quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Na luta Malafaia x Eli Vieira quem apanha é a genética


Na controvérsia da semana, entre Silas Malafaia e Eli Vieira, que debatem a hereditariedade e o determinismo da homossexualidade, quem melhor analisa a questão (e de maneira mais isenta) é Pedro Burgos, em brilhante artigo publicado no portal OƎNE:

Malafaia “perdeu” e a ciência ganhou? Não tão rápido

“Me parece que o único motivo pelo qual o álcool é legal no Brasil, um dos motivos políticos é que simplesmente o cristianismo é dominante, e a religião dos Citas não teve esse privilégio de dominar e convencer um líder do Império Romano a adotar uma religião e forçá-la ao resto da população”. “Algumas hipóteses, de certos historiadores e arqueólogos, é sobre como a droga é tratada na própria Bíblia. Dizem que Jesus aplica um certo tipo de emplastro de ervas medicinais, pra ajudar num milagre, numa cura. É muito irônico, mas é possível, não sei qual é a probabilidade disso, que o próprio Jesus Cristo utilizou na narrativa bíblica a maconha como erva medicinal. Outra hipótese, o que também foi dito por historiadores e arqueólogos, é que é possível que todas aquelas visões e relatos de Moisés podem ter tido a influência de um cogumelo que cresce na área (risos).”

O autor da aula de hipóteses históricas é o geneticista Eli Vieira. Procurei a origem da história levantada por Eli e defendida no último Bulecast, e todas elas remetem a uma pesquisa publicada em 2003 na High Times, revista americana não muito acadêmica sobre o consumo de drogas. No seguimento da conversa sobre a Descriminalização da Maconha, o interlocutor Edward MacRae, pesquisador da UFBA e do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, arremata: “Essa teoria que você está falando pra algumas pessoas é absolutamente estapafúrdia, mas não é.”1.

Corta para uma semana depois. Hoje o geneticista Eli Vieira já é uma certa estrela da internet. Lá de Cambridge, onde faz o doutorado na prestigiosa instituição britânica, ele coleciona curtidas, menções e visualizações do vídeo assistido por quase 1 milhão de pessoas. Suas explicações científicas sobre a homossexualidade agora são elogiadas por celebridades, jornalistas e deputados. Dias depois de conversar sobre teorias de uso da maconha na Bíblia (assunto bastante delicado para os cristãos) sem citar fontes ou com estudos não muito confiáveis, Eli, graças às ferramentas da internet, agora tinha cacife e audiência para bater de frente com Silas Malafaia, o milionário e influente pastor da Assembléia de Deus Vitória em Cristo.

A discussão, que começou na desastrada entrevista de Marília Gabriela com Silas Malafaia no domingo, se concentrou em um ponto. Nela, o pastor fala: “Quem pode dizer se alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética”. Eli Vieira usa isso como fio condutor para mostrar o seu lado científico, e começa o vídeo com uma explicação (meio pedante, se me permite) diferenciando o que é “inato” e o que é predisposição genética – como se deveríamos entender tudo que um pastor fala literalmente. E diz: “Posso garantir que, sim, há uma contribuição dos genes. Isso não é passível de ser discutido.” Não é o que pensa Silas Malafaia, que levou a discussão para o Twitter:

Veja os melhores momentos aqui.

O Capítulo Inteiro do Manual de Genética do Comportamento que Eli tuita tem as tabelas que ele cita no vídeo, triunfante – e vale a leitura, por ter linguagem bem acessível para quem entende o inglês. Aprendo por ali que desde os anos 50 foram feitas dez (e não dezenas) de pesquisas importantes com gêmeos para verificar se há, como ele sugere, uma prova cabal da influência genética na definição da homossexualidade.

Os estudos trazem, de fato, com graus bastante variáveis de concordância, o mesmo achado: há uma chance consideravelmente maior de um gêmeo monozigóticos ser homossexual quando o outro é, se compararmos com os gêmeos dizigóticos (chamados “fraternos”). Mas há problemas nessas pesquisas, que o próprio estudo citado por Eli pontua. Há o problema de os participantes da maior parte dos estudos terem sido selecionados a partir de chamadas em revistas para gays e lésbicas, a possibilidade de gêmeos idênticos terem tido a mesma criação (o que dificulta o isolamento do fator ambiental), a falta de variedade das amostras, basicamente nos EUA, e a absoluta falta de evidências quando falamos de homossexuais mulheres.

A revisão dos estudos citada pelo geneticista termina exatamente com este parágrafo, que eu prefiro traduzir na íntegra:

A essa altura, poucas conclusões podem ser atingidas com certeza no que diz respeito às determinantes genéticas e ambientais para a orientação sexual. Importantes inovações de metodologia de pesquisa têm o maior potencial para aprofundar o nosso conhecimento nas origens e desenvolvimento da orientação sexual humana. Pesquisas futuras deverão tentar também integrar outras abordagens biológicas, para prover informações valiosas sobre os caminhos específicos pelos quais os genes exercem a sua influência em orientação sexual e seus correlacionários.

É bastante diferente de “isso não é passível de ser discutido” ou “A genética está dizendo que quando um gêmeo é homossexual o outro também é. E a chance é maior quanto maior é o grau de parentesco entre eles. Então como a genética não tem a ver, Malafaia?”, algumas das frases proferidas no vídeo.

Em declarações posteriores, parece que o geneticista baixou o tom, deixando claro que o ambiente era igualmente importante, e falando que de fato a principal razão de ser do vídeo, era a “causa” da promoção da igualdade das pessoas independente da orientação sexual. Agora, enquanto escrevo, estamos em um terceiro momento do imbróglio, quando começam a vir outras pessoas da própria Academia questionando a validade da argumentação. No que ele responde:



O que me leva ao real problema, na minha visão, dessa história toda.



Ontem, acompanhando o Twitter e o Facebook, pareceu que a Ciência ganhou de goleada. Foi “uma aula da razão sobre o obscurantismo”, que deveria colocar um ponto final no assunto. Era “o cara que fez fortuna com a fé de muitos”, que não acredita na evolução das espécies, sendo derrotado pelos fatos por alguém razoavelmente como a gente que fala termos bonitos como monozigóticos e desfilava tabelas que pouquíssima gente tinha visto antes mas que, hey, seems legit. Não que eu não tenha vibrado um pouco no primeiro momento. Afinal, acho que o Eli, eu e boa parte dos leitores estamos todos aqui na mesma causa: também sou contra a ideia de Silas Malafaia de achar que seria algo desejável “consertar” homossexuais, de tratar uma opção sexual como doença. Isso, sim, tem que ser combatido de alguma forma.

Mas não sei se usar a ciência como algo infalível, com uma fé não muito diferente da fé na Bíblia, como solução. Eu sou apenas um jornalista, mas, de novo, encorajaria qualquer pessoa que sabe razoavelmente inglês e tiver algum tempo sobrando para dissecar as conclusões dos estudos apresentados por Eli Vieira. Até onde eu chequei, as pesquisas apresentadas ali fazem o que boas pesquisas em um campo relativamente novo deveriam fazer: dizem o que os estudos indicam e quais os próximos passos que merecem ser atacados para um entendimento melhor do assunto. Nenhuma pesquisa fala “é o que a ciência fala, se liga aí Pastor bbk”2.

Eu até entendo que muita gente tenha se sentido incomodada com as coisas que Silas Malafaia falou no domingo[^preconceito]. Mas o problema não é só o tom da revanche, mas a confiança cega em “estudos”. Quando é conveniente para Eli Vieira, como no podcast narrado lá no início, ele cita hipóteses3. Quando Silas cita livros e outros estudos que contradizem a sua visão, que tem até mais base, isso é “charlatanice”.

Isso pode soar “anti-ciência” e não, não é o caso – mas bem o contrário. Temos que adotar uma postura, na falta de um termo melhor, cientificista, de achar que um estudo X valida qualquer ideia, e pensarmos na floresta e menos nas árvores. Veja o que aconteceu na maior parte dos últimos 10 anos no debate sobre o impacto humano no aquecimento global, especialmente nos EUA. Há basicamente um consenso sobre as causas – e certamente sobre as consequências que vemos –, mas a virulência com que muitos dos proponentes dessa tese estava impondo a noção aos “céticos” ajudou a politizar o debate, e deixou a real questão (o que vamos fazer?) em segundo plano4.

E o que vimos no caso “Malafaia x Geneticista” foi basicamente isso. Alguém levantando o cedro mágico de “artigos peer reviewed” para provar algo que ainda não está provado. Não desmereço a didática de Eli Vieira, e certamente ele escreve coisas bem interessantes, como uma crítica bem fundamentada (ainda que eu discorde em alguns pontos fundamentais) sobre o livro de Miguel Nicolelis5. Para os otimistas, o vídeo serviu para refrescar alguns conceitos de genética que eu aprendi no Ensino Médio. Mas há um risco de reduzir excessivamente a questão, como pontuou Regina Facchini socióloga do Núcleo dos Estudos de Gênero da Unicamp em seu Facebook:

Todos já ouvimos sobre estudos que procuram demonstrar que o “comportamento sexual humano” sofre infuências genéticas ou biológicas de modo mais amplo. Não há novidade nisso. Esses estudos pipocam na mídia há décadas. O novo é assumir e procurar difundir, de uma perspectiva da genética, que há demonstrações científicas dessa influência, mas também há o fato de que o comportamento humano NÃO É DETERMINADO geneticamente.

Lamento o uso que se tem feito na rede desse vídeo pra dizer que “vejam, que bom, a gente nasce assim!”. Além de simplificação absurda da questão e distorção do que o autor do vídeo diz, há uma acomodação a um olhar reducionista em relação ao “comportamento humano”, que desconecta a questão de seu norte político mais profícuo: trata-se de reconhecimento ou não dos direitos humanos (e, portanto, do status humano) de um contingente de pessoas que se identificam ou são identificadas a partir de desejos e afetos não direcionados para pessoas do “sexo oposto”.

Observando tudo isso, meu primeiro impulso é um olhar bastante pessimista sobre as possibilidades e limites da articulação entre ciência e luta política. Tendo a pensar que as pessoas, inclusive ativistas por direitos LGBT, não estão prontas ou dispostas a ver complexidade alguma e que de fato esperam que alguém aponte uma origem única e bem simples do “comportamento humano”. O que mais pode explicar que Malafaia tenha tantos ouvidos e que a difusão do vídeo de Eli Vieira tenda a aquipará-lo a um determinista de quinta categoria? Infelizmente, me parece que esse desejo de simplificação é nosso maior inimigo político e – o pior! – ele mora dentro de nós mesmos.




1. Costumo assinar embaixo das ideias de Denis Russo a favor da legalização de algumas drogas, mas os argumentos mostrados no podcast são meio malucos, com base científica bastante discutível: em um momento, o professor convidado ao programa defende que “não há dúvidas que o crack tem de ser legalizado”. ↩

2. A busca pela determinação genética da sexualidade já tem mais de 20 anos, e volta e mai anunciam “achados definitivos” que são posteriormente desprovados. Em 1993, em artigo publicado na Science, cientistas afirmaram ter descoberto o “gene gay”. O Council of Responsible Genetics tem um bom resumo disso aqui. ↩

3. Para ser justo, são hipóteses “de humanas”, que não são comprováveis como algumas das ciências biológicas. ↩

4. Quando estava na Superinteressante escrevi uma matéria sobre os céticos do aquecimento global. Naquela época, entre 2006 e 2007, havia de fato uma cruzada contra esses cientistas e alguns estudos que ajudavam a sustentar teorias céticas – é possível lê-la na íntegra aqui. Eu terminava com uma frase de Michael Crichton: “A ciência não tem a ver com consenso. Consenso é coisa de política. Os maiores cientistas da história são grandes justamente porque desafiaram o consenso”. ↩

5. Eli resenhou, em 2011, o livro Muito Além do nosso eu de maneira tão crítica que mereceu briga pública e block no Twitter. Nicolelis achou que ele não tinha credenciais para discutir aquilo. ↩






Atualização de 21 de março de 2013

Nota divulgada pela Sociedade Brasileira de Genética:

Manifesto da Sociedade Brasileira de Genética sobre bases genéticas da orientação sexual

7 de março de 2013

A Sociedade Brasileira de Genética endossa as informações fornecidas pelo biólogo Eli Vieira em resposta ao pastor e psicólogo Silas Malafaia acerca das bases genéticas da orientação sexual.

A orientação sexual humana é uma característica multifatorial, influenciada tanto pelos genes como também pelo ambiente. Há fortes evidências de que o substrato neurobiológico para a orientação sexual já está presente nos primeiros anos de vida. Não há evidência de nenhuma variável ambiental controlável capaz de modificar de maneira permanente a orientação sexual de um indivíduo. Assim, essa faceta do comportamento humano é resultado de uma interação complexa entre genes e ambiente, em que nenhum dos dois tem efeito determinante por si só. Alegar que a genética nada tem a contribuir na compreensão da origem deste comportamento é ignorar meio século de avanços na nossa área.

Entendemos, também, que os fatos acerca dessa questão são desvinculados do debate ético sobre os direitos das pessoas que manifestam orientações sexuais e identidades de gênero.

No entanto, neste momento histórico em que o físico Stephen Hawking faz campanha para que o governo britânico se retrate pelos males que causou a Alan Turing, homossexual e pai do computador, expressamos que nós, como cientistas, desejamos um mundo mais igualitário, em que as pessoas não sejam julgadas pela sua orientação sexual ou identidade de gênero, mas apenas pela firmeza de seu caráter. Um mundo assim é um mundo mais receptivo ao pensamento científico, que se constrói de forma humilde e tentativa, em vez de dogmática e impositiva.



Revisitando Eclesiastes - capítulo 5

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 4

O capítulo 5 de Eclesiastes marca uma inflexão no discurso do Pregador, no sentido de que é o primeiro capítulo onde Deus tem, digamos, um papel preponderante na sua exposição. 

Até então, a tônica estava na rotina da vida e nos fluxos e refluxos - inúteis e intermináveis - da vaidade humana. 

Como eu havia comentado antes, no capítulo 2, o Pregador apresentou – brevemente - 3 pilares onde apoiava o seu discurso: a sabedoria, a eternidade e a providência divina, o que lhe dava ainda alguma instabilidade na articulação das suas idéias; mas, para obter maior sustentação, no capítulo 5 ele introduz o quarto pilar: o temor de Deus. 

Logo no primeiro versículo (que nas versões católicas corresponde ao v. 17, o último do cap. 4), a Casa de Deus surge como que do "nada" no seu discurso, como se tudo o que houvesse escrito até então fosse vã (vaidosa) filosofia. 

Uma paráfrase possível de "Guarda o teu pé quando entres na Casa de Deus" talvez fosse: "toma consciência da importância deste passo, quando começas a falar das coisas de Deus".

Dentro do contexto de Eclesiastes, "pé" (רגל - regel ) aí pode ser entendido também como "passo", ou seja, por "chão", que pode tanto significar uma caminhada "debaixo do sol" como o Pregador vinha propondo, como uma tomada de consciência da existência "pé no chão", realista, concreta, de cada um de nós, que, num certo marco da caminhada, não encontra mais respostas às suas perguntas nem alívio para o seu cansaço e enfado. 

Há momentos, portanto, em que somente o imanente (o "ser", o "estar", o "ter") não basta, não nos satisfaz, e por isso precisamos do (e buscamos o) transcendente (o "deve ser", o "pode ser", o "deverá ser"), e esta busca - para o Pregador - somente se aperfeiçoa na Casa de Deus, diante do Todo-Poderoso. 

Neste encontro com o Eterno, inevitável para todo ser humano, para aceitá-lo ou rejeitá-lo, para honrá-lo ou desprezá-lo, para o seu bem ou seu mal, todo cuidado é pouco. 

Não podemos oferecer "sacrifício de tolos", na expressão do v. 1, sacrifícios esses "que fazem mal". 

O silêncio, a prudência, o compromisso e a reverência são qualidades indispensáveis para aproximar-se de Deus em contemplação (v. 2), como o salmista já dizia: "Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!" (Salmo 19:14). 

A tradução da Bíblia do Peregrino para o v. 2 (que nas versões católicas corresponde ao v. 1) é muito interessante: "Quando apresentares um assunto a Deus, que teus lábios não se precipitem, nem o pensamento te arraste". 

Quantas vezes os crentes têm essa experiência, de que nos apresentamos diante de Deus em oração e pensamentos errantes nos arrastam para longe de Sua presença. 

Deus requer de nós inteireza de coração, e, como o salmista diz, "sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (Salmo 51:17). 

Assim, o Pregador chama de tolo todo aquele que faz um voto e não o cumpre, melhor é não fazê-lo do que desagradar a Deus (vv. 4-6). Infelizmente, este versículo é abusado e deturpado de todas as maneiras pelos tais "pregadores" da "teologia da prosperidade".

Enquanto esses "pastores da prosperidade" se preocupam com as riquezas, o Pregador vai no caminho contrário e retorna ao tema da opressão dos pobres (no extenso e profundo v. 8 - como já havia se referido no início do capítulo 4). 

Fala do roubo e da cadeia de corrupção que dominam este mundo em lugar do direito e da justiça. 


É interessante que o Pregador faça esta distinção entre Direito e Justiça, algo que até hoje não é muito claro para quem vive nas sociedades modernas, e - pasme! - nem para quem estuda a Filosofia do Direito. 

Primeiramente, Justiça é um valor filosófico inalcançável pela sabedoria humana. Todos os grandes filósofos, desde Aristóteles, trataram de investigar e elaborar uma fórmula final e definitiva do que - para eles - significa a verdadeira Justiça, e, embora as suas muitas contribuições, até hoje este conceito permanece impenetrável. 

Nietzche, por exemplo, entendia que o ideal de Justiça tem seu fundamento na inveja humana (como o Pregador já inferira em 4:4). 

Assim, ninguém valoriza a Justiça por mera contemplação de qualidades sublimes do ser humano, mas porque não quer que ao outro seja permitido o que a ele é proibido. 

Logo, se o outro comete um crime, por exemplo, ele o denuncia porque tem inveja de que o outro possa fazer impunemente o que a ele é ilícito. 

Enfim, cada um de nós tem um ideal de Justiça, coletivo ou individual, e nem sempre ele é protegido pelo Direito, ou seja, pela Lei e pela sua aplicação pelos juízes, esta última muitas vezes casuística. 

Mesmo a Lei nem sempre é considerada justa por todos, mas por uma maioria democraticamente qualificada, como no caso das restrições do aborto ou do consumo de drogas tidas como "leves", por exemplo. 

O Pregador já percebia essa distinção tipicamente humana, mas também divina, vez que a Lei mosaica, ainda que expressasse o Direito divinamente revelado ao povo judeu, não podia conter, na sua finitude terrena, todo o esplendor eterno e infinito da Justiça de Deus.

Ainda neste compasso, Salomão, o rei, diz algo que nos soa tão contemporâneo que poderia ser usado pelo MST atualmente: "o proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo" (v. 9). 

Aparentemente, é um versículo deslocado do contexto do v. 8, mas o Pregador associa o fim da opressão ao proveito da terra por todos, e não por casualidade, a posse e o usufruto da terra sempre esteve ligada às questões de direito e justiça. 

Rousseau já dizia que "o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil"[1]. 

Roland Barthes[2] entende que a Retórica surgiu em função da reivindicação de terras entre os gregos do século V a.C., quando, depois da derrubada dos dois tiranos invasores sicilianos, Géron e Hiéron, os exilados voltaram e havia uma confusão de terras depois dos muitos confiscos. 

As questões possessórias terminaram sendo decididas em grandes assembleias públicas (a ekklesia -  Εκκλησία), em que era preciso ser eloquente para convencer os jurados da justiça do seu quinhão de terras. 

Um dos mais renomados filósofos do Direito no Brasil, Tércio Sampaio Ferraz Junior, lembra que “a palavra diké, que nomeava a deusa grega da Justiça, derivava de um vocábulo significando limites às terras de um homem. Daí uma outra conotação da expressão, ligada ao próprio, à propriedade, ao que é de cada um”[3]. 

Diké (Δίκη) era representada pela estátua de uma mulher segurando a balança na mão esquerda e a espada na direita, mas com os olhos abertos. 

A colocação da venda nos seus olhos vem com a absorção da mitologia grega pelos romanos, que criam a deusa Iustitia, que até hoje vemos em fóruns e escritórios de advocacia. 

É interessante observar, portanto, que já havia, digamos, uma "proto-formulação ocidental" de Justiça em Eclesiastes, seja o seu autor Salomão ou um judeu do século VI a. C.. 

Alguém poderia objetar que as culturas se influenciaram mutuamente, mas não houve tempo nem condições para tanto, já que a menor datação possível para Eclesiastes é anterior à consolidação da cultura grega (tal como nos foi transmitida), que se dá a partir do século V a. C. 

De qualquer forma, se nota um ideal de direito e de justiça muito semelhante em vários povos antigos, e que permanece até hoje.

Não por acaso, o Pregador encerra o capítulo 5 falando do amor ao dinheiro, "a raiz de todos os males" na visão de Paulo (1 Timóteo 6:10). 

Afinal, a propriedade de terras era o sinal mais visível das posses de alguém. Enquanto o trabalhador pobre dorme um sono tranqüilo, o rico se preocupa com a sua fartura (v. 12), transformando as riquezas no seu próprio dano (v. 13), e, se morre, o rico as deixará de herança para quem nunca trabalhou para merecê-las (v. 14). 

Assim, o Pregador retoma um tema com o qual já finalizara o capítulo 2. Afinal, por que trabalhar tanto, se nus saímos do ventre da mãe e nus voltaremos ao ventre da terra, e não poderemos levar nada conosco (v. 15)? 

Trabalhamos para o vento, então... (v. 16). Passamos por muitas dificuldades e muitos aborrecimentos para ajuntar dinheiro (v. 17), mas verdadeiramente "boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu" (v. 18). 

"A vida é curta, aproveite-a!", grita o Pregador, e as coisas que batalhamos para conseguir ajuntar, na verdade, são dons de Deus (v. 19), e é Ele, e somente Ele que nos enche o coração de alegria (v. 20).


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[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem da Desigualdade. Rio de Janeiro: Athena Editora. Trad. de Maria Lacerda de Moura, s/d, p. 124
[2] BARTHES, Roland. A Aventura Semiológica. São Paulo : Martins Fontes, 2001, trad. port. de Mario Laranjeira, p. 9
[3] FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao Estudo Do Direito. Técnica, Decisão, Dominação. São Paulo: Atlas. 2003. 4ª ed., p. 52



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 6



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 4

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 3

O capítulo 4 de Eclesiastes começa com um libelo contra a injustiça e toda forma de opressão, e com uma conclusão pessimista bem ao estilo do Pregador, que considera mais feliz quem já morreu (v. 2) e ainda mais feliz ainda quem ainda não nasceu, e portanto não viu o que se faz "debaixo do sol" (v. 3). 

Estes versículos devem ser lidos ainda na esteira do término do capítulo 3, em que, nos últimos versículos, o Pregador dá a "receita" da vida feliz, que é "alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa" (3:22). 

Por isso, o Pregador volta a falar do trabalho no v. 4, e diz que todo o progresso e todas as obras das mãos do homem e de sua inteligência provêm de um sentimento básico humano, que é a inveja. 

Esta é uma maneira bem simples de revelar algo que hoje, quase 3.000 anos depois do Pregador ter escrito Eclesiastes, é um dado comprovado pela História recente, ou seja, a competição entre pessoas, povos e nações é a força motriz do progresso e desenvolvimento econômico.

Esse fenômeno já foi devidamente observado, por exemplo, desde "A Riqueza das Nações", de Adam Smith (1776), até "A Vantagem Competitiva das Nações", de Michael Porter (1989), que são duas obras referenciais nessa questão. 

Além disso, mais estritamente no campo da filosofia, o Pregador já percebia, mais de 25 séculos antes de Nietzche, o poder da inveja nas relações humanas, algo que o filósofo austríaco somente escreveria em 1887, na sua "Genealogia da Moral". 

De fato, Nietzche e Salomão têm uma visão profundamente existencialista do mundo e a grande diferença entre ambos é que o primeiro tem limites muito bem estabelecidos, o aqui e agora, enquanto o último sempre recorre à transcendência e mantém a eternidade em perspectiva (e um Controle Maior além do nosso vão "comando das circunstâncias").

Por isso Salomão insiste tanto em dizer que "também isto é vaidade e correr atrás do vento". 

Nos versículos seguintes (5 e 6), ele contrasta dois ditados da "sabedoria" popular do seu tempo, que estão melhor traduzidos na versão da Bíblia do Peregrino:

5 É que "o néscio cruza os braços e vai-se consumindo".
6 Sim; mas "é melhor um punhado com tranqüilidade, do que dois com esforço".

Assim, até hoje temos a visão de que é tolo, preguiçoso, vagabundo, quem não trabalha duro e prefere cruzar os braços, daí o provérbio antigo dizer que ele não consome o que produz, mas se consome a si mesmo ("come a própria carne" na Almeida Revista e Atualizada). 

Obviamente, o Pregador não está falando de canibalismo, como as outras versões portuguesas podem dar a entender ao leitor mais afoito, mas Salomão está justamente contrastando com o ditado seguinte (do v. 6), em que reforça o valor da tranquilidade, do trabalho sem esforço exagerado (e inútil), algo que também recentemente vem sendo redescoberto pelos filósofos, como Domenico de Masi e seu "Ócio Criativo". 

Dentro desse espírito, o Pregador critica o homem solitário, sem família, que, no entanto, não pára de trabalhar, mesmo não tendo a quem deixar o fruto do seu suor (v. 8). 

Ele não gosta da solidão na vida e no trabalho, pois diz que "melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho" (v. 9). 

Obviamente, nem sempre é possível que dois empregados tenham um melhor salário do que quando somente um é contratado, mas o que o Pregador valoriza não é a recompensa material pelo trabalho, mas o fato de ter alguém com quem compartilhar, não só o trabalho em si, mas também o seu fruto. 

Se alguém cair e estiver só, não haverá quem o levante (v. 10), e se estiverem trabalhando ao relento, como era comum na Palestina daquela época, onde as atividades pastoris predominavam, não poderiam dormir lado a lado na noite fria do deserto (v. 11), aproveitando o calor dos seus corpos. 

Da mesma maneira, se fossem dois, eles podiam se defender melhor dos inimigos, fossem eles outros homens ou animais. Toda essa analogia, é claro, aponta para o valor da família no contexto agropastoril daquela época e daquele lugar.

Aqui o Pregador faz uma comparação com o "cordão de três dobras" (v. 12), e muitos estudiosos enxergam nessa metáfora uma referência não só ao fato de que, quando há dois unidos em Espírito, ali está um terceiro, Deus, como também um símbolo da Trindade, lembrando também que Jesus disse que "onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mateus 18:20).

O capítulo 4 finaliza com uma espécie de autocrítica do Pregador, provavelmente já idoso, mas que se compara a um "rei velho e insensato que já não se deixa admoestar", dizendo que um "jovem pobre e sábio... que saia do cárcere para reinar ou nasça pobre no reino" é melhor do que ele (vv. 13-14). 

Mesmo que todo o povo siga o jovem que ficará no lugar do rei, ele também envelheceria e o ciclo se repetiria na mesma monotonia do começo do livro (1:4-11). 

É interessante observar que, após a morte de Salomão, o seu reino seria dividido em Sul (Judá), governado por seu filho Roboão; e Norte (Israel), governado por Jeroboão (1ª Reis 11 e 12), e a gota d'água que faltava para esse divisão foi exatamente o fato de Roboão, herdeiro por direito ao trono de todo Israel, ter-se recusado a seguir o conselho dos anciãos, preferindo ouvir os seus amigos de infância. 

O próprio Salomão, digamos, envelhecera mal, impondo muitos tributos e obrigações a todo o povo, e já não se deixava admoestar, mas o mesmo fez seu filho, Roboão, levando o reino que seu pai construíra à divisão irreversível, e as 10 tribos que formaram o reino do Norte posteriormente foram apagadas do mapa e da bênção de Deus.

A tradição rabínica tem uma interpretação, relatada por John Gill, que me parece pertinente para este contraste entre o rei ancião e o jovem pobre e sábio:


Os judeus, na sua Midrash, Jarchi e outros, interpretam isto, alegoricamente, como a imaginação do bem e do mal nos homens, o princípio da graça, e a corrupção da natureza; um é o novo homem, o outro é o velho homem; o novo homem é melhor que o velho Adão: o Targum aplica isto a Abraão e Ninrode; aquele é o jovem pobre e sábio, que temeu a Deus, e o adorou desde cedo; o último é o rei velho e tolo, que era um idólatra, e se recusava a ser advertido por sua idolatria.


Daí, penso eu, podemos fazer uma analogia com os ensinos de Paulo sobre a nova criatura (2 Coríntios 5:17, Gálatas 6:15) e o homem velho (Romanos 6:6, Efésios 4:22, Colossenses 3:9), o que remete também à pergunta de Nicodemos a Jesus: "Como pode um homem nascer, sendo velho?" (João 3:4). 

Este, digamos, despojamento da velha criatura, e sua substituição pelo novo homem, envolve o risco, também, de chegarmos a um ponto em que pensamos que já sabemos tudo, que não precisamos mais ser ensinados nem admoestados. 

Talvez por isso mesmo, na carta à igreja de Éfeso, Jesus lhes tenha dito que haviam deixado o primeiro amor (Apocalipse 2:1-7).




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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 3

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 2

O capítulo 3 de Eclesiastes começa com os "tempos" de Salomão, "tudo tem o seu tempo determinado" (v. 1), numa sucessão de estações, fases, épocas e situações cotidianas, corriqueiras e comuns a todos os seres humanos, que ocorrem a todos, sejam elas negativas ou positivas, como o "tempo de chorar e tempo de rir" (v. 4), que são episódios efêmeros, ou seja, que apesar de afetarem a todos indistintamente, eles passam, o que Salomão aproveita para contrastar com a "eternidade no coração do homem" do v. 11 (no estudo do capítulo 2, já adiantamos um pouco da análise de Eclesiastes 3:11).


Entendemos que essa relação de "tempo para tudo" dos vv. 1-8 se relaciona, necessariamente, com (mais uma vez) a questão do trabalho dos vv. 9-10. 

De novo, o Pregador pergunta: "Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga?" (v. 9, repetindo 1:3 e 2:24). 

O trabalho é visto como algo que Deus impôs aos homens (v. 10), para que se cansassem e se preocupassem, como conseqüência da queda de Adão. Talvez, se não houvesse o pecado original, estaríamos todos ainda nos deliciando com o dolce far niente do Éden. 

Viveríamos apenas para a adorar a Deus e desfrutar da Sua Presença. E é nesse contexto que me parece que podemos ler a "eternidade no coração do homem", "do princípio até ao fim" (v. 11) como um lembrete de que ainda existe uma conexão entre a dureza da vida que levamos "debaixo do sol" (v. 16) e a eternidade. 

Esta conexão é, de novo, a providência divina, que permite ao "homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho" (v. 13). A vida, o trabalho, sem Deus, é um mero "tanto faz". 

Para quem crê em Deus há sempre a esperança de que esta monotonia seja invadida pelo Seu renovo a cada manhã (Lamentações 3:22-23). 

Aqui eu ouso interpretar o v. 15 desta maneira, como algo que Deus busca no passado não para condenar o homem, mas para ajudá-lo, libertá-lo, e aliviar as dores do seu presente com a promessa de um futuro. 

O v. 15 é fruto de várias controvérsias quanto à melhor tradução de sua parte final, a de que "Deus fará renovar-se o que se passou" (Almeida Revista e Atualizada). 

Na Bíblia Anotada por Charles C. Ryrie (da Mundo Cristão), que adota esta versão, ele comenta que "o sentido deste versículo é este: Deus ordenou o ciclo contínuo de acontecimentos da vida; o mesmo pensamento encontra-se no versículo 1". 

Outras versões portuguesas assim a traduzem (com as respectivas explicações, quando houver):

- "Deus pede conta do que passou" (Almeida Revista e Corrigida)

- "Deus procura o que desapareceu" (Bíblia de Jerusalém, que explica: "lit.: "o que é caçado, o que fugiu", isto é, o passado)

- "Deus vai no encalço daquilo que foge" (Bíblia do Peregrino, que explica: "A visão cíclica parece responder a essa objeção: como o sol, o vento e a água têm seus ciclos (1,3-6), assim os acontecimentos retornam perpetuamente. Isso parece difícil ao homem, mas Deus "vai no encalço daquilo que foge" para fazê-lo voltar)

- "Deus investigará o passado" (NVI)

- "Deus vai em busca do que passou" (Tradução Ecumênica)

A razão para esta multiplicidade de traduções é que as duas palavras hebraicas (בּקשׁ - bâqash – e רדף - râdaph) permitem essas diferentes interpretações. 

Por bâqash, originalmente, se entende um processo de busca interior mediante oração e adoração, e por râdaph se pode entender "perseguir algo ou alguém" ou "fazer fugir". 

Há outras variantes que também podem ser aplicadas nessa tradução. Para mim, a versão Almeida Revista e Atualizada é a que melhor explica o contexto todo, de um permanente e alternado ciclo renovador das situações da vida. 

Nós vemos apenas uma ínfima parte, enquanto Deus vê o todo. "Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido" (1 Coríntios 13:12). 

Assim, os tempos humanos são uma pálida perturbação da eternidade. 

Nem tudo é dor, há também alívio e alegria; nem tudo é morte, há também vida, e Deus está no comando de tudo isso. 

Há tempo, inclusive, para a investigação e o julgamento dos pecados do homem, e aqui o Pregador começa a compará-lo com os animais (vv. 18-21). 


Comentando Eclesiastes 3:9-15, Martinho Lutero faz uma interessante correlação com a oração do Pai-Nosso:
Tudo está exclusivamente nas mãos de Deus, o qual não quer que nós, no que tange ao futuro, tenhamos um mínimo de poder ou direito, nem tenhamos por um momento sequer certeza e segurança a esse respeito.
Deus condenou o atrevimento em relação ao futuro e o desprezo por ele em diversas ocasiões, como em Pv 27.1: "Não te glories do dia de amanhã, porque não sabemos o que pode acontecer ainda hoje".
Por isso também não nos mandou pedir mais no Pai-Nosso do que nos seja dado o pão de cada dia hoje. Isso para que vivamos e ajamos com temor e saibamos que, em momento algum, podemos estar seguros quer da vida, quer de nossos bens, mas esperemos e tomemos tudo de suas mãos, como procede uma fé genuína.
Salomão dedicou quase todo o seu livro de Eclesiastes a tal ensinamento. Mostra o quanto é vão todo o intento e a audácia das pessoas, e que não é nada mais do que fadiga e infelicidade, quando Deus não é incluído, para que o temamos e nos demos por satisfeitos com o presente e nele nos alegremos. Pois Deus é inimigo do atrevimento seguro de si e incrédulo, que dele se esquece.
(Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero, pág. 622)

Por fim, neste trecho há também uma grande controvérsia entre aqueles que defendem a imortalidade da alma do crente e do ímpio (a imensa maioria das correntes teológicas), e os que defendem a aniquilação das almas dos ímpios e o sono da alma do crente enquanto aguarda o juízo final (como defendem os adventistas). 

O problema é a palavra hebraica רוּח (rûach), que pode ser traduzida por fôlego e também por alma ou espírito. Para quem quiser se aprofundar no tema, eu recomendo uma análise bastante interessante dessas duas posições neste capítulo de Eclesiastes, que está no portal e-cristianismo:







Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 4




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 2

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 1

Depois de passar o capítulo 1 "desconstruindo" algumas verdades que as pessoas têm por inquestionáveis na vida, no início do capítulo 2 de Eclesiastes, o Pregador passa à construção de alguns pilares do seu ensino. 

Primeiro, ele começa a experimentar algumas hipóteses para ver se alguma delas se encaixa no bem supremo da vida, que deve ser buscado e alcançado pelos mortais. 

A primeira hipótese que ele, digamos, "testa", é a do hedonismo, antes mesmo que o hedonismo viesse a ser especulado pelos filósofos pós-socráticos na Grécia na transição do século V para o IV antes de Cristo. 

O hedonismo, muito simplificadamente, é uma corrente filosófica que defende a busca do prazer imediato, aqui e agora, o prazer pelo prazer, como a suprema felicidade. 

Logo no v. 1, o Pregador testa esta hipótese, mas também considera o hedonismo como vaidade, pois, para ele, o riso é loucura (ou tolice) e a alegria de nada serve (v. 2). 

O Pregador cogita, então, de se entregar ao vinho e à loucura, mas preservando a sabedoria (v. 3). Isto não significa propriamente embriagar-se, mas permitir algum tipo de privação mínima dos sentidos, como aquele que toma algumas taças de vinho, e começa a rir e falar imoderadamente, mas também nisso o Pregador não encontrou resposta aos seus anseios. 

Desde já, entretanto, apresenta a sabedoria como uma espécie de moderadora, controladora, desta busca. E, a seguir, testa as riquezas, a ostentação, o consumismo, o "ter" em vez de "ser", como uma possível razão para a felicidade (vv. 4-11), mas tudo era também "vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol" (v. 11). 

O estranho é que muitos pregadores atuais encontram somente no "ter" sinais distintivos de um verdadeiro cristão. Certamente, não leem ou não vivem nem pregam Eclesiastes.

Todas essas coisas eram vistas àquela época, e continuam sendo vistas assim até hoje, como aquilo que uma palavra só consegue definir: o "sucesso". 


O sucesso sempre foi um critério mundano para se definir, à primeira vista, se uma pessoa é ou não é feliz. O sucesso desperta a inveja, mas este é um tema que guardaremos para outra oportunidade. Por ora basta constatar que, como a própria experiência atual nos mostra, o sucesso não é duradouro, e muitas vezes faz mal. 

O exemplo de artistas que não conseguiram lidar com o sucesso, e muitas vezes sucumbiram a ele, está estampado todos os dias nos jornais e na televisão. 

Quando ninguém os conhece, eles querem atingir o sucesso a todo custo, a qualquer preço, e quando finalmente o conseguem, vêem que não lhes basta, há algo mais do que o sucesso a ser buscado, este sucesso que não consegue preencher o vazio que eles têm. 

O mesmo acontece com aquele que busca o prazer pelo prazer. Os hedonistas sabem que mesmo o "máximo prazer" nunca é suficiente, e é sempre necessário algo mais, daí a razão de muitos se entregarem à luxúria, às drogas, à violência, e se perderem pelo caminho. 

O paradoxo hedonista é que, quanto mais se busca o prazer, menos ele é encontrado (ou, pelo menos, mais ele foge). 

Tudo isto é, como o Pregador diz, "correr atrás do vento", e como Jesus também disse, "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai" (João 3:8).

A partir do v. 12, o Pregador passa a considerar a sabedoria, que já lhe havia servido como moderadora da embriaguez e da loucura (v. 3). Aqui, o Pregador já vê na sabedoria algo melhor do que a estultícia, já que "a luz traz mais proveito do que as trevas" (v. 13). 


Entretanto, tanto o sábio como o estulto terminam do mesmo jeito (vv. 14-15). Logo, por que buscar a sabedoria? Não seria isto também vaidade? 

Dentro da sua dialética toda peculiar, o Pregador primeiro vê alguma vantagem na sabedoria, mas depois volta atrás e se pergunta se ela é realmente tão vantajosa assim e, tanto a memória do sábio como a do estulto não durará para sempre, pois passado algum tempo, "tudo cai no esquecimento" (inclusive o momentâneo sucesso pelo qual alguns querem ser lembrados após sua partida deste mundo). 

Pela primeira vez, o Pregador fala da morte no seu discurso (v. 16). Aqui, a meu ver, ele passa a delinear uma resposta às suas questões, e começa a erguer dois pilares para sustentar seu pensamento e suas conclusões que só apresentará no final do livro. 

Um desses pilares, bastante claro, é a sabedoria. O outro é a eternidade. Ele vem falando da inutilidade do sucesso, e no v. 16 mostra que a tendência natural do mundo é que tudo e todos sejam esquecidos. 

Num paralelo neotestamentário, em Filipenses 3:4-6 o apóstolo Paulo lista uma série de qualidades pelas quais ele poderia ser considerado um homem de sucesso para o seu tempo e dentro da sua comunidade.

Entretanto, nos vv. 7 a 11, ele considera todos esses atributos humanamente valiosos como "perda", "refugo" ("estrume" nas versões mais antigas) quando os compara à eternidade que Cristo lhe garante.

A morte nos nivela a todos, indistintamente. É necessário, então, já adiantar um pouco nosso estudo e ligar este versículo com outro do capítulo 3, aquele que diz que Deus "pôs a eternidade no coração do homem" (3:11). 

Por um certo tempo da minha vida, por uma série de razões profissionais e sociais, eu convivi com muitas pessoas famosas, daquelas que integram o glamoroso mundo das celebridades. Pessoas de sucesso, portanto, que o atingiram segundo padrões humanos nem sempre muito claros.

Naquela época, eu comecei a pensar sobre o que significava a fama, afinal. O que é esta tal de fama, umbilicalmente ligada ao "sucesso", que tanta gente busca, mas nunca se sacia? 

Foi aí que eu percebi que todos aqueles que buscam a fama, no fundo, buscam uma maneira de se eternizar. 

Diante da mortalidade que nos limita a todos (e cuja constatação a tantos sufoca), e diante também deste desejo de eternidade que Deus colocou no coração do homem, a fama é um recurso que muitos buscam para tentar driblar a mortalidade e inscrever-se na eternidade. 

É verdade que muitos conseguem ser recordados e cultuados por algum tempo, mas a sua lembrança vai gradualmente se desfazendo e desaparecendo da memória coletiva. 

Quantas vezes ouvimos que "o brasileiro tem memória curta", mas será só o brasileiro que se esquece fácil e rapidamente? 

Penso que a verdade está com Davi, que teve coragem de dizer: "Sou esquecido como um morto de quem não há memória; sou como um vaso quebrado" (Salmo 31:12). O Pregador retornará a este tema em Eclesiastes 9:5, quando dirá que a memória dos mortos "jaz no esquecimento".

A partir do v. 18, o Pregador começa a finalizar o capítulo 2 de Eclesiastes falando sobre o trabalho e a herança. De que vale, afinal, trabalhar tanto? Quem se dedica ao trabalho a ponto de se tornar um "workaholic" é sábio ou estulto? 

De que adianta trabalhar tanto, morrer de repente e deixar tudo para quem não derramou uma gota de suor para merecer a herança? (vv. 18-21). 

Como Jesus disse numa de suas parábolas, sobre o homem rico que queria construir mais celeiros: "Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (Lucas 12:20). 

De que adianta levar trabalho do escritório à noite para casa (v. 23)? Ou seja, o "debaixo do sol" de que tanto fala o Pregador, corre o risco de se tornar "debaixo da lua" (v. 22). 

Deve o homem, então, simplesmente parar de trabalhar e esperar o tempo passar? "Não", é a resposta do Pregador. 

O homem deve trabalhar e conseguir o suficiente para "comer, beber e fazer com que a sua alma goze o bem do seu trabalho", sempre reconhecendo que é a mão de Deus que lhe proporciona estas alegrias simples, esses pequenos deleites da vida (v. 24). 

Aqui, o Pregador constrói um terceiro pilar para sustentar suas conclusões: a providência divina. 

É Deus, afinal, quem "dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada", ressalvando que "ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus" (v. 26). 

O trabalho não é nenhum mal em si, mas é o seu uso deturpado, ou a sua valorização excessiva, que o torna uma pedra de tropeço (e muitas vezes, de morte) para o ser humano.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 3



domingo, 3 de fevereiro de 2013

Baile de aniversário do blog



Um balé de sombras - do grupo alemão Pilobolus - para comemorar os 5 anos do blog:




Stalingrado, 70 anos depois


Sim, é verdade, a cidade não se chama mais Stalingrado. Depois do processo revisionista liderado por Nikita Krushchev, a partir de 1956, que denunciou os crimes e o culto à personalidade de Stalin, a cidade passou a se chamar Volvogrado, mas ontem, 2 de fevereiro de 2013, por um dia ela voltou a se chamar Stalingrado.

Isto se deu por uma razão mais que especial: exatos 70 anos atrás, os nazistas se rendiam naquela que talvez seja a mais sangrenta batalha da história da humanidade, que deixou cerca de 2 milhões de mortos e outros tantos milhões de feridos e desalojados.

O ataque de Hitler à União Soviética, na Operação Barbarossa, foi um tremendo sucesso até chegar a Stalingrado, último baluarte nas margens do rio Volga (que dá o atual nome à cidade). Ultrapassado esse obstáculo, os nazistas se apoderariam dos campos de óleo do Cáucaso sem maiores problemas e os soviéticos estariam inapelavelmente derrotados.

A Blitzkrieg dos alemães avançou à perfeição durante o verão europeu mas começou a empalidecer diante de Stalingrado. Em mais uma de suas muitas atitudes controversas, Stalin obrigou a população civil a ficar na cidade sitiada, sob a justificativa de que isto daria moral às tropas soviéticas para lutar em socorro de seus compatriotas.

O rio Volga se transformou então numa mistura macabra de água, sangue e óleo. 90% da cidade foi conquistada pelos nazistas, a ponto de Hitler ter anunciado - em setembro de 1943 - a conquista de Stalingrado, não contando que os 10% restantes fossem capazes de lhe oferecer qualquer oposição.

Este episódio foi explorado na produção hollywoodiana "Círculo de Fogo" ("Enemy at the Gates" de 2001), em que Jude Law interpreta o franco-atirador soviético Vasily Zaitsev:


O verdadeiro Vasily Zaitsev

O confronto de egos se deu em Stalingrado, que nem era tão importante assim do ponto de vista estratégico. Era questão de honra para Hitler subjugar a cidade que levava o nome de Stalin, enquanto para este era fundamental que o seu nome fosse preservado da afronta alemã.

Talvez tenha sido exatamente essa concentração de tropas e de egos em Stalingrado que deu à Segunda Guerra Mundial um desfecho diferente do que se anunciava até então.

Enquanto o temível (para os nazistas) General Inverno se aproximava, a União Soviética recebia todo tipo de ajuda (impensável até alguns anos antes) do seu (até então) maior inimigo geopolítico, os Estados Unidos, que, para justificar à população americana o envio de todo suporte possível e impossível à URSS, também recorreram a Hollywood para produzir o filme "Missão em Moscou" ("Mission to Moscow" de 1943).

Perceba a crítica que se faz do isolacionismo e do "individualismo cristão" que imperava à época nos Estados Unidos:


Imaginando que conquistariam Stalingrado antes do inverno, os alemães sequer tinham roupas adequadas para o rigoroso inverno soviético que já havia derrotado as tropas de Napoleão 130 anos antes.

Enquanto o que restava da cidade resistia bravamente, as forças soviéticas comandadas pelo general Vassili Chuikov se reagrupavam, formando o movimento em pinça que começaria, em 19 de novembro de 1942, a estrangular os inimigos nazistas e seus aliados romenos, húngaros e italianos que os acompanhavam na invasão.

Apesar de ter sido promovido a marechal do Reich no dia anterior, o comandante alemão, general Friedrich Paulus, não quis lutar até o último homem nem se suicidar, como Hitler havia deixado implícito na sua promoção, e preferiu se render no dia 2 de fevereiro de 1943, mal cabendo em sua farda, consumido que estava pela diarreia que o cólera lhe causara.


O debilitado general Friedrich von Paulus se rende


Soldado russo faz alemão prisioneiro de guerra
Rendição nazista em Stalingrado. Dos 91.000 prisioneiros de guerra,
só 5.000 retornariam para a Alemanha. Os últimos voltaram em 1955.

Terminava assim um dos episódios mais sangrentos e heroicos que o mundo já viu e começava a grande virada na história da Segunda Guerra Mundial. Foi a primeira de uma sequência inevitável de derrotas do - até então - aparentemente invencível exército nazista.

É provável que não tenha havido no século XX nenhum outro evento particular em que as suas contradições ficassem mais expostas: entre elas a alegada superioridade de um povo (ou uma "raça") sobre outros e o líder que extermina segmentos da sua própria população, mas vence uma ameaça com um potencial de destruição inigualável na história.

Valeu a pena o sacrifício de Stalingrado? Quem é que se arrisca a responder essa questão de forma cabal? 

Independentemente do que se pense dos líderes que se digladiaram em Stalingrado, sobretudo daquele que então a "batizava", se Hitler foi vencido e o mundo respira hoje um pouco mais livre, boa parte desse crédito deve ser dado aos milhões de civis e militares russos (e de outras repúblicas então soviéticas) que lutaram e morreram na atual Volvogrado.

Por isso mesmo, com todos os méritos, a cidade ontem celebrou os 70 anos da sua glória que afeta - positivamente - a todos nós.


Nada melhor do que encerrar nossa singela homenagem a Stalingrado com Carlos Drummond de Andrade:

"O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam"

Carta a Stalingrado




sábado, 2 de fevereiro de 2013

A melhor recepção de aeroporto do mundo

OK, já faz mais de 2 anos que essa promoção publicitária invadiu o aeroporto de Heathrow, em Londres, mas bem que a gente podia sonhar um pouco em receber as boas vindas dessa maneira inusitada, né não?




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dono abandona cachorro "gay"

Pedimos desculpas antecipadas pelo título bizarro desta matéria, mas é que tem gente tão estúpida no mundo que consegue transferir seus preconceitos, medos e fantasmas para os animais.

Isso é - infelizmente - fácil de observar naqueles sujeitos que maltratam e espancam os animais dos quais deveriam cuidar, mas há sempre quem exagere nas suas fobias.

Parece ser este o caso de um cidadão do Tennessee, nos Estados Unidos, que viu - horrorizado - seu cachorro macho (o pobrezinho aí da foto) tentando cobrir outro macho da mesma espécie.

Supondo que seu pitbull era Lassie, o sujeito não teve dúvida e o abandonou à própria sorte. Foi recolhido pela carrocinha da cidade (não está especificado o local) e, devido à falta de espaço, seria sacrificado no dia seguinte.

Foi aí que uma alma caridosa se condoeu da situação do cão e a publicou no facebook, pedindo adoção. Imediatamente, houve milhares de compartilhamentos e interessados no resgate, e o pitbull foi adotado (e salvo) afinal.

Qualquer pessoa que crie cachorros com o mínimo de seriedade, sabe que quando há dois ou mais machos no mesmo recinto, eles tratarão de estabelecer quem é que manda no território, ou seja, quem é o famoso "macho-alfa".

Para tanto, antes de chegarem às vias instintivas - e indesejáveis - da agressividade animal, os cães machos estabelecem, digamos, "jogos de autoridade" entre si até definir quem é o manda-chuva.

Nessas atividades - nem tão lúdicas assim - um dos recursos é um macho "cobrir" o outro. Ao fazer isso, ele está tentando impor a sua autoridade sobre o outro macho. Não significa que ele quer ser chamado de Lassie a partir de então.

Logo, só um imbecil vai abandonar o seu cão porque ele é "gay". Sorte dele que ainda não existe carrocinha para recolher esse tipo de gente das ruas.



Revisitando Eclesiastes - capítulo 1

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - uma introdução

CAPÍTULO 1

Depois de se apresentar como "rei de Jerusalém", o Pregador inicia o livro de Eclesiastes com uma afirmação até certo ponto surpreendente: "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade". 

Ainda faz questão de reforçar a expressão "vaidade de vaidades", duplicando-a, como que dizendo que o próprio texto que ele estava começando a escrever já poderia, por assim dizer, terminar por ali mesmo, pois também era vaidade. 

Pelo menos é essa a impressão que o leitor mais apressado tem, e, afinal, se tudo é vaidade, por que continuar a ler o livro? A resposta a esta pergunta é que vai ser sorrateiramente escondida, murmurada, sussurrada pelo Pregador até o final do livro, mas desde o início ele prende a atenção do leitor mais atento por inverter a ordem das coisas num livro de sabedoria (ou filosofia). 

O sábio e o filósofo geralmente apresentam uma série de premissas e vão discutindo-as até chegar a uma conclusão final, com o perdão da redundância. É que Eclesiastes começa com uma "conclusão inicial", ou pelo menos parece começar com ela. "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade". Mas será que tudo é vaidade mesmo? 

Afinal, esta é uma ideia que o próprio Paulo retoma em de Romanos (8:20 – "Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou), e que o apóstolo também insiste em Efésios (4:17 – "não andeis mais como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente"). 

A palavra "vaidade" é repetida 37 vezes nos 12 capítulos de Eclesiastes, e "vaidade" é a tradução da palavra hebraica הבל - hebel - que significa uma brisa suave, um vento leve, algo temporário, passageiro e sem importância. 

O curioso é que "hebel" também pode ser um nome próprio, talvez não por acaso o de Abel, que, de acordo com o relato bíblico, foi a vítima do primeiro homicídio da humanidade, cuja vida foi ceifada na sua mocidade, e viveu muito pouco em relação aos seus parentes. Foi mais um que deu razão à advertência de Tiago: "Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa" (Tiago 4:14 – NVI).

Logo de início, o Pregador se apresenta, portanto, como alguém desanimado, conformado com o nada, e sem nenhuma esperança. Parece um contra-senso na Bíblia, mas o Pregador não está sozinho. Jonas talvez tenha sido o profeta mais desanimado que houve. A Jeremias coube a terrível frustração de ver sua pregação ignorada e o seu povo morto ou levado escravo, Jerusalém e o Templo destruídos. Só lhe restou lamentar-se. Asafe desfiou sua inveja dos ímpios prósperos no Salmo 73. 

A Bíblia está longe de ser um livro mitológico, de comportamentos impávidos e assépticos. Ela é composta de gente como a gente, com todas as nossas dúvidas e os nossos defeitos, mas também as nossas qualidades. 

Afinal, para o cristianismo ser humano é algo tão bom que o próprio Deus quis passar por esta experiência. E Eclesiastes é um livro sobre a vida, sobre o mundo. O Pregador era existencialista quando o existencialismo nem existia, e isso nem se cogitava. 

Ele usa a expressão "debaixo do sol" 30 vezes no seu livro. Só no capítulo 1 ele a repete 3 vezes. "Debaixo do sol" é o equivalente em Eclesiastes ao "mundo" dos Evangelhos, principalmente o de João: "Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá" (14:27). "Não se perturbem os seus corações, nem tenham medo. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo" (16:33), "Eles não são do mundo, como eu também não sou" (17:16). 

Há mais semelhanças com a pregação de Jesus do que parece à primeira vista. Afinal, logo no 3º versículo, o Pregador pergunta: "Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?", algo que Jesus também perguntará, associando ainda "vida" e "mundo": "Pois que aproveita ao homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? ou que dará o homem em troca da sua vida?" (Mateus 16:26). 

A vida, o mundo, o tudo e o nada, estes são os temas de Eclesiastes.

Assim, o Pregador começa Eclesiastes levando ao extremo os seus argumentos, como se fosse um ateu em relação à religião, pelo menos no sentido que o ateísmo poderia ter naquele contexto judaico fortemente religioso. 

Afinal, para que serviam todos aqueles rituais? Por que a vida do mundo judaico era centrada na religião se a rotina era a regra do mundo? Tudo era uma eterna mesmice... o sol se levanta, o sol se põe, o vento vai, o vento vem, num tédio só. Os rios correm para o mar, mas o mar não se enche, a água evapora e retorna como chuva. Tudo num ciclo monótono sem fim. 

Outra tradução possível para "Todas as coisas são canseiras tais que ninguém as pode exprimir" (v. 8) é "Todas as palavras são frágeis", ou seja, até o discurso é vão, o Pregador estava cansado de tanto nhem-nhem-nhem. 

Talvez a idéia pareça absurda para a Bíblia, mas é esta mesma a intenção do Pregador: chocar. Ele força a sua argumentação até o limite do suportável. Faz as vezes de "advogado do diabo" para atacar a Deus e, para isso, não desperdiça argumentos. 

Falando da mesmice da vida, ele, pelo menos por alguns instantes, consegue fazer com que o seu ouvinte esqueça que "as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; novas são a cada manhã, grande é a tua fidelidade" (Lamentações 3:22-23). 

O que ele está usando, no fundo, é um recurso da apologética. Colocando-se no lugar de inimigo das coisas de Deus, ele é propositalmente provocador, chegando às fronteiras da blasfêmia, para depois mostrar o que significa, na verdade, um mundo sem Deus. 

Primeiro, o Pregador encurrala os seus ouvintes nos limites do seu pequeno mundo, debaixo do sol, de tal maneira que eles não parem para olhar nem pensar além do que lhes é próximo e palpável. 

Salvo engano, atribui-se a Churchill o conselho de que, ao entrar numa igreja o homem deveria tirar o chapéu, mas não a cabeça. 

Depois desse choque inicial, os ouvintes do Pregador estão preparados para atender um convite que lhes foi feito e eles ainda não perceberam: pensem, pensem, pensem...

Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 2

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