quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O instinto moral

A Folha de S. Paulo publicou no último domingo, dia 10/2/08, no caderno Mais!, um excelente (e imenso) artigo intitulado "Sobre Santos e Demônios" (ver íntegra aqui ou no acervo digital da Folha), de autoria de Steven Pinker, que é um autor que eu particularmente gosto, e que já tinha escrito o livro "O Instinto da Linguagem", publicado pela Ed. Martins Fontes, que tive oportunidade de consultar por ocasião da minha dissertação de mestrado em Direito, em que pesquisei extensamente sobre a questão do instinto e da linguagem, aplicados ao perfil histórico-evolutivo de um instituto jurídico ancestral, que é a posse e sua relação com a propriedade. Nesse estudo, eu me deparei com uma série de incertezas em relação a esses institutos primitivos, que mostram a formação do ser humano e da vida em sociedade, e, mais especificamente, a explosão da inteligência humana num determinado ponto da história, coincidentemente ocorrido na Mesopotâmia, na região que hoje chamamos de Oriente Médio. De alguma maneira, foi ali que nasceu aquilo que modernamente entendemos por civilização humana, com relações humanas complexas alinhavadas por uma série de instintos básicos coordenados, como família, posse, propriedade, religião e linguagem. Assim, por mais que as pesquisas levadas a cabo no mundo todo confirmem as idéias evolucionistas de Darwin (com as quais não me preocupo, pois não faço uma leitura literal do Gênesis), existem grandes lacunas ainda não preenchidas - e sem perspectivas de sê-lo num futuro próximo - no que diz respeito aos instintos citados, e como eles se amalgamaram para formar o primeiro agrupamento humano civilizado, ou o primeiro Adão, por assim dizer.

De certa forma, já tratei em parte desses temas no texto "Um Manifesto Cristão", que inaugurou este blog falando do instinto religioso (além da questão da linguagem no texto anterior). Surpreendi-me muito positivamente ao ler o artigo do Pinker no último domingo, e o respectivo comentário que lhe dedicou Marcelo Leite, jornalista ateu da Folha (ver íntegra no acervo digital da folha, artigo "Iluminados 2.0", clicando aqui). A discussão se dá em torno do instinto moral que, segundo Pinker, é inato ao homem. Citando como exemplos Madre Teresa, Bill Gates, e Norman Borlaug (responsável por novas técnicas agrícolas que salvaram da fome boa parte da população mundial), Pinker mostra que, embora o benefício coletivo trazido pelos dois últimos tenha sido bem maior que o proporcionado por Madre Teresa, a imensa maioria das pessoas, instintivamente, julga que ela é que teria uma aura de santa, ou seja, mereceria realmente ser canonizada não só pelo Vaticano, como também por uma certa percepção moral que nos une a todos. Aponta como razão para essa, digamos, ilusão de ótica coletiva, uma lei íntima que nos faz sermos suscetíveis a ilusões morais:

Parece que talvez sejamos todos vulneráveis a ilusões morais. Hoje, um novo campo está usando as ilusões para desmascarar um sexto sentido, o senso moral.
As intuições morais estão sendo extraídas das pessoas em laboratórios, em websites e em escaneadores cerebrais e estão sendo explicadas com ferramentas da teoria dos jogos, da neurociência e da biologia evolucionária.
"Duas coisas enchem a mente de admiração e respeito sempre renovados e crescentes, quanto mais freqüente e constantemente refletimos sobre elas", escreveu o filósofo alemão Immanuel Kant. "Os céus estrelados no alto e a lei moral no íntimo." Hoje em dia, a lei moral íntima está sendo vista com crescente respeito, embora nem sempre com admiração.
Se a moral é um mero truque do cérebro, como temem alguns, nossas próprias bases para sermos morais poderiam ser erodidas. Mas, como veremos adiante, a ciência do senso moral pode ser vista como uma maneira de reforçar essas bases, esclarecendo o que é a moral e como ela deve conduzir nossas ações.

Os seres humanos teriam algo como se fosse uma "tecla da moralização" que invoca, protege e preserva algumas regras morais universais, como a proibição ao estupro e ao assassinato. Isto me remete às aulas de Filosofia do Direito que tive com o prof. Tercio Sampaio Ferraz Junior, em que ele afirmava que uma das razões para os gregos prezarem tanto a justiça retributiva aristotélica era exatamente o fato de que, quando alguém cometia um crime, um homicídio, por exemplo, não se tratava de uma ofensa apenas contra a vítima e sua família, mas sobretudo contra a coletividade que tivera o seu precário equilíbrio desestabilizado, o que, guardadas as variáveis espácio-temporais, é a mesma perspectiva com que trabalhamos atualmente. Enfim, as pessoas têm uma série de razões para se comportarem de uma maneira, que tanto podem ser pragmáticas (como o vegetariano que quer reduzir o colesterol), como éticas, (no caso do vegetariano que quer poupar os animais). Isto dependeria do "botão" de moralização de cada um, de acordo com a sua cultura, ou visão de mundo, mas sempre existiriam valores universais em jogo. A certa altura, Pinker cita Chomsky:

Segundo Noam Chomsky, nascemos com uma "gramática universal" que nos força a analisar o discurso em termos de sua estrutura gramatical, sem termos uma consciência real das regras do jogo. Por analogia, nascemos com uma gramática moral universal que nos força a analisar a ação humana em termos de sua estrutura moral, igualmente sem uma real consciência disso.
O senso moral, portanto, pode estar enraizado no projeto do cérebro humano normal.
Mas, apesar de toda a admiração que pode invadir nossas mentes quando refletimos sobre uma lei moral inata, a idéia é no mínimo incompleta.

Para ter uma idéia melhor dessa "gramática moral universal", Pinker vai buscar num artigo de Jonathan Haidt ("Moral Psychology and the Misunderstanding of Religion"), as cinco cores primárias de nosso senso moral, que são: agressão, justiça, comunidade (ou lealdade ao grupo), autoridade e pureza, que sempre aparecem nas "pesquisas arqueológicas da moralidade" das mais distintas culturas, formando uma espécie de tabela periódica do senso moral, que teria profundas raízes evolucionárias. Assim, a justiça seria algo muito próximo do "altruísmo recíproco", conforme denominado por muitos cientistas, ou seja, "a disposição de ser bom para os outros pode evoluir desde que o favor ajude o receptor mais do que custa ao doador e o receptor retribua o favor quando as fortunas se inverterem". Neste sentido, Pinker chama a atenção para o fato de que a sociedade consumista e altamente competitiva em que vivemos tem contribuído para solapar este altruísmo, mas que, de alguma maneira, o instinto moral sempre resiste aos assaltos da modernidade e da tentativa de se "desligar" o homem desses valores morais.

Recomendo imensamente, portanto, a leitura deste artigo de Steven Pinker, que muito breve e incompletamente tentei resumir aqui. Fico ao mesmo tempo feliz e angustiado, entretanto. Por um lado, me deixa feliz perceber que minhas preocupações com o nihilismo moral em que vivemos são compartilhadas por intelectuais do nível de Pinker, mas também me sinto angustiado por ver quanto pouco valor se dá aos instintos básicos do ser humano, que não somente aqueles fisiológicos. Ao que parece, o nosso delicado equilíbrio social tem profundas estacas no instinto moral que todos compartilhamos, mas os ventos do racionalismo inconseqüente e imediatista trabalham para subvertê-lo. Mesmo assim, creio que não conseguirão, pelo menos enquanto as crianças continuarem brincando com os seus super-heróis e o seu ideal de justiça.

2 comentários:

  1. atlas? é vc? rs

    que bom que vc tem blog =))

    vou colocar um link daqui no meu..

    infelizmente estou sem tempo para ler todos seus textos, mas prometo voltar aqui para comentar!!!

    abs ;)

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  2. Oi, Kessia.. sim, sou o atlas no Dotgospel... obrigado pela visita... vou linkar o teu blog também... beijão!

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