sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O dízimo da corrupção

Os piedosos homens da Assembleia de Deus Madureira precisam se explicar

A denúncia do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, contra o deputado evangélico Eduardo Cunha, é uma peça jurídica de 85 páginas, das quais surgem informações aterradoras quanto ao uso de uma igreja da Assembleia de Deus à qual o parlamentar é ligado. Confira:
Por fim, uma vez já consumados os delitos de corrupção ativa, o denunciado EDUARDO CUNHA ocultou e dissimulou a natureza, origem, localização, disposição, movimentação e propriedade de valores provenientes, direta e indiretamente, do crime contra a Administração acima mencionado, mediante o recebimento fracionado de valores no exterior, em contas de empresas offshore e por meio de empresas de fachada, mediante simulação de contratos de prestação de serviços e, ainda, pagamento de propina sob a falsa alegação de doações para Igreja. (pág. 5)
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Em razão da pressão exercida, os pagamentos foram retomados, por volta de setembro de 2011, após reunião pessoal entre FERNANDO SOARES, JÚLIO CAMARGO e o denunciado EDUARDO CUNHA, ocorrida no Rio de Janeiro, em 18 de setembro de 2011. O valor restante – cerca de dez milhões de dólares – foi pago por meio de pagamentos no exterior, entregas em dinheiro em espécie, simulação de contratos de consultoria, com emissão de notas frias, e transferências para Igreja vinculada ao denunciado EDUARDO CUNHA, sob a falsa alegação de que se tratava de doações religiosas. (pág. 8)
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Os valores foram transferidos por meio de quatro processos distintos de lavagem: (i) transferências para a conta da empresa RFY IMPORT EXPORT LIMITED e DGX IMP. EXP. LTD. no exterior; (ii) simulação de prestação de serviços e transferência de valores para as empresas HAWK EYES ADMINISTRAÇÃO DE BENS LTDA e TECHINIS PLANEJAMENTO E GESTÃO EM NEGÓCIOS LTDA, ambas de FERNANDO SOARES; (iii) transferências para a conta da empresa GFD INVESTIMENTOS no Brasil (de propriedade de ALBERTO YOUSSEF); (iv) transferências para Igreja Evangélica, a pedido de EDUARDO CUNHA. (págs. 72/73)
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Por fim, ainda no ano de 2012, FERNANDO SOARES ainda procurou JÚLIO CAMARGO, afirmando que faltava uma quantia a ser paga ao Deputado Federal EDUARDO CUNHA.
FERNANDO SOARES, por orientação do Deputado Federal EDUARDO CUNHA, indicou a JÚLIO CAMARGO que deveria realizar o pagamento desses valores à IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS. Segundo FERNANDO SOARES, pessoas dessa igreja iriam entrar em contato com o declarante, o que realmente ocorreu. Repassados os dados bancários da IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS para fins de efetivação dos pagamentos, foram feitas duas transferências para a IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS (CNPJ 44595395/0001-98): a) uma no valor de R$ 125.000,00 da empresa PIEMONTE em 31 de agosto de 2012; b) uma outra no mesmo valor de R$ 125.000,00 da empresa TREVISO na mesma data de 31 de agosto de 2012, em valor total de R$ 250.000,00, ambas com a falsa justificativa de “pagamentos a fornecedores”.
No e-mail em que foi solicitado o pagamento, datado de 31 de agosto de 2012, os dados são encaminhados como se se tratasse de uma “doação”. Porém, não há dúvidas de que referidas transferências foram feitas por indicação de EDUARDO CUNHA, para pagamento de parte do valor residual da propina referente às sondas.
É notória a vinculação de EDUARDO CUNHA com a referida Igreja. O Diretor da referida Igreja perante a Receita Federal é SAMUEL CASSIO FERREIRA, irmão de ABNER FERREIRA, Pastor da Igreja Assembleia de Deus Madureira, no Rio de Janeiro, que o denunciado frequenta. Foi nela inclusive que EDUARDO CUNHA celebrou a eleição para Presidência da Câmara dos Deputados, conforme amplamente divulgado na imprensa.
É digno que nota que JÚLIO CAMARGO nunca havia feito anteriormente doações para a IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS, nunca frequentou referida Igreja e professa a religião católica (Igreja Católica Apostólica Romana).
Assim, o valor total da propina residual foi paga ao denunciado EDUARDO CUNHA, bem como a FERNANDO SOARES, conforme solicitado. Tanto assim que, além de não ter havido qualquer tipo de reclamação, as pressões direcionadas a JÚLIO CAMARGO cessaram. Inclusive, este último, em outra oportunidade, encontrou o denunciado EDUARDO CUNHA em Hotel no Rio de Janeiro, ocasião em que o denunciado não apenas cumprimentou JÚLIO CAMARGO de maneira efusiva, como se colocou à disposição para qualquer outro assunto. (fls. 79/81)
A notícia do envolvimento da Assembleia de Deus já tinha circulado no fim do último mês de julho e a divulgamos aqui com o valor de R$ 125.000,00 (cento e vinte e cinco mil reais) que teriam sido desviados para a instituição religiosa.

Agora, a denúncia consolidada da Procuradoria Geral da República atualiza os valores para R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais), conforme destacamos acima, em duas parcelas de R$ 125.000,00 (cento e vinte e cinco mil reais), uma repassada pela empresa PIEMONTE e outra pela empresa TREVISO.

Eduardo Cunha, que é presidente da Câmara dos Deputados no Congresso Nacional, se defende partindo para o ataque, dizendo que está sendo vítima de perseguição pelo governo.

Seu amigo Silas Malafaia tentou se desvincular do nobre deputado, a quem apoiava ostensivamente até outro dia, desconversando e tentando fazer parecer que a coisa não é bem assim:



No que foi prontamente ironizado pelo Twitter mesmo:



De qualquer maneira, é mais um escândalo envolvendo o bom nome que os "evangélicos" um dia, num passado remoto, tiveram no Brasil, antes que "pastores" boquirrotos tentassem representá-los.

Agora, cá entre nós, do que será que Malafaia tá com medo, hein?

A íntegra da denúncia pode ser baixada clicando aqui.




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Um padre entre duas ditaduras sulamericanas


A matéria é do IHU:

'A Missão' do jesuíta Luis Caravias entre o Paraguai de Stroessner e a Argentina de Videla


Durante a visita pastoral do Papa Francisco ao Paraguai, no meio da multidão que se reuniu para ouvi-lo estava um jesuíta especial. Alguém que viu cumprir-se nas palavras de Francisco o sonho de toda uma vida. Embora em uma determinada época aqueles sonhos lhe estavam custando muito caro, e quem o ajudou nesse momento foi precisamente o jovem Jorge Mario Bergoglio. O padre José Luis Caravias seria o missionário perfeito para um filme: um herói romântico com uma ideia radical de missão, somada a uma pitada de inconsciência que o converte em candidato ideal ao martírio. O padre Caravias tinha também um defeito próprio dos romances, uma dessas características que não agradam os militares. Fundava cooperativas, organizava sindicatos, reivindicava salários dignos para as classes exploradas, apontava o dedo contra os latifundiários e os homens da lei, supondo que naquele tempo houvesse diferença entre uns e outros. 

A reportagem é de Nello Scavo e publicada por Tierras de América, 16-08-2015. A tradução é de André Langer.


Nascido na Espanha em 1935, quando terminou os estudos de jesuíta foi enviado ao Paraguai, onde começou a organizar os camponeses em cooperativas. Até o dia 05 de maio de 1972. “Um dia me fizeram entrar numa camioneta da polícia e me abandonaram em uma estrada de Clorinda (Argentina)”. Da boca do padre Caravias saíam palavras estranhas. “Democracia” era uma delas. No Paraguai, o general Alfredo Stroessner tomou o poder abolindo a Constituição. Foi o mais longevo dos ditadores latino-americanos, que permaneceu no poder de 15 de agosto de 1954 até o dia 03 de fevereiro de 1989, quando foi destronado pelo general Andrés Rodríguez. Duas gerações de cidadãos cresceram sem saber sequer o que significava liberdade de opinião.

Contou sua história em um dos dois blogs que escreve na Paróquia Cristo Rei, em Assunção. A igreja recorda vagamente as reduções, as missões jesuítas onde os filhos de Santo Inácio de Loyola restituíam direitos e dignidade aos índios ameaçados pelos conquistadores. “Conheço bem o Bergoglio. Encontrei-me com ele repetidas vezes em 1975. Foi o meu superior provincial. Ouviu-me e atendeu-me sempre com carinho. Mas eu era um problema para ele”.

Tudo começou três anos antes, em Assunção. “Foi sequestrado por um comando policial e expulso do país sem papéis na fronteira com a Argentina. A ditadura de Stroessner não poupou calúnias para sujar o meu compromisso com as Ligas Agrárias Cristãs, das quais eu era o assessor nacional”. Durante dois anos permaneceu no Chaco argentino, no extremo norte do país. Ali recomeçou do zero. “Consegui formar um sindicato dos lenhadores, cruelmente explorados pelos contratadores de mão de obra da região”.

Também desta vez não lhe perdoaram. Certa manhã, a polícia, que cumpria ordens da Junta encabeçada por Videla, apresentou-se na paróquia onde Caravias morava. Acusaram-no de repassar armas aos lenhadores. Reviraram toda a igreja, mas não encontraram nada. Então, antes de deixar o local, quebraram tudo. “O superior da Companhia de Jesus ordenou que deixássemos imediatamente a região. Pois na próxima vez a própria polícia poderia deixar uma arma plantada por eles mesmos...”. A única alternativa foi ir para Buenos Aires. “Fui para Buenos Aires, ao Teologado de San Miguel, onde passei seis meses estudando Cristologia”. “Lá comecei a incursionar nas “Villas Miseria” atendendo os paraguaios”.

Era previsível que também ali não pudesse trabalhar tranquilo. “Poucos meses depois, Bergoglio me comunicou que tinha informações de que a Tríplice A (paramilitares que preparavam o caminho para a ditadura) tinha decretado a minha morte”.

Antes de deixar a Argentina, Caravias decidiu despedir-se de seus amigos do Chaco. Não foi uma boa ideia. Foi preso junto com a religiosa que o levava no carro. “A verdade é que estavam muito bem informados sobre as minhas atividades”. Parecia “bem fichado”. Sabiam inclusive a hora e com quem tomou um sorvete nessa mesma tarde. Meteram-no num calabouço. “Quão duro me soou o barulho seco da tranca da porta! Não sabia o que seria de mim. É terrível essa insegurança!”

O cheio da cela, o travesseiro imundo, a sujeira. “Quantas pessoas teriam apoiado sua cabeça nesse travesseiro para estar tão sujo!” Foi uma noite insone, não só pelo calor e pela umidade. Antes de amanhecer, tiraram-no arrastado. Explicaram-lhe que ali tudo acabava. No meio da escuridão chegou a ver as armas que apontavam na sua direção. “Fogo”, gritou um, que devia ser o chefe. Era o rito macabro das simulações de fuzilamento. O primeiro passo para quebrar as defesas psicológica dos detidos.

Na manhã seguinte, tiraram-no novamente do calabouço. Pensou que seguramente iria “desaparecer”. Mas, na realidade, alguém interveio para que o libertassem. O jesuíta espanhol foi entregue a um monsenhor alertado por Bergoglio. Três dias depois estava em um avião rumo a Madri. “Pessimista, desanimado, com um terrível complexo de herege em meu coração, comecei o meu segundo desterro”. Mas quando chegou de volta a Espanha, ardia em desejos de voltar a ser missionário na América do Sul.

Bergoglio deu-lhe indicações precisas sobre a maneira de agir durante as conversas telefônicas e na correspondência. Escolheram a metáfora da meteorologia. Caravias perguntava como estava o clima. Bergoglio lhe respondia que a umidade do ar ainda era muito elevada, ou então que “não lhe convém vir porque faria mal à sua saúde”. Anos depois, quando finalmente houve a redemocratização do país, o padre José Luis pôde voltar. “Aqueles que pensavam como eu eram considerados comunistas. Mas Bergoglio foi um padre de coração nobre e me ajudou a fugir de uma morte certa. E por isso sempre lhe serei grato”.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Astronauta diz que extraterrestres pacifistas evitaram fim do mundo


A matéria é da revista Galileu:

Astronauta da missão Apollo afirma: Ovnis evitaram a guerra nuclear

Edgar Mitchell citou Roswell

Edgar Mitchell, participante da missão Apollo 14 e o sexto homem a caminhar na Lua, afirmou em uma entrevista recente que acredita que aliens pacifistas visitaram a Terra. O objetivo era impedir que ataques nucleares acontecessem durante a Guerra Fria. Isso, de acordo com ele, explicaria os avistamentos de Ovnis perto de bases militares na época.

“Falei com muitos oficiais da força aérea que trabalharam nessas estações durante a Guerra Fria. Eles me contaram que os Ovnis eram vistos com frequência e que eram capazes de desligar seus mísseis. Outros oficiais da costa do Pacífico contaram que os mísseis eram derrubados com frequência por naves alienígenas”, afirmou Mitchell.

Não é de hoje que sabemos que o astronauta acredita em visitas extraterrestres. Anteriormente ele já havia declarado crenças similares sobre a presença de ETs em Roswell. Ele cresceu no Novo México, próximo a Roswell, onde as primeiras bombas nucleares foram testadas. “Os ETs estavam por lá porque queriam saber da nossa capacidade militar”, afirmou.

Já falamos aqui na GALILEU sobre como, possivelmente, toda a história de Roswell foi usada justamente para acobertar operações militares. Vale a leitura!




terça-feira, 18 de agosto de 2015

Presos líderes de seita evangélica acusados de escravizar fiéis

A informação é do Brasil Post:

Polícia Federal prende líderes de seita religiosa que teriam escravizado fiéis; fundador se apresenta como 'divindade'

A Polícia Federal deflagrou na madrugada desta segunda-feira (17) a Operação De Volta para Canaã em três Estados do País e prendeu líderes de uma seita religiosa que teriam escravizado fiéis. Segundo a PF, o grupo teria utilizado a seita para se apoderar do patrimônio dos fiéis, submetendo-os a trabalhos forçados, em situação análoga a de escravos.

Os investigados responderão pelos crimes de redução de pessoas à condição análoga a de escravo, tráfico de pessoas, estelionato, organização criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

As investigações apontaram que os dirigentes da seita Jesus, a Verdade que Marca estariam mantendo pessoas em regime de escravidão nas fazendas onde desenvolviam suas atividades e rituais religiosos. A PF afirmou que os fiéis, ao ingressarem na seita, eram convencidos a doar seus bens sob o argumento da convivência em uma comunidade onde "tudo deveria ser de todos" e, em seguida, obrigados a trabalhar sem qualquer espécie de pagamento.

Os investigadores estimam que o patrimônio recebido em doação dos fiéis chegue a pouco mais de R$ 100 milhões. Parte do valor teria sido convertido em "grandes fazendas, suntuosas casas e veículos de luxo". A operação conta com 190 policiais federais, que estão cumprindo 129 mandados judiciais: seis de prisão temporária, seis de busca e apreensão, 47 de condução coercitiva e 70 de sequestro de bens.

Os mandados expedidos pela 4ª Vara Federal em Belo Horizonte estão sendo cumpridos nas cidades de Pouso Alegre, Poços de Caldas, São Andrelândia, Minduri, São Vicente de Minas e Lavras, em Minas Gerais, Carrancas, Remanso, Marporá, Barra, Ibotirama e Cotegipe, na Bahia, e em São Paulo.

Caso antigo

A PF informou que a Operação De Volta a Canaã dá continuidade a investigações iniciadas em 2011, que levaram à deflagração da Operação Canaã em 2013. Na primeira etapa, a PF, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho fizeram inspeções em propriedades rurais e em algumas empresas. Segundo a PF, foi identificado um "sofisticado esquema de exploração do trabalho humano e lavagem de dinheiro levado a cabo por dirigentes e líderes religiosos". “Somente neste ano, a Polícia Federal começou a investigar mais de 50 casos envolvendo o tráfico e a exploração de pessoas no Brasil", informou a PF.

De acordo com o delegado da Polícia Federal em Varginha (MG), João Carlos Girotto, o modus operante da seita era sempre o mesmo: convencer pessoas de fragilidade emocional a mudarem as suas vidas no interior, alterando a sua condição de vida, “sob a promessa de que viveriam em comunidades onde vigeria o princípio da igualdade absoluta”.

“Todos os bens seriam de todos. Ao adentrarem na seita, as pessoas são convencidas a entregarem todos os seus bens, móveis e imóveis, e na sequência são transferidas para fazendas, onde trabalham sem remuneração. Lá eles também têm a liberdade cerceada e ao irem para as cidades, são escoltadas por membros da seita”, afirmou, em declarações reproduzidas pelo G1.

As primeiras investigações sobre a seita Jesus, a Verdade Que Marca, datam de 2006. Naquela época, as suspeitas eram de movimentações da ordem de R$ 10 milhões.

Fundador se considera “o próprio Deus”

A seita foi fundada em 1998 no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, pelos pastores Cícero Vicente Araújo e Edmilson Pereira da Silva. Desde o início, as regras sempre partiram do pressuposto que os seguidores deveriam “obedecer cegamente” às orientações dos pastores, doando todos os seus bens e aceitando algumas regras, como o confinamento em fazendas, veto aos meios de comunicação e a proibição, por exemplo, de marido dormir com a mulher.

Não são poucos os depoimentos de dissidentes sobre as práticas dos líderes da seita. Em 2013, um homem de 72 anos disse, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, foi convencido a doar tudo o que tinha porque, segundo o pastor Cícero Vicente Araújo, “todas as estradas iam se fechar e colocariam chips na cabeça das pessoas”. “Diziam que os demônios destruiriam aqueles que saíssem”, completou.

Três anos antes, uma mulher do interior de São Paulo denunciou ter perdido contato com duas filhas, um neto e outros familiares, todos cooptados pela seita. De acordo com ela, o sistema de lavagem cerebral gerava situações como o fato de benefícios, como os cartões do Bolsa Família e aposentadorias, ficarem a cargo dos pastores. Para os que vivem nas fazendas da seita, as condições de vida seriam desumanas.

A mesma mulher disse também que o pastor Cícero Vicente Araújo se identifica “como o próprio Deus”, alegando ter “poderes divinos”. O temor, para ela, era de que, entre outras pregações, o pastor pudesse induzir seus seguidores a um suicídio coletivo.

Uma análise do pastor Natanael Rinaldi, uma das autoridades da igreja evangélica no País, afirma que a seita Jesus, a Verdade Que Marca é conhecida pelo seu caráter de “desagregação das famílias” e “leituras equivocadas dos ensinamentos bíblicos”.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Quando um garoto surdo africano aprende a língua de sinais


Prepare-se para se emocionar com o vídeo abaixo, que mostra a transformação na vida de Patrick, um adolescente ugandense de 15 anos, que nunca tinha conseguido se comunicar até aprender a linguagem dos sinais.

A mudança no brilho de seus olhos e na expressão facial é surpreendente, e seu exemplo é uma demonstração prática da importância da educação na vida de uma pessoa:




domingo, 16 de agosto de 2015

Todas as vidas de Cora Coralina chegam ao cinema

O busto de Cora Coralina na janela da casa da ponte sobre o Rio Vermelho,
em Goiás Velho, que hoje sedia um pequeno museu sobre sua vida e obra.
Foto tirada em dezembro de 2013.

Mesmo aqueles que não tiveram, como este que vos escreve, o imenso prazer de visitar a casa de Cora Coralina na linda cidade velha de Goiás, sob o esplendor da Serra Dourada, vão se deliciar com as vidas e a obra de Cora Coralina, agora nas telonas.

A matéria é do Estadão:

Cora Coralina ganha filme sobre sua vida

MARIA FERNANDA RODRIGUES

'Cora Coralina - Todas as Vidas', com direção de Renato Barbieri, é o primeiro longa sobre a poeta doceira da cidade de Goiás

Cora Coralina para além da imagem da senhorinha que escrevia poemas e preparava doces na casa às margens do Rio Vermelho, na cidade de Goiás. É isso o que pretende mostrar o filme Cora Coralina – Todas as Vidas, que terá sua primeira exibição neste sábado, 15, na terra natal da poeta, durante o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). Claro que cena, no imaginário de todo brasileiro que conhece sua obra, estará retratada no longa. Afinal, este é um documentário poético, que mistura realidade e ficção, sobre a autora de Vintém de Cobre, nascida Anna Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, e que resgata os principais períodos de sua vida. Este, especificamente, é interpretado por Walderez de Barros.

O filme dirigido por Renato Barbieri conta, ainda, com outras três atrizes que se revezam no papel de Cora. Camila Salles, a Camilinha, faz o papel de sua trisavó aos 5 anos. Maju de Souza é Cora aos 14 e Camila Márdila (premiada em Sundance), aos 21. Há ainda uma personagem mais etérea, nas palavras do diretor, que é protagonizada por Teresa Seiblitz.

Essa narrativa tecida pelas palavras de Cora se alterna com depoimentos de pessoas que a conheceram ou estudaram seu legado. Entre elas, Clóvis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda, que publicaram pela Ideias & Letras, em 2009, Cora Coralina – Raízes de Aninha. O filme é inspirado livremente nesta biografia que já está em sua 4.ª reimpressão.

Em uma terceira parte do filme, todas as atrizes que encarnaram Cora, exceto a criança, vão ao estúdio e leem trechos dos textos da autora. Neste caso, elas – e ainda Bete Goulart e Zezé Mota – não são mais personagens, mas elas próprias.

E, por fim, Cora aparece aqui e ali em imagens de arquivos videográficos projetadas sobre paredes, para trabalhar a imagem poética, explica Barbieri, que já tinha feito cinco cinebiografias – de Monteiro Lobato e Mauricio de Sousa, inclusive – antes de aceitar o convite do produtor Marcio Curi.



Tudo começou em 2009, quando Curi recebeu a visita de Paulo Sérgio Bretas Salles, seu amigo e neto de Cora. “Ele me procurou porque sentia a necessidade de que alguém realizasse um filme mais completo, que retratasse sua vida e obra. Já haviam sido produzidos alguns bons curtas, mas ele sentia a necessidade de um filme que levantasse o véu que sempre encobriu a trajetória de Cora, antes de ser revelada ao Brasil pela famosa crônica de Carlos Drummond de Andrade.”

Foi com esse texto publicado pelo poeta mineiro no Jornal do Brasil, em 1980, que ela ficou conhecida do grande público. Cora já estava com 91 anos e pôde aproveitar por pouco tempo sua fama meteórica. Morreu quase cinco anos depois sem imaginar, por exemplo, que teria um fã clube de 217 mil pessoas – entre os escritores brasileiros mais populares do Facebook, ela perde para Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu e ganha de Drummond e Leminski.

E foi na época do texto de Drummond que Renato Barbieri ouviu sobre ela. “Comprei todos os seus três livros, visitei sua casa quando ela já tinha morrido. Encarei o convite para dirigir o filme como um presente”, conta. E ao aceitá-lo ampliou o conhecimento que tinha sobre a trajetória dela – é esse caminho que ele segue neste primeiro longa sobre a poeta.

“Poucos sabem que dos seus 95 anos, ela passou 45 em São Paulo”, comenta. Ou que ela começou a escrever muito cedo, que era engajada em causas sociais e ambientais, que vinha de uma família letrada, que vendeu livros para a José Olympio.

Regina Pessoa o ajudou no roteiro, que segue uma linha cronológica dos fatos, mas não dos poemas. As filmagens foram feitas na cidade de Goiás, Jaboticabal, Penápolis e Andradina, onde ela viveu. São Paulo ficou de fora porque já está muito diferente do período em que Cora passou por aqui.

A Tucumã fará a distribuição do filme, que não tem previsão exata de chegada aos cinemas – talvez em algum momento entre o fim deste ano e o primeiro semestre de 2016. A opção foi por apresentar o filme em festivais, antes. Há planos de exibi-lo na tevê mais para a frente.

Barbieri diz que vê em Cora uma figura acima do normal. “Ela é uma gigante. Rompeu barreiras, do machismo até. Ela é uma expressão da mulher moderna que saiu de casa e foi ao encontro do seu destino. Isso é muito atual.” Ele diz ainda que ela foi uma “bandeirante’ que deixou sua marca. “Entrevistei pessoas que a conheceram em locais de onde ela saiu há 70 anos e que falam dela como se tudo tivesse ocorrido anteontem. Cora foi uma mulher que esteve à frente do seu tempo e deixou sua marca por onde passou. Isso não é um clichê; é um fato. E o filme busca expressar isso com toda a poesia da Cora”, explica. Ele insiste em seu legado: “Ela fazia realmente a diferença. Foi profunda, ativista, não tinha preconceitos. Cora transitava com desenvoltura dos becos aos salões. Essas figuras são diferentes”.

Veja o trailer





sábado, 15 de agosto de 2015

É possível sobreviver sem televisão?


Bruno Maciel diz que sim, no Brasil Post:

Como sobrevivi a 18 meses sem televisão

Muito bem, para falar a verdade. Depois que o Martin nasceu, a TV virou um caro objeto de decoração, com direito a taxa mensal de manutenção: TV a cabo, que, no nosso caso, era praticamente dinheiro jogado no lixo.

Quando Melissa e eu falamos isso para alguns amigos, percebemos que alguns nem acreditam. Devem achar que somos afetados por algum tipo de pedantismo contagioso. Fico pensando "Será que eles acham que somos metidos a intelectuais?" A verdade é que ficamos "boiando" quando o assunto é alguma série estrangeira de sucesso, ou mesmo uma novela ou o Big Brother. Não há nenhuma razão específica para isso. Não foi uma decisão forçada. Não sei bem o porquê, mas acho sem graça (quase) tudo que passa na TV.

Nem sempre foi assim. Lembro-me do tempo (parece até que foi em outra vida) em que sabia os nomes dos personagens da novela das oito, e não me irritava com a voz do apresentador dominical. Acho que fomos geneticamente programados para nos acostumar com o ambiente a nossa volta, mesmo quando ele é hostil. Já me aconteceu de chegar num hotel, depois de uma viagem a um lugar desconhecido, e ficar meio preocupado com as redondezas. Depois de um único dia, já estava "acostumado" e conseguia sair para dar uma volta. Com televisão, deve ser parecido. A gente acaba se habituando aos excessos, ao sensacionalismo, às vozes estridentes, comerciais abusivos, noticiários com histórias distorcidas e mal contadas. É comum sairmos de um ambiente qualquer, um restaurante, por exemplo, e nos percebermos gritando um com o outro... era a televisão que estava a todo volume e nem tínhamos nos dado conta de que nossa conversa acontecia aos berros.

Pare para pensar um minuto: do ponto de vista das emissoras, que são empresas que buscam gerar lucro, somos todos apenas consumidores. Tudo o que é produzido tem um objetivo: vender nossa atenção aos anunciantes. Além disso, olha que curioso, descobri que um livro infantil tem um vocabulário mais amplo do que um programa de TV (para adultos!) no horário nobre. A TV invade seu espaço e escolhe, da maneira mais conveniente ($$), o que você deve assistir. Segundo o poeta inglês T.S. Eliot, "a característica mais marcante da televisão é que ela permite milhões de pessoas rirem ao mesmo tempo e ainda se sentirem sozinhas". Verdade ou mentira?!

Acredito que nossa mudança de vida tem algo a ver com a ausência da TV em nosso cotidiano. A internet ocupou um pouco desse espaço. Ali, você escolhe o quê e, sobretudo, a fonte. Isso faz uma diferença enorme naquilo que você pensa sobre o mundo a sua volta. Mas o espaço deixado pela TV também foi ocupado por leitura e, sobretudo, muitas conversas noturnas sobre ideias e planos. Foi ocupado até pelo silêncio, de vez em quando. Acreditem, silêncio não faz mal a ninguém.

Quando era criança, assistia filmes do Bruce Lee, e saía na rua pronto para me defender de qualquer mau elemento que me olhasse torto (Não preciso dizer que nunca quebrei uma unha em briga de rua). Hoje, quando assisto a dois ou três "TED Talks", saio por aí com vontade de mudar o mundo...

E você? Sentiria falta da sua televisão em casa? O que seria diferente em você se ela não estivesse lá? Como você veria o mundo à sua volta?

Bruno largou tudo, foi morar no Uruguai como a Melissa e o Martin, e criou o Blog Vida Borbulhante. Quer ter uma vida mais plena e interessante? Passe lá para conhecer. Curta o Blog no Facebook.



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Quer ser feliz? Escreva uma frase por dia!


A dica foi publicada na Galileu:

Escrever uma frase por dia pode te deixar mais feliz

Manter um diário toma um tempo que, muitas vezes, não temos. Mas há indícios de que escrever uma frase por dia pode te deixar mais otimista sobre sua vida

LUCIANA GALASTRI

Eu já tentei manter um diário. Algumas vezes. Mas o negócio nunca deu certo por mais de algumas semanas. Seja porque eu tinha familiares enxeridos que gostavam de inspecionar meus escritos ou por pura e simples falta de tempo: afinal, manter um diário normal demanda alguns bons minutos (ou horas) de contemplação e solidão.

Mas uma dica da autora Gretchen Rubin pode te ajudar a manter um diário mais simples, registrar suas lembranças mais poderosas e ainda te deixar mais feliz: escrever uma frase por dia. Afinal, estudos mostram que lembrar de pequenos momentos cotidianos podem nos deixar mais felizes. E, claro, dessa forma quem tem os mesmos problemas que eu com a regularidade de diários pode aproveitar a melhor coisa deles sem sacrificar um tempo que não tem.

E outra coisa bacana: pesquisas mostram que temos uma tendência de escrever em diários os momentos mais felizes. Então quando você reler as suas frases, ela provavelmente trará as melhores lembranças, aumentando seu otimismo - com um esforço mínimo.

Que tal tentar? Conte pra gente as suas experiências através dos comentários ou de nossas redes sociais.

Via The Muse



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O marinheiro nipobrasileiro que sobreviveu à bomba atômica de Nagasaki

A matéria é da BBC Brasil, com vídeo incluído mais abaixo:

Brasileiro conta como escapou de bomba atômica

O brasileiro Yoshitaka Samesima, de 88 anos, presenciou o ataque nuclear americano a Nagasaki, no Japão, em 1945 – e sobreviveu.

Nascido no Brasil na década de 1920, ele teve de imigrar para o Japão aos 11 anos de idade, a pedido de seu pai, pois era o filho mais velho da família.

Quando chegou à terra de seus ancestrais, Samesima teve que se alistar na Marinha Imperial do Japão por causa da Segunda Guerra Mundial.

Com 15 anos, o brasileiro iniciou seu treinamento militar, a bordo de um navio.

Na manhã do dia 9 de agosto de 1945, estava em uma embarcação que deveria aportar em Nagasaki. Mas isso não aconteceu – a quebra de uma peça do maquinário acabou deixando o navio parado a 30 quilômetros da costa.

A segunda bomba nuclear americana – que forçaria a rendição japonesa – explodiu sobre a cidade às 11h da manhã. Àquela distância, Samesima estava a salvo. Ele viu apenas o cogumelo de fumaça formado pela explosão.

"Naquela época eu nem sabia o que era uma bomba nuclear", disse à BBC Brasil.

Cenas de terror

Ele relata ter visto cenas infernais ao desembarcar. Nagasaki fora quase totalmente destruída, e mais de 60 mil pessoas morreram instantaneamente.

"O mundo inteiro não pode usar mais a bomba. Se usar, tudo acaba", disse.

O sobrevivente participou neste domingo de uma missa em honra às vítimas de Nagasaki, no centro de São Paulo.

Atualmente, 106 sobreviventes dos ataques a Hiroshima e Nagasaki moram no Brasil.




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

TJSP anula desclassificação de candidata em concurso público por depressão


A informação é do próprio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:

ANULADA DESCLASSIFICAÇÃO EM CONCURSO POR HISTÓRICO DE DEPRESSÃO

A 3ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a anulação de ato que desclassificou candidata ao cargo de defensora pública na etapa de perícia médica em razão de histórico de depressão.

A mulher passou nas primeiras etapas, mas foi eliminada após avaliação no Departamento de Perícias Médicas do Estado de São Paulo. Inconformada, apresentou atestados e laudo do Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo que confirmaram o histórico de depressão, a posterior cura e atual aptidão para exercer a função. O juiz de primeira instância acolheu o pedido da candidata.

A Fazenda recorreu do TJSP sob o argumento de que compete exclusivamente ao Departamento de Perícias determinar a aptidão dos candidatos. Para o desembargador Amorim Cantuária, relator do recurso, a sentença foi correta. “O histórico de quadro depressivo, inclusive já superado, não pode ser considerado para efeito de inaptidão, eis que já foi tratado e não apresenta qualquer sequela ou incapacidade mental na autora”, afirmou o magistrado. “Podem ser feitas exigências ou restrições, desde que pertinentes à atividade que será prestada. Essa, contudo, não é a hipótese dos autos”, ponderou ele.

Os desembargadores Marrey Uint e Camargo Pereira participaram do julgamento e seu voto foi o mesmo do relator.



terça-feira, 11 de agosto de 2015

E se Jesus andasse de metrô?


É com essa premissa que um programa humorístico mexicano fez a esquete abaixo, gravada no metrô da Cidade do México, que mostra com bom humor a importância de se respeitar os assentos reservados às pessoas com necessidades especiais:




segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Chile enterra Manuel Contreras mas não o seu horror

Chilenos saíram à rua para festejar a morte de Contreras

A matéria (bastante detalhada) é da BBC Brasil:

Morre Manuel Contreras, pai da 'Operação Condor'

Constanza Hola Chamy

Dos 529 anos de prisão que foi condenado devido a crimes de violação de direitos humanos durante a ditadura chilena, Manuel "Mamo" Contreras cumpriu menos de 20. Ele morreu na noite de sexta-feira, aos 86 anos.

Contreras foi o rosto mais visível da repressão política no Chile. Sua missão era "extirpar e eliminar o extremismo marxista", segundo suas próprias palavras. E, para ele, não faltaram recursos para implementar um plano sistemático de violência exercida pelo Estado, que matou e desapareceu com milhares de pessoas durante o governo militar chileno.

Algo garantido, novamente segundo as palavras de Contreras, pelas "ordens que me foram dadas diretamente pelo presidente da República", Augusto Pinochet.

O modelo acabaria exportado para o resto da América Latina por meio da Operação Condor, da qual ele foi o criador, gestor e executor. Contreras também foi um colaborador próximo da agência secreta americana, a CIA, e planejou os atentados contra o ex-ministro chileno Orlando Letelier em Washington e contra o ex-general Carlos Prats, na Argentina.

A chamada Operação Condor consistiu em um esforço coordenado pelos governos militares da América Latina, entre as décadas de 1970 e 1980, para perseguir opositores políticos.

Contreras era considerado o braço direito de Augusto Pinochet e e foi o chefe da Direção de Inteligência Nacional do Chile (Dina), entre 1973 e 1977.

Os 529 anos de prisão aos quais foi condenado são apenas os ratificados pela Suprema Corte do Chile. No total, Contreras somava mais de 1 mil anos de penas.

Porque, se no Chile "não se dava um passo" sem que Pinochet soubesse, isto se devia em grande parte ao trabalho de Contreras, o ideólogo da polícia secreta do país.

"Contreras foi um dos genocidas mais representativos da ditadura militar", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Carmen Hertz, advogada e ex-diretora de Direitos Humanos do Ministério das Relações Exteriores do Chile.

Lado mais obscuro

Poucos dias antes de morrer e enquanto recebia sua última condenação, já havia uma mobilização nas redes sociais pedindo "orações" para a recuperação de Contreras.

"Ainda restam 500 anos para pagar" era o que se lia na foto que circulava com a hashtag #NoTeMuerasMamo ("Não Morra Mamo (apelido de Contreras)", em tradução livre).

Como um dos símbolos do lado mais obscuro do governo militar chileno, Contreras morreu repudiado por todos os setores do espectro político do país. Até o partido de extrema direita, UDI, lhe deu as costas.

Questionado por uma rádio chilena se o Exército devia ou não fazer as honras no funeral de Contreras, o presidente do partido, Hernán Larraín, respondeu que "alguns não querem que ele morra como general".

O governo da presidente Michelle Bachelet, que foi presa e torturada por uma patrulha de Contreras durante a ditadura militar, deu desfecho à polêmica: Contreras não era digno de honra. Nem ele e muito menos os outros violadores dos direitos humanos, segundo um decreto publicado durante o primeiro governo de Bachelet e divulgado nesta semana.

O decreto proíbe honras militares nos funerais dos que tenham sido condenados por tais tipos de crimes.

Contreras passou seus últimos dias no Hospital Militar. Com a piora de seu estado, foi transferido para Punta Peuco, uma prisão militar.

Uma prisão que, como o próprio Contreras afirmava, foi construída para abrigá-lo.

Carreira meteórica

Juan Manuel Guillermo Contreras Sepúlveda nasceu em Santiago em 1929, mas passou a maior parte de sua juventude no sul do Chile.

Em 1947, entrou na escola militar como um dos melhores alunos. Reconhecido como hábil e inteligente, teve, a partir dali, uma carreira meteórica.

Foi um dos militares chilenos "premiados" em 1967 com uma temporada na Escola das Américas, uma academia de instrução militar onde a forças americanas treinavam militares aliados da América Latina durante a Guerra Fria.

Foi chamada de "escola de ditadores" pelo congressista Joseph Kennedy 2º que, em 1994, disse que a Escola das Américas "produziu mais ditadores e assassinos que nenhuma outra na história do mundo".

Enquanto estudava no local, Contreras conheceu vários oficiais americanos com quem manteria contato mais tarde, devido à cooperação entre a CIA e a DINA.

Também conheceu vários colegas com que posteriormente retomaria o vínculo para um de seus principais projetos, a Operação Condor.

Em 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas Chilenas deram um golpe de Estado que derrubou o então presidente do país, o socialista Salvador Allende.

Contreras estava nesta época a 100 quilômetros da capital Santiago, encarregado do regimento Tejas Verdes, que posteriormente ficaria conhecido como um dos principais centros de detenção e tortura do governo militar chileno.

"(Tejas Verdes) foi um dos locais de maior crueldade e brutalidade contra os partidários do governo de Salvador Allende", disse Hertz.

"Em 1974, a Dina eliminou boa parte do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionário), em 1975 o Partido Socialista e em 1976 foi a vez do Partido Comunista", explicou a advogada.

"Contreras era, ao mesmo tempo, o senhor e o vassalo. Se reportava única e exclusivamente a Pinochet", acrescentou.

Três meses depois do golpe, a Junta de Governo designou Contreras como o encarregado de criar um organismo nacional de inteligência. Em junho de 1974, era criada oficialmente a Direção de Inteligência Nacional, a Dina.

Dina e Pinochet

Diretor da Dina, Contreras, reportava diretamente ao presidente, Pinochet.

"A cúpula da Dina era o presidente da República", disse o próprio Contreras em uma entrevista ao canal estatal chileno TVN em 2005.

Segundo um relatório da Comissão da Verdade e Reconciliação chilena, o relatório Rettig, mais de 1,5 mil pessoas morreram nas mãos da Dina sob a diração de Contreras.

Mas, apesar das múltiplas condenações, Contreras nunca reconheceu as mortes.

"Nego", disse ele à CNN Chile em 2013 ─ sua última entrevista a uma emissora de TV ─ quando questionado sobre a existência dos detidos desaparecidos.

Além disse, na ocasião, acusou as vítimas de tortura de um "bando de mentirosos".

"Contreras sempre se considerou vítima de uma grande injustiça. Nunca teve autocrítíca; os outros eram sempre os culpados", afirmou à BBC Mundo o juiz chileno Mario Carroza, que interpelou o ex-general várias vezes.

'Pai' da Operação Condor

A influência de Contreras acabaria ultrapassando a Cordilheira dos Andes.

No meio da década de 1970, a América Latina vivia o auge dos governos militares.

E junto com outros governos, como o de Ernesto Geisel no Brasil, Juan María Bordaberry no Uruguai e Hugo Banzer, na Bolívia, foi estabelecida uma rede latino-americana de coordenação de operações de repressão entre suas diferentes equipes de inteligência.

Documentos secretos descobertos no Paraguai e conhecidos como "Arquivo do Terror" apontam que a Operação Condor nasceu no dia 25 de novembro de 1975 em uma reunião secreta dos líderes de inteligência, cujo anfitrião foi o próprio Contreras.

Segundo o Relatório Hinchey, feito pelo Departamento de Estado americano em 2000, a CIA manteve entre 1974 e 1977 contato com Contreras, "pai" da Operação Condor. O mesmo relatório também estabelece a data da confirmação oficial.

"Em outubro de 1976 (...), Contreras confirmou a existência da Condor como uma rede de intercâmbio de inteligência, mas negou que teve um papel nos assassinatos extrajudiciais."

Rompimento com a CIA

Um evento em 1976 marcaria o fim da proximidade de Contreras com Pinochet e também o começo do fim da Dina: o atentado em Washington que matou Orlando Letelier.

Letelier, ministro e embaixador de Allende, morreu em um atentado com carro-bomba encomendado pela Dina.

Um dos líderes da operação em Washington foi Michael Townley, a quem o próprio Contreras diria, posteriormente, ser vinculado à CIA.

Mas a bomba colocada no carro do diplomata chileno não apenas matou Letelier e seu assistente, Ronni Moffit, como também arruinou a relação entre a agência de inteligência americana e Contreras.

Segundo o relatório Hinchey, este possivelmente foi o momento em que o papel de Contreras no assassinato de Letelier virou um problema.

Um problema tão grande que sua primeira condenação, em 1993, foi como autor intelectual do assassinato.

Contreras, por sua vez, sempre afirmou que Letelier foi assassinado pela CIA, mas este vínculo nunca foi provado.

"Não há nenhuma demonstração de que a CIA estava envolvida", disse à BBC Mundo Juan Pablo Letelier, analista político e filho de Orlando.

O que se sabe é que, depois do atentado, a relação entre os governos do Chile e Estados Unidos, mudou radicalmente.

"Para os Estados Unidos, era inaceitável que uma pessoa tenha sido morta em seu território. Sua relação com o regime militar chileno tinha sido relativamente cordial e amistosa. Mas, depois de Letelier, a relação mudou. Por passar dos limites, Pinochet perdeu muito", disse à BBC Mundo Patricio Navia, analista político da Universidade de Nova York.

Em 1977, a Dina tinha conseguido cumprir o objetivo inicial de exterminar os grupos considerados subversivos e terroristas.

No entanto, a investigação do assassinato de Letelier conseguiu provas contra dois agentes da Dina, o americano Michael Townley e o chileno Armando Fernández Larios. Naquela ano, Contreras foi obrigado a se aposentar e a Dina substituída pela Central Nacional de Inteligência (CNI).

Investigado

Logo depois da redemocratização do Chile, em 1990, Contreras virou o foco de atenção das investigações sobre violações de direitos humanos.

Ele cumpriu pena de várias formas: desde prisão domiciliar até reclusão em Punta Peuco, um centro especialmente construído para ex-militares e colaboradores do governo militar, condenados por violações de direitos humanos.

Sua primeira condenação foi em 1993, pelo assassinato de Letelier. Depois, multiplicaram-se outras por casos como a Operação Colombo e o assassinato do general Carlos Prats.

Mas Contreras não queria assumir sozinho toda a responsabilidade.

A primeira vez em que ele garantiu que Pinochet não apenas sabia, mas também dava ordens à Dina foi em 2003, no que foi considerado um marco da investigação sobre a Operação Condor.

"Como diretor-executivo da Dina, eu apenas recebia ordens do presidente da República. A Dina tinha como missão de extirpar e eliminar o extremismo marxista. Eu apenas cumpria ao pé da letra as ordens que me eram passadas diretamente pelo presidente da República, de quem eu dependia", disse.

Pinochet morreu em 2006 sem enfrentar nenhuma pena por violações dos direitos humanos. E sempre insistiu que Contreras era quem tomava todas as decisões na Dina.

Um dos episódios mais conhecidos foi a acareação realizada em 2005, onde os dois foram reunidos em público.

"Você mandava na Dina, general, que isto fique claro de uma vez!", disse Pinochet a Contreras.

"Sim, general, mas você era quem ordenava tudo e isso também tem que ficar claro", respondeu.



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