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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Presidente do PSC jovem perde cargo após enviar "nudes"


PSC é aquele partido que se diz cristão e abriga na sigla muitos evangélicos como Pastor Everaldo (ex-candidato à Presidência da República) e o deputado federal Marco Feliciano.

A matéria é do BrasilPosts:

Presidente do PSC Jovem perde o cargo após enviar nude: 'Levarei na esportiva'

Na última segunda-feira, o PSC (Partido Social Cristão) anunciou o desligamento Caíque Marcatt do cargo de presidente do PSC Jovem. Recentemente, ele foi acusado por uma das coordenadoras do movimento Direita São Paulo de enviar fotos de suas partes íntimas durante uma discussão via Facebook, após Caíque ser duramente criticado em postagens do grupo militante.

(a troca de mensagens e a foto borrada podem ser vistos no link indicado acima)

Em nota, o partido “reafirma seus ideais cristãos democráticos e de profundo respeito ao ser humano” e informa que o advogado Samuel Oliveira (PSC-DF), até então secretário do PSC Jovem, passa a ocupar o cargo de presidente.

Nascido em Guarulhos (SP), Caíque tem 31 anos, e é filiado ao PSC desde 2006. Em 2010 atuou como líder do grupo jovem suprapartidário da campanha de Geraldo Alckmin na disputa a Governo do Estado.

Caíque, que é casado e tem filhos, vem ironizando nas redes sociais tanto a denúncia feita pela dirigente do movimento Direita São Paulo como também a decisão do PSC de afastá-lo de seu cargo.



Em uma postagem do Direita São Paulo, Caíque diz que vai levar a situação “na esportiva”: “Não precisa a intenção criminosa de vocês não vai me levar a tristeza e degradação como acontece com a maioria das vítimas desse tipo de crime que fizeram comigo, meu psicológico é mais forte do que vocês possam imaginar e levarei essa situação na esportiva, para vocês foi mais uma vitória para mim apenas um acontecimento”.

Há um mês, em seu Instagram, Caíque postou uma declaração de amor à mulher, com uma foto de seu casamento: “Em meu olhar brilha o desejo de estar sempre a seu lado”.





quarta-feira, 10 de maio de 2017

O ovo ou a galinha


Não costumo ser pessimista, mas tudo indica que o pior ainda está por vir.

É que a crescente (e trágica) polarização político-ideológica no Brasil prenuncia uma espécie de estado de horror sem fim.

Gerações futuras (se houver) poderão estudar com mais rigor metodológico e responder cientificamente a dúvida cruel: foram as redes sociais que provocaram esta situação ou se ela seria produzida de qualquer maneira, independentemente da força atômica da internet, para o bem e para o mal.

O fato é que o advento das tecnologias modernas de comunicação deu vez e voz a uma legião de ódios e preconceitos que agora podem destilar livremente seu veneno no fluxo incontrolável de verdades alternativas e mentiras aleatórias que singram os mares do desconforto coletivo de não saber em quem e no que acreditar.

Talvez o fato que nos roube mais a esperança de algo bom no horizonte seja a nossa incapacidade de dialogar e conviver com o diferente.

Parece que ninguém percebeu (ainda) que não temos outra opção se quisermos viver todos juntos no mesmo país.

Por isso, é particularmente triste ver que amigos não conseguem se ouvir, que a única resposta possível para uns é a exclusão de plano, com a pré-desqualificação dos outros para o debate, e que não existe mais um mínimo de empatia para tão somente sentar-se à mesa, incluir e discutir o bem comum.

No fundo, os afetos e discursos envenenados matam tanto o ovo como a galinha, e nada consegue nascer de novo.

Acorda, Brasil, ainda há tempo!



domingo, 7 de agosto de 2016

Conflitos judiciais nas Olimpíadas poderão ser resolvidos via internet


A informação é da Agência Brasil:

Mediação de conflitos durante Jogos Olímpicos poderá ser feita via internet

Michèlle Canes

O sistema de mediação via internet do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) poderá ser usado para solucionar problemas que envolvam tanto os Jogos Olímpicos como os Paralímpicos. Nesta sexta-feira (5), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou que questões relacionadas aos Jogos poderão ser tratadas usando o Sistema de Mediação Digital.

“A ferramenta permitirá acordos, celebrados de forma virtual, entre partes de um conflito que ocorrer entre espectadores, participantes da Rio 2016 e o próprio Comitê Olímpico. A medida faz parte do termo de cooperação técnica assinado pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 e o Conselho Nacional de Justiça [CNJ] e terá validade até maio de 2017”, diz nota no site do Conselho.

Segundo o CNJ, com o uso do sistema os julgamentos das ações serão mais rápidos. As empresas que fizerem a adesão ao acordo ficam obrigadas a manter o sigilo das informações das negociações que forem feitas. Nos casos em que as partes não chegarem a um acordo, será feita a mediação presencial.

Para acessar o sistema, o usuário deve acessar o site do CNJ.



sexta-feira, 29 de julho de 2016

Busca por "anticristo" no Google Maps leva ao Templo de Salomão do Edir Macedo


Deve ser mais uma das piadas da internet, segundo o Estadão:

Google Maps dá endereço do Templo de Salomão em busca por 'anticristo'

Internautas comentaram nas redes sociais o estranho resultado; maior igreja do País se localiza no Brás, na região central da capital paulista

SÃO PAULO - Os internautas que procuram a palavra "anticristo" no buscador do Google Maps são automaticamente direcionados a um estranho resultado: o Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), localizado no Brás, região central da capital paulista.

O endereço fornecido pelo Google (Avenida Celso Garcia, 605) corresponde ao do templo, inaugurado em julho de 2014. Procurado, o Google afirmou que não foi uma ação da empresa. "O que ocorre é que nossos mapas têm muitas, muitas fontes, inclusive os próprios usuários", disse, em nota.

O Google também declarou que os usuários que encontrarem erros ou imprecisões nos mapas podem informá-los à empresa pela ferramenta "reportar um problema".

Em nota, a Igreja Universal do Reino de Deus disse que o Google já está corrigindo seu mapa. Declarou, também, que "é triste perceber que ainda há espaço para a promoção de atos discriminatórios praticados por indivíduos irresponsáveis, como esse que resolveu zombar da fé dos 9 milhões de fiéis que tem o Templo de Salomão como local sagrado".

Com 100 mil metros quadrados de área construída em um terreno de 35 mil metros quadrados, o Templo de Salomão é considerado o maior do País e tem capacidade para 10 mil fiéis, além de dispor de 1,2 mil vagas de estacionamento.



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Malafaia vira meme nos EUA


O comportamento irascível de Silas Malafaia nos debates que trava pelos meios de comunicação já é bem conhecido de todos os brasileiros, mas a coisa começa a ultrapassar as fronteiras do país.

Durante o debate que teve com Toni Reis, presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), realizado em Brasília na semana passada, os gestos e trejeitos de Malafaia foram fotografados à exaustão.

Na ilustração acima, os punhos cerrados e levantados de Malafaia são comparados com os ensaios fotográficos que Adolf Hitler fazia em privado antes de ascender ao poder na Alemanha, para avaliar como sua gesticulação e expressão facial podiam aumentar o potencial persuasivo de seu discurso.

Essas fotos ficaram famosas principalmente quando foram encartadas na biografia de Hitler escrita por Joachim Fest (que resenhamos aqui), na qual Fest comentou:
A série de fotos que o mostra em poses melodramáticas ao estilo da época por vezes parece engraçada, mas demonstra como o seu gênio demagógico se formou: treinando e corrigindo erros, soube aprender.
Os maneirismos de Malafaia somados ao ar blasé de Toni Reis durante a audiência pública do dia 25/06/15, por ocasião da discussão do Estatuto da Família, não passaram despercebidos pelos geradores de memes da rede mundial, que logo trataram de repercutir principalmente esta foto:



O BuzzFeed americano reuniu alguns desses memes, que você pode ver clicando aqui.

Obviamente, o BuzzFeed tratou de reproduzi-los em sua versão brasileira.

O fato é que, aos poucos, amado ou odiado (quem se importa?), Silas Malafaia vai se tornando uma celebridade mundial. 

Bem... talvez não do modo que ele esperava.



sábado, 13 de junho de 2015

Umberto Eco diz que redes sociais dão voz a uma "legião de imbecis"


Matéria do UOL Notícias:

Redes sociais deram voz a legião de imbecis, diz Umberto Eco

Crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".

A declaração foi dada nesta quarta-feira (10), durante o evento em que ele recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália.

"Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel", disse o intelectual.

Segundo Eco, a TV já havia colocado o "idiota da aldeia" em um patamar no qual ele se sentia superior. "O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade", acrescentou.

O escritor ainda aconselhou os jornais a filtrarem com uma "equipe de especialistas" as informações da web porque ninguém é capaz de saber se um site é "confiável ou não".



domingo, 26 de abril de 2015

Saber demais pode ser ruim

A matéria é da BBC Brasil:

O surpreendente lado ruim de ser inteligente

David Robson

Temos uma tendência a pensar em gênios como seres atormentados por angústias existenciais, frustrações e solidão – a escritora Virginia Woolf, o matemático Alan Turing e até a fictícia Lisa Simpson são estrelas solitárias, isoladas apesar de seu brilho.

A questão pode parecer um assunto que atinge apenas alguns poucos privilegiados – mas os conceitos e ideias por trás dessa impressão repercutem em quase todos nós.

Boa parte do sistema educacional ocidental é direcionada a melhorar a inteligência acadêmica. Apesar de suas limitações serem conhecidas, o Quociente de Inteligência (QI) ainda é a principal maneira de medir habilidades cognitivas. Cada vez mais gente gasta fortunas em atividades de treinamento do cérebro para tentar melhorar sua pontuação. Mas e se essa busca pela genialidade for uma tarefa para tolos?

As primeiras respostas para esses questionamentos surgiram há quse um século, no auge da Era do Jazz americana. Na época, o teste de QI ganhava popularidade após ter se provado útil nos centros de recrutamento de voluntários durante a Primeira Guerra Mundial.

Os altos e baixos de pequenos gênios

Em 1926, o psicólogo Lewis Terman decidiu usar a prova para identificar e estudar um grupo de crianças superdotadas. Ele selecionou 1,5 mil alunos da Califórnia com QI maior que 140 – 80 deles com mais de 170 de QI. O grupo ficou conhecido como os “Termites”, e os altos e baixos de suas vidas ainda são estudados hoje em dia.

Como era de se esperar, muitos dos Termites cresceram para fazer fama e fortuna. Nos anos 1950, eles ganhavam um salário médio que correspondia ao dobro do de pessoas “comuns”.

Mas, inesperadamente, muitas crianças no grupo de Terman preferiram profissões menos glamorosas, como policial, marinheiro ou datilógrafo. Os Termites também não foram particularmente mais felizes do que o cidadão americano comum, com os níveis de divórcio, alcoolismo e suicídio semelhantes ao da média da população do país.

A moral da história é que, na melhor das hipóteses, um grande intelecto não faz diferença em relação à sua satisfação com a vida. Na pior, ele pode significar uma sensação maior de vazio.

Isso não quer dizer que todo mundo com um QI alto seja um gênio torturado, como a cultura popular nos faz crer. Mas ainda é assim, é algo intrigante. Por que os benefícios de ter uma inteligência abençoada não aparecem a longo prazo?

Fardo pesado e preocupação excessiva

Uma possibilidade é a de que a consciência de alguém sobre seus próprios talentos intelectuais tenha se tornado uma carga pesada. De fato, nos anos 1990, quando alguns dos Termites tinham quase 80 anos, eles olhavam para trás e, em vez de se vangloriar de seus sucessos, diziam ter sido perseguidos pela sensação de que não corresponderam ao que esperavam atingir quando jovens.

Essa sensação de fardo – principalmente quando combinada com as expectativas dos outros – é uma constante para muitas outras crianças superdotadas. Um dos casos mais famosos – e tristes – é o da britânica Sufiah Yusof. Admitida na prestigiada Universidade de Oxford aos 12 anos, ela abandonou os estudos na área de Matemática antes de se formar e começou a trabalhar como garçonete. Depois disso, tornou-se garota de programa e ficou conhecida por recitar equações para os clientes durante o sexo.

Outra reclamação comum é a de que pessoas mais inteligentes geralmente têm uma visão mais clara sobre os problemas do mundo. Enquanto o resto de nós se mantém distante das crises existenciais, os gênios perdem o sono sofrendo pela condição humana e pelos erros dos outros.

A preocupação constante, de fato, pode ser um sinal de inteligência – mas não da maneira que os filósofos de poltrona imaginaram. Alexander Penney, da MacEwan University, no Canadá entrevistou estudantes universitários sobre vários tópicos e descobriu que aqueles com o QI mais alto realmente se sentiam mais ansiosos.

Mas curiosamente, a maioria das preocupações era banal e cotidiana. “Eles não se inquietavam por coisas muito profundas, mas se preocupavam mais frequentemente sobre mais coisas”, diz Penney. “Se algo ruim acontecia, eles passam mais tempo pensando naquilo.”

Ao examinar com mais atenção, Penney também descobriu que isso se relaciona com a inteligência verbal, testada em jogos de palavras nos exames de QI. Ele acredita que uma maior eloquência pode ajudar o indivíduo a verbalizar suas ansiedades e remoer mais seus pensamentos. O que não é necessariamente uma desvantagem. “Eles tendem a solucionar problemas mais rapidamente do que a maioria das pessoas”, afirma.

Pontos ‘cegos’

A verdade nua e crua, no entanto, é que uma maior inteligência não equivale a tomar decisões mais sábias. Na realidade, a situação pode até tornar as decisões mais equivocadas.

Keith Stanovich, da Universidade de Toronto, passou a última década preparando testes de raciocínio e descobriu que decisões justas e independentes não estão nem um pouco relacionadas ao QI.

Segundo ele, os indivíduos que se saíam melhor em testes cognitivos padrão são na realidade um pouco mais vulneráveis a terem um “ponto cego de predisposição”. Ou seja, eles têm menos capacidade de enxergar seus próprios defeitos, mesmo quando são capazes de criticar os pontos fracos dos outros.

Eles também tendem a ser vítimas da “ilusão do apostador” – a ideia de que se uma moeda cai indicando “cara” dez vezes, ela terá mais chances de cair em “coroa” na 11ª vez.

Uma tendência a confiar mais nos instintos do que no pensamento racional pode explicar porque um número surpreendente de membros da associação britânica de superdotados Mensa acredita em atividades paranormais. Ou por que alguém com um QI de 140 têm duas vezes mais chances de estourar seu cartão de crédito.

Stanovich enxerga esses vieses em todas as camadas da sociedade. “Existe muita irracionalidade no mundo de hoje – pessoas fazendo coisas irracionais apesar de terem uma inteligência mais que adequada”, afirma. “Essas pessoas que ficam espalhando memes antivacinação para pais ou disseminando erros de informação na Internet são em geral pessoas com uma inteligência e uma educação acima da média.” Obviamente, pessoas inteligentes podem ser perigosamente, e bobamente, enganadas.

O lado bom

Portanto, se a inteligência não leva a decisões racionais ou a uma vida melhor, quais as suas vantagens? Igor Grossmann, da Universidade de Waterloo, no Canadá, acredita que temos que prestar mais atenção a um conceito antiquado: a sabedoria.

Sua abordagem é mais científica do que parece. “O conceito de sabedoria tem uma qualidade etérea”, admite. “Mas se olharmos para a pura definição de sabedoria, muitos vão concordar que se trata da ideia de alguém que pode fazer um julgamento bom e sem amarras”.

Em um experimento, Grossmann apresentou a voluntários vários dilemas sociais – que iam desde o que fazer sobre a guerra pela Crimeia a crises que leitores descrevem em colunas de aconselhamentos sentimentais de jornais.

Conforme os voluntários falavam, um painel de psicólogos julgava seus argumentos e sua tendência a uma ideia preconcebida.

Os que mais pontuaram acabaram predizendo maior satisfação com a vida, mais qualidade de relacionamento, e menos ansiedades e preocupações – todas as qualidades que parecem faltar a pessoas enquadradas no conceito clássico de inteligência.

Crucialmente, Grossmann descobriu que um alto QI não necessariamente significa maior sabedoria.

Aprender a saber

No futuro, empregadores podem começar a empregar testes como os de Grossmann para examinar outras capacidades intelectuais em vez do QI. A área de recursos humanos do Google, por exemplo, já anunciou que planeja avaliar candidatos com base em qualidades como “humildade intelectual”, em fez de pura proeza cognitiva.

Felizmente, a sabedoria pode vir do treino, segundo Grossmann. Ele ressalta que nós normalmente temos mais facilidade em deixar para trás nossas predisposições quando levamos outras pessoas em consideração em vez de nós mesmo.

Com isso, ele descobriu que simplesmente falar sobre seus problemas na terceira pessoa (“ele” ou “ela” em vez de “eu”) ajuda a criar a distância emocional necessária, diminuindo preconceitos e levando a argumentos mais sábios. Novos estudos devem gerar novos truques semelhantes.

O desafio vai fazer com que as pessoas admitam seus próprios defeitos. Mesmo se você conseguiu repousar sobre os louros da sua inteligência durante toda a vida, pode ser muito difícil aceitar que ela vem atrapalhando seu julgamento. Como disse o filósofo Sócrates, “o sábio é aquele que pode admitir que não sabe nada”.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Crianças finlandeses não aprenderão escrita manual a partir de 2016


Essa é uma daquelas notícias que assustam à primeira vista (ou lida), mas merecem uma reflexão muito mais abrangente sobre os rumos que a sociedade moderna está tomando.

O artigo abaixo foi escrito por Pedro Zambarda de Araujo e publicado no Diário do Centro do Mundo:

Por que a Finlândia está correta ao trocar a escrita à mão pela digitação — uma experiência pessoal


Há dois anos, eu tive a oportunidade de conhecer um das seis regiões da Escandinávia. Viajei para o antigo “patinho feio” dos países nórdicos, a gelada Finlândia. Era final de outono e começo de inverno, por isso tive que encarar um frio que pode queimar sua pele de menos 17 graus Celsius.

Viajei por três cidades: a capital Helsinque, berço de bandas de heavy metal e dona de uma infraestrutura invejável; Oulu, uma cidade que abarca a universidade com a melhor internet do mundo; e Rovaniemi, terra do “Papai Noel” e do museu de pesquisas próximo ao Círculo Polar Ártico.

A educação finlandesa normalmente é eleita como a melhor do mundo segundo várias instituições, incluindo a revista The Economist. Tive a oportunidade de entrar na sala de aula no país, dentro da Universidade de Oulu – Oulun Yliopisto, em seu nome original em finlandês.

Vi com bons olhos a determinação do Conselho Nacional de Educação finlandês que solicita às escolas infantis a troca da escrita à mão pela digitalização.


Para muitos professores e educadores, a medida parece estimular muito o uso de computador, smartphone e tablet, deixando de lado as atividades manuais. Isso é falso, especialmente se o uso dos acessórios digitais for corretamente introduzido às atividades das crianças.

Se você for a qualquer universidade finlandesa, as aulas são ministradas todas, sem exceção, com auxilio de notebook e celulares. Na Universidade de Oulu, assisti uma aula de “interação homem e máquina” ministrada com computadores, e o professor disponibilizou todo o material via email.

Vídeos de YouTube de experiências feitas com todas as teorias de interface despertavam o interesse dos alunos. Nenhum deles era proibido de buscar coisas na internet ou mesmo se distrair. Vi um dos alunos no Facebook durante a aula, inclusive.

Mas o respeito ao professor era muito presente.

Vi, em informações do Museu Nacional de Helsinque, que as crianças recebem educação de tutores na Finlândia em suas casas desde pelo menos os anos 60. Isso causou uma revolução no ensino básico. Os meninos e as meninas chegam nas primeiras séries das escolas já orientados para praticar uma variedade de atividades, além de saberem respeitar os ensinamentos dos mais velhos.

Entre os anos 1970 e os anos 1980, para conter o avanço da União Soviética que é sua vizinha ao leste, a Finlândia promoveu uma ampla reforma tecnológica e industrial que disseminou o uso do computador pelo país todo, bem como a penetração da internet através da banda larga que se tornou pública.

O país chegou a abrigar a Nokia, que foi a maior fabricante de celulares dos anos 90 e só caiu após a revolução dos smartphones, que resultou em sua venda para a Microsoft. Entre os finlandeses, trabalhar em uma empresa como a Nokia é motivo de orgulho e sucesso.

Na Antiguidade até a Idade Média, o país foi escravizado e explorado pelo Reino da Suécia. Os suecos queriam a produção de carvão e de recursos naturais finlandeses. Seu poder político só caiu após o avanço do cristianismo e das navegações.

Durante a formação da União Soviética no começo do século 20, o país foi invadido pelos russos, que só foram expulsos pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. O problema para os finlandeses é que os supostos salvadores nazistas promoveram um genocídio que massacrou cidades inteiras.

O país nas últimas décadas teve que se fortalecer através do conjunto de esforços de seu povo junto com seu governo, para transformar uma sociedade reprimida ao longo de sua história em um exemplo de igualdade de oportunidades. Metade do PIB finlandês é composto de impostos que garantem seu Estado de Bem-Estar Social. Cerca de 5,4 milhões de pessoas constituem a população local, muito inferior aos 200 mi no Brasil.

Mesmo assim, os brasileiros podem tirar lições dos avanços educacionais e tecnológicos na Finlândia.

De acordo com a pesquisa TIC Educação 2013, do CETIC.br, 99% dos professores da rede pública já sabem utilizar a internet, mas somente 21% deles utilizam suas conexões para disseminar conteúdo online para seus alunos. Além disso, 52% das escolas públicas possuem ainda conexões de velocidade de 2 Mbps.

A Finlândia possui conexões públicas de fibra ótica com velocidades que oscilam entre 10 Mbps e 100 Mbps. Há pontos de Wi-Fi gratuitos em todas as praças.

O grande problema do uso de computador nas escolas brasileiras é a falta de infraestrutura da internet, tanto 3G quanto roteada, e a falta de preparo dos educadores com novas tecnologias.

Os finlandeses são educados desde o berço. Se eles sentirem vontade de escrever a mão, terão professores de caligrafia que podem ensiná-los, além de bolsas de pesquisa para compreender os benefícios da caligrafia.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Educando crianças na era do excesso de informação

Artigo publicado no Brasil Post:

É possível salvar as crianças do chorume da internet?

Madeleine Lacsko

Eu tive a sorte de ser da última geração que atravessou a adolescência e a fase de adulto jovem sem redes sociais na internet. Não que as coisas fossem mais fáceis, eram mais difíceis mesmo. Quando a internet começou, a gente encontrava as pessoas e trocava endereços de emails no papelzinho para perder em seguida. Ficávamos dias na fila do Fotolog para criar uma conta que só se podia ver do computador de casa e postar uma foto por dia.

Não creio, sinceramente, que fôssemos muito diferentes do que se vê hoje, molecada é basicamente molecada em qualquer tempo e lugar. A diferença é que os escorregões ficam documentados e a falsa impressão de distância dá coragem para as pessoas revelarem seu pior, algo a que é difícil se acostumar.

Em época de campanha política a gente vê a tendência de utilizar o ódio como instrumento de argumentação e a lógica binária como regente do mundo: se não é rigorosamente a favor de algo, faz alguma ponderação, logo é contra e inimigo mortal. Aliás, pouco importa o que a pessoa disse de verdade, vale o enquadramento nessa lógica de clássico de futebol.

A falta de tempo ou o excesso de necessidade de opinar sobre tudo fazem com que o estilo de argumento mais rasteiro vire regra. Não gostou de algo, basicamente não gostou dos primeiros 50 caracteres de algo, desqualifica a pessoa. Mas isso é pouco para a internet, desqualifica também a família dela, todos os descendentes, todos os ancestrais, o vizinho, o cachorro, o papagaio.

Tem também as duas ferramentas clássicas do discurso que não leva a outro lugar senão a ofensa. A pessoa discorda sem ler (às vezes até concorda mas não leu tudo) e diz que o autor do texto só faz tal afirmação porque isso não é com a família dele e, em seguida dispara o clássico: e se fosse com a sua mãe/pai/irmão/filho/gato/periquito? A outra é a ressalva para falar as maiores barbaridades, o tal do "eu não tenho preconceito porque até tenho vários amigos que são (qualquer coisa), mas..." O tal do mas é fatal.

A substituição de premissas, anulando ou generalizando fatos, estratégia de discurso que cria uma realidade paralela, virou lugar comum. Por exemplo, quando eu estava em Angola, me mandaram um vídeo de uma - uminha mesmo, só uma - moradora de Higienópolis criticando o metrô porque traria "gente diferenciada" ao bairro dela. Esses dias li no jornal que "os moradores de Higienópolis" fizeram isso, o bairro todo. As pessoas parecem aceitar como real.

São apenas constatações, armadilhas nas quais eu própria caí, mas minha reflexão é que, quando chega a nós a grande oportunidade de ter mais comunicação, constatamos que nos comunicamos menos. O preconceito, o ódio e o medo do diferente talvez neste momento se mostrem de maneira mais exuberante que a infinita possibilidade de conhecer diferentes pontos de vista e aprender com eles.

Vez ou outra surge por aí a notícia de que alguém importante proíbe os filhos de ver televisão, usar internet, ter redes sociais. Dependendo do caso, pode haver razão ou não. Eu fiz a opção de regras rígidas em casa, mas não tenho vocação para a proibição total dessas coisas que fazem parte do nosso tempo, são ferramentas comuns a todos.

Penso muito que chegará o momento em que o acesso pleno a todas essas maravilhas que a tecnologia nos deu será inevitável. E aí vem a minha dúvida: como ajudar uma criança que nasceu num mundo que já tem tudo isso a utilizar da melhor maneira possível? A verdade é que nós, adultos, não fazemos isso e o que há de pior na alma humana é despejado nas nossas timelines, das quais nos alimentamos diariamente.

Talvez a geração deles seja diferente da nossa. Outro dia expliquei ao meu filho de 3 anos que, quando eu era criança, a gente precisava ficar esperando o desenho passar na televisão, não podia colocar o desenho que quer na hora que quer. Também contei como era a coisa de tirar e revelar fotos e que não tinha celular, não podia mandar mensagem nem foto pelo telefone. Ele me olhou com pena: "coitadinha de você, mamãe, me dá um abraço."

Pode ser que essa coisa de enfiar os pés pelas mãos seja porque ficamos plugados o tempo todo mas a nossa cabeça ainda é aquela de quem faz caderno de perguntas, joga stop, grita com uma televisão que não responde de volta e tem a sensação de que pode se perder no mundo sem deixar rastro.

Proibir uma criança de ter acesso a isso ou aquilo é necessário em muitos momentos, mas é comodismo pensar que seria a única ferramenta ou a mais eficiente para livrar uma alma da contaminação do chorume de debate que tenta nos inundar diariamente. Talvez esse seja um daqueles momentos em que a única solução é a gente tomar jeito.



sábado, 24 de maio de 2014

Limites ao direito de "ser esquecido" pelo Google

Em outubro de 2013, publicamos aqui um artigo do Superior Tribunal de Justiça sobre como a jurisprudência brasileira vem acolhendo (ou não) o direito que as pessoas têm de serem esquecidas, sobretudo nesses tempos virtuais em que vivemos.

Ontem, publicamos artigo que trata da corrida de pedófilos e políticos europeus a fim de eliminar seus rastros na internet.

Interessante, portanto, ler um pequeno contraponto a essas questões, proposto por Ronaldo Lemos na Folha de S. Paulo:

'Direito de ser esquecido' é mais veneno que remédio

Em tempos de privacidade cada vez mais rara, cresce o debate sobre o "direito ao esquecimento". Na semana passada ele se materializou em uma decisão da Corte Europeia de Justiça. Por ela, qualquer site pode ser obrigado a remover da internet dados "inadequados ou que não sejam mais relevantes".

Um cidadão espanhol reclamava que, ao buscar seu nome na rede, aparecia o link de um artigo de jornal publicado há 16 anos falando sobre o leilão de uma propriedade sua para quitar dívidas. A corte entendeu que o link deveria ser tirado do ar.

Apesar da preocupação legítima, o "direito de ser esquecido" é dos temas mais espinhosos hoje. Não por acaso entidades anticensura protestaram contra a decisão. A razão é o risco de efeitos colaterais. Como é praticamente impossível definir os limites desse direito, as decisões tornam-se subjetivas. E aí os problemas são muitos.

Por exemplo, pode haver chuva de gente solicitando a revisão do que está na internet, e também em arquivos de jornais, revistas e redes de TV. É como se ficasse liberado o revisionismo histórico.

Se há qualquer dado que desagrada alguém, basta pedir para apagá-lo. Outro problema é que a informação considerada "irrelevante" hoje pode não ser mais amanhã.

Um exemplo é a queima de processos judiciais "velhos". Assim foi destruído o processo de indenização por acidente de trabalho do ex-presidente Lula. Independentemente do apreço que se tenha por ele, trata-se de documento de interesse histórico.

Por isso, o "direito ao esquecimento", sob o prisma da liberdade de expressão, é mais veneno do que remédio.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Políticos e pedófilos europeus querem apagar seus rastros na internet

Notícia publicada no Tecnoblog:

Os primeiros a pedir remoção de links do Google na Europa: políticos e pedófilos

A legislação que permite ser esquecido pelo Google tem objetivo nobre, mas já é utilizada para motivos bastante escusos

Jacqueline Lafloufa

Na semana passada, a European Union Court of Justice (ECJ) definiu um curioso veredicto: declarou que as pessoas têm “o direito de serem esquecidas na internet”, exigindo que buscadores como o Google ofereçam ferramentas para que os cidadãos possam solicitar a remoção de conteúdos considerados “inadequados, irrelevantes ou não mais relevantes”.

Ainda que nobre, o objetivo da corte europeia vai causar muitas discussões. Entre as primeiras pessoas a solicitarem a remoção de links indesejados estão casos como:

  • Um político que quer desaparecer com um artigo sobre seu comportamento profissional, para que ele esteja com a “ficha limpa” nas próximas eleições;
  • Um pedófilo, condenado pela posse de conteúdo explícito infantil, que quer que o Google apague links para páginas que comentam sua sentença;
  • Um “perseguidor digital” que quer dar fim nas referências a artigos sobre legislação contra cyberstalking que citam o seu nome;
  • Um médico que quer remover um link que faz resenha sobre seu atendimento;
  • Um homem que tentou assassinar sua família, que quer links sobre essa notícia removidos da busca.


Ou seja, além de permitir que cidadãos de bem não sejam para sempre digitalmente assombrados por informações do seu passado, essa nova lei tem sido utilizada por pessoas que querem ocultar dados bastante relevantes sobre seus precedentes (em alguns casos, até mesmo precedentes criminais).

Além dessa delicada questão, existe o problema de deixar a cargo do intermediário (no caso, os buscadores) a definição de critérios que devam levar à remoção de conteúdos. Podem ocorrer situações bem ambíguas – poderia um pedófilo pedir que esse dado seja ocultado da sociedade? – e que pode afetar drasticamente os resultados de busca, dependendo da região onde o pesquisador se encontra.

“As mais de 100 bilhões de buscas realizadas todos os meses, apenas no Google, poderão em teoria serem colocadas em um ‘sistema de moderação’ caracterizado por adequação e relevância, ao invés de precisão e legalidade”, comenta o advogado Mark Stephens, em artigo no The Guardian. Isso sem contar que, nesse caso, os resultados de busca na Europa acabam se tornando mais fracos ou menos completos do que os realizados em outros locais do planeta.

Esse assunto veio à tona devido a um processo movido em março de 2010 pelo espanhol Mario Costeja Gonzalez, que solicitava a remoção de links sobre um leilão da sua casa, que ainda apareciam no Google, alegando que eles causavam uma invasão de privacidade.

Do ponto de vista dos delegados da comissão europeia de justiça, a decisão judicial foi um grande passo para a proteção de informações pessoais. “A não ser que exista uma boa razão para reter os dados, um indivíduo deve ter direitos legais de solicitar a remoção dessa informação. Os dados são propriedade do indivíduo, não da empresa”, comentou Viviane Reding, uma das delegadas dessa comissão, em post no Facebook.

No meio desse tiroteio, o Google segue a legislação e promete para o fim de maio uma ferramenta específica para que os europeus possam solicitar a remoção de links da sua busca. Já existe um jeito de fazer isso, dentro das ferramentas de webmasters do Google, mas esse sistema não atende a todos os requisitos da justiça europeia.

Independentemente do desfecho imediato da situação, um ponto de reflexão importante é que tipo de consequências sociais essa nova legislação pode ter. Como determinar que informações são de interesse público – como a qualidade do atendimento de um médico, ou os antecedentes criminais de uma pessoa – e quais dados são privados? O quanto essas remoções de links poderão “desaparecer” com conteúdos que são fatos públicos? Será que esse tipo de atitude não acaba com o princípio de liberdade e transparência da internet?

Eu acabo tendendo a concordar com Mark Stephens – ainda que a decisão judicial tenha sido essa, continua sendo uma boa oportunidade para discutir uma solução mais adequada, que consiga garantir a privacidade dos cidadãos e continuar protegendo os direitos de livre expressão.



sábado, 22 de março de 2014

Solidão acompanhada

Artigo perturbador de Sergio Augusto para o Estadão de 15/03/14:

Ciberescapismo

Viciados no Facebook, Twitter e serviços afins vivem como zumbis, almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão

À saída de uma sessão vespertina de Ela, uma senhora pergunta à amiga se aquilo que acabaram de ver poderia acontecer de verdade. "Sei lá", respondeu a outra, "mas quando acontecer, não estaremos mais aqui pra ver." Resposta sensata. Primeiro porque ninguém sabe ao certo se a tecnologia digital atingirá aquele grau de sofisticação mostrado no filme de Spike Jonze. Segundo porque as duas senhoras certamente há muito terão morrido quando os smartphones e computadores puderem oferecer um serviço de interação online como o do filme.

Aos que ainda não viram Ela e nada leram a respeito, resumo: é uma delicada, melancólica e inquietante comédia ciber-romântica na qual um recém-separado de carne e osso, Theodore (Joaquin Phoenix), apaixona-se pela voz e o jeito de falar de um sistema operacional chamado Samantha. Ela não é um autômato como os replicantes de Blade Runner e Gigolo Joe, o edipiano robô humanoide encarnado por Jude Law em A. I., Inteligência Artificial, mas um programa de computador que conversa e interage com o usuário, algo como uma extensão do aplicativo Siri, a assistente pessoal inteligente do iOS da Apple, só que "humanamente" inteligente e sensível. Além de sexy. Até um software vira um tesão com a voz de Scarlett Johansson.

Li em algum lugar que daqui a 30, 40 anos haverá um aplicativo como Samantha ao alcance de todos nós. Se for um quebra-galho full time e onipresente, uma super-Siri, com respostas e recomendações para tudo, beleza. Se uma vampe virtual, uma app-fatale capaz de virar a cabeça de clientes solitários e carentes como o Theodore de Ela, babau. Que não chegue a tal extremo a distopia da Singularidade (ou o momento hipotético em que a inteligência artificial irá superar a inteligência humana), até por ser grande o risco de a NSA, ciente da onisciência do aplicativo, com total acesso aos dados, e-mails e demais segredos de sua freguesia, transformá-lo numa Mata Hari. Como se já não bastassem as coletas de dados dos internautas repassados pelas plataformas de mídia social e aplicativos a empresas e anunciantes.

O filme se passa numa época indefinida, numa Los Angeles asséptica e high tech, com visual de Xangai (onde as externas foram rodadas), justo o oposto da Los Angeles de Blade Runner, que era uma versão degradada de Tóquio, com detalhes maias em sua regressiva arquitetura. Essa concepção de Xangai como protótipo da metrópole do futuro pode sugerir uma visão prospectiva menos sombria, menos pessimista, que a dos autores de Blade Runner, mas a perspectiva de um mundo onde seres humanos inteligentes e sensíveis como Theodore caiam de quatro por vozes movidas a algoritmos não deveria empolgar nem os mais fanáticos apologistas da cibercultura.

Se Samantha é um avatar avançado de Siri, Theodore em nada difere dos cibernautas do presente que vivem vicariamente num mundo à parte, como almas penadas do limbo digital em busca de uma saída distanciada, clean, para sua solidão. São zumbis, e não apenas usuários, das mídias sociais, viciados no Facebook, no Twitter e serviços afins. Diversos estudos recentes, e não tão recentes, sobre os efeitos negativos da convivência virtual revelam dados preocupantes. Conclusão unânime: quanto mais vazia nossa vida pessoal, maior a tendência para preenchê-la na realidade virtual. Quanto mais ocupados e ativos, menos nos deixamos seduzir pelo ciberescapismo.

Permanecer muito tempo nas redes sociais pode provocar insônia, ansiedade, estresse, distúrbios digestivos (revelação da última edição do Journal of Eating Disorders), anorexia, afetar a autoestima, incitar a inveja e o ciúme. A psicoterapeuta Sherri Campbell defende essa tese com ardor: "As mídias sociais nos dão um falso sentimento comunitário, uma falsa conectividade com o mundo e as pessoas. As trocas que nelas se processam são meros simulacros das relações interpessoais no mundo físico. Milhares de contatos, amigos, seguidores e curtições não valem o sucesso real, palpável, que podemos desfrutar no mundo real".

Apesar de ter um pezinho na autoajuda, Sherri Campbell fala com a autoridade de quem há tempos se dedica a pesquisar os motivos que levam as pessoas a sobrepor suas relações nas redes sociais às da realidade concreta.

Metade dos imoderados usuários do Facebook e do Twitter que ela entrevistou admitiu ter ficado, com o passar do tempo, mais ansiosa, frustrada e insatisfeita. Nas mídias sociais a vida dos outros parece perfeita e isso pode nos deixar complexados e deprimidos, ainda que o que os outros nos mostram seja apenas um instantâneo da realidade, eventualmente edulcorada, falsificada, "porque também produto de um complexo de inferioridade", acrescenta a psicoterapeuta, que, a exemplo de Christopher Carpenter, autor de Narcissism on Facebook (Narcisismo no Facebook), oferece duas alternativas aos acometidos de compulsão tecnológica: uma clínica de reabilitação (sem acesso à internet) e uma terapêutica reconexão ao mundo real, com frequentes tête-à-tête com amigos e parentes. Foi o que Theodore, o cibermissivista apaixonado de Ela, compulsoriamente fez.



domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ciberbullying pode ser fatal


Em meio ao marasmo, partidarização e superficialidade que tomam conta da imprensa brasileira, ainda há gente que leva o jornalismo a sério, como na excelente matéria abaixo, publicada n'A Pública:

COMO UM SONHO RUIM

Por Andrea Dip e Giulia Afiune

Adolescentes falam do suicídio das meninas que tiveram imagens íntimas expostas na internet e revelam como é amadurecer em um mundo em que o virtual é real


Fotos estampam sorrisos, olhares e caretas. Meninas posam para o próprio celular usando maquiagem, unhas feitas, roupas de festa ou mesmo o uniforme da escola – sozinhas ou acompanhadas dos amigos. Tudo é publicado nos perfis de redes sociais para ser “curtido” – a forma mais rápida e fugaz de aprovação online. Cada “like” em um “selfie” (autorretratos feitos com o celular), gato, comida ou sapato novo é esperado com ansiedade principalmente por crianças e adolescentes que passam cada vez mais tempo postando e checando a própria popularidade nas redes sociais. Uma pesquisa à qual a Pública teve acesso na íntegra em primeira mão, realizada pela ONG Safernet em parceria com a operadora de telecomunicações GVT – que entrevistou quase 3 mil jovens brasileiros de 9 a 23 anos – revela que 62% deles está online todos os dias e 80% tem as redes sociais como seu principal objetivo de navegação. Como acontece no mundo todo, o que prevalece é a autoimagem – não é à toa que “selfie” foi escolhida como a palavra do ano de 2013 do idioma inglês pelo dicionário Oxford. De 2012 para 2013, seu uso aumentou 17.000% e a hashtag #selfie acompanha mais de 58 milhões de fotos na rede social Instagram.

A rotina online de duas garotas que estamparam páginas de portais, jornais e revistas no último mês não era diferente. Giana Fabi, de Veranópolis, interior do Rio Grande do Sul, e Julia Rebeca, de Parnaíba, litoral do Piauí, viviam a maior parte do tempo conectadas. Separadas por mais de 3,8 mil quilômetros, as meninas de 16 e 17 anos, respectivamente, acompanhavam ansiosamente a reação online às autoimagens cuidadosamente construídas que postavam.

“Ela era linda, as fotos dela então…”, é a primeira coisa que lembra Gabriela Souza, amiga próxima de Giana, sobre as muitas curtidas nas fotos do perfil da gaúcha no Facebook. Gabriela, que preferiu dar a entrevista através do bate-papo da rede, lembra que a amiga vivia arrumada, se achava bonita mas se preocupava com o peso, como a maioria das garotas de sua idade. Willian Silvestro, de 17 anos, namorado de Giana na época, também comenta sua beleza: “Ela tinha olhos azuis e gostava de realçar com lápis preto. Era vaidosa e amava maquiagem”. Os dois estavam juntos havia um mês e todas as noites se falavam por cerca de duas horas pelo Skype.

Já Julia Rebeca, diz o primo Daniel Aranha, gostava de pintar as unhas com cores diferentes e mostrá-las nas redes sociais. “Todo dia era uma nova. Tinha fotos no Facebook em que ela mostrava a unha pintadinha, desenhada, decorada que ela mesma fazia”. Além das fotos, Giana e Julia escreviam sobre o dia a dia na escola ou na academia e postavam músicas e fotos das cantoras preferidas – Miley Cyrus para Julia e Avril Lavigne para Giana. A piauiense fazia curso técnico de enfermagem e pensava em seguir carreira na área da saúde. Já a gaúcha estava no colegial, mas sonhava em deixar a pequena Veranópolis, de apenas 22,8 mil habitantes, para fazer faculdade em Bento Gonçalves ou Caxias do Sul – cidades médias da região.

A descrição das meninas por amigos e familiares combinam com as fotos: alegres, extrovertidas, falantes, “adolescentes normais”. Mas em novembro deste ano, uma foto em que Giana mostrava os seios e um vídeo em que Julia aparecia fazendo sexo com um rapaz e uma garota foram divulgados através do aplicativo Whatsapp – usado em celulares – e se espalharam pelas rede com a velocidade dos escândalos virtuais. Julia se suicidou no dia 10 de novembro e, quatro dias depois, no dia 14, foi a vez de Giana tirar a própria vida, poucas horas depois de saber que a foto havia sido compartilhada. As duas deixaram mensagens de adeus nas redes sociais e se enforcaram.


ADEUS PELO TWITTER

“Quem divulgou a foto foi um colega da escola que queria ficar com ela, só que ela não queria ficar com ele”, diz o irmão de Giana, Jonas Fabi, de 29 anos. Ele supõe que o garoto tenha espalhado a foto por vingança. “Eu não tenho certeza, mas ouvi comentários de que possa ter sido um jogo na internet. Tu tá online no Skype com várias pessoas e quem perde tem que mostrar uma parte do corpo. Aí ela perdeu, mostrou e na hora deram um printscreen. Ele guardou essa foto como uma carta na manga para chantagear: ela começou a namorar outro, ele foi lá e fez isso”.

Giana ficou sabendo do que estava acontecendo nas redes por volta do meio dia de 14 de novembro, quando sua prima ligou e avisou, depois de receber a foto em seu celular pelo WhatsApp. “Quando eu soube da foto que estava rolando, liguei pra ver como ela estava. Ela pareceu surpresa, espantada. Dói dizer isso mas acho que ela não sabia de nada antes” lamenta Charline Fabi. “Por volta de uma hora da tarde, começamos a conversar por aqui [Facebook]. Ela dizia que iria fazer uma besteira porque não queria causar vergonha para a família. Eu não acreditava porque ela nunca havia mencionado nada desse tipo. Só mandava ela parar de falar aquilo, que as pessoas iriam esquecer. Mas aí, ela despediu-se de mim dizendo: ‘Eu te amo, obrigada por tudo amor. Adeus”.

Charline lembra que continuou a ligar para a prima e, como ela não atendia, ligou para os pais que entraram em contato com os pais de Giana. Jonas, que morava na casa ao lado, pulou o muro e entrou na residência. Lá encontrou o corpo da irmã, que tinha se enforcado com um cordão de seda. “Na hora a adrenalina me segurou de pé. Quando souberam, o pai desabou, a mãe teve que ir para o hospital, em choque. Depois, quando caiu a ficha pra mim, eu também não aguentei”, lembra, emocionado, falando baixo pelo telefone.

Às 12h56, Giana postou uma mensagem de despedida no Twitter: “Hoje de tarde eu dou um jeito nisso. Não vou ser mais estorvo para ninguém”. Jonas atribui a atitude da irmã ao medo da reação da família. “Ela disse pra prima que não queria que a família sentisse vergonha e sofresse por um erro dela. A nossa família é bem conhecida, e a cidade é pequena, meio bocuda, bastante gente inventa coisas. Às vezes você faz uma coisinha e acabam aumentando. De repente isso até influenciou, pelo fato das pessoas todas se conhecerem, daí acaba espalhando rápido.”


“OUTRAS PESSOAS PODEM ENTENDER QUE FORAM VÍTIMAS E NÃO CULPADAS”

Daniel Aranha, primo da piauiense Julia Rebeca diz que ela também não falou com a família sobre o vídeo. Ele informou que não pode dar detalhes, porque o caso ainda está sendo investigado. O que se sabe é que o corpo de Julia foi encontrado pela família na noite do domingo, dia 10 de novembro, quando voltaram da igreja evangélica que frequentam. Antes de se enforcar com o fio da chapinha, ela também tinha se despedido pelo Twitter, com três posts. “É daqui a pouco que tudo acaba”, “Eu te amo, desculpa eu n [não] ser a filha perfeita, mas eu tentei. Desculpa desculpa eu te amo muito…” e “E tô com medo mas acho que é tchau pra sempre”. Seis horas depois, Daniel deu a notícia pelo microblog. “Aqui é o primo dela, infelizmente perdemos a Julia Rebeca… Família desolada, por favor não postem besteiras… Momento difícil”.

Os dois casos estão sendo investigados por delegacias de polícia locais. O rapaz que divulgou o vídeo de Giana já foi identificado mas Jonas e a família esperam o resultado da investigação para decidir se vão processá-lo. Já no Piauí, mesmo sem saber quem compartilhou o vídeo, Daniel diz que a família espera que a justiça seja feita. “Queremos saber quem fez esse ato irresponsável e queremos punição. Se for um maior de idade, espero que seja punido nas medidas cabíveis, se for menor, não tem punição maior que sua própria consciência. Para ambos, espero que tenham se arrependido e o meu perdão eles têm.”

Depois dos episódios, as mesmas redes sociais estão sendo usadas para homenagear as garotas. Jonas mudou sua foto do perfil para a imagem da irmã, bonita, com um sorriso no rosto. Willian, namorado da gaúcha, também mantém uma foto abraçado com Giana em seu perfil. Daniel alimenta a página “Julia Rebeca – Saudades Eternas” com fotos, comentários, passagens bíblicas e com as músicas preferidas da prima. “É uma forma das pessoas verem nosso amor, e de todos aqueles que a amam deixarem suas lembranças e mensagens. Outras pessoas que passaram por isso podem entender que foram vítimas e não culpadas por fazer algo na sua intimidade”, explica.


COMO UM SONHO RUIM

O caso das adolescentes e outros envolvendo mulheres que também tiveram sua intimidade divulgada na rede ganharam grande repercussão em todas as mídias e trouxeram à tona o conceito do “pornô de revanche” – tradução do inglês “revenge porn” – para se referir à prática, cada vez mais comum, de divulgar fotos e vídeos íntimos sem o consentimento da outra pessoa, geralmente por parte de um homem para se vingar após um rompimento ou traição. Um machismo que não se restringe àquele que posta a imagem: afinal, por que um vídeo de sexo ou mesmo uma cena de nudez parcial destrói a vida de meninas e mulheres e não dos homens, que não raro aparecem nas imagens?

“Esse tipo de ameaça, ligada à moral sexual e à ideia de que as meninas são mais expostas a uma avaliação sexual, sempre existiu”, como lembra a socióloga Heloísa Buarque de Almeida. “O que acontece agora é que como uma grande parte da sociabilidade é feita de forma virtual, o nível de exposição é muito maior e isso amplia a sensação de humilhação. Tem algo inovador na ferramenta mas também tem algo que é mais do mesmo” define a socióloga.

Se culpar a ferramenta não é a melhor resposta, há algo definitivamente novo na relação entre intimidade e redes sociais que impacta os adolescentes de uma forma que a sociedade começa a descobrir. Além da decepção com a perversidade de quem violou sua intimidade, a superexposição e o ciberbullying têm um peso muito maior para aqueles que estão em processo de construção da personalidade e de amadurecimento da visão de mundo. A vida online se aproxima – e para eles mal se diferencia – da offline, segundo os especialistas entrevistados pela Pública.

Também ouvimos as “fontes primárias” – os adolescentes – em quatro rodas de conversas com meninos e meninas de 15 a 18 anos, de escolas públicas e particulares de três bairros de São Paulo: Vila Madalena, Jardins e Heliópolis. O resultado desses papos, em muitos momentos surpreendente, você pode ler em formato de HQ clicando nas imagens ao longo da matéria, onde os diálogos foram reproduzidos. A frase de uma adolescente, sobre como se sentiria ao ter sua intimidade compartilhada, resume o sentimento que dali emerge: “Deve ser como naqueles sonhos em que você aparece nua de repente na frente da escola inteira. Só que na vida real e para o mundo inteiro”.


MAIS FREQUENTE DO QUE PARECE

Nessas conversas, muitos disseram já ter trocado fotos íntimas com amigos, “ficantes” e namorados, todos já haviam recebido conteúdo sexting e conheciam ao menos um caso de alguém em seu ciclo de amizades que teve a intimidade divulgada. A já referida pesquisa realizada pela Safernet com crianças e jovens de 9 a 23 anos confirma essa tendência: as fotos aparecem como o elemento mais compartilhado na rede por 60% dos entrevistados (veja um box com mais números e dados exclusivos no fim da matéria). Do total, 20% admitiram já ter recebido conteúdos de sexting e 6% já ter enviado fotos de si mesmos – em 2009, apenas 12% relataram ter recebido conteúdo desse tipo segundo a pesquisa. O estudo mostra também que os que postam para difamar o fazem de forma recorrente: dos que compartilharam fotos ou vídeos eróticos de alguém contra sua vontade, 63% já o fizeram cinco vezes ou mais.

Para a psicóloga Juliana Cunha, que coordena o Helpline, canal de atendimento direto a crianças e adolescentes da Safernet que funciona via chat e e-mail, pais e professores têm que enfrentar o fato de que o sexting faz parte da nova cultura adolescente, por mais chocante que isso possa parecer. “Nós adultos não temos um olhar tão próximo dessa geração que cresce imersa nesse ambiente de interação online. A gente percebe no sexting dois pontos de vista muito antagônicos: o do adulto, que vê geralmente como uma superexposição e como uma erotização precoce, e dos adolescentes, que vêm a troca como código de interação entre eles”.

Juliana conta que é comum, ao começar uma amizade ou paquera online, os adolescentes ligarem a webcam para se conhecer, mas a troca de conteúdo erótico costuma acontecer apenas quando eles se sentem confiantes e íntimos. “Para eles, aquilo é parte das experiências sexuais e de intimidade. E não há dialogo entre as gerações. Cada uma está falando uma língua” diz. A comparação que ela usa para abordar o assunto com pais e professores é de que funciona mais o menos como os jogos sexuais das gerações passadas – a diferença é que se antes aquilo ficava guardado na memória, hoje pode se espalhar e se perpetuar ao cair na rede.

“Os adolescentes sofrem muito quando isso se dissemina, eles ficam marcados, falados, pagam um preço muito alto. As meninas que têm a intimidade exposta são apedrejadas, xingadas, muitas têm que mudar de cidade, deixar a escola. A gente acha que pode desconectar e está tudo bem mas não é assim. E o apoio da familia é determinante sobre como esse adolescente vai superar. Eles relatam muito medo de serem julgados e punidos pelos pais. A escola também precisa intervir e abrir espaços de diálogo porque geralmente ficam espantadas e perdidas. Escutar sem julgar pode ajudar muito”.

No último ano, apenas nos Estados Unidos, 9 adolescentes cometeram suicídio supostamente por terem sofrido ciberbullying em uma rede social chamada Ask.Fm em que alguém faz uma pergunta de forma anônima e o outro tem que responder, como o jogo da verdade das gerações passadas. Apesar de não ser muito conhecida pelos adultos, o Ask.Fm é a terceira rede social mais utilizada pelos adolescentes no Brasil, atrás apenas do Facebook e do Instagram, segundo Manu Barem, editora do Youpix – site que discute a cultura da internet e como os jovens se relacionam com ela.

Manu conta que já sofreu o drama do ciberbullying na pele: “Ele acaba mesmo com a saúde mental das pessoas. Eu já sofri através do Twitter e, mesmo tendo 28 anos, aquilo me desestabilizou profundamente. Imagina na vida de um adolescente que ainda não saiu de casa e não tem as preocupações e raízes de uma vida independente. Coisas assim têm outra proporção. Fora que é dificil hoje falar em uma separação entre identidade online e offline. Isso não existe mais”, diz.

O doutor em ciências sociais e autor do livro “Comunicação e Identidade: quem você pensa que é?” Luis Mauro Sá Martino (veja entrevista completa com ele aqui), concorda com Manu. Para ele, “não faz mais sentido a oposição entre ‘mundo digital’ e ‘mundo real’, apenas entre mundo digital e mundo concreto, físico”. E explica: “O que a gente chama de realidade é um monte de significados que a gente dá para as coisas. No mundo digital, virtual, eu também estou dando significado para as coisas, só que tem o nome de avatar, foto, perfil, link. Nós estamos dentro da realidade humana, essa realidade se manifesta de muitas formas e uma delas é o ciberespaço. Ele só é diferente do espaço físico por uma questão de tecnologia”, diz Sá Martino.

Juliana acrescenta que o mecanismo de relação nas redes sociais é mesmo pautado pela reputação: “Existe uma competição curiosa, em busca dessa audiência, quem tem mais views, as interações online têm essa lógica. Aí você gerencia o tempo todo isso, a percepção que os outros têm de você. E se você percebe que esse ‘eu’ do adolescente está tão capturado pela reputação online, quando isso de alguma forma se abala, vale a pena viver?”


SUICÍDIO POR CIBERBULLYING?

A perseguição social – que sempre se manifestou contra a sexualidade das mulheres – se mostra especialmente aguda, porém, no espaço virtual em que nada se apaga, nada se estanca e nada se restringe. O bullying, comportamento comum na adolescência, pode desestruturar completamente a vítima, como mostram os posts dramáticos das adolescentes brasileiras que se mataram.

Para o psiquiatra e autor do livro “O Suicídio e sua Prevenção”, José Manoel Bertolote, não se pode determinar, porém, o bullying como causa única de um suicídio. Ele explica que 85% dos adolescentes que tiram a própria vida têm um transtorno psiquiátrico na ocasião, o que é chamado de fator predisponente. “Quando a ele se junta um fator precipitante, pode se desencadear o processo suicida”. Aí entraria o fator ciberbullying. “[O psicólogo Bruno] Bettelhein postulou [no livro A Psicanálise dos Contos de Fada] que uma das funções das fábulas e contos de fada era preparar as crianças para a vida adulta através de símbolos. A era eletrônica mudou a forma como as crianças veem o mundo: dos videogames, às redes sociais e aos reality shows vivem num mundo paralelo, ao mesmo tempo voyeurs e exibicionistas, num tempo ilusório, num espaço distorcido e numa realidade artificial”, diz.

O psiquiatra também não descarta a possibilidade de que, no caso das meninas brasileiras, um suicídio tenha influenciado o outro: “Não é impossível. É bem conhecido o ‘efeito Werther’, de imitação de comportamentos suicidas. Em geral, há um determinado pool de pessoas com alto rico de suicídio (pela existência de fatores predisponentes) e, para elas, a informação sobre um caso de suicídio (ou tentativa) pode ser o fator precipitante que faz transbordar o copo d’água. Não é por nada que a OMS recomenda o comportamento adequado da mídia como um das formas eficazes de prevenção dos comportamentos suicidas”.

Em uma palestra sobre o tema, o pós-doutor pela Universidade de Londres e doutor em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Neury Botega, também explicou que muitos fatores se combinam no suicídio. “Nunca é apenas um motivo. Há causas genéticas e biológicas, o grau de impulsividade e agressividade, abusos físicos ou sexuais, disponibilidade de meios letais, entre outros. Há pesquisas que demonstram que até o perfeccionismo está associado ao suicídio, especialmente de adolescentes”, disse.

Recentemente, a equipe do Facebook, se dizendo preocupada com mensagens suicidas postadas na rede, lançou uma ferramenta que identifica conteúdos suspeitos, manda um e-mail e oferece um link para uma conversa privada com um especialista. A ferramenta está disponível apenas para os Estados Unidos e Canadá mas deve ser liberada para outros países em breve.

BOTÃO PROZAC DE CURTIR

“Eu já vi uma menina que tava, tipo, feliz numa balada e quando viu uma postagem de um carinha no Facebook ficou brava, triste, surtou, mudou o humor dela completamente. Assim como quando o menino que eu gosto curte a minha foto me dá uma alegria tão grande que eu tenho vontade de abraçar a minha família! Isso não é normal né? Ficar tão feliz com uma coisa assim”, disse Maria, de 16 anos, durante uma das rodas de conversa. Todos eles, meninos e meninas admitiram se importar exageradamente com curtidas que ganham em fotos, vídeos e músicas que postam nas redes sociais. Para alguns, o “like” mais importante vem de alguém especial; para outros, o número é o que realmente conta – e aí adicionam todos que pedem para se tornar amigos, sem saber quem são. Muitos também disseram se comunicar com o/a namorado/a apenas por mensagens de texto e não sentir falta da conversa por telefone, por exemplo. A interação online parece ser, na maioria das vezes, suficiente para eles.

O que não significa que realmente seja, como destaca o psicólogo e pesquisador Vitor Muramatsu, autor do trabalho “Influência da comunicação digital nos vínculos humanos” que você pode baixar na íntegra aqui. “Eles [os adolescentes] passam por diversos processos psicológicos como encontrar uma identidade, formar uma personalidade, questionar o que aprenderam em casa e na escola. E os laços que antes eram formados com a convivência real e uma série de trocas ricas que só a interação física permite em silêncios, tons de voz, cheiro e toque foram substituídos por interações online. Ter vários amigos no Facebook não é como conviver fisicamente com alguns poucos e bons amigos. A pergunta é: como essas crianças e adolescentes vão se formar nesse novo contexto? Não vai ser melhor ou pior mas a gente tem que parar para pensar e estudar as consequências disso” acredita o psicólogo.

Para ele, há também um desencontro entre o desejo de alguém que posta uma foto, por exemplo, e a recepção que ela terá pelos amigos virtuais. “Eu coloco uma foto minha de criança e espero que os meus 550 amigos curtam porque quero que eles vejam o quanto eu era lindo e amado pelos meus pais naquela época. Ou mando uma foto nua para um garoto mas ele é adolescente, não quer saber de mim ou queria mas mudou de ideia, nem ele sabe o que quer. A relação que você tem com a foto é muito carregada de sentimentos e isso se perde totalmente quando alguém olha rapidamente na sua timeline ou recebe por WhatsApp. Existe uma perda entre meu desejo e a consecução do desejo. Aparentemente bastam algumas curtidas mas nunca é o suficiente. Todas as tecnologias prometem satisfação imediata, um botão ‘Prozac’ de curtir, mas isso é um engodo”.

Muramatsu vai além na reflexão. Para ele, cada vez mais as redes sociais estão se tornando grandes sites de compras. “O sistema pode ser utilizado para encontros efetivos, mas o mercado faz com que a sua atenção se volte para o consumo de produtos e não para a efetivação da sua subjetividade. A Mariana, que posta que está solteira, vê a foto de um cara bonito e logo abaixo um anúncio de escova progressiva. Ela pensa que precisa ficar bonita para arrumar um namorado bonito assim, clica no link e compra a escova progressiva. No site, ela vê uma outra propaganda de um casal feliz em Campos do Jordão no qual a moça é retocada no photoshop para ter um corpo perfeito. Para ficar assim, ela compra a promoção de lipocavitação. E o mais terrível é que você substitui o relacionar-se com pessoas por relacionar-se com pessoas como produtos, porque o cara vai realmente sair com a moça que tem a escova progressiva”. E conclui: “A lógica de mercado desconhece a diversidade humana. É preciso que se discuta, é preciso de estudo, tolerância, estrutura. Não estamos falando apenas sobre a menina que se suicidou. Vivemos um contexto gigante de economia de mercado em que as pessoas também são produtos e que um dos efeitos colaterais é esse: quebrar onde é mais frágil. A impressão é de que é tudo melhor, vamos nos relacionar mais, ser mais felizes, estar mais perto. Mas não é isso que acontece. Acho que a gente está no ápice das tecnologias do desencontro humano. E tem gente morrendo por causa disso”.






Pesquisa da Safernet brasil mostra que sexting é prática comum entre adolescentes


A Pública recebeu, em primeira mão, a pesquisa da ONG Safernet sobre como os jovens brasileiros usam a internet. Além disso, tivemos acesso exclusivo aos dados do Helpline Br, serviço de orientação online para crianças e adolescentes que estejam vivenciando situação de risco na Internet. (www.canaldeajuda.org.br).

Dos 2834 jovens entre 9 e 23 anos que participaram da pesquisa, 62% afirmam que usam a internet todos os dias. O número cresce para 86% entre os jovens de 16 a 23 anos. As redes sociais são a atividade preferida por 80% dos participantes, seguida por ouvir músicas e assistir filmes (57%) e jogar jogos (55%). Celulares e tablets ocupam o segundo lugar na lista dos dispositivos mais utilizados para o acesso, com 38%, atrás apenas dos computadores no quarto, usados por 47%.

“Se eu tô o tempo todo conectado, significa que eu tenho que interagir, correr e responder as informações que eu recebo o tempo todo”, explica Luís Mauro Sá Martino, doutor em Ciências Sociais e autor do livro “Comunicação e Identidade: Quem você pensa que é?”. “Isso faz com que a gente mude a nossa relação com o tempo e com as outras pessoas. Eu tenho um número maior de conexões, mas isso não significa que eu tenho mais amizades, porque afeto demanda tempo.”

39% dos participantes considera que seu comportamento não muda nas redes, mas 23% acreditam ficar mais confiantes e descontraídos e 22% mais cuidadosos quando estão online. Dos jovens entre 16 e 23 anos, 17% acreditam que podem dizer coisas online que não diriam offline, 15% dizem ser mais descontraídos, 9% mais confiantes e 12% conversam com mais pessoas na internet do que fora.

O Sexting – compartilhamento de fotos, vídeos ou textos com teor sensual e erótico é comum entre eles. 20% afirmam que já receberam esse tipo de conteúdo. Dentre estes, 42% receberam 5 ou mais vezes. Apenas 6% assume que já compartilhou este tipo de foto de si, dentre os quais 63% o fizeram 5 ou mais vezes. Este fenômeno é mais comum entre meninos e se torna mais frequente com a idade. 32% dos jovens entre 16 e 23 anos já receberam esse tipo de conteúdo relativo a amigos e/ou colegas. 8% confirma que já enviou, o que aumenta para 13% a partir dos 18 anos.

Entre janeiro de 2012 e novembro de 2013, 7,7% dos pedidos feitos ao Helpline Br eram relativos a Sexting. Ou seja, foram 135 pedidos de ajuda em cerca de dois anos. Este é o quarto na lista dos assuntos mais citados nos atendimentos – atrás de Ciberbullying (20,9%), solicitação de materiais/palestra (10,9%) e problemas com dados pessoais (9,8%).

“Conforme a Internet passa a ocupar cada vez mais tempo e importância na vida dos adolescentes e jovens brasileiros, o namoro e as relações mais íntimas tendem a ocorrer também nos ambientes digitais, assim como ocorria com os bilhetes, cartas, telefonemas”, detalha o relatório da pesquisa. “Uma grande diferença a ser considerada atualmente é a amplitude do público potencial nos ambientes digitais e a replicabilidade das informações que rapidamente podem ser usadas sem o consentimento dos “proprietários”.

Quando jovens entre 16 e 23 anos se sentem em perigo ou são agredidos na Internet, 49% bloqueia o contato e denuncia e 9% tenta descobrir quem é o responsável e tirar satisfações. A exemplo de Giana e Julia, que não contaram para a família sobre a sua exposição na rede, apenas 12% pedem ajuda para os pais e 4% para irmãos e amigos. 8% desligam o computador e tentam esquecer.




Leis e projetos de leis

A divulgação de fotos, vídeos e outros materiais com teor sexual sem o consentimento do dono pode ser interpretada como crime de acordo com diversas leis.

O ato pode ser interpretado como difamação (imputar fato ofensivo à reputação) ou injúria (ofender a dignidade ou decoro), considerados crime de acordo com os artigos 139 e 140 do Código Penal. Além disso, o artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente prevê pena de 3 a 6 anos de reclusão e multa para quem publicar materiais que contenham cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente. Já a Lei 12.737, em vigor desde abril, criminaliza a invasão de dispositivo informático alheio para obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização do titular. Quem tiver essa conduta pode pagar multa e ser preso por três meses a um ano. A lei foi apelidada de “Carolina Dieckmann” após a atriz ter seu computador hackeado e suas fotos íntimas divulgadas.

No entanto, os recentes casos trouxeram à tona propostas para uma legislação mais específica e penas mais rígidas. Ao todo, cinco projetos tramitam em conjunto na Câmara dos Deputados. O deputado federal Romário (PSB/RJ) apresentou, em outubro de 2013, o projeto de lei nº PL 6630/2013, que acrescenta um artigo ao Código Penal, criminalizando a divulgação de fotos, imagens, sons e vídeos com cena de nudez ou ato sexual sem autorização da vítima. Nesse caso, a pena seria a detenção de um a três anos e multa. Ela pode aumentar em um terço se o crime for cometido com fim de vingança ou humilhação ou praticado por alguém que manteve relacionamento amoroso com a vítima. Também tramitam os projetos de lei nº 6713/2013, de autoria da deputada Eliene Lima (PSD/MT), e o projeto de lei nº 6831/2013, do deputado Sendes Júnior (PP/GO). Ambos dispõem sobre o crime de vingança através da exposição da intimidade física ou sexual.

Em maio desse ano, o deputado João Arruda (PMDB/PR) propôs alterações à Lei Maria da Penha para determinar que a divulgação de imagens, montagens, vídeos e dados por meio da Internet ou outro meio, sem consentimento, também seja considerada uma violência contra a mulher. Trata-se do projeto de lei nº 5555/2013, conhecido como “Lei Maria da Penha Virtual”. O projeto nº 5822/2013 da deputada Rosane Ferreira (PV/PR) prevê a punição “da violação da intimidade da mulher na internet no rol das formas de violência doméstica e familiar”. Atualmente, a Lei Maria da Penha (11.340/2006) estipula uma pena de três meses a três anos de detenção no caso de lesão corporal leve contra a mulher no âmbito doméstico.

Já o projeto de lei do Marco Civil da Internet (PL 2126/11), que em 2009 começou a ser construído por um processo colaborativo entre sociedade civil e poder legislativo, traz uma série de regulamentações sobre a utilização da rede no país. Recentemente, o relator Alessandro Molon (PT-RJ) incluiu no texto um artigo que responsabiliza provedores de aplicações de internet, como UOL e Facebook, se a empresa for notificada e não tirar do ar “imagens, vídeos ou outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado sem autorização de seus participantes.”

No entanto, organizações que fazem parte do movimento Marco Civil Já questionam a mudança. “Da forma como está escrito, qualquer pessoa que se sentir ofendida com determinada nudez de caráter privado, divulgada com a anuência de quem está na imagem, pode solicitar a retirada do conteúdo a qualquer momento. Até uma empresa que teve um protesto de nudismo em sua porta poderia alegar participação na imagem. É preciso encontrar uma redação que restrinja a possibilidade de notificação apenas à pessoa retratada no conteúdo”, considera Deborah Moreira, da Ciranda, citando a carta do Marco Civil Já enviada ao relator contestando o artigo. “O termos “outros materiais” é complicado também pois dá margem a censura de caricaturas, textos eróticos e coisas do tipo. Da forma como está fere a liberdade de expressão.”

Deborah argumenta que o Marco Civil é uma carta de princípios que garante direitos, estabelece deveres e prevê o papel do Estado em relação ao desenvolvimento da internet. Assim, não seria o espaço apropriado para pautar restrições ao uso da internet. “Já existem leis que criminalizam essas como a Lei Carolina Dieckmann e o próprio Código Penal.”

De acordo com o texto, quem sofrer a violação dos direitos à preservação da intimidade, vida privada, honra e imagem deve receber indenização por danos materiais ou morais. O projeto deve ser votado na Câmara dos Deputados, em fevereiro de 2014, em regime de urgência.




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Colaboraram: Bruno Fonseca e Jéssica Mota
HQ: Alexandre De Maio
Infográficos: Safernet Brasil



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