segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma guerra religiosa lamentável

Artigo do insuspeito ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, do DEM, que substituiu Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006, quando este se candidatou à Presidência da República, publicado no Terra Magazine:


Lamentável


Cláudio Lembo
De São Paulo

Conseguiram. Transformaram campanha eleitoral em guerra religiosa. Em plena cerimônia religiosa celebrante é desacatado. Políticos se enfurecem. Panfletos são distribuídos.

Há tantos temas a serem abordados e, no entanto, assuntos de foro íntimo passaram a ser tratados como mensagens coletivas. As religiões informam a vida das pessoas.

Estas, a seu turno, por seu comportamento na sociedade, apontam para a excelência desta ou daquela confissão. Tratar as múltiplas crenças como inimigas entre si é criar conflitos indesejáveis.

Os brasileiros sempre buscaram a paz entre os vários credos. É traço histórico que vem desde nossa primeira Constituição, a de 1824. Agora, marqueteiros desavisados ferem nossos valores políticos.

É imperdoável o que vem ocorrendo. Viola os mais profundos sentimentos nacionais amalgamados durante séculos. Todos os participantes do pleito eleitoral, neste segundo turno, deveriam tomar uma única postura.

Declarar, em conjunto, que respeitam todas as crenças e posições doutrinárias. Apontar que qualquer mensagem contra o respeito ao outro é deletéria e contra a nação.

Há temas que devem ficar a salvo das emoções do cotidiano e, particularmente, dos debates eleitorais. Esses necessitam de ambiente de mútua compreensão do pensamento do outro.

Falar de aborto com paixão verbal sem limites é violência contra todas as mulheres e pessoas razoavelmente conscientes. Fere a intimidade mais profunda das pessoas.

O aborto é uma violência. Ninguém em sã consciência é partidário de sua prática. A vida, no entanto, sujeita as pessoas às mais estranhas circunstâncias e estas necessitam ser entendidas com razoabilidade. O presente debate saiu dos limites do razoável. Atingiu um fundamentalismo ingênuo, mas perverso. Todos os fundamentalismos são execráveis. Retiram a capacidade de pensar das pessoas.

Os liberais - os verdadeiros liberais - sabem que em todas as latitudes, onde foram excluídos os princípios iluministas, há uma violência física ou moral contra o livre pensamento.

A atual campanha eleitoral - lamentavelmente - atingiu espaços fundamentalistas, como nunca ocorrera nos comícios eleitorais após a democratização.

Os mecanismos democráticos não podem servir de caminho indesejável para dividir cidadãos. Ao contrário, a democracia, ensinando o respeito ao outro, exige compostura no seu exercício.

Os eleitores, certamente, saberão examinar todos os contornos destes últimos meses e, na hora de seu voto, afastará as más mensagens e as deformações das exposições de ambos os candidatos.

O voto deve ser conferido a programas partidários e exposições temáticas dos respectivos candidatos. As mensagens extravagantes podem ser ouvidas, mas não levadas em consideração.

Elas pertencem a outro campo, àquele do foro intimo de cada cidadão e este não deve ser violado pelos interesseiros de ocasião. A humanidade já sofre - e muito - por situações como a atual.

Voltar ao passado distante é esquecer as grandes lições - sobre a tolerância religiosa - expostas em tempos remotos por personalidades qualificadas do Ocidente.

Envergonha a cultura brasileira quem age sem freios em campanhas eleitorais. Mostra desconhecer os princípios da democracia e, assim, não pode ser respeitado no certame eleitoral.

Faltam poucos dias para o segundo turno eleitoral. Espera-se um reequilíbrio salutar nos termos da presente campanha. É anseio da cidadania.

Quando propaganda protestante gerava tragédia

Exatos 476 anos atrás, segundo relembra o site Opera Mundi:


Hoje na História: 1534 - Cartazes protestantes criticando a Igreja Católica são afixados por toda a França


Em 18 de Outubro de 1534, a história do protestantismo francês viveu um dos seus momentos fulcrais, com o caso dos cartazes. Impressos em Neuchâtel por instigação do pastor François Antoine Marcourt, cartazes de 37 por 25 cm que criticam a celebração da missa tal como ela é feita oficialmente pela Igreja católica foram afixados em vários locais da França. Além disso, acusam o papa de ter instaurado a Igreja com a finalidade de reforçar seu poder. A repetição cerimonial da morte de Cristo é particularmente atacada, simbólica, no altar. Se o sacrifício já foi consumado, por que se apoderam os sacerdotes católicos deste ritual simbólico?

Os cartazes foram afixados na noite de 17 para 18 de outubro por todo o país, inclusive na residência do rei Francisco I em Amboise. Segundo os protestantes da época “os cartazes continham artigos verdadeiros sobre os horríveis, grandes e insuportáveis da missa real”. Esse episódio trouxe consequências trágicas para os protestantes da França. Francisco I, acreditando em complô, decidiria dar início a uma caça aos “heréticos”. O caso dos cartazes marcou o fim à tolerância religiosa que reinava no país fazia alguns anos.

Os argumentos teológicos dos protestantes fundamentavam-se na Epístola de São Paulo aos Hebreus. A propaganda protestante pretendia transmitir a idéia de que a eucaristia é uma blasfêmia, uma vez que a morte de Cristo não se deixa repetir. Esta demanda foi o resultado da ação de Antoine Marcourt, Pastor de Neuchâtel, também natural da Picardia.

A situação tornou-se particularmente crítica e descambou numa reação brutal por parte da Igreja católica e do estado francês. Protestantes franceses seriam encarcerados e assassinados. Em Janeiro de 1535, o rei Francisco I organiza uma procissão macabra pelas ruas de Paris que parava 6 locais distintos. Em cada uma das paradas havia um pódio onde o rei, os embaixadores e dignos membros do “parlement” se instalaram para assistir à morte pela fogueira de seis “heréticos” envolvidos no caso dos cartazes do ano anterior.

domingo, 17 de outubro de 2010

Deus e a linguagem

Efrem, o Sírio (ou Siríaco), foi um dos pais da nascente Igreja cristã, tendo vivido de 306 a 373 d.C., ainda em meio à controvérsia com os arianos, dos quais era ferrenho opositor. Também conhecido por "Profeta dos Sírios" e "Cítara do Espírito Santo", Ephraem Graecus (seu nome em latim) era da tradição oriental (hoje ortodoxa), mas foi elevado à condição de Doutor da Igreja pelo papa Bento XV em 1920, o que explica, de certa maneira, o interesse recente de Bento XVI em citá-lo em seus discursos. Efrem dedicou-se à vida monástica em Nísibe e Edessa, e foi um dos primeiros poetas e compositores de música sacra da Igreja Cristã (para uma biografia mais detalhada, clique aqui). Seus hinos, escritos originalmente em siríaco (um dialeto aramaico tardio), foram traduzidos para o grego e o latim e, pouco tempo após sua morte, já eram cantados nas celebrações litúrgicas de grande parte das igrejas daquela época. Efrem via na linguagem das palavras e da música uma maneira admirável de Deus revelar-se ao mundo, a ponto de afirmar que "Deus revestiu-se de nossa linguagem, de modo a poder vestir-nos com Seu modo de vida". Cristo, o Verbo da Vida, o Logos, conceito que tantas polêmicas havia causado entre cristãos e arianos, transcendia, para Efrem, o campo das batalhas teológicas, e a linguagem era uma das maneiras como Deus podia se relacionar com as pessoas das mais diferentes origens e culturas. No "Comentário ao Diatessaron" 7:22, Efrem afirma que:

"Se as palavras tivessem somente uma única perspectiva, o primeiro intérprete a teria encontrado, e os outros ouvintes não teriam o trabalho duro nem o prazer da sua própria interpretação. Entretanto, todas as palavras do Senhor têm as suas imagens, e cada uma dessas imagens tem os seus muitos componentes, e cada um desses componentes tem a sua própria especificidade e forma. E cada pessoa ouve de acordo com a sua capacidade, e interpreta de acordo com aquilo que lhe está sendo dado."


Ainda que o interesse nas obras de Efrem tenha se acentuado a partir de meados do século XX, com a difícil seleção dos seus textos autênticos, e ele se refira mais a uma teologia simbólica, na melhor tradição siríaca de sua época, chama a atenção a sua preocupação em mostrar a linguagem como elo entre Deus e o homem. No nosso dia-a-dia, já tão conturbado, não damos muito valor às palavras, e tantas vezes as pronunciamos mecânica e automaticamente, e não as percebemos como veículos de uma série de informações sobre nossas convicções, nossas crenças e, principalmente, sobre nós mesmos. Palavras conduzem conceitos e preconceitos que nos denunciam, nos entregam, nos desnudam. Machucam também, talvez mais do que os gestos que as acompanham. Palavras engolidas podem ser sábias (Provérbios 10:19; 17:27), mas também podem sufocar (Salmo 32:3). Manter uma postura neutra parece ser fácil (às vezes), mas, se o próprio Deus se preocupou com palavras, e chamou-se a Si mesmo de Verbo, como não valorizaremos as palavras e as linguagens por meio das quais interagimos neste mundo? Abraham Heschel acrescenta:

“Algumas pessoas podem estar perguntando: Por que a luz de Deus foi dada na forma de linguagem? Como é concebível que o divino esteja contido em vasos tão frágeis como consoantes e vogais? Esta pergunta revela o pecado de nossa era: tratar de forma superficial o meio que transporta as ondas de luz do espírito. O que mais no mundo é capaz de unir homens através das distâncias do tempo e do espaço? De todas as coisas terrestres, as palavras nunca morrem. Há tão pouca matéria nelas, porém tanto significado... Deus tomou estas palavras hebraicas e soprou nelas o Seu poder, e elas se tornaram um vínculo vivo, carregado com o Espírito divino. A partir desse dia, as palavras são ligações entre o céu e a terra. Que outro meio poderia ser empregado para conduzir o divino? Figuras esmaltadas na lua? Estátuas esculpidas nas montanhas?”

(Abraham Heschel, “God in Search of Man”, citado por Eugene Peterson em “Corra com os Cavalos”, 2003, Ed. Textus e Ed. Ultimato, pág. 147)

A Jesus, agradavam-lhe particularmente as palavras. Jogava com elas, como se fossem um brinquedo ingênuo da infância, mas não se negava a torná-las ásperas e maduras quando era necessário. Via nelas, entretanto, vida... sempre! Mesmo quando se travestiam de morte. Responsabilidade gigantesca a nossa, portanto, de interagir através de palavras. Contudo, não deveriam pesar sobre nossos ombros, já que o que nos esmaga talvez seja o não ter o que dizer, não ter com quem conversar nem a quem recorrer. Palavras são livres, destinadas ao belo espaço das idéias infinitas que se comunicam (ou não) ao sabor dos ventos e das vontades humanas. E nesta infinitude temos a feliz oportunidade de nos comunicarmos com Deus. Mediante palavras...


sábado, 16 de outubro de 2010

Arcebispo belga diz que AIDS faz justiça

Notícia publicada no jornal O Estado de S. Paulo de hoje:


Arcebispo belga diz em livro que a aids ''é um tipo de justiça inerente''


O líder da Igreja Católica na Bélgica, um dos países mais afetados pelas recentes denúncias de abusos de menores por sacerdotes, causou escândalo ao afirmar que a aids seria "um tipo de justiça". O arcebispo primaz do país, Andre-Joseph Leonard (foto), ao mencionar em livro recém-lançado a declaração de João Paulo II de que era difícil julgar a vontade de Deus, quando indagado se a aids seria uma punição divina, afirmou: "Não vejo essa doença como punição. No máximo, uma espécie de justiça inerente." Ele ainda disse que "talvez o amor humano também inspire a vingança se não for bem conduzido". Em reação às declarações, um advogado diz ter se queixado a um órgão governamental que combate a discriminação no país. Segundo Jean Marie de Meester, as declarações "são uma incitação ao ódio".

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Profecia contra os pastores infiéis

Ezequiel 34:

1 Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
2 Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza, e dize aos pastores: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas?
3 Comeis a gordura, e vos vestis da lã; matais o cevado; mas não apascentais as ovelhas.
4 A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer, e a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza.
5 Assim se espalharam, por não haver pastor; e tornaram-se pasto a todas as feras do campo, porquanto se espalharam.
6 As minhas ovelhas andaram desgarradas por todos os montes, e por todo alto outeiro; sim, as minhas ovelhas andaram espalhadas por toda a face da terra, sem haver quem as procurasse, ou as buscasse.
7 Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor:
8 Vivo eu, diz o Senhor Deus, que porquanto as minhas ovelhas foram entregues à rapina, e as minhas ovelhas vieram a servir de pasto a todas as feras do campo, por falta de pastor, e os meus pastores não procuraram as minhas ovelhas, pois se apascentaram a si mesmos, e não apascentaram as minhas ovelhas;
9 portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor:
10 Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu estou contra os pastores; das suas mãos requererei as minhas ovelhas, e farei que eles deixem de apascentar as ovelhas, de sorte que não se apascentarão mais a si mesmos. Livrarei as minhas ovelhas da sua boca, para que não lhes sirvam mais de pasto.

domingo, 10 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 14

Parte 14 - Justiça, compaixão e paz

por Richard Foster

Numa passagem especialmente comovente, a Escritura reúne os três conceitos hebraicos que estudamos: justiça, compaixão e paz. O salmista aponta para o dia em que a “graça e a verdade” se encontrarão, em que “a justiça e a paz” se beijarão (Salmo 85:10).

Qual é a palavra que Deus usa para o mundo no qual vivemos? Será que Ele vê a justiça e a retidão aumentando entre nós? Será que está triste com nossa falta de compaixão? Há quem abrace de Deus como modo de vida?

Não estou propondo estas perguntas apenas para o mundo em geral. Questiono aqueles de nós que professamos a Cristo como sendo a nossa vida. Será que Deus pode se agradar das vastas e crescentes iniquidades entre nós? Ele não se entristece com nosso acúmulo arrogante, enquanto irmãos e irmãs cristãs em outras regiões definham e morrem? Não temos a obrigação de olhar além do nariz do nosso próprio interesse nacional para que a justiça possa rolar como águas e a retidão como um ribeiro perene? Não é uma obrigação que se nos impõe fazer justiça e amar a misericórdia e caminhar com humilde diante de Deus, se quisermos viver em sua maravilhosa paz?

Estas são perguntas difíceis, eu sei. Mas são perguntas que precisamos fazer se é para levarmos a sério a palavra de Deus para nós através da Antiga Aliança.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 46-47)

sábado, 9 de outubro de 2010

Subindo a rampa com os evangélicos

Que muitos líderes “evangélicos” estão mais preocupados com um projeto de poder temporal do que com a anunciação do evangelho, isto já é público e notório, lamentavelmente. Não é difícil constatar, também, que muitos deles não têm qualquer compromisso com a pureza da mensagem pregada, e a negociam conforme a sua conveniência momentânea, daí não terem qualquer constrangimento em atrelarem o bom nome do evangelho a qualquer candidato que lhe ofereça vantagens imediatas, nem sempre santas.

É claro que há gente que age com boa fé na ânsia de apoiar um projeto político, embora se equivoque nas justificativas. Só agora se sabe, por exemplo, que o partido, da candidata Marina Silva, apoiada por enorme parcela dos evangélicos brasileiros no 1º turno das eleições presidenciais de 2010, o Partido Verde (PV), tem em seu programa (aprovado em 2005 – clique aqui para lê-lo), o apoio ao aborto, ao casamento gay e à liberação da maconha. É estranho, mas ninguém, nem este que vos escreve, teve conhecimento disso antes do 1º turno. A grande justificativa que boa parte dos evangélicos tinha para não votar na candidata do PT, Dilma Roussef, era ignorada quanto ao PV. Portanto, fica claro aos olhos mais atentos que não havia qualquer diferença “espiritualizada” para se apoiar A ou boicotar B, mas se tratava de um posicionamento ideológico travestido de “evangélico”. O mesmo vale para o candidato do PSDB, José Serra, agora alentado por grandes movimentos evangélicos, omitindo o fato de que ele não só apoiou o primeiro projeto de liberação do aborto, de nº 78, em 1993, proposto pela senadora Eva Blay, também do PSDB (ela era suplente de Fernando Henrique Cardoso, que assumira o ministério da Fazenda de Itamar Franco pouco antes), como também assinou decreto facilitando os procedimentos abortivos no SUS.

O que pouca gente parece perceber é que pelo termo “evangélico” no Brasil é conhecido um quinhão enorme da população que professa a fé cristã decorrente da Reforma Protestante, embora hoje sequer o nome “protestante” seja utilizado para identificá-lo, dada a enorme profusão de denominações pentecostais e neopentecostais, muito maiores em número do que os protestantes históricos. Entretanto, na hora de se alinharem politicamente, não há nenhuma distinção entre eles, seja do ponto de vista externo, seja também dos posicionamentos ideológicos que assumem interna corporis. Ao fazerem isso, colocam a igreja evangélica, genericamente considerada, numa posição extremamente desconfortável e arriscada. De um lado, o apoio dado a qualquer candidatura faz com que os evangélicos sejam vistos como fiadores de seu projeto político, reféns de uma determinada visão de mundo. Logo, se algo dá errado, os evangélicos também terminarão pagando pelo seu erro. Por outro lado, existe a possibilidade (sempre clara no Brasil) do apoio se converter em cargos no governo e verbas públicas, com todas as suas benesses, nem sempre legítimas. Poucas coisas talvez sejam mais contrárias ao evangelho do que o aparelhamento do Estado em prol de uma elite religiosa. Não por acaso, o próprio Jesus Cristo foi condenado por esta aliança espúria entre políticos e religiosos.

É bom e legítimo que todas as igrejas promovam o debate político civilizado entre seus seguidores. Entretanto, o apoio enfático a qualquer candidatura - mediante premissas espiritualizadas que escondem a semelhança com as outras - faz com que a igreja evangélica brasileira saia perdendo ao sacrificar a mensagem da cruz no altar dos jogos políticos de ocasião. Milhões de pessoas não mais a verão como a portadora do evangelho da graça redentora de Deus, mas como mais um partido político igual aos outros, com todas suas mazelas e corrupções. Não que a igreja seja perfeita, todos sabemos que ela está longe disso, mas podia pelo menos se dar ao respeito de não entrar em bola dividida com a canela desprotegida nem servir como inocente útil num cavalo de Tróia com destino desconhecido. Serviço devemos prestar a Deus e ao próximo, desinteressadamente, e não nos servirmos do Estado e da política. O grande problema em subir a rampa carregando nos ombros um candidato eleito é de lá não descer mais...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 13

Parte 13 - A teologia do suficiente

por Richard Foster

Econômica e socialmente, a visão de shalom é captada no que o Bispo John Taylor chama de “A Teologia do Suficiente”. A ganância do rico é temperada pela necessidade do pobre. Justiça, harmonia e equilíbrio prevalecem. “Ela significava um tipo dançante de inter-relacionamento, uma busca de algo mais livre do que a igualdade, mais generosa do que a equidade, o sempre-mutante equilíbrio de um sistema de vida”. Extravagância excessiva, ambição arrogante, ganância arrasadora – tudo isto é alheio à fraternidade completa e satisfeita de shalom. Sob o reinado do shalom de Deus, os pobres já não são oprimidos porque a cobiça já não domina.

Numa cena particularmente terna, Jeremias lamenta a fraude e ganância dos profetas e sacerdotes, dizendo: “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jeremias 6:14). Em suma, Jeremias havia movido uma ação por mau procedimento profissional contra os charlatões religiosos auto-produzidos. Estes haviam colocado um curativo simples sobre uma ferida social enorme e dito: “Shalom, shalom – tudo vai ficar bem”. Mas Jeremias trovejou, com efeito: “En shalom – não está tudo bem. A justiça é rejeitada, os pobres oprimidos, o órfão ignorado. Não há inteireza nem cura aqui!”.

Mas a paz terapêutica de Deus não será rejeitada para sempre. Isaías viu um dia no qual a reconciliação entre as pessoas será uma realidade, um dia quando a justiça e a retidão reinarão, um tempo em que a inteireza da paz de Deus reinará e o povo andará “na luz do Senhor” (Is 2:4-5).

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, p. 45-46)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A iniquidade está na língua

A língua é um pequeno fogo que incendeia um bosque enorme, já metaforizava o apóstolo Tiago, justificando que “a língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniquidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno. É um mal irrefreável; está cheia de peçonha mortal... com ela bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procede bênção e maldição. Não convém, meus irmãos, que se faça assim” (Tiago 3:5-10).

A atual campanha eleitoral brasileira tem se revelado um prato cheio para o mau uso da língua pelo povo evangélico. Em vez de justificarem seu voto pelas virtudes e pelos projetos de seu candidato, muitos preferem inundar as caixas postais de seus irmãos e amigos com uma orquestração de boatos e ataques pessoais à candidata que escolheram como adversária, e para tanto, não economizam palavras nem acusações. Unem-se, por conveniência, a católicos e espíritas numa fraternidade que repetidamente negam nos púlpitos. Contra a possibilidade de que o aborto seja um dia liberado no Congresso Nacional (e não pelo Presidente, que sozinho não tem poder para tanto), são todos velhos irmãos de guerra, mas na hora de auxiliar os pobres e necessitados que – graças a Deus! – não foram abortados, os evangélicos sistematicamente boicotam católicos e espíritas sob a justificativa de que “aquela obra não é de Deus”. Basta lembrar o episódio dos jogadores evangélicos do Santos F. C. visitando um abrigo espírita.

Reputações são assassinadas e jogadas por terra, sem nenhum direito de defesa ou de uma profícua discussão. Falsos testemunhos são levantados sem nenhum respeito ao nono mandamento (Êxodo 20:16), esquecendo-se convenientemente que Deus odeia a testemunha falsa que levanta mentiras (Provérbios 6:16-19; 25:18), tanto que diz duas vezes que “a testemunha falsa não ficará impune; e o que profere mentiras não escapará” (Prov. 9:5,9). É estarrecedor o quanto as paixões políticas podem cegar irmãos que considerávamos sensatos e equilibrados. Não é à toa, lamentavelmente, que a igreja evangélica brasileira esteja na draga em que está. E não será uma campanha política que a levantará. Pelo contrário, apenas reforçará o sentimento de que o termo “evangélico” no Brasil tem um significado muito mais ideológico do que teológico, atrelado que está a um projeto de poder temporal, para vergonha nossa. Não me espantaria se, num desses rega-bofes e congressos evangélicos mergulhados na vaidade, aparecesse uma mão escrevendo na parede "Mene Mene Tequel Ufarsim" ("contou Deus o teu reino e o acabou" - Daniel cap. 5).

E já que estamos testemunhando este ecumenismo de araque, ouçamos o que o padre Brendan Flynn, do filme “Dúvida”, tem a dizer sobre as fofocas e a mão que aponta alguém num sonho:


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 12

Parte 12 - O mundo em paz e harmonia

por Richard Foster

A visão de inteireza e paz, que brilha como um farol para toda a Antiga Aliança, nos dá importantes percepções sobre a simplicidade cristã. Este tema é maravilhosamente reunido na palavra hebraica shalom, um conceito rico em significado que ressoa com inteireza, unidade, equilíbrio. Trazendo em si (mas muito mais amplo do que) o conceito de paz, ele significa uma comunidade harmoniosa, interessada, com Deus em seu centro como o principal sustentador e mais glorioso habitante. Essa visão grandiosa de shalom começa e termina nossa Bíblia. Na narrativa da criação, Deus trouxe ordem e harmonia a partir do caos; e no Apocalipse de João, temos a inteireza gloriosa de um novo céu e uma nova terra. A criança messiânica que nascerá é o Príncipe da Paz (Isaías 9:6). Justiça, retidão e paz deverão caracterizar seu reinado eterno (Isaías 9:7). No centro do sonho de shalom encontra-se a maravilhosa visão de todas as nações chegando ao monte do templo de Deus para aprenderem seus caminhos e andarem nas suas veredas; para converterem suas espadas em relhas de arados e suas lanças em podadeiras (Isaías 2:2-5; Miqueias 4:1-4). Shalom traz até a ideia de uma unidade harmoniosa na ordem natural; a vaca e o urso tornam-se amigos, o leão e a ovelha deitam-se juntos, e um pequenino os guiará (Isaías 11:1-9). Estamos em harmonia com Deus – fidelidade e lealdade prevalecem. Estamos em harmonia com o nosso próximo – justiça e misericórdia sobejam. Estamos em harmonia com a natureza – paz e unidade reinam.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, p. 45)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Automumificação em vida

Tire as crianças da sala! Vai saber o que se passava na cabeça de monges budistas que se automumificaram 200 anos atrás... se o desejo era preservar o corpo, pela mórbida foto ao lado você vai perceber que o método não deu certo [#megafail]. Depois de ler esse texto, você vai pensar duas vezes antes de chamar alguém de "múmia" (por mais que a pessoa mereça o apelido):


A Mumificação Viva de Monges Budistas


Giordano Cimadon

Cientes da exata data da própria morte, cerca de 24 monges budistas da região de Yamagata, no Japão, e que viveram no início do século XIX, prepararam lentamente seus corpos para que, ao final de um período de nove anos, ficassem completamente mumificados. O processo de sacrifício converteu estes monges em exemplos únicos de santidade.

Esta prática estranha à mentalidade ocidental teve sua origem com o sábio Kukai, fundador da escola Shingon. Após uma viagem para a China, Kukai retornou trazendo diversos ensinamentos tântricos secretos, que ao longo dos anos acabaram sendo perdidos na própria China. Uma parte destes ensinamentos consistia no processo de mumificação em vida, chamado Sokunshinbutsu.

A primeira parte desta mumificação durava três anos, quando os monges se submeteram a uma dieta especial, que consistia em uma alimentação composta exclusivamente de sementes e castanhas, além de uma rigorosa disciplina física, com o objetivo de eliminar por completo a gordura de seus corpos.

Em seguida, por outro período de três anos, os monges se alimentaram apenas da casca e da raíz de árvores. Isso fazia com que os fluidos corporais fossem rapidamente eliminados. Ao mesmo tempo, consumiam em pequenas doses diárias um chá venenoso feito a partir da seiva da árvore Urushi, usada normalmente como verniz em vasilhames de cerâmica.

Assim, seus corpos se tornavam venenosos demais para serem devorados por larvas e vermes. Desta maneira, o processo de decomposição de seus corpos era evitado. Por fim, os monges se trancavam em uma tumba feita de pedra, conectada ao mundo exterior apenas por uma estreita passagem de ar.

Dentro de sua tumba, o monge assumia definitivamente a postura de lotus, entrando em estágios muito profundos de meditação e permanecendo imóvel até a sua morte. Em suas mãos segurava unicamente um sino, o qual soava diariamente, fazendo saber às pessoas que acompanhavam sua mumificação se ainda estava vivo ou se já se encontrava morto.

Quando um dia a campainha parava de soar, o tubo de ar era retirado e a tumba era selada. A partir deste momento os demais monges do templo aguardavam por mais um longo período de três anos, para então abrir a tumba e verificar se o processo de mumificação tinha sido realizado com sucesso.

Os monges que conseguiam ser mumificados eram considerados verdadeiros Budas, e seus corpos eram posicionados em lugares especiais no interior do templo, de modo que pudessem ser contemplados pelos devotos. Já aqueles que não tinham sucesso na mumificação não eram considerados Budas, mas eram respeitados e venerados por seu esforço e sacrifício.

Fonte: Sociedade Gnóstica Internacional

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 11

Parte 11 - O cuidado com a criação

por Richard Foster

Essa qualidade de compaixão e preocupação se estendiam até os animais e à terra. Em geral nos esquecemos de que o princípio de descansar no sábado incluía as necessidades dos animais de carga: “Seis dias farás a tua obra, mas ao sétimo dia descansarás: para que descanse o teu boi e o teu jumento” (Êxodo 23:12). A própria terra precisava de um “ano de descanso solene” (Levítico 25:5). A cada sete anos não haveria nenhum plantio nem colheita, pois “a terra guardará um sábado ao Senhor” (Lv 25:2). Mesmo o solo das vinhas não devia ser sobrecarregado plantando-se outras lavouras entre as fileiras (Dt 22:9). Os bois que faziam a debulha não deviam ter as bocas atadas a fim de poderem comer enquanto trabalhavam (Dt 25:4). Filhotes de passarinhos podiam ser tomados, mas a mãe precisava ser deixada para cuidar dos outros ovos e produzir futuros filhotes (Dt 22:6-7).

O que toda essa instrução está querendo mostrar é que nosso domínio sobre a terra e as pequenas criaturas que rastejam sobre ela deve ser um domínio compassivo. Não devemos saquear a terra mas cuidar dela – bondosa, amorosa e ternamente.

Essas leis, regulamentos e julgamentos morais antigos temperam e suavizam a nossa agressividade. Como o maná misterioso do céu, há sempre o suficiente para as necessidades de cada um, mas nunca nenhuma sobra para ser guardada. Há um limite para o que é bom, e sempre que esse limite é transgredido, o que é bom se torna mau. Nossa tarefa é a de fazer as coisas entrarem na perspectiva que Deus ordenou para elas, e essas leis do Antigo Testamento nos dão pistas fascinantes de qual essa perspectiva deveria ser.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 44-45)

domingo, 3 de outubro de 2010

Jihad brasileira



O jornal O Estado de S. Paulo publica hoje um artigo muito oportuno, do professor José de Souza Martins, que apresenta uma excelente análise histórica da participação de católicos e brasileiros no processo político brasileiro, com os seus reflexos no atual momento eleitoral. É sempre interessante conhecer o ponto de vista de alguém que está fora dos arraiais (cada dia mais belicosos) das igrejas. Destaco o "fracasso religioso" da conclusão do artigo, que deixo em negrito porque concordo com ela em número, gênero e grau:

Eleitores ocultos da jihad brasileira

Eles votam corporativamente e sem liberdade, por motivos religiosos e não políticos

Um pastor manda de Nova Iorque aos crentes de sua numerosa e obediente igreja evangélica recomendação para que votem na candidata oficial. Um bispo católico publica declaração recomendando aos fiéis que não votem nela. Um pastor de importante igreja protestante lança apelo para que os adeptos de sua igreja votem na candidata não oficial. Um frade católico há muito declara que espera que a candidata oficial ganhe a eleição e a oposição nunca mais retorne ao poder. Se é para a oposição nunca mais voltar ao poder não se trata de eleição, e sim de nomeação. Estamos em face do eleitor oculto, o das religiões, que vota corporativamente e sem liberdade, por motivos religiosos e não por motivos políticos.

A questão política como questão religiosa, no Brasil, se propõe desde a Proclamação da República e da separação entre o Estado e a Igreja. Bispos e padres deixaram de ter status similar ao de funcionário público e a Igreja deixou de ter privilégios de repartição pública. O caráter missionário da atuação católica foi largamente beneficiado pela cessação da tutela, dando-lhe a oportunidade de, pela primeira vez em nosso País, fazê-la Igreja livre e profética.

A Igreja Católica, porém, aproveitou mal a possibilidade involuntariamente aberta pela República do ideário positivista dos militares que a proclamaram. Do mesmo modo, a democracia da pluralidade religiosa não consolidou essa premissa básica do Estado moderno entre nós, como se esperava e era necessário. Os protestantes e as outras denominações religiosas foram tímidos na consolidação da democracia nascente e na defesa do Estado não confessional.

Politicamente marginalizada durante toda a República Velha, que era de inspiração positivista e anticlerical, preparou-se a Igreja nesse período para a Restauração Católica, fundada num ideário de direita e em valores da tradição conservadora. Significativamente, e por isso mesmo, lograria o status de "religião da maioria do povo brasileiro" no governo Vargas. Um intercâmbio claramente informado pelo populismo que nascia. O protestantismo se difundiu devagar, à margem da política e do poder, pesando sobre ele o informal veto católico. Poucos notaram, até que um presbiteriano, Café Filho, sendo vice de Getúlio Vargas, assumira a Presidência da República com o suicídio do presidente em 1954. Era a via silenciosa da ascensão política dos protestantes.

O golpe militar de 1964 teve a decisiva participação católica com as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. No entanto, um fato insólito se passou, revelador das grandes mudanças sociais que haviam ocorrido no País: diversos protestantes, especialmente presbiterianos, ascenderam em diferentes momentos do regime aos governos dos Estados, no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Pará, na Guanabara e mesmo em São Paulo, indiretamente, quando Laudo Natel, ligado ao Bradesco, de Amador Aguiar, presbiteriano, assumiu o governo com a cassação de Adhemar de Barros e nomeou um secretariado com notória presença protestante. A escolha do luterano Ernesto Geisel para a Presidência da República confirmou essa tendência do regime militar. A mudança de orientação da Igreja Católica em relação à ditadura, cuja instauração apoiara, e a hostilidade entre o Estado e a Igreja, nesse período, ganham clareza nesse cenário de fundo religioso.

É nesse quadro adverso e na consequente repressão que alcançou setores engajados da Igreja, até mesmo bispos, que sua atuação política evoluiu na direção do estímulo aos movimentos populares, a ação política orientada contra as incongruências do Estado, sobretudo o descompasso entre o legalmente possível e o politicamente realizado. Nesse legalismo antagônico ao Estado autoritário os setores mais ativos da Igreja não tiveram outra alternativa para afirmação dos seus valores conservadores, dado que o espaço político de direita, de sua atuação mais coerente, fora bloqueado pela tendência anticlerical dos militares e capturado pelos evangélicos. Sobrou-lhes constituírem sua militância no espaço residual de oposição à ditadura. O rapto ideológico do vocabulário de esquerda deu um revestimento moderno ao programa conservador e nem por isso menos transformador de que a Igreja no Brasil se tornou protagonista.

Nem os católicos nem os evangélicos conseguiram formular uma concepção democrática de política, no sentido de resguardar as respectivas religiões contra o monolitismo ideológico a que tende a política partidária. Não conseguiram propor suas religiões, na política, como religiões universais e pluralistas, irredutíveis ao partidário. O que possa lhes parecer um êxito político-partidário, nestas eleições e em outras precedentes, é na verdade um fracasso religioso, sobretudo no fato de que tendo se proposto como instrumentos do aparelhamento religioso-ideológico do Estado, tornam-se inversamente aparelhos da política e do próprio Estado. No altar das ambições de poder de sua guerra santa, sacrificam a missão profética das igrejas e minimizam a grande função histórica e libertadora que poderiam e deveriam ter na miséria moral e política da sociedade contemporânea.


JOSÉ DE SOUZA MARTINS, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP. É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE 'A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA' (EDITORA 34)

Justiça social no Velho Testamento - 10

Parte 10 - A prática da compaixão

por Richard Foster

Salpicadas por toda a Antiga Aliança encontram-se o que chamo de suas leis de compaixão e preocupação. Talvez uma das mais fáceis de reconhecer seja a lei da respigadura (Levítico 19:9-20; 23:22; Deuteronômio 24:19-20). Na colheita, o lavrador devia deixar uma parte da produção ao longo das beiras e o cereal que caiu enquanto ele trabalhava, de forma que os pobres pudessem ajuntá-lo. “Quanto segardes a messe da vossa terra, não rebuscareis os cantos do vosso campo, nem colhereis as espigas caídas da vossa sega; para o pobre e o estrangeiro as deixareis: eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 23:22). Da mesma forma, as vinhas e os olivais não deveriam ser totalmente colhidos de modo que pudesse haver provisão para os necessitados. O livro de Rute dá um quadro vívido da ternura dessa lei. Noemi e sua nora, Rute, haviam voltado a Israel viúvas e sem terra e, portanto, indefesas, mas puderam colher as espigas deixadas no campo de Boaz (Rute 2:1 e seguintes).

No coração de Deus há uma preocupação compassiva pelos alquebrados e desesperados. Por meio da lei da respigadura, ele colocou na economia de Israel provisão para aqueles que, por qualquer motivo que fosse, tivessem ficado em posição desvantajosa. Parecia existir uma indiferença quase santa a respeito de se a pessoa merecia ou não ser pobre. O simples fato da carência da pessoa era motivo suficiente para prover para suas necessidades.

Considere a ternura nas antigas leis de dar e receber penhor. Se um vizinho tomasse emprestado seu carro de boi e deixasse a veste em penhor, você tinha de certificar-se de devolver o agasalho antes do por do sol, mesmo que ele não tivesse terminado de usar o carro. Por quê? Porque o ar noturno era frio e ele precisava da veste para se agasalhar. Se você se recusasse e seu vizinho clamasse a Deus na noite gelada, Deus advertia: “Eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Êxodo 22:26-27). Deuteronômio tornou essa lei especialmente obrigatória se o penhor tivesse sido dado por um pobre, visto que havia forte possibilidade de ele não ter outra veste com a qual se agasalhar (Dt 24:12). A veste da viúva não podia ser recebida como penhor – ela já era indefesa o suficiente na situação normal (Dt 24:17). A mó do moinho não podia ser recebida como penhor – era o meio de vida do homem. Era proibido invadir a casa do vizinho para tomar um penhor. A pessoa devia esperar do lado de fora da porta até que ele o trouxesse (Dt 24:10-11). A amabilidade e cortesia comum deviam permear todos os relacionamentos humanos, até as transações de negócios.

Note o enfoque sobre a concessão de empréstimos. Visto ser presumido que os devedores estariam entre os pobres e vulneráveis, era proibido cobrar juros sobre os empréstimos. Essa prática era vista como uma exploração pouco fraterna da infelicidade de outrem e apenas servia para aprofundar a dependência dessa pessoa (Dt 23:19).

O salário deveria ser pago ao pobre no dia em que o trabalho fosse feito, sem falta, porque o dinheiro seria necessário para comprar alimento (Dt 24:14-15). Se você estivesse faminto, podia comer da vinha ou campo de cereais do seu vizinho, mas não tinha permissão para guardar nada num cesto (Dt 23:24). E assim por diante. Ordens ternas. Instruções sábias e comoventes sobre relacionamentos interpessoais.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 43-44)

sábado, 2 de outubro de 2010

Os limites estreitos da ética evangélica brasileira

por Antônio Carlos Costa

Ministro do evangelho e presidente do movimento Rio de Paz

LIMITES ESTREITOS DA 
ÉTICA EVANGÉLICA BRASILEIRA

Há certos temas que são recorrentes na maior parte dos púlpitos brasileiros. Percebe-se a igreja, por exemplo, bastante preocupada com a pedofilia, a lei da homofobia, o aborto, a pornografia, o divórcio. Por motivo de integridade intelectual, não se pode crer no Novo Testamento e menosprezar esses assuntos. A liberdade de expressão, os direitos da criança, a santidade da vida humana, a pureza sexual e a importância do matrimônio são valores inegociáveis do cristianismo. Teme-se que -se essas iniquidades não forem combatidas pela igreja-, Deus julgará o seu povo.

Temos motivos, de fato, para nos preocupar. Porém, muito mais amplos do que o que inquieta a maior parte da igreja. Por que? Porque essas não são as únicas transgressões que a Bíblia denuncia e condena. Há iniquidades, tão graves quanto as supramencionadas -que passam despercebidas por aqueles cujos nomes constam no rol de membros das igrejas brasileiras-, e presentes de modo histórico, disseminado e crônico no Brasil.

Não se menciona nos nossos púlpitos a desigualdade social, o homicídio, as péssimas condições de moradia do pobre, a superlotação dos presídios, os salários baixos, a fome, a condição precária dos nossos hospitais, a falta de acesso a educação de qualidade. Como pensar que seremos julgados por Deus pela prática daqueles pecados e não destes? O fato de uns estarem em vias de ser institucionalizados e outros não, não faz diferença, pois jamais houve o caso de um povo ser justificado diante de Deus pela beleza da sua legislação. A lei sem obras é morta.

Tem que ser igualmente enfatizado que -o juízo de Deus começa pela sua casa. O que falar dos que dizem representar os interesses da igreja nas assembléias legislativas estaduais e Congresso Nacional, eleitos com o voto do crente, em campanhas realizadas no horário do culto a Deus? Alguns são reputados como os mais reacionários, vaidosos, alienados, corruptos que se tem notícia. Como deixar de fazer menção das igrejas que lavam dinheiro? Como não mencionar os pastores que deixam suas congregações se transformarem em currais eleitorais de canalhas, em troca de concessão de rádio, aparelhagem de som, legalização de propriedade e tijolo para construir templo?

Não podemos deixar de deplorar as grandes mobilizações -marchas ufanistas-, capazes de levar milhares para as ruas, para nada, absolutamente nada. Pessoas são assassinadas aos milhares nas cidades brasileiras, dinheiro público escoa pelo bueiro da corrupção, metade da população habita em bairros sem rede de esgoto, e a igreja se reúne em número incontável, nas principais cidades do Brasil, sem anunciar que está indo para as ruas a fim de combater essas provocações à santidade de Deus. Qual o motivo de uma passeata pelos direitos e garantias fundamentais do povo brasileiro jamais ter sido realizada pela igreja? A preocupação com a vida, no seu sentido mais amplo, não está presente nos corações dos seus membros, uma vez que estes encontram-se completamente alheios à obscenidade da violação dos direitos humanos, muitas vezes perpetrada pelo próprio Estado.

Deixaremos de denunciar as nossas instituições de ensino teológico, muitas das quais, ensinam o exato oposto proclamado pelas Escrituras Sagradas, sem ter quem faça oposição? De igual modo, muitos dos nossos pastores terão que, antes de denunciar os pecados dos de fora, aprender a se desfazer das jóias de ouro que ostentam, dos ternos caríssimos que exibem, dos carros luxuosos que dirigem e padrão de vida endossado por uma teologia que, só serve para justificar a riqueza dos profetas de causa própria, enquanto uma massa de crentes é mantida no padrão social mais baixo do país. Igualmente, convém proclamar, que envergonham os céus, campanhas para levantamento de ofertas que fazem tropeçar todo e qualquer brasileiro que tem cérebro, uma vez que apelam para a ignorância e crendice, num contexto de total falta de transparência da administração financeira das contas de suas instituições.

As afrontas a Deus em nossa nação e na igreja são mais amplas e sérias do que pensamos. Temos provocado a Deus. Por isso, o desrespeito da população brasileira pela igreja, o desprezo pela função do pastor, a falta de interesse dos meios de comunicação pelo que essa igreja pensa. Perdemos a credibilidade. Setores inteiros da nossa sociedade não conseguem se imaginar presentes em cultos barulhentos, onde não se fala coisa com coisa e dirigidos por homens de vida dúbia.

As maiores ofensas a Deus que ocorrem na nossa nação, só serão combatidas pela igreja, quando esta deixar de agir de modo espasmódico, ingênuo, estreito, superficial. Esses batalhas não se vencem sem evangelização que prega arrependimento para com Deus e fé em Jesus Cristo, oração, protesto nas ruas, busca de informação, pressão sobre as três esferas de poder da república, entre outras ações mais, tão ausentes da praxis das igrejas do nosso país. Somos protestantes. Atrás de nós, há uma legião de homens e mulheres que, por crerem no que creram, protestaram.

Enquanto nossa mensagem for determinada por uma pregação estranha às reais demandas morais e espirituais do Brasil, carente de relevância, pobre de pertinência histórica, falta de discernimento dos tempos e privada de fidelidade às Escrituras, continuaremos a deixar de pregar sobre aquilo que tão extensamente encontramos nos textos proféticos da Bíblia, e que seria proclamado com clareza, paixão e ousadia por qualquer profeta do passado que estivesse em nosso lugar -homens que costumavam ser valentes não apenas dentro do templo-, mas nos locais onde a verdade referente às demandas do direito e da justiça tinham que fluir como um grande e caudaloso rio.

Dica do blog Pensar e Orar

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