segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O evangelho gangsta da periferia


Artigo interessante de Anna Virginia Balloussier no seu blog Religiosamente da Folha de S. Paulo:

Os profetas do gangsta gospel

Eles cantam sobre a “vida loka” da periferia, com roupas “de mano”, em meio a carrões “da hora”. E fazem isso em nome de Deus.

Pastor Ton, Marcio Santos e Paulo “Profeta” Deivid são expoentes do gangsta gospel.

Esse estilo musical une pregação evangélica a um gênero particular do rap, com batida agressiva e letras sem rodeios sobre drogas (“bagulho mesmo”), criminalidade (“a chapa esquenta”) e violência policial (“os gambé embaça”).


O gangsta –derivativo de gângster– conta a vida como ela é. E ela nem sempre era bonita de onde vieram pioneiros americanos como Snoop Doggy Dogg e Tupac Shakur (morto há 18 anos, com quatro tiros em Las Vegas).

“Sempre sonhei em fazer clipe que nem os gringo”, diz Pastor Ton, 36, autor de músicas como “Serial Killa” e “121” (número do homicídio no Código Penal).

Ele curte carrões “lowrider”, aqueles que andam quase arrastando no chão e quicam feito bola de basquete, bem comuns entre gangues de mexicanos nos Estados Unidos.

“Assim como os carros deles pulam na presença da [Nossa Senhora de] Guadalupe, quero que aqui pulem aos pés do meu Deus”, diz.

No vídeo “É Us Crent’s”, que ele mesmo dirigiu, canta com cara de mau ao lado de um Chevrolet Impala 1962, cor azul.


Na vida real, Ton tem um Gol 1999 e duas lojinhas de salgado. O dízimo que recebe, segundo Ton, mal paga o aluguel de R$ 600 de sua igreja, em Guaianases, zona leste de São Paulo.

No vídeo “É Us Crent’s”, posa ao lado de um Chevrolet Impala 1962, cor azul. Na vida real, Pastor Ton tem um Gol 1999 e duas lojinhas de salgado. O dízimo que recebe, diz, mal paga os R$ 600 do aluguel de sua igreja em Guaianases, zona leste de SP.

Um galpão com fachada grafitada abriga a Comunidade Profética Descendentes de Davi, liderada por ele e pela mulher, a ex-prostituta e hoje pastora Angela de Jesus. Com 35 caideiras de plástico branco e um orelhão com o picho “JESUS”, fica próxima a uma boca de fumo.

Quando compõe coisas como “no meio da Babilônia o demônio impera com um fuzil em punho” ou “a fumaça encobre o rosto de Lúcifer”, Pastor Ton tem um objetivo claro: “Converter a cultura gangsta aos pés do Senhor”.

“O gansgta diz o que tá rolando, mas não mostra saída. O gangsta gospel fala, ‘ó, tá rolando isso’, mas tem uma saída. Deus.”

Nos anos 1990, a chamada “linguagem das ruas” ganhou força nos Estados Unidos e uma “versão brasileira, Herbert Richers”, encabeçado pelos Racionais MC’s.

Quando Pastor Ton começou, na banda Criminal Base, não era pastor nem Ton: atendia por Everton Santos, um rapper que se amarrava no som de Mano Brown e andava pra lá e pra cá com um revólver calibre 32, escondido na mala dos vinis (“enferrujado, se atirasse só dava tétano”).

“Até que Deus pediu para que eu trocasse minhas roupas”, diz.

MUDANÇA DE HÁBITO

Certa madrugada, após curtir todas num bailão, esperava um ônibus que nunca chegava. Para passar o tempo, refugiou-se numa Assembleia de Deus. Gostou do que viu e decidiu ficar.

“De repente, eu tava de cabelo curto, sem brinco, sem roupas largas, todo de social.”

Everton saiu “do mundão”. O mundão, contudo, não saiu dele. Se passava um carro tocando Racionais, “a lágrima escorria” de tanta saudade. Aos poucos, foi percebendo que sua “maneira de pregar o Evangelho era gangsta”. E que ele podia usar isso a seu favor.

Os jovens em particular o escutavam: taí um pastor que falava a língua deles. “Entro em lugares que a música dos caras de terno e gravata não vai entrar.”

Hoje Pastor Ton afinou o discurso e folgou as roupas. Usa uma blusa bege três vezes maior do que seu número, como tantos manos da periferia, “porque na cadeia não tem essa de tamanho de roupa”.

Nos pés: All-Star preto. Na cabeça: o boné dos Los Angeles Kings, um time de hóquei. Completam o visual óculos escuros (faz sol), relógio dourado (comprou no Brás) e luva de ciclista (acha estilo).

Quando o veem, alguns “crentes engravatados” até torcem o nariz. Mas, em geral, conta que evangélicos de todas as idades costumam entrar na onda.

Pastor Ton estica os braços até a altura do peito: “As mais tradicionais de coque dão um pulo deste tamanho”.

Marcio Santos, 33, também acha que deu um salto na vida.

Na juventude, vendia drogas como crack e cocaína para a molecada. Uma tentativa de superar o irmão mais velho, Mauricio. “Quis crescer pior do que ele.”

Mauricio, traficante, morreu esfaqueado numa emboscada com 48 presos de uma facção rival, durante uma rebelião numa penitenciária de Sorocaba (SP). Era “Superman” do caçula. “Aquele ladrão que onde chegava era representado. Quando chegava, o pessoal já fazia churrasco para ele”, diz.

Depois da tragédia familiar, Marcio entrou de cabeça na “vida bandida”. Num dia de tempestade, quis entrar de cabeça no asfalto. Viu um carro passando e, de saco cheio de tudo, decidiu se jogar na frente dele. “Aí escutei Deus falar comigo. ‘Não se joga, Marcio, vai para a igreja’.”

Ele foi. No mesmo dia, perdeu na chuva o dinheiro do aluguel. Depois, uma moça ligou dizendo que achou a carteira.

Marcio viu um sinal. “Deus já tá começando, por mais que eu seja um pecador…”

Hoje, ele é pastor e faz gangsta gospel com a mulher e o filho, no grupo Terceiro Dia. “Jesus foi crucificado, ressuscitou no terceiro dia. Morre o velho homem, nasce a nova criatura.”

No clipe “Amor em Extinção”, o trio discorre sobre como o amor está acabando no “mundão”. Cenas da família se intercalam à de palhaços assustadores –imagens tiradas de filmes de terror do “Cine Trash”, programa que o personagem Zé do Caixão apresentava na Band. “É o próprio demônio dando risada da humanidade”, Marcio explica a simbologia.

Outros símbolos ele carrega no corpo: tatuagens da época em que ainda não era convertido, como um escorpião, um dragão e um ícone da gangue que ele fazia parte, a Mais 1 Tranqueira (“a gente rivalizava com a Operação Maloca”).

Marcio carrega a cruz no pescoço: um crucifixo sobreposto à camisa social cinza, que combina com uma bermuda militar, meião branco quase até o joelho e All-Star preto.

Ele conversa com amigo Deivid, 31, da Profetas da Z/O (de Zona Oeste, onde começou a carreira), sobre um festival cristão que ambos vão participar, o Louvorzão –também escalados, o Grupo de Pagode Resgate e a Pura Unção.

Estamos na casa/estúdio/futura igreja de Marcio, em Francisco Morato (Grande SP): um cômodo com teto de telha onde coexistem fogão, geladeira, mesa de som, cama de casal e armário amarronzado tipo Casas Bahia (na porta, adesivos de galinhas e dos dizeres “Glória a Deus”, em amarelo berrante).

Deivid passa sempre lá para discutirem o “movimento”.

“No passado eram os profetas da Bíblia. Hoje nós, servos de Deus, somos constituídos perante a Bíblia como profetas”, diz o rapper de Carapicuíba (Grande SP), de jeans, blusa branca extralarga e lenço lilás no pescoço.

Deivid alisa o cavanhaque e discursa: estilo não é documento. “As pessoas mais tortas e mais erradas, que mais roubam no país, não andam dessa forma, andam muito bem vestidas.”

No Facebook, ele “dá like” nas séries de TV “Breaking Bad”, “Chaves” e “The Big Bang Theory”. Como literatura, curte uma única opção: a Bíblia. As escrituras, para ele, deixam claro: “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”.

Foi um adolescente “loucão, que chapava de bebida”, acostumado a crescer numa vizinhança onde os tiros às vezes eram tantos que pareciam milho em panela de pressão.

Convertido, caiu a ficha. “Nosso foco é resgatar os mano da rua como a gente foi resgatado”. Uma batalha e tanto pela frente, ele crê. “É Deivid contra Golias.”



domingo, 10 de agosto de 2014

Pais desastrados e filhos maravilhosos


Nossa singela homenagem ao Dia dos Pais hoje é, de forma bem humorada, um alerta às mães sobre os deliciosos "perigos" que correm ao deixar seus filhos sob os cuidados exclusivos do progenitor:




sábado, 9 de agosto de 2014

Abusos na delicada fronteira entre saúde e transtorno mental


Infelizmente, a palestra já foi realizada ontem, agora é esperar que a CPFL Cultura a disponibilize na sua página.

De qualquer maneira, a matéria da Carta Capital dá uma boa ideia do que se trata. Confira:

Queremos ser normais ou bem comportados?

Tivemos sorte por não ver visionários como Einstein, Newton e Beethoven em uma sala de aula. Com dificuldade de aprendizado, seriam transformados em bons alunos, diagnosticados e medicados

“Foco” é a palavra de ordem nas escolas e no mercado de trabalho. Para vencer na vida, a dispersão de atenção para outros interesses além das tarefas do dia a dia é não apenas mal vista: é diagnosticável como um transtorno mental passível de cura. De acordo com uma ala da psiquiatria, essa ideia de “transtorno” parte de duas premissas. Uma é semântica. Ela suaviza a ideia de “doença mental” e passa a ser usada como uma espécie de identidade psíquica por meio de nomenclaturas como “TOC”, “TDAH”, “hiperatividade”, “bipolaridade”, “ansiedade” e “transtornos de humor”.

A outra dita que, por trás da desordem, existe uma ordem. Nesta ordem, o estudante estuda e o trabalhador trabalha. Em nome dela nos medicamos. Cada vez mais e, segundo especialistas, sem que sejam levados em conta os impactos, para as crianças e suas famílias, do diagnóstico e da medicação.

Quem analisa os índices de tratamento à base de drogas psicoativas imagina que o planeta enfrenta hoje uma “epidemia” de transtornos mentais. Nos EUA, uma em cada 76 pessoas são hoje consideradas incapacitadas por algum tipo de transtorno – em 1987, este índice era de uma em cada 184 americanos. O número de casos registrados aumentou 35 vezes desde então.

Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, 46% da população se enquadrariam nos critérios de doenças estabelecidos pela Associação Americana de Psiquiatria. Tais diagnósticos criaram um mercado poderoso de medicamentos psicoativos – o que significa medicar tanto pacientes com crises agudas de ansiedade até crianças diagnosticada com grau leve de “hiperatividade” ou “espectro de autismo”, a chamada síndrome de Asperger. Essas crianças precisam manter o “foco” na sala de aula se quiserem ter alguma chance de passar no vestibular.

A pressão sobre elas em um mundo cada vez mais competitivo cria um consumidor fidelizado: a criança que hoje precisa de medicamento para se manter em alerta será, no futuro, o adulto dependente de medicamentos para dormir. Essa pressão, apontam estudos, tem origem na sala de aula, passa pela sala da direção, chega aos pais como advertência e desemboca na sala do psiquiatra, incumbido da missão de enquadrar o sujeito a uma vida sem desordem.

Mas como cada categoria de transtorno mental é construída e delimitada? Quais pressupostos fazem com que determinados comportamentos e/ou estados emocionais sejam considerados normais e outros, não? Quem definiu que uma criança com foco na sala de aula é normal e uma desconcentrada é anormal? Qual é, enfim, a “ordem” que a prática psiquiátrica visa a garantir?

Essas questões serão temas de debates em um ciclo de encontros do Café Filosófico CPFL, sob curadoria do professor livre-docente em Psicopatologia do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp Mário Eduardo Costa Pereira, a partir de 8 de agosto. As palestras serão gravadas todas as sextas-feiras ao longo do mês, às 19h, e os interessados de todo o País podem acompanhar as gravações e enviar perguntas ao vivo pelo portal. Além de Costa Pereira, participam do módulo o psiquiatra infanto-juvenil e professor da Uerj Rossano Cabral Lima, o professor da Universidade da Califórnia Naomar Almeida Filho e o psiquiatra da infância e adolescência e consultor do Ministério da Saúde Fernando Ramos.

Se for esta a normalidade que tanto buscamos, o mundo teve sorte por não ver visionários como Bill Gates, Einstein, Newton e Beethoven em uma sala de aula nos dias atuais. Todos eles tinham dificuldade em socialização, comunicação e aprendizado. Sofriam, em algum grau, de espectro de autismo, e seriam facilmente transformados em bons alunos, diagnosticados, tratados e medicados. O mundo perderia quatro gênios, mas ganharia excelentes funcionários-padrão, contentes e domesticados.

Serviço:

O que é transtorno mental?

Palestrante: Mário Eduardo Costa Pereira
Local: Instituto Cpfl Cultura (Rua Jorge Figueiredo Corrêa, 1.632, Chácara Primavera, Campinas – SP);
Data: 8 de agosto de 2014;
Horário: 19h;
Transmissão online pelo cpflcultura.com.br/aovivo;
Entrada gratuita, por ordem de chegada, a partir das 18h. vagas limitadas;
Informações: instituto cpfl (19) 3756-8000 ou em www.cpflcultura.com.br;



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Secretaria de Educação de SP exige atestado de virgindade em concurso público

Notícia esquisita publicada no Último Segundo:

Concurso da Secretaria de Educação de SP pede comprovante de virgindade

Seleção pública também exige que mulheres com uma "vida sexual iniciada" apresentem exames ginecológicos intrusivos

Luísa*, de 27 anos, nunca imaginou ter de passar por esta situação. Ela precisou comprovar, por meio de um atestado médico, que "não houve ruptura himenal" [ou seja, que não teve seu hímen rompido] para preencher um dos requisitos do concurso público da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE-SP). Ela é candidata a uma das quase 10 mil vagas para o cargo de Agente de Organização Escolar da seleção pública da SEE-SP.

"Achei um absurdo. Fiquei mais de uma semana decidindo se deveria fazer isso ou não. Na hora em que fui a um consultório para me submeter à análise ginecológica, entrei em pânico. Foi constrangedor explicar para a médica que precisava de um atestado de virgindade para poder assumir uma vaga em um concurso", diz.

A seleção pública à qual Luísa se refere foi aberta em 2012. Depois de passar pelas provas regulares, ela ficou aguardando sua convocação, o que se deu apenas neste ano. Chamada para a realização dos exames médicos de admissão, Luísa foi surpreendida com um comunicado recente da organização do concurso, onde constavam mais detalhes sobre os exames médicos de admissão solicitados pelo certame.

Publicado em junho, o comunicado, emitido pela Coordenadoria de Gestão de Recursos Humanos da SEE e pelo Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME), traz detalhes sobre testes ginecológicos requeridos às candidatas mulheres.

No documento emitido pela coordenadoria da SEE e pelo DPME, há mais informações sobre os exames de colposcopia e o de colpocitologia oncótica, o Papanicolau, exigidos às candidatas. O comunicado informa que mulheres que "não possuem vida sexual ativa, deverão apresentar declaração de seu médico ginecologista assistente". Dessa forma, com a comprovação de virgindade, estariam isentas da realização dos exames ginecológicos intrusivos, de acordo com confirmação do próprio DPME.

"Só fiquei sabendo disso quando fui convocada para realizar os exames médicos. Antes, não era pedido esse atestado [de virgindade]. O pior de tudo é que todos esses exames são caros e são bancados pelo próprio candidato. Teve gente que pagou mais de R$ 500 pelos exames", fala Luísa.

Segundo a ginecologista Marcia Terra Cardial, da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo, os exames ginecológicos solicitados pela SEE servem, por exemplo, para "rastrear mulheres com lesões precursoras do câncer de colo de útero, separando as mulheres normais, daquelas com necessidade de prosseguir a investigação". No entanto, segundo ela, "dependendo do tratamento, os casos de lesão precursoras de câncer não inviabilizam o trabalho".

Violação

Solicitados para atestar a saúde dos futuros funcionários públicos, tanto o atestado de virgindade quanto os exames ginecológicos para candidatas com mais de 25 anos ou vida sexual ativa são vistos como uma "violação" da dignidade da mulher, segundo Maria Izabel Noronha, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

"Atestado de virgindade? Por favor! Estamos em pleno século XXI. Querem evitar candidatas doentes? A verdade é que elas entram com saúde e é a falta de condições da rede que as deixam doentes", diz Maria Izabel, que também é vice-presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão consultivo do Ministério da Educação (MEC).

A crítica de Maria Izabel se refere a uma das razões defendidas pelo DPME, quando da exigência de tais exames. Segundo o comunicado, a avaliação médica oficial tem por objetivo identificar patologias que possam vir a provocar "permanência precária no trabalho, com licenciamentos frequentes e aposentadorias precoces".

Atualmente, a SEE enfrenta o desafio de atenuar as faltas com afastamentos e licenças, por motivos de saúde de professores e técnicos da educação. Só os professores, chegam a faltar, em média, 27 dias por ano.

"Esses exames que pedem não têm nada a ver com a função. Aferir a pressão, apresentar um exame cardiológico pode até ter a ver, mas exames ginecológicos ou atestado de virgindade?", questiona Luísa.

Como Agente de Organização Escolar, o trabalho de Luísa será dar suporte às atividades pedagógicas e ajudar na supervisão de estudantes na entrada, saída e durante o intervalo escolar. O salário é de cerca de R$ 900 para uma jornada de oito horas diárias.

Deboche

Se já foi complicado para Luísa tomar a decisão de ir adiante com o atestado de virgindade, a apresentação do documento para a perícia foi ainda mais constrangedor.

"Quando apresentei ao médico perito do Estado, acho que ele pensou que fosse mentira. A sua assistente olhava de lado como um ar de deboche quando eu disse que ainda era virgem. Não conseguiria passar por isso mais uma vez", fala Luísa.

Mesmo tendo apresentado o atestado de virgindade, a candidata ainda aguarda resposta definitiva do DPME sobre sua aprovação. A expectativa e que até o dia 14 deste mês o órgão se posicione sobre o seu caso.

“Eu apresentei tudo que deveria apresentar, mas me consideraram inapta. Disseram que não havia apresentado o atestado de virgindade. Entrei com um pedido de reconsideração para que eles analisem a minha situação", diz.

Governo de São Paulo

Questionada sobre a exigência de tais exames para o cargo em questão e se eventuais candidatas com problemas ginecológicos estariam inaptas ao cargo, a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE-SP) informou que as determinações atinentes aos exames médicos são de responsabilidade do Departamento de Perícia Médica do Estado (DPME).

O DPME, ligado à Secretaria de Gestão Pública, disse que é "absolutamente errado afirmar que é exigido à candidata a cargo público qualquer laudo, ou suposto ´comprovante de virgindade´ – termo sequer considerado na literatura médica”.

Em nota, o órgão afirmou que “àquelas que ainda não tenham iniciado atividade sexual, é oferecida como alternativa a apresentação de um relatório de seu médico pessoal; e com isso não há a necessidade da realização dos exames”.

O órgão também afirma que os testes solicitados aos candidatos funcionam como medida preventiva. Por fim, segundo o DPME, “todos os candidatos aprovados em concurso, sejam homens ou mulheres, devem passar por uma série de exames, todos previstos em edital, para que comprovem, além de sua capacidade técnica, a capacidade física e mental para exercer o cargo por aproximadamente 25 anos – tempo médio de permanência no Estado”.

No entanto, segundo o próprio comunicado emitido pelo órgão, o teste para detecção de câncer de próstata é exigido apenas para homens com mais de 40 anos. Para as mulheres mais velhas, a partir de 40 anos, também é solicitado um exame específico: a mamografia, para identificação de câncer de mama. Para os homens jovens, na mesma faixa etária de Luísa, por exemplo, não são solicitados exames específicos extras.

Secretaria das Mulheres

Consultada, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República afirma que é "contra qualquer exigência que envolva a privacidade da mulher e reverta em preconceito e discriminação. A mulher tem o direito de escolher se quer fazer um exame que em nada interferirá em sua vida profissional".

A SPM ainda considera que "a exigência de exames ginecológicos em seleções e concursos é abusiva, pois viola o princípio da dignidade da pessoa humana, consagrado na Constituição Federal de 1988, bem como o artigo que dispõe sobre o Princípio da Igualdade e o Direito a Intimidade, Vida Privada, Honra e Imagem, que proíbe a exigência de atestados de gravidez e esterilização e outras práticas discriminatórias para efeitos admissionais ou de permanência da relação jurídica de trabalho".

No ano passado, caso parecido ocorreu na Bahia. No concurso para Polícia Civil, também era exigido às candidatas mulheres comprovação de "hímen íntegro". Contudo, depois da repercussão do caso em todo o País, o governador Jaques Wagner suspendeu tal exigência presente de forma explícita no edital. Há concursos públicos, no entanto, que seguem com tais requisitos de seleção, tidos como padronizados pelas empresas que realizam as seleções públicas.

*Para preservar a identidade da candidata foi utilizado um nome fictício


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Juventude católica redescobre missas em latim


Matéria publicada no IHU:

Missas em latim e com padre de costas para fiéis atraem jovens católicos conservadores

Manhã de domingo, igreja cheia. Muitos homens vestem trajes formais. Mulheres levam véus sobre os cabelos. O silêncio absoluto é quebrado por um canto gregoriano. O padre passa pelos fiéis a caminho do altar. Sempre de costas para a audiência, dá início à missa em inconfundível latim: In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. A resposta vem em uníssono: Introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat juventutem meam (Subirei ao altar de Deus, o Deus que alegra minha juventude). A cena evoca imediatamente imagens medievais, mas ocorreu no último dia 13 de julho, no Centro do Rio de Janeiro. Lá, a antiga Sé do Brasil, atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo, sítio da coroação de João VI e Pedro I, é palco para uma das muitas missas tridentinas que se espalham pelo Brasil, numa ressurreição de formas litúrgicas antigas que atrai incontáveis jovens fiéis. O termo Juventutem, aliás, designa um movimento de volta às tradições católicas liderado por pessoas de 16 a 34 anos.

A reportagem é de Leonardo Vieira, publicada pelo jornal O Globo, 28-07-2014.

— Descobri a missa há uns anos, é um tesouro. Está claro que tem algo de sagrado aqui. É possível perceber tanto com os ouvidos quanto com os olhos — arrisca o engenheiro Felipe Alves, de 25 anos.

Origens no império romano do ocidente

A missa tridentina, ou rito latino, foi normatizada no Concílio de Trento, em 1570, mas tem bases bem mais antigas, que remontam ao Império Romano do Ocidente, extinto no século V. O conservadorismo, a sobriedade e o extremo recolhimento dos fiéis na cerimônia foram utilizados pela Igreja no século XVI como resposta às reformas protestantes do Norte da Europa que abalaram as estruturas pontifícias.

Nela, o único idioma utilizado é o latim, chamado pelos adeptos de “língua universal da fé”. Enquanto nas missas comuns nos nossos tempos os católicos se ajoelham apenas uma vez, na antiga esse número salta para quase dez, incluindo o momento de receber a hóstia. Há intervalos para a meditação, quando o silêncio chega ao extremo de permitir que se ouça tudo o que se passa do lado de fora da igreja. Durante quase toda a cerimônia o padre permanece de frente para a cruz do altar.

Foram séculos assim, até que o Concílio Vaticano II, na década de 1960, introduziu inúmeras mudanças, o uso da língua local e o padre de frente para os fiéis entre elas. Mas o século XXI vive uma intrigante retomada de tradições conservadoras na Igreja. Em 2007, o agora papa emérito Bento XVI promulgou a carta “Summorum Pontificum”, em que exaltava a volta às tradições e o caráter “excepcional” da missa tridentina. Até então, párocos que quisessem rezar no estilo antigo deveriam pedir permissão direta à Cúria, no Vaticano. Desde então, a escolha passou a caber a cada paróquia.

Para o padre Luís Correa Lima, professor de Teologia da PUC-Rio, o mistério por trás da missa tridentina é o que fascina.

— Tudo nela é meio misterioso. O padre fica de costas, falando em uma língua desconhecida e seguindo uma liturgia extremamente codificada. Mas esse rito encanta por ser algo ancestral e imutável, por evocar a transcendência de Deus. São elementos que fascinam o jovem — opina.

Curiosamente, a introdução da missa moderna e a ressurreição da antiga têm a mesma preocupação: tentar estancar a perda de fiéis da maior designação cristã. Não há números que revelem se a volta ao passado teve algum efeito nesse sentido. Mas é fato que, amparadas pelos jovens católicos conservadores, as missas tridentinas crescem país afora. Em 2007, uma organização independente contabilizou 20 dessas celebrações no território nacional. Agora, cerca de cem ocorrem com regularidade.

— Vivemos numa sociedade muito centrada no indivíduo, na qual se valoriza a autodeterminação e tudo é incerto. Então surgem grupos que evocam o passado, em que tudo estava respondido pelo religioso — analisa o historiador Sérgio Coutinho, presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA).

Ligado à ala progressista da Igreja, Coutinho entende que os fiéis da missa tridentina são conservadores em tudo, inclusive politicamente:

— Eles creem que o Concílio Vaticano II não deveria ter acontecido, pois teria aberto demais a Igreja. Querem uma fuga do mundo, encontrar formas tradicionais de se viver. É como se quisessem que o passado voltasse.

Responsável por rezar a missa tridentina aos domingo na igreja do Centro do Rio, o padre Bruce Judice discorda. Segundo ele, dois dos princípios pregados em sua celebração são o respeito às diferenças e a orientação para que os fiéis não se fechem em círculos católicos isolados.

— Sempre dizemos que este não é o único modo de rezar. Não somos contra o Concílio Vaticano II — esclarece o padre, de 35 anos.

— O que há, sim, é uma sede de espiritualidade entre os jovens. Há quem procure ioga, meditação, natureza... E há quem busque a missa tridentina.

Foi esta última a escolha do adolescente Eduardo Salomão, de 15 anos. Ele aprendeu latim sozinho e quer ser padre. Aos domingos, vai a uma missa tridentina e a outra contemporânea:

— Claramente prefiro a tridentina. Já cheguei a ser tachado de maluco. O rito contemporâneo não é para mim. No antigo, a meditação, o silêncio e a beleza encantam.

Bárbara Soares descobriu o rito pela internet. Foi no quase extinto Orkut que a estudante de Letras conheceu outros jovens adeptos da tradição. Ela ficou tão encantada com as primeiras celebrações que não parou mais de frequentar as missas. Numa delas, conheceu seu marido. Hoje, já casada aos 20 anos, Bárbara vai à igreja com o véu sobre os cabelos e defende a vestimenta:

— Ele mostra a dignidade da mulher, exalta seu caráter sagrado.

Ela segue a linha de centenas de integrantes oficiais do Juventutem no Brasil. Fundado em 2004, na Suíça, o movimento teve um primeiro encontro internacional em 2005, na Alemanha, e, desde então, tem crescido e sido cada vez mais representado nas Jornadas Mundiais da Juventude. Ano passado, milhares deles vieram ao Rio de Janeiro. E, pela internet, muitos se já se articulam para a próxima edição do evento católico, em 2016, na Polônia. Em fóruns internacionais do movimento pela internet são comuns discussões relacionadas à liturgia católica e também a assuntos ligados a direitos civis, com muitos dos seus membros condenando uniões entre pessoas do mesmo sexo e o direito ao aborto, por exemplo.

Ortodoxos mantêm uso de grego e árabe

Engana-se quem pensa que o ritual tridentino é o único dentro do catolicismo que busca a retomada de tradições ancestrais. A poucas quadras da antiga Sé carioca, na paróquia greco-melquita de São Basílio e de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em plena Saara, histórico lar dos primeiros imigrantes sírios e libaneses católicos ortodoxos, os idiomas usados em ritos conservadores são o grego e o árabe. A igreja melquista, espremida entre prédios na rua República do Líbano, é o primeiro templo católico oriental do Brasil, fundado em 1941. Apesar de ainda ter forte conexão com a comunidade sírio-libanesa, a missa tem um público crescente de jovens e de pessoas curiosas.

Lá se celebra a missa bizantina, tradição que começou ainda no século V numa região onde onde se estendem parte dos territórios da Turquia, de Israel e da Palestina. Assim como no rito latino, o sacerdote reza de costas para o público. A música, a liturgia e as vestimentas remetem à cultura medieval dos católicos orientais.

— O rito chama a atenção dos jovens, eles se sentem bem pela beleza das orações. Hoje em dia os fieis estão a procurar as tradições em resposta aos tempos tão conturbados em que vivemos. Devemos voltar sempre às origens — diz o monsenhor George Khoury, da paróquia de São Basílio.



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O rabino Edir


Artigo da Veja:

Rabino Edir? Quase isso

A construção de sua versão do Templo de Salomão é apenas a parte mais vistosa da incorporação de símbolos do judaísmo pelo líder da Igreja Universal

Juliana Linhares e Thaís Botelho

De quipá, xale de orações, barba de profeta e chamado por alguns de seus pastores de “sumo sacerdote”, o nome dado ao religioso supremo do antigo povo de Israel. Edir Macedo fez uma mudança surpreendente na narrativa da Igreja Universal do Reino de Deus, a maior confissão neopentecostal do país, criada por ele. Os elementos da religião judaica que o líder evangélico passou a incorporar imprimem um novo significado à sua obra magna, o gigantesco Templo de Salomão do Brás, inaugurado na semana passada. Uma vez que Macedo não ficou louco, não rasga dinheiro nem pretende deixar de arrecadá-lo, a virada judaicizante é analisada fora da Iurd à luz da carreira excepcionalmente bem-sucedida do homem que partiu de zero para 1,9 milhão de fiéis em menos de quatro décadas — com um pequeno encolhimento nos últimos anos, produto da concorrência. “É uma estratégia de marketing. Ele quer recuperar o que já teve e, fantasiado assim, dar uma nova guinada em sua teologia. Edir é conhecido por não ter nenhuma coerência bíblica”, diz um dos maiores líderes evangélicos do país, e concorrente de Macedo.

O Templo de Salomão, aberto com a presença da presidente Dilma Rousseff e do governador paulista Geraldo Alckmin, é um sinal de que Macedo pensa mais do que grande. O templo original, descrito na Bíblia, foi erguido em Jerusalém no reino de Salomão, quase 1 000 anos antes de Cristo, como a primeira construção permanente de louvor a Jeová, deus de Israel. Foi destruído por Nabucodonosor, rei da Babilônia, e reconstruído em 516 a.C., sob a designação conhecida como Segundo Templo. Na catástrofe seguinte, foram as tropas do Império Romano que puniram uma rebelião não só arrasando o templo como levando o povo judeu à diáspora. Um Terceiro Templo, místico ou real, é esperado por judeus e cristãos que acreditam nas profecias sobre o fim dos tempos. Enquanto isso não acontece, mórmons, maçons e agora a Universal fazem suas versões. Não é coisa pouca. No ano passado, Macedo falou da grandiosidade de sua construção e aproveitou para passar o solidéu: “Pensem em doar 10% — não é o dízimo — ao templo. Só a iluminação dele custou 22 milhões de reais. Vai somando. As 10 000 cadeiras, mais 22 milhões. As pedras, que vieram de Israel, 30 milhões. O som saiu por 10 milhões. Estamos fazendo tudo do melhor. Amém, pessoal?”.



terça-feira, 5 de agosto de 2014

A "santa feia" do Felipão fez "plástica"


Haja aspas para essa notícia pra lá de esquisita que chega do Sul pela Folha de S. Paulo. Agora, "biscoito Trakinas" é sacanagem, hein!

Confira a matéria:

Conheça a história da ‘santa feia’ que perderá o lugar no interior gaúcho


Santa de devoção do ex-técnico da seleção Luiz Felipe Scolari, Nossa Senhora de Caravaggio está no meio de uma polêmica em Farroupilha, cidade da serra gaúcha.



Fiéis que visitam o santuário da cidade, o maior do país dedicado à santa, não escondem: a imagem da padroeira que adorna a entrada do município é feia demais.


Apresentada ao público em 2008, a imagem ajuda a atrair turistas –o santuário recebe cerca de 2 milhões por ano. Mas o fato é que a aparência da figura de sete metros, de espuma e fibra de vidro, não agrada –devotos afirmam que o rosto é desproporcional, para dizer o mínimo.

Por isso, ainda naquele ano, a santa foi submetida a uma “plástica” pelo autor da obra, Ronaldo Chiaradia, que afinou partes da imagem, como o nariz. “Falam que ela é feia. Cada um tem um gosto”, diz o escultor, sugerindo contrariedade com o encargo.

Como o tratamento estético emergencial não adiantou muito, a solução foi encomendar uma nova imagem.

O santuário promove uma vaquinha na internet para custear a empreitada –fiéis solidários à causa da santa já doaram R$ 25,4 mil dos R$ 100 mil necessários.

SANTA ESCONDIDA

A nova imagem –com seis metros, 20 toneladas e toda de concreto– substituirá a antiga na rótula da RS-453. A rodovia é conhecida como estrada dos romeiros, já que liga a estátua, num das entradas de Farroupilha, ao santuário.

O destino, porém, da imagem rejeitada é incerto.

“A santa é deles, eles fazem o que querem. Não tem problema nenhum desde não estraguem a minha”, afirma um resignado Chiaradia.

O secretário de Turismo do município, Fabiano Picolli, diz que a santa “feia” deverá ir para dentro da cidade, porém mais longe dos olhos do público. “O objetivo é colocá-la em local visível, mas que guarde distância. Se passar perto, você consegue ver os motivos da substituição”, diz.

O culto à Nossa Senhora de Caravaggio começou em 1432 na cidade italiana que leva o nome da santa. Já popularizada, a devoção chegou à serra gaúcha com os imigrantes italianos no início da colonização, a partir de 1875.

A romaria realizada todos os anos entre 24 e 26 de maio reúne cerca de 200 mil fiéis. A maioria se desloca a pé, cumprindo promessas.

BONECA DE OLINDA

“Como devoto me sinto ofendido com a estátua que está ali. Sofro muito”, diz o secretário Picolli. Segundo ele, a santa já foi apelidada de “boneca de Olinda” e até de “biscoito Trakinas”, aquele do rosto na bolacha.

O mais famoso devoto da santa e frequentador do santuário é o novo técnico do Grêmio, Luiz Felipe Scolari, que vai ao local desde os tempos de jogador, no final dos anos 60. Fez promessas à santa antes da Copa de 2002, quando a seleção comandada por ele foi pentacampeã, e agora, em 2014, antes da campanha no Mundial marcada pelos 7 a 1 contra a Alemanha.

Neste ano, até o goleiro titular da seleção, Júlio César, posou na capa da revista “Caras” com uma miniatura da santa depois de ele ter defendido pênaltis na classificação do Brasil contra o Chile.

O padre reitor do santuário, Gilnei Fronza, diz que a mudança segue a vontade da comunidade. “O protótipo já agradou. Ela é uma formosura. E os detalhes são muito ricos”, comemora, aliviado.

O trabalho de construção ocorre num pavilhão dentro do santuário, aberto à visitação. E a santa só sairá de lá com “aceitação total” da comunidade, afirma um precavido padre Fronza.

O artista incumbido de dar vida à nova santa promete fazer jus à responsabilidade. “As imagens sacras são símbolos que nos aproximam de Deus. Por isso ela tem que ser bonita, ter leveza, delicadeza”, diz Gilmar Pocai.

Para ele, a estátua antiga “ficou muito caricaturada” e “não transmite a figura de mãe que as pessoas gostariam de ver”.

Há, no entanto, quem defenda a imagem rejeitada. “A devoção vai além [da estátua]. É desnecessário trocar”, diz a comerciante Elizabete Ramires Ribeiro, 37.

Ironicamente, quem procura a imagem pelo serviço Street View do Google encontra o rosto da santa antiga desfocado. O Google diz, contudo, que se trata de um ajuste automático, feito por um programa que desfoca as imagens ao detectar rostos. Nada a ver, portanto, com a polêmica estético-religiosa da “santa do Felipão”.





segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Menino-passarinho volta pra casa


Já fez o seu voo de volta pra casa o menino-passarinho de Higienópolis, a quem nos referimos ontem aqui no blog.

O desfecho da inusitada e emocionante história é contado por Vivian Codogno no Estadão:

Menino-passarinho é resgatado pela mãe em Higienópolis

SÃO PAULO - O menino-passarinho voou de volta para seu ninho em Cachoeiras de Macacu, na região serrana do Rio de Janeiro, no último domingo. Há oito dias ele vivia entre a copa de uma árvore e a calçada do número 105 da Rua Veiga Filho, no Higienópolis. Desde que chegou, Pedro (nome fictício) contava aos vizinhos que veio da cidade próxima a Nova Friburgo. Uma das moradoras da rua, a fonoaudióloga Maria Rosália Martins Silva, é também dona de uma propriedade na cidade fluminense, e fez uma série de contatos e, enfim, descobriu que lá havia uma criança desaparecida.

“Conseguimos localizar a mãe de Pedro, que havia movimentado uma campanha para encontrá-lo”, relata Maria Rosália. Durante dois dias, elas trocaram mensagens via redes sociais e telefone e, ao receber uma foto do filho, Dulciléa Klein teve uma crise hipertensiva e precisou ser internada. Apenas na madrugada de domingo recebeu alta e pode se deslocar até São Paulo para rever o filho.

Neste momento da história, começa uma nova epopeia. Sem dinheiro para custear a viagem de 536 quilômetros, Dulciléa convenceu o motorista do Conselho Tutelar de Nova Friburgo a fazer o transporte com o carro do órgão. Arrecadou o dinheiro que pôde com amigos e partiu para a jornada de cerca de 7 horas até São Paulo, acompanhada do atual marido e de um profissional do Conselho Tutelar. Com receio da reação de Pedro, tudo foi planejado sem que ele soubesse.

Quando chegou à Veiga Filho na tarde de domingo, Dulciléa encontrou uma vigília com cerca de 20 pessoas que desde a noite anterior protegiam Pedro de eventuais violências que pudesse sofrer. Seu filho estava no shopping do bairro, onde pode entrar acompanhado de Maria Rosália, destoando dos frequentadores locais, com sua bermuda surrada, seu chinelo de dedo, e seu moletom da universidade Anhembi-Morumbi doado por algum transeunte. Desde que uma matéria contando sua história foi publicada pelo Estado, Pedro ganhou dezenas de simpatizantes, que foram até seu ninho provisório e o presentearam com roupas, doces e dinheiro. Conseguiu arrecadar o suficiente para comprar um boneco do personagem Woody, do filme Toy Story, seu preferido.

Ao sair do shopping com o brinquedo nas mãos, Pedro avista a mãe, acaricia seus cabelos, a abraça e logo diz: “vamo embora, mãe?”. Dulciléa conta que não abandonou o filho como ele havia contado. De acordo com ela, o garoto faz tratamento psiquiátrico, o que o deixa inquieto. “No dia 6 de julho, ele estava assistindo televisão com um primo, quando o avisou que voltava em um minuto. E desapareceu. Não houve briga ou conflito”, se emociona.

Na mochila, a mãe carregava fotos, uma mensagem que imprimiu em cartazes para procurá-lo, o teste do pezinho do garoto, e laudos psiquiátricos atestando que Pedro toma remédios controlados. Médicos do Conselho Tutelar não conseguem identificar a sua doença e quando fica agressivo, o garoto se torna um problema e é encaminhado para atendimento em órgãos de assistência a “crianças especiais”. Por isso, desenvolveu um receio de kombis oficiais, como a do próprio Conselho Tutelar.

Na despedida de seus novos amigos, Pedro chora. Procura por dona Dulce, a senhora que elegeu como sua mãe adotiva. Abraça forte a psicóloga Luciana Sodré Cardoso, responsável pela segurança do menino durante sua estadia na árvore. A chef de cozinha Gabriela Nunes, que fez parte da vigília, sorri e se emociona: “Levo uma lição gigante para a vida”. Com lágrimas nos olhos, o jornalista Eduardo Lemos garante que foi “impossível não se conectar com essa história. Quando entendi o Pedro, ficou muito fácil protege-lo”. Sem o menor esforço para conter as lágrimas, o produtor cultural Nick Ayer brinca: “Agora já podemos montar o bloco ‘Unidos da Veiga Filho’”.

Pedro entra no banco de trás do carro. A sua sacola, antes apenas com um par de calças jeans, uma blusa de frio, um edredon e a “Enciclopédia prática da mágica e do ilusionismo”, volta para Cachoeiras de Macacu muito maior. Acena com o boneco Woody pela janela. Quando o carro começa a andar, sua mãe grita: “Que Deus abençoe a todos vocês!”.



domingo, 3 de agosto de 2014

O menino-passarinho de Higienópolis

Artigo maravilhosamente escrito por Vivian Codogno, desses que fazem a gente acreditar que o bom jornalismo não morreu e trazem múltiplas reflexões sobre a condição humana em seus mais variados (e controversos) matizes, publicado no Estadão de 01/08/14:

'Menino-passarinho' intriga moradores de Higienópolis

Há uma semana, adolescente vive sobre uma árvore no bairro da região central de SP; abordagem da PM fez garoto desmontar abrigo

SÃO PAULO - A Rua Veiga Filho, em Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo, recebeu nesta semana um morador inusitado. Há seis dias, Pedro (nome fictício) se abrigou em cima de uma árvore na altura do número 105 e passou a fazer parte da paisagem de quem transita por aquela rua. Com 16 anos, negro, sem documentos e sem família, o garoto relata a epopeia de como saiu de Cachoeiras de Macacu, município próximo a Nova Friburgo (RJ), e chegou até seu novo ninho depois da morte do pai e do sumiço da mãe. Ele conta que se escondeu entre a carga de um caminhão-cegonha e aportou em São Paulo.

Na bagagem, Pedro carrega uma almofada, um edredon e uma sacola com uma blusa e uma calça jeans. Também leva a "Enciclopédia prática da mágica e do ilusionismo", que diz não se lembrar onde encontrou. Seu sonho é ser mágico, "daqueles de baralho", mas como não sabe ler, espera alguém que possa lhe ensinar alguns truques.

A casa não era mais que alguns tapumes apoiados nos galhos, que serviam como base para que ele pudesse se deitar na hora de dormir. Esse abrigo precisou ser desmontado depois de uma abordagem da Polícia Militar, acionada pela terceira vez por alguns moradores do Edifício Santa Emília, prédio logo à frente da árvore. Os policiais aconselharam o garoto a retirar suas coisas e sair daquela rua. Como se recusou, foi agredido por moradores do bairro que assistiam a cena. Fugiu e só retornou no dia seguinte, bastante assustado.

O aposentado Luis Inácio Pio de Almeida, condômino do Edifício Santa Emília, incomoda-se com a presença de Pedro nos arredores. Para ele, além de correr risco ao viver sobre uma árvore, o garoto pode ser uma ameaça aos moradores. "Ele ainda não teve uma atitude violenta, mas não o conhecemos. Já sugeri até que derrubem a árvore para ver se ele vai embora, pois ele se instalou aqui e não sai mais", esbraveja de dentro da grade do prédio.

A síndica do condomínio, Maria Nilza Dupas, tenta outras maneiras para conseguir com órgãos públicos um local adequado para Pedro. Ao notar o movimento causado pela reportagem, Maria Nilza se aproxima. "Não é apenas a nós que esse caso está atingindo.Tem muito movimento aqui por causa do shopping. Não existe preconceito em relação a ele, o problema é a atitude que ele tem. A rua é uma sedução para estas pessoas", diz a síndica. Para ela, o garoto não é "caso de Febem (atual Fundação Casa)", mas é preciso encontrar uma solução em abrigos para moradores em situação de rua.

Adoção. A fama de Pedro se espalhou tão rápido pelos arredores que as especulações sobre a sua história não demoraram a aparecer. Alguns dizem que já o ouviram falar em francês e em espanhol, outros acreditavam, no início, tratar-se de um haitiano desabrigado. E com as histórias que conta, o menino passarinho colabora com sua existência lendária. "De onde eu venho todo mundo vive em árvores, moça. E eu já morei em outra dessas no fim da rua. Escolhi esta aqui porque testei e nela foi mais fácil colocar minha coisas. Mas depois do que aconteceu ontem não subo mais aí não", conta Pedro com a sobrancelha franzida, esbanjando desconfiança.

"Eu quero ser adotado, moça. Quero ser filho da dona Dulce", conta o garoto logo após acordar, ainda coberto pelo edredon rasgado, escondendo o rosto da claridade do sol. Pedro se refere a outra moradora do Santa Emília, a aposentada Dulce Santucci, que logo chega oferecendo uma maçã para ele. "Se eu não estivesse com 80 anos, adotaria mesmo. Como meu filho morreu, até pensei em dar os documentos dele para o Pedro, já que ele não tem, mas não daria certo, né? Uma pena, meu sobrenome é tão bonito".

Outra 'mãe postiça' que Pedro conquistou desde que chegou à Rua Veiga Filho é a psicóloga e terapeuta Luciana Sodré Cardoso. Também moradora do número 105 da rua, ela se sensibilizou com a história do garoto e tem tentado, a cada dia, estabelecer um vínculo de confiança com Pedro, para que ele possa ser encaminhado para um órgão de proteção.

"Ele é uma criança, e sempre se apresentou muito honesto, muito amoroso. As violências que ele tem sofrido nos últimos dias podem o ter deixado um pouco arredio, mas ele é sempre muito alegre. Se continuar sendo maltratado, pode virar um delinquente", defende Luciana. "Ele não quer sair daqui porque se sente protegido. Eu tenho sido um apoio para ele. Eu olho nos olhos, toco, o trato como uma pessoa."

Para a terapeuta, é importante que a autonomia de Pedro seja preservada e que ele seja convencido a sair da árvore, não removido à força. Por isso, Luciana tem chamado amigos com algum envolvimento em movimentos sociais para se aproximar do menino, além de acionar diariamente ONGs de apoio a crianças em situação de rua. Porém, a forma legal de tirar Pedro da rua é acionando o Conselho Tutelar e, de acordo com Luciana, suas solicitações em relação ao órgão não foram atendidas.

Enquanto isso, o garoto afirma que gostou daquela rua e vai ficar por ali. "Essa rua é bonita, gostei daqui. Mas quero uma família, e uma casa, não importa como seja." Durante a conversa, Pedro ganhou diversas coisas de pessoas que passavam na região: metade de um sanduíche, suco de frutas, algumas esfirras e duas garrafas de refrigerante pela metade. Ao se despedir, ele estica o braço, entrega uma das garrafas e diz: "pode levar essa, moça, uma só já dá pra mim".

Trâmites. Consultada, a Polícia Militar não quis dar esclarecimentos sobre a abordagem da noite de quinta-feira, que levou Pedro a abandonar sua casa na árvore. O Conselho Tutelar não soube informar sobre o andamento das solicitações de Luciana e informou que a forma mais eficiente de chegar a um menor em situação de rua é acionando o Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População em Situação de Rua (Creas-Pop). Indagado, o órgão afirma que procurou por Pedro durante a tarde mas não o encontrou no endereço indicado.



sábado, 2 de agosto de 2014

Rompimento de casamento não implica em dano moral


Coração partido por casamento rompido, mesmo sem motivo, não enseja dano moral

Casar e viver feliz para sempre. Depois de não alcançar esse objetivo na vida, uma mulher buscou na Justiça indenização por danos morais infligidos pelo noivo, que desfez o casamento meses após consumado, sem nenhuma satisfação, ao tempo em que ela já estava grávida. O pleito, negado em 1º grau, também foi rechaçado pela 6ª Câmara de Direito Civil do TJ, ao analisar a apelação.

"Para que se caracterize o dever de reparação, é preciso conduta ilícita, o dano e a ligação clara entre aquela e o dano. Mas, nesta situação [...] não há a menor possibilidade de se considerar tal fato como ação ilícita, partindo do princípio de que ninguém é obrigado a ficar com quem não queira", anotou o desembargador Alexandre d'Ivanenko, relator da matéria. A câmara, de forma unânime, entendeu ser incabível a utilização do Poder Judiciário para resolver ¿ e aferir vantagem econômica em razão disto ¿ situações cotidianas de mero dissabor afetivo. Seus integrantes anotaram ter ciência da dor intensa sofrida pela autora, mas decretaram inexistência de dano moral.

"[São] simples dissabores [¿], pequenos incômodos e desprazeres que todos devem suportar na sociedade em que vivemos", relativizou o relator. Os magistrados vislumbraram ainda nítida intenção da apelante ¿ não conformada com o término do relacionamento ¿ de lesar o ex-companheiro. Embora tenha afirmado que o fim do casamento se deu durante a gravidez, a mulher entrou em contradição ao contar a uma amiga do casal que, após o nascimento da filha, o então marido passou a reclamar da falta de atenção dela, em razão do bebê.



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Megatemplo consolida a marca "Universal" no mercado religioso brasileiro


A opinião é do especialista entrevistado pela Deutsche Welle, numa análise muito interessante:

Megatemplo consolida posição da Universal no "mercado das religiões"

Construção de quase 700 milhões de reais reforça presença da igreja de Edir Macedo na forte disputa entre as religiões, num momento em que pequenas unidades de periferia puxam o crescimento das neopentecostais.

Dezenas de igrejas fazem parte da paisagem do bairro do Brás, em São Paulo. Poucas centenas de metros de uma das principais avenidas, a Celso Garcia, concentram dezenas delas, de pentecostais a tradicionais, de pequenas a prédios.

Entre todas, uma passou a se impor na região: o novo templo da Igreja Universal do Reino de Deus, inaugurado nesta quinta-feira (31/07). A construção custou 685 milhões de reais, pode receber até 10 mil visitantes e deve consolidar a posição da Universal no concorrido mercado das religiões brasileiras.

"A inauguração do megatemplo representa uma consolidação da Universal, mas não do neopentecostalismo como um todo", opina Edin Abumanssur, professor de sociologia da religião da PUC-SP. "Esse megatemplo é uma forma de marcar e consolidar uma posição na disputa do mercado das religiões. A abertura do templo na maior metrópole brasileira significa que a Universal tem condições de se perpetuar no tempo."

De acordo com o IBGE, o segmento religioso dos evangélicos foi o que mais cresceu no Brasil entre 2000 e 2010. Foi de 15,4% da população brasileira para 22,2%, um aumento de 16 milhões no número de adeptos, totalizando hoje 42,3 milhões. Como comparação, o percentual de católicos diminuiu de 73,6% para 64,6%.

Mensagem para os pobres

Em 2010, entre os adeptos de igrejas evangélicas de origem pentecostal, a Universal (1,87 milhão) era a terceira, atrás apenas da Assembleia de Deus (12,3 milhões) e da Congregação Cristã do Brasil (2,2 milhões).

Parte do crescimento dessas igrejas é atribuída à nova realidade econômica e à maior atuação junto às populações de baixa renda e baixa escolaridade. A Universal, por exemplo, tem uma mensagem que é bem recebida por esse público.

Ela inclui a cura pela fé, que responde a uma demanda específica da população mais pobre; a teologia da prosperidade, em que a Igreja incentiva que as pessoas procurem empregos e criem redes de contato para saírem da exclusão social; além do uso dinâmico de meios de comunicação e de ferramentas de internet.

"Quase toda cidade brasileira, na região central, possui uma igreja católica. Mas nas periferias, principalmente das grandes cidades, a Igreja Católica não conseguiu se expandir e chegar perto dessas populações mais pobres. Quem faz isso são as igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais", explica Eustáquio Diniz, demógrafo da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

O grande número de adeptos se deve à proliferação de pequenas unidades autônomas, geralmente localizadas em bairros de periferia e frequentadas por cerca de 50. No Censo de 2010, foram cerca de 5,2 milhões de fiéis que se encaixaram na classificação "outras igrejas evangélicas de origem pentecostal" e mais 9,2 milhões que entraram na rubrica "evangélica não determinada".

"São comunidades que não têm condições de sustentar um pastor em tempo integral", explica Abumanssur. "Geralmente o pastor é um trabalhador, por exemplo funcionário público ou taxista, que, no domingo à noite, abre um templo. Muitas vezes funciona na garagem da casa dele", completa o especialista da PUC-SP.

A Universal, em particular, perdeu adeptos entre 2000 e 2010 – passou de 2,1 para 1,87 milhão. Mas não dá mostras de enfraquecimento: na década passada, a igreja ampliou seus espaços na política institucional, e a TV Record, de sua propriedade, se consolidou como o segundo canal de televisão aberta do país em audiência.

Passou, ainda, a estar presente em mais de cem países. Nos EUA, onde iniciou seu processo de internacionalização, chega a ter mais de 190 templos. Já na África do Sul, são mais de 380. Existem ainda unidades no Japão, em Moçambique, na Letônia, na Rússia, na Grécia e na China.

Ostentação

Em seus 74 mil metros quadrados de área construída e capacidade de abrigar confortavelmente 10 mil fiéis sentados, o megatemplo demorou quatro anos para ser construído. A edificação é cerca de três vezes maior do que o Santuário Nacional de Aparecida – que perde, assim, o posto de maior espaço religioso do país.

A inauguração deverá contar com a presença da presidente Dilma Rousseff; do seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva; do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Fernando Haddad. Jornalistas não poderão entrar durante a inauguração e vão acompanhar a cerimônia do lado de fora. O único discurso ficará a cargo do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, há 37 anos.

A construção, que tem altura equivalente a 18 andares, apresenta detalhes impressionantes. A iluminação da fachada, no valor de 22 milhões de reais, promete imitar o entardecer em Jerusalém. Cerca de 40 mil metros quadrados de pedras foram importados de Hebron, em Israel, por 30 milhões de reais, para revestir as paredes do megatemplo. Dois telões trazidos da Bélgica, próximos ao altar, facilitarão a visão dos fiéis.

O acabamento inclui cadeiras importadas da Espanha, com o custo, cada uma, de 2,2 mil reais; mármore rosa italiano; e um jardim de oliveiras importadas do Uruguai para relembrar o Monte das Oliveiras, onde Jesus passou a sua última noite na Terra antes de ser crucificado. Uma esteira rolante vai receber o dízimo dos fiéis e levará o dinheiro do altar para uma sala-cofre.

A obra marca uma nova fase da Universal e tenta, segundo especialistas, tornar a igreja ainda mais visível no espaço social. "Os templos da Universal estavam sendo esvaziados pela concorrência, que copiava seus métodos de trabalho. Agora, ela troca a capilaridade de seus pequenos e médios templos por grandes e vistosas catedrais", diz Leonildo Silveira Campos, professor de ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo.

As paredes laterais internas do megatemplo vão ser decoradas por menorás, os candelabros de sete braços comuns em sinagogas. Um memorial ao lado do templo vai explicar a história das 12 tribos de Israel, contada no Velho Testamento. Em dois subsolos, serão disponibilizadas cerca de 2 mil vagas para carros, ônibus e motos.

O complexo contará com escolas bíblicas com capacidade para comportar aproximadamente 1,3 mil crianças, estúdios de televisão e rádio, auditório, além de hospedagem para pastores. Para atrair fiéis de outras Igrejas, a Universal não vai usar seu nome nem a inscrição "Jesus Cristo é o Senhor" – comum em seus edifícios – no megatemplo.



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