de lado um aspecto essencial da realidade atual. Talvez o fato mais importante seja a invasão da política pela lógica do Judiciário. Conflitos políticos são tratados como disputas jurídicas e perdem sua especificidade, alterando as regras que os guiam. Assim, quando o Congresso recorre repetidamente ao Judiciário para resolver suas querelas, abre mão de suas regras de embate para adotar aquela de um outro poder. Ora, o que Montesquieu já mostrou é que não buscamos o equilíbrio entre os poderes por uma razão moral, mas porque os poderes tendem a devorar os espaços dos outros. Por isso, precisam ser equilibrados para não levarem à perda do eixo de sustentação da vida republicana. No caso brasileiro, a judicialização da política implica o enfraquecimento do Poder Legislativo. Do outro lado, implica a politização do Poder Judiciário. Esse confronto é revelador de um processo muito mais amplo e profundo – e não apenas o sinal de uma crise envolvendo personalidades do momento.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Haddad compara gays a cristãos na Parada Gay de SP

A matéria é do GGN:

Haddad compara gays a cristãos e negros em evento da Parada Gay de SP

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, comparou neste domingo (2) os gays aos cristãos. "Assim como os homossexuais, os judeus, os cristãos, os negros e as mulheres já tiveram que defender seus direitos ao longo da História", afirmou Haddad em evento de abertura da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, conhecida como Parada Gay, que acontece hoje na região da avenida Paulista.

Segundo ele, a Parada é mais uma jornada "desta luta por aceitação e contra a intolerância". De acordo com Haddad, "aquele que é homofóbico hoje em dia já precisou lutar por sua própria liberdade em algum momento. Não podemos admitir que alguém que foi vítima de discriminação hoje persiga alguém".

O prefeito afirmou ainda que a luta LGBT em busca de convivência pacífica é de todos. "Quem não compreende isso terá que se render aos fatos. O ser humano nasceu para ser livre e será livre".

Kit gay

Indagado sobre a possibilidade de um kit gay nas escolas da rede municipal, Haddad disse que já existem programas de combate à intolerância na rede de ensino que focam não apenas a diversidade sexual, mas preconceitos de cor.

O tema da parada este ano será "Para o armário nunca mais! União e Conscientização na luta contra a homofobia". O objetivo dos organizadores é lutar contra possíveis retrocessos nos direitos já conquistados pela comunidade LGBT. A manifestação contra figuras públicas que de alguma forma se posicionaram contra os homossexuais será feita no último dos 17 trios elétricos a desfilar pela avenida Paulista.

"Lugar de religião é na igreja e não no Legislativo"

O presidente da APOGLBT, Fernando Quaresma, criticou neste domingo (2) a omissão do Poder Legislativo com relação à ampliação dos direitos LGBT. "Enquanto o Judiciário faz justiça, o Congresso se omite e o fundamentalismo religioso tem prevalecido na Casa. O Estado é laico e lugar de religião é na igreja".

Quaresma também criticou empresas que se dizem amigas dos gays, mas tem receio de ligar suas marcas à Parada. "Muitas companhias só querem o dinheiro dos gays, mas não a responsabilidade social que o apoio a esta causa traz".

Apesar do clima de festa do evento, Quaresma afirmou que a Parada "não é Carnaval fora de época" e sim mais uma possibilidade de dar visibilidade para um setor da sociedade que é oprimido.

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL - RJ) também defendeu a aprovação da PL 122 e falou da necessidade de transformar a liminar do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) , que aprovou o casamento gay, em lei. "Também precisamos de leis que garantam mais direitos às pessoas trans. A transexualidade ainda é vista como uma patologia. E muitas vezes para conseguir a operação para readequação sexual, a pessoa trans precisa se identificar como um doente".

A ministra da Cultura, Marta Suplicy, classificou a eleição do pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC, para a presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados como uma "tragédia grega". "Eu sou psicológa e ser gay não é considerado uma doença há muito tempo. Colocar alguém que quer discutir a cura gay à frente da comissão é um enorme desrespeito à comunidade LGBT".



quinta-feira, 25 de abril de 2013

Bancada evangélica se une a José Genoíno contra o STF

Alguns dias atrás, em represália contra as manifestações que pedem a renúncia de Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara de Deputados, um grupo de evangélicos fiéis ao deputado do PSC/SP foi até a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da mesma casa, para protestar contra a presença dos deputados José Genoíno e João Paulo Cunha, ambos do PT/SP e réus condenados no processo do mensalão, pedindo que ambos também renunciassem.

Olho por olho, dente por dente, mandato por mandato portanto. Só que a hipocrisia, o oportunismo e o "jogo para a plateia" da atitude não demorou mais que uma semana para se revelar durante nova reunião da CCJ. 

Como a memória de brasileiro (especialmente a política) é curta, vamos refrescá-la um pouquinho, caro leitor.

Decisões polêmicas do Supremo Tribunal Federal nos últimos anos, como a descriminalização do aborto de feto anencéfalo e a aprovação das uniões estáveis homossexuais, fizeram com que a bancada evangélica propusesse e apoiasse ostensivamente a Proposta de Emenda à Constituição que - na prática - submete os julgamentos do STF ao crivo do Poder Legislativo.

Indignado com a "libertinagem" do STF, o deputado Marco Feliciano, que ainda não presidia a CDH e estava na CCJ, protestou em seu blog com o artigo "A Hipócrita Laicidade Brasileira" no dia 13 de abril de 2012, dizendo, entre outras coisas:
Nesta semana, a barbárie desumana foi convocada a firmar estacas em nosso país através da votação e aprovação do ABORTO DOS ANENCÉFALOS, em seus votos, os juízes do STF usaram por inúmeras vezes a expressão religião, e em nome da laicidade brasileira assustaram mais uma vez a família brasileira
... 
Avisei no twitter que falaria aqui sobre a única forma de sustar estas decisões tomadas pelo STF e que provocam tanto desconforto na sociedade brasileira, que se sente lesada, afinal não votamos em Juízes, votamos no legislativo e o executivo. Quem representa o pensamento do povo não pode ser 11 homens/mulheres e sim os Deputados, Senadores e a Presidente.

Tramita já na casa, mas está “engavetada” a PEC 143/2012 do Nobre Deputado Nazareno Fonteles PT-PI (dep.nazarenofonteles@camara.gov.br) que fixa o mandato de 7 anos para o Supremo Tribunal Federal, e a PEC 3/2011 do mesmo Deputado, que da poderes ao Congresso Nacional para Sustar as Decisões do STF quando estas violarem os direitos do povo brasileiro.

(PEC = PROJETO DE EMENDA CONSTITUCIONAL).

Estas PECs estão na Comissão de Constituição Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados, cujo presidente atual da CCJC é o Deputado Eduardo Berzoine PT-SP (dep.ricardoberzoini@camara.gov.br).

Se conseguirmos mobilizar homens e mulheres desse país, que são contrários a decisão do Supremo Tribunal Federal, e convencermos estas PECs serem colocadas em votação e cada um de nós procurarmos os deputados da CCJC (sou titular desta comissão) escrevermos e pedirmos para que votem a favor, e sendo aprovada a PEC, poderemos sustar a decisão do STF.

Por isso peço encarecidamente a todos que lerem este simples e objetivo artigo, a enviarem um email para o Presidente da Comissão de Constituição de Justiça e Cidadania:

dep.ricardoberzoini@camara.gov.br

1) Pedindo para que seja colocada em votação a PEC 143/2012 Emenda que Altera dispositivos da Constituição Federal, dispondo sobre a forma de escolha e a fixação de mandato de sete anos para Ministros do Supremo Tribunal Federal e dos Tribunais de Contas da União e dos Estados.

2) Pedindo que também seja colocada em votação a PEC 03/2011, que propõe a possibilidade de o Legislativo sustar atos do Judiciário que “exorbitem suas funções”

Convoco mais uma vez os evangélicos, os católicos, e todos os que amam e respeitam a vida e ficaram indignados com a decisão do STF a Repassarem este artigo ao maior número de pessoas possíveis, faça a sua parte.

Também gostaria que se possível, este artigo chegue aos veículos de imprensa escrita, radiofônica ou televisa dos segmentos religiosos, podemos assim despertar nosso povo. Não podemos ficar calados, de braços cruzados por termos perdido esta batalha, afinal a guerra não acabou ainda! Apelo aos grandes comunicadores cristãos, aos lideres religiosos que me ajudem a divulgar esta matéria, e agradeço desde já.
Pois é, como o próprio Marco Feliciano havia pedido, a PEC 3/2011 foi impulsionada com o apoio maciço da bancada evangélica até ser aprovada pela CCJ ontem, 25/04/13, segundo noticia o Estadão.

Detalhe sinistro: com o apoio entusiasmado dos mesmos José Genoíno e João Paulo Cunha que os fãs evangélicos de Feliciano haviam escrachado uma semana antes.

Ou seja, hipocrisia no Congresso Nacional é só uma questão de oportunidade. Ou oportunismo...



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ninguém liga para os mendigos assassinados em Goiânia


Enquanto a imprensa (o Jornal Nacional da Globo sobretudo) gasta linhas e horas falando do atentado em Boston, o "mendigo gato" de Curitiba vira celebridade, evangélicos e gays se digladiam no Congresso, moradores de rua morrem indefesos em Goiânia, sem que ninguém se alarme com o fato, conforme comenta a coluna da Eliane Cantanhêde na Folha de São Paulo de hoje, 18/04/13:

3 versus 30

BRASÍLIA - Com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara fechada e 93% dos paulistanos defendendo a redução da idade penal, 29 moradores de rua e mais um viciado são mortos em Goiânia, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Com razão, o planeta está em choque com a morte de três pessoas na maratona nos EUA. E quem está em choque com a morte de 30 infelizes sem amor-próprio e sem proteção do Estado brasileiro?

Ontem, houve uma debandada de deputados da Comissão de Direitos Humanos e dezenas de pessoas continuaram gritando para afugentar o deputado e pastor Marco Feliciano. Nem a portas fechadas a comissão consegue funcionar.

Do outro lado, 40 evangélicos decidiram dar um troco e invadiram a Comissão de Constituição e Justiça para exigir a saída dos deputados José Genoino e João Paulo Cunha, condenados pelo mensalão.

Ao que se saiba, nem os deputados, nem os evangélicos, nem os manifestantes contra Feliciano estão discutindo o que realmente interessa nem a questão mais urgente de direitos humanos: um possível grupo de extermínio na capital de Goiás.

A única estridência partiu da ministra Maria do Rosário, pedindo à Procuradoria-Geral da República que a Polícia Federal entre em ação. A ministra é do PT, e o governador Marconi Perillo, do PSDB, mas a questão não é partidária nem apenas local.

Com tantas mortes há oito meses, não é absurdo supor que a polícia estadual esteja, no mínimo, lavando as mãos; no máximo, envolvida.

Os moradores de rua vêm sendo atacados a tiros, a facadas e espancados até a morte, um atrás do outro, e nada acontece. Até ontem, quando alguns suspeitos foram presos, não havia gritaria, nem manifestações, nem a presença do Congresso e nem mesmo operações diligentes.

É como se as vítimas, já tão punidas pela vida, não fossem nada, apenas um fardo, um acidente. E os direitos humanos, onde ficam?



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Como a generalização mata o diálogo entre evangélicos e gays


Uma análise muito abrangente e interessante sobre o atual confronto entre evangélicos emergentes e movimentos gays no Brasil, de Bruno Cava, publicada no Quadrado dos Loucos, que - independentemente da posição político-ideológica de quem quer que seja (e da própria generalização difícil de ser evitada) - merece ser lida com a devida atenção, debatida e divulgada:

Jean Wyllys, os tabus e as contradições da “questão evangélica”

No último dia 21, compareci na Glória para o lançamento do livro Religião e política, que trata “da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil”.

Na mesa, estavam duas pesquisadoras, um membro da secretaria de direitos humanos do Rio, o deputado Jean Wyllys e um pastor metodista da rede política de evangélicos Fale. O auditório era eclético, com militantes de movimentos LGBT e negro, ativistas do campo evangélico, um sacerdote muçulmano, mais pesquisadores e estudantes em geral. Uma composição que poderia propiciar, pela vontade construtiva, pontes entre os vários “campos”, diante das perplexidades da política brasileira contemporânea. É salutar ir além dos “campos” que a grande imprensa e o senso comum delimitam diariamente, em conveniente reducionismo, mas que certamente não correspondem à complexidade das forças políticas envolvidas.

As exposições foram boas, sobre a difícil luta das minorias num país com ainda poucos direitos às mulheres, negros, LGBT, índios etc. As pesquisadoras falaram sobre a pesquisa e basicamente expuseram os desafios do movimento, no contexto de aberto discurso antiminorias por parte de parlamentares das bancadas evangélica, católica e da família brasileira. Jean, como sempre, fez uma boa fala ao rememorar a história dos preconceitos no Brasil, se referir à permanente desqualificação de seu discurso e atuação corajosa, por ser homossexual assumido, bem como a constância da violência homofóbica e do bloqueio a pautas inadiáveis, por exemplo, a legalização do aborto ou o casamento igualitário. A modernização do Brasil Maior não está contemplando as minorias, o que fica óbvio quando um deputado homofóbico como Marco Feliciano encabeça uma comissão de direitos humanos e minorias.

Até aí, não poderia concordar mais.

O problema começou quando Jean Wyllys foi além da pauta imediata que ele trabalha, para apresentar sínteses sobre a “questão evangélica” no Brasil. Embora tenha citado alguns aliados entre grupos e lideranças religiosas, a meu ver, terminou por reproduzir vários preconceitos e generalizações. O que é duplamente problemático. No final das contas, essas generalizações atuam exatamente para fortalecer os homofóbicos evangélicos, e o conservadorismo que grassa em muitos coletivos e grupos sociais brasileiros, de matiz religioso ou não.

Faço obviamente uma interpretação do que ouvi:

Para Jean, existe um avanço do neopentecostalismo no Brasil. O governo Lula não só foi conivente com esse avanço, ao se aliar com forças políticas do campo evangélico, como adubou as suas condições nas bases. É que ocorreu um declínio do ensino público no governo Lula. O déficit educacional abriu as portas para a maior alienação das pessoas. Quem melhor aproveitou a situação foram as igrejas evangélicas e os pastores. Oportunistas, eles trataram de manipular mentes e corações, e foram construídas fortunas, verdadeiros negócios e bancadas parlamentares em cima disso. As conquistas sociais do governo Lula foram muito limitadas: teria acontecido uma inclusão pelo consumo. Daí os pobres sejam mais induzidos a comprar carro, casa e ipad, do que em lutar por direitos. Sem senso crítico, enfim, não é possível acolher a diferença no mundo da vida (nessa altura, o deputado citou Hanna Arendt). Isto é, não é que os pobres tenham culpa: o problema central é a educação.

Simplesmente não dá pra engolir essa narrativa. Alguém que se construiu politicamente ao redor do discurso da abertura à diferença, não pode se fechar de maneira tão reducionista, à beira da intolerância. Os evangélicos presentes, em sua maioria (provavelmente todos) também contra Feliciano, se sentiram atingidos pela fala. O último a falar, o pastor metodista da rede Fale (que apresentou uma petição com 20.000 assinaturas de evangélicos contra Feliciano), pontuou que não se podem desconsiderar as tensões internas e divisões no que a imprensa e o senso comum apresentam monoliticamente como “campo evangélico”. Que qualquer estratégia de resistência à bancada conservadora, que inclui deputados evangélicos, não pode prescindir dos próprios evangélicos. No entanto, naquele momento, a ideia de erigir pontes praticamente se esfacelava na esteira da fala do deputado.

Evidentemente, nas intervenções de apoiadores de Jean e/ou do movimento LGBT, ele foi muito aplaudido. Isso apenas me deixou mais angustiado com o fogo cruzado. Parecia incorrermos numa dicotomização que reforça tanto os evangélicos homofóbicos e autoritários, quanto certo discurso ambíguo por dentro dos movimentos pró-diferença, quando ampliam os horizontes de análise, e que acabam reproduzindo preconceitos contra o pobre brasileiro e sua “ascensão” na última década. Por sinal, essas tendências conservadoras, no movimento evangélico ou gay, não estavam ali presentes, ou pelo menos não majoritariamente.

Parte do problema, em que Jean pelo menos esbarrou nalguns momentos, está na aplicação da famosa “hipótese Lula”, quase um “padrão PSOL” de crítica ao governo e o governismo. Para desqualificar a massificação de políticas sociais, lhes atribui um caráter meramente assistencialista e eleitoreiro. O que se nivela com os argumentos da direita brasileira, desde sempre desqualificadora do pobre, e para quem a grande referência do Brasil moderno é a classe média branca e ilustrada (eles mesmos). O discurso educação-vem-primeiro tem muito a ver com a percepção de que os pobres sejam deseducados, sem “consciência política”, suscetíveis à “sedução”, e que antes de lhes conferir poder e influência devam ser salvos da ignorância por quem já estudou. Sustentam, ainda que nas entrelinhas, que o pobre necessita de formação para chegar no patamar crítico, esse que a esquerda branca e ilustrada já teria atingido, a única ainda capaz de razão desinteressada. Sem isso, não se pode ter democracia voltada ao interesse geral, e recaímos todos cronicamente no patrimonialismo, o qual, segundo a tese conservadora, é a grande doença do estado brasileiro.

E parte do problema está na equação evangélico = fundamentalista = direita reacionária e obscurantista. Essa generalização não só contorna a complexidade de tendências e forças dentro do “campo evangélico”, como fortalece os vetores conservadores, como, por exemplo, o que mantém o mandato de Marco Feliciano. A bancada evangélica é minoria em relação à bancada da família brasileira — por que o foco frequente só nela? Vamos, sim, combater Feliciano, os evangélicos homofóbicos, mas com igual raiva e empenho os católicos homofóbicos, os ateus racistas, os socialistas machistas. Afinal, nada é mais fundamentalista e ameaçador, como comprova a história das lutas, do que a elite brasileira, obscurecida por histerias e temores e ódios intestinos, e a quem serve uma ordem social violentamente racista, patriarcal e classista que assassina diariamente as minorias. Como se o “avanço dos evangélicos” fosse uma onda ameaçadora, obscurantista, um perigo contra o “estado laico” e a tolerância, num país que jamais conheceu democracia na base, e cujo único momento de real mudança se deu nos últimos 10 ou 15 anos.

Vivemos a versão brasileira da islamofobia: o avanço evangélico equivale ao “perigo árabe”. Mas, no nosso caso, em vez de a Europa ocupar o lugar da civilização assaltada pela mancha bárbara, aqui é a classe média branca e ilustrada, quer dizer, a nossa própria mini-Europa pretensiosamente evoluída, que não por acaso adora passear em pontos in de cidades charmosas do velho mundo (Jessé Souza). É como se a própria Europa não tivesse se construído a partir dos bárbaros, árabes e imigrantes; como se a própria classe média brasileira, branca e ilustrada, com sua boa consciência forjada num mérito a-histórico, pudesse existir sem a exploração sistemática dos pobres, a violência e o racismo.

Quando se perseguem os crentes e se demonizam os cultos neopentescostais, é favorecido o discurso pastoral mais achatado, que robustece uma “identidade evangélica” e uma pauta voltadas à pior moral cristã. Estamos fazendo o jogo do inimigo, como naquelas disputas entre extremistas que se alimentam reciprocamente. A bancada evangélica agradece. Nesse aspecto, falta vivência e pesquisa para a esquerda branca e ilustrada, contumaz no erro histórico de não compreender o funcionamento dos arranjos produtivos e subjetividades entre os pobres. No Brasil, esse é um erro clássico que vem desde a aparição das primeiras camadas médias urbanas, passa pela esquerda pré-1964, atravessa a luta contra a ditadura (que não soube valorizar as bases), até o movimento antineoliberalismo dos anos 1990 (preso aos slogans estatólatras).

Uma das poucas vezes em que se pôde compreender politicamente a relação dos pobres com a religião e o cristianismo, foi na época da fundação do PT e do MST, quando as pastorais católicas exerceram um papel fundamental e incontornável.

Só durante o governo Lula, que soube compreender e se deixar atravessar por essas dinâmicas e subjetividades, foi possível agenciar uma força política com os pobres. Esse agenciamento atravessa, sem dúvida, o trabalho de base realizado pelas igrejas em todo o território nacional. Nenhuma força de esquerda tem influência política à altura dessa cauda longa de igrejinhas, cultos e comunidades. O governo Lula soube se ligar ao movimento, como a muitos outros “desde baixo”. Não à toa, o tremendo realinhamento eleitoral a partir de 2006, quando o voto do pobre migrou decisivamente da direita à esquerda partidária. Momento próximo, aliás, de quando parte da velha esquerda, ainda que repaginada com o colorido da diferença, porém reproduzindo os mesmos erros de 100 anos, passou a acusar o governo de traição. Quando se passam a sínteses mais amplas sobre a realidade brasileira, muitas vezes o discurso centrado na diferença se torna ambíguo em relação ao protagonismo dos pobres, sua feição, sua “consciência”. Para mim, isso ficou bem claro naquele embate entre “progressistas” da pauta LBGT e “progressistas” do campo evangélico, embora a questão transcenda esse recorte.

Parte fundamental do problema, e isso consiste num tabu, está no preconceito da esquerda que inverte o sinal desse empoderamento político dos pobres, muito acelerado no governo Lula. Mobilizados produtivamente por renda e consumo, os pobres galgaram um poder político inigualável em épocas anteriores. A ascensão dos evangélicos está assentada, de fato, nesses arranjos produtivos e subjetividades. É por isso mesmo que, dentro do “campo evangélico”, também pulsem tendências e tensões “progressistas”, quiçá um devir-minoritário! Obviamente, testar essa hipótese não passa pelos esquemas retrógrados da grande imprensa e do senso comum, nem do esquerdismo cuja militância não vai longe, que fala entre si e encontra sempre as mesmas figuras.

É preciso mudar as coordenadas de tempo e espaço da militância. Isso exige vivência, copesquisa, sair da zona de conforto onde temos um discurso pronto e esquemático, que inclusive nos constitui, mas que falha no critério básico da prática. E que bateu no teto, não tendo como reunir mais forças para ser efetivo.

Trata-se mesmo de uma tarefa emergencial. Ficando apenas na zona de conforto ativista, o avanço, esse sim, dos homofóbicos, racistas e machistas vai continuar. Até se pode derrubar Feliciano, mas as manchas obscuras e desconhecidas, para nós, continuarão a avançar, gerando perplexidade e contradição. Os bárbaros já estão dentro. São os pobres. É preciso reaprender tudo, voltar à prancheta, e sem preconceitos mergulhar na composição de classe, a única que pode, em escala, mudar o mundo para melhor. Eles já estão fazendo isso, e não vão continuar pedindo a nossa opinião por muito tempo, se não soubermos mudar de perspectiva.



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