segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Bispa metodista unge cardeal católico de Boston


Um fato inusitado aconteceu durante uma celebração ecumênica na Igreja Metodista Unida de Sudbury, Massachussets, nos Estados Unidos, no domingo, 12 de janeiro de 2014.

O atual cardeal de Boston, Sean O'Malley, foi convidado para pregar na igreja de Sudbury, com o fim de comemorar os 50 anos da visita de seu antecessor, Richard Cushing, àquela mesma igreja, convidado que foi a pregar pelos metodistas em plenos ventos ecumênicos do Concílio Vaticano II.

A visita de Cushing se deu numa época em que era grande a tensão entre católicos e protestantes nos Estados Unidos, quando não havia se usava tanto o termo "evangélico" para os não-católicos, e - por ser uma região de forte influência irlandesa - ainda havia uma espécie de "importação" do conflito que continua dividindo até hoje a Irlanda do Norte.

Nesse contexto, o cardeal O'Malley compareceu à igreja metodista de Sudbury, relembrando as dificuldades de convivência 50 anos atrás, e chamando todos os presentes, católicos e metodistas, à unidade diante do que ele chamou de uma "nova polaridade: crentes e descrentes".

Ao término da cerimônia, o cardeal O'Malley se postou ao lado da bispa local, Anne Robertson, e ambos passaram a ungir os fiéis que saíam da igreja com o gesto de uma cruz na testa de cada um,  instando a todos que renovassem os votos do batismo.

A surpresa ocorreu quando o cardeal pediu que a bispa Robertson fizesse o mesmo com ele, ungindo-o com água benta, conforme mostra a foto que ilustra este artigo.

A bispa metodista disse ao The Huffington Post que ela se sente "agradecida por todas as vezes em que as pessoas podem olhar além daquilo que as divide e enxergar a nossa humanidade comum - e neste caso a nossa fé comum".

A repercussão do gesto de O'Malley gerou diferentes reações: de entusiasmo pela prática ecumênica à reprovação escancarada por católicos fundamentalistas, muito em função do sacerdócio feminino que existe entre os metodistas americanos desde 1956.

Entretanto, o cardeal de Boston se justificou citando Gálatas 3:28 - "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus".



domingo, 19 de janeiro de 2014

Como conciliar ciência, razão, criatividade e intuição?

Entrevista interessante do francês Michel Paty, físico e filósofo da ciência, concedida ao Ciência Hoje:

A ciência criativa

Físico-filósofo francês aborda discussão sobre o papel da criatividade e da intuição, orientadas pela racionalidade, na produção científica. Para ele, entender o processo da descoberta pode ser o maior desafio da filosofia da ciência.

Marcelo Garcia

Como surge a descoberta científica? Qual a sua origem? E qual o papel da criatividade nesse processo, no próprio avanço da ciência? Tais indagações, que inquietam e instigam a filosofia da ciência, certamente não têm respostas fáceis ou definitivas, mas podem ajudar a expandir nosso entendimento sobre o próprio fazer científico e sobre a trajetória da ciência nos últimos séculos. Para o físico, filósofo e historiador da ciência francês Michel Paty, diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional para a Pesquisa Científica (CNRS, do francês), há na ciência lugar para a invenção e a intuição, orientadas pela racionalidade.

Em palestra no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o francês abordou, em um português simpático e cheio de sotaque, as mudanças no entendimento filosófico sobre a ciência nos últimos 200 anos. Ele recordou as inovações da ciência que ainda no século 19 afrouxaram o laço entre matemática e natureza, mostrando a distância entre experiência e abstração teórica.

Naquela época, criações como a geometria não euclidiana, que não corresponde à ‘evidência’, e teorias físicas matematizadas e abstratas em eletricidade e magnetismo teriam tornado mais claro o papel da invenção na construção da ciência, segundo Paty. “Apesar disso, na segunda metade do século 20, a concepção da ciência continuava a se basear, de maneira dominante, nas ideias herdadas do empirismo lógico, e a filosofia não estudava, em geral, o processo de descoberta, que ainda parecia dominado pela subjetividade e alheio à racionalidade”, afirmou.

Apesar dessa predominância, o francês destacou que a aproximação entre criatividade e processo científico foi estudada por grandes cientistas e filósofos do século 20 – em especial dois deles, Henri Poincaré e Albert Einstein, cujos trabalhos estudou ao longo da carreira. “Ambos concebiam a descoberta de novidades relacionadas ao conhecimento objetivo como fruto da capacidade de invenção da mente, baseada numa intuição racional que escapa às formas usuais do raciocínio, como a dedução lógica”, disse. “Dessa forma, mesmo que nem sempre seja possível observar as linhas de raciocínio, chega-se a um resultado racional”, analisou.

Nesse contexto, a invenção teria seu lugar assegurado na ciência. Fundamental, a criatividade seria, sim, pessoal (relacionada ao pensamento de sujeitos individuais), mas orientada pela racionalidade – que, por sua vez, não se identifica com a pura e simples lógica. Segundo Paty, essa criatividade seria parte fundamental do processo de elaboração dos conhecimentos científicos e deve ser levada em conta tanto pela filosofia quanto pela história da ciência.

Confira uma entrevista concedida à CH On-line pelo físico e filósofo francês:

CH On-line: O senhor é físico e filósofo, duas áreas que buscam compreender o mundo. Há uma relação natural entre elas?
Paty: Esses dois campos sempre foram próximos. Desde a Antiguidade, muitos físicos, muitos cientistas também eram filósofos, se debruçavam sobre as questões do mundo pelas duas vias. Foi só a partir do século 18 que essa separação começou a aparecer de maneira nítida, aliás, proposital, para assegurar a autonomia da ciência e da filosofia. Mas ela não é total. Se tomarmos o exemplo da cosmologia contemporânea, é impossível negar as questões filosóficas que a área suscita. A constituição da matéria, a presença da vida no universo, o surgimento de uma inteligência como a nossa nesse universo tão grande, a dúvida sobre estarmos sozinhos nele... São questões naturais, que se originam da nossa própria capacidade de indagação, tão própria da ciência.

Houve uma época em que me dediquei totalmente à física, especialmente ao estudo dos neutrinos, que hoje são famosos, mas naqueles tempos eram novidade. E é lógico que eu me colocava questões de natureza filosófica, que o conhecimento objetivo não me permitia responder. Essa aproximação mais clara entre filosofia e ciência acontece intensamente nas áreas de fronteira, mas tais questionamentos podem surgir em qualquer campo de investigação – e mesmo da atividade humana em geral.

E como se dá, no seu entendimento, a conciliação da criatividade e da intuição com a ciência? Ela é realmente possível?
Sem dúvida é possível e necessário conciliar criação científica, racionalidade e objetividade. Um conceito científico considerado numa teoria não é isolado, mas solidário a outros conceitos, forma com eles um conjunto cujas relações são mais ricas do que puramente lógicas. A mudança científica se dá pela transformação do conjunto dos conceitos que fazem parte desse sistema.

A história da ciência deixa ver que tais movimentos não são casuais e têm consistência interna, têm uma razão – justificada posteriormente – ligada à exigência de objetividade. São movidos pela racionalidade e, ao mesmo tempo, têm um lado importante de subjetividade. Cada agente humano envolvido tem reações únicas na formulação e resolução dos problemas, o que resulta numa diversidade de 'estilos científicos'.

O conhecimento, então, avança graças a ampliações da própria racionalidade, muito mais do que pela pura lógica, pois elas permitem possibilidades inéditas de relacionar os elementos conceituais considerados. É como se mudássemos as regras do jogo: passamos a enxergar de forma racional o que antes era impensável, hipotético ou pertencia de forma vaga ao campo de ideologias. As mudanças no entendimento do mundo e na própria ciência despertam a intuição racional, que pode ser concebida como uma visão sintética intelectual dos cientistas daquela época para outras possibilidades, que levam a novas descobertas.

Essa valorização da criatividade significa um reforço da figura do gênio, excêntrico, especial, inigualável, tão presente na opinião comum?
Na verdade, não. Esse estereótipo do gênio é fruto de uma visão superficial da ciência. Claro, nem todos, mesmo os mais famosos e bem-sucedidos cientistas, eram criativos como Einstein e Poincaré. As descobertas estão ligadas também a outros fatores, como o pioneirismo num campo ou a momentos sociais bem aproveitados pelo pesquisador. Precisamos tomar cuidado para não cair em certo ‘relativismo’ e ‘reducionismo’ sociológico a respeito do pensamento científico, mas também é inegável a importância de fatores culturais e sociais de cada época. A ciência do século 21 não teria o aspecto que tem não fosse a sua organização social específica. A pesquisa está inserida na história e na história social, não faz sentido separar homem e sociedade.

Em seu trabalho, o senhor já explorou muito as ideias de Einstein e Poincaré a respeito da criatividade, do estilo científico e do papel da invenção na ciência. Fazendo um paralelo com os dias atuais, qual o papel da criatividade e da invenção na ciência contemporânea?
A grande dificuldade para responder a essa pergunta está na forma que a pesquisa científica tomou a partir da segunda metade do século 20. No tipo de ciência que temos hoje em domínios importantes, a big science, o trabalho é muito coletivo e as experiências são de alta tecnologia, tanto na física, na química e na astrofísica quanto na biologia e na neurociência. Há uma enorme mobilização de pesquisadores, instituições, equipamentos e recursos. Parece ser mais difícil perceber aqui uma originalidade de contribuição dos pesquisadores tomados individualmente.

Porém, se olharmos os conhecimentos produzidos por esse tipo de pesquisa, eles não deixam de ter a mesma natureza de quando o trabalho científico era mais individual: são exprimidos como formas simbólicas organizadas racionalmente, como conceitos e teorias, que são inteligíveis não para um coletivo, mas para sujeitos individuais. Ou seja, somos levados a pensar que a produção de ideias também continua a ser individual. Não é o meio coletivo e sua tecnologia que as gera, mas o trabalho mental individual dos participantes. E isso acontece de forma variada, com mais ou menos originalidade e criatividade, e certamente com um ritmo mais intenso de trocas de ideias entre os pesquisadores, de assimilações e de transformações.

Mas há, sem dúvida, um impacto do trabalho coletivo.
Sim, e há eventualmente um reverso da medalha, que seria a eliminação de ideias menos atraentes pela maioria, direções de pesquisas que são, ao menos provisoriamente, esquecidas. Num regime mais individual e lento, essas ideias tinham mais tempo para maturação. O risco aqui é que certo conformismo leve a privilegiar exageradamente uma das direções possíveis. Isso pode ser constatado na minha antiga linha de estudo, a física das partículas, na procura de teorias unificadas onde muitos jovens optam pela mesma direção de pesquisa – aliás, favorecida pelos critérios sociais que orientam as carreiras de pesquisador. É sem dúvida um assunto complexo que merece estudo adequado.

Nesse contexto, a filosofia da ciência tem dedicado a atenção que deveria ao processo criativo na ciência?
De maneira predominante, desde a segunda metade do século 20, a filosofia da ciência se desinteressou do processo criativo do pensamento científico e o rumo atual da pesquisa socializada não vai ajudar muito a retomar esse tema. Mas acredito que os criadores com ideias originais, mais sensíveis a respeito da natureza do pensamento científico e da forma como ele é capaz de reinventar o mundo e incorporá-lo à cultura dos homens, vão continuar a contribuir com suas reflexões nessa área, como fizeram Poincaré e Einstein em seu tempo. E espero que os filósofos da ciência se abram mais a essa dimensão, levando em conta a realidade da ciência tal como ela é e se apresenta.

Além de físico e filósofo, o senhor já atuou como divulgador da ciência. Qual o papel da divulgação e da educação científicas na nossa sociedade?
Como disse, mais do que nunca a ciência impacta diretamente a cultura, a tecnologia e a sociedade, e isso não pode ser ignorado. A educação e a comunicação científicas são fundamentais para que possamos problematizar os avanços atuais. Essa é uma responsabilidade de todos nós. Os cientistas, filósofos, historiadores e sociólogos da ciência precisam promover essa reflexão lúcida e crítica sobre o conhecimento. O conhecimento científico está centrado na racionalidade, visa à objetividade e, por isso, tem vocação à universalidade, pode ser entendido por qualquer um, em princípio. As gerações que estão por vir dependem disso e a miséria e outros fatores que impedem essa disseminação são crimes contra a humanidade.

Uma questão importante é que a divulgação científica nem sempre é bem feita. Se o objetivo é apenas maravilhar o público, isso não necessariamente aproxima a ciência de suas vidas. É preciso que ela seja uma divulgação crítica, que se indague, que estimule a curiosidade e que ensine os porquês das coisas, desfazendo a imagem dogmática da ciência. Outro aspecto que precisa ser problematizado e abordado é que a ciência e a tecnologia no mundo atual estão integradas num sistema econômico e social específico, o que tem suas consequências.

De fato alguns dos mercados mais lucrativos do mundo hoje envolvem diretamente produtos tecnológicos...
Sem dúvida. Primeiro temos que considerar que o acesso à tecnologia ainda é regido por fatores econômicos e a tecnologia não é para todos. Além disso, vamos pensar nas regras que orientam esse mercado, nas motivações que norteiam o desenvolvimento de novos produtos: será que elas se baseiam no esforço pelo avanço da ciência ou no lucro, na concorrência selvagem, responsável por muitos de nossos problemas atuais? O conhecimento sobre a natureza nos dá o poder de transformá-la, mas como orientar esse poder para o bem da humanidade, e não para o lucro de uma minoria? É, sem dúvida, uma questão atual, de grande importância social e ética.



sábado, 18 de janeiro de 2014

Eusébio: futebol, fado e Fátima no imaginário português

No dia 5 de janeiro de 2014, faleceu Eusébio, o maior jogador de futebol que Portugal produziu, ainda que através da sua então colônia africana Moçambique.

Conhecido também como o "Pantera Negra", Eusébio despontou em uma década (1960) em que a ditadura de António de Oliveira Salazar (a que muitos chamavam de "o beato") comandava o país desde 1932.

A figura do futebolista de origem moçambicana foi logo apropriada pelo regime como uma espécie de, digamos, "justificativa" para o império colonial português, já nos seus estertores.

Isto numa época em que o fado de Amália Rodrigues e as aparições de Fátima contribuíam para a visão de um Portugal idílico que, de fato, não existia.

É esta a tese do sociólogo lusitano Nuno Domingos em artigo publicado originalmente no Público e reproduzido pelo Estadão:

Brincando nos campos de Salazar

Sociólogo português mostra como a ditadura usou Eusébio para mudar o discurso sobre o negro

Nuno Domingos

No Portugal dos anos 1960, abundavam as imagens de Eusébio da Silva Ferreira. Ele ali estava, espalhado por jornais e revistas, mas também em programas e serviços noticiosos da Radiotelevisão Portuguesa. Atleta do Benfica e da selecção nacional, sempre na sua função de jogador de futebol, era aclamado pelo inegável talento. No Portugal metropolitano de então, onde rareavam ainda os naturais de África, nunca um negro merecera tanto destaque e fora objecto de tamanha glória. Uma representação dessas distinguia-se da imagem do africano, que proliferara na cultura popular. Como demonstrou Isabel Castro Henriques (A Herança Africana em Portugal, ed. CTT), o negro era quase sempre ridicularizado, com evidente crueldade, em livros, imagens, jornais, bandas desenhadas, campanhas publicitárias e anedotas. A construção de um outro tipo de africano, fundada numa distância que permitia as maiores efabulações, só tomou um sentido mais concreto durante a guerra colonial, onde o africano era o inimigo, o "turra".

Desde seus primórdios, o Estado Novo contribuíra decisivamente para a disseminação de um racismo generalizado, garantindo-lhe até um carácter científico. Em exposições e congressos, nos trabalhos de diversas ciências coloniais, e em muitas publicações oficiais, expunha-se um outro africano culturalmente diferente, que fazia parte integrante do império português, mas era colocado à parte, como se se tratasse de um todo racial e cultural discrepante. O império afirmara o atraso civilizacional das populações africanas, legitimando assim uma conquista colonial anunciada como uma missão de desenvolvimento dessas regiões e dos seus povos.

Salazar, o "beato salvador" da nação portuguesa.
Rezas por ele valiam 50 dias de indulgência .
Justificou-se, dessa forma, que Portugal atribuísse uma cidadania específica à maioria dos povos que governava, enquadrada pelo chamado sistema de indigenato, que cessou em 1961, precisamente no ano em que Eusébio começou a jogar no Benfica, depois de chegar a Portugal em dezembro de 1960.

É evidente que as retóricas integracionistas do Estado Novo na década de 1960 obrigavam a outras representações do africano, nomeadamente a de um sujeito colonial assimilado à sociedade portuguesa. Eusébio ajustava-se bem a essa imagem. Sua autobiografia, publicada em 1966 em Portugal e redigida por Fernando G. Garcia a partir de um conjunto de entrevistas (traduzida em inglês no ano seguinte), conta a história de um "bom rapaz", narrativa mestra e memória oficial a partir daí repetida em jornais, biografias e bandas desenhadas.

A "verdadeira" história de Eusébio apresenta um conjunto de etapas, do Bairro da Mafalala na Lourenço Marques colonial, onde vivia com a mãe, Elisa, num contexto de pobreza honrada, os jogos de bairro e a equipa dos "brasileiros", as idas à escola, o deslumbramento com o centro da cidade colonial, que pouco conhecia, a entrada no futebol local, a transferência atribulada para o Benfica e os diversos passos da brilhante carreira profissional.

Nessa história, a lista impressionante de feitos desportivos é intervalada pelo relato do casamento com Flora e pela incorporação de Eusébio, em 1963, no Exército português, profusamente fotografada e utilizada como propaganda. A incorporação militar, o casamento e a vida familiar contribuíam para a construção quase perfeita da biografia de um indivíduo assimilado, preocupado com o trabalho e com a família e plenamente integrado no Portugal de Salazar, um jovem de origens desfavorecidas que, apesar da notoriedade, continuava a perceber seu lugar social.

Amália Rodrigues
A apropriação oficial da imagem de Eusébio não anulava os efeitos produzidos pelo facto de um negro se ter tornado uma figura dominante da cultura popular portuguesa. Eusébio entrou, tal como a fadista Amália, num universo de glorificação cultural até aí constituído por indivíduos com origens e percursos muito distintos, consagrados em actividades oficialmente legitimadas e de onde o futebol e o fado se encontravam afastados.

Apesar do reconhecimento de seu mérito, a apreciação entusiástica que mereceu não resultava de uma inusitada consciência de igualdade racial, tão-pouco poderia servir de prova de que a sociedade portuguesa estava preparada, devido a uma característica cultural adquirida, a aceitar a diferença. A relevância de Eusébio dependia do seu valor enquanto elemento de uma economia particular, no contexto de uma troca muito específica, proporcionada pelo processo de profissionalização do futebol. O jogador moçambicano oferecia quase todas as semanas capitais preciosos à representação nacional, mas sobretudo clubista, a uma específica cidadania exercida diariamente por muitos indivíduos, quase todos homens, durante incontáveis encontros, conversas e imensas retóricas, nos quais se manifestava uma identificação, uma forma de apresentação na vida de todos os dias. Os que no campo representavam com seu génio desportivo essa pertença (ser do Benfica, do Sporting, do Porto, ou da selecção) mereciam quase todas as recompensas, independentemente da sua origem ou da cor da sua pele. O valor de Eusébio nessa economia particular dependia da manutenção de um nível performativo constante, de um ritmo laboral intenso, com consequências físicas conhecidas, como asseveram as inúmeras cirurgias ao seu martirizado joelho.

As exibições no Mundial de 1966 ampliaram a reputação de Eusébio, oferecendo-lhe uma dimensão global. Esse enorme atleta, personagem principal de uma cultura de consumo em expansão que gerava novas identificações, juntou-se à memória visual colectiva de uma geração, ao lado de outros ícones da cultura popular dos anos 1960. Em Inglaterra, país que na altura já abdicara da grande parte das suas colónias, governada em 1966 por um governo trabalhista, os negros eram uma enorme raridade nos campeonatos desportivos e nenhum chegara à selecção nacional.

O efeito do poder mediático de vedetas populares como Eusébio foi alvo de escrutínio, as suas posições interpretadas, os resultados políticos dos seus actos avaliados. Se o Estado Novo sempre desconfiara da espectacularização do desporto assente no movimento associativo, veio depois a perceber que essa lhe podia ser útil. Para as oposições ao regime, menos preocupadas em reconhecer o efeito propriamente político da invulgar notoriedade social de um negro em Portugal, importava denunciar a utilização de Eusébio na defesa da "situação", enquanto elemento da narcotização do povo - ao lado do fado, do chamado nacional-cançonetismo e de Fátima - e especificamente da propaganda imperial, fundada na mitologia do pluri-racialismo, num período em que Portugal lutava pelos seus territórios numa guerra travada em três frentes.

É interessante verificar que nas últimas décadas Eusébio veio a tornar-se objecto de interesse para os estudiosos do continente africano, entendido como um pioneiro do futebol em África, um exemplo de talento extraordinário e, simultaneamente, ao lado de outros grandes nomes negros da história do desporto internacional, nomeadamente norte-americanos, desde Joe Louis a Jesse Owens, alguém que vingara num mundo fortemente discriminatório. O desejo de alguns académicos e jornalistas estrangeiros em encontrar no discurso de Eusébio posições emancipadoras e politizadas esbarrou quase sempre em respostas evasivas e no habitual refúgio no mundo do futebol. Na verdade, o universo que ele, desde pequeno nos espaços livres da Mafalala, aprendera a dominar. Para aquele que foi considerado, depois do Mundial de 1966, como "o melhor da Europa", e de quem se falava estar a disputar com Pelé o título de "rei do futebol mundial", África e a política africana estavam muito longe.

O Estado Novo tratou de voltar a lembrar que Eusébio era africano, parte de um Portugal enorme que se prolongava para sul. Se é evidente que o impacto de Eusébio na sociedade portuguesa não pode ser avaliado apenas à luz de uma história política, sendo essencial investigar o efeito simbólico da notabilidade de um jogador negro, é também certo que na década de 1960 sua glória serviu à defesa de uma excepcionalidade colonial. Foi essa que serviu de justificação à soberania sobre os territórios africanos e a sua história, contada e recontada até nossos dias, contribuiu para lançar um manto sobre o passado e reproduzir mitos sobre a tolerância racial dos portugueses.

Um ano antes do Mundial de 1966, o embaixador português Franco Nogueira, numa conferência na embaixada portuguesa em Londres (em maio de 1965), falou sobre os princípios orientadores da política portuguesa em África: "Nosso primeiro princípio orientador é a igualdade racial - uma pequena noção que trouxemos para África há mais ou menos 500 anos". Portugal orgulhava-se do seu império se constituir como um "espaço multirracial", uma "democracia racial real" onde todos "trabalham harmoniosamente para os mesmos fins".

Falso e mitificador, o olhar de Franco Nogueira, ao incluir o império dentro da sociedade portuguesa, acabava por realçar o facto de que o mundo governado pelos portugueses na década de 1960 era maioritariamente negro e africano, realidade por vezes esquecida nas análises historiográficas sobre Portugal. E qual era o lugar que a gestão colonial portuguesa atribuíra a essa grande maioria da população? Segundo a história mediatizada da vida de Eusébio, existia em Moçambique um contexto de igualdade de oportunidades e uma ausência de preconceito racial, bem ilustrados por um percurso de mobilidade social, desde o Bairro da Mafalala até à metrópole e aos grandes estádios europeus.

Poderá um caso excepcional ilustrar a excepcionalidade de um regime colonial? É que o lugar da população africana, na grande sociedade portuguesa de 1960, era bem diferente do representado pelo caso de Eusébio. Sua integração estava longe de estabelecer qualquer padrão que pudesse explicar os 500 anos de colonialismo de que falava Franco Nogueira.

Mais fiável parecia ser a história da cidade onde o jogador moçambicano cresceu. Desde sua fase moderna, iniciada no final do século 19 e projectada pela industrialização da África do Sul, que Lourenço Marques se dividira entre um centro colono, predominantemente branco, e um subúrbio precário, predominantemente negro. Pela força, afastaram-se as populações locais para a periferia. Separada fisicamente, a mão de obra africana que se acumulava nos subúrbios, essencial para o funcionamento do sistema colonial, foi enquadrada por leis e normas. Essas regulavam uma discriminação racial, a qual era evidente não apenas na lógica do indigenato, mas que se traduzia no quotidiano, nos espaços públicos, nas escolas, nos transportes e nos locais de trabalho, onde sofreram durante muito tempo o flagelo do trabalho forçado. O historiador Valdemir Zamparoni explicou bem esse mesmo processo na sua tese sobre a capital de Moçambique.

Já depois do fim do indigenato persistia o que, num artigo publicado em 1963 no jornal A Tribuna, o arquitecto Pancho Guedes chamava de "cinto do caniço" que separava o centro urbano da "cidade dos pobres, dos serventes e dos criados", isto é, a cidade dos africanos. Lourenço Marques carecia então, segundo o arquitecto, de "uma genuína integração social - ou serão os ‘pretos’ só para estar nas cozinhas e nas recepções?".

Os habitantes dos bairros periféricos da cidade, onde nasceu Eusébio em 1942, trabalhavam nas indústrias locais, nos portos e nos caminhos-de-ferro, nos serviços domésticos, em actividades ditas informais, dependendo de pequenas lavras, ou faziam parte da forte emigração para o país vizinho, controlada e taxada pelo Estado colonial. Essa estrutura laboral era fortemente racializada, pertencia a um sistema onde a cor da pele mostrava os contornos da organização social. Na grande sociedade portuguesa de 1960, o lugar dessa maioria africana, mesmo depois do fim do indigenato, continuava a revelar a herança de um colonialismo predador e racista, não muito diferente dos outros colonialismos nos seus propósitos e objectivos, nos meios e nas estratégias, e absolutamente nada excepcional.

Explicada pela conjugação única entre a profissionalização do futebol e a procura de talentos, a força da cultura popular mediática e um regime que necessitava de defender por todas as formas o mito do pluri-racialismo lusófono, a carreira extraordinária de Eusébio não belisca a imagem pérfida do sistema colonial português. Tão-pouco deve servir de modelo para descrever, hoje, as relações raciais em Portugal.

NUNO DOMINGOS É SOCIÓLOGO E PESQUISADOR DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA. TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM PORTUGAL NO JORNAL PÚBLICO



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Religiosos pirateiam menos

É o que diz matéria publicada no Tecmundo com base em informação do Torrent Freak:

Estudo aponta que pessoas que vão à igreja pirateiam menos

Ao menos na Inglaterra, religiosos tentam seguir à risca o mandamento que diz não roubar

Douglas Vieira

Quem vai à igreja sabe que há dez mandamentos que, quando seguidos, tendem a melhorar o convívio com outras pessoas. Um deles, o sétimo, prega a ideia de “não roubar”, algo que os religiosos ingleses tentam seguir ao pé da letra – especialmente quando o assunto é download ilegal de conteúdo na internet, algo pouco praticado por eles.

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Manchester com 1.124 pessoas na faixa de 18 a 34 anos tinha como intuito associar visitas a igrejas à prática de pequenos crimes. Entre as opções estavam uso de drogas, furtos em lojas, evitar o pagamento de pequenas taxas e download ilegal de músicas – e, neste caso, havia uma pergunta para saber se algum deles já havia baixado arquivos de áudio anteriormente.

Segundo Mark Litter, estudante de PhD e coordenador da pesquisa, a religião expõe as pessoas a normas para um comportamento mais correto, sendo essa a explicação para a menor tendência a realizar tais ações.

“A pesquisa mostra que o ato de visitar templos religiosos pode ocasionar uma significante redução na possibilidade de envolvimento em certos tipos de crimes e comportamentos delinquentes”, explicou Litter ao site Torrent Freak, complementando que isso não é um papel exclusivo das igrejas, já que outras atividades e ações podem exercer papel similar.

O resultado completo da pesquisa feita por Litter será divulgado ainda em 2014, de acordo com o site.



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

É possível fazer humor com Jesus sem ofender?


É muito tênue o limite entre humor e ofensa a sentimentos religiosos quando se trata de esquetes humorísticas que tratam de temas ligados à religião. Daí não ser nenhuma surpresa quando essa barreira é ultrapassada.

Estão aí as piadas de mau gosto que apenas confirmam essa hipótese, embora tudo fique no terreno do subjetivo e cada um interprete como quiser.

O programa da TV canadense "Just for Laughs" ("Apenas para Rir") tenta mostrar no vídeo abaixo que é possível abordar temas religiosos sem ofender ninguém.

Entretanto, a subjetividade continua latente. E você, o que acha?



Papa demite D. Odilo Scherer de cargo no Banco do Vaticano

"Vai com Deus, Odilo!"
Pelo jeito, D. Odilo Scherer, que foi considerado - à época - um dos favoritos para suceder Bento XVI, que o havia nomeado cardeal de São Paulo (SP), não anda com essa moral toda com o papa Francisco, que o defenestrou de seu cargo no Banco do Vaticano, segundo noticia o Estadão:

Papa afasta d. Odilo e mais 3 cardeais em ato para sanear Banco do Vaticano

Cardeal brasileiro fazia parte do grupo de religiosos encarregado de monitorar atividades de instituição financeira da Santa Sé, alvo de denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro

Jamil Chade

Na reforma mais ampla feita pelo papa no Vaticano, um dos pontos centrais será a transformação do Instituto de Obras de Religião - o nome oficial do Banco do Vaticano - em uma entidade que financie de fato apenas essas obras.

D. Odilo fazia parte do grupo de cardeais que atuava para monitorar as atividades do Banco do Vaticano. Considerado um dos fortes candidatos no conclave de 2013, d. Odilo tinha o apoio dos setores mais conservadores do Vaticano e representava certa continuidade em relação ao pontificado de Bento XVI. Durante o conclave, a disputa por votos colocou o grupo de apoio ao brasileiro em oposição aos que defendiam um candidato que representasse uma reforma.

Dias antes de deixar o poder, o papa alemão renovou o mandato do brasileiro e dos demais integrantes do órgão de supervisão por cinco anos - ou seja, d. Odilo foi tirado da função antes do previsto. Entre as atribuições do grupo está justamente a nomeação do presidente do banco. Próximo de cumprir um ano no Vaticano e adotando a austeridade como sua bandeira, Francisco colocou no lugar cardeais vistos como aliados.

Quatro dos cinco cardeais no organismo foram substituídos. Saíram os cardeais Tarcisio Bertone, Telesphore Toppo of Ranchi e Domenico Calcagno, além de Scherer. Restou o francês Jean Louis Tauran. No lugar deste grupo, o papa nomeou o cardeal de Toronto, Thomas C. Collins, o italiano Pietro Parolin, Christoph Schonborn, de Viena, considerado como um reformador, e o cardeal espanhol Santos Abril Castello, amigo do papa.

O cardeal Domenico Calcagno, que chefiava outra ala financeira do Vaticano, também foi removido, depois de juízes italianos passarem a suspeitar de irregularidades. O grupo liderado por Bertone foi alvo de crítica nos últimos anos por não conseguir conter uma série de escândalos financeiros no Banco do Vaticano, que enfrenta suspeitas de lavagem de dinheiro do crime organizado.

Em julho, dois outros executivos do banco pediram demissão, três dias depois da prisão do monsenhor Nunzio Scarano, contador acusado nos tribunais em Roma de ter contrabandeado 20 milhões em malas entre a Suíça e a Itália, justamente para contas no Banco do Vaticano. Em junho, o papa criou uma comissão para estudar uma reforma na instituição. Pela primeira vez em mais de 100 anos, a entidade publicou um balanço anual de suas contas.

Reformas. Em menos de um ano, o papa deixou o Palácio Apostólico para viver em um apartamento na Santa Sé, trocou a frota de carros do Vaticano, defendeu a humildade entre os padres e deixou claro que o Banco do Vaticano era uma instituição que estava prejudicando a imagem da Igreja.

Nos últimos meses, a instituição fechou centenas de contas e uma empresa estrangeira foi contratada para ajudar a atender normas financeiras internacionais. As ações do papa Francisco começam a ter um impacto, a julgar pelo número de contas fechadas. Em 2011, eram 21 mil correntistas. Hoje, são cerca de 18,9 mil, com um ativo total de 6,3 bilhões. Várias outras devem fechar até o fim do ano. Isso porque a instituição começou a suspeitar de saques em valores elevados feitos por embaixadas como a do Irã, Iraque e Indonésia.

Cerca de 20 países ainda mantém contas no banco. O governo brasileiro já tomou providências e trocou o Banco do Vaticano pelo Banco do Brasil. Por décadas, a embaixada do Brasil para a Santa Sé manteve conta no Banco do Vaticano. Ela não foi fechada, mas reduzida ao mínimo - com um depósito de 100. O pagamento de funcionários, dos gastos de representação e outros custos de operação passaram a ser gerenciados pela agência do Banco do Brasil em Milão.

Nomeado cardeal em 2007 por Bento XVI, agora papa emérito, d. Odilo continua participando de sete organismos da Cúria, após o afastamento da Comissão de Vigilância do IOR.

Procurado ontem para comentar a decisão do papa e o significado de sua demissão do cargo, d. Odilo não foi localizado em São Paulo. O religioso manteve contato com sua assessoria de imprensa, na segunda-feira, mas logo desligou o telefone celular, alegadamente para aproveitar mais os últimos dias de férias, antes das comemorações da festa de São Paulo, dia 25, aniversário de fundação da cidade. / COLABOROU JOSÉ MARIA MAYRINK



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Fuzil AK-47 e o sentimento de culpa de Kalashnikov


Mikhail Kalashnikov faleceu em dezembro de 2013, aos 94 anos de idade, com sentimento de culpa por ter criado o fuzil AK-47 (que não lhe rendeu dinheiro, ao contrário da vodka que leva seu nome), segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo de 13/01/14:

Kalashnikov mostrou arrependimento por mortes causadas por fuzil

O russo Mikhail Kalashnikov, que criou o fuzil AK-47, enviou uma carta ao chefe da Igreja Ortodoxa da Rússia manifestando seu temor por ser o responsável por criar uma arma que matou milhões de pessoas em todo o mundo, informou nesta segunda-feira o jornal "Izvestia".

Kalashnikov morreu em 23 de dezembro aos 94 anos. Durante sua vida, ele nunca havia manifestado seu arrependimento em relação à invenção. Em diversas ocasiões, ele disse que havia inventado a arma para defender seu país e não tinha culpa se os políticos e guerrilheiros a usaram para atrocidades.

Na carta publicada pelo "Izvestia", no entanto, ele afirmou ao patriarca da Igreja Ortodoxa russa, Kirill, que sentia uma dor espiritual insuportável.

"Me faço sempre a mesma pergunta que não posso responder: 'Se meu rifle terminou com a vida de tantas pessoas, pode ser que eu seja culpado pelas mortes, ainda que fossem inimigos?'".

O documento foi enviado em maio de 2012 em papel timbrado da organização chefiada pelo criador da arma e assinada por ele, que se descreveu como "um servo de Deus, o designer Mikhail Kalashnikov".

O secretário de imprensa do Patriarca, Alexander Volkov, declarou ao "Izvestia" que o chefe da Igreja ortodoxa russa recebeu esta carta e escreveu uma resposta pessoal.

"A Igreja tem uma posição muito clara: quando as armas servem para proteger a pátria, a Igreja apoia tanto seus criadores quanto os soldados que as utilizam", disse Volkov. "Ele desenhou este fuzil para defender seu país, não para que os terroristas pudessem utilizá-lo na Arábia Saudita", acrescentou.

FUZIL

Estima-se que a arma, que desenhou em 1947, quando era oficial do Exército Vermelho e se recuperava de ferimentos sofridos durante a Segunda Guerra (1939-1945), vendeu 100 milhões de exemplares.

O fuzil logo se tornou o rifle de assalto padrão da infantaria soviética e, nos anos seguintes, passou a ser adotado por exércitos de mais de 80 países, por guerrilheiros radicais e até por terroristas como Osama bin Laden.

Ele nunca cobrou regalias ou recebeu direitos relativos à criação do fuzil AK-47. Curiosamente, a sua maior fonte de renda provinha da venda de uma vodca que também leva seu o nome.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

STF decidirá o futuro da TFP

A informação foi publicada no Estadão em 12/01/14:

Após anos de brigas, Supremo Tribunal Federal define rumo da TFP

Fundadores e dissidentes da entidade religiosa travam batalha judicial desde 1997

José Maria Mayrink

O futuro da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), fundada em 1960 pelo professor Plínio Corrêa de Oliveira, depende do Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma disputa iniciada em 1997, uma ala dissidente entrou na Justiça contra a direção da entidade para reivindicar a extensão a todos os associados do direito de voto, então restrito a oito fundadores da entidade (hoje são seis). Perderam em primeira instância, mas ganharam em segunda e conseguiram manter a decisão, enfrentando recursos e agravos que agora serão julgados em Brasília.

A TFP original, cujos membros, de capas e estandartes vermelhos, defendiam a propriedade privada e combatiam o comunismo, a reforma agrária, o divórcio e o aborto, foi proibida de usar a sigla, trajes e símbolos que a identificavam. Os remanescentes criaram a Associação dos Fundadores, o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira e a Aliança de Fátima, enquanto a nova TFP passava para o controle dos dissidentes. Despejados pelos fundadores do casarão da Rua Maranhão, em Higienópolis, os dissidentes ocupam uma sede provisória em Santana.

O engenheiro e empresário Adolpho Lindenberg, de 89 anos, primo-irmão do fundador da entidade, é o presidente do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. "A TFP está engessada, não sabemos por ordem de quem, nas mãos de dissidentes cuja atividade quase exclusiva é de caráter religioso, no seio da associação Arautos do Evangelho", diz. Ele e o diretor Paulo Corrêa de Brito Filho, de 82 anos, prometem manter o legado de Plínio Corrêa de Oliveira.

O superintendente da nova TFP, Roberto Kasuo Takayanagi, de 63 anos, da Diretoria Administrativa e Financeira Nacional, diz que o "Doutor Plínio era um democrata e não tomava atitude sem ouvir os sócios", o que justificaria que, após a morte do fundador, em 1995, o direito de voto fosse estendido aos associados, segundo a lei brasileira. Ao ganhar esse direito, os sócios efetivos destituíram os fundadores em assembleia-geral e tomaram posse, sob garantia do juiz da 3.ª Vara Cível. Obrigados a entregar cargos e bens, os fundadores entraram com agravos e embargos para reverter o caso. Não conseguiram.

Kazuo afirma que os dissidentes foram à Justiça, em dezembro de 1997, porque cerca de 800 membros de dedicação exclusiva estavam ameaçados de expulsão, o que os deixaria sem alimentação, moradia e assistência à saúde. Como perderam em primeira instância, segundo ele, membros efetivos começaram a ser expulsos. Sem recursos para sobreviver, muitos deixaram a instituição. "Estamos meio acampados", conta Kazuo, ao informar que a entidade não conseguiu ainda recuperar todo o patrimônio controlado pelos fundadores. Ele diz que os sócios fundadores transferiram receitas para a Associação Aliança de Fátima irregularmente, entre 2002 e 2004. A disputa judicial entre as partes envolve dezenas de ações, petições, embargos e agravos.

Para entender. A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) é uma organização católica tradicionalista e conservadora brasileira fundada em 1960 por Plínio Corrêa de Oliveira. Trata-se de uma sociedade civil sem fins lucrativos que nasceu como ferrenha defensora de posições políticas à direita e liderou marchas contra a reforma agrária, o divórcio, o aborto e o comunismo. Hoje, sua agenda é mais religiosa que política.





Maconha e união gay viram alvo de oposição

Embora engessada, a TFP original não está parada. Seus sócios, cerca de 300, fazem campanhas contra as causas de sempre, agora com alguns itens atualizados. "O aborto, o pseudo casamento homossexual, a liberação da maconha e, em geral, as reivindicações das chamadas minorias visíveis, que dividem de alto a baixo a sociedade brasileira, estão na primeira linha de debate da Associação dos Fundadores", diz Adolpho Lindenberg, presidente do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira.

Os militantes da antiga TFP não usam mais capas vermelhas nem carregam estandartes com a estampa do leão rompante (heráldico), mas uma estola amarela. Seu apostolado concentra-se na divulgação da devoção a Nossa Senhora de Fátima. Em caravanas, percorrem cidades do interior para divulgar livros publicados pelo Instituto Plínio Corrêa de Oliveira.

Os membros da TFP dissidente vestem capas vermelhas e empunham estandartes do leão heráldico apenas em ocasiões especiais. Enquanto a questão judicial não é decidida, preferem ser mais discretos. O superintendente Roberto Kazuo afirma que a associação obedece aos bispos e ao papa, sem as divergências do passado. Os recursos financeiros vêm da contribuição de simpatizantes.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima é bandeira comum da TFP e do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, assim como da Associação Arautos do Evangelho, entidade fundada pelo monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, de 74 anos, que foi secretário de Plínio Corrêa de Oliveira por 20 anos. A associação atua em 78 países e tem sede em São Paulo, onde construiu vistosos seminários, em Caieiras e Cotia. Seus membros usam uniformes de desenho medieval e botas de cano longo, de estilo militar. Os meninos entram aos 12 anos. São confundidos, muitas vezes, com membros da TFP./ J.M.M.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Políticos argentinos estão tendo que "engolir" o papa


Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 09/01/14:

Políticos na Argentina se curvam à agenda do papa

César Felício

Em nove meses de pontificado, o papa Francisco está conseguindo fazer na Argentina o que não obteve em seus 15 anos à frente da Arquidiocese de Buenos Aires: aumentar a influência da Igreja na política e na sociedade. A Igreja chefiada Jorge Mario Bergoglio fez com que a oposição e o governo da presidente Cristina Kirchner alterassem sua agenda e colocassem, por exemplo, o combate ao narcotráfico como prioridade.

Há três semanas, quatro presidenciáveis oposicionistas assinaram um compromisso de adotar a recomendação da Conferência Episcopal Argentina (CEA) para a questão. Se comprometeram Sergio Massa (Frente Renovadora); Ernesto Sanz (União Cívica Radical), Hermes Binner (Partido Socialista) e Mauricio Macri (PRO). Na plataforma que subscreveram consta "desalentar o consumo de drogas" e regulamentar a legislação que coíbe a venda de produtos químicos usados na produção de drogas sintéticas e na transformação da pasta base em cocaína.

O governo já havia se alinhado antes. Em novembro, os bispos argentinos divulgaram um duro comunicado levantando a suspeita de conivência da administração pública com "grupos mafiosos" e cobrando a nomeação de um titular para a Sedronar, órgão federal de combate ao narcotráfico.

Dias depois, Cristina nomeou para o cargo o padre salesiano Juan Carlos Molina, confessor de sua cunhada, a ministra do Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner. Os bispos reconheceram o gesto, mas soltaram um nota afirmando que Molina não assumia "nem em nome, nem em representação da Igreja Católica".

No Congresso, a Igreja foi capaz de alterar o polêmico projeto do novo Código Civil, já aprovado pelo Senado e que deve ir à Câmara em março. Líderes do Executivo e do Legislativo colocaram Roma em seu roteiro obrigatório de consultas políticas. Entre as mudanças, estão o reconhecimento como pessoa humana de embriões produzidos por reprodução assistida e a retirada da regulamentação da gravidez de "barriga de aluguel".

"Muita coisa mudou. O papa deu uma visão mais positiva da instituição e as forças políticas procuram legitimar-se associando-se a ele. A hierarquia católica ganhou poder de articulação", disse o economista Alejandro Nasif Salum, representante dos militantes por direitos de homossexuais dentro da Coalizão Argentina pelo Estado Laico (Cael), o enfraquecido grupo de pressão que impulsiona a aprovação do novo código.

O aumento da força política do catolicismo partiu de uma base institucional sólida. Embora Bergoglio tenha sido derrotado em questões como a aprovação do casamento entre gays, em 2010, a lei que regulamenta a mudança de sexo e a permissão do aborto em casos de estupro e má-formação do feto, entre 2011 e 2012, a Igreja Católica ainda desfruta de uma posição legal privilegiada, garantida desde o surgimento do país.

É a única confissão religiosa considerada pessoa jurídica de direito público, o que lhe garante, entre outras coisas, não ter bens sujeitos a embargo judicial e nem se sujeitar aos limites à propriedade de rádios e TV impostos pela lei de mídia de 2009.

Pelo artigo 2º da Constituição argentina, o governo é obrigado "a sustentar o culto apostólico romano", o que se traduz na ajuda pública para o pagamento de salários de parte do clero, despesas com viagens e com eventos. No Orçamento de 2013, estava previsto o custeio de 131 bispos, 640 sacerdotes e 1.600 seminaristas. O Ministério de Relações Exteriores e Culto previa gastar com o sustento da Igreja Católica 62,8 milhões de pesos argentinos, o equivalente a cerca de US$ 12 milhões, pela cotação média do ano passado.

Na Casa Rosada, a equação de forças mudou quando, em 20 de novembro, Cristina nomeou o governador do Chaco, Jorge Capitanich, como ministro-chefe de Gabinete, cargo similar ao de ministro da Casa Civil no Brasil. Capitanich é conhecido por sua ótima relação com a hierarquia católica.

No mês passado, em meio a uma onda de saques no interior do país associados à motins das forças policiais regionais, Cristina recebeu na residência oficial de Olivos a cúpula da Igreja Católica. A presidente argentina, que desde sua operação no cérebro em 5 de outubro só apareceu em público duas vezes, não procurou nesse momento uma aproximação apenas com o clero comandado por Bergoglio: também se encontrou com a entidade que representa a religião judaica (Daia) e a Federação das Igrejas Evangélicas da Argentina.



domingo, 12 de janeiro de 2014

Ariel Sharon morre 31 anos depois do massacre de Sabra e Chatila


Faleceu ontem em Tel Aviv, aos 85 anos de idade, o comandante militar e ex-primeiro ministro de Israel Ariel Sharon, após passar 8 anos em coma em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Figura controversa no já complicadíssimo tabuleiro do jogo político no Oriente Médio, Sharon passa para a história responsabilizado pelo massacre dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, no Líbano, um horroroso episódio que, por mais que tenham tentado abafar, jamais se descolará de sua biografia.

Naquele dia 16 de setembro de 1982, Sabra e Chatila representaram a conjunção tenebrosa de todos os fatores políticos e religiosos que continuam alimentando a guerra na chamada "Terra Santa".

Guga Chacra, colunista do Estadão e da Globo News e - ele próprio - descendente de cristãos libaneses , publicou em seu blog sua opinião sobre esse vergonhoso episódio que a humanidade nunca se esquecerá:

Qual o papel de Sharon (1928-2014) no massacre de Sabra e Shatila, cometido por cristãos libaneses?

Ariel Sharon morreu hoje, aos 85 anos, depois de passar os últimos oito em coma. Será sempre lembrado como herói por alguns e como criminoso de guerra por outros. Inclusive, dentro de Israel, sua imagem variou de acordo com o período. Há dezenas de ótimos obituários sobre a vida dele. Muitos neutros, alguns defendendo, outros atacando. Em português, recomendo o ótimo texto do Caio Blinder, na Veja . Eu vou me concentrar apenas no massacre de Sabra e Chatila porque já estive nestes campos três vezes, entrevistei sobreviventes e também milicianos cristãos envolvidos nas mortes.

Israel entrou no Líbano em 1982 supostamente por 48 horas para se vingar da morte de um diplomata israelense em Londres em ação atribuída à OLP. No fim, permaneceu em partes do território até 2000. O comando palestino, incluindo Yasser Arafat, estava no Líbano desde os anos 1970. A Guerra Civil libanesa havia se iniciado em 1975 e tinha diferentes facções cristãs, sunitas, xiitas e drusas, além do envolvimento do Exército da Síria.

Uma vez dentro do Líbano, Israel ocupou Beirute e levou adiante uma aliança com a facção cristã Phalange, fundada em 1936 com inspiração no Estado nazista de Hitler, comandada por Bashir Gemayel, então, com apenas 34 anos. O objetivo de Sharon era consolidar seus aliados cristãos no poder e assinar um acordo de paz com eles.

Gemayel foi eleito presidente do Líbano e, três semanas mais tarde, morreu em atentado terrorista. Seus seguidores, que atribuíram o ataque aos palestinos, decidiram se vingar. Ariel Sharon era ministro da Defesa de Israel, que controlava os campos de Sabra e Shatila e não impediu os cristãos falangistas de entrarem para cometer o massacre. Foram cerca de 2.000 mortos, incluindo mulheres e crianças, muitas vezes cortadas em pedaços pelos milicianos cristãos. Os soldados israelenses em nenhum momento os interromperam.

Posteriormente, o governo de Israel estabeleceu uma comissão investigadora comandada pelo juiz Yitzhac Kahan, que recomendou a saída de Sharon do posto de ministro da Defesa. Ele não foi considerado responsável direto, mas deveria, de acordo com o chefe da Justiça de Israel, ter previsto o que poderia ocorrer ao permitir a entrada dos cristãos falangistas, liderados por guerrilheiros de vinte e poucos anos.

Resumo– Israel controlava os campos de Sabra e Shatila. Quem cometeu os massacres foram os cristãos libanesas (em tempo, eu tenho origem cristã libanesa). Segundo a Justiça israelense, Sharon deveria ter previsto que os milicianos cristãos cometeriam os massacres



sábado, 11 de janeiro de 2014

Aprenda a viver com o cachorro preto da depressão


Um vídeo, da OMS - Organização Mundial de Saúde, restaurador e inspirador para você que sofre com a ameaça constante da depressão:




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